Prostrar-se ou ajoelhar-se é adorar?


UM LEITOR ANÔNIMO enviou-nos, ao post Veneração à Virgem Maria, o comentário que reproduzimos abaixo:

Os católicos dizem que não adoram Maria e os santos, mas vivem se ajoelhando para ela (eles). A Bíblia diz: 'Somente ao Senhor teu Deus adorarás' (Mateus 4: 10)! Portanto os católicos são idólatras sim!

A questão é muito simples, mas é recorrente, e já foi muito bem respondida em diversas publicações católicas, e também em outras páginas virtuais competentes, como é o caso do ótimo blog da Associação Diocesana Servos de Maria, ao qual recorremos como referência para esta nossa resposta. Ocorre que prostrar-se não significa, necessariamente, adoração, e a própria Bíblia Sagrada, única e exclusiva regra de fé dos nossos irmãozinhos afastados, ditos "evangélicos", está cheia de exemplos dessa verdade. As dificuldades se dão porque, via de regra, não leem as Escrituras de modo consciente e consistente, com o devido discernimento da noção de todo, mas apegam-se a determinadas coletâneas de passagens. Recorramos então às próprias Escrituras, para demonstrar alguns exemplos bem claros a esse respeito. Segue.


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No Livro de Josué, podemos ler:

Josué rasgou suas vestes e prostrou-se com a face por terra até a tarde diante da Arca do Senhor, tanto ele como os anciãos de Israel. (Js 7,6)

• Por acaso Josué, então o sumo líder do povo de Deus, juntamente com os anciãos de Israel, estavam adorando a Arca, ou aos querubins esculpidos sobre a tampa da mesma Arca? Eram eles "idólatras"? Deixaremos a resposta a cargo daqueles que nos questionam.


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Já no Primeiro Livro dos Reis, lemos:

O profeta Natã entrou e prostrou-se, com o rosto por terra, diante do rei Davi. (1Rs 1,22-23)

• Natã, profeta de Deus, estava adorando o rei Davi? Era ele também, então, um idólatra?


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Um pouco mais adiante, no mesmo livro, está escrito:

O rei Salomão mandou mensageiros, e fizeram Adonias descer do altar. Ele então veio e prostrou-se diante do rei, que lhe disse: 'Volta para a tua casa'. (1Rs 1,53)

• Vemos aqui uma simples descrição do antigo costume de se prostrar, isto é, ajoelhar-se, diante do rei. Se ajoelhar-se diante de um símbolo religioso (como a Arca da Aliança), ou diante do rei fosse sinônimo de adoração, todo o Israel, povo de Deus do Antigo Testamento, seria idólatra.


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No Segundo Livro dos Reis, vemos o seguinte:

Eliseu atravessou o rio. Os irmãos profetas (...) vieram ao seu encontro e prostraram-se por terra, diante dele.

• Estavam os profetas de Deus "idolatrando", adorando a Eliseu?

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Além destes, existem diversos outros exemplos nas páginas das Sagradas Escrituras que demonstram, com toda a clareza, que prostrar-se não é, necessariamente, um gesto de adoração, a qual devemos somente a Deus. Por vezes, é dever de todo temente a Deus prostrar-se diante de um símbolo ou mesmo de uma pessoa que representa o poder, a autoridade e/ou a glória de Deus. O ato de um cristão que se prostra diante da Cruz de Cristo, diante do Altar ou diante de algum símbolo religioso –, como é o caso das imagens sacras, sejam as que representam Nosso Senhor, a Santíssima Virgem ou os santos –, Santo Tomás de Aquino esclareceu com a sua habitual maestria:

O culto da religião não se dirige às imagens em si como realidades, mas as considera em seu aspecto próprio de imagens que nos conduzem ao Deus encarnado (Cristo). Ora, o movimento que se dirige à imagem enquanto tal não termina nela, mas tende para a Realidade da qual é imagem (Deus). (Suma 2-2. q. 81, a. 3, ad 3: Ed. Leon. 9, 180. / CIC §2132).


Cremos que a questão esteja mais do que respondida, com base na Bíblia Sagrada e na Tradição Cristã, que vem desde o início do Cristianismo e permanece até os nosso dias, como parte do Fidei Depositum da Sã Doutrina confiada à Igreja do Senhor – assim como tambéestá escrito.
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Os 'podres' da Igreja


RECEBEMOS DE UM (ou de alguns) leitor(es) anônimo(s) algumas mensagens breves e repetidas, ligeiramente diferentes entre si mas com idêntico teor e conteúdo. Todas trazem as mesmas afirmações, que de fato já foram indiretamente respondidas por aqui, em diversas de nossas postagens. Em todo caso, reproduzimos abaixo uma destas mensagens, seguida de nossa resposta. Esperamos que nossas reflexões sejam de proveito para quem vier a lê-las.

Você vive dizendo que a igreja romana é a certa, mas tem muitos podres na sua igreja romana , na história da sua igreja nem se fala. Vc me diz que não tem podres na história da igreja romana? Não tem padre pedófilo, padre fornicador ? Entao Quem é vc pra falar alguma coisa? sigo evangélico com muito orgulho

Bem, anônimo, para começar esta conversa, devo dizer que logo de início talvez eu não seja a pessoa mais indicada para responder às suas perguntas, porque eu não conheço "igreja romana". Conheço e integro, com a Graça de Deus, a Igreja Católica Apostólica Romana. Na história desta, sim, posso afirmar que houve páginas e/ou atos "podres" – para usar a sua expressão – começando pelo de Judas, que traiu o Senhor, o de Pedro, que o negou por três vezes, e o de Tomé, que depois de conviver longo tempo com o Cristo, mesmo assim não pôde crer na sua Ressurreição antes de tocar as suas santas chagas. Poderia somar a estes exemplos o de todos os outros Apóstolos, exceto João, que fugiram para salvar as próprias peles quando Jesus foi preso. Então, os homens que integram a Igreja, desde o começo, sempre foram imperfeitos, falhos, fracos, pecadores. Nenhum problema em admitir isso.

Nada disso, porém, afeta a santidade e a pureza da imaculada Esposa de Nosso Senhor Jesus Cristo, que é a mesma Igreja. "Podres" no correr de sua história, sim, sempre existiram e continuam existindo, partindo de alguns de seus filhos ingratos e traidores. Podres ou manchas na própria Igreja, em sentido absoluto, não. Nenhum sequer.

Ocorre que "a Igreja é, aos olhos da fé, indefectivelmente (infalivelmente) santa. Unida a Cristo, é santificada por Ele e nEle se torna também santificante” (conf. const. Lumen Gentium n.39 / CIC §823-824).

E aqui você provavelmente estará se perguntando se esses tais olhos da fé precisam de óculos, ou se estarão totalmente cegos... Se a Igreja é santa, porque então ouvimos dizer de tantos escândalos e graves pecados envolvendo padres e bispos? Entenderá você que, se aos olhos da fé a Igreja não falha, então esses olhos devem estar precisando urgentemente de um oftalmologista! A verdade, porém, é o exato oposto desta impressão superficial. Não é que os olhos da fé não vejam bem; de fato, os olhos da fé vêem muito além das aparências, e enxergam que a Igreja é a continuidade da Encarnação do Cristo neste mundo. É por isso que ela não se desvia do seu Caminho, não naufraga, não se perde, ainda que muitos dos seus membros se desviem e se percam. O Espírito Santo a assiste, e mesmo com tantos pecados de filhos traidores, ela permanece fiel à sua missão e cumprindo plenamente o seu propósito.

É por meio da Igreja que nós chegamos à salvação, já que é por meio dela que temos acesso a todos os Sacramentos, desde o Batismo (porta de entrada para a vida cristã), a Comunhão no Corpo e Sangue, Alma e Divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo (na sagrada e preciosa Eucaristia) e o perdão dos nossos pecados (pela Confissão, Penitência e Reconciliação), como Ele também determinou, dizendo aos primeiros pastores desta mesma Igreja una e indivisível: "Os pecados que perdoardes serão perdoados, e os que retiverdes serão retidos" (Jo 20,22-23).

É somente na Igreja –, sendo membros da Igreja –, que podemos ser cristãos de fato. A Igreja, então, continua cumprindo fielmente a sua missão, continua sendo fiel Esposa de Cristo, nos santos da Terra e nos do Céu, em perfeita Comunhão com Deus Pai, Filho e Espírito Santo.

Assim, por mais bobagens ou mesmo barbaridades que alguns filhos da Igreja cometam, por mais pecados que acumulem, a autêntica Igreja continua pura e sendo divinamente conduzida. Ora, a Igreja não pode ser julgada a partir dos seus traidores, e sim a partir daqueles que lhe são fiéis. Isso não é óbvio? 

