Sociedade Bíblica do Brasil, ao publicar a Septuaginta, derruba antigo erro protestante


AINDA É COMUM nos meios protestantes, infelizmente, ouvir-se a afirmação de que “a Igreja Católica acrescentou sete livros à Bíblia" em algum momento da História. Segundo esta absurda teoria, esses livros (veja quais) seriam “apócrifos”. Um lamentável equívoco, – entre muitos outros, – difundido às vezes por puro desconhecimento e outras com a nítida intenção de caluniar a Igreja Católica.

Recentemente, a entidade protestante SBB (Sociedade Bíblica do Brasil), que publica as bíblias protestantes em nosso país, acabou com séculos deste grosso engano, quando publicou, para a surpresa de todos, a Septuaginta, – a antiga tradução bíblica que reúne os livros do Velho Testamento usada pelos Apóstolos de Jesus e que contém os mesmos sete livros católicos que eles, protestantes, alegavam ser um acréscimo feito pela Igreja Católica. – A SBB publicou o seguinte (vago e confuso) texto em uma nota de promoção da obra:

Septuaginta (ou Tradução dos Setenta): esta foi a primeira tradução. Realizada por 70 sábios, ela contém sete livros que não fazem parte da coleção hebraica, pois não estavam incluídos quando o cânon (ou lista oficial) do Antigo Testamento foi estabelecido por exegetas israelitas no final do Século I dC.
A igreja primitiva geralmente incluía tais livros em sua Bíblia. Eles são chamados apócrifos ou deuterocanônicos (sic) e encontram-se presentes nas Bíblias de algumas igrejas.
Esta tradução do Antigo Testamento foi utilizada em sinagogas de todas as regiões
do Mediterrâneo e representou um instrumento fundamental nos esforços empreendidos
pelos primeiros discípulos de Jesus na propagação dos ensinamentos de Deus.1

A nota é digna de citação por reconhecer que a versão dos textos bíblicos adotada pela Igreja primitiva é a mesma usada até hoje por nós, católicos, o que não deixa de ser um grande avanço. Além disso, reconhece categoricamente que os protestantes não seguem o cânon da Igreja de Cristo, e sim o da comunidade hebraica/israelita(!), – a suprema incoerência. – Apesar destes acertos, também há muitos e graves erros na apresentação da SBB, alguns realmente elementares. Dentro de nossas próprias limitações, procuraremos efetuar, abaixo, as devidas correções ao obscuro texto da SBB:

1) SBB: “Esta foi a primeira tradução. Realizada por 70 sábios, ela contém sete livros que não fazem parte da coleção hebraica, pois não estavam incluídos quando o cânon (ou lista oficial) do Antigo Testamento foi estabelecido por exegetas israelitas no final do Século I dC.

Correção: os sete livros não fazem parte da “coleção hebraica”, porque esta é muito posterior à coleção cristã, datando no mínimo do final do primeiro século, – sendo que fontes respeitadas datam a sua conclusão no segundo século, como é o caso da Enciclopédia Judaica (veja aqui). – Já a Septuaginta é anterior a Cristo (aprox. séc. III aC). Trata-se, portanto, de um erro crasso. O “detalhe” que faz toda a diferença é que essa lista sem os sete livros em questão foi produzida pelos judeus que perseguiram Jesus e os Apóstolos e que queriam extirpar os livros cristãos do meio judaico. Confirmando este  fato, diz a SBB em espantosa e claríssima contradição: “A igreja primitiva geralmente incluía tais livros em sua Bíblia”(!).

Outro "detalhe" imprescindível: esta “Igreja primitiva” citada no texto é, evidentemente, a primeira e única Igreja deixada por Jesus e continuada pelos Apóstolos, a única Igreja que possui uma história bimilenar, a mesma Igreja Católica e Apostólica atualmente sediada em Roma.

Mais um "detalhe" que muda tudo: os protestantes aceitam a autoridade da Igreja Católica para definir o cânon do Novo Testamento, – que é o cumprimento e a consumação de toda a mensagem das Sagradas Escrituras para nós, cristãos, – mas a renegam na definição do cânon do Antigo Testamento. Baseados em que autoridade fizeram tal escolha? Esta é uma pergunta sem resposta.


