Como estamos criando nossos filhos?


PERCEBE-SE ATUALMENTE uma crise educativa, em nível mundial, que se torna cada vez mais preocupante em todo o mundo. De modo geral, constata-se que o nível médio de educação diminui drasticamente e que o processo formativo dos jovens enfrenta grandes dificuldades. As crianças e os adolescentes aprendem cada vez menos; a autoridade dos professores tende a desaparecer e os jovens sentem-se sós e desorientados. Isso numa época de suposto notável desenvolvimento da pedagogia. Nunca houve tantas pessoas estudando essa ciência, e nunca tivemos tantas teorias pedagógicas como agora.

No Brasil, a crise educativa é cada vez mais preocupante, apesar de tantos eminentes pedagogos. Um estudo publicado em 2012 comparou a educação em 40 países e mostrou o Brasil, então a 6ª Economia do mundo, em penúltimo lugar na educação(!), atrás de países como Singapura (5º), Romênia (32º), Turquia (34º) e Argentina (35º)1. – Certamente, uma das causas da atual crise educativa no Brasil não é a falta de recursos, mas um problema bem mais profundo: não sabemos mais como ver e tratar os nossos filhos.

Até a metade do século passado, tínhamos uma ideia bem clara sobre quem eram os nossos filhos: acima de tudo, eram considerados dons de Deus, presentes que nos tinham sido dados para serem tratados com toda atenção, carinho e responsabilidade. A paternidade era considerada uma participação especial no Poder criador de Deus, de modo que os filhos eram tratados com respeito e a vida era acolhida com gratidão, alegria e generosidade. Era assim porque o nosso modo de viver, até então, era marcado pelos ensinamentos e pela cultura cristã.

Seguia-se o exemplo de figuras como a de Ana (cf. 1Sm 1), uma mulher estéril que todos os anos ia ao Templo prestar culto a Deus, e que certa vez teve a ousadia de pedir um filho ao SENHOR. Depois que suas ferventes orações são atendidas, ela retorna ao Templo para agradecer o dom recebido e para consagrar a vida daquele novo ser humano a Deus. Ana era plenamente consciente de que a vida procede de Deus, para Quem nada é impossível, e que toda a vida, no fim, a Ele retorna.

Especialmente a partir da “revolução” de maio de 1968 (Sorbonne) uma nova cultura surgiu, na qual a visão bíblica e a cultura/espiritualidade judaico-cristã foram abandonadas. Freud, em sua época, sonhava com o dia em que fosse separada a geração dos filhos da estrutura familiar, pensamento que se tornou comum em nossos dias. Desde então, procura-se incutir nos jovens a ideia de que ter filhos é um obstáculo, algo que tolhe a liberdade, que impede a realização pessoal. Os filhos passaram a ser considerados uma ameaça, e a gravidez uma espécie de doença, que deve ser sempre evitada. Uma notícia de gravidez, antes motivo de festa para toda a família, especialmente o papai orgulhoso, hoje é comumente recebida como má notícia, quase uma desgraça, algo que só vai atrapalhar os planos de riqueza e de sucesso... A graça de ter um filho passou a ser entendida como uma “ameaça”, e não mais como dom, como o presente divino que é.

Daí surgem problemas seríssimos. Consta de um popular magazine inglês que, naquele país, no ano 2011, um dos pedidos mais feitos ao “Papai Noel” pelas crianças foi um pai; outro pedido comum foi um irmão. Uma situação tão triste seria impensável se apenas uma ou duas gerações atrás. O risco, hoje, é que os adultos passem a considerar os próprios filhos como uma espécie de “mercadoria”; mais um mero sonho de consumo que deve ser realizado num momento "milimetricamente" determinado. Os filhos, cada vez mais, são frutos de cálculos matemáticos, e não do amor entre homem e mulher. Isso deixa feridas graves nas crianças.

Deixar de considerar os filhos como dons divinos e tê-los simplesmente como resultado de uma técnica é um passo importante tanto para a desconfiguração das famílias quanto para arruinar a educação. Paradoxalmente, vem ocorrendo com frequência que os pais procurem “superproteger” os filhos, mimando-os excessivamente e buscando livrá-los de qualquer desgosto e de toda dor, por mínima que seja, enquanto, – ao mesmo tempo, – não querem encontrar tempo para dedicar-se à difícil tarefa educativa dos mesmos. As crianças são enviadas cada vez mais cedo às creches e escolinhas, entregues às mãos de educadores desconhecidos, aos quais é delegada a tarefa sagrada de transmitir os valores que as crianças levarão por suas vidas inteiras e que deveriam receber em casa, no seio familiar.

Nesse ponto, devemos talvez voltar nosso olhar ao Livro que formou a civilização ocidental. O Evangelho conta-nos somente uma cena da adolescência de Jesus e do seu “processo educativo”. Quando Ele tinha 12 anos de idade, foi levado ao Templo por Maria e José para a festa da Páscoa (Cf. Lc 2). Todo jovem judeu, ao cumprir essa idade, passava a ser considerado adulto na fé.

Quando aquela família especialíssima retornava para casa, José e Maria se distraíram e Jesus, como se fora já um verdadeiro adulto, permaneceu no Templo discutindo com os doutores da Lei. – Ao reencontrá-lo, Maria o repreende, mesmo tendo consciência de Quem estava diante dela; que não se tratava de apenas um “adulto” na fé, mas do próprio Filho de Deus! Ainda assim, diz a doce Virgem Maria: “Meu filho, que nos fizeste? Teu pai e eu te procurávamos cheios de aflição!”. E Jesus, depois de manifestar, também Ele próprio, a plena consciência da sua Identidade divina ('Não sabíeis que devo ocupar-me das coisas do meu Pai?'), retorna serenamente com Maria e José, e a Sagrada Escritura faz questão de frisar que o próprio Senhor “era-lhes submisso em tudo”(!).

Mais do que impressionante! Maria e José não fugiram de sua responsabilidade educativa em relação àquele adolescente que sabiam ser o próprio Filho do Deus Vivo! E Jesus, sendo verdadeiro Deus, voltou para casa com sua família terrena, obedecendo-lhes exemplarmente até os 30 anos!

Vemos, assim, que na Família de Nazaré ninguém fugia da própria responsabilidade, uma vez que eram unidos por um verdadeiro Amor, o qual um pai e uma mãe demonstram não apenas sendo "bonzinhos" e dizendo "sim" o tempo todo, nem sendo indiferentes ou superprotetores, mas na autoridade, na humildade e no serviço.

Fica nítido, por tudo o que foi demonstrado até aqui, que para se recuperar o sentido da verdadeira educação, – para se enfrentar a gravíssima crise educativa atual, – devemos ajudar as famílias a voltarem a considerar a vida como Dom de Deus, e a tratarem os seus filhos com verdadeira diligência, não delegando toda a responsabilidade a outras pessoas ou instituições. A tarefa é desafiadora, sim, mas pode ser realizada especialmente à luz da fé que por séculos iluminou a nossa sociedade. Devemos voltar a seguir o modelo da Sagrada Família, mais do que parâmetros contraditórios de uma “revolução” que só trouxe a exaltação do egoísmo e da irresponsabilidade, e o consequente aumento do sofrimento dos mais frágeis.

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1. Portal G1, "Ranking de qualidade da educação coloca Brasil em penúltimo lugar", em
http://g1.globo.com/educacao/noticia/2012/11/ranking-de-qualidade-da-educacao-coloca-brasil-em-penultimo-lugar.html 
Adaptado de estudo do Pe. Anderson Alves, da Diocese de Petrópolis (RJ), doutorando em Filosofia pela Pontifícia Università della Santa Croce, Roma. Este artigo foi publicado originalmente pela Agência Zenit, em 30-12-2012.
Acesso 27/10/014.

A força dos símbolos

Como foi que passamos disto...

...para isto?!

DOIS PRINCÍPIOS básicos, aceitos com unanimidade, balizam o trabalho das empresas especializadas em estratégias de comunicação. O primeiro diz que existem apenas dois tipos de instituição: a que já sofreu e superou uma crise e a que ainda irá passar por uma. O segundo princípio dita que as crises, se bem gerenciadas, servem para aprimorar as instituições.

A Igreja Católica, ao longo de 21 séculos de história, sofreu e teve que lidar com diversas e diferentes crises: das perseguições promovidas pelo império romano nos primeiros séculos da era cristã àquelas promovidas pelos regimes ateus e totalitários que marcaram o século 20, até o atual genocídio dos “adoradores da cruz” em países no Oriente e no continente africano com forte atuação do Estado Islâmico.

Na Europa, a crise que afeta o cristianismo tem raízes no iluminismo e é impulsionada por aquilo que o Papa emérito Bento XVI magistralmente denominou “ditadura do relativismo”. Usando a desculpa da separação entre a Igreja e o Estado, países que outrora tinham forte identidade cristã, agora negam suas raízes culturais e expulsam do ambiente público os símbolos cristãos; junto com eles, vão-se os valores que, em boa parte, os consolidaram como nação. O resultado mais enigmático dessa crise são conventos que se tornaram hotéis em Portugal, templos católicos dessacralizados e vendidos na Holanda, Inglaterra, Irlanda, Alemanha... e que se tornaram restaurantes, bares, cervejarias e até mesmo pistas de skate.

No Brasil e na América-latina, a crise se manifesta principalmente com a migração de cristãos do catolicismo para as igrejas autodenominadas "evangélicas".

Esse estado de coisas exige uma reflexão séria por parte da Igreja católica em muitos aspectos. Entre eles, a necessidade de resgatar o seu universo simbólico que, nos últimos anos, foi em boa medida descuidado, comprometendo a sua visibilidade em meio aos espaços públicos e poder de comunicação.

