Igrejas feias fazem mal para a alma – a importância da beleza estética na Liturgia para a evangelização

O jovem 'youtuber' Brian Holdsworth

ASSIM COMO ACONTECE com a Verdade, a Beleza também não é relativa. Está aí um assunto que quase inevitavelmente provocará polêmica nos ambientes modernos, já que os ouvidos dos nossos tempos, profundamente doutrinados na ideologia socialista, não admitem desigualdade de espécie alguma – ainda que as desigualdades inegavelmente existam e sejam mais do que evidentes.

É preciso um altíssimo grau de cegueira voluntária para negar que, neste mundo, existem coisas bonitas e coisas feias – incluindo pessoas. Ora, não estamos aqui falando do caráter e nem da dignidade de ninguém. Uma pessoa muito boa pode ser muito feia, e todos sabemos que isso acontece muito, talvez até porque as pessoas desprovidas de beleza estética estejam livres de certas tentações, como por exemplo a da vaidade.

S. João Maria Vianney que o diga, ou será que, olhando as fotos do santo Cura d'Ars, alguém ousaria dizer que ele foi um modelo de beleza física? Claro que a santidade de alguém e/ou o amor que nutrimos por essa pessoa pode torná-la bela de um modo muito especial, e de fato muito mais elevado que o da mera aparência física; a visão de alguém que amamos, independente da estética, é sempre agradável aos olhos e, via de regra, alguém que é bom para todos parece sempre formoso(a) diante de todos.



Mas estamos tratando aqui de um assunto muitíssimo mais profundo. Falamos da importância e da função real da beleza para a evangelização Há alguns anos, o presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização, Dom Rino Fisichella, declarou que "A beleza é um caminho privilegiado para a evangelização” (fonte). Além disso, um fato pouco conhecido (porque pouco divulgado) é que existem estudos e testemunhos de conversões que compravam a eficácia da arte sacra na evangelização.

Um estudo recentemente divulgado pelo jornal inglês "The Telegraph"[1] avaliou a participação dos jovens nas práticas religiosas e identificou um elemento que surpreendeu a muitos: a grande eficácia da arquitetura sacra para inspirar conversões. O estudo sugere que os novos métodos, nos quais vem investindo com prioridade a Igreja, como por exemplo os grupos de jovens, são menos efetivos do que a prática das orações tradicionais e a simples visita a um belo templo, liturgicamente construído e ornamentado. 

As conclusões da pesquisa classificaram o contato com um templo harmonioso e bem acabado numa posição mais alta de eficácia do que a participação em um grupo de oração, os eventos que promovem o diálogo ecumênico e diversas outras frentes as quais a hierarquia da Igreja vem priorizando nos últimos tempos. Nos chamados "shows de evangelização" e megaeventos com artistas católicos, por exemplo, ocorre uma grande afluência de jovens, mas não necessariamente a evangelização propriamente dita. A mocidade vai cantar, dançar, interagir, viver uma aventura diferente, mas... O que aprendem? Que tipo de catequese recebem ali? Poderíamos realmente afirmar que nesses locais ocorrem autênticas experiências religiosas? Em que nível?

Já os números da pesquisa inglesa concordam com a tradição católica da arquitetura sacra, e reafirmam o seu potente valor catequético. Comentando sobre a beleza do templo da Universidade de Sto. Tomás de Aquino, nos EUA, o arquiteto Kevin Clark citou à publicação "Adoremus": "É surpreendente ver católicos e não católicos participarem na beleza física do edifício. Essa beleza (do templo) é parte da sua conversão, e isso é algo intrigante".

As igrejas antigas (pré-conciliares) continham em sua própria estrutura tinham um mistério, uma atmosfera de reverência ao sagrado que desapareceu nas construções modernas. O edifício em forma de Cruz, a abóbada, a acústica, as paredes decoradas com imagens das vidas dos santos, o acabamento repleto de simbologia sagrada, os elementos litúrgicos, a luz das velas, o aroma do incenso, os vitrais... Era difícil entrar em um templo bem cuidado e não se sentir pré-disposto à oração; tudo levava a uma reverência pelo Divino. Parece inegável que essa curiosidade e essa atração estética inicial atrai os jovens e os prepara a um contato mais profundo com a mensagem cristã católica.

Lamentavelmente, pouco sobrou de toda essa atmosfera que remetia à adoração de Deus nos caixotões pós-conciliares, que se parecem bem mais com galpões, tendo ao centro um mero palco e não mais o Altar do Sacrifício, e o Sacrário –, que deveria ser o centro de tudo –, relegado a um canto.

"Os estudantes têm sede de beleza, e os estudos recentes apontam que a beleza é uma das razões mais significativas pelas quais pessoas chegam à fé católica e permanecem nela", afirmou o documento de apresentação do projeto de construção da capelada da Universidade de St. Paul, em Madison, EUA. "A edificação necessita ser grande, bela e suficientemente visível para que os estudantes a notem". A instituição deseja substituir a edificação em estilo moderno atual, em parte, porque os estudantes não a reconhecem como templo; assim se evidenciará a importância de enfatizar claramente a sua identidade cristã católica.

Que a "Via da Beleza" continua sendo um passo prévio, que requer ser seguido por um encontro autêntico com Deus, sua implementação contribui de forma notável à Evangelização, como reconhece o Pontifício Conselho para a Cultura no documento "A Via Pulchritudinis": "A capacidade comunicativa da arte sacra se mostra capaz de romper barreiras, filtrar os prejuízos e tocar o coração das pessoas de diferentes culturas e religiões, permitindo-lhes perceber a universalidade da mensagem de Cristo e seu Evangelho".



Discurso do Santo Padre Bento XVI em Audiência Geral
(de 31.8.2011)

Queridos irmãos e irmãs!

Ao longo deste período, evoquei várias vezes a necessidade de que cada cristão encontre tempo para Deus, para a oração, no meio das numerosas ocupações dos nossos dias. O próprio Senhor oferece-nos muitas oportunidades para nos recordarmos d’Ele. Hoje, gostaria de debruçar-me brevemente sobre um desses canais que nos podem conduzir a Deus e servir também de ajuda no encontro com Ele: é o caminho das expressões artísticas, que faz parte daquela «via pulchritudinis» (caminho da beleza) − da qual já falei diversas vezes e que o homem de hoje deveria recuperar no seu significado mais profundo.
Talvez vos tenha acontecido algumas vezes, diante de uma escultura, de um quadro, de certos versos de uma poesia ou de uma peça musical, sentir uma emoção íntima, uma sensação de alegria, ou seja, perceber claramente que diante de vós não havia apenas matéria, um pedaço de mármore ou de bronze, uma tela pintada, um conjunto de letras ou um cúmulo de sons, mas algo maior, algo que «fala», capaz de tocar o coração, de comunicar uma mensagem, de elevar a alma. Uma obra de arte é fruto da capacidade criativa do ser humano, que se interroga diante da realidade visível, procura descobrir o seu sentido profundo e comunicá-lo através da linguagem das formas, das cores, dos sons. A arte é capaz de exprimir e de tornar visível a necessidade que o homem tem de ir para além daquilo que se vê, pois manifesta a sede e a busca do infinito. Mais, é como uma porta aberta para o infinito, para uma beleza e uma verdade que vão mais além da vida quotidiana. E uma obra de arte pode abrir os olhos da mente e do coração, impelindo-nos rumo ao alto.

