Ser encontrado por Cristo

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Por Felipe Marques – Fraternidade São Próspero

ANTES DE INICIAR esta reflexão, deixemos o papa Bento XVI auxiliar-nos com um trecho da introdução de sua carta encíclica “Deus caritas est”:

Ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo.

Pois bem, ser católico é – entre tantas coisas – ter-se encontrado com Cristo e, a partir desse encontro, lutar para mudar de vida, visto que a própria existência ganha um sentido. Ou melhor, muito mais do que um simples sentido, a vida ganha O Sentido único de todas as coisas. Diversas vezes somos levados a crer que encontramos a Deus devido aos nossos próprios esforços. Esse modo de pensar é perigoso, pois podemos cair no erro narrado no capítulo 11 do Livro do Gênesis (episódio da Torre de Babel) que narra como os cidadãos do mundo quiseram construir um caminho para o céu – onde imaginavam que Deus, literalmente, habitava, supondo que assim poderiam alcançá-Lo – com suas próprias mãos e forças, para que seus nomes ficassem gravados para sempre na História(!). 

É óbvio que a ação humana é necessária para encontrar a Deus, porém, nós não somos os primeiros na ordem do amor. São João narra isso de forma clara no versículo 10 do capítulo 4 de sua primeira Carta: 

Nisto consiste o amor: não em termos nós amado a Deus, mas em ter-nos Ele amado, e enviado o seu Filho para expiar os nossos pecados.

Isso se faz necessário conhecer para que não queiramos tomar o lugar de Deus, para que sejamos mais humildes e aceitemos a nossa posição de criaturas e, assim, possamos iniciar uma verdadeira vida espiritual, uma vida de intimidade com Deus. Resumindo: Deus o amou, leitor mesmo antes da sua conversão, mesmo antes de você ter alguma noção de que estava pecando, mesmo antes de você rezar o santo Terço... Deus já o amava, mesmo enquanto você rolava na lama do pecado! Pois bem, Nosso Senhor tem cuidado de nós desde o momento em que nascemos, e dispensa as graças necessárias para que possamos encontrá-Lo. Ora, afirmo isso com certeza, porque Ele mesmo veio ao nosso encontro – e não há maior graça que essa – conforme é narrado no Evangelho segundo São Lucas:

Quem de vós que, tendo cem ovelhas e perdendo uma delas, não deixa as noventa e nove no deserto e vai em busca da que se perdeu, até encontrá-la? E depois de encontrá-la, a põe nos ombros, cheio de júbilo, e, voltando para casa, reúne os amigos e vizinhos, dizendo-lhes: 'Rejubilai-vos comigo, achei a minha ovelha que se havia perdido. Digo-vos que assim haverá maior júbilo no Céu por um só pecador que fizer penitência do que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento. Ou qual é a mulher que, tendo dez dracmas e perdendo uma delas, não acende a lâmpada, varre a casa e a busca diligentemente, até encontrá-la? E tendo-a encontrado, reúne as amigas e vizinhas, dizendo: Regozijai-vos comigo, achei a dracma que tinha perdido. Digo-vos que haverá júbilo entre os anjos de Deus por um só pecador que se arrependa.
(15, 4-10)

Enfim, você é essa dracma perdida... Você é a ovelha perdida que Deus buscava encontrar! Deus já lhe procurava, mesmo que você não se desse conta de sua existência. O SENHOR não é um “deus passivo” que não se move e permanece em seu “descanso sabático” até que suas criaturas lhe alcancem... Não. Deus é Amor e o amor é ativo, o amante não repousa até se unir ao objeto amado; o amor verdadeiro é doação, e sua maior expressão é encontrada em Cristo Crucificado. Por isso, exorto-o a entender que Deus não o ama mais só porque agora você é menos pecador, ou reza mais e pratica alguns atos de piedade... Não seja presunçoso pensando que você merece ser ouvido porque agora alcançou um alto nível de intimidade e amizade com Deus. Muito pelo contrário. Quanto mais amigo de Deus você for, mais humilde você será. Como ensina Santa Teresa de Ávila, “a humildade é caminhar na verdade”.

Na verdade de que somos pó e que ao pó voltaremos (Gn 3, 19), tendo consciência de que sem Deus somos capazes de fazer as piores coisas jamais pensadas, é preciso responder à pergunta: na ordem do amor, em que lugar está o ser humano? O ser humano que se encontra com Cristo está no segundo lugar na ordem do amor, pois agora, ciente de que Deus o ama, a pessoa amada quer retribuir o amor que recebe do SENHOR. Ou seja, nosso amor, ainda que falho, é sempre uma resposta ao amor que recebemos de Deus. As orações, vigílias, a luta pelas virtudes, a recitação do santo Rosário, a luta contra os pecados... Enfim, tudo o que fazemos por Deus é sempre uma resposta, e não o princípio da relação de amor que há entre criatura e Criador.

Sendo assim, então, como e onde podemos expressar essa resposta, esse nosso amor para com Deus? Ninguém melhor do que o próprio Deus para nos ensinar:

Então o Rei dirá aos que estão à direita: 'Vinde, benditos de meu Pai, tomai posse do Reino que vos está preparado desde a criação do mundo, porque tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; era peregrino e me acolhestes; nu e me vestistes; enfermo e me visitastes; estava na prisão e viestes a Mim'. Perguntar-lhe-ão os justos: 'Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer, com sede e te demos de beber? Quando foi que te vimos peregrino e te acolhemos, nu e te vestimos? Quando foi que te vimos enfermo ou na prisão e te fomos visitar?'. Responderá o Rei: 'Em verdade Eu vos declaro: todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes'. Voltar-se-á em seguida para os da sua esquerda e lhes dirá: 'Retirai-vos de mim, malditos! Ide para o fogo eterno destinado ao demônio e aos seus anjos. Porque tive fome e não me destes de comer; tive sede e não me destes de beber; era peregrino e não me acolhestes; nu e não me vestistes; enfermo e na prisão e não me visitastes'. Também estes lhe perguntarão: 'Senhor, quando foi que te vimos com fome, com sede, peregrino, nu, enfermo, ou na prisão e não te socorremos?'. E ele responderá: 'Em verdade Eu vos declaro: todas as vezes que deixastes de fazer isso a um destes pequeninos, foi a mim que o deixastes de fazer'. E estes irão para o castigo eterno, e os justos, para a vida eterna.
(Mt 25, 34 - 46)

Com isso, concluímos este raciocínio breve inserindo mais uma personagem na história: o outro! Sim, nosso próximo é o terceiro na ordem do amor, pois, é nele que expressamos nossa doação a Deus de forma mais perfeita, como ensina São João em sua primeira carta:

Se alguém disser: Amo a Deus, mas odeia seu irmão, é mentiroso. Porque aquele que não ama seu irmão, a quem vê, é incapaz de amar a Deus, a quem não vê. Temos de Deus este mandamento: o que amar a Deus, ame também a seu irmão.
(4, 20 - 21)

Só conseguiremos amar o outro por causa de Deus, e assim cumprir o que São João ensina, se tivermos bem clara qual a nossa posição real diante de Deus. Se falta a humildade, falta a Fé, e se falta a Fé, não há vida espiritual, não há relacionamento com Deus. Por isso, contra o orgulho, sempre que você for assaltado por pensamentos de vanglória, pense neste conselho de São Josémaria Escrivá, e coloque-se em seu lugar de novo:

Tu não podes tratar ninguém com falta de misericórdia; e, se te parecer que uma pessoa não é digna dessa misericórdia, tens de pensar que tu também não mereces nada. - Não mereces ter sido criado, nem ser cristão, nem ser filho de Deus, nem pertencer à tua família...
(Forja, 145)

Que possamos repetir com o humilde centurião, todos os dias de nossas vidas, a seguinte máxima: “Domine, non sum dignus”. Porque, realmente, por nossos próprios méritos, não somos dignos de nada! E então, se cumprirá o que o Senhor prometeu: "Porque todo aquele que se exaltar será humilhado, e todo aquele que se humilhar será exaltado." (Lc 14, 11) Que assim seja!
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A mulher 'revestida de sol' (Apocalipse 12) é Maria, Israel ou a Igreja?


A INSTITUIÇÃO DA "RAINHA Mãe" surge, pela primeira vez, na descendência da Casa da Davi, nos reis que vieram após o seu reinado.

Na narrativa bíblica sobre a entronização do rei Salomão, percebe-se a reverência do rei pela mãe, Betsabé, quando esta vem visitá-lo, concedendo-lhe todas as honras e um trono para que ela se assentasse à sua direita (1Rs 2, 19).

A atitude de Salomão remete ao Salmo 44: “Posta-se à vossa direita a rainha, ornada de ouro de Ofir.” A rainha é Gebirah, a Rainha-mãe. Os hebreus mantiveram essa tradição até o exílio da Babilônia, quando já não havia mais rei. A partir dessa época, iniciou-se a esperar pela vinda do novo "Filho de Davi", o Messias, o Cristo Filho de Deus e Salvador do Mundo que restauraria todas as coisas.

Quando o Anjo Gabriel visita a Virgem Maria e lhe revela os planos de Deus, anuncia que Jesus herdará “o trono de seu pai Davi; e reinará eternamente na Casa de Jacó”. S. Gabriel Saúda Maria, dizendo “Ave, cheia de Graça!”: o Mensageiro de Deus está, assim, saudando a Rainha-mãe, Mãe do “Filho do Altíssimo”, cujo “Reino não terá fim.” Do mesmo modo, Isabel, repleta do Espírito Santo, quando Maria chega a sua casa, a saúda: “Donde me vem a honra de vir a mim a mãe de meu Senhor?” (Cf. Lc 1, 43)

No Apocalipse de S. João, encontram-se alguns traços desse reinado. É nesse livro que a Virgem Maria surge mais uma vez como Rainha do Céu, “uma Mulher revestida do sol, com a lua debaixo dos seus pés e na cabeça uma coroa de doze estrelas” (Cf. Ap 12, 1).

Todavia alguns teólogos modernos – católicos e protestantes – passaram a interpretar que a "mulher", citada no livro do Apocalipse seria na realidade um simbolismo utilizado pelo autor sagrado para designar a antiga cidade de Israel e suas doze tribos, enquanto que outros sugerem que a passagem seria uma alusão à Igreja triunfante, simbolicamente coroada no Céu.

Qual a interpretação correta? A "mulher do Apocalipse" é a Virgem Maria, a Igreja triunfante ou o antigo povo de Israel (o povo de Deus do AT)? No vídeo abaixo, o autor ex-protestante e apologista do "Catholic Answers", Jimmy Akin, esclarece a posição predominante na Igreja Católica hoje, demonstrando, com simplicidade, que a questão não é tão complexa quanto possa parecer.



