Como santificar domingos e dias de festa?


ENQUANTO CRISTÃOS, somos exortados a dedicar nossas vidas a Cristo por meio do serviço ao próximo, do estudo das coisas santas, da oração e meditação, da direção espiritual particular, da participação na Missa e constante Comunhão com Nosso Senhor na Santa Eucaristia, da Confissão também constante dos nossos pecados.

Por que a participação frequente na Missa (ao menos todos os domingos e dias de guarda segundo a lei da Igreja) é tão importante? Em primeiro lugar, porque é isso que o próprio Deus em seus Mandamentos, nos ordena. Segundo, porque é ali que se encontra sempre presente, no Santo Sacrifício do Altar, o Autor da vida, nosso maior e verdadeiro Amor, que é Jesus Cristo.

Existe o caso particular de muitas pessoas que se encontram escravizadas pelo pecado se sentem indignas de participar da Santa Missa. Esta é uma perigosa cilada mental que cria um círculo vicioso terrível: penso que sou indigno e "sujo", por isso não vou à Igreja – como não vou à Igreja, não confesso meus pecados, não assisto Missa – caio cada vez mais fundo no abismo do pecado e afasto-me cada vez mais da vida verdadeira, da santidade que leva à real felicidade e realização de minha vida.

Caindo nessa ilusão, muitos deixam de cumprir o preceito dominical e falham no seu encontro marcado com Deus. Que grande, imensa perda! Que tragédia! Pior, procuram compensar a falta avassaladora, a saudade e necessidade que sentem do Criador, dentro de si mesmos, procurando afogar seu desespero com "brinquedos" diversos, sensações em e distrações externas, numa desesperada tentativa de suprir a Ausência de Deus. Isto se revelará um abismo sem fim, um poço sem fundo no qual se precipitam muitas almas.

Lembrem-se, queridos irmãos: ninguém –, absolutamente ninguém –, é, em sentido estrito, digno de estar na Presença de Deus. Pecaria por orgulho aquele que se julgasse digno de estar ali, tocando Nosso Senhor, recebendo seu Corpo e Sangue sacratíssimos. Mas Ele, Deus Todo Poderoso, no seu Amor infinito e inesgotável, chama a todos, e não são as suas tendências involuntárias para o pecado (por pior que seja) que impedirão a Deus de continuar nos amando. Ao contrário, Ele, nossa única Força, quer ali, no sublime momento em que se repete o Sacrifício da Cruz, dar forças para que você não sucumba às tentações do mundo. Ainda que você tenha caído em pecado, não deixe de ir. Vá e peça forças na Missa. Aproveite para se confessar e receber o Corpo daquele que morreu especialmente por você. Tenha coragem! Deus o quer!

[Temos que abrir parênteses neste ponto para falar do tristíssimo e lamentável caso de muitos fiéis católicos que anseiam ardentemente pela santa Missa de Nosso Senhor, e que se pudessem compareceriam a ela até diariamente, mas que vivem uma tragédia imensa – e talvez maior dos nossos tempos de crise: as celebrações indignas e muitas vezes até sacrílegas, que os põem diante de uma amarga dúvida: é melhor participar ou não de um culto que parece mais ultrajar a Nosso Senhor  do que adorá-lo como Ele quer e exige ser adorado? Este apostolado está em débito com seus leitores, devendo um artigo específico sobre o assunto já há um bom tempo, e o viemos protelando pela gravidade da questão e pelo fato de ser temerário que um grupo de leigos compartilhe opiniões e mesmo as orientações de seus padres diretores publicamente. Dizemos que este trabalho já foi iniciado e haverá de ser publicado ainda em tempo oportuno, se Deus o quiser!]

Todo exagero é repreensível


Todos os dias de nossa vida devem ser empregados na glorificação de Deus. Alguns dias, porém, Ele designou de modo particular para neles lhe oferecermos um culto exterior mais especial: são os dias de festa. É necessário, portanto, santificar esses dias. Os meios principais são, mais uma vez, o Santo Sacrifício da Missa, os Sacramentos, as obras de caridade, os sermões e instruções religiosas, as leituras edificantes para a alma. Contudo –, e aqui está um grande segredo, uma grande chave para se alcançar uma vida espiritual e piedosa plena e frutuosa –, é preciso evitar a fadiga do corpo e do espírito também com o excesso de exercícios piedosos.