Pense-se, por exemplo, que as procissões e festas litúrgicas da Igreja Católica foram fontes de inspiração para muitas empresas descobrirem o valor dos eventos como forma de promoção institucional; que a eficácia da cruz como símbolo chamou a atenção de profissionais do marketing para a necessidade da criação de um logotipo visual simples para identificar marcas; que o hábito eclesiástico, além de ajudar os religiosos a não cair nem no desleixo e nem no consumismo, lhes confere visibilidade e identidade; que o som dos sinos propagados a partir de altas torres até seis vezes maiores que as demais construções locais podem atingir quase a totalidade dos habitantes de um bairro ou pequena cidade. – São exemplos bem concretos de como o mundo secular evoluiu e aprendeu com a Igreja, no correr dos tempos.


E disto...

...Para isto?!

Hoje, por razões diversas, muitos templos católicos são construídos obedecendo a um padrão estético focado na mera praticidade e sem nenhuma identidade simbólica ou visual com a sua fé, com a sua história, com os seus elementos e princípios sagrados...

Os afrescos com cenas bíblicas deram lugar às paredes lisas, brancas, sem graça (e sem apelo visual algum que procure elevar o espírito à Graça transcendente); Sacrários foram relegados a um canto, separado, escondido ao interno da Igreja; Altares de pedra foram substituídos por "práticas" mesas de madeira ou metal, que podem ser removidas para adaptar o espaço a outros usos(!), como encontros de pastorais sociais e grupos diversos (alguns dos quais discutem temas que pouco ou nada tem a ver com cristianismo), assim como as fachadas com altas torres, – que por si só, além de identificar a construção como templo sacro, são um convite à transcendência, – foram simplesmente descartadas. Os templos tornaram-se iguais às outras construções, de casas ou empresas comuns, e não poucas vezes se parecem com simples galpões.

O resultado são igrejas esteticamente frias; sob o ponto de vista comunicativo, inexpressivas, invisíveis, sem diferencial.

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Adaptado do bom editorial de "O São Paulo" ed. 3049
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Método de São Leonardo de Porto-Maurício (Excelências da Santa Missa – XIV)


Leia o primeiro capítulo

Por S. Leonardo de Porto-Maurício, da Ordem dos Frades Menores

S. Leonardo de
Porto-Maurício
O TERCEIRO MÉTODO para assistir com fruto à Santa Missa é como que a média dos dois precedentes. Não exige a leitura de inúmeras preces vocais do primeiro, nem obriga a um espírito de contemplação tão elevado como o segundo. Bem compreendido, porém, é o mais conforme ao espírito da santa Igreja, que almeja ver-vos unidos aos sentimentos do sacerdote que celebra.

Ora, o sacerdote deve oferecer o Sacrifício pelos quatro fins explicados na instrução precedente (imagem abaixo), pois que a Missa, no dizer de São Tomás, é o meio mais eficaz de cumprir os quatro grandes deveres que temos para com DEUS. Por conseguinte, já que exerceis de certo modo o ofício do sacerdote, ao assistir à Missa, deveis aplicar-vos quanto possível à consideração dos ditos quatro fins, que atingis muito facilmente se, durante a Missa, fizerdes as quatro ofertas indicadas a seguir.

Tomai convosco, durante algum tempo, os escritos deste pequeno livro, até que tenhais aprendido bem estes atos, ou ao menos até lhes terdes penetrado bastante o sentido.


Clique sobre a imagem para ampliar

Logo que a Santa Missa começa, enquanto o sacerdote se humilha ao pé do Altar, dizendo o Confiteor, fazei também um pequeno exame, excitai em vosso coração um ato de contrição sincera, pedindo a DEUS perdão de vossos pecados.

Implorai, ao mesmo tempo, o auxílio do ESPÍRITO SANTO e da Santíssima Virgem Maria, a fim de assistir à Santa Missa com todo o respeito e devoção possíveis. Em seguida, dividi em quatro partes o tempo da Missa, para, nessas quatro partes, vos desobrigardes dos quatro grandes deveres, e isso do modo que segue:

Na primeira parte, que irá desde o começo até ao Evangelho, cumpris o primeiro dever de honrar e louvar a majestade de DEUS, digno de receber honras e louvores infinitos. Para isso humilhai-vos em JESUS, abaixando-vos na consideração do vosso nada, e confessai sinceramente que nada sois absolutamente diante da imensa Majestade divina. Dize-lho, humilhando-vos não só em vosso coração como também exteriormente, [do modo seguinte], pois importa assistir à Santa Missa com uma atitude recolhida e modesta:

Ó meu DEUS, adoro-vos e reconheço-vos como meu Senhor e o Mestre de minha alma. Tudo que sou, tudo que tenho, reconheço dever a vós. E, como vossa soberana Majestade merece homenagem e adoração infinitas, e eu sou a mais pobre das criaturas, absolutamente incapaz de pagar-vos esta grande dívida, ofereço-vos os méritos das humilhações e homenagens que JESUS vos tributa sobre o Altar. O que Ele faz, eu tenho a mesma intenção de fazer. Humilho-me e prostro-me com Ele diante de vossa Majestade, e vos adoro pelas próprias humilhações que JESUS vos oferece. Regozijo-me e felicito-me de que vosso FILHO bem amado Vos preste por mim uma homenagem e uma honra infinitas. Amém.

Fechai agora o livro; continuai a fazer muitos atos interiores, comprazendo-vos de que DEUS seja infinitamente honrado, e repeti muitas vezes: “Sim, meu DEUS, regozijo-me da honra infinita que resulta deste Santo Sacrifício, para Vossa Majestade; felicito-me e regozijo-me quanto posso.” Não vos preocupeis em observar à risca as palavras que vos indico, mas usai aquelas que vos inspirar vossa piedade, mantendo-vos recolhido e unido a DEUS. Deste modo tereis saldado bem a primeira dívida.

Durante a segunda parte da Santa Missa, – do Evangelho à Elevação, – desobrigar-vos-eis do segundo dever. Lançando um rápido olhar aos vossos pecados, e vendo a dívida imensa que por eles contraístes com a Justiça Divina, dizei, com o coração humilhado:

Eis aqui, ó meu DEUS, este traidor que tantas vezes se revoltou contra vós. Infeliz que sou! Cheio de dor, detesto, odeio, com a mais viva contrição, meus enormes pecados, e ofereço-vos em reparação a própria Satisfação que JESUS vos dá sobre o Altar. Ofereço-vos o CRISTO total, com seu preciosíssimo Sangue, e todos os Seus méritos, DEUS e Homem, que na qualidade de Vítima, de novo se sacrifica por mim. Pois que o Senhor JESUS se faz, sobre este Altar, meu Mediador, meu Advogado, e por seu Sangue implora o perdão para mim, eu me uno à voz deste SENHOR tão amoroso, e vos peço misericórdia por tantos pecados tão graves, que tenho cometido. Misericórdia! Clama-vos o Sangue de JESUS. Misericórdia!, clama-vos meu coração desolado.
Ah! Meu adorável SENHOR, se minhas lágrimas não vos comovem, deixai-vos tocar pelos gemidos de JESUS. Por que não obteria Ele para mim, sobre este Altar, o perdão que , na Cruz, mereceu para todo o gênero humano? Em virtude deste preciosíssimo Sangue, espero que me perdoeis, também, todos os meus pecados, os quais não cessarei de chorar até meu último suspiro. Amém."  

Fechai o livro e repeti muitos destes atos de profunda e sincera contrição. Daí livre curso a vossos sentimentos e, com confusão de palavras, mas do fundo do coração dizei a JESUS: "JESUS adorável, dai-me as lágrimas de S. Pedro, a contrição de Sta. Maria Madalena, a dor daqueles santos que, depois de terem sido grandes pecadores, se tornaram verdadeiros penitentes, a fim de que, por esta Santa Missa, eu obtenha o mais completo perdão de meus pecados. Amém." Fazei muitos atos deste tipo, todo recolhido em DEUS, e ficai certo de que assim pagareis completamente todas as dívidas que, por vossos pecados, contraístes com DEUS.

Na terceira parte, isto é, depois da Elevação até a Comunhão, considerai os imensos benefícios de que fostes cumulados e, em troca oferecei a DEUS um Presente de valor infinito: O Corpo e o Sangue de JESUS CRISTO. Convidai mesmo todos os Anjos e Santos a render graças a DEUS, por vós, da maneira seguinte, ou de outra qualquer equivalente:

Eis-me aqui, meu amado SENHOR cumulado de benefícios, tanto gerais como particulares, que me concedestes e quereis conceder-me no tempo e na eternidade. Reconheço que vossas misericórdias para comigo foram e são infinitas. Eis aqui, portanto, em reconhecimento e em paga, este Sangue Divino, este Corpo Sacratíssimo, que vos apresento pela mão do sacerdote. Estou certo de que esta Oferenda é suficiente para vos pagar por todos os bens que me tendes concedido. Este Dom de valor infinito vale por si todos os Dons que recebi, que recebo, e que ainda receberei de vós. Ah! Santos Anjos e vós todos, habitantes do Céu, ajudai-me a agradecer a DEUS, e oferecei-Lhe em ação de graças não só esta Santa Missa, mas todas as que se celebram neste momento no Mundo inteiro, a fim de que sua Bondade tão cheia de Amor seja dignamente agradecida, por tantas graças que me concedeu e que quer conceder-me agora e nos séculos dos séculos. Amém!"

Ah! Quanto agradará a nosso boníssimo DEUS tão afetuoso reconhecimento! Como não ficará pago com esta única Oferta que vale mais que tudo, porque é de valor infinito! E, para mais excitar estes piedosos sentimentos, convidai o Céu a cooperar convosco. Invocai os Santos aos quais tendes devoção e dizei-lhes do fundo do coração: "Ó queridos Santos, meus advogados, agradecei por mim a DEUS de infinita bondade, não viva e morra eu como ingrato. Peço-vos, suplicai-lhe aceitar minha boa vontade e levar em conta o agradecimento cheio de amor, que, por esta Santa Missa, Lhe oferece, por mim, o adorável JESUS. Amém!" Não vos contenteis em dizer isto uma vez, mas repeti-o, e ficai certos de que assim chegareis a pagar completamente esta grande dívida.