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Ref:
RICARDO, Paulo, padre. Por que nós chamamos a Virgem Maria de Rainha e de Senhora?, disp. em:
https://padrepauloricardo.org/episodios/por-que-nos-chamamos-a-virgem-maria-de-rainha-e-de-senhora
Acesso 9/6/017
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Fonte:Canal 'O Tradutor Católico', disp. em:
https://www.youtube.com/watch?v=EWzIRlDoEec
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Jesus: mentiroso, louco ou Deus – o Trilema

Cristo Rei do Universo, por Fernando Gallego (1440-1507)

DESDE SEMPRE OS cristãos confessaram que Jesus Cristo é o Filho de Deus e Deus. São João escreveu que a Palavra (Verbo), que "estava junto de Deus", "era Deus", "fez-se carne e habitou entre nós" (Jo 1, 1.14). São numerosos os discursos do próprio Cristo em que Ele deixa claro ser muito mais que um simples ser humano comum –, todo o Evangelho segundo São João, especialmente, está permeado de declarações desse teor –, sendo inclusive este o motivo alegado pelos judeus para condená-lo à morte: "Não queremos te apedrejar por causa de uma obra boa, mas por causa da blasfêmia. Tu, sendo homem, te fazes Deus a ti mesmo" (Jo 10, 33).

Se, naquela época, até quem não seguia Nosso Senhor tinha clara consciência da grandeza do que Ele anunciava, infelizmente hoje, muitos – atribuindo a si o apelido de "cristãos" – têm advogado, covardemente, uma "terceira opção": ao invés de rejeitar ou aceitar de vez a mensagem do Evangelho, recorrem a uma leitura distorcida das Escrituras, reduzindo a figura de Jesus à de um grande profeta, um mestre de sabedoria, um modelo de justiça, um "espírito de luz" (como é o caso dos espíritas), cujos ensinamentos valeriam como "guias motivacionais" para alcançarmos uma vida melhor. Para essas pessoas, a Bíblia não é o livro que traz a Revelação de Deus, mas tão somente uma espécie de "manual de autoajuda"; igualmente a Igreja não seria uma instituição principalmente espiritual, mas uma construção puramente material, voltada apenas aos cuidados dos pobres, na luta pela justiça e as necessidades deste mundo.

Importa reconhecer, sim, que é muito cômodo relegar Nosso Senhor à posição de mero homem, apenas mais um sábio, mais uma grande mente que veio a este mundo. Se for assim, o seu Evangelho verdadeiramente não obriga ninguém a nada; toda a sua contribuição à humanidade seriam apenas belas palavras, um bonito exemplo de vida e reflexões morais e sociais, como as de tantos outros grandes pensadores. Daria no mesmo, então, citar Confúcio, Buda, Jesus Cristo ou o Dalai Lama. Afinal, se todos são apenas homens sábios e "santos", com igual tratamento deveriam ser acolhidas as suas mensagens: com respeito e admiração. E nada mais.

Nós, cristãos, sabemos que há um gravíssimo equívoco nesse ponto de vista, que não pode ser aceito sem se cometer um grande atentado à razão mais elementar. Ora, se Jesus não é Deus feito homem, o "Cordeiro de Deus que tira o Pecado do mundo" ( Jo 1, 29), nem "o Pão que desceu do Céu" para a nossa salvação, que nos dá a vida eterna (Jo 6, 41), então é um desonesto, um mentiroso que pretendia enganar os outros, ou então um louco, como há tantos nos hospícios que juram que são Deus e não sabem sequer quem são realmente. Ora, que grandeza pode haver na mentira e na loucura? Ou Jesus é Deus, ou não é nada. Esse meio termo não se aplica ao Cristianismo, e esta é uma das razões por que o mesmo Cristianismo é completamente diferente de todas as outras religiões.

No vídeo abaixo, o sacerdote norte-americano Mike Schmitz esclarece o assunto de maneira didática, graciosa e bastante objetiva, respondendo sem rodeios quem Jesus realmente é.



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Ref.
https://padrepauloricardo.org/blog/
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Fonte:
Canal 'O Tradutor Católico', disp. em:
https://www.youtube.com/watch?v=EWzIRlDoEec
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O Calvário e a Missa


Por Fulton John Sheen, Arcebispo, Venerável*

HÁ CERTAS COISAS na vida que são muito belas para que nos esqueçamos delas, como por exemplo o amor de uma mãe. Por isso, guardamos com carinho o seu retrato. O amor dos soldados que se sacrificam por sua pátria é igualmente belo demais para ser esquecido; portanto, reverenciamos sua memória em monumentos. Mas a maior bênção que já aconteceu a este mundo foi a vinda do Filho de Deus encarnado. Sua vida, mais que todas as outras, é bela demais para ser esquecida. Por isso, prezamos a divindade de suas palavras por meio das Sagradas Escrituras, e a caridade de suas obras por meio de nossas ações diárias. Infelizmente, algumas pessoas se limitam a lembrar apenas as palavras e as obras de nosso Divino Redentor; por mais importantes que sejam, não são estas as suas realizações mais grandiosas. O ato mais sublime da biografia de Cristo foi a sua morte.

A morte é sempre importante, porque sela um destino. Qualquer cenário de morte é um lugar sagrado. É por isso que os clássicos da literatura que lidam com emoções relacionadas à morte nunca saem de moda. E de todas as mortes da história da humanidade, nenhuma foi mais importante que a morte de Cristo. Nosso Senhor sempre soube que veio a este mundo para morrer. A morte era uma pedra de tropeço para Sócrates, mas para Cristo era a coroa da vida. Ele mesmo disse que tinha vindo para “dar a vida pela salvação de muitos” (Mc 14, 24) e que ninguém tomaria sua vida, mas que Ele mesmo a entregaria voluntariamente.

Se a morte foi o momento supremo para o qual Cristo viveu, foi também o modo com que desejou ser lembrado. Ele não solicitou aos homens que transcrevessem suas palavras em uma Escritura. Não pediu que sua generosidade para com os pobres fosse registrada na História. Mas pediu que a humanidade se lembrasse de sua morte. E para que sua memória não fosse abandonada ao acaso das narrativas humanas, Ele mesmo instituiu a maneira precisa de recordá-la.

Tal Memorial foi instituído na noite anterior à sua morte, e desde então foi chamado “A Última Ceia”. Tomando o pão em suas mãos, Jesus disse: “Este é o meu Corpo, que será entregue por vós”, ou seja, entregue à morte. Então, com o cálice nas mãos, disse: “Este é o Sangue da Nova Aliança, que será derramado por vós e por muitos, para a remissão dos pecados” (Mt 26, 28).

Assim, em um símbolo incruento da divisão do Sangue e do Corpo, pela consagração separada do pão e do vinho, Cristo ofereceu-se à morte diante de Deus e dos homens, e instituiu uma representação sacramental daquilo que aconteceria no dia seguinte, às três da tarde. Ele se ofereceu como vítima a ser imolada, para que os homens se recordassem que “não há amor maior do que o daquele que dá a vida pelos seus amigos” (Jo 15, 13). Em seguida deu o divino Mandamento à Igreja: “Fazei isto em memória de Mim”.

No dia seguinte, que Jesus já havia prefigurado, levou a cabo, em plenitude, a sua missão: foi crucificado entre dois ladrões e seu sangue foi derramado para a redenção do mundo.

A Igreja fundada por Cristo preservou não apenas as Palavras ditas por Ele, e/ou as maravilhas que operou; também e sobretudo levou-o a sério quando disse: “Fazei isso em memória de Mim”. E a ação pela qual se atualiza a sua morte na Cruz é o Sacrifício da Missa, memorial daquilo que Ele realizou na Última Ceia como prefiguração de sua Paixão.

Venerável Fulton Sheen
Por isso é que a Santa Missa é para nós o ato mais importante do culto cristão. Um púlpito a partir do qual as palavras de Nosso Senhor sejam repetidas não nos unirá a Ele; um coral que entoe belas melodias não nos levará mais perto da Cruz. Templos sem altar de sacrifício existiram para povos primitivos, mas não têm significado algum para os cristãos. Na Igreja Católica, o Altar –, não a pregação do púlpito, ou o canto do coral, ou o som do órgão –, é o centro da cerimônia, pois ali é atualizado o memorial da Paixão de Nosso Senhor. Seu valor não depende de quem celebra ou assiste; depende d’Ele, que é o supremo Sacerdote e Vítima, Jesus Cristo. A Ele somos unidos, apesar da nossa insignificância. Em certo sentido, por um momento, perdemos a nossa individualidade; nosso intelecto e nossa vontade, nosso coração e nossa alma, nosso corpo e nosso sangue unem-se tão intimamente a Cristo que o Pai celeste não olha principalmente as nossas imperfeições, mas antes vê em em nós seu Filho amado, em quem se compraz. A Missa é, por tudo isso, o maior evento na história da humanidade; o único ato sagrado que protege o mundo pecador da ira de Deus, porque sustenta a Cruz entre o Céu e a Terra, renovando aquele momento decisivo em que nossa triste e trágica jornada humana repentinamente tomou o rumo da plenitude de uma vida sobrenatural.

O importante, aqui, é que tenhamos a atitude mental adequada a respeito da Missa, e que nos recordemos do importantíssimo fato de que o Sacrifício da Cruz não é algo acontecido há dois mil anos, mas que continua acontecendo hoje – agora. Não é como algum fato histórico, um evento do passado, como a assinatura de Declaração da Independência dos Estados Unidos, por exemplo. O Sacrifício do Cristo é um drama permanente, ao final do qual a cortina ainda não caiu.

Não podemos acreditar que a Paixão tenha acontecido há muito tempo e que, portanto, já não nos diz mais respeito, assim como qualquer coisa do passado. O Calvário pertence a todos os tempos e a todos os lugares. É por isso que, quando Nosso Senhor subiu ao Calvário, foi oportunamente despojado de suas vestes. Ele quis salvar a humanidade sem os ornamentos de um mundo passageiro. Suas vestes pertenciam ao tempo, pois elas o identificavam como um morador da Galileia. Assim, despojado de todas as coisas terrenas, Ele não pertencia mais à Galileia, nem a uma província romana, mas ao mundo inteiro. Ele se tornou o pobre homem universal, pertencendo não a um povo, mas a toda a humanidade.

Para melhor exprimir a universalidade da Redenção, a Cruz foi erguida em um ponto central entre as três grandes culturas: Jerusalém, Roma e Atenas, em cujos nomes Ele foi crucificado. A Cruz foi, portanto, afixada ante aos olhos dos homens para arrebatar o indolente, cativar o insensato e despertar o mundano. Foi o único fato inescapável ao qual as culturas e civilizações de seus dias não puderam resistir. É, igualmente, o único fato inevitável dos nossos dias a que não podemos resistir.

