Reencarnação: uma análise racional, lógica, moral e espiritual


** Leia a primeira parte desta série

NESTE PROSSEGUIMENTO de nossa abordagem da teoria da reencarnação, partimos para a contemplação de alguns aspectos fundamentais –, os mais essenciais dentre todos –, na compreensão do assunto como um todo, e que é ordinariamente negligenciado tanto pelos defensores quanto pelos críticos da mesma teoria.


Aprendizado, evolução, consciência e memória

A melhor maneira de começar a elucidar o problema é partindo de um exemplo prático bastante corriqueiro. Vejamos...

Eu tenho um cão. Não foi nada fácil, mas ele aprendeu a fazer as suas necessidades fisiológicas no lugar certo. Sabe por quê? Porque muitas vezes eu o surpreendi no ato de sujar a sala ou o corredor e o repreendi energicamente, falando alto e com firmeza: “Não pode!”, e imediatamente o levei para o local adequado. Esse método funciona porque, com a repetição, o cão acaba associando o ato à reprimenda. Com muita persistência e a repetição constante, ele termina por antecipar que será repreendido se usar outro local para suas necessidades que não seja o indicado. A prática de procurar o local certo, por fim, torna-se automática. Vitória!

Mas se você vir o cachorro fazendo suas necessidades num local inconveniente, esperar uma hora e só depois repreendê-lo, isso não vai funcionar. Ele não vai aprender nada desse jeito. Por quê? Ora, porque ele não sabe a razão de estar sendo repreendido! Nesse caso, puni-lo seria pura perda de tempo e até crueldade. Dadas as óbvias diferenças (que muita gente ultimamente parece não ser mais capaz de perceber) entre animais e seres humanos, o mesmo acontece com as crianças. Se uma criança não souber porque está sendo repreendida ou castigada, se ela não se lembrar o que fez de errado para merecer a "bronca", não vai aprender. Todo castigo dado sem explicação será cruel e injusto. Portanto, é claro, também às crianças – assim como a qualquer aprendiz, em qualquer idade – convém admoestar em tempo hábil.

Pois bem. Segundo a teoria da reencarnação, analogamente todos nós estaríamos na mesma condição do cão punido uma hora depois da travessura. Estaríamos respondendo por crimes que nem sabemos que cometemos. Bem, se eu não me lembro de nada, a punição será sempre cruel e injusta para mim. E ainda que não se use o termo "punição" (que os espíritas não apreciam), a ideia é exatamente a mesma: responder hoje por atos esquecidos, cometidos em uma outra vida.

Para esclarecer ainda mais o nosso ponto de vista, usaremos de outro exemplo bem prático: suponhamos que você esteja aprendendo a dirigir. Você não entende nada da condução de veículos automotores. Procura um professor; na primeira aula ele começa a lhe ensinar tudo o que você tem que fazer: como acionar o motor, acelerar e frear, trocar as marchas, usar os faróis e setas. Passam uma hora inteira juntos, praticando. A aula termina, você vai para casa, finda o dia e chega a noite; vai dormir satisfeito. Mas, no dia seguinte, você acorda tendo esquecido tudo o que o professor ensinou! Então volta à autoescola para a segunda aula; como não se lembra da aula anterior, porém, o professor vai precisar recomeçar a instrução inteira novamente, a partir do zero, porque tudo o que lhe foi transmitido foi perdido e a aula anterior não valeu de nada.

É um fato muito simples e claro como água. Se você esquece de tudo, o aprendizado volta à estaca zero, simplesmente porque a aprendizagem é um processo cumulativo (além de dinâmico, pessoal e gradativo). É mais do que óbvio que ninguém nunca seria capaz de "evoluir" dessa forma. Você nunca poderia aprender nada, se continuasse perdendo a sua memória de uma existência para outra. O aprendizado é como a adição: todo dia você vai acrescentando conhecimento e experiência, até chegar ao ponto desejado. Esse total é o que você aprendeu até agora, o seu verdadeiro grau de evolução, seja intelectual ou moral. Todavia sem memória ativa não pode haver aprendizado.

Como vemos, o "detalhe" que faz toda a diferença é que a memória é bem mais importante do que costumamos considerar. A memória, de fato, representa um dos componentes mais básicos das nossas consciências. Em última análise, poderíamos mesmo dizer que a memória é aquilo que somos, o que você é, o seu "eu" real, o seu "self". Se você retira a memória de um indivíduo consciente e pensante, esse indivíduo simplesmente deixa de existir enquanto pessoa, tornando-se como um vegetal.

