Areia movediça


GUILHERME ERA um garoto muito esperto, curioso e ativo, apaixonado por descobertas e aventuras. Houve, então, um dia em que viu passar pela rua um grupo de desbravadores. O líder da expedição parou no bar em que o garoto trabalhava com seus pais e desabafou com um sotaque inglês:

– "Esses mosquitos são enviados do demônio!", falou, abanando-se intensamente.

– "Que isso, seu moço!", uma hora vossa sinhoria se acostuma", respondeu uma voz.

– "É por isso que outra civilização não brotou por esses cantos desde há muito!", disse o velhote com pincenê e bigode curvo.

– "Outra civilização?", perguntou encantado Guilherme.

– "Sim, meu jovem. Naquela floresta, ao que tudo indica, houve uma civilização há muito extinta. Estamos indo até lá para obter mais informações".

– "Me leve junto, senhor!", exclamou o menino.

– "Apenas com a autorização de teus pais", disse o historiador depois de um gole numa bebida de procedência duvidosa.

– "O minino pode ir com o sinhor sim, depois de limpar tudo aqui", assentiu a mãe do rapazote.

Então, seguiu Guilherme solenemente com a expedição descobridora, rumo ao desconhecido.

Acontece que ninguém conhecia aquela mata; nem mesmo Guilherme andara mais que uns metros mata adentro, caçando passarinho. E lá se foi o grupo de cegos tateando a mata para chegar a algum lugar.

Coberto por folhas secas e galhos mortos, porém, havia um mangue cuja profundidade era desconhecida pela própria mata. Um a um, os desbravadores entraram e afundaram, enquanto o garoto olhava curioso. Finalmente só restou ele com sua curiosidade. Perguntando-se o que haveria de acontecer se seguisse seus companheiros, Guilherme entrou na areia movediça.

Conforme se mexia, afundava. Conforme afundava, mexia-se mais, tentando livrar-se da situação incômoda e destruidora. E a agonia e o desespero cessaram quando finalmente morreu sufocado, sem deixar outro rastro além de suas miúdas pegadas no limite da trilha.

Assim morreu o menino Guilherme Sem Sobrenome, e assim morrem todos os espasmos de sanidade que os movimentos conservadores geram desde que o Dragão chamado Estado se libertou da "prisão de mil anos"[1].

Época após época, sobrevém a loucura da humanidade em algum movimento ideológico que gera alguma grave perturbação social e moral amparada pela lei. Tal lei é sempre alguma lei humana e irracional, sem conformidade com a natureza, e os homens-gado obedecem assim como o boi obedece o som do berrante.

O problema maior, que perpetua o modus operandi tanto do rebanho quanto do som que lhe precede, é que dentro do mesmo rebanho há alguns que despertam, que saem da obscura caverna, e percebem que há algo de errado. Estes, que não são iluminados coisa nenhuma, mas que usam os olhos para enxergar, diferentemente da maioria, que obedece sempre às leis dos maus, até que não seja mais viável a desobediência.



Recentemente foi resolvido pelo Supremo Tribunal Federal que há um crime de "homotransfobia". A tragédia desta resolução é que não se define o que seria "homotransfobia" e, como o homem não conhece aquilo que não pode definir, fica claro que não sabemos em que consiste o crime, mas sabemos que é um crime "por revelação divina". Além disso, houve uma usurpação de competência do legislativo pelo judiciário.

Longe de mim a ousadia de me posicionar contra as onze divindades que ocupam os tronos da Suprema Corte, mas, como se não bastasse atentar contra a ordem republicana (de menor importância) eles atentam contra o direito à liberdade de expressar a crença de que a prática de atos homossexuais atenta contra a natureza.

[Pausa para pensar bem antes de publicar isso]

Está pintado um quadro semelhante à estória do Guilherme Sem Sobrenome, narrada acima. Há séculos, leis semelhantes têm entrado em vigor no Ocidente e, há séculos, grupos conservadores caem no ostracismo por obedecê-las, até que a desobediência resulte em morte.

O pequeno Guilherme viu todos seus companheiros de viagem desaparecerem um a um no fundo da areia movediça e, ao invés de tomar uma atitude diferente, seguiu o mesmo caminho.

Aqui no Brasil, aceitou-se a violência doméstica como algo normal; depois veio o divórcio; em seguida, com as famílias já desestruturadas, veio a descriminalização do adultério, seguida do chamado "aborto legal", a dificuldade de famílias estruturadas adotarem filhos e a facilidade de crianças serem adotadas por não-famílias. E agora isso. E agora, só agora, pensam em desobediência civil. Que ela seja feita, mas que não se esqueçam do que veio antes. Que se esqueçam da ilusão da ordem social.

De modo geral, os conservadores obedecem leis ímpias gradualmente até não ser mais possível desobedecê-las, como o homem que entra na areia movediça – e o fazem em nome da "ordem social". Ordem social: o status quo que sempre permitiu que governantes dos quatro cantos da Terra ceifassem vidas inocentes sem outro que lhes desse um basta além da irmã Morte – a melhor amiga dos católicos.


Por José Luís – Fraternidade Laical São Próspero

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1. Ap 20, 3

Um comentário:

  1. Sempre que li Ap. 20,3, me venho a cabeça, quem soltará o dragão após o reinado de 1000 anos de Cristo sobre a terra?.

    Para mim, o texto não deixa claro se é o mesmo anjo que acorrentou satanás, e nem Deus, mas para mim quem libertará o demônio serão as próprias pessoas que com a apostasia generalizada e nações implantando leis ímpias que vão contra os mandamentos divinos e a ordem natural das coisas, o demônio estará a solta novamente neste mundo para levar a todos novamente para as trevas.

    São Paulo, ao que parece, nos indica a mesma coisa, quando diz no capítulo 2 de II Tessalonicenses, e o que também diz também este mesmo capítulo 20 do Apocalipse, quando nos relata que por final o mau será derrotado e o bem triunfará, porém, antes os cristãos, o pequeno resto que sobrar, irão passar por inúmeras provações, e o que tudo indica, isto já começou.

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