Mas há expressões artísticas que são verdadeiras estradas que levam a Deus, à Beleza suprema; mais, são uma ajuda para crescer na relação com Ele, na oração. Trata-se das obras que nascem da fé e que exprimem a fé. Podemos ter um exemplo quando visitamos uma catedral gótica: sentimo-nos arrebatados pelas linhas verticais que se perfilam rumo ao céu e atraem para o alto o nosso olhar e o nosso espírito enquanto, ao mesmo tempo, nos sentimos pequenos, antes, desejosos de plenitude... Ou então quando entramos numa igreja românica: somos convidados de modo espontâneo ao recolhimento e à oração. Apercebemo-nos de que, nestes edifícios esplêndidos, está como que encerrada a fé de gerações. Também, quando ouvimos uma peça de música sacra que faz vibrar as cordas do nosso coração, a nossa alma é como que dilatada e ajudada a dirigir-se a Deus. Vem-me ao pensamento um concerto de músicas de Johann Sebastian Bach, em Munique da Baviera, dirigido por Leonard Bernstein. No final da última peça, uma das Cantatas, senti, não por raciocínio mas no profundo do coração, que aquilo que eu ouvira me tinha transmitido a verdade, a verdade do sumo compositor, impelindo-me a agradecer a Deus. Ao meu lado estava o bispo luterano de Munique e, espontaneamente, disse-lhe: «Ouvindo isto, compreende-se: é verdadeiro; é verdadeira a fé tão forte, e a beleza que exprime de maneira irresistível a presença da verdade de Deus».

Mas quantas vezes quadros ou afrescos, fruto da fé do artista, nas suas formas, nas suas cores, na sua luz, nos impelem a dirigir o pensamento para Deus e fazem crescer em nós o desejo de beber na fonte de toda a beleza. Permanece profundamente verdadeiro o que escreveu um grande artista, Marc Chagall: que durante séculos os pintores molharam o seu pincel naquele alfabeto colorido que é a Bíblia. Então, quantas vezes as expressões artísticas podem ser ocasiões para nos recordarmos de Deus, para nos ajudarem na nossa oração ou também na conversão do coração! Paul Claudel, famoso poeta, dramaturgo e diplomata francês, na Basílica de Notre Dame em Paris, em 1886, precisamente ouvindo o canto do Magnificat durante a Missa de Natal, sentiu a presença de Deus. Não tinha entrado na igreja por motivos de fé, tinha entrado precisamente para procurar argumentos contra os cristãos, e, pelo contrário, a graça de Deus actuou no seu coração.

Queridos amigos, convido-vos a redescobrir a importância deste caminho também para a oração, para a nossa relação viva com Deus. As cidades e os países de todo o mundo encerram tesouros de arte que exprimem a fé e nos exortam à relação com Deus. Ora, a visita aos lugares de arte não seja apenas uma ocasião de enriquecimento cultural − também isto −, mas possa tornar-se sobretudo um momento de graça, de estímulo para reforçar o nosso vínculo e o nosso diálogo com o Senhor, para nos determos a contemplar − na passagem da simples realidade exterior para a realidade mais profunda que exprime − o raio de beleza que nos atinge, que quase nos «fere» no íntimo e nos convida a elevarmo-nos rumo a Deus.

Termino com a oração de um Salmo, o Salmo 27: «Uma só coisa pedi ao Senhor, e desejo-a ardentemente: poder habitar na casa do Senhor todos os dias da minha vida, contemplando a beleza do Senhor e orando no seu templo» (v. 4). Esperemos que o Senhor nos ajude a contemplar a sua beleza, tanto na Natureza como nas obras de arte, de modo a sermos tocados pela luz da sua face, a fim de que também nós possamos ser luz para o nosso próximo. Obrigado!



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1. Os dados relativos ao estudo citado constam de artigo publicado pela agência Gaudium Press: 'Estudo ratifica importância de templos belos em conversões individuais', disp. em:
http://www.gaudiumpress.org/content/88469#ixzz4nTKFB6Nx
Acesso 21.7.017

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Fontes e ref.:

DIAS, Jurandir. 'Por que a beleza importa?', disp. em:
https://ipco.org.br/ipco/53582-2/#.WXIO9NTyuCh

Acesso 21.7.017

ASSEMBLEIA PLENÁRIA DOS BISPOS. Via Pulchritudinis, O Caminho da Beleza, São Paulo: Loyola, 2007.
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Nas mãos de Deus ou dos homens?

Bento XVI e o respeito à vida


O pequeno Charlie Gard, condenado à morte pelo poder estatal, e seus pais

Por Dr. Rudy Albino Assunção – Fraternidade São Próspero

O CASO DO MENINO britânico de quase 1 ano de vida, Charlie Gard, tem mobilizado o mundo. Não há quem não se comova com a sua imagem no hospital, deitado placidamente com os olhos fechados, como se dormisse serenamente em sua própria casa. Ele é portador de uma doença rara que lhe tirou os movimentos e a capacidade de respirar por conta própria. Tal doença foi pouco estudada, o que levou seus pais a quererem buscar tratamento nos EUA, decisão esta que encontrou oposição dos médicos que “cuidam” do menino e até mesmo do poder judicário inglês, que decidiu, contra a vontade paterna, que fossem desligados os aparelhos que sustentam a vida do pequeno Charlie.

O Papa Francisco, o presidente norte-americano Donald Trump e até mesmo o ex-primeiro ministro italiano Matteo Renzi se declararam a favor dos esforços dos pais do menino para salvar a vida dele. Vê-se que mesmo indivíduos com visões políticas claramente distintas podem concordar quando o assunto é a salvaguarda da vida. Acima de todas as discussões sobre os pormenores do caso – o liame entre eutanásia e distanásia – mais uma vez nos deparamos com a intromissão, com o intervencionismo estatal sobre a liberdade individual, a vontade paterna e, mais do que tudo, com uma flagrante visão da vida portadora de deficiência como algo de menor valor.

Li de relance numa rede social que estamos no tempo em que se requer o direito de matar a vida inocente, mas que não se dá o direito de defendê-la. Mas onde está a raiz de tudo isso? Porque assistimos a um movimento nas altas esferas políticas e jurídicas contrárias ao principío fundamental da vida? Como todo fenômeno complexo a resposta deveria aludir a muitas causas. Aqui me limito a uma delas, pois foi insistentemente acentuada por Bento XVI: a exclusão de Deus.


Sem Deus a vida corre perigo

Entre nós, católicos, é convicção básica que a vida é um dom de Deus. Ou seja, ela nos foi doada, nós a recebemos de um Outro, que é a sua Fonte e Sentido: “’Pois n’Ele nós vivemos, nos movemos e existimos’…” (At 17,28), conforme diz claramente a Sagrada Escritura. Mas em nossa sociedade, na qual a existência de Deus é cada vez mais colocada em xeque, é até lógico que a defesa da inviolabilidade ou mesmo da sacralidade da existência humana será como uma batalha ingente e contracorrente. Ainda que alguém que não creia em Deus possa defendar a vida como valor absoluto – a luta pró-vida não é confessional, menos ainda restrita ao catolicismo – dado o conhecimento que a razão pode obter da lei natural, é nítido que um processo jurídico e político de sistemática expulsão de Deus do debate público, fruto de um positivismo radical, até o ponto de uma assepsia nos códigos legais de toda referência a princípios transcendentes, elimina o garantidor máximo do respeito à vida em todas as suas etapas: Deus.


Sem Ele, sem uma Inteligência Criadora que nos pensou, que nos amou e, assim, deu-nos existência, restamos apenas como produtos acidentais do “acaso e da necessidade”. Somos meramente factíveis e manipuláveis. Por isso, é admirável uma frase de Bento XVI citada habitualmente e extraída da homilia de início do seu pontificado: nela o Papa afirmava que 

nós existimos para mostrar Deus aos homens. E, só onde se vê Deus, começa verdadeiramente a vida. Só quando encontramos em Cristo o Deus vivo, conhecemos o que é a vida. Não somos o produto casual e sem sentido da evolução. Cada um de nós é o fruto de um pensamento de Deus. Cada um de nós é querido, cada um de nós é amado, cada um é necessário.[1]

Aí está o nosso valor fundamental.