Os personagens presentes junto à Cruz foram símbolos de todos os que crucificaram e continuam a crucificar o Cristo. Nós estávamos lá, na pessoa desses nossos representantes. O que infligimos agora ao Cristo Místico, eles infligiram em nosso nome ao Cristo histórico. Se temos inveja dos bons, estávamos lá, nos escribas e fariseus hipócritas. Se temos medo de perder algum bem temporal ao abraçarmos a Verdade e o Amor divinos, estávamos lá em Pilatos. Se confiamos nas forças materiais e procuramos vitórias por meio do mundo e não do espírito, estávamos lá em Herodes. Assim a história continua para todos os pecados típicos do mundo. Todos eles nos cegam ao fato de que Ele é Deus. Houve, portanto, uma certeza irrefutável sobre a crucificação. Os homens que estavam livres para pecar, também estavam livres para crucificar Deus. Enquanto houver pecados no mundo, a crucificação é uma realidade. Como disse a poetisa:

“Eu vi o Filho do homem passando,
Coroado com uma coroa de espinhos.
‘Não estava terminado, Senhor’, disse eu,
‘E todo o sofrimento já suportado?’.
Ele voltou para mim seu olhar aterrador:
‘Ainda não entendeste?
Toda alma é um Calvário
E todo pecado é um madeiro’.”

Nós estávamos lá durante aquela crucificação. O drama já estava completo no que diz respeito ao Cristo, mas ainda não havia sido revelado a todos os homens e mulheres de todos os lugares e tempos. Se um rolo de filme, por exemplo, tivesse consciência de si mesmo, saberia o drama do início ao fim, mas os espectadores do cinema não saberiam até que tivessem visto o desenrolar da trama na tela. Do mesmo modo, Nosso Senhor na Cruz viu, com sua Mente eterna, o drama completo, a história de cada alma individual e como mais tarde iria reagir à sua crucificação. Mas, embora Ele nos tenha visto a todos, nós não poderíamos saber como reagiríamos à Cruz até que a história da nossa vida se desenrolasse na tela do tempo.

Podemos não ter consciência dessa nossa presença ativa no Calvário, naquele dia, mas Ele, o Senhor, estava consciente da nossa presença. Hoje sabemos o papel que desempenhamos no drama do Calvário, ainda que nós vivamos e atuemos agora no drama do século XXI.

Por isso o Calvário é sempre atual; porque a Cruz é a crise, o motivo de, em certo sentido, as cicatrizes dos cravos continuarem abertas; pois a dor de Cristo permanece divinizada e o seu Sangue continua a derramar-se sobre as almas, qual estrelas cadentes. Não há como escapar da Cruz, nem negando-a, como fizeram os fariseus, nem vendendo Jesus, como fez Judas, nem muito menos matando-o, crucificando-o como fizeram os carrascos. Nós todos comprovamos que é assim, quer abracemos a Cruz como nossa salvação, quer fujamos dela até a desgraça.

Mas como a Cruz se torna visível para nós? Onde encontrar o Calvário perpetuado? Encontraremos o Calvário renovado, revivido, reapresentado na Missa. O Calvário é um com a Missa, e a Missa é um com o Calvário, pois em ambos há o mesmo Sacerdote e a mesma Vítima. As Sete Palavras derradeiras são como as sete partes da Missa. E, assim como há sete notas musicais que admiten uma variedade infinita de harmonias e combinações, também na Cruz há como que sete notas divinas que a morte de Cristo vem tocando ao longo dos séculos, e que se combinam para formar a bela harmonia da redenção do mundo.

Cada palavra é uma parte da Missa. A primeira palavra, “Perdoa-os”, é o Confíteor (‘Confesso a Deus...’); a segunda palavra, “Hoje estarás comigo no Paraíso”, é o Ofertório; a terceira palavra, “Eis aí tua Mãe”, é o Santo; a quarta palavra, “Por que me abandonastes?”, é a Consagração; a quinta palavra, “Tenho sede”, é a Comunhão; a sexta palavra, “Tudo está consumado”, é o Ite, Missa Est (ou Rito de despedida); e a sétima palavra, “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito” é o Evangelho final.

Imaginemos, pois, Cristo, o Sumo Sacerdote, deixando a Sacristia do Céu pelo Altar do Calvário. Ele já se revestiu da nossa natureza humana, tomou o manípulo do nosso sofrimento, a estola do sacerdócio, a casula da Cruz. O Calvário é sua Catedral; a rocha do Calvário é a pedra do Altar; o sol poente é a lâmpada do santuário; Maria e João são as imagens vivas dos altares laterais; a Hóstia é o Corpo de Jesus; o Vinho é seu Sangue. Ele, em pé, é o Sacerdote; prostrado, é a Vítima. Sua Missa está prestes a começar.

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* O conteúdo deste artigo é a íntegra do prefácio do autor para o livro 'O Calvário e a Missa', a ser relançado no mês de junho do ano 2017 pela editora Molokai, com revisão, diagramação e capa de Henrique Sebastião

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Fonte:
SHEEN, Fulton John. O Calvário e a Missa. São Paulo: Molokai, 2016, pp. 13-19
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Presidente da Sociedade Teológica Evangélica retorna à Igreja Católica


MAIS UMA HISTÓRIA de "filho pródigo" dos nossos tempos. Francis Beckwith (foto) renunciou, há algumas semanas, ao seu cargo de Presidente da Sociedade Teológica Evangélica (ETS). O motivo? Seu retorno à Igreja a Católica, onde cresceu e que abandonou para abraçar o protestantismo...

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Pentecostes, por Bento XVI


A SEGUIR, UM RESUMO de algumas das homilias que o Papa Bento XVI proferiu durante seus anos de pontificado, nas solenidades de Pentecostes. Para melhor compreensão, dividimos as homílias em temas, de acordo com o que pensamos serem as idéias principais do Santo Padre.


O Espírito Santo

Quem ou o que é o Espírito Santo? Como podemos reconhecê-lo? De que modo vamos a Ele e Ele vem a nós? O que realiza? Uma primeira resposta recebêmo-la do grande hino pentecostal da Igreja, com o qual começamos as Vésperas: "Veni, Creator Spiritus... Vem, Espírito Criador...". Aqui, o hino refere-se aos primeiros versículos da Bíblia que, com o recurso a imagens, exprimem a criação do universo. Ali afirma-se sobretudo que acima do caos, sobre as águas do abismo, pairava o Espírito de Deus. O mundo em que vivemos é obra do Espírito Criador. 

O Pentecostes não é apenas a origem da Igreja e por isso, de modo especial, a sua festa; o Pentecostes é também uma festa da criação. O mundo não existe por si mesmo; provém do Espírito criativo de Deus, da Palavra criadora de Deus. E por este motivo reflete inclusive a sabedoria de Deus. Na sua vastidão e na lógica omnicompreensiva das suas leis, ela deixa entrever algo do Espírito Criador de Deus. Exorta-nos ao temor reverencial.

Ele vem ao nosso encontro através da criação e da sua beleza. Todavia, ao longo da história dos homens, a boa criação de Deus foi coberta por um estrato maciço de escórias que torna, se não impossível, de qualquer maneira difícil reconhecer nela o reflexo do Criador, embora diante de um pôr-do-sol no mar, durante uma excursão à montanha ou à vista de uma flor desabrochada desperte em nós, sempre de novo e como que espontaneamente, a consciência da existência do Criador.

Em Jesus Cristo, o próprio Deus fez-se homem e permitiu-nos, por assim dizer, lançar um olhar na intimidade do próprio Deus. E ali vemos algo totalmente inesperado: em Deus existe um Eu e um Tu. O Deus misterioso não constitui uma solidão infinita; Ele é um acontecimento de amor. Se do olhar sobre a criação pensamos que podemos entrever o Espírito Criador, o próprio Deus, como que uma matemática criativa, como um poder que plasma as leis do mundo e a sua ordem e, em seguida, contudo, inclusive como beleza, agora é-nos dado saber: o Espírito Criador tem um Coração. Ele é Amor. Existe o Filho que fala com o Pai. E ambos são um só no Espírito Santo que é, por assim dizer, a atmosfera do doar e do amar, que faz deles um único Deus. Esta unidade de amor, que é Deus, constitui uma unidade muito mais sublime de quanto poderia ser a unidade de uma última partícula indivisível. Precisamente o Deus trino é o Deus uno.

Por meio de Jesus nós lançamos, por assim dizer, um olhar sobre a intimidade de Deus. No seu Evangelho, João expressou-o assim: "A Deus, jamais alguém O viu. O Filho unigénito, que é Deus e está no seio do Pai, foi Ele quem O deu a conhecer" (Jo 1, 18). Todavia, Jesus não nos deixou somente olhar na intimidade de Deus; com Ele, Deus também como que saiu da sua intimidade e veio ao nosso encontro. Isto acontece sobretudo na sua vida, paixão, morte e ressurreição; na sua palavra. Mas Jesus não se contenta com vir ao nosso encontro. Ele quer mais. Deseja a unificação. Este é o significado das imagens do banquete e das bodas. Nós não devemos somente conhecer algo dele, mas através dele mesmo temos o dever de ser atraídos a Deus. Por isso, Ele deve morrer e ressuscitar. Porque agora já não se encontra num [único e] determinado lugar, mas o seu Espírito, o Espírito Santo, já emana dele e entra nos nossos corações, unindo-nos deste modo com o próprio Jesus e com o Pai com o Deus Uno e Trino.

O Pentecostes é isto: Jesus, e através dele o próprio Deus, vem a nós e atrai-nos para dentro de si.
Com efeito, enquanto subia para Jerusalém, [Jesus] declarara aos discípulos: "Vim lançar fogo sobre a terra; e que quero Eu, senão que ele já tenha sido ateado?" (Lc 12, 49). Estas palavras encontram a sua mais evidente realização cinquenta dias depois da ressurreição, no Pentecostes, antiga festa judaica que na Igreja se tornou a festividade por excelência do Espírito Santo: "Viram, então, aparecer umas línguas de fogo... e todos ficaram cheios de Espírito Santo" (At 2, 3-4). O verdadeiro fogo, o Espírito Santo, foi trazido sobre a terra por Cristo. Ele não o arrebatou dos deuses, como fez Prometeu segundo o mito grego, mas fez-se mediador do "dom de Deus", obtendo-o para nós com o maior gesto de amor da história: a sua morte na cruz.


Liberdade e Responsabilidade

Para Israel, o Pentecostes, de festa da sementeira, tornou-se a festa que recordava a conclusão da aliança no Sinai. Deus demonstrou a sua presença ao povo através do vento e do fogo e depois ofereceu-lhe a sua lei, a lei dos 10 mandamentos. Só assim a obra de libertação, que começara com o êxodo do Egito, se tinha cumprido plenamente: a liberdade humana é sempre uma liberdade partilhada, um conjunto de liberdades.

