Acordo entre China comunista e Vaticano pode ferir a autoridade moral e espiritual da Igreja?

Católicos se reúnem em Hong Kong pela notícia de que Beijing e o Vaticano, cujas relações foram cortadas depois que o Estado comunista foi fundado, em 1949, estão entrando em acordo. A pergunta que fazem é: "A que custo?" (Imagem: Reuters)

ESTE É MAIS UM daqueles assuntos dos quais preferiríamos não falar, mas a que nossa consciência nos obriga. Neste momento, a Igreja Católica corre um sério risco de ter gravemente solapada a sua autoridade espiritual e moral perante seus fiéis, mergulhando milhões de almas em confusão. Isto fatalmente acontecerá caso o Vaticano concretize o surreal acordo com o governo comunista chinês. A esse  respeito, alerta também um grupo de líderes católicos baseado em Hong Kong e formado por advogados, acadêmicos e ativistas dos direitos humanos.

Esses fiéis católicos assinaram uma carta aberta destinada aos bispos de todo o mundo, por meio da qual expressam a sua perplexidade, consternação e grave preocupação por esse acordo, segundo o qual o Vaticano reconheceria sete "bispos" nomeados pelo Partido Comunista da China para a sua falsa "igreja patriótica" – a qual, como é de conhecimento público, foi criada com o único intuito de afastar as almas daquele país da verdadeira Igreja Católica.

O acordo, que visa restaurar as relações entre China e Vaticano, cortadas há quase 70 anos, segundo muitos analistas, teólogos e pensadores católicos, poderia criar um novo cisma na igreja na China – com grande potencial para repercutir universalmente.

"Estamos preocupados com o fato de o acordo não apenas deixar de garantir a liberdade desejada pela [verdadeira] Igreja, mas também por representar um golpe ao poder moral da mesma Igreja", diz a carta. "Por favor, repensem o acordo atual e parem com um erro irreversível e lamentável".

A carta vem menos de duas semanas depois que um grande líder católico da Ásia acusou o Vaticano de "vender a Igreja" em seus esforços para entrar em acordo com o governo chinês. O cardeal  Joseph Zen, arcebispo emérito de Hong Kong, divulgou em carta de 29 de janeiro (2018), publicada pelo noticioso AsiaNews, alguns importantes esclarecimentos sobre os dramáticos e inacreditáveis desdobramentos da conjunção da política vaticana com a repressão religiosa comunista na China.

O prelado fez notar, em primeiro lugar, que de fato os representantes vaticanos querem obrigar a bispos legítimos a entregar suas dioceses aos bispos ilegítimos –, um deles excomungado –, todos eles "bonecos" do Partido Comunista.



O Cardeal Zen (foto) escreveu:

Reconheço que sou pessimista sobre a situação atual da Igreja na China, mas meu pessimismo se baseia na minha longa e direta experiência da Igreja na China. Tenho uma experiência direta da escravidão e humilhação a que estão submetidos nossos irmãos bispos. De acordo com as informações recentes, não há razão para mudar essa visão pessimista.

O governo comunista está produzindo novas e mais estritas regulações que restringem a liberdade religiosa. A partir de 1º de fevereiro de 2018, a Missa da comunidade 'clandestina' (isto é, legítima, fiel a Roma) não será mais tolerada. (...) Se eu penso que o Vaticano está vendendo a Igreja Católica na China? Sim, definitivamente, se continuar seguindo na mesma direção e com tudo o que vem fazendo nos últimos anos e meses.

(Asia News)

No mês passado, o Vaticano pediu a dois bispos "subterrâneos"  – que operam sem a aprovação do governo chinês, numa situação semelhante a dos bispos dos tempos das perseguições romanas – para renunciar em favor dos fantoches nomeados pelo governo comunista – um dos quais excomungado da Comunhão da Igreja em 2011(!).

Um deles, Guo Xijin, disse no fim de semana que obedecia "a decisão de Roma" e que respeitaria qualquer acordo entre as autoridades de Pequim e do Vaticano. Guo e o segundo bispo, Zhuang Jianjian, estão sob vigilância policial e Guo vem sendo repetidamente detido, inclusive por 20 dias no ano passado.


A situação atual e a propaganda

A questão das nomeações de bispos está no centro dos esforços para restabelecer as relações entre o Vaticano e a China, que foram separadas oficialmente após a fundação do Estado comunista em 1949.

Há entre 10 a 12 milhões de católicos na China, com cerca de metade adorando em igrejas subterrâneas e metade em igrejas geridas pelo governo. O governo chinês nomeou sete bispos, que não são reconhecidos por Roma. Até 40 bispos subterrâneos apoiados por Roma operam sem a aprovação do governo chinês.

As negociações para restaurar os laços entre os dois poderes começaram há mais de 18 meses, mas a questão dos bispos tem sido um obstáculo importante.

No ano passado, o presidente chinês, Xi Jinping, disse ao congresso do Partido Comunista que "as religiões na China devem ser orientadas pelos chineses", e que o governo deve "fornecer orientação ativa às religiões para que elas possam se adaptar à sociedade socialista".

Novos regulamentos entraram em vigor em 1 de fevereiro, especificando os tipos de organizações religiosas que podem existir, onde podem existir e as atividades que podem organizar.

Houve uma repressão às igrejas protestantes em expansão, sendo que muitas foram forçadas a remover as cruzes de seus templos e outras foram dissolvidas.

De acordo com a carta aberta dos líderes católicos citados no início desta, "o partido comunista na China, sob a liderança de Xi Jinping, destruiu repetidamente cruzes e igrejas, e a 'Associação Patriótica Católica da China', controlada pelo Estado, mantém um pesado controle sobre os católicos".

"A perseguição religiosa nunca parou. Xi também deixou claro que o partido fortalecerá seu controle sobre as religiões", prossegue a carta, e continua: "Não vemos nenhuma possibilidade de que o próximo acordo possa levar o governo chinês a cessar com a perseguição à Igreja e a parar suas violações da liberdade religiosa".

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Com informações do 'The Guardian' e 'National Catholic Register'

3 comentários:

  1. Deus e Senhor nosso! Ajudai-nos a sair dessa tempestade. Ouço e leio notícias que me deixam consternado.

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  2. Muito triste, muito grave!
    Acho que não dá mais para negar que este Papa quer destruir a verdadeira Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo.
    Rezemos por ele, rezemos pela Santa Igreja Católica!
    Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, socorrei-nos!

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