Seria a Virgem Maria uma deusa pagã? – parte 1

Cabeça de Artemis

Por David MacDonald
Tradução de Carlos Martins Nabeto
Adaptação de Henrique Sebastião


O "EVANGÉLICO" RALPH Woodrow[1] sustentou a tese de que Maria seria uma "deusa pagã" e escreveu um livro muito popular ligando o Catolicismo ao paganismo, baseando-se em um livro escrito em 1857 por Alexander Hislop chamado "As Duas Babilônias". 

Depois que a seriedade das pesquisas de Hislop foram questionadas, Woodrow resolveu pesquisar o assunto por conta própria – e [como costuma acontecer nesses casos] ficou boquiaberto ao descobrir que as pesquisas de Hislop, se não escandalosas, foram, no mínimo, grosseiramente falhas. 

Dessa forma, tirou de circulação seu primeiro livro e publicou outro em seu lugar, intitulado "A Conexão Babilônia". Neste livro, nas páginas 33 a 38, Woodrow aborda detalhadamente os argumentos de Hislop contrários a doutrina católica sobre a Virgem Maria, demonstrando como e porque são absolutamente falsos. Ele agora se envergonha dos seus irmãos ditos "evangélicos" que se utilizam de tais enfoques para condenar a relação existente entre a Igreja Católica e a mãe de Jesus, e pede desculpas por ter propagado anteriormente esses pontos de vista. Ele permanece protestante, porém aprendeu a respeitar a Igreja Católica e deixou de querer associá-la com paganismo.


Problemas oriundos do sincretismo

Um estudo cuidadoso e honesto dos cultos das deusas pagãs revelam que, excluindo alguns raros símbolos superficiais (ex.: a deusa ser considerada a mãe dos seus devotos), não há nada realmente sólido nas comparações com a relação católica com a Virgem Maria.

A deusa Gaia (a 'mãe terra'), por exemplo, é um símbolo de tudo o se que opõe ao que nós, católicos, cremos sobre Maria. Maria não nos obriga a adorar a Terra nem nos faz exaltar o prazer sexual fora do matrimônio, mas reafirma uma doutrina que ensina o exato contrário; Maria é, em tudo, totalmente contrária a qualquer profanação ou deturpação do Nome de Jesus. Maria não alimenta o culto de outras religiões em detrimento à Mensagem de seu Filho. Maria está próxima apenas de uma única e exclusiva finalidade: seu Filho Jesus Cristo.

...cada católico romano que conheci vê Maria como uma mulher irrepreensível, uma virgem totalmente dedicada a Deus e à prática das virtudes. Nenhum desses atributos pode ser atribuído à deusa pagã Semíramis. Seu estilo de vida é exatamente o contrário.
(Woodrow, pág. 35).

Os primeiros cristãos, convertidos do paganismo, abandonaram a obscuridade e a superstição de suas antigas crenças. Muitos deles se tornaram mártires, entregando suas vidas ao invés de oferecer incenso a uma imagem de César. Nunca adoraram Gaia, Ísis ou Cibele, e nunca se confundiu qualquer uma destas com o aspecto da Mãe de Jesus.

Acusar a Igreja primitiva de ter duvidado da sinceridade de conversão dos pagãos? Esses convertidos aceitavam morrer atirados aos leões por sua fé em Cristo Jesus. Por que continuariam a sustentar seus antigos deuses pagãos? Os cristãos consideravam as deidades pagãs como demônios e a fórmula do Batismo exigia (como continua a exigir) a renúncia a Satanás. Com efeito, para receber o Batismo, os catecúmenos deviam renunciar aos seus antigos deuses. Como poderiam continuar adorando aos demônios após terem renunciado a eles? E como poderiam identificar a Mãe do Salvador com demônios impostores? Entendo que as pessoas que promovem tais teorias não são racionais ou sérios em suas "investigações".

Ainda que não consideremos os muitos e honrosos títulos de devoção que os católicos lhe atribuem, Maria é, no mínimo e em última análise, uma cristã exemplar recebeu o Espírito Santo em Pentecostes e falou em línguas 2000 anos antes de os pentecostais terem supostamente (como eles creem)recebido este dom (Atos 1,14-2,3).


Coliridianos?

Assim era denominada uma pequena seita do século IV na Arábia. Composta majoritariamente por mulheres que abertamente adoravam a bem-aventurada Virgem, ofereciam-lhe refeições durante suas cerimônias religiosas. Alguns observam que este é um exemplo de antigos pagãos adorando Maria como "deusa".