Maior sucesso ainda tereis se a cada manhã fizerdes o ato de oferecimento que começa com as palavras "DEUS Eterno..."1, a fim de com este intuito oferecer todas as Santas Missas celebradas no Mundo inteiro.

Na quarta parte, depois da Comunhão até o fim da Santa Missa, enquanto o sacerdote comunga sacramentalmente, fareis a comunhão espiritual como indico no capítulo seguinte. Em seguida, contemplando a DEUS no íntimo de vosso coração, não receeis pedir-Lhe muitas graças, pois neste momento JESUS une-se todo a vós e Ele mesmo ora por vós. Expandi, portanto, vosso coração, pedindo não coisas de pouca importância, mas grandes graças. Já que tão grande é a Oferenda que Lhe fazeis, o seu Divino Filho. Dizei-Lhe, então, com o coração repleto de humildade:

Ó meu DEUS, reconheço-me por demais indigno de vossos favores; confesso minha suma indignidade, e que, tendo cometido tantos e tão grandes pecados, não mereço ser atendido. Como poderíeis, porém, deixar de escutar vosso Divino Filho, que sobre este Altar pede pro mim, oferecendo-vos sua vida e seu Sangue? Ó meu DEUS Fonte do Amor, ouvi as súplicas deste poderoso Advogado, e, em consideração a Ele, concedei-me todas as graças que sabeis que necessito para realizar o grande trabalho de minha salvação eterna. É agora que ouso pedir-vos o perdão geral de todos os meus pecados e a graça da perseverança no bem.
Mais ainda, inteiramente confiante nas preces de JESUS, peço-vos, meu DEUS, todas as virtudes num grau heroico, e todas as graças eficazes para tornar-me um verdadeiro santo. Peço-vos a conversão de todos os infiéis e de todos os pecadores e particularmente daqueles a quem estou unido pelos laços do sangue ou por um parentesco espiritual. Imploro-vos a libertação não só de uma, mas de todas as almas do Purgatório, especialmente as mais necessitadas: libertai-as todas e que, pela eficácia deste Divino Sacrifício, fique vazia aquela prisão. Peço-vos, humildemente, a conversão de todos os vivos, a fim de que este miserável mundo se transforme num paraíso de delícias onde sejais amado, reverenciado, adorado por todos no tempo, para depois irmos louvar-vos e bendizer-vos por toda a eternidade. Amém!"

Pedi, ainda, graças para vós, para as crianças, para vossos amigos, parentes e conhecidos; implorai socorro para todas as vossas necessidades espirituais e temporais; rogai para a santa Igreja Católica Apostólica Romana, pedindo a plenitude de todos os bens, e o fim de todos os males.

Rezai muito especialmente pelo Sacerdote que celebrou a Santa Missa; mais do que todos, ele merece a sua gratidão. Peça ao boníssimo DEUS a perseverança para ele e muito especialmente que faça dele um grande santo. E não o façais com negligência, mas com grande confiança, seguros de que vossas orações, unidas às de JESUS, serão atendidas.

Terminada a Santa Missa, fazei um ato de agradecimento a DEUS, dizendo-Lhe: Agimus tibi gratias, omnipotens Deus, pro universis beneficiis tuis: Qui vivis et regnas in saecula saeculorum, amen: Graças vos damos, Deus Todo-Poderoso, por todos os vossos benefícios, Vós que viveis e reinais por todos os séculos dos séculos, amém. Se puderdes, ficai uns minutos em ação de graças, depois saí da Igreja com o coração compungido, como se descêsseis do Calvário.

Dizei-me agora: se tivésseis assistido deste modo a todas as Santas Missas, do passado até ao presente, de quantos tesouros não teríeis enriquecido vossa alma? Oh! Que enormes prejuízos vos causastes, quando assistíeis à Santa Missa olhando para um e outro lado, observando os que entravam e saíam da igreja e, muitas vezes até, conversando ou cochilando, ou, sobretudo, enrolando de qualquer jeito algumas preces vocais, sem o menor recolhimento interior.

Tomeis, portanto, a resolução de adotar este método tão fácil, tão suave, de assistir com fruto à Santa Missa, e que consiste em cumprirdes os quatro grandes deveres para com DEUS: não tenhais dúvida que em pouco tempo reunireis um grande tesouro de graças especiais, e nunca mais vos virá à ideia dizer: “Uma Missa a mais, uma a menos, que importa!”.

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1. Ato de Oferecimento – Para ser feito todas as manhãs:

"DEUS eterno, eis me prostrado diante de vossa infinita Majestade; adoro-vos humildemente e vos ofereço todos os meus pensamentos, todas as palavras e ações deste dia. Tenho a intenção de tudo fazer por vosso Amor, para vossa maior Glória, para cumprir vossa divina Vontade, para vos servir, louvar, bendizer e adorar, para me instruir nos mistérios da Fé, assegurar minha salvação e alcançar vossa Misericórdia; para satisfazer a vossa divina Justiça por tantos pecados que cometi, para aliviar as almas do Purgatório e para obter a todos os pecadores a graça de uma verdadeira conversão.
Em uma palavra, tenho a intenção de executar hoje todas as minhas ações, em união com as intenções perfeitíssimas que tiveram nesta vida JESUS, Maria e todos os santos que estão no Céu, e todos os justos da Terra. Quisera assinar com meu próprio sangue esta resolução e repeti-la a todo momento, tantas vezes quantos instantes houver na eternidade. Recebei, meu DEUS, minha vontade, dai-me vossa santa benção, com a graça eficaz de não cometer pecado mortal, em todo o tempo de minha vida, muito especialmente neste dia. A vós toda a glória, honra, amor, louvor e adoração, no mais alto grau de perfeição. Amém!"


** Ler o capítulo seguinte

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Fonte:
MAURÍCIO, Leonardo de Porto. As Excelências da Santa Missa, conforme a ed. romana de 1737 dedicada a S.S. o Papa Clemente XII, pp. 44-51.
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A invasão de "bispos" e a Sucessão Apostólica


COM O SURGIMENTO do Protestantismo Pentecostal, os fundadores de muitas denominações ditas "evangélicas" se resolveram intitular "bispos". Será que esses "bispos” pentecostais são bispos de fato ou praticam falsidade ideológica? É o que pretendemos esclarecer, de modo breve, neste artigo.


A origem da hierarquia da Igreja e a sucessão apostólica

A primeira sucessão apostólica encontramos nas páginas da Bíblia Sagrada. No Novo Testamento lemos, no capítulo 1 dos Atos dos Apóstolos, como S. Pedro declarou a vacância do posto (ministério) de Judas Iscariotes e apontou a necessidade de que alguém a ocupasse:

Naqueles dias, Pedro se pôs de pé em meio aos irmãos – o número de pessoas reunidas era de cerca de cento e vinte – e lhes disse: 'Irmãos, era preciso que se cumprisse a Escritura, em que o Espírito Santo, pela boca de Davi, havia falado acerca de Judas, que guiou aqueles que prenderam Jesus. Porque ele era um de nós e obteve um posto neste Ministério, convém, pois, que dentre os homens que andaram conosco todo o tempo em que Jesus viveu entre nós, a partir do batismo de João até o dia em que nos foi levado, um deles seja constituído testemunha conosco de sua ressurreição. Apresentaram dois: José, chamado Barsabás, de sobrenome Justo, e Matias. Então oraram assim: 'Tu, Senhor, que conheces os corações de todos, mostra-nos qual destes dois elegeste para ocupar no ministério do apostolado o posto do qual Judas desertou para ir para onde lhe correspondia'. Lançaram a sorte e caiu sobre Matias, que foi agregado ao número dos doze Apóstolos." (At 1,16-17.21-26).


Prova bíblica da instituição dos presbíteros por meio dos Apóstolos ou outros presbíteros previamente ordenados


Como vimos, está claríssima a consciência que tinham os Apóstolos de que o seu ministério não deveria permanecer vacante (posteriormente este ministério será desempenhado pelos bispos). Também estavam conscientes da obrigação que tinham de que seus sucessores poderiam exercer seu ministério de forma plena, organizando igrejas (dioceses e paróquias) e colocando à sua frente homens capazes. Assim, vemos como o livro dos Atos dos Apóstolos revela que uma das principais atividades dos Apóstolos era fundar igrejas e designar presbíteros para elas:

Designavam presbíteros em cada igreja e, após fazer oração e jejuns, os encomendavam ao Senhor em Quem haviam crido." (Atos 14,23)

No começo, os presbíteros eram nomeados exclusivamente pelos Apóstolos; posteriormente, também por outros presbíteros já ordenados. Não existia, como jamais existiu no verdadeiro cristianismo, o que se costuma ver em igrejas "evangélicas", onde alguém que possua certas capacidades ou aptidões simplesmente funda uma nova "igreja" e toma nela, por conta própria, o posto de "pastor".

Exemplos claros encontramos nas epístolas paulinas, onde S. Paulo menciona a ordenação de Timóteo como presbítero através da imposição das mãos, e o exorta a não instituir a qualquer pessoa como presbítero (evidente que, ainda mais, ninguém poderia se autoproclamar presbítero).