Só numa ordenada harmonia das liberdades, que abre para cada um o seu âmbito, se pode ter uma liberdade comum. Por isso o dom da lei no Sinai não foi uma restrição ou uma abolição da liberdade, mas o fundamento da verdadeira liberdade. E dado que um justo ordenamento humano se pode reger apenas se provém de Deus e se une os homens na perspectiva de Deus, para uma disposição ordenada das liberdades humanas, não podem faltar os mandamentos que o próprio Deus dá. Assim Israel tornou-se plenamente povo precisamente através da aliança com Deus no Sinai. O encontro com Deus no Sinai poderia ser considerado como o fundamento e a garantia da sua existência como povo.

O Espírito Santo, por meio de quem Deus vem a nós, dá-nos a vida e a liberdade. Observemos ambas um pouco mais de perto. "Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância", diz Jesus no Evangelho de João (10, 10). Todos nós aspiramos à vida e à liberdade. Mas de que se trata, onde e como é que encontramos a "vida"? Espontaneamente, penso que a esmagadora maioria dos homens tem o mesmo conceito de vida do filho pródigo, no Evangelho. Ele pediu a parte de património que lhe cabia, e agora sentia-se livre, queria finalmente viver já sem o peso dos afazeres de casa, queria simplesmente viver. Receber da vida tudo o que ela pode oferecer. Gozá-la plenamente, viver, só viver, beber na abundância da vida e nada perder daquilo que de precioso ela pode oferecer. No final, acabou por se tornar guardião de porcos e chegou mesmo a invejar aqueles animais, tão vazia se tinha tornado esta sua vida, tão inútil! E vã revelava-se inclusive a sua liberdade. Porventura não acontece também assim nos nossos dias?

Quando o homem quer somente apoderar-se da vida, ela torna-se cada vez mais vazia, mais pobre; termina-se facilmente por se refugiar na droga, na grande ilusão. E emerge a dúvida se, no final de contas, viver é verdadeiramente um bem. Não, deste modo nós não encontramos a vida. A palavra de Jesus sobre a vida em abundância encontra-se no discurso do Bom Pastor. É uma palavra que se põe num duplo contexto. Sobre o pastor, Jesus diz-nos que ele entrega a sua vida. "Ninguém tira a minha vida, mas sou Eu que a ofereço livremente" (cf. Jo 10, 18). A vida só se encontra, quando é doada; ela não pode ser encontrada, desejando tomar posse dela. É isto que devemos aprender de Cristo; é isto que nos ensina o Espírito Santo, que é puro dom, que é o doar-se de Deus. Quanto mais alguém entrega a sua vida pelos outros, pelo próprio bem, tanto mais copiosamente corre o rio da vida. Em segundo lugar, o Senhor diz-nos que a vida desabrocha, quando caminhamos em companhia do Pastor, que conhece as pastagens, os lugares onde brotam as nascentes da vida. Encontramos a vida na comunhão com Aquele que é a vida em pessoa na comunhão com o Deus vivo, uma comunhão em que somos introduzidos pelo Espírito Santo, denominado no hino das Vésperas como "fons vivus", fonte viva. A pastagem, onde correm as fontes da vida, é a Palavra de Deus como a encontramos na Escritura, na fé da Igreja. A pastagem é o próprio Deus que, na comunhão da fé, aprendemos a conhecer através do poder do Espírito Santo.

O tema da liberdade já foi mencionado há pouco. Com a partida do filho pródigo estão vinculados precisamente os temas da vida e da liberdade. Ele deseja a vida e por isso quer ser totalmente livre. Nesta visão, ser livre significa poder fazer tudo o que desejo; não ter que aceitar qualquer critério fora e acima de mim mesmo. Seguir exclusivamente o meu desejo e a minha vontade. Quem vive assim, embater-se-á depressa com o outro que quer viver desta mesma maneira. A consequência necessária deste conceito egoísta de liberdade é a violência, a destruição recíproca da liberdade e da vida. Ao contrário, a Sagrada Escritura une o conceito de liberdade ao de progenitura. São Paulo diz: "Vós não recebestes um Espírito que vos escraviza e volta a encher-vos de medo; mas recebestes um Espírito que faz de vós filhos adoptivos. É por Ele que clamamos: Abbá, ó Pai!" (Rm 8,15).

Prescindindo do contexto sociológico daquela época, é válido sempre este princípio: a liberdade e a responsabilidade caminham juntas. A verdadeira liberdade demonstra-se na responsabilidade, num modo de agir que assume sobre si a corresponsabilidade pelo mundo, por si mesmo e pelos outros.


Pentecostes é o oposto de Babel

O Espírito Santo concede o dom da compreensão. Ultrapassa a ruptura que teve início em Babel, a confusão dos corações, que nos faz ser uns contra os outros, o Espírito abre as fronteiras. O povo de Deus que tinha encontrado no Sinai a sua primeira configuração, é agora ampliado até ao ponto de já não conhecer fronteira alguma.

Devemos sempre de novo passar de Babel, do fechamento em nós mesmos, para Pentecostes.

Com o seu sopro, com o dom do Espírito Santo, o Senhor relaciona o poder de perdoar. Ouvimos anteriormente que o Espírito Santo une, abate as fronteiras, guia uns para os outros. A força, que abre e faz superar Babel, é a força do perdão. Jesus pode conceder o perdão e o poder de perdoar, porque ele mesmo sofreu as consequências da culpa e dissolveu-as na chama do seu amor. O perdão vem da cruz; Ele transforma o mundo com o amor que nos doa. O seu coração aberto na cruz é a porta pela qual entra no mundo a graça do perdão. E unicamente esta graça pode transformar o mundo e edificar a paz.

Todos nós somos inseridos na rede da obediência à palavra de Cristo, à palavra daquele que dá a verdadeira liberdade, porque nos conduz nos espaços livres e nos horizontes amplos da verdade.

Ao doar a vida e a liberdade, o Espírito Santo oferece também a unidade. Trata-se de três dons inseparáveis entre si. Já falei demasiado; no entanto, permiti-me dizer ainda uma breve palavra sobre a unidade. Para a compreender, pode ser-nos útil uma frase que, num primeiro momento, parece contrariamente afastar-nos dela. A Nicodemos que, na sua busca da verdade, vai de noite ter com Jesus com as suas interrogações, Ele responde: "O Espírito sopra onde quer" (Jo 3, 8). Mas a vontade do Espírito não é arbítrio. É a vontade da verdade e do bem. Por isso, Ele não sopra em toda a parte, virando uma vez aqui e a outra ali; o seu sopro não nos dispersa, mas reúne-nos, porque a verdade une como o amor une.

Ele [O Espírito Santo] não nos poupa o cansaço de aprender o modo de nos relacionarmos uns com os outros; mas demonstra-nos também que age em vista do único corpo e na unidade do único corpo. É exclusiva e precisamente assim que a unidade alcança a sua força e a sua beleza. Participai na edificação do único corpo! Os pastores estarão atentos a não apagar o Espírito (cf. 1 Ts 5, 19), e vós não cessareis de oferecer as vossas dádivas à comunidade inteira. Uma vez mais: o Espírito sopra onde quer. No entanto, a sua vontade é a unidade. Ele conduz-nos rumo a Cristo, no seu Corpo. "É a partir dele [de Cristo] diz-nos São Paulo que o Corpo inteiro, bem ajustado e unido, por meio de toda a espécie de junturas que O sustentam, segundo uma força à medida de cada uma das partes, realiza o seu crescimento como Corpo, para se construir a si próprio no amor" (Ef 4, 16).

As imagens que São Lucas usa para indicar o irromper do Espírito Santo o vento e o fogo recordam o Sinai, onde Deus se tinha revelado ao povo de Israel e lhe tinha concedido a sua aliança (cf. Êx 19, 3ss). A festa do Sinai, que Israel celebrava cinquenta dias depois da Páscoa, era a festa do Pacto. Falando de línguas de fogo (cf. At 2, 3), São Lucas quer representar o Pentecostes como um novo Sinai, como a festa do novo Pacto, na qual a Aliança com Israel se alarga a todos os povos da Terra. 

A Igreja é católica [completa, universal] e missionária desde a sua origem. A universalidade da salvação é significativamente evidenciada pelo elenco das numerosas etnias a que pertencem todos os que ouvem o primeiro anúncio dos Apóstolos (cf. At 2, 9-11). O Povo de Deus, que tinha encontrado no Sinai a sua primeira configuração, hoje é ampliado a ponto de não conhecer qualquer fronteira de raça, cultura, espaço ou tempo. Diferentemente do que tinha acontecido com a torre de Babel (cf. Jo 11, 1-9), quando os homens, intencionados a construir com as suas mãos um caminho para o céu, tinham acabado por destruir a sua própria capacidade de se compreenderem reciprocamente.


Afastar-se da Igreja significa rejeitar O Espírito

"Societas Spiritus", sociedade do Espírito: assim Santo Agostinho chama a Igreja num dos seus sermões (71, 19, 32: PL 38, 462). No entanto, já antes dele Santo Ireneu tinha formulado uma verdade que me apraz recordar: "Onde está a Igreja, ali está o Espírito de Deus, e onde está o Espírito de Deus, ali estão a Igreja e todas as graças, e o Espírito é a verdade; afastar-se da Igreja significa rejeitar o Espírito" e, por conseguinte, "excluir-se da vida" (Adv. Haer. III, 24, 1). A partir do evento do Pentecostes manifesta-se plenamente esta união entre o Espírito de Cristo e o seu Corpo místico, ou seja, a Igreja.

No evento do Pentecostes torna-se clarividente que à Igreja pertencem múltiplas línguas e diferentes culturas; na fé, elas podem compreender-se e fecundar-se reciprocamente. São Lucas quer claramente transmitir uma ideia fundamental, ou seja, que no próprio ato do seu nascimento a Igreja já é "católica", universal. Ela fala desde o início todas as línguas, porque o Evangelho que lhe é confiado, está destinado a todos os povos, em conformidade com a vontade e o mandato de Cristo ressuscitado (cf. Mt 28, 19). A Igreja que nasce no Pentecostes não constitui, acima de tudo, uma comunidade particular, a Igreja de Jerusalém, mas sim a Igreja universal, que fala as línguas de todos os povos. Sucessivamente, dela hão-de nascer outras comunidades em todas as regiões do mundo, Igrejas particulares que são, todas e sempre, realizações da una e única Igreja de Cristo. Por conseguinte, a Igreja católica não é uma federação de Igrejas, mas uma única realidade: a prioridade ontológica cabe à Igreja universal. Uma comunidade que, neste sentido, não fosse católica não seria nem sequer Igreja.

A este propósito, é necessário acrescentar mais um aspecto: o da visão teológica dos Atos dos Apóstolos a respeito do caminho da Igreja de Jerusalém até Roma. Entre os povos representados em Jerusalém no dia do Pentecostes, Lucas cita também os "estrangeiros de Roma" (At 2, 10). Naquele momento Roma ainda estava distante, era "estrangeira" para a Igreja nascente: ela constituía o símbolo do mundo pagão em geral. Todavia, a força do Espírito Santo guiará os passos das testemunhas, "até aos extremos confins da terra" (At 1, 8), até Roma. O livro dos Atos dos Apóstolos termina precisamente quando São Paulo, através de um desígnio providencial, chega à capital do império e aí anuncia o Evangelho (cf. At 28, 30-31). Deste modo, o caminho da Palavra de Deus, encetado em Jerusalém, alcança a sua meta, porque Roma representa o mundo inteiro e, portanto, encarna a ideia lucana da catolicidade. Realizou-se a Igreja universal, a Igreja católica, que é a continuação do povo da eleição e torna próprias a sua história e a missão.