Vou deixar aqui uma comparação muito simples, para facilitar a compreensão: imagine um time de futebol do qual um dos jogadores aceitou suborno para entregar a final do campeonato à equipe rival. Seja este jogador o goleiro ou o atacante principal, o responsável pela armação das jogadas ou um zagueiro, de qualquer jeito ele vai ter muitas oportunidades, durante a partida, para facilitar a vitória do time adversário. Certo. O seu time perde, e depois se descobre a falcatrua e a traição deste jogador vendido. Pois bem: será que este jogador infiel, vendido e traidor, representa aquele time? Poderia ele servir como exemplo daquela equipe de atletas? Se pedissem ao treinador que apontasse um jogador para simbolizar aquela equipe, será que ele escolheria o traidor? E se perguntassem ao patrocinador do time, ao diretor ou a algum membro da torcida? Será que alguém escolheria o traidor para ser o símbolo da equipe, o atleta que representaria "o espírito" dessa agremiação esportiva?

Claro que não. Só poderia representar o time um atleta que fosse dedicado, comprometido, um que tenha honrado sua camisa, que tenha sido fiel ao escudo no seu peito. Do mesmo modo, se você quer saber o que é a Igreja, não pode olhar para o padre acusado de pedofilia. Você deve olhar para Francisco de Assis, Vicente de Paulo, João Maria Vianney, Maximiliano Maria Kolbe, Filipe Neri, Pio de Pietrelcina, Gianna Beretta Molla, Madre Teresa de Calcutá, Irmã Dulce dos Pobres, etc, etc, etc... Você deve olhar para o exemplo de Pedro e de todos os Apóstolos (atenção) depois de Pentecostes, quando foram batizados no Espírito Santo e se tornaram de fato santos. Você deve olhar para São Paulo Apóstolo, para a Santíssima Virgem Maria, etc, etc, etc... São estes que representam a Igreja Católica Apostólica Romana.

São os milhões de santos da Igreja, canonizados ou anônimos, os do Céu e os da Terra, que a representam, simplesmente porque são estes que fizeram e fazem o que a Igreja manda fazer. São estes que a honram e lhe são fiéis. Os que a desobedecem, os que a traem, não podem de modo algum representá-la. Simples, não é?

Encerro deixando meus agradecimentos a todos os leitores anônimos que procuram me fazer perguntas embaraçosas e me dão a oportunidade para esclarecer as dúvidas daqueles que realmente querem aprender as coisas da fé. Todos vocês têm as minhas frequentes orações.

Henrique Sebastião
ofielcatolico.com.br

A Igreja Católica aceita a 'mediunidade' e/ou invocação dos mortos?

É COMUM NOS DEPARARMOS, em publicações espíritas diversas, impressas ou virtuais, com a divulgação de "noticias" dando conta de que a Igreja Católica teria de algum modo reconhecido e/ou aceitado a prática da invocação dos espíritos dos mortos, reconhecendo assim a veracidade da doutrina espírita. Tais notícias são sempre inconsistentes e confusas –, simplesmente por serem sempre totalmente falsas –, trazem fontes duvidosas, quando não simplesmente falsificadas. Recentemente, um padre da herética "Igreja Católica Brasileira" foi citado, desonestamente, como se fosse um sacerdote da Igreja Católica Apostólica Romana. A verdade é que não existe a menor possibilidade de que tal coisa venha um dia a acontecer, já que estamos falando de uma prática proibida categoricamente pelas Escrituras, pela Tradição, pela Teologia e por toda a doutrina cristã e católica desde sempre.

O máximo que a Igreja pode pretender, com relação ao espiritismo, é a coexistência cordial e pacífica, na medida do possível, e isso já se tem buscado há um bom tempo. Todavia, conviver pacífica e respeitosamente com o diferente não é a mesma coisa que aceitar ou assumir os seus erros doutrinais. Quando uma pessoa declaradamente "católica" diz que também crê em reencarnação, ou quando procura um "médium" para evocar "espíritos" –, supostas "entidades" das quais ela, além de tudo, não tem como conhecer a origem –, comete grave pecado que precisará ser confessado. E se tal prática se torna habitual, esta pessoa cai no desvio ainda mais grave da contumácia, deixando mesmo de ser membro da Igreja Católica, excluindo-se automaticamente da Comunhão com o Corpo de Cristo.



Diretamente relacionada a estas realidades é a seguinte mensagem, que recebemos do leitor Valdemir Faleiros, comentando nossa postagem sobre a vida de Chico Xavier:

Henrique, espero que meu comentário não seja ironizado por vc respeite as pessoas que aqui chegam amigo... Espero também, não ser chamado de sem educação, pois em nenhum momento fui... Quero ver agora, se vc tem peito de mostrar a verdade.

Logo em seguida, Valdemir acrescenta ao seu comentário o link para uma página espírita-esotérica  (que por motivos óbvios não divulgaremos) que apresenta uma matéria ida ao ar há alguns anos pelo programa "Fantástico" da rede Globo de televisão (que notoriamente sempre promoveu o espiritismo – mais informações neste link), intitulada "Museu das Almas do Purgatório" (veja do que se trata).

Antes de entrar na questão do referido museu e do que ele significa, gostaríamos de reafirmar o que é evidente, ao Sr. Valdemir e a todos os nossos leitores: entre os mais de duzentos comentários que aquela postagem sobre Chico Xavier recebeu, em nenhuma das nossas respostas fomos desrespeitosos. Fomos nós, isto sim, muito desrespeitados, sendo que diversas mensagens foram pessoalmente ofensivas (boa parte sequer pôde ser publicada). Todos os participantes, entretanto, receberam respostas puramente informativas. Portanto, não entendemos a preocupação de Valdemir quanto a ter o seu comentário "ironizado".

Entrando no assunto proposto, o chamado "museu" de fato existe, numa igreja em Roma, e foi idealizado com o intuito de demonstrar a real existência do lugar ou estado das almas que permanecem em purificação até que possam ser admitidas ao Paraíso Celeste: o Purgatório, tema sobre o qual já tratamos aqui

Esse curioso "museu" contém relíquias que seriam testemunhos da comunicação de certas almas padecentes no Purgatório. A referida matéria televisiva fala de um pesquisador brasileiro de parapsicologia, chamado Clóvis Nunes, que entrou no local e filmou as peças ali conservadas. Foi entrevistado também o Padre Gino Concetti, teólogo franciscano que declaradamente não atribui grande importância às peças do museu, dizendo:

Eu penso que a materialização da religião e das verdades é sempre uma expressão ligada a uma determinada época, a uma cultura e sensibilidade. Eu acredito mais numa verdade sobrenatural espiritual. Não podemos saber nada do purgatório, apenas isto: é um lugar, como disse Dante, onde os espíritos vivem até serem dignos do Reino dos Céus. Sabemos que o inferno é um lugar de tormento, como disse Jesus no Evangelho, onde há pranto e lamento. Mais do que isso não podemos saber.

Curiosamente, o próprio Padre Gino chega a dizer que, pessoalmente, não acredita naquelas relíquias: “Não é possível materializar uma coisa espiritual. Nós imaginamos as almas entre chamas para exprimir a ideia de que essas almas sofrem tormentos e precisam de ajuda. Mas na verdade não é (exatamente ou literalmente) assim”. A reportagem ouviu também o padre capuchinho Vittorio Traini, exorcista do Vaticano, que disse o seguinte:

As almas não manifestam a sua presença com essas coisas, a menos que tenham sido graças muito especiais ou extraordinárias, concedidas a pessoas [e em casos] especiais. Assim como existem essas manifestações, há também manifestações de caráter infernal, do diabo.

Como vemos, a verdade está bem longe do que alguns espíritas foram rápidos em afirmar, isto é, que a Igreja estaria "aceitando" as práticas espíritas ou coisa parecida... Mesmo assim, insistentemente, diversos veículos espíritas continuam divulgando a existência do museu como uma espécie de "prova" de que a Igreja Católica admitiria a comunicação com os espíritos dos mortos, conforme defende a doutrina espírita. Uma atitude puramente desonesta e lamentável. Deixemos então o disse-que-disse, e vamos ao que afinal interessa: a verdade dos fatos.


1. Inconsistência da notícia

Não é a primeira vez que o espiritismo procura atrair para si o abono da Igreja Católica. Pelo contrário, basta lembrar por exemplo que, num recente filme (fictício e totalmente apologético) sobre  a vida de Chico Xavier, além de incluírem um padre católico como o principal amigo do "médium", os espíritas ainda insistiram em citar como "muito católico" o  ator Tony Ramos, que atuou na produção. Ora, um padre como ombro amigo de Chico Xavier e mais a presença de um artista de renome supostamente "muito católico" atuando no filme espírita: eis a combinação pensada para transmitir aos católicos (menos esclarecidos) uma mensagem bem clara: o espiritismo é compatível e conciliável com o catolicismo. Desonesto e lamentável, mais uma vez.

