Quaresma: um tempo único para a conversão


A Quaresma é um grande tesouro da Tradição Cristã: oportunidade para renovar a experiência de conversão e do Amor de Deus em nós

A PALAVRA QUARESMA vem do latim Quadragesima. Essa prática, que vem desde o século IV, designa o período de 40 dias que antecedem a Festa maior do cristianismo: a Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo, celebrada na Páscoa Cristã.

A Quaresma começa na Quarta-feira de Cinzas e termina na Quinta-feira Santa: para os católicos é um tempo muito especial, no qual a Igreja nos chama à reflexão e à busca de uma verdadeira (re)conversão pessoal. Todo católico deve aproveitar essa oportunidade para se aproximar de Deus, nosso Pai. Só nesse processo de aproximação é possível crescer espiritualmente. E o cristão sabe bem que a espiritualidade é a base de tudo o que podemos desejar nesta vida, pois “de que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?” (Jesus Cristo em Mt 16,24).

Toda Quaresma significa um recomeço, um renascer para uma vida mais plena, mais completa e feliz. O objetivo concreto de cada Quaresma é nos tornarmos pessoas melhores, para nós mesmos e para o nosso próximo. A cor litúrgica deste tempo é o roxo, que significa luto e penitência. - O cristão se recolhe, em oração e penitência, para preparar seu espírito para acolher o Cristo Vivo, ressuscitado no Domingo de Páscoa. Simbolicamente, renascemos junto com o Cristo!

Cerca de duzentos anos após o nascimento de Jesus, os cristãos começaram a preparar a festa da Páscoa com três dias de oração, meditação e jejum. Por volta do ano 350 dC, a Igreja aumentou o tempo de preparação para quarenta dias: assim surgiu a Quaresma.


Significado dos 40 dias

Na Bíblia, em geral, o número quatro simboliza o universo material. Os zeros que seguem significam o tempo da nossa vida na Terra, com suas provações e dificuldades. A duração da Quaresma está baseada na simbologia bíblica, de modo semelhante a dos 40 dias do dilúvio, dos 40 anos de peregrinação do povo liberto da escravidão do Egito no deserto, dos 40 dias de Moisés e de Elias na montanha, dos 40 dias que Jesus passou no deserto, dos 400 anos do exílio de Israel no Egito... Todos esses períodos vêm antes de fatos essenciais ou muito importantes: representam uma preparação do espírito para um acontecimento de fundamental que está por vir.


O que fazer no tempo da Quaresma? 

A Igreja propõe basicamente três linhas de ação prática: a oração, a penitência e a caridade. Possivelmente não existam grandes dificuldades para se compreender o significado mais profundo da oração e da caridade, e são muitas as fontes seguras às quais o cristão pode recorrer para esse esclarecimento. Parece-nos que o mesmo não se dá com a penitência, ao menos não com a mesma facilidade. O que significa praticar a penitência, tão mencionada e tão especialmente importante no período da Quaresma?

Penitência significa, principalmente, conversão. Conversão de vida, de hábitos, dos modos de ser e e de se viver. Nos Evangelhos, Jesus fala dos atos de penitência que eram praticados no seu tempo, e critica a maneira superficial ou desprovida de propósito com que eram praticados. Esmola, jejum e oração são, sim, gestos de penitência, mas para que servem?

A finalidade da penitência é fazer com que o ser humano se volte profundamente para Deus, que se encontre com Ele no íntimo do seu ser, no segredo do seu coração. É isso que o Senhor ensina:

“Guardai-vos de fazer vossas boas obras diante dos homens, para serdes vistos por eles. Do contrário, não tereis recompensa junto de vosso Pai que está no céu. Quando, pois, dás esmola, não toques a trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem louvados pelos homens. Em verdade eu vos digo: já receberam sua recompensa. Quando deres esmola, que tua mão esquerda não saiba o que fez a direita.
Assim, a tua esmola se fará em segredo; e teu Pai, que vê o escondido, recompensar-te-á. Quando orardes, não façais como os hipócritas, que gostam de orar de pé nas sinagogas e nas esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade eu vos digo: já receberam sua recompensa. Quando orares, entra no teu quarto, fecha a porta e ora ao teu Pai em segredo; e teu Pai, que vê num lugar oculto, recompensar-te-á.” (Mt 6,2-6)

Jesus indica que os atos de penitência são principalmente interiores, e não para exibir, pois assim seriam falsos. Pelo contrário, a penitência, como conversão, requer que a pessoa rejeite as aparências, saiba se libertar da falsidade e se reencontrar em sua verdade interior. O principal significado da penitência é interior, espiritual. O esforço é para “entrar em si mesmo" e assim colocar-se diante de Deus, no mais profundo do próprio ser, onde o SENHOR fala conosco. A pessoa exterior deve ceder, em cada um de nós, à pessoa interior, e lhe dar o lugar.

A Quaresma deve passar pelo homem interior: pelos corações e pelas consciências. É este o esforço essencial da penitência. Ela não deve ser encarada apenas como um esforço, um sacrifício, e jamais como um peso que nos esmaga: é, antes de tudo, uma oportunidade maravilhosa que devemos receber com gratidão e alegria! Uma alegria do espírito, alegria que outras coisas não podem nos dar.


O jejum

A Igreja prescreve oficialmente o jejum a todos os batizados, pelo menos na Quarta-feira de Cinzas e na Sexta-feira Santa. - Pela lei da igreja, o jejum é obrigatório nesses dois dias, para pessoas entre 18 e 60 anos, mas podem ser substituídos por outros dias, conforme as necessidades de cada fiel.

