Repartição Pública

ATENDENDO A PEDIDOS, matando saudades e para nosso gáudio, o obstinado prof. Igor Andrade volta à carga, mais afiado do que nunca, com uma nova e brilhante crônica escrita (nas regras ortográficas antigas, pois claro) exclusivamente para os leitores d'O Fiel Católico. Segue:




ESTOU EM DÍVIDA com a Dona Maria da quitanda, chego até a passar de banda para não ser visto. Vou andando, e mais à frente bato de frente com o Sêo Manuel do botequim, que me cobra uma pinga e um torresmo que está no prego há mais de um mês, sem contar que também estou devendo o aluguel do Português. Sendo eu um qualquer, é duro de me virar, então com toda a fé que um homem pode ter, apelei ao supremo provedor de ricos e pobres: o Estado.

Desde que o germe do Estado Moderno fora plantado por reis franceses, os homens recorrem a ele para suprir toda sorte de dificuldades que ele, Estado, cria. Quando o assunto é desemprego, dá-se o mesmo.

Fui, então, numa repartição da prefeitura da cidade em que vivo, cujo trabalho consiste em prestar serviços de RH, e vi o que se vê na maior parte dos prédios públicos: para cada funcionário trabalhando, cinco olham o tempo passar, numa espécie de disputa para ver quem fica mais tempo vegetando. Enquanto isso o desempregado sofre por não ter outra opção.

Muitos outros problemas do Estado podem ser elencados, mas todos se resumem a isto: ele cria problemas para o povo e logo em seguida se prontifica a solucioná-los, da maneira mais lenta e burocrática possível. Num dito popular, "cria dificuldade para vender facilidade", mais ou menos como o senhor de escravos que permite que o cativo junte um dinheiro para poder, após longos anos de servidão, comprar a própria alforria.

"Se não consegue destruí-lo, junte-se a ele", disse um bispo. E então converteram-se muitas igrejas em repartições públicas – existem, mas não funcionam.

Assim como um desempregado que vai à prefeitura tentar resolver seu problema (criado, em grande parte, pelo desgoverno), vai o fiel à igreja para sanar seus problemas espirituais (cuja responsabilidade é dos membros do clero). Mas que encontra este fiel? Um quadro semelhante ao pintado pelo Estado: para cada padre que reza Missa e confessa o povo, cinqüenta estão olhando o tempo passar – não numa meditação ou contemplação do Eterno, mas matutando em como corromper a espiritualidade católica, ou o que sobrou dela.

Contudo, há uma diferença importante. Numa repartição pública há os funcionários que trabalham e os que repetem a máxima varguista: "Traga-me duas fotos três por quatro e preencha estes formulários que eu vou ver o que posso fazer por você"[1], e há aqueles que trabalham, sendo que os primeiros não incomodam os segundos. Enquanto que nas igrejas, ai do padre que reze conforme a Tradição! "Retrógrado!", dizem dele, "sem caridade!"; "onde está o espírito pastoral?!"...

Esqueceram há muito que o povo de Deus é um povo que sofre, é um povo que carece de vida espiritual autêntica. Ao invés de guiar o rebanho para o Céu, levando-lhe Cristo, os prelados optaram pela politicagem e pela macumba. Não rezam mais a Cristo, mas a falsos deuses. Nem o próprio Tupã ficaria contente com tamanha hipocrisia!

A cada dia se aproxima o sínodo da Amazônia e o Dia do Juízo, mas quem se salvará serão os que se mantiverem fiéis aos ensinamentos do Senhor e os que trabalharem como trabalha o caipira, que se levanta antes do amanhecer e labora até depois do pôr-do-sol para tratar de seu rebanho. Em favor dos pastores que imitam o caipira e cuidam de seu povo, São Miguel depositará na Balança cada alma santificada por este trabalho. Mas quem olhará pelo "servo mal e infiel"?

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1. com a instalação do Governo Provisório de Getúlio Vargas, após a chamada 'Revolução de 1930', os funcionários receberam ordens para jamais dizer ''não'' ao contribuinte. Ao invés de dizerem 'não', adiavam os problemas com uma frase que, de tão repetida, ficou popular: 'Por gentileza, cavalheiro, traga-me uma estampilha e um retratinho três por quatro que eu vou ver o que posso fazer pelo senhor'.

2 comentários:

  1. Bela crônica.

    Salve, Maria Santíssima!

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  2. A paz de Jesus Cristo. Belíssima crônica! Este Sínodo me preocupa e muito. Sim, a Amazônia é misteriosa, bela, perigosa, muito grande e até hoje pouco se a conhece de verdade, mas fazer dela um ícone da "Nova Era", com "mãe Terra" e outras coisas, não dá. Nem as mudanças pastorais e relacionada ao Clero que alguns pretendem promover. Pedro e Paulo seguem cuidando da Igreja e Jesus Cristo também, já que convocou Pedro para cuidar da Sua Igreja. O mal não triunfará! Salve Maria! Paz e Bem.

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