Afinal de contas, a Igreja aceita a comunicação com espíritos? A simples verdade

a) Como dissemos no começo, vez em quando surgem "notícias" dando conta de que padre fulano teria declarado que acredita na comunicação com os espíritos, ou que o padre ciclano "concorda" com a doutrina espírita... No vídeo do Youtube em que um padre de uma seita é descaradamente apresentado como "padre católico", defendendo o espiritismo e renegando a doutrina católica mais elementar, vemos a clara e criminosa desonestidade intelectual. Mas – e isto é muito importante – ainda que algum autêntico padre católico, por qualquer motivo, realmente aprovasse as práticas espíritas, isso não significaria que a Igreja Católica confirma ou aceita o espiritismo. Aliás, tal padre seria imediatamente afastado das suas funções assim que seus procedimentos chegassem ao conhecimento do seu bispo.

Toda decisão doutrinária da Santa Sé é publicada em documento assinado pelo Papa ou colaboradores imediatos. A coleção chamada "Acta Apostolicae Sedis" é o órgão através do qual são divulgados os atos oficiais da Santa Sé. Nenhum teólogo, padre ou bispo, e em última análise nem mesmo o Papa, falando isoladamente, pode ser tido como representante da fé da Igreja, se não estiver em concordância com a Sã Doutrina de sempre e a Tradição bimilenar desta mesma Igreja.

b) O Catecismo da Igreja Católica (CIC) é uma fonte segura para nos informarmos a respeito das questões fundamentais da autêntica doutrina católica. Qualquer pessoa pode e deve procurar no seu índice e informar-se a respeito de todo assunto relacionado. Quanto ao espiritismo, o texto do CIC é claro, no seu parágrafo 2117: "a Igreja adverte seus fiéis a evitá-lo"; e quem recorre o Catecismo só encontra ali a clássica doutrina da Comunhão dos Santos, sem nenhuma referência a evocação ou comunicação com falecidos. Vejam-se os parágrafos seguintes:

A comunhão com os falecidos – Reconhecendo cabalmente a Comunhão de todo o Corpo Místico de Jesus Cristo, a Igreja terrestre, desde os tempos primeiros da religião cristã venerou com grande piedade a memória dos defuntos. (…) Já que é um pensamento santo e salutar rezar pelos defuntos para que sejam perdoados dos seus pecados (2Mc 12, 46), também ofereceu sufrágios em favor deles. A nossa oração por eles pode não somente ajudá-los, mas também tornar eficaz a sua intercessão por nós." (CIC §958)

As testemunhas que nos precederem no Reino, especialmente as que a Igreja reconhece como santos, participam da tradição viva da oração, pelo exemplo modelar de sua vida, pela transmissão dos seus escritos e pela sua oração hoje. Contemplam a Deus, louvam-no e não deixam de velar por aqueles que deixaram na Terra. Entrando na Alegria do Mestre, eles foram postos à frente de muitos. A sua intercessão é o mais alto serviço que prestam ao plano de Deus. Podemos e devemos pedir-lhes que intercedam por nós e pelo mundo inteiro. (§959)

A Igreja aceita a oração aos santos (pedidos humildes dirigidos aos justos, já no Céu, para que intercedam por nós), mas não aceita a invocação dos mortos (prática ritual que pretende obter mensagens dos mortos). São coisas completamente diferentes.

c) Cabe observar, por fim, que a Igreja aceita tranquilamente o estudo da paranormalidade, coisa bem diferente de necromancia. Sensitivo é o indivíduo dotado de paranormalidade aguçada; este não é o que chamam "médium" espírita; só o será se pregar que os fenômenos psíquicos sejam produzidos por espíritos do além que lhe comunicam mensagens contrárias à fé cristã de sempre.


2. O testemunho bíblico

Para o católico, é fundamental o testemunho das Sagradas Escrituras. O mesmo Deus que, segundo seus inescrutáveis Desígnios, permite as vezes a aparição de santos ou mesmo de defuntos, proibiu terminantemente a evocação dos mortos, e foi sempre claríssimo neste sentido:

Se alguém se dirige aos que invocam os espíritos e aos adivinhos, para se entregar às suas práticas, voltarei minha Face contra esse homem e o afastarei do meu povo. (Lv 20, 6)
Todo homem ou toda mulher que evocar os espíritos ou se der à adivinhação, será punido de morte. Lapidá-lo-ão; seu sangue recairá so­bre ele. (Lv 20,27 - ver ainda Lv 19,31 / Dt 18,11)

Não obstante estas severíssimas proibições veterotestamentárias, conta a Escritura que o rei Saul, atribulado numa campanha bélica, foi ter com a pitonisa e necromante ou "médium" de Endor, pedindo-lhe que o pusesse em comunicação com a alma de Samuel, seu mentor de outrora (cf. ISm 28, 7-14). Tal coisa parece que de fato ocorre, porém (muito importante) a Bíblia Sagrada acentua com toda a clareza que esse feito foi ilícito:

Saul se tornara culpado diante do SENHOR porque interrogara e consultara os que invocam os mortos.” (1Cr 10, 13)

Ainda assim, segundo a Escritura (que nem sempre deve ser tomada ao pé da letra) dá a entender que Deus permitiu que o espírito de Samuel, evocado, respondesse, não por causa dos ritos da pitonisa, mas para que através das suas palavras o rei se arrependesse e fizesse penitência, ao menos no fim de sua vida (Saul morreria no dia seguinte); a exortação dirigida a Saul em circunstâncias tão especiais e extraordinárias poderia ter sido particularmente eficaz. Isto, porém, não quer dizer que Deus se dirija aos homens por via tão incomum todas as vezes que os chamados "médiuns" o desejem.



3. E as visões dos santos?

Não existe absolutamente nenhuma relação entre os alegados fenômenos espíritas e as visões dos santos. Em primeiro lugar, os santos de Deus são servos do SENHOR e modelos de cristãos que estão no Céu, em Deus, e não espíritos "desencarnados" ou almas de pessoas mortas esperando para reencarnar e que vêm à Terra trazer mensagens quando chamamos por eles.

As visões e aparições da Virgem Maria e dos santos católicos são espontâneas, não resultam de invocações de "médiuns" ou algo que as provoquem. Tais visões podem ser a resposta do SENHOR às preces das almas justas; contudo, assim como Deus pode atender a essas súplicas (caso isso ocorra para o bem dos fiéis), pode também não fazê-lo: nunca será lícito ao cristão crer que dispõe de algum meio para se comunicar com as almas dos defuntos ou chamá-las quando quiser, em rituais ou reuniões específicas para este fim.

Todo o nosso possível intercâmbio com os santos se realiza mediante a insondável e soberana permissão de Deus. Tanto assim que, mesmo quando uma pessoa piedosa e devota julga estar sendo agraciada por visões, os mestres da vida espiritual sempre lhe aconselham toda a cautela na interpretação de tais fenômenos, e a Igreja custa muito a reconhecê-los; só os admite mediante rigorosa investigação e mesmo assim não impõe o seu conteúdo como verdade absoluta, regra de fé ou dogma para toda a Igreja.

Todo este rigor existe porque a Igreja sabe que Satanás não raro se dissimula em “anjo de luz”, como novamente advertem as Sagradas Escrituras (cf. 2Cor 11,14). De fato, as autênticas aparições de santos neste mundo (que não são provocadas nem controladas por nós) são fenômenos raros.

Como se vê, também neste último quesito, nada daquilo que a Igreja crê se identifica com a posição dos espíritas. Como cristãos católicos, não desejamos nem pregamos o conflito entre pessoas de diferentes religiões; apenas exigimos a honestidade necessária para que se reconheça que "uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa".
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O Santo Cristo de Límpias


A História

NA ROTA COMPOSTELANA que passa pela província espanhola de Cantábria, está a Vila de Límpias, famosa pelo Santuário do Santíssimo Cristo da Agonia.

O nome de Límpias provém das águas térmicas que brotam no local, e que eram conhecidas como Águas de Límpias. A vila é pequena, mas tem uma bela igreja paroquial em honra de São Pedro. No seu Altar-Mor se venera uma prodigiosa imagem do Cristo da Agonia, – crucifixo que traduz uma profunda meditação nos sofrimentos de Nosso Senhor, apresentando-o nos momentos finais de sua agonia. A imagem do Cristo é em tamanho natural: mede aproximadamente um metro e oitenta e dois de altura e está colocada sobre uma cruz de dois metros e trinta. Os braços parecem relaxados, como os de um homem que os tivesse aberto sem esforço; os dedos indicador e médio em ambas as mãos estão estendidos, como dessem a bênção final.

Seu rosto tem uma expressão indescritível, de uma particular beleza: olha para o céu e, segundo o ângulo de onde se olhe, a expressão é diferente, não apenas de dor, mas de oração e contemplação a Deus Pai. Colocadas aos lados de Cristo estão outras duas imagens: a da Virgem Mãe Dolorosa e de São João Evangelista, – que permaneceram junto ao Senhor até o momento da morte.