O jejum, como toda penitência, é uma forma de educação do espírito, e pode ser direcionado no sentido de reverter alguma inclinação mundana, que afasta o nosso espírito de Deus, como algo a que nos apegamos porque gostamos muito (comida, bebida...). Assim, pode-se substituir aquele prazer temporal por algum serviço de caridade. O “sacrifício” pode ser escolhido livremente: você pode deixar de beber cerveja ou de tomar aquele sorvete, por exemplo, como costuma fazer todos os finais de expediente, durante esse tempo, e usar o valor que gastaria para o bem de alguém que precisa. Se achar difícil, pode tentar fazê-lo pelo menos por uma semana. Além disso, todos nós sabemos que poderíamos melhorar como cristãos em algum aspecto específico, com o qual somos normalmente desatenciosos. Você pode se comprometer a melhorar os seus modos diante de alguma pessoa ou alguma situação com que costuma ter dificuldade. Vamos tentar?

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Ref. bibliográfica:
 

KEELER, Helen; GRIMBLY, Susan. 101 Coisas que Todos Deveriam Saber Sobre o Catolicismo. São Paulo: Pensamento- Cultrix, 2007.
ofielcatolico.com.br

8 comentários:

  1. Aproveitemos esses 40 dias para rezarmos mais, fazermos mais caridade, jejuarmos com mais fé e busquemos assim o caminho da conversão que nos leva para Deus.

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  2. Graça e Paz!

    O jejum é praticado pelos cristãos desde o início da Igreja e é sem dúvida um instrumento poderoso. Mas tenho uma dúvida com outras questões. As auto flagelações, como vejo que acontece em especial no nordeste, são permitidas ou recomendadas pela Igreja? E qual a origem do terço? É uma forma de penitência, não?

    Obrigado!

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    1. Não, aquelas autoflagelações exacerbadas não são aprovadas pela Igreja, Filipe. Trata-se, de todo modo, de um assunto bastante complexo, - a ascese cristã, - que daria um bom tema para um próximo post.

      Quanto ao Rosário/Terço... Está aí outro assunto bem vasto, difícil de explicar assim rapidamente, mas de pronto digo que não se trata de penitência e sim de oração/meditação nos atos de Nosso Senhor Jesus Cristo conforme relatados nos Evangelhos.

      O que tenho de mais interessante para lhe dizer sobre o Terço, num primeiro momento, é que, apesar de não parecer (ao menos à primeira vista), é uma forma de oração 100% cristocêntrica. Mais uma excelente dica que você me dá para um post futuro.

      De momento estou migrando as postagens do endereço antigo para cá, o que deve demorar ainda algum tempo, mas deixo anotadas as suas sugestões(?) para assim que esse trabalho estiver concluído.

      Abraço fraterno e a Paz de Nosso Senhor Jesus Cristo

      Apostolado Fiel Católico

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  3. É correto fazer jejum para conseguir algo?

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    1. NÃO! Creio que o correto é fazer jejum para doar algo.
      O jejum está intrinsecamente ligado, oração e a esmola (partilha fraterna). É mais dar do que receber.
      Leia o capítulo 6º do Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, segundo São Mateus, ou melhor: faça uma “Lectio Divina”.

      Seja louvado Nosso Senhor Jesus Cristo!

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    2. Oi André!
      Existe diferença entre jejum "católico" e o jejum dos "evangélicos"?
      Sei que eles fazem propósitos e uma semana não come uma coisa, na outra não come outra coisa, na próxima deixa de fazer algo que gosta bastante.
      É correto isso? Porque como eu tenho contato com alguns, eu realmente vejo que aparentemente faz sentido, mas eu sempre fico com receio.
      E parece que eles fazem pra conseguir algo, alguma graça, e parece que realmente acontece.
      É mais ou menos esse o meu questionamento.
      Obrigada!

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    3. Olha caríssima Natalia, sinceramente eu nunca procurei saber ou entender como é o jejum dos protestantes, mesmo se fosse querer entender, creio que não seria tão fácil assim, diante das quase quarenta mil denominações existentes, e cada uma pregando um evangelho diferente.
      Eu creio que você esteja fazendo jejum da Palavra de Deus. Você leu e entendeu a referência Bíblica por mim citada anteriormente?
      Por favor, retome a leitura que é essencial para um bom entendimento.
      E em seguida, dedique-se a um jejum de não mais se preocupar com os jejuns dos “evangélicos”, caso seja católica.
      Seja louvado Nosso Senhor Jesus Cristo!

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    4. Oi André!
      Sim, li sim!
      Tenho pessoas bem próximas de mim que são evangélicas, e por conta disso eu tento entender e venho aqui para ver se não deixei passar algo, ou seja, venho aqui e pergunto pois muitas vezes me confundo.
      Sim, sou católica desde pequena, mas eu somente comecei a ir mais além na Igreja há pouco tempo.
      Essas mesmas pessoas próximas a mim já falaram coisas ofensivas quanto a Igreja, hoje já não é tanto assim.
      Acredito que por existir várias denominações, exista essa confusão dentro da minha cabeça, mas eu sei que o que importa é a Igreja Católica.
      Mas para mim, comparar para entender as diferenças, me ajuda de certa forma.

      Obrigada por me esclarecer!
      Abraços :)

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