A Igreja universal precede as Igrejas particulares, as quais devem conformar-se sempre com ela, segundo um critério de unidade e universalidade. A Igreja nunca permanece prisioneira de confins políticos, raciais ou culturais; não se pode confundir com os Estados e nem sequer com as Federações de Estados, porque a sua unidade é de outro tipo e aspira a atravessar todas as fronteiras humanas.


Cristo Ressuscitado está presente entre nós

Com o seu sopro, o Espírito Santo impele-nos rumo a Cristo. O Espírito Santo age corporalmente, e não apenas sob os pontos de vista subjetivo, "espiritual". Aos discípulos que O consideravam somente um "espírito", Cristo ressuscitado disse: "Sou Eu mesmo! Tocai-me e olhai; um simples espírito um fantasma não tem carne nem ossos, como verificais que Eu tenho" (cf. Lc 24, 39). Isto é válido para Cristo ressuscitado, em todas as épocas da história. Cristo ressuscitado não é um fantasma, não é somente um pensamento, uma ideia. Ele permaneceu o Encarnado, [quem] ressuscitou [foi] Aquele que assumiu a nossa carne e continua sempre a edificar o seu Corpo, fazendo de nós o seu Corpo. O Espírito sopra onde quer, e a sua vontade é a unidade que se faz corpo, a unidade que encontra o mundo e o transforma.


Maria Santíssima

Na narração, que descreve o acontecimento do Pentecostes, o Autor sagrado recorda que os discípulos “se encontravam todos reunidos no mesmo lugar”. Este “lugar” é o Cenáculo, a “sala no andar de cima” onde Jesus realizara a última Ceia com os seus Apóstolos, onde lhes aparecera ressuscitado; aquela sala que se tinha tornado, por assim dizer, a “sede” da Igreja nascente (cf. Act 1, 13). Todavia, mais do que insistir sobre o lugar físico, os Actos dos Apóstolos tencionam acentuar a atitude interior dos discípulos: “Todos, unidos pelo mesmo sentimento, se entregavam assiduamente à oração” (Act 1, 14). Por conseguinte, a concórdia dos discípulos é a condição para que venha o Espírito Santo; e a condição prévia da concórdia é a oração. Queridos irmãos e irmãs, isto é válido também para a Igreja de hoje, é válido para nós que estamos aqui congregados. Se quisermos que o Pentecostes não se reduza a um simples rito ou a uma comemoração até muito sugestiva, mas seja um acontecimento atual de salvação, temos que nos predispor em expectativa religiosa do dom de Deus, mediante a escuta humilde e silenciosa da sua Palavra. A fim de que o Pentecostes se renove no nosso tempo, talvez seja necessário — sem nada tirar à liberdade de Deus — que a Igreja esteja menos “angustiada” com as atividades e mais dedicada à oração. É quanto nos ensina a Mãe da Igreja, Maria Santíssima, Esposa do Espírito Santo. Este ano o Pentecostes é celebrado precisamente no último dia de Maio, em que habitualmente se comemora a festa da Visitação. Também ela foi uma espécie de pequeno “pentecostes”, que fez jorrar a alegria e o louvor dos corações de Isabel e de Maria, uma estéril e a outra virgem, e ambas se tornaram mães graças à extraordinária intervenção divina (cf. Lc 1, 41-45).


Não tenhais medo

Com efeito, em Cristo habita a plenitude de Deus, que na Bíblia é comparado com o fogo. Há pouco pudemos observar que a chama do Espírito Santo arde mas não queima. E, todavia, ela realiza uma transformação, e por isso deve consumir algo no homem, as escórias que o corrompem e o impedem nas suas relações com Deus e com o próximo. Porém, este efeito do fogo divino assusta-nos, temos medo de nos "queimar", preferiríamos permanecer assim como somos. Isto depende do facto que muitas vezes a nossa vida é delineada segundo a lógica do ter, do possuir, e não do doar-se. Muitas pessoas crêem em Deus e admiram a figura de Jesus Cristo, mas quando se lhes pede que abandonem algo de si mesmas, então elas recuam, têm medo das exigências da fé. Existe o temor de ter que renunciar a algo de bonito, ao que estamos apegados; o temor de que seguir Cristo nos prive da liberdade, de certas experiências, de uma parte de nós mesmos. Por um lado, queremos permanecer com Jesus, segui-lo de perto, e por outro temos medo das consequências que isto comporta.

Caros irmãos e irmãs, temos sempre necessidade de ouvir o Senhor Jesus dizer-nos aquilo que Ele repetia aos seus amigos: "Não tenhais medo!". Como Simão Pedro e os outros, temos que deixar que a sua presença e a sua graça transformem o nosso coração, sempre sujeito às debilidades humanas. Temos que saber reconhecer que perder algo, aliás, perder-se a si mesmo pelo Deus verdadeiro, o Deus do amor e da vida, é na realidade ganhar, encontrar-se mais plenamente a si próprio. Quem se confia a Jesus experimenta já nesta vida a paz e a alegria do coração, que o mundo não pode dar, e nem sequer pode tirar, uma vez que foi Deus quem no-las concedeu. Portanto, vale a pena deixar-se tocar pelo fogo do Espírito Santo!
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'Joana, Relapsa e Santa' – uma breve análise ou 'A igreja dos fariseus contra a Igreja dos santos'

Por Igor Andrade – Fraternidade São Próspero

Um dos livros que mais me impressionou nos últimos tempos.



EM 25 PÁGINAS dessa breve estória, que daria uma excelente peça, Georges Bernanos consegue, como de costume, fazer o leitor experimentar todos os sentimentos da protagonista. Joana está angustiada? O leitor se compadece desta jovem de menos de 20 anos.

Em "Joana, relapsa e santa"*, Bernanos conta um pouco do julgamento inquisitório pelo qual passou a jovem camponesa e guerreira, descrevendo parte da história e parte dos sentimentos que preenchiam aquelas almas. São omitidos alguns detalhes, como a recusa da apelação ao Papa, à qual Santa Joana tinha direito, mas isso é o de menos.

A narrativa está mais voltada a uma crítica à "Igreja dos clérigos e magistrados" e uma verdadeira apologia à "Igreja dos Santos".

Capa do livro (clique)
Bernanos, com invejável maestria, aponta os culpados pelo assassinato da jovem virgem: os membros do alto clero que se venderam aos poderes temporais em troca de honrarias, os covardes que tinham poder e os membros da academia (os professores universitários), em suma, aqueles fariseus que não defendiam o espírito da Lei, mas unicamente sua letra, "o princípio de submissão ao poder estabelecido", diz Georges, "nunca foi devidamente discutido pelos proprietários de benefícios".

Sua crítica, ou melhor, sua denúncia dos culpados que fizeram aquela condenação injusta, reflete a realidade com a qual o próprio autor teve contato, e que existe até os dias de hoje.

Com admirável coragem, Joana estava pronta a "que se fizesse a paz, e, caso não se quisesse fazer a paz, ela estava pronta para o combate". Mas quantos dos cristãos de hoje em dia se negam ao combate e se submetem ao império da mentira? Como é possível que se tenha a audácia de preferir manter um cargo em detrimento da verdade e da luta pela mesma? A injustiça contra uma donzela de 19 anos não foi o suficiente? Que mais querem estes que se dizem cristãos?

A Santa Joaninha dá o exemplo da verdadeira coragem a ser imitada pelos cristãos. Ela confunde seus inimigos com seu espírito pueril. Eles se calam: "Joana acaba de colocar-se em suas mãos e eles não sabem o que fazer. A máquina que foi montada com excesso de zêlo escapa ao controle dos engenheiros".

Aqueles gordos covardes não conseguem fazer outra coisa além de continuar usando seu rubricismo pra condenar Joana por cada movimento, pra condenar Joana por sua simples presença naquele tribunal, digo, teatro.

Muitos daqueles que estão em altos postos na Igreja (me refiro a clérigos e leigos conceituados) "são velhotes apegados às suas casas, a suas mesas, aos seus criados, impacientes para retomar o curso de uma vida pacífica".

Julgam, ainda, que "o Reino do Céu é conquistado como um assento na Academia, tentando não ferir o orgulho de ninguém" e, por isso, condenam a moça que, sozinha, colocara a França nos eixos; a jovem que, sob os nomes de Jesus e Maria, tinha mais peito e mais coragem que aquele covarde com sangue real, que tinha mais audácia que os generais, que conhecia mais as realidades celestes que o próprio clero ou os catedráticos da Sorbonne.

Sim, uma pobre jovem camponesa, com sua armadura, cavalo, bandeira e espada, fez mais por um país que o herdeiro de direito do trono (qualquer semelhança com a família imperial do Brasil não émera coincidência).

Bernanos termina repetindo incansavelmente esta verdade: NOSSA IGREJA É A IGREJA DOS SANTOS. Quem entende isso, entra no coração da Fé Católica!

Que outra igreja mostre seus santos!

Os santos viveram e sofreram como nós, eram tentados como nós! Mas eles amaram a Deus, e nós? "Rito nenhum dispensa de amar".

Um verdadeiro soco no estômago dos "radtrad's", um chute no saco dos acadêmicos "cristãos" (muitos que lideram certos grupos), uma voadora de dois pés nos covardes e um tapa na cara dos clérigos que se valem do poder instituído pra perseguir aqueles que só querem seguir a Cristo e lutar por Ele. É assim que defini este livreto.

Se você estiver em algum dos grupos supracitados, advirto que se sentirá mal lendo isso. Mas se tiver amor a Cristo e à Sua Igreja, provavelmente gostará muito.

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* BERNANOS, Georges. Joana, relapsa e santa. São Paulo: É Realizações, 2013.
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A crise do cristianismo no início do terceiro milênio, por Ratzinger


NA SEGUNDA EDIÇÃO do livro “Deus existe? ”, lançado pela editora Planeta, temos a transcrição do debate que ocorreu em 21 de fevereiro de 2000 entre o então Cardeal Joseph Ratzinger e o ateu Paolo Flores d’Arcais. Esse choque de ideias ocorreu em Roma e, devido à sua grandiosidade, quase duas mil pessoas tiverem que assistir às mais de 2h de debate do lado de fora do Teatro Quirino de Roma. Disponibilizamos aqui um texto de abertura do Cardeal Alemão, onde ele expõe – com sua genialidade característica – fatos importantíssimos para a compreensão do que realmente é o cristianismo (sinônimo da palavra catolicismo). Segue.