Pouco se sabe da origem desta antiga, preciosa e impressionante imagem. Acredita-se que tenha sido venerada em Cádiz, na igreja dos padres franciscanos, e que na ocasião em esta veio a ser derrubada por inundações, a imagem do Cristo passou ao Oratório de Don Diego de la Piedra, cavaleiro professo da Ordem de Santiago. Conta-se que um maremoto ameaçou a cidade de Cádiz, e que quando o povo cristão levou em procissão as imagens mais veneradas da cidade, as águas se detiveram e começaram a retroceder somente diante da imagem do Cristo da Agonia, que se encontra agora em Límpias. Diante de tal prodígio, o povo agradecido pediu que a imagem do Santo Cristo fosse deixada para veneração em alguma das igrejas de Cádiz.

Don Diego faleceu no ano de 1755, não sem antes outorgar em seu testemunho diversas linhas nas quais recorda sua vila natal de Límpias:

"Mando assoalhar a Paróquia de São Pedro de Limpias, custeando a decoração do Altar-Mor e seu esplendor, colocando nele três imagens: a de Nosso Redentor agonizando na Cruz, a de Sua Mãe Santíssima e a do Evangelista S. João (...)"

Assim é que esta paróquia se converte no Santuário do Santíssimo Cristo da Agonia. A partir do dia 30 de março de 1919, passou a correr a notícia de que em Límpias aconteciam eventos extraordinários. Diziam que a belíssima imagem do Santo Cristo movia os olhos, dando a sensação de estar ali um corpo vivo, – que empalidecia, sangrava e suava. – O nome de Límpias foi se tornando famoso, e suas ruas começaram a receber as visitas de peregrinos provenientes de todas as partes do mundo.

O primeiro testemunho concreto e registrado do prodígio foi o do Padre Antonio López, honrado professor do Colégio São Vicente de Paula, que escreveu:

"Um dia, no mês de agosto de 1914, fui à igreja para instalar uma iluminação elétrica no Altar-Mor. Encontrava-me sozinho na igreja, em uma escada apoiada sobre um andaime improvisado sobre a parede que serve de cenário para a imagem do Cristo Crucificado, e depois de duas horas de trabalho comecei a limpar a imagem para que esta pudesse ser vista mais claramente. Minha cabeça estava no mesmo nível da do Cristo, a pouco menos de dois pés de distância. Fazia um dia muito bonito e pela janela atravessavam raios de luz que iluminavam completamente o Altar. Sem notar a menor anormalidade e depois de um longo tempo de trabalho, detive minha vista nos olhos da imagem e observei que estavam fechados. Por vários minutos, eu o vi com toda a clareza, de modo que duvidei se habitualmente eles eram abertos. Não podia acreditar no que meus olhos viam, comecei a sentir que me faltavam as forças; perdi o equilíbrio, desmaiei e caí da escada, do andaime até o chão, levando um grande tombo. Ao recobrar os sentidos, pude confirmar, de onde estava, que os olhos da imagem do crucifixo permaneciam fechados (...). Saí rapidamente da igreja, contando o fato à minha comunidade. Minutos depois de sair da igreja, encontrei-me com o sacristão, que se dispunha a tocar os sinos para o Ângelus. Ao me ver tão agitado, perguntou-me se estava me acontecendo algo. Relatei a ele todo o ocorrido e ele não se surpreendeu, pois já havia escutado que o Cristo havia fechado seus olhos em mais de uma ocasião."


Passado o susto, o racional professor não tardou a elaborar a tese de que o movimento que havia testemunhado se devia a algum tipo de mecanismo instalado no interior da imagem, por trás dos olhos. Deste modo, procurou diminuir a importância da visão que tivera, e se incumbiu de examinar pessoalmente a imagem, tão minuciosamente quanto lhe fosse possível. – E por seus próprios exames pôde confirmar que a escultura de fato não possui nenhum mecanismo embutido, e que seus olhos são fixos, sendo que nem ao pressioná-los fortemente pode-se fazer com que se movam(!). Posteriormente, este fato veio a ser comprovado por diversas vezes, em variadas oportunidades.

A pedido de seus superiores, Pe. Antonio López escreveu então o relato do acontecido, em detalhes, mantendo a prudência e a discrição, por ordem de seu diretor espiritual. Foi somente no dia 16 de março de 1920, um ano depois do ocorrido, que sua declaração se tornou pública.

Ainda no início do ano de 1919, aconteceram as missões na Paróquia de Límpias. No último dia da missão, enquanto o sacerdote celebrava a Santa Missa, proferindo uma homilia baseada nas palavras de Provérbios (23,26), outros dois sacerdotes se encontravam aos confessionários. Uma menina de 12 anos entrou no confessionário e comunicou que a imagem do Santo Cristo estava com os olhos fechados. O sacerdote, pensando tratar-se de fruto da imaginação, naquele instante ignorou o acontecimento. Terminada porém a homilia do celebrante, aproximou-se deste o referido sacerdote, e ambos olharam para o crucifixo e notaram que algo extraordinário acontecia. Ao mesmo tempo, um dos fiéis que se encontrava na igreja exclamou em alta voz: "Olhem o crucifixo!"; e em poucos minutos os presentes confirmaram com entusiasmo o que a criança tinha visto primeiro. Houve muita emoção e choro, enquanto outros gritavam que haviam testemunhado um milagre e outros ainda caíam de joelhos.



Para verificar o fenômeno, quando se conseguiu esvaziar o templo o pároco subiu com uma escada de mão até a santa imagem, tocando o rosto e o colo com um pano, e pôde comprovar que a imagem transpirava, confirmando o fato mostrando a todos ali presentes seus dedos umedecidos.

A segunda manifestação aconteceu em 13 de abril de 1919, Domingo de Ramos, quando duas personalidades importantes de Límpias se aproximaram do Altar duvidosas do que ali acontecia, considerando que tudo fosse resultado de histeria coletiva e alucinação. Ao aproximarem-se, puderam ver os olhos e a boca do Cristo se moverem. Simultaneamente caíram de joelhos, pedindo perdão e clamando por misericórdia.

A terceira manifestação aconteceu em 20 de abril de 1919, Domingo da Ressurreição, na presença de um grupo de irmãs religiosas da ordem das Filhas da Santa Cruz, que viram os olhos e a boca do Santo Cristo se moverem enquanto rezavam o santo Rosário.

A partir de 14 de abril do mesmo ano, as manifestações se repetiram quase que diariamente, e como era de se esperar a igreja se mantinha abarrotada de gente que queria ver o milagre. Conta o Revmo. Pe. Barón Von Kleist, sacerdote da vila, que muitas eram as pessoas que testemunhavam que Nosso Senhor havia olhado para elas, a uns de forma sutil, a outros com certa tristeza, e inclusive a alguns com um olhar penetrante e de través. Muitos viram lágrimas em seus olhos, outros relatam ter visto gotas de sangue caírem das feridas produzidas pelos espinhos de sua coroa. Foram muitas e variadas as manifestações que se relataram, desde a imagem do Cristo a mover seus olhos na hora da bênção e pousando seu olhar cativante sobre toda a assembléia ali presente, até mover sua cabeça coroada de espinhos e suspirar.


Peregrinações e mais testemunhos

Peregrinações de todo lugar começaram a chegar à vila de Límpias. Jornais repletos de relatos detalhados sobre os acontecimentos inundaram a Imprensa de todas as regiões da Espanha e do exterior. Ao final de 1921, o número de peregrinos havia crescido de tal forma que o volume do tráfego de estrangeiros em Límpias superou a dos visitantes do Santuário de Lourdes. Príncipes, bem como dignitários da Igreja da Espanha, incluindo bispos e cardeais, visitaram o Santuário do Santíssimo Cristo da Agonia. Também vieram arcebispos de México, Peru, Manila, Cuba e outros países. São muitos os registros que se encontram na sacristia da igreja de Límpias, que contêm 8000 testemunhos de pessoas que atestam as manifestações. 2500 destes testemunhos foram dados "sob juramento". Entre as testemunhas, se encontravam membros de ordens religiosas, sacerdotes, médicos, advogados, professores, catedráticos, oficiais, vendedores, boiadeiros, descrentes e ateus.

O primeiro bispo a ser favorecido com a graça de poder presenciar as manifestações foi Dom Manuel Ruiz y Rodríguez, bispo de Cuba, que foi a Límpias após uma visita a Roma. De volta a seu país, escreveu uma carta pastoral a todos os membros de sua diocese, na qual expunha sem reservas tudo o que se relacionava ao crucifixo milagroso. Relatou como os olhos do Cristo se moviam de lado a lado e como o rosto, em dado instante, tomou uma expressão agonizante. Aqui começou uma grande devoção ao Cristo de Límpias também em Cuba.

Em 29 de julho de 1919, o Pe. Celestino María de Pozuelo, monge capuchinho, visitou a paróquia de Límpias e escreveu um relato que incluía a seguinte declaração: "O rosto apresenta uma expressão viva de dor, o corpo descolorido como se houvesse recebido cruéis chicotadas, e totalmente banhado de suor".