2) SBB: “
Eles são chamados apócrifos ou deuterocanônicos e encontram-se presentes nas Bíblias de algumas igrejas.

Correção: os sete livros são chamados “apócrifos” única e exclusivamente pelos inimigos de Cristo, que os excluíram de seu particular cânon judaico, feito somente no final do primeiro século. Deram-lhes desonestamente o nome de “apócrifos” para desclassificá-los; os protestantes, ávidos por se diferenciarem cada vez mais e em definitivo da Igreja Católica, adotaram o erro e se uniram aos carrascos e escarnecedores de Jesus.

De fato, o termo "apócrifo" sempre significou um "escrito de assunto sagrado não incluído pela Igreja no cânon das Escrituras autênticas e divinamente inspiradas"2, e "texto religioso cristão que não se inclui na lista canônica de livros da Bíblia"3. Logo, demonstrado está que “apócrifos”, na realidade, são os livros que ficaram de fora do cânon da Igreja, entre os quais não se incluem os livros excluídos pelos protestantes. Os que constam da Septuaginta evidentemente estão incluídos no cânon da Igreja, e isto a SBB inadvertidamente reconhece, quando afirma: “A igreja primitiva geralmente incluía tais livros em sua Bíblia”.


3) SBB: “
Esta tradução do Antigo Testamento foi utilizada em sinagogas de todas as regiões do Mediterrâneo e representou um instrumento fundamental nos esforços empreendidos pelos primeiros discípulos de Jesus na propagação dos ensinamentos de Deus.

Aqui não há o que corrigir, pois a SBB simplesmente confessa que a Septuaginta, isto é, o Velho Testamento da Bíblia cristã e católica de sempre, foi sempre utilizada pela Igreja, desde o princípio, inclusive nas sinagogas "de todas as regiões do Mediterrâneo" como "instrumento fundamental" para a evangelização. Corretíssimo. Isso explica o porquê de tais livros já se encontrarem, inclusive, na Bíblia de Gutemberg, impressa cerca de um século antes da Reforma Protestante.

• A Bíblia de Gutemberg pode ser acessada e integralmente consultada na Biblioteca Britânica, neste link: British Library/Gutember Bible

Martinho Lutero
Lutero traduziu para o alemão os livros deuterocanônicos. Sua edição de 1534 traz o mesmo catálogo dos católicos. A sociedade Bíblica protestante, até o séc. XIX, incluía os deuterocanônicos em suas edições da Bíblia. Depois disso os excluiu, e para justificar essa grave heresia, elaborou uma coleção de calúnias contra a Igreja Católica. Até hoje certas seitas pentecostais e neo pentecostais costumam levianamente pregar uma justificativa mentirosa para cada livro que renegaram.

Logo, o que o protestantismo usa não é de fato a Bíblia dos cristãos, mas o cânon farisaico do Velho Testamento, junto ao cânon católico do Novo Testamento. Desse modo, o que o protestantismo prega não pode de modo algum ser a verdade, já que defende o princípio da Bíblia como "única regra de fé e prática".

Vejamos agora o resultado do curioso proceder da SBB para com o público protestante: a bíblia protestante "Almeida", que contém o Novo Testamento conforme o cânon da Igreja Católica e o Velho Testamento faltando sete livros, numa encadernação bem cuidada custa aproximadamente R$ 44,00. Pois bem. Os mesmos protestantes que retiraram aqueles sete livros desta bíblia, agora disponibilizam para venda a Septuaginta, que contém os mesmos sete livros que haviam tirado, por valores em torno dos R$ 134,00(!). 

Ora informamos a todos os protestantes bem intencionados que em qualquer livraria católica se pode adquirir uma excelente versão da Bíblia completa, como sempre foi usada pela Igreja de Cristo desde o início, conforme a própria SBB admite, por menos de R$20,00.