A vida está nas mãos de Deus

Bento XVI – o autor que fundamenta as nossas reflexões nesta coluna – lembrava a Igreja, algum tempo depois, aproveitando a ocasião da Jornada pela Vida, celebrada na Itália todos os anos, e fazendo eco aos bispos italianos ao reafirmar

o dever prioritário de se ‘respeitar a vida’, porque se trata de um bem ‘indispensável’; o homem não é dono da vida, mas simples mente quem a preserva e administra. E sob a primazia de Deus nasce automaticamente esta prioridade de administrar, de preservar a vida do homem criada por Deus. Esta verdade – o homem é o guarda e o administrador da vida – constitui um ponto qualificante da lei natural, plenamente iluminado pela revelação bíblica. Ele apresenta-se hoje como ‘sinal de contradição’ em relação à mentalidade dominante.”[2]

De fato, quando excluímos o Senhor da Vida, o homem quer se tornar ele mesmo senhor da vida, querendo dispor dela – para usá-la ou descartá-la – segundo critérios ideológicos, pragmáticos, econômicos.

De fato, verificamos que, apesar de haver em sentido geral uma ampla convergência sobre o valor da vida, contudo quando se chega a este ponto, duas mentalidades opõem-se de maneira inconciliável. Para nos expressarmos em termos simplificantes, poderíamos dizer: uma das duas mentalidades considera que a vida humana esteja nas mãos do homem, a outra reconhece que ela está nas mãos de Deus. A cultura moderna enfatizou legitimamente a autonomia do homem e das realidades terrenas, desenvolvendo assim uma perspectiva querida ao Cristianismo, a da Encarnação de Deus. Mas como afirmou claramente o Concílio Vaticano II, se esta autonomia leva a pensar que ‘as coisas criadas não dependem de Deus, e que o homem as pode usar sem as relacionar com o Criador’, então dá-se origem a um desequilíbrio profundo, porque ‘a criatura sem o seu Criador perde o sentido’ (Gaudium et spes, 36). É significativo que o documento conciliar, no trecho citado, afirme que esta capacidade de reconhecer a voz e a manifestação de Deus na beleza da criação seja característica de todos os crentes, seja qual for a religião a que pertencem.

Disto podemos concluir que o respeito pleno da vida está ligado ao sentido religioso, à atitude interior com a qual o homem se coloca em relação à realidade, se se considera dono ou preservador. De resto, a palavra ‘respeito’, deriva do verbo latino respicere-guardar, e indica o modo de ver as coisas e as pessoas que conduz a reconhecer nelas a consistência, a não se apropriar delas, e a respeitá-las, ocupando-se delas. Em última análise, se as criaturas forem privadas da sua referência a Deus, como fundamento transcendente, elas correm o risco de estar à mercê do livre arbítrio do homem que pode dispor delas como vemos, fazendo delas um uso desatinado.[3]

O Papa alemão nos ensina a olhar o mundo com os olhos de Deus. A olhar a vida com a veneração, com o amor e o cuidado daqueles que se sabem agraciados com um valor e uma grandeza que nos escapam, pois vem de um Outro.

Ainda dentro de nossa temática, quero remeter à viagem que Bento XVI fez ao Brasil em 2007. Na época, durante o voo para o nosso país, ele foi questionado sobre a proposta de referendo para a legalização do aborto aqui e à despenalização do mesmo na Cidade do México. Para lá das questões acerca da excomunhão dos parlamentares envolvidos na legalização, ele recordava o empenho do seu santo predecessor, João Paulo II, neste campo, enunciando alguns princípios importantes para o debate:

Naturalmente, prosseguimos com esta mensagem de que a vida é um dom de Deus e não uma ameaça. Parece-me que, na base destas legislações haja, por um lado, um certo egoísmo, e por outro uma dúvida sobre o futuro. E a Igreja responde sobretudo a estas dúvidas: a vida é bela, não é algo duvidoso, mas é um dom e também em condições difíceis a vida permanece sempre um dom. Portanto, (é preciso) voltar a criar esta consciência da beleza do dom da vida.[4]

Nós tendemos a olhar o feio, o sujo, o grotesco, o doloroso. A Igreja mostra, como Bento XVI frisa muito bem, que mesmo na vida sofredora e limitada há beleza. O menino que sofre – ou não – num leito de hospital é imagem de Cristo, que se fez menino e sofreu perseguição desde o primeiro momento. A vida de Charlie Gard já foi salva e redimida pelo sangue daquele Menino que nasceu perseguido pelo poder do Estado e, tendo logrado crescer, morreu pelas mãos da mesma força totalitária.

Mas Jesus venceu no fim. Rogamos aos Céus que a mesma sorte recaia sobre o menino de nosso tempo que virou símbolo da luta pela vida. Pois a batalha da Igreja é que a vida seja preservada contra todo cálculo de poder, seja ele político ou econômico. Pois este admirável dom que Deus nos deu simplesmente não tem preço.

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Notas:
1. Bento XVI, Homilia na Santa Missa, Imposição do Pálio e entrega do Anel do Pescador para o Início do Ministério Petrino do Bispo de Roma, 24 de abril de 2005.

2. Id., Homilia durante a visita à Paróquia de Sant’Ana, Vaticano, 5 de fevereiro de 2006.

3. Ibid.

4. Id., Entrevista concedida aos jornalistas durante o voo para o Brasil, Viagem Apostólica ao Brasil por ocasião da V Conferência Geral do Episcopado da América Latina e do Caribe, 9 de maio de 2007.
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Saborear já na Terra as coisas do Céu


Por Ir. Mariana de Oliveira, EP

O QUE SERIA DA ALMA católica se fizesse parte de uma Igreja carente de Liturgia? É através da pompa dos ritos sagrados que a Voz da Graça se faz ouvir, suave e materna, como a dizer: “Meu filho, vem degustar um pouco do que é o Céu”…

Durante os dois mil anos de sua militante, vitoriosa e imortal existência, a Santa Igreja sempre foi e será um vivíssimo reflexo do Esplendor de Deus. Fecundada pelo precioso Sangue do Redentor, Ela foi fundada com vistas a fazer com que Céus e terra, em uníssono, rendessem ao Criador um único cântico de louvor.

Ciente deste papel de mãe, educadora e rainha das nações, a Esposa de Cristo se esmerou em manifestar sua pulcra grandeza nas catedrais ('Se estes se calarem, as pedras clamarão', conf. Lc 19,40); sua atraente piedade nas imagens e pinturas sacras; sua majestade luminosa e multiforme nos vitrais. No entanto, tudo isso externa uma beleza estática. Tais elementos cativam, sem dúvida, o espírito do fiel que deles se aproxima, mas são apenas figuras e predicados que apontam uma Realidade muito mais alta.

Que realidade é esta?

Para explicá-la, imaginemos que fosse dado a alguém a dádiva de uma visita ao Paraíso Celeste. Lá chegando, poderia encontrar os palácios esplendorosos dos Santos, os jardins dotados de singularíssima variedade de flores e perfumes, superando tudo quanto a Terra já deu na sua plenitude. Ou, então, se depararia com mares calmos e límpidos, mais parecidos com safiras derretidas. Contudo, se esse extasiante conjunto de sublimidades estivesse deserto, isento de qualquer vida, movimento e som, acaso estaria completa a alegria daquele visitante?

Assim também seria a alma católica se fizesse parte de uma Igreja desprovida de Liturgia, pois é através da pompa própria aos ritos sagrados que a Voz da Graça se faz ouvir suave e materna como a dizer: “Meu filho, vem degustar um pouco do que é o Céu...”.

Seja na harmonia, ora suave, ora grave, ora gloriosa das músicas; seja na sacralidade compassada dos movimentos do celebrante e dos que servem ao Altar; seja na fumaça perfumada do incenso que se eleva, cheia de nobreza, como a oração do justo a Deus; seja, enfim, na beleza tantas vezes arrebatadora dos objetos sagrados, a Liturgia é feita para o homem se esquecer momentaneamente da pequenez da vida cotidiana e imergir na atmosfera celeste para a qual foi criado.