A pretensão da verdade posta em dúvida – a crise do cristianismo no início do terceiro milênio

No início do terceiro milênio, precisamente no âmbito de sua expansão original –, a Europa –, o cristianismo se encontra imerso em uma profunda crise que é consequência da crise de sua pretensão da verdade. Essa crise tem uma dupla dimensão: em primeiro lugar, questiona-se cada vez mais se é realmente oportuno aplicar o conceito de verdade à religião; em outras palavras, se é dado aos homens conhecer a autêntica verdade sobre Deus e as questões divinas. Para o pensamento atual, o cristianismo de modo algum está mais bem situado que as demais religiões. Ao contrário: com sua pretensão da verdade parece estar especialmente cego diante do limite de nosso conhecimento divino.

Todo este ceticismo frente à pretensão da verdade em matéria de religião se vê respaldado, ainda, pelas questões que a ciência moderna levantou sobre as origens e os conteúdos do cristianismo: com a teoria da evolução parece ter sido superada a doutrina da Criação; com os conhecimentos sobre a origem do homem, a doutrina do Pecado original; a exegese crítica relativiza a figura de Jesus questiona sua consciência de Filho (de Deus e logo Deus); a origem da Igreja em Jesus parece duvidosa etc. O fundamento filosófico do cristianismo se mostra problemático após o “fim da metafísica”, e seus fundamentos históricos são postos em xeque por efeito dos métodos históricos modernos.

Por isso, também é fácil reduzir os conteúdos cristãos ao simbólico, não lhes atribuir maior veracidade que aos mitos da história das religiões, vê-los como uma forma de experiência religiosa que se deveria situar com humildade ao lado de outras. Ao que parece, assim considerado, poder-se-ia permanecer cristão e continuar-se utilizando das formas de expressão do cristianismo; sua exigência, porém, transformou-se radicalmente: a Verdade, que era uma força vinculadora e uma promessa segura, transforma-se em uma forma de expressão cultural do sentimento religioso geral que nos cabe por causa de nossa origem europeia.

Como isso é assim, é preciso levantar novamente a questão já antiga da verdade do cristianismo, por mais supérflua e difícil de responder que pareça a muitos. Mas como? Sem dúvida, a teologia cristã deverá examinar cuidadosamente as diferentes instâncias que se levantaram contra a pretensão da verdade do cristianismo no âmbito da filosofia, das ciências naturais, da história, e terá de enfrentá-las. Mas, por outro lado, deverá tentar, também, obter uma visão geral da questão da verdadeira essência do cristianismo, de seu lugar na história das religiões e sua localização na existência humana.

Em suas origens, como o cristianismo contemplou seu lugar no cosmos das religiões? O surpreendente é que, sem hesitar, Agostinho atribui ao cristianismo um posto no âmbito da “teologia física”, do racionalismo filosófico. Esse fato implica uma evidente continuidade dos primeiros teólogos do cristianismo – os apologistas do século II – com relação ao lugar que Paulo atribui ao cristão no primeiro capítulo da Carta aos Romanos, que, por sua vez, se baseia na teologia da sabedoria do Antigo Testamento e, por meio dela, remonta ao escárnio dos deuses dos Salmos.
Sob essa perspectiva, o cristianismo tem seus precursores e sua preparação interna no racionalismo filosófico, não das religiões. Segundo Agostinho e a tradição bíblica, para ele decisiva, o cristianismo não se baseia nas imagens e ideias míticas, cuja justificação se encontra, afinal, em sua utilidade política, mas faz referência a esse aspecto divino que a análise racional da realidade pode perceber. Em outras palavras: Agostinho identifica o monoteísmo bíblico com as ideias filosóficas sobre o fundamento do mundo formadas em suas diversas variantes na filosofia antiga. A isso se faz referência quando, desde o sermão do Areópago de Paulo, o cristianismo se apresenta com o propósito de ser a religio vera. Portanto, a fé cristã não se baseia na poesia nem na política, essas duas grandes fontes da religião; baseia-se no conhecimento. Venera esse Ser que é o Fundamento de tudo o que existe, o “Deus verdadeiro”. No cristianismo, o racionalismo se tornou religião e não é mais seu adversário.

Partindo dessa premissa, uma vez que o cristianismo foi entendido como um triunfo da desmitologização, como um triunfo do conhecimento e, com isso, da verdade, devia ser considerado universal e levado a todos os povos; não como uma religião específica que ocupa o lugar de outras, não como uma espécie de imperialismo religioso, mas como verdade que torna a aparência supérflua. E justamente por isso, na ampla tolerância dos politeísmos, deve ser considerado incompatível, até mesmo inimigo da “religião ateísmo”: não se limitou à relatividade e à possibilidade de intercâmbio de imagens, com o que perturbava principalmente a utilidade política das religiões e punha em perigo os fundamentos do Estado, em cujo âmbito pretendeu ser não uma religião entre outras religiões, mas sim o triunfo do conhecimento sobre o mundo das religiões.

Por outro lado, essa localização do cristão no cosmos da religião e da filosofia está relacionada também com o poder de penetração do cristianismo. Já antes do surgimento da missão cristã nos círculos eruditos da Antiguidade, havia se buscado na figura do “homem temeroso a Deus” a conexão com a fé judaica, que foi considerada a forma religiosa do monoteísmo filosófico e atendia ao mesmo tempo às exigências da razão e à necessidade religiosa do homem que a filosofia não podia atender por si só: não se reza a um deus que só existe no pensamento. Mas quando o deus que o pensamento descobre se encontra no interior de uma religião como deus que fala e age, então conciliam-se pensamento e fé.

Nessa relação com a sinagoga, ficava, porém, um aspecto não resolvido: o não judeu só podia ser, então, um profano, e nunca se integraria ao todo. Essa limitação é superada no cristianismo por meio da interpretação que Paulo fez da figura de Cristo. Só então o monoteísmo religioso do judaísmo se fez universal e, com isso, a união de pensamento e fé –, a religio vera –, à qual todos podem ter acesso. Justino, filósofo e mártir falecido em 167, pode ser considerado uma figura representativa dessa forma de chegar ao cristianismo como vera philosophia. Com sua conversão ao cristianismo, não renunciou às suas próprias convicções filosóficas, mas foi quando se tornou verdadeiramente um filósofo. A convicção de que o cristianismo era filosofia, a filosofia perfeita, ou seja, a Filosofia que chega até a Verdade, manteve-se vigente para além dos tempos dos Pais [Padres] da Igreja.

No século XIV, essa consideração é evidente na teologia bizantina de Nicolau Cabasilas. Certamente a filosofia não era entendida, então, como uma disciplina acadêmica puramente teórica, mas também, e acima de tudo, sob uma perspectiva prática, como a arte de viver e morrer com probidade a que só se pode chegar à luz da verdade.

A união de racionalismo e fé que ocorreu no desenvolvimento da missão cristã e na construção da teologia cristã introduziu, também, mudanças decisivas na imagem filosófica de Deus, dentre as quais cabe destacar duas em particular. A primeira consiste em que o Deus em que os cristãos acreditam e a quem veneram é, diferente dos deuses míticos e políticos, verdadeiramente natura Deus; nisso concorda com o racionalismo filosófico. Mas ao mesmo tempo também é válido outro aspecto: non tamen omnis natura est Deus, “nem tudo que é natureza é Deus”. Deus é Deus por sua natureza, mas a natureza como tal não é Deus. Existe uma separação entre a natureza universal e o ser que a fundamenta, que lhe dá origem. Então, separam-se claramente física e metafísica. Só se venera ao Deus verdadeiro, ao que podemos reconhecer na natureza por meio do pensamento, mas Ele é mais que natureza. Precede-a, e ela é sua criação. Essa separação entre Deus e natureza leva consigo outro aspecto ainda mais decisivo: não se podia rezar ao Deus que era natureza, alma do mundo ou como quer que fosse seu nome; não era um “Deus religioso”, como havíamos visto. Mas então, segundo estabelece a fé do Antigo Testamento e, principalmente, do Novo Testamento, esse Deus que precede a natureza voltou-se para os homens. Justamente por não ser mera natureza, não é um deus que guarda silêncio. Entrou na História, foi ao encontro do homem e, deste modo, pode o homem encontrar-se com Ele. O homem pode unir-se a Deus porque Deus se uniu ao homem. As duas dimensões da religião sempre estiveram separadas – a natureza sempre dominante e a necessidade de salvação do homem que sofre e luta – aparecem intimamente unidas.

O racionalismo pode se transformar em religião porque o mesmo Deus do racionalismo entrou na religião. O elemento que realmente exige fé, a palavra histórica de Deus, é a condição prévia para que a religião possa se voltar, por fim, para o Deus filosófico, que já não é um mero Deus filosófico e que não rejeita o conhecimento filosófico, mas que o assume. E aqui se evidencia um fato surpreendente: os dois princípios fundamentais, aparentemente contrários, condicionam-se e andam unidos; juntos configuram a apologia do cristianismo como religio vera. O triunfo do cristianismo sobre as religiões pagãs foi possível não só pela reivindicação de sua racionalidade. Um segundo motivo teve igual importância. Consiste, em linhas gerais, no rigor moral do cristianismo, que Paulo já havia relacionado com a racionalidade da fé cristã: o que a lei realmente significa, as exigências que o Deus único faz à vida do homem, e que a fé cristã traz à luz, coincidem com o que o homem traz escrito no coração, de forma que o considera bom quando aparece diante dele. Coincide com o que é “bom por natureza” (Rm 2,14s.).

A alusão à moral estoica, a sua interpretação ética da natureza, fica aqui tão evidente quanto em outros textos paulinos, como a Carta aos Filipenses: “Levai em consideração tudo o que for verdadeiro, tudo o que for nobre, tudo o que for correto, tudo o que for puro, tudo o que for amável, tudo o que for de boa fama” (Fp 4,8). A união fundamental – embora crítica – com o racionalismo filosófico no conceito de Deus confirma-se e concretiza-se na união igualmente crítica com a moral filosófica. Do mesmo modo que no âmbito religioso, o cristianismo superou os limites das escolas filosóficas ao considerar o Deus que está no pensamento como um Deus vivo, também aqui se deu um passo da teoria ética à prática moral vivida em comum, na qual a perspectiva filosófica é superada pela concentração de toda a moral no duplo mandamento de amor a Deus e ao próximo, e se traduz em ação real.

Simplificando, poderíamos dizer que o cristianismo convenceu pela união da fé com a razão e pela orientação da atuação para a caritas, para a ajuda com amor aos que sofrem, aos pobres e aos fracos, acima de todo limite de condição.

A força que levou o cristianismo a se transformar em religião universal estava em sua síntese de razão, fé e vida; justamente essa síntese fica concretizada na expressão religio vera. Por isso se impõe cada vez mais a questão: por que hoje essa síntese já não convence? Por que hoje, ao contrário, são contraditórios e até excludentes entre si os conceitos de racionalismo e cristianismo? O que mudou no racionalismo, o que mudou no cristianismo para que isso seja assim?