Caríssimos irmãos separados, o seu Velho Testamento é exatamente a Septuaginta que as lojas protestantes tentam vender-lhes por altos valores, depois de ter-lhes vendido uma bíblia incompleta. Que ninguém vos engane mais uma vez.


No esclarecedor vídeo abaixo, o padre Paulo Ricardo de Azevedo Jr. trata sobre o mesmo tema e aprofunda a questão:




_____
** Adaptado do texto de Fernando Nascimento para o blog 'Fim da Farsa'

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1. Esta nota encontrava-se até recentemente no website da SBB, em http://sbb.org.br/interna.asp?areaID=45, porém não se encontra atualmente, ainda que permaneça replicada em diversas páginas protestantes, geralmente acompanhada de críticas.
2. Dicionário Enciclopédia Encarta 99.

3. Dicionário Caldas Aulete digital.
www.ofielcatolico.com.br

24 comentários:

  1. Excelente, Henrique! Pra quem gosta de ler é mais do que esclarecedor o seu texto.

    Antunes

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  2. É aquele velho ditado: "Mentira tem perna curta".

    Apesar da mentira protestante não ter uma perna tão curta assim, eles sempre caem em contradição, e acabam eles mesmos expondo suas mentiras.

    O mostrado aqui neste artigo é algo que todo católico deve saber, não para tripudiar em cima dos protestantes, mas sim para ensinar e defender a fé católica.

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  3. Aguardando ansiosamente o escarcéu dos protestantes por aqui.

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    1. Carlos Dias: Concordo; muito protestante desavisado vai provocar escarcéu. Sou protestante Luteranoe penso que está mais que na hora de lembrar o que a Bíblia Sagrada fala sobre os resultados ao "mudar uma vírgula", portanto deixemos as conseqüências aos que deliberadamente mudaram ao seu bel-prazer o que Deus inspirou. Alcino Roehrs - S.S.Caí - RS

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  4. A Bíblia Ortodoxa possui mais livros que a Católica - I Esdras, III e IV Macabeus,Salmos de Salomão,Odes, Oração de Manassés e o Salmo 151 - quando e porque esses livros foram retirados ou acrescentados?

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    1. Meu caro irmão, esta "ortodoxa" é uma denominação oriental monofisita, ela é da Etiópia.

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    2. O que eu posso dizer é que: Até o ano de 1054, os Ortodoxos usavam o mesmo Cânon Bíblico (lista dos livros Sagrados) da Santa Igreja Católica Apostólica Romana. A partir do Século XVII a Igreja ortodoxa Russa, também retirou os Deuterocanônicos do AT de suas Bíblias, daí então, passaram a realizar vários “concílios ortodoxos”. Os livros 3 Esdras e 3 Macabeus foram declarados canônicos nos concílios ortodoxos de Jessy na Romênia (1642) e Jerusalém (1672). Já a Igreja ortodoxa copta de Etíope tem 81 livros ao todo na Bíblia, contendo a mais no NT “Atos de Paulo”, “1 Clemente”, “Pastor de Ermas”, etc. No AT da Igreja Etíope foi adicionado o “Livro dos Jubileus”, o “Livro de Enoque”, alem de 2 Esdras. A “Pesshitta” (Bíblia da Igreja Ortodoxa Siríaca) EXCLUIU as Epistolas Católicas 2 São Pedro, 2 e 3 São João, São Judas e Apocalipse de São João, conforme o livro “O Cânon Bíblico” do irmão Prof Alessandro Lima.

      Seja Louvado Nosso Senhor Jesus Cristo!

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  5. Em tudo na nossa Igreja tem explicação! Não precisamos inventar nada para os fiéis! Salve a verdadeira igreja de Cristo! Católica, apostólica, romana! Amém!

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  6. Ou seja, o velho testamento o livro dos Judeus é incompleto?

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    1. A questão não é estar "incompleto", anônimo. A questão é que se trata do Velho Testamento DOS JUDEUS e não cristão (definido pela Igreja de Cristo).