Mas, ora, isso é um completo absurdo, simplesmente porque os coliridianos não eram católicos, e sim uma religião sincrética que, da mesma forma que os gnósticos e outros grupos daquele tempo, mesclava práticas de várias tradições religiosas. Eram hereges: tomaram a figura de Maria do Catolicismo e lhe ofereciam sacrifícios (a respeito dos sacrifícios oferecidos a algumas deusas pagãs, ver Jeremias 44,18-19). Foi uma rara mesclagem de crenças contraditórias que foi, é claro, formalmente condenado pela Igreja Católica. Só viemos a conhecer da existência desta seita realmente pequena e insignificante porque Santo Epifânio, Padre da Igreja, os condenou em um de seus escritos chamado "Panarion".


Mãe de Deus?

Recebi um e-mail dizendo: "Maria necessitava de um Salvador [bem-vindo ao clube! Nós, do apostolado Fiel Católico, os recebemos praticamente todos os dias...]. De fato, os católicos concordam que Maria, humana, necessitava de um Salvador. Ela foi salva por seu Filho e, ao mesmo tempo, foi sua mãe: "Minha alma glorifica ao Senhor, / E meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador, / Porque olhou para a baixeza de sua escrava / Por isso, todas as gerações me chamarão bem-aventurada" (Lucas 1,46-49).

Maria necessitava de um Salvador – mas o Espírito Santo proclama na Bíblia que todas as gerações a chamarão bem-aventurada. Porque ignorar a segunda parte de um mesmo fato bíblico?

Alguns "evangélicos" são tão ignorantes da teologia católica que chegam realmente a crer que Maria é como uma "deusa católica" em razão do título mariano "Mãe de Deus"[2]: pensam que os católicos a chamam dessa forma porque creem que deu a Jesus sua divindade(!!).

Jesus, o Cristo, nasceu de Maria para se fazer homem. Se ela fosse assim como um ser divino, de que modo teria Ele, que é Deus, derivado sua natureza humana a partir dela, Maria?

A maioria dos cristãos diria que é impossível separar a divindade de Jesus de sua humanidade. Ele é, ao mesmo tempo, totalmente Deus e totalmente homem. Há uma união inseparável destas duas naturezas – Deus e Homem – em Jesus Cristo. Chamamos Maria de "Mãe de Deus" porque Jesus é Deus e ela é sua mãe. Já que as duas naturezas de Jesus (divina e humana) são inseparáveis, os católicos entendem que é apropriado chamar Maria de Mãe de Deus, assim como fez Isabel, cheia do Espírito Santo, ao dizer: "Quem sou eu para que a Mãe do meu Senhor venha me visitar?" (Lucas 1,43). A palavra "Senhor", atribuída a Jesus Cristo, tem sentido de Deus, e todo cristão concorda com isso. Logo, este não é um "título pagão", mas sim um título 100% bíblico.

Até Martinho Lutero, fundador da dita "Reforma" protestante, o reconheceu, e deixou por escrito o que entendia a respeito do título mariano "Mãe de Deus", tais como:

São Paulo disse: 'Deus enviou seu Filho, nascido de mulher'. Estas palavras, que tenho por verdadeiras, realmente sustentam com toda firmeza que Maria é Mãe de Deus.
(Martinho Lutero, Obras de Martinho Lutero, volume 7, pág. 592)

Este artigo de fé - que Maria é a Mãe de Deus - está presente na Igreja desde os seus primórdios e não é uma nova criação oriundo de concílio, mas a apresentação feita pelo Evangelho e as Escrituras.
(Martinho Lutero, Obras de Martinho Lutero, volume 7, pág. 572)

...ela é corretamente chamada não apenas mãe do homem, mas também Mãe de Deus... é certo que Maria é a Mãe do real e verdadeiro Deus.
(Martinho Lutero, Sermão sobre João 14,16: Obras de Martinho Lutero, volume 24, p. 107 - St. Louis, Pelican, Concordia)


Maria e a deusa acadiana Ishtar


A declaração de "Rainha do Universo" feita pela Constituição Lumen Gentium (1964) provocou em alguns o pensamento de que a Igreja Católica estava colocando Maria como Cabeça do Céu. Observaram que "Rainha do Céu" foi um título atribuído à deusa Ishtar por seus devotos na Babilônia (Jeremias 44,18-19). Inclusive chegaram a propagar que de algum modo isso provaria que Maria e Ishtar são a mesma pessoa e que os católicos na verdade adoram Ishtar quando honram Maria(!).

Primeiramente, vamos ver a citação da Escritura que é usada contra a Igreja Católica nesta matéria:

Por acaso não vês o que eles fazem nas cidades de Judá e nas ruas de Jerusalém? Os filhos recolhem lenha, os pais acendem o fogo, as mulheres amassam a pasta para fazer bolos para a Rainha do Céu, e se derramam libações a outros deuses a fim de ofender-me.
(Jeremias 7,17-18).

Ora, jamais a Igreja Católica ofereceu refeições (ou qualquer outro sacrifício a Maria). A passagem, também diz que naquele culto se derramavam libações a outros deuses. Os católicos nunca associaram a devoção a Mãe de Jesus Cristo com qualquer adoração de divindades estranhas, nem jamais apresentaram qualquer oferenda a outro deus que não seja o único Deus verdadeiro descrito na Trindade (Pai, Filho e Espírito Santo).