Em sua época, o neoplatonismo, em especial Porfírio, opôs à síntese cristã uma interpretação diferente da relação entre filosofia e religião, que foi considerada uma refundação filosófica da religião dos deuses. Mas hoje essa outra maneira de harmonizar religião e racionalismo parece se impor de novo como a forma de religiosidade que mais se adapta à consciência moderna. Porfírio formula assim sua primeira ideia fundamental: latet omne verum, “a verdade está oculta”. Uma ideia na qual coincidem budismo e neoplatonismo. Segundo ela, sobre a verdade, sobre Deus, só existem opiniões, não existe certeza. Na crise de Roma de finais do século IV, o senador Símaco expressou as idéias neoplatônicas nas fórmulas simples e pragmáticas que podemos encontrar em seu discurso perante o imperador Valentiniano II, no ano 384, em defesa do paganismo e da restauração da deus Vitória no Senado romano. Citarei apenas a frase decisiva e que se tornou célebre: “Todos veneramos o mesmo, todos pensamos o mesmo, contemplamos as mesmas estrelas, o céu sobre nossa cabeça é um, o mesmo mundo nos acolhe; que importa por meio de que forma de sabedoria cada um busque a verdade? Não se pode chegar por um único caminho a um mistério tão grande”.

É justamente isso que diz o racionalismo hoje: não conhecemos a verdade como tal; temos a mesma opinião de formas diferentes. Um mistério tão grande, o divino, não pode se refletir em uma só figura que exclui todas as outras, em um caminho que todos são obrigados a seguir. Muitos são os caminhos, muitas as imagens, todas refletem algo do todo e nenhuma é, por si mesma, o todo. Isso abriga o ethos da tolerância, que reconhece em tudo um pouco de verdade, não põem o próprio acima do desconhecido e integra-se pacificamente à sinfonia polifônica do eternamente insuficiente que se oculta nos símbolos, que parecem ser nossa única possibilidade de alcançar o divino de algum modo.

Terá sido superada, portanto, a pretensão do cristianismo de ser religio vera pelo avanço do racionalismo? Deve abandonar a pretensão e aderir à visão neoplatônica, ou budista ou hinduísta da verdade e dos símbolos, deve se conformar – como propôs Troeltsch – com mostrar a parte do rosto de Deus voltada para os europeus? Deve ir um passo além de Troeltsch, cuja opinião era de que o cristianismo era a religião mais adequada para a Europa, ao passo que justamente hoje a Europa põe em dúvida essa adequação? Essa é a verdadeira questão que a Igreja e a teologia devem levantar na atualidade.

Todas as crises que ocorrem no cristianismo baseiam-se só de forma secundária em aspectos institucionais. Na Igreja, tanto os problemas das instituições quanto os das pessoas derivam, em última instância, do enorme peso desse fato. Esse é o desafio fundamental no início do terceiro milênio cristão. A questão não pode receber uma resposta meramente teórica, do mesmo modo que a religião como atitude última do homem não é só teoria. Precisa desta combinação de conhecimento e ação em que se baseou a força de convicção do cristianismo dos Pais [Padres] da Igreja.

Isso não significa, de modo algum, que se possa prescindir do aspecto intelectual do problema remetendo à necessidade da praxis. Tentarei, por fim, oferecer uma perspectiva que possa indicar a direção. Vimos que a união original, nunca indiscutível, de racionalismo e fé à qual Tomás de Aquino deu uma forma sistemática se rompeu não tanto pela evolução da fé quanto pelos novos avanços do racionalismo. Poderíamos mencionar como etapas dessa evolução: Descartes, Espinosa, Kant. A tentativa de uma nova síntese integradora por parte de Hegel não devolveu à fé seu lugar filosófico, mas tentou transformá-la em razão e suprimi-la como fé. A esse caráter absoluto do espírito, Marx opõe o caráter único da matéria; a filosofia deve se reduzir por completa a uma ciência exata, só o conhecimento exato é realmente conhecimento. Com isso suprime-se a ideia do divino. O anúncio de Auguste Comte de que um dia existirá uma física do homem e que as grandes questões das quais antes se ocupava a metafísica seriam tratadas no futuro de um modo tão “positivo’, como tudo o que já em nossos dias é ciência positiva, teve, em nosso século, uma impressionante ressonância nas ciências humanas.

Cada vez é menor a separação entre física e metafísica introduzida pelo pensamento cristão. Tudo deve tornar a ser “física”. A teoria da evolução tem se mostrado, cada vez mais, como o caminho para que a metafísica desapareça por completo, para fazer parecer supérflua a “hipótese de Deus” (Laplace) e para formular uma interpretação do mundo estritamente “científica”. Uma teoria da evolução que explica todo o real de modo global transformou-se em uma espécie de “filosofia primeira” que, por assim dizer, constitui a base da interpretação racional do mundo. Qualquer tentativa de pôr em jogo outras causas diferentes das incluídas nessa teoria “positiva”, qualquer tentativa de “metafísica”, tem de parecer um retrocesso diante do racionalismo, um abandono da pretensão de universalidade da ciência. Assim, a ideia cristã de Deus é considerada acientífica. Já não corresponde a nenhuma Theologia physica: neste sentido, a única Thelogia naturalis é a teoria da evolução, e esta não conhece nenhum Deus nem criador no sentido do cristianismo - do judaísmo e do islamismo -, nem uma alma do mundo ou uma força interna no sentido da Stoa (ou Pórtico Poecile, local onde Zenão ensinava e de onde vem o termo “estoico”). No máximo, do ponto de vista do budismo, poder-se-ia considerar todo este mundo como aparência e o nada como o verdadeiramente real, e justificar, assim, formas místicas de religião que pelo menos não competem de modo direto com o racionalismo.

Diz-se, com isso, a última palavra? Separaram-se definitivamente cristianismo e razão? De qualquer maneira, não há nenhuma via que evite o debate em torno do alcance da teoria da evolução como filosofia primeira e da exclusividade do método positivo como única forma de ciência e racionalidade. Assim, este debate deve ser mantido por ambas as partes com objetividade e disposição para escutar, o que até agora mal aconteceu. Ninguém pode duvidar seriamente das provas científicas dos processos microevolutivos. A questão que um crente levanta frente à razão moderna não faz referência a esse assunto, nem ao da macroevolução, e sim à expansão para uma philosophia universalis que pretende se transformar em uma explicação global do real e não gostaria de deixar de lado nenhum outro nível do pensamento.

Trata-se, enfim, de a razão ou racional estarem ou não no princípio de todas as coisas e em seu fundamento. Trata-se de saber se o real surgiu do acaso e da necessidade, ou seja, do irracional; se, portanto, a razão é um subproduto casual e irracional e carece também de importância no oceano do irracional, ou se continua sendo certa a ideia que constitui a convicção fundamental da fé cristã e sua filosofia: in principio erat verbum, “no princípio de todas as coisas está a força criadora da razão”. A fé cristã é, hoje como ontem, a opção da prioridade da razão e do racional. Esta questão última não pode mais ser resolvida mediante os argumentos das ciências naturais, e também o pensamento filosófico se choca aqui com seus limites. Neste sentido, não existe uma possibilidade última de demonstrar a opção cristã fundamental. Mas pode a razão renunciar à prioridade do racional sobre o irracional, à existência original do logos sem abolir a si mesma? A razão não pode fazer outra coisa a não ser pensar também sobre o irracional a seu modo, isto é, de modo racional, estabelecendo mais uma vez implicitamente, a questionada primazia da razão. Por sua opção em favor da primazia da razão, o cristianismo continua sendo, também hoje, “racionalismo”.

Vimos anteriormente que na concepção do mundo cristão primitivo os conceitos de natureza, homem, deus, ethos e religião estavam indissoluvelmente vinculados entre si, e que essa vinculação havia contribuído para que o cristianismo tomasse consciência da crise dos deuses e da crise do racionalismo antigo. A orientação da religião para uma visão racional da realidade, o ethos como parte dessa visão, e sua aplicação concreta sob a primazia do amor ficaram unidas entre si. A primazia do logos e a primazia do amor ficaram unidas entre si. A primazia do logos e a primazia do amor se mostraram idênticas. O logos se mostrava não só como razão matemática no fundamento de todas as coisas, mas como amor criador a ponto de “compadecer” com o criado. O aspecto cósmico da religião, que venera o Criador em seu poder sobre a existência, e seu aspecto existencial, a questão da redenção, vincularam-se e se transformaram em um só. De fato, toda explicação do real que não possa apoiar também um ethos com razões claras é necessariamente insuficiente.

Na realidade, a teoria da evolução também tenta dar uma nova fundamentação ao ethos do ponto de vista da evolução ao pretender se transformar em uma philosophia universalis. Mas esse ethos relacionado com a evolução, que encontra inevitavelmente seu conceito-chave no modelo de seleção, isto é, na luta pela sobrevivência, na vitória do mais forte, na adaptação com sucesso, pode oferecer pouco consolo. Embora se tente enfeitá-lo de diversas formas, continua sendo um ethos cruel. A tentativa de destilar o racional do que é em si irracional fracassa aqui de forma evidente. Tudo isto é pouco apropriado para uma ética da paz universal, do amor prático ao próximo e da necessária abnegação de cada um.

A tentativa de dar de novo um sentido claro ao conceito do cristianismo como religio vera no meio dessa crise da humanidade deve se basear igualmente, por assim dizer, no reto agir (ortopraxis) e no reto crer (ortodoxia). Seu argumento mais profundo deve consistir – ao fim e ao cabo como então – em que o amor e a razão coincidem como verdadeiros pilares fundamentais do real: a razão verdadeira é o amor, e o amor é a razão verdadeira. Em sua união constituem o verdadeiro fundamento e o objetivo do real.

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RATZINGER. Joseph. Deus existe? São Paulo: Planeta, 2009.
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Centenário de Fátima – Uma experiência única em minha vida

Por Felipe Marques – Fraternidade São Próspero


AQUI DEIXO O RELATO breve de minha peregrinação até Fátima. Espero que esse testemunho, ainda que breve, possa mudar a vida daqueles que o lerem. Lembre-se: A sua vida será contada por aquilo que você fez de bom e não por aquilo que você pensou em fazer de bom.



Motivações

Tudo começou no fim de 2016. Eu assisti a uma palestra de um filósofo católico, na qual ele indagava seus espectadores: “Quem você quer ser quando morrer? Como você será lembrado? ”. Ora, eu nunca havia pensado nisso! Realmente, só há mudança em nossa vida enquanto estamos vivos, pois, quando morrermos, nos encontraremos com Deus do jeito que estivermos no momento exato em que a morte nos ceifar. Se devemos fazer algo bom, devemos fazê-lo antes da morte!