“Ao Senhor triunfante convém toda a glória”[1], rezamos no Ofício Divino. A dignidade e riqueza dos ritos e alfaias litúrgicos não reflete opulência ou ostentação, mas sim o desejo de glorificarmos nosso Pai e Criador. Este anseio deve estar presente, tanto numa cerimônia pontifícia quanto na mais modesta das Celebrações Eucarísticas, pois todas elas constituem, para o católico, alento para a alma, segurança para seus passos e vigor para sua vida.

A Liturgia poderia ser vista também, de modo análogo, como uma repetição daquelas inefáveis conversas que Deus mantinha com o homem no Paraíso “à hora da brisa da tarde” (Gn 3, 8), antes de sua horrível queda. É participando dela que o fiel pode provar e ver a suavidade do Senhor, conhecer de alguma forma o Deus sumamente belo, a quem serve, e conviver com o Pai indescritivelmente Bom que, já na Terra, nos dá a saborear as coisas do Céu.

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1. 4ª SEMANA DO SALTÉRIO. Hino do Ofício das Leituras. In: COMISSÃO EPISCOPAL DE TEXTOS LITÚRGICOS. Liturgia das Horas. Petrópolis: Vozes; Paulinas; Paulus; Ave-Maria, 2000, v.III, p.1033.
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Fonte:
Arautos do Evangelho, Set/2007, n. 69, p. 18 à 21
Imagem: celebração da Missa na catedral de Notre-Dame, Paris

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O tremendo e transformador poder do perdão


PERDOAR É UMA atitude e uma decisão que pode ser das mais difíceis, para milhões de pessoas. Quando alguém pede perdão a outro, está dizendo que reconhece o seu erro e a sua culpa, e que, por isso, põe-se na presença de quem foi atingido, por sentimentos, palavras e/ou atos que feriram a sua dignidade, propriedade ou sensibilidade. Pedir perdão é, também, uma forma de humilhar-se. Perdoar, por sua vez, é responder que reconhece a sinceridade no arrependimento daquele que vai ao seu encontro com a disposição de mudar de atitude.

Algo muito estranho aconteceu e vem acontecendo em nossos dias. As pessoas perderam a vergonha e o receio de pedir desculpas. Antigamente, nossos avós sentiam-se constrangidos em colocar-se diante do outro e expor-se, humilhar-se, reconhecer os próprios erros. E, à primeira vista, essa mudança de atitude pode parecer boa. Seria motivo de alegria que as pessoas tivessem se tornado menos orgulhosas e mais abertas ao próximo, mais predispostas a pedir perdão e reconhecer as próprias faltas, falhas e desvios. 

Todavia não é bem assim. O problema é que agora as pessoas pronunciam as palavras "desculpa" e "perdão" com muita facilidade, mas, muitas vezes, sem pensar no que aquelas palavras implicam, no que significa realmente aquele gesto e aquela atitude. É muito fácil para qualquer pessoa extrovertida dizer: "Desculpe", ou, como se diz hoje: "Foi mal...". Mas a questão é que essas palavras vêm sendo ditas sem reflexão, sem um real sentido de arrependimento, sem a firme e sincera disposição interior para se mudar de atitude – e não voltar a repetir o erro – a partir dali, a partir daquela decisão, assumida naquele momento. O que vem ocorrendo –, desgraçadamente –, é a banalização do gesto sagrado de se pedir perdão.

Quando alguém pede desculpas, com sinceridade, é porque se arrependeu do que fez, porque decidiu que não fará de novo a mesma coisa e reconhece a necessidade de mudança. Um pedido de desculpas sincero é um exercício de humildade; é uma bela e valiosa demonstração de grandeza de alma. É um gesto importante, sério, definitivo. Exatamente por isso é que a verdadeira adesão a Cristo e à sua Igreja chama-se "conversão". Converter é mudar radicalmente o rumo, é inverter a direção, é realizar uma mudança de 180 graus no percurso que se estava empreendendo.

O momento em que alguém pede desculpas ao seu próximo é verdadeiramente um momento solene, ainda que não haja pompa ou aparente solenidade. É uma solenidade para as almas, tanto para a que se dobra quanto para a que recebe o pedido. Dizer "desculpe por isso" ou "me perdoe por ter feito aquilo" envolve um desejo de mudança e uma disposição honesta para a mudança.

Entretanto, temos visto pedidos fúteis de perdão, seguidos da repetição da mesma falta que motivou o pedido, ás vezes pouco tempo depois. Isso demonstra que o pedido de perdão não foi sincero, não foi verdadeiro e, portanto, não foi válido. 

O mesmíssimo se dá na Confissão sacramental. Podemos voltar a cair na mesma tentação, sim, mesmo após termos confessado o pecado, mas quando temos a firme decisão de mudar, quando o arrependimento por ter ofendido a Deus é honesto e sincero, então a tendência é que aquele pecado vá se tornando cada vez menos recorrente. Se eu tenho uma tendência para o orgulho, por exemplo, e procuro o confessionário para me livrar daquela culpa específica, se a minha confissão foi mesmo válida, o resultado é que a partir dali eu vou evitar cair novamente no pecado do orgulho ou da soberba (que é um dos pecados capitais). Posso voltar a tropeçar, porque certos pecados são verdadeiros vícios, que por vezes nos dominam e cegam. Mas, se eu for honesto e estiver numa busca autêntica por cumprir a Vontade de Deus em minha vida, então eu vou cair menos naquele pecado. Certamente não voltarei a cometer o mesmo pecado no mesmo dia em que o confessei, a não ser que a minha confissão não tenha sido sincera, porque eu não estava verdadeiramente arrependido; e se não estava, então a confissão sequer foi válida. Eu nem mesmo fui perdoado por Deus, e permaneço em pecado, no caso, mortal.

Temos aqui uma questão importantíssima, fundamental: o reflexo da Confissão bem feita é a mudança de atitude e de postura, isto é, a verdadeira conversão que se nota na vida do fiel. Muitos nos perguntam se a sua Confissão foi bem feita, sobre como confessar validamente e coisas desse tipo (o que já respondemos aqui), mas não se atentam a esta simples realidade: se a sua confissão foi bem feita e válida, isto pode ser comprovado por meio do resultado prático em sua vida. Se você continua a cair nos mesmos pecados já confessados, sem progressão alguma, sem nenhum aperfeiçoamento na vida cristã, sem nenhuma diferença prática e perceptível nos seus modos, então há sério motivo para se preocupar. 

Retornando à dimensão humana, o poder do perdão é algo realmente grande, tremendo, transformador. A própria ciência humana e o estudo da mente debruçou-se sobre este tema, por exemplo na elaboração da psicanálise1, e o comprovou de muitas maneiras. O enfoque pode recair sobre as relações interpessoais e institucionais, ou numa visão meramente psicológica e mesmo biológica, ou filosófica, sociológica e política, mas o poder curativo e benéfico do perdão – para quem pede e para quem concede – é sempre constatado acima de qualquer dúvida. A sacralidade do perdão, biblicamente revelada, representa uma contribuição muito especial para a compreensão da necessidade de superação das linhas cruzadas e da eliminação das rupturas que se estabeleceram nas relações humanas, por numerosos motivos. 

Observe o leitor quanto é curioso o mundo em que vivemos: consta de uma matéria da jornalista Júlia Carvalho (revista Veja), publicada recentemente, que, segundo o professor e filósofo norte-americano Charles Griswold (Universidade de Boston), exige-se “três passos básicos para se obter o perdão. Primeiro, deve-se assumir a responsabilidade pelo erro. Segundo, é preciso repudiar claramente esse erro, mostrando que não se pretende repeti-lo. Terceiro, deve-se exprimir o arrependimento pela dor causada ao próximo”... Chega a ser engraçado para um católico. Aquilo que é considerado, hoje, uma descoberta da pesquisa científica, a Doutrina da Igreja Católica já o proclama há milênios, ao apresentar as exigências para que o fiel, ao recorrer ao Sacramento da Penitência, obtenha o perdão dos seus pecados contra Deus e contra o próximo. Com efeito, para que esse Sacramento produza seus efeitos, exigem-se as mesmíssimas atitudes elencadas pelo professor. 