Por isto te recomendo que reavivas o carisma de Deus que há em ti pela imposição das minhas mãos. Porque o Senhor não nos deu um espírito de timidez, mas de fortaleza, de caridade e de temperança. Não te envergonhes, pois, nem do testemunho que hás de dar de nosso Senhor, nem de mim, seu prisioneiro. Ao contrário, suporta comigo os sofrimentos pelo Evangelho, ajudado pela força de Deus, que nos salvou e nos chamou para uma vocação santa, não por nossas obras, mas por sua própria determinação e por sua graça que nos deu desde toda a eternidade em Cristo Jesus." (2Tm 1,7-9)

Não descuideis do carisma que há em ti, que te foi comunicado pela intervenção profética através da imposição das mãos do colégio de presbíteros." (1Tm 4,14)
Não te precipites a impor as mãos sobre alguém, nem participes dos pecados alheios. Conserva-te puro." (1Tm 5,22)

Voltamos a frisar o que afirma S. Paulo: que a ordenação de Timóteo se deu mediante a imposição das mãos do colégio de presbíteros ou do "conselho de anciãos". Vemos então que os primeiros presbíteros foram ordenados pelos próprios Apóstolos e os presbíteros seguintes foram ordenados pelos Apóstolos ou por outros presbíteros previamente ordenados. O certo é que para que uma ordenação seja válida, é preciso que o aspirante seja ordenado por um presbítero que por sua vez tenha sido ordenado por outro presbítero, e assim sucessivamente, numa linha descendente que tem origem nos Apóstolos e, deles, ao próprio Senhor Jesus Cristo, que os elegeu. A esta legítima linha de sucessão chamamos "Sucessão Apostólica".
   
O mesmo ocorre com Tito, que também sendo um presbítero, é enviado por S. Paulo a organizar as igrejas e instituir presbíteros para o seu governo:

O motivo de ter-te deixado em Creta foi para que acabasses de organizar o que faltava e estabeleceres presbíteros em cada cidade, como te ordenei." (Tt 1,5)

A finalidade era sempre clara:

Tu, pois, filho meu, mantei-te forte na graça de Cristo Jesus; e do quanto me tens ouvido na presença de muitas testemunhas, confiai-o a homens fiéis, que sejam capazes, por sua vez, de instruir a outros" (2Tm 2,1-2)

Em conformidade com o claríssimo testemunho das Sagradas Escrituras, também em documentos extra-bíblicos antiquíssimos (desde o início do séc. II) é possível observarmos que a Igreja primitiva já estava organizada hierarquicamente com o colégio de bispos, presbíteros e diáconos.

O bispo era o chefe de uma "igreja", isto é, de uma diocese, um conjunto de paróquias geograficamente organizadas. Cada paróquia tinha como ministro um presbítero; este era o sacerdote responsável por ministrar os Sacramentos e orientar os fiéis na doutrina. Era normalmente auxiliado por diáconos. Tudo isto é testificado, por exemplo, nas sete cartas de Santo Inácio de Antioquia [1] datadas do ano 107 (escritas antes mesmo da organização final dos livros da Bíblia). Santo Inácio foi Bispo de Antioquia e discípulo pessoal dos Apóstolos S. Pedro e S. Paulo.


O Episcopado tem origem na Sucessão dos Apóstolos

Episcopado é o nome que se dá ao ministério do Bispo. O Episcopado tem origem no ministério dos Apóstolos, como vimos. Isto é, foi o próprio Senhor Jesus Cristo Quem elegeu os Apóstolos como Bispos da Sua Igreja, que Ele mesmo instituiu sobre a Terra (Mt 16,18). Com efeito, a Bíblia ensina que Nosso Senhor deu o governo da Igreja aos Santos Apóstolos: "Quem vos ouve, a mim ouve; e quem vos rejeita, a mim rejeita; e, quem me rejeita, rejeita àquEle que me enviou" (Lc 10,16).

Eles, os Apóstolos, estariam agora assentados na Cadeira de Moisés, e no lugar dos escribas e Fariseus (cf. Mt 23,2-3). Por isso, o Cristo deu a eles a autoridade que outrora foi dada a Moisés: "ligar e desligar, atar e desatar", com o sentido de unir e desunir: definir o que é certo e o que é errado em termos de doutrina verdadeiramente evangélica (cf. Mt 18,18). Por essa razão, São Paulo ensina que “a Igreja do Deus Vivo é a Coluna e o Fundamento da Verdade” (cf. 1Tm 3,15).

Como os Apóstolos não permaneceriam conosco para sempre, e como o mundo é muito grande, nas várias regiões e nações aonde eles iam pregando o Evangelho, iam também instituindo novos bispos, que deveriam cuidar do rebanho de Cristo em sua ausência. – E, claro, após a sua morte também. Afinal, Jesus prometeu que estaria com a sua Igreja até o fim dos tempos, e não até a morte dos Apóstolos (cf. Mt 28, 20).

Um dos testemunhos históricos mais antigos desta realidade está na Primeira Carta de São Clemente aos Coríntios (2), escrita por volta do ano 90 (dois séculos antes da composição final da Bíblia Cristã). Clemente, 4º. Bispo de Roma na sucessão de Pedro, escreveu:

(42) Os Apóstolos receberam do Senhor Jesus Cristo o Evangelho que nos pregaram. Jesus Cristo foi enviado por Deus; Cristo, portanto, vem de Deus, e os Apóstolos vêm de Cristo. As duas coisas, em ordem, provêm da Vontade de Deus. Eles receberam instruções e, repletos de certeza por causa da Ressurreição de nosso Senhor Jesus Cristo, fortificados pela Palavra de Deus e com plena certeza dada pelo Espírito Santo, saíram anunciando que o Reino de Deus estava para chegar. Pregavam pelos campos e cidades, e aí produziam suas primícias, provando-as pelo Espírito, a fim de instituir com elas bispos e diáconos dos futuros fiéis. Isso não era algo novo: desde há muito tempo, a Escritura falava dos bispos e dos diáconos. Com efeito, em algum lugar está escrito: ‘Estabelecerei seus bispos na justiça e seus diáconos na fé’."

(44)Nossos Apóstolos conheciam, da parte do Senhor Jesus Cristo, que haveria disputas por causa da função episcopal. Por esse motivo, prevendo exatamente o futuro, instituíram aqueles de quem falávamos antes, e ordenaram que, por ocasião da morte desses, outros homens provados lhes sucedessem no ministério."

“A História Eclesiástica”[2], de Eusébio de Cesaréia, é outro dos mais rigorosos registros dos acontecimentos dos primeiros quatro séculos da Igreja, incluindo a realidade histórica da sucessão dos Apóstolos. Segundo a o ensinamento que os Apóstolos diretos de Jesus Cristo comunicaram aos seus discípulos, os bispos da Igreja são sucessores diretos dos Apóstolos. É exatamente por isso que, fora da Sucessão dos Santos Apóstolos, não há nem pode haver Episcopado verdadeiro: logo, não há Igreja de fato.


Ordenação Episcopal de Dom Júlio E. Akamine

Testemunhos históricos da Sucessão Apostólica

Alguns membros de algumas das novas seitas ditas "evangélicas" chegam ao extremo de alegar que a Sucessão Apostólica teria sido inventada pela Igreja Católica para sustentar que só ela possui bispos e presbíteros verdadeiros. Nada está mais distante da realidade, por tudo o que acabamos de ver e por muitos outros motivos, como o fato de que a Igreja Católica não alega que só ela possua bispos e presbíteros verdadeiros. Ela reconhece a validade dos ministros da Igreja Ortodoxa, que são também sucessores dos Apóstolos. – É no mínimo curioso como o subjetivismo protestante tenta inverter os fatos, querendo "reinventar" até a História! Não foi a Igreja Católica que inventou a Sucessão Apostólica: o protestantismo é que precisou inventar que a Sucessão dos Apóstolos não é um fato (ignorando as afirmações diretas das Sagradas Escrituras, que eles tem como regra de fé, juntamente com a farta documentação existente, os registros historiográficos, a arqueologia, etc.) pois esta é a maior prova de que as tais "igrejas", ditas "evangélicas", não são igrejas de fato, mas apenas seitas que deturpam o cristianismo original.


Conclusão

Desgraçadamente, sair por aí inventando “igrejas” e se intitulando a si mesmo "pastor", "bispo" e até "apóstolo" (!) é coisa muito, muito fácil, e praticamente estimulada pela nossa legislação, que inclusive oferece isenção de impostos a toda sorte de falsos profetas. Tanto é verdade quer, nos tempos atuais, "igrejas" são encaradas e geridas como se fossem empresas, verdadeiras máquinas de fazer dinheiro. Fundar "igreja" e se intitular a si mesmo de "bispo" é talvez o charlatanismo mais rentável de todos! Exemplos de patifes que amealharam imensas fortunas usando o santo Nome de Deus em vão e corrompendo o Evangelho são bem conhecidos. Infelizmente, pessoas ingênuas e desesperadas, sem nenhum conhecimento da fé e da verdadeira Igreja, nunca faltaram. A responsabilidade por essa situação, em parte é dos próprios presbíteros e bispos atuais, mas este é um outro problema muito vasto, que não nos compete analisar. Um dia, cada um de nós prestará contas diante do Justo Juiz. Por isso, católico, é de suma importância que você conheça o nosso passado, as nossas raízes, a história da verdadeira Igreja, e que preserve a memória cristã.

Em resumo, fora da sucessão regular dos Apóstolos não há verdadeiro episcopado, não há verdadeiro ministério, não há bispos e, menos ainda, "apóstolos". Não há Igreja de fato. Por esta razão, os chamados “bispos evangélicos" não são bispos, e suas “igrejas” não são igrejas. Dizer isto não é ser intolerante, nem rigoroso, nem grosseiro. É apenas e simplesmente falar a verdade. Ou será que para sermos gentis e tolerantes deveríamos ser coniventes com a mentira?