Enfim, após algumas reflexões, cheguei à conclusão de que nossa vida é contada por aquilo que fizemos e não por aquilo que pensamos em fazer. Para o católico, essa sentença ganha um agravante que é o dever de fazer o bem, então, a sentença final fica conforme segue: “A sua vida será contada por aquilo que você fez de bom e não por aquilo que você pensou em fazer de bom”.

No futuro, eu não queria dizer aos meus filhos e netos: “Eu tive a oportunidade de ir à Fátima no Centenário das Aparições, porém, não fui por preguiça ou por outro impedimento. ” Eu realmente queria ter essa história para contar! Eu queria que na narrativa da minha miserável vida, houvesse um momento de grande luz divina, onde a ação de Nossa Senhora ficasse clara para todos e, que assim, muitos se convertessem e amassem nossa Mãe Santíssima.

Além do que já foi exposto, Brasil e Portugal estão vivendo um Ano Jubilar Mariano. A Santíssima Virgem Maria tem derramado copiosas graças sobre seus filhos nesse tempo e Ela merece ser honrada e amada! Porém, infelizmente, no Brasil o que demos à Virgem foi um carnaval profano. Além disso, pouquíssimo se tem falado sobre o Ano Mariano e sobre como podemos vivê-lo de forma a honrar e amar mais, e mais, Nossa Senhora. Se ainda temos algum amor por Maria ou alguma espécie de devoção mariana, ambas estão perto de sua extinção!

É possível viver esse tempo da graça de forma simples: melhorando a récita do Santo Terço ou do Santo Rosário; lendo algum livro sobre a Virgem Maria e consagrando a própria vida à Ela. Porém, eu tive a oportunidade de fazer uma peregrinação até um santuário mariano que fica em um país que se localiza em outra margem do Oceano Atlântico. Foi a forma que encontrei de amar Nossa Senhora e de ser amado por Ela! Então, após participar de um recolhimento com um ótimo sacerdote, fiz o propósito de ir até Fátima e deixei esse projeto nas mãos de Maria. Pedi que esse sonho se concretizasse somente se esta fosse a vontade de Deus e se isso me santificasse.


Reza e trabalha!
          
Agora, mãos à obra! Ora et labora – reza e trabalha – é um lema beneditino que deve ser uma verdadeira regra de vida para os católicos. Rezamos e pedimos que seja feita a vontade de Deus em nossas vidas, e então, vamos trabalhando e colocando os meios para que as bordas do Reino de Deus sejam alargadas cá em baixo na Terra. Durante os preparativos da viagem, tive algumas dificuldades, porém, em 4 meses consegui as seguintes proezas: tirar meu passaporte; reservar um ótimo apartamento em Porto; comprar as passagens de avião (ida e volta) desde o Brasil até Portugal e comprar as passagens de ônibus (ida e volta) desde Porto até Fátima.



Dessa parte creio que é válido ressaltar o aluguel do apartamento. Por semanas pensei em reservar um quarto em Fátima, e estava tudo certo, até que de repente o valor do aluguel aumentou de forma espantosa e não consegui fazer a reserva. Fiquei chateado, porém, Deus sabe de todas as coisas e essa viagem estava sob os cuidados de Maria. Então, para minha surpresa, após realizar algumas pesquisas breves, encontrei um apartamento muito bem localizado em Porto, e que estava disponível nos dias que eu precisava – o que era um verdadeiro achado devido à alta demanda por esse lugar. Ótimo, a reserva foi confirmada e agora eu só precisava esperar pelo dia 10 de maio de 2017 para ir até Porto.


Chegada em Porto

Depois de 10h de viagem, cheguei na cidade de Porto no dia 11 de maio na parte da manhã. Essa cidade é incrível, nela conheci ótimas pessoas, fui muito bem acolhido e o mais importante de tudo é que consegui conhecer as seguintes Igrejas: Igreja Monumento de São Francisco, Igreja das Carmelitas, Igreja do Carmo, Igreja Nossa Senhora da Vitória, Mosteiro de São Bento da Vitória, Igreja de São Pedro de Miragaia, Igreja de Santo Ildefonso, Igreja de São João Novo, Igreja dos Clérigos, Igreja dos Congregados e a Igreja de São José das Taipas.


Nesses passeios, compreendi a importância da beleza na vida do ser humano. Compreendi que as pessoas são capazes de fazer coisas grandiosas e belíssimas, obras que perduram durante os séculos como resultados indubitáveis da máxima: Devemos oferecer o melhor para Deus! São Igrejas tão lindas que, ao entrar nelas, você já começa a rezar mesmo sem perceber. Os detalhes fazem com que o católico se sinta destacado do mundo, há a sensação de que estamos diante de algo infinitamente maior que nós, é como se tocássemos um pedaço do Paraíso. Como diz Chesterton: “Todo homem pode ser um criminoso se tentado, todo homem pode ser um herói se inspirado”.

Para provar o que digo, seguem algumas das fotos que tirei em Porto:























Ida para Fátima

No dia 12 de maio, então, fui para Fátima e cheguei lá por volta das 15h10. Logo ao chegar, tive a oportunidade de conhecer o Centro Pastoral Paulo VI e depois disso, me dirigi diretamente para o Recinto de Oração que é o espaço que fica entre a Basílica da Santíssima Trindade e a Basílica de Nossa Senhora do Rosário. Ali compreendi o significado da palavra Católico (vem do grego "katholikos", que quer dizer, para todos ou universal), me deparando com pessoas do mundo inteiro! Vi chineses, angolanos, espanhóis, portugueses, brasileiros e cidadãos de tantas nações que eu parecia estar diante de uma prefiguração do que é narrado no livro do Apocalipse 7, 9 - 10: “Depois disso, vi uma grande multidão que ninguém podia contar, de toda nação, tribo, povo e língua: conservavam-se em pé diante do trono e diante do Cordeiro, de vestes brancas e palmas na mão, e bradavam em alta voz: A salvação é obra de nosso Deus, que está assentado no trono, e do Cordeiro ”.

São Luís Maria Grignion estava correto ao dizer que: “Cristo veio ao mundo por meio de Maria, e por Maria Ele deve reinar no mundo ”. Aos pés da imagem de Nossa Senhora do Rosário de Fátima, milhares de pessoas se reuniram para render graças a Deus pelo dom da vida e pelos demais dons que O Senhor lhes concede por meio de Maria que é a Corredentora, a Medianeira de todas as graças. Foram momentos únicos os que passei naquele solo santo, solo santificado pela presença da Mãe de Deus e Nossa Mãe.


Fiquei a cerca de 20 metros do Papa Francisco quando ele estava rezando na Capelinha das Aparições e foi impressionante ver o sucessor de Pedro rezando com suas ovelhas. Depois da consagração que aconteceu na parte da tarde, de noite, o Papa veio rezar o Santo Terço conosco em diversos idiomas e essa foi mais uma cena memorável. Porém, depois disso, tive algumas dificuldades em Fátima.




A noite como morador de rua

Por falta de alojamento, decidi que não era viável ir para Fátima no dia 12 e retornar para Porto no mesmo dia, e depois ter que voltar para Fátima, logo cedo, no dia 13. Então, passei a madrugada em Fátima. Agradeço a Deus por esses momentos, pois, pela primeira vez senti impresso em minha vida aquilo que Nossa Senhora disse aos pastorinhos: “Quereis oferecer-vos a Deus para suportar todos os sofrimentos que Ele quiser enviar-vos, em ato de reparação pelos pecados com que Ele é ofendido e de súplica pela conversão dos pecadores? ”

Passei a madrugada pedindo a Deus que o dia nascesse logo. O frio, a fome e a busca por um lugar onde eu pudesse ficar protegido da chuva, fizeram com que eu sentisse na pele o que é viver como um morador de rua. Isso foi bom para mim, foi meu “caminho de Damasco”, e além de tudo, pude oferecer meus sofrimentos à Nossa Senhora. É como se diante dos sofrimentos que passei lá e que passo ainda em minha vida, frente ao desejo de desistir, São Francisco Marto me dissesse, assim como disse à Santa Jacinta Marto: “Não quereis também oferecer isso a Deus? ” E então retomo forças e continuo caminhando com Cristo.

Creio que é esta a mensagem que os dois novos santos da Igreja querem deixar para nós... Diante dos sofrimentos e das dores, não devemos abandonar a Deus, devemos, pelo contrário, unirmo-nos mais intimamente a Ele que foi crucificado por nós! Devemos associar nossos sofrimentos aos sofrimentos de Cristo na Cruz. Afinal, como diz São Pedro no episódio narrado no evangelho de São João 6, 67 – 69: “Então Jesus perguntou aos Doze: Quereis vós também retirar-vos? Respondeu-lhe Simão Pedro: Senhor, a quem iríamos nós? Tu tens as palavras da vida eterna. E nós cremos e sabemos que tu és o Santo de Deus! ”

Só Cristo tem palavras de vida eterna... Só Ele é nosso refúgio, só Ele é nossa salvação! 



Frutos da peregrinação

No dia 13, depois da Santa Missa com o Papa, voltei para meu apartamento em Porto e no dia 17 voltei para o Brasil. Se eu pudesse resumir essa peregrinação em uma palavra, essa seria: conversão! O silêncio amoroso de São Francisco Marto, sua coragem e liderança, sempre orientando Santa Jacinta a oferecer seus sofrimentos a Deus “por Vosso amor [Jesus], pela conversão dos pecadores, e em reparação pelos pecados cometidos contra o Imaculado Coração de Maria” são luzeiros que devem nos inspirar e guiar durante nossa peregrinação terrestre.


Não devemos buscar cruzes, o sofrimento pelo sofrimento não tem valor, mas aceitamos aquilo que o bom Deus nos envia para que nos associemos perfeitamente ao Seu Santo Filho que sofreu os piores suplícios para que, nós, miseráveis pecadores sejamos salvos. Como ensina Santo Agostinho: “Não é o suplício que faz o mártir, mas a causa. ” Que nossa causa seja sempre o Cristo, para que vivamos por Ele, n’Ele e com Ele. Que pela intercessão da Virgem de Fátima, sejamos agradáveis a Deus, que sejamos santos! Só quando Jesus Cristo reinar em cada coração, o Imaculado Coração de Maria triunfará.


Agradecimentos

Agradeço de modo especial a Nossa Senhora, sem Ela essa peregrinação jamais teria acontecido. Eu consigo enxergar a ação de Maria em cada pequeno detalhe dessa viagem, Ela que prepara tudo para que nós, seus filhos, possamos ser santos. Agradeço a Deus por nos ter dado tão bondosa Mãe, Sua própria Mãe Santíssima, e por derramar prodigamente Suas graças sobre nós que somos indignos. Além disso, não posso esquecer de todos que rezaram por mim e me apoiaram, principalmente minha família e de modo especial, meu irmão Paulo que me guiou em todos os preparativos dessa peregrinação.
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