Agora imaginemos que um certo Sr. Silva viveu criminosamente, por algum tempo. Ele poderia perfeitamente, em algum momento da sua vida, vivenciar uma retomada de consciência e mudar o seu proceder a partir daquele ponto. Consequentemente, se ele resolve mudar de atitude, toda a sua vida muda para melhor. Mas o que possibilitou essa mudança? Uma decisão pessoal. O Sr. Silva vinha agindo de uma determinada maneira, mas depois de algum tempo se arrependeu e reviu as suas atitudes. Podemos nos arrepender de um mal feito, por vários motivos: ao vermos um semelhante que sofre por nossa causa, por entendermos que somos também responsáveis pelo bem da coletividade, por compaixão, por medo de punição ou simplesmente por entendermos que fazer o bem é, em algum nível, mais gratificante do que praticar o mal.

Muito bem. Acontece que, mais uma vez, esse tipo de mudança para melhor só é possível quando o indivíduo faz uso da memória. Se eu não me lembro de algo ruim que fiz, como poderia optar pela mudança? Somente se eu me lembro do que fui, do que fiz de ruim e das consequências dos meus atos, é que posso me arrepender. Como alguém poderia se arrepender de algo que nem sabe que fez? Como escolher o melhor caminho para a sua vida, sem a memória das experiências vividas? É por se lembrarem do mal que fizeram (e das consequências dos seus atos) que algumas pessoas resolvem procurar alguém que prejudicaram, para se desculpar e/ou tentar compensar de algum modo o mal feito, com o compromisso de não repetir o mesmo erro. Eis a verdadeira evolução espiritual.



As inclinações naturais

Dependendo da sociedade em que nascer, você será uma pessoa totalmente diferente. Se você tivesse nascido no Japão, hoje seria uma outra pessoa, não só com costumes diferentes, mas também com valores morais diferentes daqueles que tem. Se tivesse nascido nos EUA, na África ou na Europa, idem. Tendências naturais fora do seu controle equivalem a boa parte do que você é, e este é um fato científico fartamente comprovado em estudos diversos. É um fato tão inescapável que Nosso Senhor Jesus Cristo o esclareceu – porque poderia aparentar uma injustiça divina que nem todos recebam as mesmas capacidades e oportunidades nesta vida – que cada um será cobrado conforme aquilo que lhe foi dado (Lc 12,47-48).

Ainda assim, caro leitor, a sua personalidade não poderia se desenvolver dentro de nenhum sistema cultural sem o uso da sua memória. Seja você brasileiro, indiano, chinês, nigeriano ou alemão, imagine se hoje você ensina ao seu filho sobre quem ele é, sobre a sua família, sua cultura e bons valores, e também sobre o certo e o errado. Além disso, nesse mesmo dia ele aprende, por experiência própria, que botar a mão sobre a chama acesa do fogão é algo muito perigoso. Bem, ele aprendeu coisas importantes nesse dia. Evoluiu enquanto ser consciente. Mas agora imagine que, amanhã, ele simplesmente vá acordar sem se lembrar de nada do que ocorreu hoje! O que aconteceria? Tal criança não seria capaz de absolutamente nenhum progresso, seja moral, intelectual ou de qualquer outra ordem. Não seria possível evolução alguma na vida de uma pessoa assim, e ela viveria até o último dos seus dias repetindo sempre e sempre as mesmas experiências, sem aprender nada, nunca.

Somos aquilo que sabemos que somos, isto é, o que lembramos que somos, e isso não é teoria, é fato científico. Alguns talvez se lembrem da comédia "Como se fosse a primeira vez", protagonizado por Drew Barrymore e Adam Sandler. Numa cena hilária, o protagonista procura a mocinha (que tem um transtorno de memória crônico adquirido num acidente) numa clínica especializada, e lá encontra um paciente cuja memória recente dura apenas alguns segundos. Os dois se cumprimentam e se apresentam, mas, logo em seguida, após algumas poucas palavras trocadas, o homem volta a se apresentar. Os dois novamente se apertam as mãos e dizem seus nomes, mas... alguns segundo depois, o doente se esquece e volta a se apresentar. Uma cena cômica, mas esse tipo de transtorno existe e na vida real não tem nada de engraçado. Um ser humano com uma doença desse tipo é como um zumbi, um morto-vivo. Exatamente como seria a alma humana, migrando de um corpo para outro, indefinidamente, sem nunca se lembrar quem foi ou o que fez em sua existência anterior: marcando passo eternamente na mesma situação, indefinidamente, incapaz de usar a experiência adquirida para melhorar. É assim que, inexorável, inevitável e obviamente, a teoria da reencarnação, enquanto processo evolutivo, cai por terra.