Muitos reis de diferentes nações são chamados "Sua Majestade" por seus súditos, porém isso não prova que todos eles são a mesma pessoa. Numerosos foram os pagãos que chamaram seus deuses de "Pai", como Zeus ('Pai dos deuses e dos homens') e Odin ('Pai de todos'). Isso não significa, de modo algum, que Zeus e Odin possam ser confundidos com Deus Pai.

Maria, a Mãe de Jesus é Maria, a Mãe de Jesus, e não existe a menor possibilidade de ser confundida com nenhuma entidade pagã. Talvez seja, por um lado, compreensível que alguns protestantes tenham se alarmado com a declaração de Maria como "Rainha", dado o contexto cultural de nossa geração. Vivemos um momento em que a Rainha da Inglaterra é a autoridade máxima de Commonwealth. Não há um rei e é ela quem manda, ela é o centro daquela monarquia; todos cantam "Deus salve a rainha...". Assim, é natural que o entendimento contemporâneo quanto a designação de "rainha" é que se trata de alguém com autoridade máxima. Mas o que acontece com a rainha quando existe um rei? Quem detém a autoridade? Na própria lei de Commonwealth, quando há um rei a rainha não possui a autoridade, a não ser o direito de aconselhar ao rei para influenciar alguma decisão.

Toda a teologia católica afirma e reafirma, do início ao fim, que Jesus Cristo é o Rei dos Reis e o Senhor dos senhores, o Alfa e o Ômega de todas as coisas, e que detém toda a autoridade sobre os Céus e a Terra. Ele é. Não paira absolutamente nenhuma dúvida quanto a isso. Maria é chamada Rainha simplesmente por ser a Mãe do Rei [assim como acontece que todos os títulos de honra dados à Virgem Maria]; significa que ela não possui qualquer autoridade por ela mesma, por sua própria pessoa e por seu próprio poder, a não ser o de interceder junto ao Rei. Deste modo, não creio que chamar Maria de "Rainha do Universo" diminui a autoridade do Rei Jesus. Na verdade, a reforça. Que Rei respeitável não possui uma rainha?

Mais do que todo o exposto, os católicos sustentam também com as Sagradas Escrituras o reinado de Maria. O Apocalipse (nos capítulos 11 e 12) diz:

Então o Templo de Deus no Céu se abriu e a Arca da Aliança foi vista em seu Templo... um grande sinal apareceu no céu: uma mulher revestida do sol, com a lua sob os pés e uma coroa de doze estrelas sobre sua cabeça. Ela estava grávida... e deu à luz um Filho varão que reinará sobre todas as nações com cetro de ferro... Porém, o Filho foi elevado até Deus e até seu Trono..."

A passagem apresenta claramente Jesus Cristo como Rei – e também apresenta sua Mãe portando uma coroa no Céu. Porque os ditos "evangélicos" assumem e tomam literalmente tantas passagens da Bíblia, mas fazem questão de fechar os olhos para muitas outras? Isso não é observar as Escrituras; antes, é interpretar por conta própria o que diz o texto sagrado, algo que a própria Bíblia condena: "Sabei primeiramente isto: nenhuma profecia da Escritura é de interpretação particular" (2Pedro 1,20).
Notas:
1. Ralph Woodrow, The Babylon Connection, (Palm Springs, CA: Ralph Woodrow Evangelistic Association, 1997, pág. 34). De qualquer forma, "A Conexão Babilônia" é, em sua maior parte, uma sonora refutação às acusações de "paganismo" que se tem levantado contra a Igreja Católica. Os parágrafos citados aqui são um bom exemplo disso.
2. Este título foi usado pelos cristãos desde cedo.

Um comentário:

  1. "Mais do que todo o exposto, os católicos sustentam também com as Sagradas Escrituras o reinado de Maria. Apocalipse 11,19 diz:

    Não seria Apocalipse 12, 19?.

    Quanto a Maria ser mãe de DEUS, até onde eu sei, qualquer pessoal que nasce de uma mulher, tal pessoa se torna filho deste mulher assim como a mulher se tonar mãe deste do qual dela nasceu, sendo assim, JESUS DEUS e homem, nasceu como tal de Maria, tornando dela filho e ela DELE mãe. Não é difícil entende isto, basta somente um pouco de esforço para compreender.

    É fato que Maria não deu início a divindade de JESUS, pois DEUS ELE já era antes de se encarnar como homem no ventre de Maria, porém, dizemos que Maria é mãe de DEUS, não porque ela deu origem a natureza divina de JESUS, mas porque ELE dela nasceu como DEUS e homem, e aí vale o que foi descrito acima.

    Sidnei

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