A Confissão válida, que tem como resultado a reconciliação, é a que leva o penitente à mudança de vida. Exige: a contrição (reconhecimento dos pecados); a confissão propriamente dita (a revelação e exposição, perante o confessor, desses mesmo pecados); a satisfação (reparação dos pecados cometidos, não voltando o confessor a repeti-los deliberadamente). Como penitência, o confessor impõe uma pena ao penitente, correspondente, “na medida do possível, à gravidade e à natureza dos pecados cometidos" (CIC§1460). Que é a penitência? Uma espécie de resultado e prova do sincero arrependimento, que serve também para se purificar/depurar a alma.

Os grandes e poderosos benefícios do perdão, sob vários aspectos, o confirmam as vozes de quem faz a experiência. Um desses aspectos é a paz da consciência. O relacionamento entre pessoas, grupos e nações fica ameaçado quando determinados sentimentos, palavras e atitudes ferem o seu direito. Quando tal acontece, criam-se estremecimentos nos relacionamentos que, em muitos casos, rompem os vínculos saudáveis e desejáveis, por vezes mesmo aqueles de consanguinidade e/ou os mais sólidos laços de amizade. O perdão é sempre muito benéfico para as pessoas que conseguem refazer a sua história, não apenas porque eliminam e pulverizam a razão do distanciamento que se criou na convivência e no relacionamento social, mas, antes, porque dá um passo de qualidade, ao exclui-las de seu coração e de sua mente. A psicologia e a espiritualidade identificam os benefícios do perdão na vida das pessoas, já que a melhor linguagem dessa experiência é o testemunho unânime dos que conseguiram perdoar-se, mutuamente.

Para muitos, o perdão é benéfico por ser uma conquista humana; para os cristãos, além dessa dimensão, está muito clara a exigência que Jesus Cristo colocou na oração do Pai Nosso: “Perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”.

Fiel católico, não tenha medo de pedir perdão ao seu próximo. Mas que seja um pedido sincero, aberto, livre, despojado de receios, abundante em generosidade e amor-caridade.

E também não tenha medo de olhar para dentro de si, logo depois de pedir o Auxílio do Espírito Santo do Deus que é Amor, e infinito em misericórdia. Olhe para o mais fundo de si, para os mais escuros e escondidos recônditos de sua mente e de sua alma. Livre-se de todo o entulho, toda porcaria, toda imundície acumulada. Não tenha medo e não guarde nada que possa, depois, atravancar a sua vida. Jogue tudo fora! Não receie humilhar-se diante do sacerdote, contando seus piores e mais podres pecados, expondo seus mais feios sentimentos, desejos, rancores... Porque ali, naquele momento e lugar, o padre é Cristo à sua frente, pronto a ouvi-lo. E Ele já sabe e conhece – melhor do que você mesmo – tudo o que você tem para expurgar. Livre-se de todo peso e sujeira, e agradeça pela disposição do sacerdote em ajudá-lo a salvar sua alma. Cumpra sua penitência e saia da igreja de cabeça erguida, feliz de corpo e alma, reconhecendo-se como parte da infinita Vida de Deus. E assim, perdoado e limpo, não vacile em perdoar prontamente também o seu próximo, que pecou contra você e agora se arrepende. Assim você será um bom amigo de Deus!

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1. SHEEN. Fulton. A Paz da Alma, São Paulo: Molokai, 2017, p. 147ss.

Ref.:

Benefícios do perdão, por Dom Genival Saraiva de França para Universo Católico, disp. em:
http://www.universocatolico.com.br/index.php?/beneficios-do-perdao.html

Acesso 12/7/017
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Vaticano reforça a necessidade de se observar os devidos cuidados para evitar abusos contra a sagrada Eucaristia


A CONGREGAÇÃO PARA O CULTO Divino e Disciplina dos Sacramentos emitiu uma circular aos bispos para recordar sobre o cuidado que se precisa a "tudo aquilo que é necessário para a celebração da Ceia do Senhor", em especial, o pão e o vinho. Confira logo abaixo a íntegra do documento assinado na Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo, aos 15 de junho de 2017, e divulgado há dois dias, no último sábado (8/7/017).



Carta circular aos Bispos sobre o pão e o vinho para a Eucaristia

1. A Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos, por determinação do Santo Padre Francisco, dirige-se aos Bispos diocesanos (ou aqueles que pelo direito lhe são equiparados) recordar-lhes que lhes compete providenciar dignamente tudo aquilo que é necessário para a celebração da Ceia do Senhor (cf. Lc 22,8.13). Ao Bispo, primeiro dispensador dos mistérios de Deus, moderador, promotor e garante da vida litúrgica na Igreja que lhe está confiada (cf. CIC can. 835 §1) compete-lhe vigiar a qualidade do pão e do vinho destinado à Eucaristia e, por isso, também, aqueles que o fabricam. A fim de ser uma ajuda, lembramos as normas existentes e sugerem-se algumas indicações práticas.

2. Enquanto até agora, de um modo geral, algumas comunidades religiosas dedicavam-se a preparar com cuidado o pão e o vinho para a celebração da Eucaristia, hoje estes vendem-se, também, em supermercados, lojas ou mesmo pela internet. Para que não fiquem dúvidas acerca da validade desta matéria eucarística, este Dicastério sugere aos Ordinários que deem indicações a este respeito; por exemplo, garantindo a matéria eucarística mediante a concessão de certificados.

O Ordinário deve recordar aos sacerdotes, em particular aos párocos e aos reitores das igrejas, a sua responsabilidade em verificar quem é que fabrica o pão e o vinho para a celebração e a conformidade da matéria.

Compete ao Ordinário informar e advertir para o respeito absoluto das normas os produtores de vinho e do pão para a Eucaristia.

3. As normas acerca da matéria eucarística indicadas no can. 924 do CIC e nos números 319 a 323 da Institutio generalis Missalis Romani, foram já explicadas na Instrução Redemptionis Sacramentum desta Congregação (25 de Março de 2004):

a) “O pão que se utiliza no santo Sacrifício da Eucaristia deve ser ázimo, unicamente feito de trigo, confeccionado recentemente, para que não haja nenhum perigo de que se estrague por ultrapassar o prazo de validade. Por conseguinte, não pode constituir matéria válida, para a realização do Sacrifício e do Sacramento eucarístico, o pão elaborado com outras substâncias, embora sejam cereais, nem mesmo levando a mistura de uma substância diversa do trigo, em tal quantidade que, de acordo com a classificação comum, não se pode chamar pão de trigo. É um abuso grave introduzir, na fabricação do pão para a Eucaristia, outras substâncias como frutas, açúcar ou mel. Pressupõe-se que as hóstias são confeccionadas por pessoas que, não só se distinguem pela sua honestidade, mas que, além disso, sejam peritas na sua confecção e disponham dos instrumentos adequados” (n. 48).

b) “O vinho que se utiliza na celebração do santo Sacrifício eucarístico deve ser natural, do fruto da videira, puro e dentro da validade, sem mistura de substâncias estranhas… Tenha-se diligente cuidado para que o vinho destinado à Eucaristia se conserve em perfeito estado de validade e não se avinagre. Está totalmente proibido utilizar um vinho de quem se tem dúvida quanto ao seu caráter genuíno ou à sua procedência, pois a Igreja exige certeza sobre as condições necessárias para a validade dos sacramentos. Não se deve admitir sob nenhum pretexto outras bebidas de qualquer género, pois não constituem matéria válida” (n. 50).