A lei do carma e o livre-arbítrio

Muitos reencarnacionistas acreditam no carma ou karma. Outros tantos dizem que não, mas na realidade o conceito de ação e reação "cármica" (que é bem diferente da lei física de ação e reação), isto é, a crença de que vamos todos receber o retorno do que fizemos, nesta vida ou na outra, está sempre presente. Alguns tentam argumentar dizendo que a coisa não é assim tão simples, que a questão toda envolve um complicado processo evolutivo, mas o fato é que esse processo implica sempre um conceito idêntico ao do carma. Um conceito impossível de aceitar, se fizermos uso do nosso discernimento mais elementar, livre de apegos à qualquer doutrina. Se não, vejamos:

O carma seria como uma força invisível e irresistível que está sempre a registrar tudo que você faz, a cada momento, para depois manipular circunstâncias para que você sofra ou goze, dependendo do mal ou do bem que fez, nesta ou em alguma outra vida. Sem dúvida um sistema incompatível com o livre-arbítrio e ainda mais incompatível com o conceito cristão do perdão incondicional e da gratuidade. Segundo a teoria da reencarnação, Deus perdoa, desde que você pague. Isto é perdão? Jesus nos ensinou a pedir: "Perdoai as nossas dívidas". O que é perdoar uma dívida? Esquecer essa dívida, deixar para lá, como se ela nunca tivesse existido, ou obrigar o devedor a pagar o que deve, de um jeito ou de outro? Se a sua dívida tem que ser paga, de qualquer maneira, nesta vida ou na outra, faz sentido pedir perdão para as nossas dívidas? Não; elas serão saldadas de qualquer maneira.

Isto significaria que o Perdão divino na verdade não existe, e que nenhuma dívida poderia ser perdoada: todas elas precisariam ser pagas, inexoravelmente, sem escapatória, sendo esta uma lei espiritual/universal imutável. E se esta é uma lei inapelável, então as pessoas não são livres.

Olhando mais de perto, veremos que esta lei estaria, na maior parte das vezes, usando uma pessoa para punir outra. Ora, se alguém me dá uma surra porque eu surrei uma outra pessoa, nesta ou numa outra vida, onde está o livre-arbítrio da pessoa que surgiu para me dar uma surra, como reação pelo que eu fiz? Essa pessoa está agindo, hoje, como compensação pelo que eu fiz ontem, mas... Agora ela vai ter que receber a compensação dela também!? Nesse exemplo hipotético, precisaria depois surgir um terceiro, para surrar o segundo, e depois um quarto para surrar o terceiro e assim sucessivamente, sem fim... Ou então, ele me surra hoje, e amanhã eu volto a surrá-lo, depois ele me surra novamente, sendo um ato a reação do outro ato, ad infinitum. Claro que aqui estamos falando em surras como metáfora para todas a más ações que praticamos na vida.

Consideremos o caso real de uma mulher que foi vítima de um cruel assaltante: ele a baleou, o tiro atingiu sua coluna vertebral e a condenou a passar o resto da vida numa cadeira de rodas. Se isso foi a consequência de algo que ela fez em outra vida, então o assaltante está apenas cumprindo a Justiça divina, manifestada nessa suposta lei de ação e reação espiritual, fazendo a mulher pagar sua dívida. Mas não estaria ele próprio iniciando uma ação, usando o seu livre-arbítrio? E então, estaria ele também gerando carma ruim para si mesmo. Se for esse o caso, se ele está iniciando uma ação fazendo uso do seu livre-arbítrio, então não podemos explicar o sofrimento com base em vidas passadas, porque para alguém iniciar uma ação é preciso que tenha o direito de fazer o que quiser, independentemente do que aconteceu em uma outra vida. É um poço sem fundo, um círculo vicioso sem solução, sem razão de ser e completamente insano.

Outro exemplo: se um homem resolve estuprar a primeira mulher que passar no beco, tarde da noite, usando seu livre-arbítrio, essa mulher não tinha nada a ver com isso. Ele usou o seu livre-arbítrio para fazer o mal a uma pessoa inocente. Dizer que a moça estuprada tinha algo para pagar ou aprender também não explica nada, porque sempre teria que existir uma equivalência proporcional entre os que decidem prejudicar alguém e os que devem ser prejudicados para pagar as suas dívidas. Em outras palavras, as circunstâncias teriam que ser manipuladas o tempo todo, para levar os que querem punir alguém ao encontro dos que precisam ser punidos.

