Hipócrita, coração miserável – reflexões sobre a morte de Paulo Gustavo, a morte de Bruno Covas, as infidelidades dos nossos padres e outras


Prof. Igor Andrade – Frat. Laical S. Próspero


AO CONTRÁRIO do que muitos professores de história ensinam, a noção de igualdade entre as pessoas é muito anterior à Revolução Francesa, que consagrou os modernos parâmetros que regem a Campanha da Fraternidade, digo, que consagrou os modernos e corruptos conceitos de Liberdade, Igualdade e Fraternidade.


Na verdade, desde o Código de Hamurabi é clara, em certa medida, a ideia de que os homens são iguais[1], e ao longo da história humana esta noção foi ficando mais e mais clara. Os hebreus já conheciam a Regra de Ouro declarada no Livro de Tobias (Cf. Tb 4, 16), isto é, que não devemos fazer aos outros o que não gostaríamos que fizessem a nós.


Até os pagãos gregos e romanos, com suas noções de justiça, direitos e deveres, enxergavam, ainda que com o tato, que todos os homens são iguais em certa medida. Mas foi o cristianismo que fez cair as escamas dos olhos dos homens. No Novo testamento, o Senhor deixa claro que seremos recompensados na outra vida “cada um segundo as suas obras” (Rom 2, 6), porque “o homem é justificado pelas suas obras, e não somente pela fé” (Tia 2, 24). 


A este princípio de Justiça divina está fundido o princípio da Misericórdia e ambos não podem ser realmente separados, senão apenas didaticamente considerados um sem o outro. Enquanto Deus, Justo Juiz, dá a cada um segundo suas obras, o Mesmo Deus, Senhor Misericordioso, dá a todos abundantemente graça sobre graça (Cf. Jo 1, 16) e a cada trabalhador paga misericordiosamente o quanto quer, independentemente da hora do dia em que foi trabalhar (Cf. Mt 20, 1-16).


Vemos, então este ensinamento cristão: Diante de Deus somos todos, em alguma medida, iguais (porque somos criaturas formadas à Sua Imagem e segundo a Sua Semelhança). Não obstante, essa igualdade que temos ante nosso Criador é relativa, é igualdade em alguma medida, porque Deus é Justo, e Justiça é tratar os diferentes na medida de suas desigualdades, ou seja, dar a cada um segundo as suas obras. Se não existisse Inferno para os maus ou Paraíso para os bons, Deus seria justo? Ora, a pena do Inferno e a recompensa do Paraíso são dois pagamentos bastante diferentes para diferentes qualidades de obras.


Não obstante, a Igreja ensina que Deus é Misericordioso, porque se não fosse Sua infinita misericórdia, não seríamos sequer criados. Que seria de nós sem a Misericórdia Divina, sem o Sacrifício de Cristo para nossa redenção? Se Deus fosse apenas justo (como um legalista) iríamos todos para o Inferno, porque não poderíamos fazer nada de bom para merecer o Paraíso, porque Só Deus é Bom (Mt 19, 17). Sendo Misericordioso, Deus nos dá Sua Graça para que possamos participar de Sua bondade com boas obras que participem dos méritos salvíficos de Cristo, porque “todo dom perfeito e toda dádiva boa vêm do Alto, procedentes do Pai das Luzes” (Tia 1, 17).


Apontadas a Justiça e a Misericórdia de Deus, precisamos entender como o homem põe em prática a justiça e a misericórdia.


A misericórdia é um dever para os católicos, porque precisamos ser imitadores de Cristo, que agiu com misericórdia para conosco. Por isso, não dizemos apenas “não faças aos outros o que não gostarias que fizessem contigo”, mas sim “faças aos outros o que gostarias que fizessem contigo”. Não se trata mais de uma proibição, mas de uma ordem de agir. Se só deixarmos de ser ímprobos, que teremos, além de uma sociedade de velhas fofoqueiras e farisaicas que ficam de olho em cada deslize pessoal cometido pelo próximo? Devemos, então, ter uma postura ativa: não simplesmente deixar de odiar, mas amar; não apenas não roubar, mas dar esmolas; não somente dialogar com os maus, mas também rezar para que os maus se convertam.


É assim, genericamente falando, que se pratica a misericórdia. Misericórdia, inclusive, significa “voltar o coração ao miserável”. Não é fingir que o miserável é bonzinho, é ver que é miserável e procurar ajudá-lo como for possível: dando esmola, ajudando a trabalhar, educando, ouvindo, conversando, rezando por sua conversão... enfim, há muita coisa que pode ser feita e que aprendemos com os santos.