O Rev. Valentín Incio de Gijón conta que visitou Límpias em 4 de agosto de 1919. À sua chegada se uniu a um grupo de peregrinos que, nesse momento, estavam sendo testemunhas do milagre. Haviam nessa ocasião entre trinta e quarenta pessoas, mais outros dois sacerdotes, dez marinheiros e uma mulher que não parava de chorar. Padre Incio registrou por escrito:

"Ao chegar contemplei Nosso Senhor como se estivesse vivo; mais tarde sua cabeça conservou sua posição de costume e seu contorno a expressão natural, mas seus olhos estavam cheios de vida e olhavam em várias direções. (...) Em certo momento, seu olhar se centrou sobre os marinheiros, a quem contemplou por muito tempo, logo olhou languidamente em direção à sacristia por algum tempo. Nesse instante ocorre o momento mais comovedor de todos: Jesus pousa seu olhar sobre todos nós, mas de uma forma tão doce, tão suave, tão expressiva, tão amorosa e divina, que todos ali presentes caímos de joelhos, choramos e adoramos ao Cristo...

Nosso Senhor continuou movendo seus olhos e pálpebras, que brilhavam como se estivessem cheios de lágrimas, e moveu seus lábios suavemente como se estivesse dizendo algo ou rezando. Ao mesmo tempo, a mulher que mencionei anteriormente estava ao meu lado e viu o Mestre tratando de mover seus braços, lutando por relaxá-los da Cruz."

Dando testemunho sobre este relato estiveram três sacerdotes, os dez marinheiros e a mulher. Em 15 de setembro de 1919, dois bispos acompanhados de dezoito sacerdotes contaram o que ocorreu ao se prostrarem diante do crucifixo:

"Todos vimos o rosto do Santo Cristo entristecer-se ainda mais. Sua boca também estava mais aberta que o usual, Seus olhos se fixaram suavemente sobre os bispos e logo em direção à sacristia. Seus gestos simultaneamente tomaram expressão como os de um homem que está lutando para sobreviver."

Em 24 de dezembro de 1919, em companhia de um grupo de pessoas, o padre confessor da Igreja do Pilar em Zaragoza, Dom Manual Cubi, viu o Santo Cristo na agonia da morte: "Nosso Senhor tratava de soltar-se da cruz com movimentos violentos e convulsivos; levantou sua cabeça, moveu seus olhos e fechou sua boca. Em alguns momentos, pude ver sua língua e dentes. Por aproximadamente meia hora Ele nos mostrou o quanto lhe havia custado nossa salvação e quanto havia sofrido por nós no momento de seu abandono na Cruz."


Milagres de cura e o reconhecimento oficial da Igreja

Vários relatórios médicos foram apresentados. As manifestações milagrosas da imagem do Santo Cristo não foram as únicas relatadas, houve também muitas curas milagrosas. Em julho de 1920, houve mais de 1000 curas certificadas por médicos. Muito poucas destas curas aconteceram em Límpias, mas quando os peregrinos regressavam às suas casas e se colocavam em contato com objetos que haviam tocado o crucifixo.

O bispo de Santander, diocese à qual pertence Límpias, introduziu o processo canônico em 20 de julho de 1920. Um ano e um dia depois, foram dadas indulgências plenárias por um período de sete anos a todos os fiéis que visitassem o santo crucifixo.

O Núncio Papal visitou Límpias em setembro de 1921. Rezou em frente ao crucifixo e o examinou de todos os ângulos. O núncio declarou ao clero e aos nativos que a imagem lhe havia causado uma impressão muito profunda, e congratulou-os por terem sido escolhidos pelo Mestre, para que se revelasse através dessa imagem em sua igreja.

Os fenômenos públicos cessaram totalmente vários anos depois. Uma guerra nacional parecia que deixaria no esquecimento a imagem do Santo Cristo de Límpias, mas aquela devoção nascida do calor de eventos, ao que parece prodigioso, ainda perdura. É surpreendente a existência, em qualquer época, tanto de turistas como de peregrinações que continuam chegando atraídos pela fama dos prodígios e da formosura da santa efígie.

Atualmente, padres paulinos estão encarregados da Paróquia/Santuário, tratando de seguir a linha de seus antecessores e párocos do clero secular. Além da vida ordinária de uma paróquia, procura-se sempre fomentar o culto ao Santíssimo Cristo.

Todos os depoimentos apresentados até aqui poderiam ser concluídos com um registro muito breve, redigido por um jornalista que assim relatou os fatos acontecidos em sua presença:

"Pude perceber movimentos no queixo, como se estivesse pronunciando poucas sílabas em seus lábios. Fechei meus olhos fortemente e me perguntei: 'O que terá dito?' A resposta não se fez esperar; do mais profundo de meu coração pude escutar claramente estas palavras tão significativas e ungidas: 'AMA-ME'. É por esta razão que Nosso Senhor realizou tantas maravilhas diante dos olhos de crentes e não crentes. Em Límpias Ele demonstrou a agonia de sua morte e a magnitude de seu amor por nós, não somente para evocar sentimentos de compaixão e arrependimento, mas também para pedir que o amemos em resposta. Em nossa peregrinação de Miami ao Santo Cristo de Límpias, experimentamos uma grande consciência do Amor de Jesus e um desejo de responder a Ele com todo o coração."

No vídeo abaixo, enviado pelo colaborador Sr. Shane O'Doherty, vemos o quanto é real a expressão de agonia na imagem do Santo Cristo de Límpias, ao Altar do Santuário:



____________________
** Adaptado do artigo "O Cristo de Límpías", disponível no website "Aparições de Jesus e Maria", em:
http://aparicoes.leiame.net/reconhecidas/cristo-limpias.html
Acesso 27/6/014

• Ref. bibliográfica:
KLEIST, Ewald von. The Wonderful Crucifix of Limpias: Remarkable Manifestations. Charleston: Nabu Press, 1922 
www.ofielcatolico.com.br

Reflexões sobre as razões do sofrimento: por que existem a dor e o sofrimento neste mundo?

Por Pe. Francisco Faus



O sofrimento e o amor: dois modos de encarar a mesma dor

FAZ ALGUNS anos, no espaço de um mês, tomei conhecimento de dois casos muito parecidos, porém totalmente diferentes em seus efeitos: dois casos de pais que haviam perdido um filho adolescente de maneira repentina e trágica. Conversei longamente com o primeiro e, uns trinta dias mais tarde, com o outro. O primeiro afundara-se numa dor insuportável, que lhe abalou os alicerces da vida e lhe asfixiou a fé. Repetia depois, ao longo dos anos, num desabafo amargo e cheio de rancor, que a sua vida tinha perdido o sentido, que não sabia se Deus existia ou não, mas que não se importava, porque já o tinha apagado dos pensamentos e não queria saber mais dEle. Fechado na sua solidão desesperada, definhava e tornava difícil a existência dos que conviviam com ele. Sem a luz da fé, o homem fica abandonado ao turbilhão da vida, é como um cego golpeado por um mundo cruel e incompreensível, sem outra alternativa a não ser a revolta, a frieza, a resignação ou o desespero.

O segundo pai sofreu tanto como o primeiro. Perder um filho é uma das maiores dores da vida. Mas não permitiu que o sofrimento lhe vendasse os olhos nem se encapsulou na sua dor. No meio das lágrimas, fixou com força o olhar da alma em Cristo crucificado e, unido a Ele, rezou: “Pai, seja feita a vossa vontade”. Dentro do seu coração ele dizia: “Não entendo essa Tua vontade, Pai, mas eu creio em Ti, eu espero em Ti, eu Te amo acima de todas as coisas”.

No velório, ver esse pai – e a mãe igualmente, com o mesmo espírito - a rezar junto do corpo do filho, não causava constrangimento, mas comunicava uma serenidade superior a qualquer paz que se possa experimentar nesta terra, e elevava a todos para Deus, cuja presença era palpável. Era uma serenidade estranha e poderosa, misturada com uma dor muito forte, que ficava sendo um enigma para os frios e os descrentes. Era mesmo um lampejo da Sabedoria da Cruz, de que fala São Paulo (Cf. 1 Cor 1,18-25).


Entender e saber

Como este segundo pai, nós também muitas vezes não entendemos o sofrimento, e é natural. É difícil compreender a doença incurável, a incapacitação física, a ruína psicológica dos que amamos, o desastre econômico… Não entendemos, mas… sabemos, – com a certeza indestrutível da fé, - que Deus é Pai, que Deus é Amor (I Jo 4,8) e, portanto – como diz com cálido otimismo São Paulo, - nós sabemos que Deus faz concorrer todas as coisas para o bem daqueles que o amam (Rom 8,28). Faz concorrer também, e muito especialmente, os sofrimentos que Ele mesmo nos envia, ou os que Ele permite, ainda que os não queira, porque causados pela maldade dos homens.