4. A Congregação para a Doutrina da Fé, na sua Carta-circular aos Presidentes das Conferências Episcopais acerca do uso do pão com pouca quantidade de glúten e do mosto como matéria eucarística (24 de Julho de 2003, Prot. n. 89/78-17498), indicou as normas para as pessoas que, por diversos e graves motivos, não podem consumir pão normalmente confeccionado ou vinho normalmente fermentado:

a) “As hóstias completamente sem glúten são matéria inválida para a eucaristia. São matéria válida as hóstias parcialmente desprovidas de glúten, de modo que nelas esteja presente uma quantidade de glúten suficiente para obter a panificação, sem acréscimo de substâncias estranhas e sem recorrer a procedimentos tais que desnaturem o pão” (A. 1-2).

b) “Mosto, isto é, o sumo de uva, quer fresco quer conservado, de modo a interromper a fermentação mediante métodos que não lhe alterem a natureza (p. ex., o congelamento), é matéria válida para a eucaristia” (A. 3).

c) “Os Ordinários têm competência para conceder a licença de usar pão com baixo teor de glúten ou mosto como matéria da Eucaristia em favor de um fiel ou de um sacerdote. A licença pode ser outorgada habitualmente, até que dure a situação que motivou a concessão” C. 1).

5. Por outro lado, a mesma Congregação decidiu que a matéria eucarística confeccionada com organismos geneticamente modificados pode ser considerada válida (cf. Carta ao Perfeito da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos, 9 de Dezembro de 2013, Prot. n. 89/78 – 44897).

6. Aqueles que confeccionam o pão e produzem o vinho para a celebração, devem ter a consciência de que o seu trabalho destina-se ao Sacrifício Eucarístico, e por isso, é-lhes requerido honestidade, responsabilidade e competência.

7. Para que sejam observadas as normas gerais, os Ordinários podem utilmente meter-se de acordo ao nível da Conferência Episcopal, dando indicações concretas. Considerando a complexidade de situações e circunstâncias, como é o facto da negligência pelo sagrado, adverte-se para a necessidade prática de que, por incumbência da Autoridade competente, haja quem efectivamente garanta a autenticidade da matéria eucarística da parte dos produtores como da sua conveniente distribuição e venda.

Sugere-se, por exemplo, que a Conferência Episcopal encarregue uma ou duas Congregações religiosas, ou um outro Ente com capacidade para verificar a produção, conservação e venda do pão e do vinho para a Eucaristia num determinado país ou para outros países para os quais se exporta. Recomenda-se, ainda, que o pão e o vinho destinados à Eucaristia tenham um tratamento conveniente nos lugares de venda.

Da sede da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos, Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo, 15 de Junho de 2017.

Robert Card. Sarah
Prefeito

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Com o apostolado 'Sim, sou católico', por Davi Corrêa
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A regra de vida simples do Cardeal Newman


Do "The Catholic Gentleman"
– Tradução de Felipe Marques


O BEM-AVENTURADO JOHN Henry Newman foi um Cardeal da Igreja Católica e um dos mais famosos ingleses conversos à fé. Era um distinto homem de letras, um apologista erudito e um talentoso prelado, todavia era mais conhecido de todos devido à sua santidade de vida, e um resultado disso foi a sua relativamente recente beatificação (19 de setembro de 2010). 

Newman era um intelectual bem familiarizado com os Padres e Doutores da Igreja, mas, além disso, também sabia que a santidade não era uma questão de grande aprendizado e estudos acadêmicos. A santidade está ao alcance de todos – até mesmo de um camponês iletrado. 

O caminho simples – Como pode alguém ser santo? Em sua obra "Meditações e Devoções" (relançada pela editora Molokai, 2016) o santo Cardeal delineia um caminho simples para a santidade. Aqui está: 

É o dito dos homens santos que, se desejamos ser perfeitos, nós não temos nada mais que fazer além de cumprir bem os deveres ordinários do dia. Uma pequena via para a perfeição – pequena não porque seja fácil, mas porque pertinente e inteligível. Não há atalhos para a perfeição, mas há caminhos certos que nos levam a ela. Eu penso que essa é uma instrução que pode ser de grande uso prático para pessoas como nós. É fácil ter ideias vagas sobre o que é a perfeição, que nos servem para falar a respeito, quando não temos a intenção de realmente atingir a perfeição; mas, assim que uma pessoa realmente deseja e se concentra em buscar a santidade ela mesma, ela fica insatisfeita com qualquer coisa, exceto com aquilo que é tangível e claro, e constituí alguns meios para a prática disso.  
Nós devemos ter em mente o que se quer dizer por perfeição. Não significa nenhum serviço extraordinário, qualquer coisa fora do caminho, ou especialmente heroico –, nem todos tem a oportunidade de fazer atos heroicos, de sofrimentos –, mas é sobre o que ordinariamente quer dizer a palavra perfeição. Por perfeito nós nos referimos àquilo que não tem falha, que é completo, que é consistente, que é sólido. Referimo-nos àquilo que é o oposto de imperfeito. Como nós bem sabemos o que significa imperfeição em serviço religioso, nós sabemos por contraste o significado de perfeição. Então, é perfeito aquele que faz o trabalho do dia perfeitamente, e nós não precisamos ir além disso para buscar a perfeição. Você não precisa ir além da rodada do dia. Eu insisto nisso porque eu penso que isso vai simplificar as nossas visões e alinhar nossos esforços em um objetivo definido. 

Se você me perguntar o que você deve fazer para ser perfeito, eu digo primeiro – Não fique deitado na cama depois da hora de se levantar; dê seus primeiros pensamentos para Deus; faça uma boa visita ao Santíssimo Sacramento; reze o Angelus devotamente; coma e beba para a glória de Deus; reze bem o Rosário; permaneça recolhido; mantenha os maus pensamentos afastados; faça bem sua meditação noturna; examine a si mesmo diariamente; vá para a cama em uma boa hora, e você já será perfeito.

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Fonte:

'Cardinal Newman's simple rule of life', do blog 'The Catholic Gentleman'.
Disp. em:
www.catholicgentleman.net/2017/03/cardinal-newmans-simple-rule-of-life/
Acesso 5/7/017
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Santidade diária

Do "The Catholic Gentleman" – Tradução de Felipe Marques



OS 45 MINUTOS de espera. O dedo do pé machucado. O congestionamento. O relatório solicitado por volta das três da tarde. O parente fofoqueiro. O pagamento da hipoteca. A troca da fralda. O reparo inesperado no carro. A carteira perdida. A pessoa rude na mercearia. O resfriado. 

Essas são coisas da vida ordinária. Em cada um desses momentos, nós nos deparamos com uma escolha: a Vontade de Deus ou minha vontade, santificar-se ou pecar. Nós geralmente pensamos que a santidade é o produto das circunstâncias certas. Se nós apenas tivéssemos mais tempo, nós rezaríamos. Se apenas não existissem pessoas irritantes, nós amaríamos o próximo. Somente se nada de mal jamais acontecesse, nós talvez fôssemos mais gratos e pacientes. 

Mas a santidade não é uma questão de circunstâncias perfeitas. Elas não existem! Santidade é o que fazemos com as circunstâncias imperfeitas. A vida diária nos dá um milhar de oportunidades de provar que amamos a Deus. Tristemente, nós desperdiçamos a maioria delas, vivendo a vida no "piloto-automático", reagindo por instinto e paixão, e nunca realmente escolhendo fazer das nossas vidas algo mais. 

Uma cruz para carregar é quando a Vontade de Deus e a nossa vontade se cruzam e estão em desacordo. Santidade é quando a Vontade de Deus e a nossa vontade correm paralelamente. Cada dia, a cada momento, nós encaramos a escolha: abraçar a Vontade de Deus revelada nas circunstâncias diárias, ou resistir e combater o trabalho santificador que Deus opera em nossas almas. A escolha que fazemos determina o nosso destino. 