Já a filosofia dos deveres de justiça foi suficientemente explicada pelos sábios da Cidade dos Homens e adaptada pelos pobres da Cidade de Deus. Em resumo, os deveres de justiça nos obrigam a dar a cada um o que lhe for devido – não nos esqueçamos a sabedoria do Padre Antônio Vieira: “Quem fez o que devia, devia o que fez”. Um patrão deve pagar o salário ao seu empregado, porque está em débito com ele. O juiz deve ordenar a punição do bandido, porque deve isso a ele e à sociedade. O político deve ser probo, prudente e cuidadoso com o erário público, porque deve isso aos seus governados. Um pai deve cuidar de seus filhos, porque está em débito com a natureza, e os filhos devem honrar seus pais porque estão em débito com eles.

Esses deveres são universais e são deveres de todos, segundo cada estado de vida, e diante deles todos os homens são iguais.


A ideologia liberal, porém, foi mudando isso ao longo do tempo, e nos últimos séculos tem ensinado que “todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que os outros”.


Todos os pais de família devem amar e cuidar dos seus filhos, mas alguns podem abdicar disso em prol da carreira. Todos os juízes devem aplicar a lei a todos, mas alguns podem valer-se de ADIs, jurisprudências, Sumulas Vinculantes e outros malabarismos para que a lei seja aplicada a uns de uma forma e a outros de outra. Todos os políticos devem ser probos, prudentes e cuidadosos com o erário público, mas se sofrer de câncer, por exemplo, automaticamente convertem-se em santos e excelentes pais de família...


Há alguns dias, morreu um ator de alcunha Paulo Gustavo, até então relativamente  desconhecido do público em geral. Era um pecador público “casado” com outro homem que zombava da Religião habitualmente com aquilo que hoje em dia chama-se de “humor” e “crítica social”, seja lá o que isso signifique. Antes de morrer ele era só mais um desgraçado que não tinha qualquer pudor em blasfemar. Quando morreu, “virou santo”: até Missa aos pés do Cristo Redentor (com direito a ‘Comunhão’ de pecadores públicos) teve. Até então, era desconhecido da maior parte das pessoas; sua fama veio porque morreu de peste chinesa e se opunha ao Presidente da República (o que não é lá grande coisa). Então ficou famoso e foi “canonizado”, inclusive por muitos católicos que adoram uma hipocrisia.


Semelhante a este caso foi o do prefeito Bruno Covas, que morreu vítima de câncer. Bruno Covas foi, de longe, o pior prefeito que a cidade de São Paulo teve. Sem contar a desgraça em que manteve o trânsito de São Paulo e a destruição do Vale do Anhangabaú, ele foi o responsável pelo exponencial aumento de desemprego na capital paulista, pelo crescimento dos casos da peste chinesa, fruto da absurda redução de horários de funcionamento de linhas de ônibus, e por tiranicamente mandar soldar portas de estabelecimentos comerciais a fim de implantar o famigerado [e comprovadamente inútil] lockdown, deixando inúmeras famílias na miséria por falta de emprego. 


O mesmo ditadorzinho impediu as pessoas de irem a estádios de futebol – mas ele mesmo foi a um jogo do Santos, afinal, todos os homens são iguais, mas ele fazia parte do grupo daqueles que são mais iguais do que os outros. Alegaram que ele foi porque, como estava com câncer, queria passar um momento com seu filho. O bonito pôde passar momentos no camarote com seu filho, mas e quanto aos pais de família que, por causa das medidas draconianas do dito cujo, não tinham condições de dar o mínimo sustento aos seus?


A semelhança de ambos os casos não está em se oporem ao projeto de Presidente que temos, mas sim no impacto que geraram em muitos católicos, os quais, escondendo-se sob uma falsa caridade e uma verdadeira hipocrisia, “canonizaram” duas pessoas que, de fato, viveram para morrer (ao invés de morrerem para viver). Paulo Gustavo não poderia receber um enterro católico, por ser pecador público e viver uma vida de escândalo; Bruno Covas, por sua vez, se encaixa perfeitamente na descrição que o Padre Manoel Bernardes dá aos políticos que são culpados pelos pecados dos súditos. Diz o padre em "Os Últimos Fins do Homem":


Assim, por vício ou defeito dos que governam, o bem público não só não pode prosperar e aumentar, mas retrocede e se converte em misérias, calamidades e todo gênero de pecados. E assim, todo aquele a quem Deus pôs na mão o leme da república, deve advertir que, assim como virtualmente é duas pessoas – uma particular e outra pública –, também vive sujeito a todas as sortes de pecados: uns da natureza, outros do ofício [...]. Estes pecados do ofício são os que a muitos penitentes esquecem no exame, e muitos confessores quanto à repressão. Porém, Deus não os esquecerá quanto ao castigo e tanto mais grave quanto são mais perniciosos. (Op. cit. Molokai, 2017, p.289)