Então, essa nossa fé – Dom precioso de Deus que não queremos extinguir, – nos permite o paradoxo inefável de sofrer e ter paz, de sofrer e manter no íntimo da alma uma misteriosa e fortíssima serenidade, uma imorredoura esperança. Assim sofreu Cristo na Cruz e assim sofreram os santos. Os que se entregam nas mãos de Deus Pai sentem que a Cruz se lhes torna doce; – uma Cruz sem Cruz, - e os inunda de uma suavidade amável. Eles escutam e escutarão sempre as palavras de Cristo, que nos diz, na hora da dor: "Vinde a mim, vós todos que estais aflitos sob o fardo, e eu vos aliviarei. Tomai o meu jugo sobre vós e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração, e achareis o repouso para as vossas almas. Porque meu jugo é suave e meu peso é leve” (Mt 11,28-30). E chegarão a exclamar, como Santa Teresa de Ávila: “Ó Senhor, o Caminho da Cruz é o que reservais aos vossos amados!”


A dor que faz amadurecer

Num conto intitulado "O Espelho", João Guimarães Rosa descreve, simbolicamente, uma experiência que os místicos cristãos conhecem em profundidade. O protagonista da estória empreende a aventura de descobrir o seu verdadeiro rosto – o seu autêntico eu – num espelho-símbolo. Tenta olhar de tal modo que depure da sua figura tudo o que é superficial, animal, passional e espúrio, e acaba não vendo nada: “Eu não tinha formas, rosto?” Prosseguindo na experiência, só “mais tarde, ao fim de uma ocasião de sofrimentos grandes”, quando “já amava – já aprendendo, isto seja, a conformidade e a alegria”, é que começou a ver-se como o esboço inicial de um menino, que emergia do vazio, isto é, viu o seu rosto verdadeiro, que começava a nascer. No final da estória, o protagonista pergunta-se: “Você chegou a existir?”...

O escritor lembra-nos, com isso, que a pessoa que não sofreu não aprendeu a amar de verdade; e que a pessoa que não aprendeu a amar, não amadureceu; pode-se dizer que ainda não está “feita”, ainda não “existe”.

Nós…, existimos? Somos aquele que deveríamos ser, aquele que Deus espera de nós? A resposta – sim ou não - dependerá quase sempre de como sabemos sofrer. Tem muita razão o poeta que diz: “As pessoas que não conhecem a dor são como igrejas sem benzer”.

Deus nos faz com o sofrimento, modela-nos como um escultor, dá-nos a qualidade de um verdadeiro homem ou mulher, de um verdadeiro filho de Deus. A Cruz – poderíamos dizer - é a grande ferramenta formativa de Deus.

Três meses antes de morrer, São Josemaria Escrivá fazia um rápido balanço da sua vida, e resumia: “Um olhar para trás… Um panorama imenso: tantas dores, tantas alegrias. E agora tudo alegrias, tudo alegrias… Porque temos a experiência de que a dor é o martelar do Artista, que quer fazer de cada um, dessa massa informe que nós somos, um crucifixo, um Cristo, o alter Christus [o outro Cristo] que temos de ser”.

Essa visão essencialmente cristã é a que lhe inspirou sempre a pregação sobre a dor, baseada na sua própria experiência de alma enamorada de Deus: “Não te queixes, se sofres", escrevia ele. "Lapida-se a pedra que se estima, que tem valor. Dói-te? – Deixa-te lapidar, com agradecimento, porque Deus te tomou nas suas Mãos como um diamante… Não se trabalha assim um pedregulho vulgar”.

Deus sempre nos faz bem por meio da Cruz, seja qual for, quando nós o “deixamos” fazer. Assim como nos salvou pela Cruz, assim também nos aperfeiçoa e nos santifica por meio da Cruz. Não exclusivamente mediante a Cruz – também nos santificam as muitas alegrias, os trabalhos que amamos, os carinhos que nos enriquecem…– mas certamente não sem ela, a Cruz.


A dor que nos purifica: sofrimento redentor

A Cruz, o sofrimento, purifica-nos. O sofrimento abre-nos os olhos para panoramas de vida maiores, mais verdadeiros e mais belos. O sofrimento ajuda-nos a escalar os cumes do Amor a Deus e do Amor ao próximo.

São inúmeras as histórias de homens e de mulheres que, sacudidos pelo sofrimento, acordaram: adquiriram uma nova visão – que antes era impedida pela vaidade, a cobiça e as futilidades - e perceberam, com olhos mais puros, que o que vale a pena de verdade na vida é Deus que nunca morre, nem trai, nem quebra; descobriram que nEle se acha o verdadeiro Amor pelo qual todos ansiamos e que nenhuma outra coisa consegue satisfazer; entenderam que o que importa são os tesouros no Céu, que nem a traça rói nem os ladrões levam (Mat 6,20). E perceberam, enfim, que os outros também sofrem, e por isso decidiram esquecer-se de si mesmos e dedicar-se a aliviá-los e ajudá-los a bem sofrer.

É uma lição encorajadora verificar que, na vida de São Paulo, as tribulações se encadeavam umas às outras, sem parar, mas nunca o abatiam. É que ele não as via como um empecilho, mas como Graças de Deus e garantia de fecundidade, de modo que podia dizer de todo o coração: "Trazemos sempre em nosso corpo os traços da morte de Jesus, para que também a vida de Jesus se manifeste em nosso corpo" (2 Cor 4,10). E ainda: "Sinto alegria nas fraquezas, nas afrontas, nas necessidades, nas perseguições, no profundo desgosto sofrido por amor de Cristo; porque quando me sinto fraco, então é que sou forte!" (2 Cor 12,10). E até mesmo, com entusiasmo: "Nós nos gloriamos das tribulações, pois sabemos que a tribulação produz a paciência; a paciência a virtude comprovada; a virtude comprovada, a esperança. E a esperança não desilude, porque o amor de Deus foi derramado nos nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado". (Rom 5,3-5). É o retrato perfeito da alma que se agiganta no sofrimento, que se deixa abençoar pela Cruz.


São João da Cruz

Outro exemplo muito significativo: uma perseguição injusta por parte de seus próprios confrades arrastou São João da Cruz a um cárcere imundo. Todos os dias era chicoteado e insultado. Mal comia. Suportava frios e calores estarrecedores. Para ler um livro de orações, tinha que erguer-se nas pontas dos pés sobre um banquinho e apanhar um filete de luz que se filtrava por um buraco do teto. Pois bem, foi nesses meses de prisão, num cubículo infecto, que ganhou o perfeito desprendimento, alcançou um grau indescritível de União com Deus e compôs, inundado de paz, a Noite escura da Alma e o Cântico Espiritual, obras que são consideradas dois dos cumes mais altos da Mística Cristã. E, uma vez acabada a terrível provação, quando se referia aos seus torturadores, chamava-os, com sincero agradecimento, “os meus benfeitores”...

As histórias de mulheres e de homens santos que se elevaram na dor poderiam multiplicar-se até o infinito: mães heróicas, mártires da caridade… Daria para encher uma biblioteca só a vida dos mártires do século XX, como São Maximiliano Kolbe, que na sua Cruz – na injustiça do campo de concentração nazista, nos tormentos e na morte – achou e soube dar o Amor e a vida com alegria.

Essas almas santas estão a escrever, no dizer de João Paulo II, “um grande capítulo do Evangelho do sofrimento, que se vai desenrolando ao longo da história. Escrevem-no todos aqueles que sofrem com Cristo, unindo os próprios sofrimentos humanos ao seu sofrimento salvífico…”

"No decorrer dos séculos e das gerações, tem-se comprovado que no sofrimento se esconde uma força particular, que aproxima interiormente o homem de Cristo, uma Graça particular. A esta ficaram a dever a sua profunda conversão muitos santos como São Francisco de Assis e Santo Inácio de Loyola. O fruto de semelhante conversão é não apenas o fato de que o homem descobre o sentido salvífico do sofrimento, mas sobretudo que no sofrimento ele se torna um homem totalmente novo. Encontra como que uma maneira nova para avaliar toda a sua vida e a própria vocação. Esta descoberta constitui uma confirmação particular da grandeza espiritual que, no homem, supera o corpo de uma maneira totalmente incomparável. Quando este corpo está gravemente doente, ou mesmo completamente inutilizado, e o homem se sente como que incapaz de viver e agir, é então que se põem mais em evidência a sua maturidade interior e grandeza espiritual; e estas constituem uma lição comovedora para as pessoas sãs e normais” (Papa João Paulo II em Salvifici Doloris, n. 26).


A dor que nos chama

Mas estamos falando dos mártires, dos grandes sofrimentos de alguns santos, e não devemos esquecer que também é a Cruz, a santa Cruz, cada uma das contrariedades, dores, doenças, injustiças e mil outros padecimentos menores, que Deus envia ou permite na nossa vida diária, para nos santificar.