Qual é o campo de provas para a santidade? Qual é a forja ardente que faz santos? Não é uma utopia indolor, em que tudo acontece do nosso jeito. Não é nada mais do que o conjunto das irritantes, dolorosas e frustrantes circunstâncias diárias, a vida monótona. O que você fará com elas? 

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Fonte:
'Everyday Sanctity', 'The Catholic Gentleman'. Disp. em: www.catholicgentleman.net/2015/08/everyday-sanctity
Acesso 5/7/017

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Naufrágios na história da Igreja: de São Paulo ao Catolicismo que vivemos hoje

A barca de Pedro, do Missal antigo (edição não identificada):  clique sobre a imagem para vê-la ampliada

O LECIONÁRIO PARA A MISSA pós-Vaticano II se caracteriza por uma série de interessantes detalhes. Um deles é a leitura contínua dos Atos dos Apóstolos durante as Missas feriais do Tempo Pascal. Enquanto celebra a Ressurreição ao longo de cinquenta dias, a Igreja também reflete sobre a primeira evangelização: a comunidade cristã primitiva, com o poder do Espírito Santo, espalha pelo mundo mediterrâneo a Boa Nova (do grego ευαγγέλιο: evangelion), na histórica notícia de que Jesus de Nazaré, tendo ressuscitado dentre os mortos, constituiu-se Senhor e Salvador para o perdão dos pecados.

Essa leitura em série dos Atos dos Apóstolos termina com S. Paulo estabelecido em Roma, provavelmente no atual bairro do Trastevere, falando com a comunidade judaica romana sobre suas antigas esperanças na Aliança com Deus, que chegara à plenitude em Cristo ressuscitado.

Há, no entanto, uma omissão dessa história cristã primitiva que é lamentável: o lecionário omite o capítulo 27 dos Atos, que conta a dramática história do naufrágio de Paulo e da sua breve estada em Malta, onde o Apóstolo é milagrosamente salvo de uma víbora venenosa e de onde ele parte, em outro navio, para Roma.

Eis uma questão para refletirmos: inúmeros livros sobre a história da Igreja foram escritos ao longo de dois milênios, mas o único livro direta e oficialmente reconhecido como inspirado por Deus sobre a história da Igreja –, os Atos dos Apóstolos –, termina com o relato de um naufrágio. Um aparente desastre que se transforma, por obra da Divina Providência, em oportunidade para estender a missão da Igreja.

As cenas continuam no capítulo 28 dos Atos. Paulo não está desfrutando das melhores circunstâncias em Roma: ele vive sob uma espécie de prisão domiciliar. Mesmo assim, transforma os seus aposentos em um centro de evangelização, conclamando a comunidade judaica romana a repensar sobre Jesus e a reconsiderar as críticas que eles tinham ouvido sobre a nova “seita” cristã, além de explicar como Deus, por seu Espírito Santo, tinha estendido a salvação vivificante também aos gentios. A inconveniência e a indignidade da prisão domiciliar o levam a uma intensa atividade evangélica: “E ele viveu ali durante dois anos inteiros, às próprias custas, e congratulou-se com todos quantos vieram até ele, pregando o Reino de Deus e ensinando sobre o Senhor Jesus Cristo abertamente e sem obstáculos” (At 28,30).

Naufrágio e missão, ao que parece, se entrelaçam no que seria o "DNA" histórico da Igreja. Não se trata de sugerir que a Igreja deva deliberadamente procurar o naufrágio. Claro que não; mas é fato que grande parte dos danos infligidos ao catolicismo nas últimas décadas são ferimentos que os próprios católicos abriram contra si mesmos, e que as autoridades da Igreja têm a obrigação de sanar: os escândalos de abusos sexuais, as histórias de terror sobre a vida católica de meados do século XX na Irlanda, as formas de dissidência intelectual e adesão a ideologias esquerdistas que esvaziaram o catolicismo do patrimônio da Verdade legado pelo Cristo, o contratestemunho público dos católicos que não conseguem defender com firmeza a dignidade da pessoa humana em todas as fases da vida, a corrupção e o descaso para com a sagrada Liturgia, etc. O assalto cultural mais amplo cometido contra a Igreja, porém, é outra questão.

Alguns podem considerar um “naufrágio” a atual agonia do catolicismo no nível cultural mundial, este mesmo nível a partir do qual a Igreja transmitiu e sustentou a fé em tantos países do Ocidente por tantos séculos, até o tempo dos nossos avós. Mas o que é que deveríamos esperar, se a cultura pública ambiental se torna tóxica, contrária a tudo o que é católico e "cristofóbica" (para usar o agudo termo recentemente enfatizado pelo jurista judeu ortodoxo Joseph Weiler)? Talvez o fim do catolicismo cultural seja uma espécie de naufrágio; afinal, o catolicismo que foi oferecido à próxima geração, sem grande esforço, é o que poderíamos dizer um tipo de catolicismo transmitido apenas "por osmose", além de o ser totalmente deformado, solapado, despedaçado, destituído talvez mesmo da sua própria essência.

E por que não tirarmos uma lição dos últimos capítulos dos Atos dos Apóstolos e ver naquela dura realidade um convite providencial a nos tornarmos, mais uma vez, uma Igreja em missão permanente? Uma Igreja em que cada católico saiba que foi batizado para uma vocação missionária? Uma Igreja em que os católicos saibam que a qualidade do seu discipulado é medida pelo poder do seu testemunho de Cristo e da sua capacidade de convidar outras pessoas a experimentarem a amizade com o Senhor Ressuscitado?

Mais difícil é converter pessoas a uma igreja que se encontra quase irreconhecível em tantas partes. Quantas vezes tentamos evangelizar alguém, falar para uma pessoa da verdadeira Igreja, da maravilha que é a Missa, receber os Sacramentos, integrar o Corpo do Senhor, mas... Quando aquela pessoa afinal se interessa e diz que quer conhecer, que deseja saber mais... Para onde enviar aquela pessoa? Se na paróquia mais próxima o que se celebra é quase uma paródia do que deveria ser a Missa? Se sabemos que aquele padre não está minimamente interessado em converter ninguém? Se sabemos que, se essa pessoa tomar a decisão de se confessar, e depois de um correto exame de consciência se prostrar diante de um sacerdote, hoje, corre o sério risco de ouvir dele que metade daquilo que está sendo confessado simplesmente não é mais pecado?

O desafio é imenso. Sim. Mas naufrágio e missão parecem ser a dupla hélice que impulsiona a história da Igreja desde sempre. O desafio resume-se, então, em discernir as possibilidades para a missão que Deus sempre codifica naquilo que nos parece, à primeira vista, um naufrágio total.

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Adaptado para O FIEL CATÓLICO do texto 'O naufrágio de São Paulo e o naufrágio do nosso catolicismo', publicado em Aleteia, disp. em:
https://pt.aleteia.org/2017/06/29/o-naufragio-de-sao-paulo-e-o-naufragio-do-nosso-catolicismo/
Acesso 3/7/017
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O (verdadeiro) São Francisco de Assis: o mestre da humildade e suas lições


[A charge acima, do impagável blog norte-americano "Sword of Peter" (clique sobre a imagem para ampliá-la) mostra como São Francisco de Assis é geralmente retratado por aqueles que não o conhecem, e ao seu lado o verdadeiro São Francisco, que diz (na Exortação aos irmãos e irmãs da penitência, cap. II): "Todos aqueles que não fazem penitência, e não recebem o Corpo e o Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, vivem no vício e no pecado, no caminho da concupiscência e dos maus desejos da carne, não observam o que prometeram ao Senhor; servem ao mundo com seus corpos, cedendo aos desejos carnais, às solicitudes e aos cuidados deste mundo: são escravos do demônio, de quem são filhos e cujas obras praticam".]

