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Reflexões sobre o fim e o alcance da Teologia


PARA MIM, TODA a Teologia não avança muito além de um conjunto de especulações humanas baseadas em algumas pistas que Deus concedeu aos homens sobre as realidades sobre/supranaturais.

    Uma prova inconteste disso é que Santo Tomás de Aquino, o maior dos teólogos e o "Doutor Comum" da Igreja, após uma visão no fim de sua vida, declarou que tudo que tinha produzido não passava de "palha". A partir desse ponto ele passou a se portar mais como um místico do que como um um especulador, procurando mais o Amor divino do que empenhado em especular sobre as minúcias da Fé.


    Temos um conjunto intrincado de crenças, construímos todo um edifício de afirmações baseadas em especulações. Mas um dia, diante da Verdade última, veremos o quanto tudo isso é radicalmente diferente daquilo que realmente existe. Há uma distância incomensurável entre aquilo que podemos conhecer de Deus e aquilo que Deus realmente É.

    Na Teologia, a Doutrina sagrada é entendida como uma ciência (scientia), mas uma ciência peculiar: seus princípios procedem de uma ciência superior, a ciência que Deus possui de si mesmo e comunica aos bem-aventurados. Aqui é necessário que saibamos distinguir três níveis: 1) Na Revelação temos aquilo que Deus efetivamente comunicou aos homens; 2) nas formulações dogmáticas, aquilo que a Igreja define como pertencente à Verdade revelada ou necessariamente vinculado a ela. 3) na especulação teológica, as tentativas humanas de compreender, sistematizar e aprofundar essas verdades, frequentemente mediante categorias filosóficas.

    Pensemos nas minuciosas discussões escolásticas acerca da natureza dos anjos, dos mecanismos da Graça, das relações entre predestinação e liberdade humana, ou sobre determinadas condições da existência após a morte. São construções intelectuais que, embora possuam rigor lógico extraordinário, frequentemente ultrapassam aquilo que foi explicitamente revelado. A coerência de um raciocínio não garante, por si só, que suas premissas descrevam adequadamente a realidade sobrenatural. Esse é um limite que nenhum teólogo deveria esquecer.



    Quanto mais conhecemos, mais percebemos que não conhecemos

    Aqui encontramos Pseudo-Dionísio Areopagita e sua teologia mística apofática ou negativa. Segundo essa tradição, Deus transcende tão absolutamente as categorias humanas que até nossas afirmações verdadeiras a respeito dele permanecem inadequadas.

    Dizemos que Deus é bom. Que é justo e poderoso. Tudo isso é verdadeiro segundo a Fé cristã. Mas a Bondade divina não é simplesmente bondade humana elevada à potência infinita. Sua sabedoria não é inteligência humana extraordinariamente desenvolvida. As próprias categorias pelas quais pensamos precisam ser purificadas de suas limitações. Por isso a tradição apofática insiste na necessidade da negação, do silêncio e da contemplação.

    Isso não quer dizer que Deus seja absolutamente incognoscível, mas porque Deus é infinitamente maior do que tudo aquilo que podemos conceber a seu respeito. Surge um paradoxo fascinante: quanto mais profundamente compreendemos essa verdade, mais conscientes nos tornamos da pobreza das nossas formulações.



    A Teologia não pode se tornar um obstáculo

    Ouso avançar ainda um pouco além, porque estou tratando de um problema não apenas epistemológico, mas espiritual: existe o perigo de o teólogo apaixonar-se tanto pelo seu sistema de explicações que se esqueça de admirar e buscar o próprio Deus.

    O sistema passa a ser defendido como se fosse a realidade divina em si. As distinções, os conceitos filosóficos, as classificações e as deduções transformam-se em fins, quando deveriam ser apenas instrumentos.


Agora vemos como por um espelho, obscuramente; então veremos face a face. Agora conheço em parte; então conhecerei como sou conhecido.

        (1Cor 13,12)


    Mesmo o nosso conhecimento mais elevado, enquanto peregrinarmos neste mundo, permanece  meramente parcial: é imperfeito e provisório diante da plenitude futura, e pode mesmo levar ao risco de se tornar ilusório, se não for bem fundamentado. Poucos versículos depois, temos este fundamento: a caridade acima de tudo.

    Há uma passagem de Santo Agostinho que resume admiravelmente tudo o que eu disse até aqui:

Si comprehendis, non est Deus.

"Se o compreendes, não é Deus" (Sermo 117, 3, 5. Patrologia Latina, vol. 38, col. 663–664)


    Agostinho não estava rejeitando o conhecimento possível sobre Deus, mas lembrando que nenhuma inteligência criada pode circunscrever a essência divina. Imediatamente antes, dissera: "Magis pia est talis ignorantia, quam praesumpta scientia: Mais piedosa é essa ignorância do que uma ciência presunçosa".

    Forte! Talvez a maturidade do teólogo consista justamente em reconhecer que as suas melhores explicações continuam infinitamente distantes do Mistério que pretende conhecer. Porque a boa Teologia pode conduzir o homem até a contemplação. Mas não pode substituir a contemplação.

    Por isso, um dos meus livros favoritos desde sempre é "A Nuvem do Não-Saber" (The Cloud of Unknowing), a obra-prima da mística cristã medieval, escrita por um autor anônimo inglês do século XIV.

        Continua...

    Este texto é parte da nossa Formação Teológica Integral pela FLSP.

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