Já está mais do que na hora desses nossos irmãos saírem de sua falsa “redoma bíblica” e procurarem conhecer a verdadeira fé cristã, dos primeiros séculos, dos tempos em que a Bíblia Sagrada ainda nem estava definida, e que é a mesma fé de hoje e de sempre. Os que assim fizeram acabaram retornando para a primeira e única Igreja de Cristo, como aconteceu neste caso e em muitos outros.  –Pois Jesus é a Verdade, e Ele é o mesmo ontem, hoje e sempre. O que sempre foi Verdade não pode ser mentira agora.

Peçamos a Deus que nossos irmãos separados ditos "evangélicos" sejam libertos do subjetivismo e do engano. E que mais e mais católicos busquem conhecer melhor o tesouro que possuem na Igreja Católica, e deem o seu testemunho sempre que tiverem oportunidade para tanto.

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[1] INÁCIO, de Antioquia. Padres Apostólicos - Carta aos Romanos. Tradução de Ivo Storniolo e Euclides M. 2ª. Edição. São Paulo: Paulus, 1995. (Patrística; 1). p. 103-108;

[2] CLEMENTE, Bispo de Roma. Padres Apostólicos, Primeira Carta de Clemente aos Coríntios. Tradução Ivo Storniolo, Euclides M. Balancin. São Paulo: Paulus, 1995. (Patrística, 1). p. 5-70;


[3] EUSEBIO, Bispo de Cesaréia. História Eclesiástica. Tradução Monjas Beneditinas do Mosteiro de Maria Mãe de Cristo. São Paulo: Paulus, 2000 (Patrística; 15).

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Ref.:

Apostolado "Veritatis Splendor", artigo "Estudando a sucessão apostólica", disp. em:
veritatis.com.br/apologetica/protestantismo/8115-estudando-a-sucessao-apostolica

Acesso 24/4/015
www.ofielcatolico.com.br

“Jesus muçulmano”? Mais um fruto podre do falso ecumenismo

Por "Si Si No No" – publicado pelo Revmo. Padre João Batista de A. Prado Ferraz Costa, Capela Santa Maria das Vitórias



EM UMA IGREJA desta pobre Itália, dia 1º de janeiro o sacerdote local, na homilia para celebrar a jornada da paz (como se faz a cada ano desde o pontificado de Paulo VI), citou um livro escrito por um “missionário” na Turquia sobre as boas relações entre muçulmanos e os pouquíssimos católicos daquela terra.

Eis o fato: os missionários têm uma bela igreja, visitada pelos turistas de todas as religiões. Uma manhã chega um grupo de meninos, todos muçulmanos, acompanhados pela professora deles. Visitam a igreja. Explica-lhes tudo. Depois deixa-se entrevistar pelos meninos desejosos de mais informações.

Um deles diz: “No Corão também se fala de Jesus: para nós é um profeta que viveu antes de Maomé”. O missionário: “Oh, certamente! Jesus é um profeta também para nós. Logo, podemos ser amigos”. O menino: “Mas Maomé superou Jesus”. Silêncio. Depois o menino continua: “É verdade que Jesus, no fim do mundo, se fará muçulmano?”.

O missionário pergunta: “Mas tu sabes que significa ser muçulmano?”. O menino: “Muçulmano, “muslin”, significa submisso, submisso a Deus, a Alá”. O padre: “Ó meu caro, quem é mais submisso a Deus que Jesus? Ele é em tudo submisso a Deus; portanto, vós sabeis que é como se fosse muçulmano”.

Os meninos partiram satisfeitos com essas palavras: agora sabem que Jesus é como eles, já é um convertido ao Islão. Vejam que vitória para eles!

O padre, depois de ter lido o episódio do livro do missionário na Turquia, comenta: “Vejam como é possível haver entendimento, como se pode promover a paz. Como se pode ser amigo, em comunhão entre nós. Basta o entendimento”.

Os fiéis presentes à missa estão perplexos. Alguns saem da igreja, como o subscrito. Outros entreolham-se estarrecidos. Nosso Senhor Jesus, o Filho unigênito de Deus feito homem para redimir-nos e merecer-nos a graça divina e o paraíso, o único Salvador do mundo – ouvi, ouvi!- converteu-se em muçulmano!

Mas isto é uma blasfêmia, seja quem for que a diga. Em outros tempos, um padre assim teria sido despachado, segregado de qualquer contato com a grei dos fieis de Jesus Cristo, para não lhes fazer maior dano.

Hoje, ao contrário, é normal dizer blasfêmias desse jaez do púlpito. Não há palavras para comentar. São os frutos podres do ecumenismo. Estamos em pleno sincretismo, em plena apostasia. Tal missionário e tal padre deveriam ser denunciados. Mas a quem? Quem hoje intervirá para conter o desastre permanente a que assistimos?

No entanto, cumpre levantar a voz! Fazer sentir que ao menos um “pequeno resto” de católicos não aceita que se trate assim a Jesus, o Homem-Deus, Ele que é a única Verdade, a única Via, a única Vida e “ninguém vai ao Pai senão por Ele (Jo 14,6). Não há outro nome, afora o Nome de Jesus, dado aos homens, pelo qual sejamos salvos” (At 4,12): palavra de Pedro, o primeiro papa, ainda em Jerusalém, quando não era “bispo de Roma”.

Caro SISINONO, guardemos a fé e abracemo-nos à Cruz de Jesus, sem jamais a deixar. Se outros o destronaram até esse ponto, nós queremos coroá-lo da glória divina, que só Ele merece. 

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** Nota da Assoc. Laical São Próspero –
Esta carta tão bela, triste e repleta de ira santa nos faz lembrar de uma antiga história, catequética, contada para fazer entender o que significa ser verdadeiramente cristão:


Um belo dia, um homem que estava indeciso quanto a converter-se ou não à Igreja de Cristo, sonhou que estava assentado em cima de um muro. Ao seu lado direito via um anjo, e ao seu lado esquerdo, um demônio. O homem queria saltar para o lado do anjo, luminoso, belo, cheio de uma expressão amorosa, mas sabia que para tanto precisaria abrir mão se uma série de pequenos prazeres, de alguns vícios que ele até então cultivara com carinho, de certas delícias às quais estava muito apegado. Olhava então para o lado do asqueroso demônio, mas sabia que saltar para o seu lado significava por em risco sua alma... Indeciso estava, e o anjo, percebendo sua hesitação, instava e lhe pedia a todo instante: "Venha para o meu lado, o lado de Nosso Senhor, da Santíssima Virgem e dos santos e anjos de Deus! Ganharás a felicidade eterna se vieres para este lado! Venha, as alegrias do mundo são passageiras como brisa, não valem a pena! Venha! Venha!", e não parava de insistir. Já o demônio se mantinha calado, apenas rondava, e ostentava uma expressão de satisfação... Intrigado, depois de algum tempo, o homem perguntou ao servo de Satanás: "Por que não me convidas também a decidir pelo teu lado, como faz o anjo?". E o demônio lhe respondeu: "Ora, porque você já está do meu lado. O muro é meu; todos os que permanecem em cima dele pertencem ao meu senhor."!


Ou se está a favor da Verdade ou contra ela. Ou se está a favor do Cristo ou contra Ele. Não há terceira opção: não se pode aceitar o erro para ficar bem com todos. Não é possível ser católico e irenista ao mesmo tempo.
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Euforia, danças e palmas na Santa Missa – Santo Sacrifício ou banquete festivo?


RECEBEMOS DE UM LEITOR que se identifica apenas como "Felipe" a seguinte mensagem:

Sou católico fervoroso, mas não consigo entender: se Jesus me fez livre dos pecados no dia da salvação e livre para adorá-lo, porque nao posso adorá-lo com minhas palmas? Qualquer forma de adoração é aceita por Deus, desde que parta do profundo do coração. Isso é ridículo! Davi louvava a Deus das maneiras mais liberais que já se viram! Se Deus criou minhas mãos e me deu capacidade de bate-las porque não posso usar isso como adoração. Eu não posso nem dizer que isso é um atraso, isso é antibíblico! Os salmos falam sobre o louvor com os instrumentos, entre eles de repercussão e com as danças. Portanto Deus gosta do louvor como é o melhor da pessoa.
'Aleluia. Louvai o Senhor em seu santuário, louvai-o em seu majestoso firmamento. Louvai-o por suas obras maravilhosas, louvai-o por sua majestade infinita. Louvai-o ao som da trombeta, louvai-o com a lira e a cítara. Louvai-o com tímpanos e danças, louvai-o com a harpa e a flauta. Louvai-o com címbalos sonoros, louvai-o com címbalos retumbantes. Tudo o que respira louve o Senhor!' (Salmos 150:1-6)
Se o melhor que a pessoa pode dar é o rap, Ele aceita o rap, se o melhor que a pessoa pode dar é o rock, Ele aceita o rock, se o melhor que a pessoa pode dar é a palma, Ele aceita as palmas,se o melhor da pessoa é a dança, Ele aceita a dança . Ele dá liberdade de adoração, não consigo me conformar com essa ideia de que barulho atrapalha, se Ele criou o barulho ele também gosta do barulho!"

A Paz de Nosso Senhor Jesus Cristo, Felipe, e Salve Maria! Seu comentário é muito oportuno, porque você conseguiu reunir nele, praticamente, todos os argumentos dos que são favoráveis às palmas, danças, batucadas e todo tipo de "inovações" e modernismos na Celebração Eucarística. E como é comum à maioria daqueles que compartilham das suas convicções, a paixão e a emoção tomam conta da razão; tanto que, logo no começo, você já chama todos os que não compartilham do seu pensamento de “ridículos”.