Vai-nos ajudar a pensar nisso uma frase incisiva de São Josemaria, comentando a passagem da Paixão de Cristo em que os soldados obrigaram Simão Cireneu a carregar a Cruz de Jesus: “Às vezes, a Cruz aparece sem a procurarmos: é Cristo que pergunta por nós”.

A maior parte das “cruzes” aparece-nos sem as termos procurado. São as moléstias físicas ou psíquicas; são os aborrecimentos que surgem no mundo do nosso trabalho; são as dificuldades e aflições econômicas, o desemprego, a insegurança… Ou então os sofrimentos que surgem no convívio habitual com a família: asperezas de caráter do marido ou da mulher, desgostos com os filhos, parentes desabusados ou intrometidos, indelicadezas, ofensas…

Todo tipo de sofrimento nos interpela. Que resposta lhe damos? Não poucas vezes, a nossa reação espontânea é a irritação, o protesto, a aflição, a tristeza, o desânimo, a queixa. Há corações que não sabem sofrer, ficam perdidos diante dos sofrimentos cotidianos, e sucumbem esmagados por “cruzes” que sentem como se fossem uma laje que os asfixia, quando Deus lhas oferece como asas para voar.

Deveriam lembrar-se do mau ladrão. Junto de Jesus crucificado, deixou-se arrastar pelo ódio à Cruz. Morreu contorcendo-se e espumando de raiva na sua cruz inútil. Pelo contrário, o bom ladrão soube descobrir na sua cruz uma escada que lhe serviu para chegar a Cristo e subir ao Céu (Cfr. Luc 23,39-43).

Não vale a pena contorcer-se e protestar. Assim, Deus não nos poderá lapidar. Sofreremos mais e inutilmente, e nenhum proveito tiraremos da dor. Qualquer sofrimento nos interpela, diremos. Também Cristo foi interpelado, na Cruz, por todo tipo de sofrimento, por cada um daqueles padecimentos com que o feriram os nossos pecados. E como respondeu? De cada ferida que recebia, brotava um ato de Amor e uma virtude. Esse é o exemplo para o qual devemos olhar.

Acusado com mentiras revoltantes, responde com mansidão. Provocado maldosamente, responde com o silêncio. A cada chicotada, a cada espinho que lhe fere a cabeça, a cada prego que lhe atravessa as mãos e os pés, responde com a paciência; a cada ofensa, responde com o perdão; a cada escarro, a cada bofetada, responde com a humildade; a cada bem que lhe tiram (sangue, pele, honra, roupas) responde dando Amor; à rejeição dos homens, responde entregando-se totalmente por eles.


A cruz que ensina a amar

Perante cada pequeno desaforo, Deus nos diz: "Por que não respondes com um silêncio paciente e humilde como o meu, sem ódio nem discussões? Se te custa aguentar o caráter daquela pessoa, por que não te esforças por viver melhor a compreensão e a desculpa amável? Quando alguém te ofende, por que - sem deixares de defender serenamente o que é justo - não te esforças por perdoar, como Deus te perdoa?”

E, assim, quando as dores físicas ou morais – os desgostos, as decepções, os fracassos, os fastios, o tédio, a solidão, a depressão…- nos acabrunham, a voz cálida de Cristo crucificado convida-nos a ser generosos e a subir um degrau na escada do Amor; a crescer na mansidão, na bondade e na grandeza de alma; a aumentar a confiança em Deus; a ser mais desprendidos de êxitos, bem-estar e posses materiais; sobretudo, a meter-nos mais decididamente na fogueira de Amor que é o Coração de Cristo, com desejos inflamados de corresponder, de desagravá-lo, de imitá-lo, de unirmo-nos ao seu Sacrifício Redentor. Todos esses sentimentos fazem grande bem à alma cristã.


A cruz que faz “co-redimir”

Há algumas palavras de São Paulo que encerram um grande mistério, que encerram uma Verdade sobrenatural muito profunda sobre a vida nova do cristão. São as seguintes: "Agora me alegro nos sofrimentos suportados por vós. Completo na minha carne o que falta às tribulações de Cristo pelo seu corpo, que é a Igreja" (Coloss 1, 24).

A rigor, nada falta à Paixão de Cristo, pois o Sacrifício de Jesus mereceu infinitamente a Redenção de todos os crimes e pecados do mundo. Mas o Senhor quis que os cristãos, membros do seu Corpo Místico, “outros Cristos”, pudessem associar-se ao seu Sofrimento Redentor, unindo a Ele os seus próprios padecimentos.

Na Carta Apostólica já antes citada sobre o sentido cristão do sofrimento, o Papa João Paulo II desenvolve uma bela reflexão sobre esta verdade: “O Redentor sofreu em lugar do homem e em favor do homem. Todo homem tem a sua participação na Redenção. E cada um dos homens é também chamado a participar daquele sofrimento, por meio do qual se realizou a Redenção; é chamado a participar daquele sofrimento por meio do qual foi redimido também todo o sofrimento humano. Realizando a Redenção mediante o sofrimento, Cristo elevou ao mesmo tempo o sofrimento humano ao nível da Redenção. Por isso, todos os homens, com o seu sofrimento, podem tornar-se participantes do sofrimento redentor de Cristo” (n. 19).

E, mais adiante, glosando a frase de São Paulo que agora meditamos, o Papa complementa essa reflexão: “O sofrimento de Cristo criou o bem da Redenção do mundo. Este bem é em si mesmo inexaurível e infinito. Ninguém lhe pode acrescentar coisa alguma. Ao mesmo tempo, porém, Cristo, no mistério da Igreja, que é o seu Corpo, em certo sentido abriu o próprio Sofrimento Redentor a todo o sofrimento humano. Na medida em que o homem se torna participante dos sofrimentos de Cristo –em qualquer parte do mundo e em qualquer momento da história—tanto mais ele completa, a seu modo, aquele sofrimento, mediante o qual Cristo operou a Redenção do mundo” (n. 24).

Neste mundo em que, ao lado de tantas bênçãos de Deus, tantas almas sentem com força os ventos e tempestades do pecado, as almas generosas que sofrem com Amor, unidas ao Senhor, são como que “outros Cristos”, que contrabalançam com a sua “Cruz” o peso dos crimes do mundo. Tornados eles próprios uma só coisa com Cristo sofredor, são esses homens e mulheres bons – os santos, os mártires, os inocentes, os doentes, as crianças, os “humilhados e ofendidos”…- os que mantêm no mundo, como uma tocha acesa, a esperança da Salvação. Uma só mulher humilde que oferece, em sua cama de hospital, seus sofrimentos a Deus, faz mais pelo bem do mundo do que muitos dos que o governam.

É paradigmática a cena de São Francisco de Assis no Monte Alverne. Era a manhã de 14 de setembro de 1224, festa da Exaltação da Santa Cruz. Retirado nas solidões dos Apeninos, ele rezava ajoelhado diante de sua cela, antes de que raiasse a alva. Tinha as mãos elevadas e os braços estendidos, e pedia: “Ó Senhor Jesus, há duas graças que eu te pediria conceder-me antes de morrer. A primeira é esta: que na minha alma e no meu corpo, tanto quanto possível, eu possa sentir os sofrimentos que tu, meu doce Jesus, tiveste que sofrer na tua cruel Paixão! E o segundo favor que desejaria receber é o seguinte: que, tanto quanto possível, possa sentir em meu corpo esse amor desmedido em que tu ardias, tu, o Filho de Deus, e que te levou a querer sofrer tantas penas por nós, miseráveis pecadores”.

A oração foi ouvida. Um serafim, que trazia em si a imagem de um crucificado, imprimiu-lhe as chagas de Cristo nas mãos, nos pés e no lado. Francisco, até no corpo, tornou-se visivelmente um “outro Cristo”.

Ref.: FAUS, Francisco. A Sabedoria da Cruz, São Paulo: Quadrante, 2001.

A Epístola de Santo Inácio de Antioquia aos Esmirnenses

PUBLICAMOS O CONTEÚDO integral da Carta ou Epístola de Santo Inácio de Antioquia (67 - 110 dC) à igreja de Esmirna. Este importantíssimo registro histórico da Igreja primitiva, ao lado da Didaqué, a "Instrução dos Apóstolos" (veja aqui), constitui fortíssima evidência da Fé da Igreja Católica Apostólica Romana, tal como é preservada até hoje, já no tempo dos Apóstolos. Entre outras afirmações fundamentais, denomina a verdadeira Igreja de Cristo como Católica, isso nos primeiros anos do cristianismo, – antes mesmo da canonização da Bíblia Sagrada.



De Inácio, Bispo de Antioquia – Inácio, também chamado Teóforo, à Igreja de Deus Pai e de Jesus Cristo amado, Igreja que encontrou misericórdia em todo Dom da Graça, repleta de fé e amor, sem que lhe falte dom algum, agradabilíssima a Deus e portadora de santidade, situada em Esmirna, Ásia. Cordiais saudações em espírito irrepreensível e na Pa­lavra de Deus.