Esta noção não pode ser compatível, de modo algum, com o conceito de livre-arbítrio. O tipo de controle que o carma teria que exercer sobre todas as pessoas e coisas seria algo injusto para todos. É muito mais coerente afirmar que as pessoas fazem o que querem e sofrem as consequências por isso nesta vida –, de acordo com as circunstâncias específicas de cada caso –, do que crer na atuação de uma força invisível que a tudo controla, numa sucessão de vidas sem fim. O estuprador poderá sofrer com um peso na consciência, que vai carregar para o resto da vida. Suas noites de sono não serão as mesmas. Mas ele também pode ser um daqueles tipos realmente frios, que não sabe o que é consciência: ainda assim, ele viverá sob o risco de ser preso a qualquer momento, se a mulher voltar a vê-lo e chamar a polícia. Há também o risco de o marido ou algum parente dela decidir fazer justiça por conta própria. Ele viverá, então, sob o efeito do medo, desconfiado, sentindo-se constantemente ameaçado. Enfim, sua má ação poderá gerar "N" consequências em sua vida. Esta é a lei de ação e reação que a simples observação do mundo natural demonstra ser real. E assim é muito mais simples, prático e justo para todos.

O livre-arbítrio exige acaso. Somente pode existir liberdade num sistema imprevisível. Nosso direito de decidir o que é certo e errado precisa, além da memória, da liberdade.
www.ofielcatolico.com.br

6 comentários:

  1. Ótima matérias, gostaria de saber se haverá continuação dela?. Poderiam objetar as interpretações equivocas dos espíritas a respeitos de algumas passagens da Bíblia, como por exemplo, de eles alegarem que São João Batista é a reencarnação do Profeta Elias e que sua morte por decapitação se deveu ao fato de Elias ter mandado degolar os 450 profetas de Baal, no sacrifício do Carmelo conforme está descrito no livro de 1º Reis 18.

    Sidnei

    ResponderExcluir
  2. Deus que abençoe, perfeito esse artigo, tudo que eu penso e digo quando falo sobre espiritismo, claro que o seu artigo é bem mais especifico e eloquente.
    Amei, que Deus sempre lhe abençoe.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Michele, desculpe a curiosidade mas vc é a mesma Michele que esteve aqui no site buscando explicações sobre o catolicismo pois estava em processo de conversão do protestantismo?

      Excluir
  3. Parabéns pelo artigo e pelo site. Nele tenho encontrado todas as repostas nos meus estudos. Gostaria de fazer uma indagação que sempre escuto de quem é espírita (incluindo alguns amigos). Eles dizem que nós não temos explicação do por que tantas pessoas nascerem já com infortúnios (alguns muito grave, como uma doença incurável, miséria, etc) e outras pessoas quase não conhecerem tais problemas.
    Em minha resposta digo apenas que não podemos saber de todos os desígnios de Deus. Para eles, a reencarnação explica logicamente a interrogação.
    Desde já agradeço.
    Um abraço fraterno e que o amor de Deus e Maria esteja com vós.

    ResponderExcluir
  4. Anonimo a resposta a sua pergunta está em João cap.1 vers. 19 a 23.
    " Este foi o testenunho de João , quando os judeus lhe enviaram de Jerusalem sacerdotes e levitas para lhe perguntar: Quem és tu ? Ele confessou e não negou: Eu não sou o Cristo. E lhe perguntaram: Mas então quem és ? És Elias ? Ele respondeu : "NÃO sou ". És o profeta? Ele respondeu : NÃO. Disseram-lhe então: Quem és afinal para darmos respostas aos que nos enviaram? Qua dizes de tu mesmo? Ele disse: Eu sou a voz que clama no deserto : endireitai o caminho do Senhor, segundo disse o profeta Isaías. "

    ResponderExcluir
  5. Excelente estudo, desenvolvido com firmeza, objetividade e saber acerca do tema. Parabéns e continue este frutífero apostolado, sob os corações de Nosso Senhor e da Virgem Santa!

    ResponderExcluir

** Assine a revista O Fiel Católico digital e receba nossas novas edições mensais em seu e-mail por uma colaboração mensal de apenas R$7,00. Ajude-nos a continuar trabalhando pelo esclarecimento da fé cristã e católica!


AVISO aos comentaristas:
Este não é um espaço de "debates" e nem para disputas inter-religiosas que têm como motivação e resultado a insuflação das vaidades. Ao contrário, conscientes das nossas limitações, buscamos com humildade oferecer respostas católicas àqueles sinceramente interessados em aprender. Para tanto, somos associação leiga assistida por santos sacerdotes e composta por professores doutores, mestres e pesquisadores. Aos interessados em batalhas de egos, advertimos: não percam precioso tempo (que pode ser investido nos estudos, na oração e na prática da caridade) redigindo provocações e desafios infantis, pois não serão publicados.

Receba O Fiel Católico em seu e-mail