Então, antes de tudo, peço um pouco de calma da sua parte. Peço que respire fundo, suplique pela orientação do Espírito Santo e leia esta nossa resposta inteira. Tenho certeza de que, se fizer isso, você vai compreender a questão. Num primeiro momento você pode se decepcionar, pode optar em permanecer firme e irracionalmente apegado às suas convicções. Mas você vai entender. Bem, como você elencou uma série de argumentos, para organizar o raciocínio e facilitar a compreensão, optamos por dividi-los e respondê-los um de cada vez. Vamos lá:


1) Católicos de pensamento "protestantizado"

Em primeiro lugar, perceba que o seu pensamento está totalmente “protestantizado”. Infelizmente, o crescimento das seitas pentecostais no Brasil anda levando muitos católicos a assumir determinados princípios 100% protestantes e, muitas vezes, anticatólicos. Muita gente anda, sem querer, caindo nessa sutil armadilha. Você ouve uma afirmação num programa de TV aqui, o seu amigo repete uma outra afirmação ali... E, quando dá pela situação, você também já está defendendo aqueles mesmos pontos de vista. Aquele jeito de entender as coisas entrou e instalou-se no seu subconsciente, sem você perceber.

É o caso de elevar a Bíblia Sagrada à categoria de "única regra de fé e prática" para o cristão: se algo está escrito literalmente na Bíblia, vale; se não está escrito literalmente na Bíblia, não vale. Este é um princípio protestante totalmente contrário à fé da Igreja Católica. Podemos dizer que é este o grande dogma das igrejas ditas "evangélicas", e um dogma completamente contraditório, pois contraria à própria Bíblia, levando incontáveis almas à perdição. Por quê? Porque eu posso pinçar determinadas passagens da Bíblia para legitimar praticamente qualquer coisa, até mesmo os crimes mais hediondos.

Veja por exemplo o caso do empresário e autoproclamado "bispo" Edir Macedo, líder e fundador da "igreja universal do reino de deus" (que recentemente se candidatou, também por conta própria, a 'sucessor de Moisés'): ele usa trechos bíblicos até para defender o aborto (quem duvida, veja aqui)! Para aqueles "evangélicos" de outras denominações que não aceitam tal absurdo, Macedo apela para o "embasamento bíblico": ele cita o dizer do Senhor Jesus quando sentou-se à mesa com seus discípulos para celebrar a última Ceia: “O Filho do Homem vai, como dEle está escrito. Mas ai daquele homem por quem o Filho do Homem é traído! Seria melhor para esse homem que jamais tivesse nascido!” (Mt 26,24).

Sim. De tão absurdo, o argumento torna-se ridículo, chega a parecer piada; infelizmente, não é. A interpretação do "bispo" (sic) Macedo é, simplesmente, de que seria melhor se Judas tivesse sido abortado: logo, devemos liberar a lei, para que as mulheres abortem à vontade. Claro que ele não considera o fato de que a santíssima Virgem, que por estar grávida sendo solteira e prometida a José, correu risco de vida para dar à luz o Salvador do mundo. Naquela cultura, Maria poderia ter sido apedrejada! Agora imaginemos o que teria acontecido se ela tivesse resolvido também usar o seu "direito de mulher", apelado para essa tal "responsabilidade social" e abortado Jesus Cristo!


Campanha pró-aborto da Record de Edir Macedo


Evidentemente, para destruir de uma vez a ideia de que o aborto possa ser defendido por um cristão, usar a Bíblia é ainda mais simples. Basta citar, por exemplo, Êxodo 20,13: "Não matarás". Melhor ainda seria lembrar o que diz o Salmo 138,13-14:

Fostes Vós que plasmastes as entranhas de meu corpo, Vós me tecestes no seio de minha mãe. Sede bendito por me haverdes feito de modo tão maravilhoso!". Tenho eu o direito de arrancar do ventre da mãe aquela vida humana que, como diz a Bíblia, Deus mesmo formou? E para arrematar a conversa, poderíamos citar Jeremias 1,5: "Antes que no seio de tua mãe fosses formado, Eu já te conhecia; antes de teu nascimento, Eu já te havia consagrado, e te havia designado profeta das nações."

É um fato indiscutível que a Bíblia pode ser usada por pessoas mal intencionadas ou simplesmente ignorantes. Veja abaixo mais um exemplo do que acontece quando é posta em prática a ideia de que qualquer pessoa pode interpretar a Bíblia por conta própria e se autoproclamar "pastor(a)", "bispo(a)" ou "apóstolo(a)":




"Gostaria que alguém me 'provasse biblicamente' que um homem não pode ter mais de uma mulher", diz o "pastor"... Pois é. Para essas pessoas, tudo precisa ser "provado biblicamente", tudo precisa ter "base bíblica". Mas como é que se "prova biblicamente" alguma coisa, se todo texto, mesmo o Texto Sagrado, divinamente inspirado, está sujeito à interpretação humana? Edir Macedo acha que "provou biblicamente" que o aborto é da Vontade de Deus. O "pastor" do vídeo acima acha que deveria fazer sexo com a esposa de outro homem porque a Bíblia lhe diz que deveria fazê-lo. E se diz prontinho para esse grande sacrifício...

Eu poderia encher muitas e muitas páginas com exemplos como esses. Usando a Bíblia, milhares de denominações ditas "evangélicas" se contradizem, e cada uma prega uma doutrina completamente diferente da outra. Umas ensinam que o divórcio é lícito, outras dizem que não, umas ensinam que sem o batismo ninguém se salva, outras dizem o contrário, umas pregam a famigerada "teologia da prosperidade", outras a condenam com veemência; umas aceitam relações homossexuais, e tem até igreja de "pastores gays", com cerimônia de casamento própria  e tudo (veja aqui).

Por tudo isso é que a Bíblia também afirma claramente: "Antes de tudo, sabei que nenhuma profecia da Escritura é de interpretação pessoal" (2Pd 1,20). – As Sagradas Escrituras não foram produzidas pela interpretação particular de ninguém, mas são fruto da Revelação divina: do mesmo modo, não podem ser interpretadas de modo particular.

Estas palavras tão explícitas, tão diretas e tão categóricas, deveriam ser pintadas em letras garrafais nas fachadas de todas as "igrejas evangélicas" do mundo: "ANTES DE TUDO, SABEI QUE NENHUMA PROFECIA DA ESCRITURA É DE INTERPRETAÇÃO PESSOAL!" Alguém deveria entrar no meio dos cultos com um megafone na mão, gritando a plenos pulmões: "ANTES DE TUDO, SABEI QUE NENHUMA PROFECIA DA ESCRITURA É DE INTERPRETAÇÃO PESSOAL!"...

Não pretendo desrespeitar ao direito de liberdade religiosa, e não o digo por algum sentimento ruim, mas porque não me conformo com o grau de alienação das pessoas que colocam o Livro (Bíblia) acima do próprio Autor do Livro (a Igreja, que é o Corpo de Cristo, inspirada pelo Espírito Santo). Sim, porque não existe Bíblia cristã sem o Novo Testamento, que é a consumação do Antigo, e todo o Novo Testamento foi produzido, canonizado, preservado e traduzido pela Igreja Católica.

Por que nos demoramos tanto nesta questão, demonstrando a facilidade com que se usa a Bíblia para justificar os maiores absurdos teológicos? Porque sem perceber, Felipe, você está seguindo o mesmo caminho. Seguindo a mesma linha de raciocínio, argumenta que algo que Davi fazia, há milênios, antes da Nova e Eterna Aliança em Cristo, nós também podemos, e até devemos fazer, hoje, na Santa Missa. Por quê? Ora, porque está na Bíblia... Logo, dizer o contrário seria "antibíblico" (uma expressão 100% protestante).

Bem, Felipe, se você é realmente um “católico fervoroso”, como se declara, deveria saber que essa não é e nem nunca foi a doutrina católica. Nós não nos orientamos exclusivamente naquilo que está literalmente escrito na Bíblia, para saber o que convém e o que não convém, o que é certo e o que é errado. Isso é heresia! Quem começou com essa história foi Lutero, com a sua tese do "livre exame das Escrituras", segundo a qual qualquer pessoa pode ler e interpretar a Bíblia por conta própria, sem a orientação do Magistério da Igreja. O resultado aí está: os falsos profetas fizeram a festa! Sim, reduzir o cristianismo a "religião do livro" gera o caos, e este é um fato que todo católico deve saber de cor.


Davi decepa a cabeça de Golias - Gustave Doré

2) Os atos do Rei Davi servem de exemplo para os cristãos?

Além de tudo, se nós fôssemos hoje fazer o que fazia o Rei Davi, como você propõe... O que seria de nós!? Você por acaso já leu o Antigo Testamento? A grande verdade é que a vida de Davi não serve de exemplo para cristão algum, muito pelo contrário.

A Bíblia mostra claramente como era a conduta do rei Davi: entre muitas outras “peripécias”, ele mandou matar Recabe e Baaná, mandou cortar suas mãos e seus pés e pendurar seus corpos sobre um tanque (2Sm 4,12). Ele também matou mais de 40000 sírios (2Sm 10,18), 22000 arameus (2Sm 8,5) e 18000 edomitas no Vale do Sal (2Sm II 8,13), fazendo dos sobreviventes escravos. Davi mutilava até os cavalos dos seus inimigos, cortando-lhes os tendões (2Sm II 8,4)!

Talvez pior do que tudo isso, Davi cobiçou a esposa de Urias, que era seu servo fiel, e adulterou com ela. Depois, armou um plano maquiavélico para matar Urias, de forma que pudesse ficar com a sua esposa. – Tudo isso fez Davi, além de louvar a Deus "das formas mais liberais", como você diz. Será mesmo que devemos fazer tudo o que ele fez?

Evidentemente, tudo o que expusemos acima se enquadra num contexto muito específico, numa cultura e num tempo histórico completamente diferentes do nosso. Davi, mesmo errando, pecando, tropeçando e caindo, nunca abandonou a Deus, nunca deixou de pedir a Deus, de cantar o Amor divino e confiar nEle. – O Antigo Testamento não é como um romance, um livro de histórias para qualquer pessoa ler sem orientação, sem a correta compreensão dos seus sentidos, contextos e significados. Acima de tudo, todos os atos de Davi pertencem a um tempo passado, o tempo da Antiga Aliança. – Na história de sua vida, podemos ver claramente o desenrolar da aventura humana, com as fraquezas e forças que permeiam as nossas vidas, com seus momentos de alegria, de dor, de fidelidade e de queda.