1. Glorifico a Jesus Cristo, Deus, que vos fez tão sábios. Cheguei a saber efetivamente que estais aparelhados com fé inabalável, como que pregados de corpo e alma na Cruz do Senhor Jesus Cristo, confirmados na caridade no Sangue de Cristo, cheios de fé em Nosso Senhor, que é de fato da linhagem de Davi, segundo a carne, Filho de Deus porém consoante a vontade e o poder de Deus, de fato nascido de uma Virgem e batizado por João, a fim de que se cumpra n’Ele toda a justiça. Sob Pôncio Pilatos, e o tetrarca Herodes foi também de fato pregado (na Cruz), em carne, por nossa causa – fruto pelo qual temos a vida, pela Sua Paixão bendita em Deus – a fim de que Ele por Sua ressurreição levantasse Seu sinal para os séculos em beneficio de Seus santos fiéis, tanto judeus, como gentios, no único corpo de Sua Igreja.

2. Tudo isso padeceu por nossa causa, para obtermos salvação. Padeceu de fato, como também de fato ressuscitou a Si próprio, não padecendo só aparente­mente, como afirmam alguns infiéis. Eles é que só vivem aparentemente, e, conforme pensam, também lhes sucederá: não terão corpo e se assemelharão aos demônios.

3. Eu porém sei e dou fé que Ele, mesmo depois da ressurreição, permanece em Sua carne. Quando se apresentou também aos companheiros de Pedro, disse-lhes: Tocai em mim, apalpai-me e vede que não sou espírito sem corpo. De pronto n’Ele tocaram e creram, entrando em contato com Seu Corpo e com Seu espírito. Por isso, desprezaram também a morte e a ela se sobrepuseram. Após a ressurreição, comeu e bebeu com eles, como alguém que tem corpo, ainda que es­tivesse unido espiritualmente ao Pai.

4. Encareço tais verdades junto a vós, caríssimos, embora saiba que também vós assim pensais. Quero prevenir-vos contra os animais ferozes em forma humana. Não só não deveis recebê-los, mas, quanto possível, não vos encontreis com eles. Só haveis de rezar por eles, para que, quem sabe, se convertam, coisa por certo difícil. Sobre eles, no entanto, tem poder Jesus Cristo, nossa verdadeira vida. Pois, se nosso Senhor só realizou as obras na aparência, então também eu estou preso só aparentemente. Por que então me entreguei a mim mesmo, à morte, ao fogo, à espada, às feras? Mas estar perto da espada é estar perto de Deus; encontrar-se em meio às feras é encontrar-se junto a Deus, unicamente, porém, quando em nome de Jesus Cristo. Para padecer junto com Ele, tudo suporto, confortado por Ele, que se tornou perfeito homem.

5. Alguns O negam, por ignorância, ou melhor, foram renegados por Ele, por serem antes advogados da morte do que da verdade. A estes não conseguiram converter as profecias, nem a lei de Moisés, nem mesmo até hoje o Evangelho e as torturas de cada um de nós. Pois sobre nós professam eles a mesma opinião. De que me vale um homem – ainda que me louve – se blasfema contra meu Senhor, não confessando que Ele assumiu carne? Quem não o professa negou-O por completo e carrega consigo seu cadáver. Os nomes deles, uma vez que são infiéis, não me pareceu necessário escrevê-los; preferiria até nem lembrar-me deles, enquanto se não converterem à Paixão, que é a nossa Ressurreição.

6. Ninguém se iluda: mesmo os poderes celestes e a glória dos anjos, até os arcontes – visíveis e in­visíveis hão de sentir o juízo, caso não crerem no sangue de Cristo. Compreenda-o quem for capaz de o compreender. Ninguém se ufane de sua posição, pois o essencial é a fé e o amor, e nada se lhes prefira. Considerai bem como se opõem ao pensamento de Deus os que se prendem a doutrinas heterodoxas a respeito da graça de Jesus Cristo, vinda a nós. Não lhes importa o dever de caridade, nem fazem caso da viúva e do órfão, nem do oprimido, nem do prisioneiro ou do liberto, nem do que padece fome ou sede.

7. Abstêm-se eles da Eucaristia e da oração, por­que não reconhecem que a Eucaristia é a carne de nosso Salvador Jesus Cristo, carne que padeceu por nos­sos pecados e que o Pai, em Sua bondade, ressuscitou. Os que recusam o dom de Deus, morrem disputando. Ser-lhes-ia bem mais útil praticarem a caridade, para também ressuscitarem. Convém, pois, manter-se longe de tais pessoas, deixar de falar delas em particular e em público, e passar toda a atenção aos Profetas, especialmente ao Evangelho, pelo qual se nos patenteou a Paixão e se consumou a Ressurreição. Fugi das dissensões, fonte de misérias.

8. Sigam todos ao bispo, como Jesus Cristo ao Pai; sigam ao presbitério como aos apóstolos. Acatem os diáconos, como à lei de Deus. Ninguém faça sem o bispo coisa alguma que diga respeito à Igreja. Por legítima seja tida tão-somente a Eucaristia, feita sob a presidência do bispo ou por delegado seu. Onde quer que se apresente o bispo, ali também esteja a comunidade, assim como a presença de Cristo Jesus também nos assegura a presença da Igreja Católica. Sem o bispo, não é permitido nem batizar nem celebrar o ágape. Tudo, porém, o que ele aprovar será também agradável a Deus, para que tudo quanto se fizer seja seguro e legítimo.

9. No mais, é razoável voltarmos ao bom-senso, e convertermo-nos a Deus, enquanto ainda for tempo. Bom é tomarmos conhecimento de Deus e do bispo. Quem honra o bispo será também honrado por Deus; quem faz algo às ocultas do bispo presta culto ao diabo. Que tudo redunde em graça a vosso favor, pois bem o mereceis. Vós me confortastes de toda maneira e Jesus Cristo a vós. As provas de carinho me seguiram, presente estivesse eu ou ausente. Que Deus seja a paga, por cujo amor tudo suportais, pelo que também haveis de chegar a possuí-lo.

10. Fizestes bem em receber, como diáconos de Cristo-Deus, a Fílon e Reos Agátopos – que pela causa de Deus me seguiram. Agradecem eles ao Senhor por vós, porque os confortastes de toda a sorte. Nada disso se perderá para vós. Dou-vos como preço de resgate meu espírito e minhas algemas que vós não desprezastes e de que também não vos envergonhastes. Jesus Cristo também de vós não se envergonhará, Ele que é a fé perfeita.

11. Vossa oração aproveitou à Igreja de Antioquia na Síria, de onde vim preso com grilhões, tão do agrado de Deus, e donde a todos saúdo, embora não seja digno de ser de lá, eu, o menor dentre eles. Mas, pela vontade de Deus, fui tido por digno, não pelo julgamento de minha consciência, mas sim pela graça de Deus. Desejo que ela me seja concedida em sua perfeição, a fim de que eu, por meio de vossa oração, encontre a Deus. No entanto, para que vossa obra seja per­feita, tanto na terra como no céu, cumpre que a Vossa Igreja, para honra de Deus, escolha um seu legado que vá até a Síria, para se congratular com eles, porque gozam novamente de paz, readquiriram sua grandeza e lhes foi restaurado o corpo. É a meu ver de fato obra digna enviardes um legado de vosso meio, com uma carta, a fim de celebrar com eles a paz que lhes foi con­cedida, consoante a vontade de Deus, pois já chegaram ao porto, graças à vossa oração. Sendo perfeitos, pensai também no que é perfeito, pois se tencionais agir bem, Deus está igualmente disposto a vo-lo conceder.

12. Saúda-vos a caridade dos irmãos de Trôade, donde vos escrevo por intermédio de Burrus, a quem enviastes juntamente com os efésios, vossos irmãos, para me fazer companhia. Animou-me em todo sentido. Todos deveriam imitá-lo como exemplo no serviço de Deus. A graça o recompensará em todo sentido. Saudações ao bispo, digno de Deus, a vosso presbitério tão agradável a Deus, aos diáconos, meus companheiros de serviço a cada um em particular e a todos em geral, em nome de Jesus Cristo, na Sua carne e no Seu sangue, na Paixão e na Ressurreição, em corpo e alma, na unidade de Deus e na vossa. Para vós a graça, a misericórdia, a paz, e a paciência para todo sempre.

13. Saudações às famílias de meus irmãos, com suas esposas e filhos e com as virgens, chamadas viúvas. Passar bem na força do Pai. Saudações da parte de Fílon que está comigo. Meus cumprimentos à família de Tavia, a quem desejo se robusteça na fé e na caridade, tanto corporal como espiritual. Saudações a Alceu, nome tão querido, a Dafnos o incomparável e a Eutecno. Enfim, a todos nominalmente. Passar bem na graça de Deus.

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Ref.: AQUINO, Felipe. Riquezas da Igreja. São Paulo: Canção Nova, 2009

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