Perceba-se que, se alguém tira não somente o pão da família, mas também impede que esta família trabalhe para conseguir o próprio alimento – esta necessidade essencial – peca, e peca gravemente. Se este alguém for um político que tira o sustento não só de uma família, mas de milhares, o seu pecado é imensamente maior. E todo pecado que decorrer disso é culpa do mau político. E isso se aplica ao senhor Bruno Covas e aos demais políticos, que por mera ideologia fizeram o que fizeram ao longo do último ano, de modo que não são santos, mas pecadores públicos.


O problema é que muitos católicos, tanto no caso de Paulo Gustavo quanto no caso de Bruno Covas, esconderam-se sob o manto da falsa misericórdia e da verdadeira hipocrisia, fingindo que ambos os moribundos foram boas pessoas, que não fizeram mal a ninguém, etc., quando deveriam REZAR PELA CONVERSÃO DESSES DESGRAÇADOS. Desgraçados sim, porque viveram sem a Graça de Deus e estavam às portas da morte. Ao invés de fazer aquela palhaçada aos pés do Cristo Redentor, o sacerdote devia ter ido lá no hospital dar os últimos Sacramentos àquela pobre alma. Ao invés de usar a língua bifurcada para elogiar aquele prefeito doente, deveria ter rezado para que ele se arrependesse dos seus desmandos e restituísse, ao menos em parte, o grande mal que fez a tanta gente. Isso seria misericórdia, isso é ter um coração voltado à salvação dos miseráveis.


Que tenha havido “tempo entre a ponte e o rio”, e que ambos tenham se arrependido. E que Deus tenha misericórdia de mim, que não passo também de um miserável pecador.


_____
[1] A clássica sentença “Olho por olho, dente por dente” nada mais é que a positivação do direito natural básico de ser tratado (com punições e recompensas) com proporcionalidade às ações praticadas. Se eu arranquei o olho de alguém eu mereço perder o meu olho, não os meus braços, por exemplo. Essa noção de proporcionalidade decorre necessariamente de que os homens formam uma comunidade, isto é, têm algo em comum – em outras palavras, são, em certa medida, iguais segundo certo aspecto, e com certa igualdade devem ser tratados.



5 comentários:

  1. O texto é simplesmente SENSACIONAL! Só discordo em dizer que Paulo Gustavo era um ator desconhecido,não era! Mas, no geral, o texto explicita toda hopocrisia em relação a essas duas figuras.

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    1. Não conversei com o autor a respeito deste ponto específico, mas creio que o que ele está dizendo é que o ator se tornou muito mais conhecido após a sua morte. Muitos que não conheciam o trabalho dele, e também muita gente que nunca gostou do tipo de humor que ele fazia, de repente virou fã de carteirinha. Eu mesmo conheço alguns casos desse tipo.

      A Paz de Nosso Senhor Jesus Cristo
      Apostolado Fiel Católico

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  2. A paz de Jesus Cristo.

    Excelente texto do Prof. Igor!

    Paulo Gustavo no passado, fez uma "piada" herética com o nome do Nosso Senhor Jesus Cristo. Tinha o "seu" público? Sim, tinha, mas era um público limitado ao seu tipo de "humor". Sempre agiu de modo afetado, ou seja, não foi uma boa influência para as crianças e jovens, isso é fato. Sim, como está no texto, viveu uma vida de escândalos.

    Bruno Covas, exatamente como está no texto, também não foi um bom exemplo, pelos seus grandes erros como político, administrador de uma cidade. Era socialista Fabiano, pertencia a um partido anti cristão, outro fato.

    Infelizmente, a sociedade atual é totalmente sem valores éticos e/ou morais, religiosos.

    Enfim, não vou me alongar mais, pois o autor do texto foi corretamente amplo e verdadeiro em sua análise.

    Apenas devemos orar e seguir em frente. Que a Santa Igreja Católica saia das trevas em que se encontra agora, claro; a Igreja física, visível, pois a Igreja Espiritual jamais será afetada pelos homens maus, sejam do clero ou fora dele.

    Hoje, Domingo de Pentecostes!

    Oremos à Santíssima Trindade, pedindo a Misericórdia dela e que o Espírito de Deus, o Espírito Santo; desça sobre as nossas cabeças, igual desceu nas cabeças dos apóstolos de Cristo, sua mãe, Maria Santíssima e outras pessoas que seguiam Jesus naquele momento. Amém.

    Abraços fraternos, caros irmãos!

    Salve Maria!

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