Sim, todo exagero é repreensível, até mesmo nas coisas santas, pois a virtude acaba onde começa o excesso. Assim, rezar o Rosário, por exemplo, é uma prática irrepreensível e recomendável a todo cristão, e tanto mais excelente se o rezamos de joelhos diante do Sacrário, em uma igreja silenciosa. Mas o que aconteceria se você deixasse de lado todas as suas tarefas e obrigações cotidianas para passar seus dias inteiros rezando incessantemente? Bem, você estaria convertendo um bem em mal, uma prática santa num pecado. 

Se um homem casado, por exemplo, descuida das suas obrigações de estado para viver uma vida de clausura, isto não é virtude, e sim pecado. "Somos quem podemos ser", já dizia um certo poeta. Em quase tudo é preciso saber encontrar a justa medida e viver conforme, sem "curvar demais o arco", como disse Santo Tomás, para que não se quebre, e nem "deixar a corda muito solta", porque desse modo a flecha não poderá ser disparada. "A alma humana também se romperia se jamais relaxasse a sua tensão"[1].

Entenda-se bem que não estamos aqui a afirmar que, para que possamos perseverar na fé, devemos nos permitir pecar "de vez em quando" ou "só um pouquinho". Nada disso. Precisamos abominar e odiar o pecado, sempre e todos os dias, e precisamos buscar incessantemente odiar tudo o que nos afasta de Deus, cada vez mais, até o nosso último suspiro. O soldado cristão deve tornar-se exímio na arte de odiar o pecado. O que dizemos é aquilo que a Igreja sempre disse: que há tempo para rir e para chorar; para festejar e para jejuar, "tempo de prantear e tempo de dançar" (Ecl 3,4).

Por outro lado, qualquer regra de vida que procure tornar o homem satisfeito consigo e por si mesmo, sem temor, sem inquietação, sem noção da própria dependência, é enganosa; é como o resultado de um cego guiando outro cego: como sabemos, assim foram sempre as religiões pagãs. 

Uma viagem, um passeio, uma diversão sadia, sendo coisas que podem referir-se a Deus, servem também para santificar os dias de festa, quando fazemos tudo com o objetivo de agradar a Nosso Senhor. O mesmo se diga dos outros atos cotidianos do homem exigidos pelas necessidades do seu corpo.

A excessiva dissipação da alma em futilidades, tanto quanto os exageros nas práticas devocionais, são dois excessos que é preciso evitar.

Lembremo-nos que a assistência à Missa pode bastar para santificar as festas. E para as pessoas que são obrigadas a guardar a casa, assistir enfermos, cuidar de criancinhas, os dias de festa podem ser santificados mesmo sem a Missa, pois tudo isso são obras de justiça e caridade, boas em si mesmas. Quando santificadas pela intenção de fazê-las por Deus, e acompanhadas de orações jaculatórias (brevíssimas), podem em certo sentido igualar ou até ultrapassar em valor espiritual às demais práticas exteriores de devoção, com exceção da Missa.

Em nossos dias, a noção equilibrada do domingo é bem menos ameaçada por trabalhos proibidos do que pelos divertimentos. Os espetáculos e os esportes não devem ser de tal modo numerosos que nos deixem perturbados no fim do dia sagrado! Os divertimentos devem ser escolhidos para desenvolver em nós o que nossas ocupações deixam em abandono (natureza, arte, pequenos trabalhos, cultura, esportes, etc.) – e favorecer as boas relações de família e de sociedade.

** Publicado na revista O FIEL CATÓLICO n. 21

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[1]. Suma Teológica, II-II, q. 168, a. 2.

Um comentário:

  1. Artigo muito bom e valoroso. Por me faltar conhecimento e melhor discernimento confesso que aguardo ansiosamente pelo artigo relacionado às celebrações indignas. Aqui na minha cidade, Brusque/SC, opto por assistir a missa em outra paróquia a fim de evitar palmas, encenações, 'catequese dominical para crianças' e etc. É claro que dependendo do celebrante, muita vezes presenciamos as mesmas situações, porém com menor frequência.

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