O nome do rei Davi é citado em vários livros da Bíblia, mas é importante ressaltar que o ponto mais importante da sua história é a profecia de Natã, de que o Trono de Jerusalém seria ocupado por um Messias (Rei Ungido) da família de Davi. Esta profecia teve seu pleno cumprimento em Jesus, o Cristo, Messias, Rei dos reis. Os Evangelhos, ao apresentarem Jesus como descendente de Davi, mostram que é Ele o Messias esperado, que veio ao mundo para resgatar os homens.

Mas nada disso muda o fato de que Davi errou, e errou muito. Insisto, então, na pergunta: Devemos fazer tudo o que ele fez? O fato de a Bíblia citar algum gesto seu serve como atestado de que todo o povo cristão deva fazer o mesmo? A resposta é um claro e objetivo Não.


3) A Igreja Católica

O mais importante, para todo católico, é compreender a importância fundamental da Igreja, que segundo a própria Bíblia, “é a Casa do Deus Vivo, a coluna e o sustentáculo da Verdade” (1Tm 3,15). No sentido bíblico do NT, a Igreja é a Morada e também a Família de Deus (cf. Nm12,7; Hb 3,6; 10,21; 1Pd 4,17), e a Fortaleza em que foi depositada e em que se conserva solidamente o Evangelho que salva. Entende isto?

É esta mesma Igreja que você acusa de ser "atrasada" e "antibíblica"! Você diz: “não posso nem dizer que isso é um atraso, isso é antibíblico!”. Então você cita o Salmo 150 para confrontar o Magistério e a Tradição da Igreja! Fica mais do que nítido que você se declara católico, mas age como protestante. Daí para dizer que a Bíblia não fala em Papa, não fala na intercessão dos Santos, não fala que Maria é Nossa Senhora... são só mais alguns passos. De fato, a Bíblia não fala nada disso, pelo menos não literalmente. Mas todos esses fatos estão implícitos na Escritura, para todo aquele que é realmente cristão, e não um mero seguidor da “religião do livro”.

Se o Salmo 150, segundo o seu ponto de vista, atesta que na Missa vale bater palmas, dançar e tocar todo tipo de instrumentos, eu apresento para você o capítulo 14 da Carta aos Coríntios, o qual São Paulo Apóstolo encerra dizendo que "tudo, no culto a Deus, deve ser feito com decoro e decência" (1Cor 14,40).

Não preciso dizer que a ordem de São Paulo é infinitamente mais adequada ao assunto que estamos discutindo do que o Salmo, pois os salmos foram produzidos muitos séculos antes de Cristo (alguns deles são provavelmente anteriores a 1700 aC), num determinado contexto histórico, a partir de uma cultura específica e para um povo de características muito próprias. Já a carta de São Paulo se ambienta na realidade do cristianismo nascente e trata especificamente das reuniões da Igreja, das práticas, do culto a Deus e dos carismas de uma comunidade cristã.

Como mostrei antes, se você apresenta uma passagem da Bíblia para me provar uma coisa, eu sempre posso apresentar uma outra para provar o contrário. Portanto, não é baseado exclusivamente num trecho da Bíblia que nos posicionamos contra as palmas, danças, batucadas e "invencionices" na Santa Missa. É porque a Igreja, – Corpo de Cristo, Esposa do Espírito Santo, Coluna e Sustentáculo da Verdade, autora e doadora da Bíblia Sagrada Cristã e fiel depositária das Verdades do Evangelho, – assim nos orienta.



4) A Santa Missa: Renovação do Sacrifício do Calvário

A Bíblia não diz, ipsis literis (isto é, não diz literalmente), que a Missa deve ser celebrada com respeito, embora o faça implicitamente. Mas a Igreja diz literalmente o que é óbvio, já que a Celebração Eucarística é a Renovação do Sacrifício de Nosso Senhor, e isso não é a nossa opinião, mas está nas próprias Escrituras e em todos os documentos oficiais da Igreja: "Todas as vezes que comerdes deste Pão e beberdes deste Cálice, anunciareis a Morte do Senhor, até que Ele venha" (I Cor 11, 26).

O novo Missal Romano de João Paulo II atesta (atenção às partes destacadas em negrito):

"A doutrina sacrifical da Missa, solenemente afirmada pelo Concílio de Trento, de acordo com toda a Tradição da Igreja, foi professada de novo pelo Concílio Vaticano II, que emitiu, a respeito da Missa, estas palavras significativas: 'Nosso Salvador, na última Ceia (...) instituiu o Sacrifício Eucarístico de seu Corpo e de seu Sangue para perpetuar o Sacrifício da Cruz ao longo dos séculos, até que ele venha e, além disso, para confiar à Igreja, sua esposa bem amada, o memorial de sua Morte e Ressurreição'.".

"A regra de oração (Lex Orandi) da Igreja corresponde à sua constante regra de Fé (Lex Credendi); esta nos adverte que há identidade entre o Sacrifício da Cruz e sua Renovação Sacramental na Missa que Cristo Senhor instituiu na última ceia, e que ele ordenou a seus Apóstolos de fazer em sua memória; e que, por consequência, a Missa é sempre conjuntamente um Sacrifício de louvor, de ação de graças, de propiciação e de satisfação." (Apresentação Geral do Missal Romano de João Paulo II nº 2).

Na Missa, estamos diante do Sacrifício de Jesus na Cruz. Eis a questão. Você está vendo a Missa como uma "festinha", um encontro de irmãos para louvar o Senhor, e nada mais. Esta sua compreensão está completamente equivocada, e precisa ser revista com urgência. – A Missa é a renovação incruenta da morte horrenda que Nosso Senhor enfrentou por amor a todos nós! Agora me responda: como é que eu posso me portar respeitosamente diante da Celebração deste Sacrifício batendo palmas, dançando, berrando, batucando, seguindo coreografias ao som de instrumentos como guitarras e baterias tocadas no volume máximo?


5) A importância fundamental do silêncio e da contemplação

Outro ponto: você sabe o que é um diálogo? É uma troca de mensagens entre duas pessoas. Por isso é que se chama diálogo: eu falo e escuto. E quando o meu interlocutor sabe mais do que eu, quando ele é maior do que eu, intelectualmente ou espiritualmente, o ideal é que eu fale menos e escute mais, porque é ele quem tem mais a dizer. Se eu falo o tempo todo, se só eu me expresso sem pausa, se não faço silêncio para ouvir o que meu interlocutor tem a me dizer, eu apenas desabafo, "jogo para fora" meus pensamentos, fantasias e ansiedades, mas não aprendo nada, não cresço nada, não ganho nada.

Na Santa Missa, o diálogo é com Deus. Imagine estar diante de Deus e não fazer silêncio para ouvir a Mensagem divina, mas ficar o tempo todo pulando e cantando, só EU sendo o centro de mim mesmo, não dando espaço nem tempo para o Criador. Que desperdício... Que tolice!



6) Para tudo o seu tempo certo

Até agora eu banquei o "chato". Fui crítico e pareci "azedo": você deve estar me imaginando como um velho amargo. Você deve ser um jovem cheio de sonhos, cheio de energia e vontade de gritar bem alto o seu amor a Deus, a sua vontade de encontrá-Lo, de estar perto dEle, de receber a sua Graça... Você quer a vida eterna e quer ser feliz agora, já! Você acha cansativa a velha celebração da Santa Missa, à maneira tradicional. Você vê aquela seriedade toda como coisa antiga, ultrapassada... Como você disse, "um atraso". Por quê não se expressar com alegria, com júbilo, livremente?

A última parte da sua mensagem é especialmente interessante: "Se o melhor que a pessoa pode dar é o rap, Ele (Deus) aceita o rap, se o melhor que a pessoa pode dar é o rock, Ele aceita o rock, se o melhor que a pessoa pode dar é palmas, Ele aceita as palmas, se o melhor da pessoa é a dança, Ele aceita a dança. Não consigo me conformar com essa ideia de que barulho atrapalha. Deus criou o barulho, Ele também gosta do barulho"...

Bem, Deus criou todas as coisas boas, mas para tudo há um momento certo. Deus criou o sexo, que por certo é uma coisa boa; tão boa que é por meio dele que se dá a continuação da humanidade. Mas Deus também determinou que nós não devemos fazer sexo com qualquer pessoa, isso não é verdade? Existem certas condições para usufruirmos desta grande dádiva. Mesmo o sexo sendo criação de Deus, nós não vamos fazer sexo na igreja. Ou será que você acha que Deus aceitaria isso, também?

Deus criou a música, mas é fácil perceber que nem toda música é adequada no culto a Deus. Nem todo tipo de música se enquadra naquilo que a Bíblia e a Igreja recomendam: que o culto a Deus seja prestado, como determinou o Apóstolo São Paulo, com decoro e decência.

Vejamos o ritmo que a juventude do Brasil (lamentavelmente) elegeu como favorito nos dias atuais: o famigerado funk. Já para começar a discutir, precisamos reconhecer que é no mínimo controverso afirmar que aquilo seja mesmo "música". Bach deve tremer no túmulo a cada vez que alguém diz que funk é música...

Brincadeiras à parte, o funk é mais uma batida, um ritmo, do que propriamente música. E eu não estou questionando esse ritmo enquanto expressão cultural, até porque este não é o meu papel. Mas aqueles que gostam, nem que seja por puro bom senso, precisam reconhecer que esse tipo de barulho não se presta à Celebração Eucarística.