      A Paz de Nosso Senhor

      Apostolado Fiel Católico

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  7. ''Enciclopédia Judaica confirma que não havia “cânon judaico” fechado até o Século II d.C''

    Fonte:

    http://www.apologistascatolicos.com.br/index.php/apologetica/deuterocanonicos/825-enciclopedia-judaica-confirma-que-nao-havia-canon-judaico-fechado-ate-o-seculo-ii-d-c

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  8. Parabéns, eu mesmo já tive a oportunidade de ouvir a falsa acusação protestante de que a Igreja acrescentou livros a Bíblia numa tentativa desesperada de conter a reforma. Felizmente eu já conhecia a Bíblia de Gutemberg e não fui enredado em tal mentira. A mentira tem perna curta e agora temos mais argumentos ainda pra abrir os olhos dos enganados.

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  9. Excelente artigo, Henrique. Parabéns!
    Uma pergunta: de que época é a Septuaginta?

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    1. Como os textos foram traduzidos em longos períodos (para o grego koiné), a origem da Septuaginta é geralmente datada como tendo início no século III aC. Evidentemente, teólogos protestantes tentaram lançar dúvidas sobre essa informação, mas não todos, pois as evidências são realmente sólidas.

      Até mesmo o célebre historiador judeu Flávio Josefo registrou a tradução da Torah para o grego koiné por sábios judeus no século III aC, em sua obra "Antiguidades Judaicas".

      A Paz de Nosso Senhor Jesus Cristo

      Apostolado Fiel Católico

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  10. Parabéns a toda equipe pelo artigo e pelo excelente trabalho. Nos últimos meses venho acompanhando e degustando cada postagem e, sendo católico,me alegrando por achar aqui um espaço para ampliar o conhecimento. Henrique no passado fui confundido por irmãos separados porém, pela Graça de Deus, procurei respostas e aqui estou. Admiro seu trabalho e lhe desejo sucesso e a paz de Nosso senhor Jesus Cristo. Que Deus lhes abençoe.

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  11. Como sempre mais um belo artigo do apostolado, parabéns e que Deus abençoe vocês.

    Paz e Bem !

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  12. Caro Henrique,

    Quero fazer uma pergunta simples, mas que talvez não tenha uma resposta muito simples.

    Segue: Em minhas leituras da Bíblia, as vezes fico em dúvida, e como não quero "protestantizar" com minha interpretação pessoal, qual seria a melhor fonte católica, digamos assim, para interpretação de passagens bíblicas em geral?

    Paz e Bem!

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  13. Acho que minha pergunta ficou muito simplória, então apenas completando, sei que temos as homílias diárias de diversos padres (acompanho a homilia diária do Pe. Paulo Ricardo), diversos cometários de santos, que inclusive leio também diariamente junto com a liturgia do dia.

    A dúvida seria mais uma fonte para leituras fora da leitura diária, pois tenho lido entre 2 e 4 capítulos da Bíblia diariamente, e normalmente nessas leituras que surgem dúvidas de interpretação.

    Grato.

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  14. Ótimo texto. Parabéns.
    Abraço,
    Pedro Erik

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  15. Essa versão da septuaginta tem algum livro que não consta na Bíblia católica? Me falaram que teria um livro de 3 Macabeus e talvez algum outro...

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  16. Não sei se a fonte é confiável, mas na Wikipédia, sobre a Septuaginta, consta que está a Igreja Católica não adota todos os livros da Septuaginta, e que quem adota todos os livros que constam nela é a Igreja Ortodoxa. Essa informação é confiável?

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    1. Wikipedia não é totalmente confiável, mas pode servir como ponto de partida para a pesquisa: colhe-se uma informação por lá e depois vai-se confirmá-la nos bons livros.

      Quanto à sua pergunta, vamos respondê-la em breve, com detalhes, na próxima postagem de nossa série de estudos "Introdução à Bíblia ou às Sagradas Escrituras", que você pode acessar no endereço abaixo:

      http://www.ofielcatolico.com.br/2005/12/introducao-biblia-ou-as-sagradas.html

      A Paz de Nosso Senhor Jesus Cristo

      Apostolado Fiel Católico

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  17. Muito obrigado! Sei que será um ótimo artigo. Parabéns pelo site e por todo o trabalho de pesquisa.

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