Para falar a Deus precisamos de um tipo de música que facilite a contemplação, a elevação da alma, a oração, o amor puro e santo. E aí você poderá me responder: "mas eu consigo elevar o pensamento a Deus ouvindo funk, rap ou forró". E aí eu lhe respondo: se você consegue fazer isso, ótimo, mas você também tem a obrigação cristã de compreender que nem todos tem essa mesma capacidade. Posso lhe garantir que a maioria dos seres humanos se relaciona melhor com Deus por meio de um tipo de música mais calma, introspectiva. A igreja do Mosteiro de São Bento de São Paulo, todos os domingos, fica lotada, – de pessoas que em sua maioria vêm de muito longe, que se dispõem, em plena manhã de domingo, à chateação de ir até o centro da cidade, – apenas para ver a Missa sendo dignamente celebrada, na sua forma tradicional, com o canto gregoriano, que é sagrado, que tem uma longa história, que foi apreciado pela maioria dos santos que conhecemos.

A ciência diz que, biologicamente, nenhum ser humano saudável é capaz de permanecer indiferente a qualquer tipo de música, sabia disso? Por causa disso, quem gosta de "barulho", como você diz, deve no mínimo ter consideração e respeitar os que não gostam, os que se incomodam. A Missa não é momento para ninguém impor seus gostos pessoais sobre as outras pessoas, mas sim de comunhão, de fraternidade, de compartilhar uma mesma santa devoção. E esse sentimento é de adoração, de respeito profundo. Determinados tipos de música, por si mesmos, são inadequados para a Celebração Eucarística, porque levam o espírito humano a um estado que não é compatível com o seu significado e o seu sentido.

Assim, o forró pode ser muito bom (para quem gosta) numa festa junina, num baile, numa situação específica. O mesmo vale para o sertanejo, o samba, o rock, o rap... Não estamos afirmando que na Missa só é possível o canto gregoriano, mas sim que a música na Missa precisa ser litúrgica, e na música litúrgica não vale tudo; ela tem características próprias.

Então, não é que você não possa se expressar ou se alegrar na Missa. Mas você precisa se adaptar ao que ela é, ao que ela sempre foi. Se a Igreja é santa, e ela sempre celebrou assim, então é preciso saber respeitar isso. A Igreja não segue os modismos do mundo; ela está acima do mundo. Quando você entra na Igreja, deve deixar o mundo para trás, esquecer de si mesmo e buscar o Céu. O Santo Sacrifício não é um show, uma reunião social, uma festa de confraternização. Seja humilde, deixe seus gostos e preferências pessoais de fora e adapte-se à santidade e a reverência deste momento, e aí você compreenderá.


7) A simples solução

Finalizando esta reflexão, esclareço que existe uma solução muito simples e muito fácil para conciliar o jeito de ser deste povo brasileiro, – sempre tão alegre e expansivo, – por vezes incompatível com a sacralidade da Celebração Eucarística, e o desejo de adorar e louvar a Deus com liberdade: se você gosta de se expressar com louvores gritados, música agitada, tocada com instrumentos no volume máximo e liberdade de expressão total... Procure um grupo de oração da Renovação Carismática Católica (RCC). Ali você poderá dar vazão a toda essa energia da juventude que lhe sobra. Mas não deixe de ir à Missa, – compreendendo que aquela é uma outra realidade, completamente diferente. – Assim é que se resolve esse aparente conflito.

Os problemas começam quando tentam-se impor os usos e costumes dos grupos de oração carismáticos na celebração da Santa Missa. Nos primeiros tempos, lideranças da RCC tentavam por força incorporar seus costumes à Celebração Eucarística; nos últimos anos, graças a Deus, pouco a pouco muitos deles vêm compreendendo o quanto é importante saber observar as diferenças.


8) Resumo de tudo o que foi dito

a) A Sola Scriptura, doutrina segundo a qual a Bíblia é a única regra de fé e prática para o cristão, é totalmente anticatólica e antibíblica. Nenhum católico pode justificar pontos de vista contrários à doutrina da Igreja usando passagens bíblicas isoladas, interpretadas de modo particular.

b) Logo, não é porque algum personagem bíblico fez ou disse alguma coisa, que isso sirva de regra para a Igreja.

c) A Igreja é o Corpo Místico de Cristo, do qual o Senhor mesmo é a Cabeça. A Igreja é a Esposa do Espírito Santo, é a Coluna e o Sustentáculo da Verdade, e a própria Escritura atesta todas estas verdades. A Igreja é a autora e a doadora da Bíblia Sagrada Cristã e fiel depositária das Verdades do Evangelho; assim nos conduz e orienta no Caminho, que é Cristo. É pela Igreja que recebemos a salvação e o Espírito Santo, por meio dos Sacramentos que nos ministra. Todo verdadeiro católico têm a Santa Igreja por mãe e mestra, pois a sua orientação é sempre segura, independentemente dos erros de padres, bispos ou mesmo de papas, sujeitos ao erro (o papa só é infalível quando se pronuncia nas condições Ex-Cathedra. – veja aqui).

d) A Santa Missa não é somente um encontro de irmãos para louvar a Deus. É infinitamente mais do que isso: a Celebração Eucarística é a Renovação do Sacrifício de Nosso Senhor Jesus Cristo na Cruz do Calvário. Por isso é que nesse momento não cabem palmas, danças, músicas excessivamente alegres ou dançantes, nem gestos de euforia.

e) Se eu me sinto bem pulando, berrando e dançando no louvor a Deus, em primeiro lugar preciso ter consciência de que a Missa não é lugar para isso, nem que seja por respeito aos meus irmãos que não compartilham das mesmas preferências. Para esse tipo de expressão, existem os grupos de oração da RCC.


** Se você leu até o final esta resposta, que acabou se tornando tão longa, prezado Felipe, agradeço-lhe e dou especiais graças a Deus, se me permitiu fazê-lo repensar suas convicções. Que Nosso Senhor o abençoe, hoje e sempre, e Maria Santíssima o acompanhe na caminhada.
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Vários métodos para assistir à Santa Missa (Excelências da Santa Missa – XIII)


Ler o primeiro capítulo


Por S. Leonardo de Porto-Maurício, da Ordem dos Frades Menores

S. Leonardo de
Porto-Maurício
O DESÍGNIO EXCLUSIVO do presente opúsculo é levar aqueles que o quiserem ler, a adotar com fervor um método de assistir à Santa Missa, conforme vou expor. Como, porém, muitas maneiras de assistir à Missa, todas louváveis e santas, têm sido ensinadas até hoje, não tenho a intenção de impor-vos a minha. Deixo-vos, portanto, a liberdade de escolher aquele modo que mais vos agradar e vos parecer mais conforme à vossa devoção e capacidade, e farei junto de vós apenas o ofício de Anjo da guarda, propondo-vos o método mais frutuoso, quero dizer, o que, a meu humilde julgamento, poderá ser para vós mais vantajoso e fácil. Neste fim, distinguimos três classes de métodos.

O primeiro é o das pessoas que, de livro (ou folheto) à mão, seguem atentamente todas as ações do sacerdote, a cada um recitam outra prece vocal que leem no livro, e assim passam todo o tempo da Missa a ler. Não há dúvida que, se a essa leitura se junta a meditação dos grandes mistérios, é uma excelente maneira de assistir ao santo Sacrifício; e produz também grandes frutos. Visto, porém, exigir atenção excessiva, pois é necessário seguir todas as cerimônias que o sacerdote efetua, e em seguida dirigir os olhos ao livro para aí ler a oração correspondente, torna-se uma prática algo fatigante, na qual poucas pessoas, creio, hão de persistir, dada a fraqueza do nosso espírito que se enfada facilmente de refletir sobre tantas ações diversas que o sacerdote executa no Altar. Enfim, aquele que se acha bem assim e daí tira proveito espiritual, continue a seguir este sistema; pois à prática tão laboriosa não faltará uma recompensa da parte de DEUS.

A segunda maneira de assistir à Santa Missa é a das pessoas que não se servem de livros e não leem absolutamente nada durante todo o tempo do santo Sacrifício, mas que, com viva fé, fixam os olhos da alma em JESUS crucificado, e, apoiados na árvore da Cruz, dela recolhem os frutos por meio de doce contemplação. Passam todo esse tempo em piedoso recolhimento interior e na consideração dos sagrados mistérios da Paixão de JESUS CRISTO, que são não somente representados, mas misticamente reproduzidos na Santa Missa. É certo que estas pessoas, mantendo suas almas assim recolhidas em DEUS, exercem atos heroicos de Fé, de Esperança e de Caridade e de outras virtudes, e não há duvida que esta maneira de assistir à Santa Missa é muito mais perfeita que a primeira, e também mais doce e mais suave, como o atesta a experiência de um bom irmão converso. 

Costuma ele dizer que, ao assistir à Santa Missa, não lia mais que três letras: a primeira, negra, era a consideração de seus pecados que lhe produziam confusão e arrependimento, e ocupava-o desde o começo até ao ofertório. A segunda era vermelha: a meditação da Paixão de CRISTO, na qual considerava o preciosíssimo Sangue que JESUS derramou por nós no Calvário, sofrendo morte tão cruel; nisto se entretinha até à Comunhão. A terceira letra era branca, pois quando o sacerdote comungava, ele se unia a JESUS pela comunhão espiritual, ficando, em seguida, todo absorto em DEUS, contemplando a glória eterna que esperava como fruto do divino Sacrifício. Esse homem simples assistia à Santa Missa com grande perfeição e quisera eu que todos aprendessem dele tão alta sabedoria.

** Leia o capítulo seguinte, em que S. Leonardo expõe o terceiro método

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Fonte:
MAURÍCIO, Leonardo de Porto. As Excelências da Santa Missa, conforme a ed. romana de 1737 dedicada a S.S. o Papa Clemente XII, pp. 42-44.www.ofielcatolico.com.br

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