Por Felipe Marques – Fraternidade São Próspero

INFELIZMENTE, OS DONS espirituais e as virtudes são negligenciadas por nós, que preferimos viver de acordo com aquilo que é mais prazeroso em detração daquilo que é mais difícil, porém, correto. Como ensina a seguinte máxima: "Deficit in pluribus, contingit in paucioribus" – quando um fim exige grandes esforços, somente poucos o atingem. Ora, para amarmos as virtudes precisamos vê-las como verdadeiros bens que são, por mais difícil que seja conquistá-las, e amando-as empreenderemos grandes esforços para unirmo-nos à elas. Pois bem, a mãe de todas as virtudes é a humildade, algo muito em falta hodiernamente. Se não formos humildes, ou seja, se não começarmos pela primeira virtude, não teremos as demais! Por isso, compartilho esse relato sobre São Francisco de Assis – mestre da humildade – em que mostra, com sua vida, aquilo que realmente somos: "Somos servos inúteis (dispensáveis); fizemos o que devíamos fazer" (Lc 17, 10). Que, com Chesterton, possamos viver preferindo "ser odiados por alguma razão, do que ser amados por todo tipo de qualidades que não possuímos".

Para experimentar a humildade de São Francisco, frei Masseo repete a ele: 'Perche a tte; perche a tte?' – 'Por que a ti, e não a outro?'. E São Francisco responde a frei Masseo: 'Porque os olhos do Deus Altíssimo não viram entre os pecadores outro mais vil, nem mais incapaz... que eu. E por isto, para fazer esta operação maravilhosa, Ele me escolheu para confundir a nobreza e a grandeza, a beleza, a força e a sabedoria do mundo, para que se saiba que toda virtude e todo o bem é dEle, e não da criatura, e pessoa alguma se poderá gloriar em sua Presença; mas quem se gloriar que se glorie no Senhor, a quem pertence toda honra e glória eternamente.1

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1. Capítulo X das Fioretti de São Franscisco de Assis (São Paulo: Vozes, 1973).
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Conhece-te a ti mesmo – sobre as exterioridades e o farisaísmo na Igreja


Por Igor Andrade – Fraternidade São Próspero

HÁ CERCA DE UM ano deixei um tema importantíssimo num canto escuro da minha mente. Por dois motivos: falta de tempo e imaturidade de ideias. Já é chegado o tempo. Embora o assunto esteja meio frio, sei que ele retornará – como tem retornado há cerca de dois mil anos.

Pois bem, “bendito seja o Senhor, meu Rochedo, que adestra minhas mãos para o combate e meus dedos para a guerra”!

Domingo passado estive conversando com meu pároco, o único sacerdote que já vi largar seus afazeres para confessar uma alma aflita. Conversa vai, conversa vem, ele comenta: “As moças de véu diminuíram em número aqui na paróquia”... “Aí complica para o meu lado, não é, padre?!”, respondi com sinceridade e um sorriso. “Por que me diz isso?”, indagou-me o sacerdote. “Ah, padre, preciso de uma moça boa, piedosa, para casar”, respondi com a mesma sinceridade e o mesmo sorriso. “E desde quando o véu é sinal verdadeiro de bondade e piedade?”. Concordei, com tristeza. Fui obrigado a concordar. É verdade.

Apesar da pouca idade, já vi bastante coisa pela Igreja: de leigos e sacerdotes santos, a clérigos e professores corruptos; de liturgias bem celebradas a sacrilégios dos mais variados tipos. Mas recentemente (de dois anos e meio pra cá, talvez mais), tenho visto o princípio, o ponto crítico onde o “vinho melhor” se converte em água suja: a exterioridade.

A exterioridade, devo lembrar, em si mesma não é um mal nem um bem. Santo Tomás de Aquino diz que quando as palavras significam aquilo que o locutor “pensa”, isto é, quando há um acordo entre o pensamento e as palavras, elas são verdadeiras; quando não há essa concordância, elas são falsas. Isso ocorre porque a palavra falada deve significar uma realidade interior. Pela palavra o homem comunica (isto é, torna comum) aquelas coisas que estão nele.

O mesmo ocorre com o cristão. Usar véu, vestir-se com pudor, decorar versículos bíblicos e encíclicas, rezar o Santo Terço em público, falar manso, rezar em latim etc. etc., não podem ser coisas que se faz por "moda", mas devem ser atos que emergem e significam verdadeiramente uma realidade interior. Quem exerce a exterioridade pela pura exterioridade se assemelha ao estudante que sabe que a soma dos quadrados dos catetos adjacentes é igual ao quadrado da hipotenusa, mas não sabe identificar os catetos adjacentes; não se diz que este estudante é um matemático, mas apenas alguém que decorou uma fórmula. Do mesmo modo, uma moça que usa saia longa e véu (como um rapaz que veste terno) não é cristã; é apenas uma pessoa que se veste bem.

São Luís Maria de Montfort fala disso no seu Tratado. Os devotos exteriores “só tomam interesse à exterioridade da devoção à Santíssima Virgem, por não terem espírito interior; [...] farão parte de todas as confrarias, sem violentar suas paixões, sem imitar as virtudes desta Virgem Santíssima. Amam apenas o que há de sensível [...]”. Ele fala isso referindo-se à devoção à Santa Mãe de Deus, mas tal princípio pode ser estendido a toda vida cristã.

Entendam-me bem, não estou empreendendo uma cruzada contra os sinais exteriores. Os sinais exteriores são importantes, inclusive para adquirir bons hábitos interiores; mas são um meio, e não um fim. A mera exterioridade não passa de um farisaísmo pós-renascentista. Essas pessoas exteriores tomam seu modo de vida exterior como medida de bom ou mau cristianismo, são aqueles que mais falam do “verdadeiro cristianismo”, todavia são pagãos travestidos de cristãos, porque os pagãos se guiam somente pela sensibilidade.

O problema gerado por essa mera exterioridade é gravíssimo: a confusão. “Como assim, aquela moça que tanto critica quem não se veste com pudor traiu o namorado, tantas vezes e de tantos modos?”; “Como assim, aquele rapaz que tanto ofende o Santo Padre, dizendo que ele não faz nada contra a islamização do Ocidente, não tem coragem de rezar um Terço perto de uma mesquita, ou de falar de Jesus para um muçulmano?”; “Como pode a pessoa criticar tanto os padres e os bispos, mas não fazer nenhum tipo de trabalho na paróquia pra mudar a situação? Como pode?”. As respostas são simples: Essas pessoas não creem naquilo que pregam. “Pelos frutos os conhecereis”, diz Nosso Senhor. Quem se assemelha à figueira estéril deve ser cortado, porque já foi amaldiçoado (Cf. Mc. 11, 14).

Não quero com isso dizer que cristão não peca; longe de mim tamanha estupidez. Pecados contra a castidade, covardia, pusilanimidade, são pecados dos quais ninguém está isento de cometer; isso é dito por santos como São Josemaria Escrivá, Santa Teresinha, etc. O próprio Santo Tomás de Aquino ensina que a pretensão à salvação é um pecado contra o Espírito Santo. Mas o ponto não é a isenção ao pecado, e sim ao rigorismo ideológico pregado, aos fardos pesadíssimos que impõem aos irmãos, mas que não são capazes de carregar.

Tomar-se como medida de bom cristianismo muitas vezes é a fonte das mais pesadas críticas à Sua Santidade, o Papa. E isso tem sido tão forte nos últimos tempos que há aqueles que acreditam que a Sede está vacante, que o Papa Francisco rompeu com Bento XVI e que é comunista, que João Paulo II e João XXIII não são santos (que a canonização não depende da Santa Sé, mas sim desses 'iluminados' radtrad’s1), que Paulo VI era modernista (isso falam desconsiderando completamente a encíclica Humanae Vitae), entre outros absurdos. Se ao menos lessem o que foi dito por esses homens, saberiam a realidade dos fatos.

Citando como exemplo, as homilias de Bento XVI têm certas partes que se confundem facilmente com as falas do Papa Francisco. Perto de homens como Leão XIII e Pio XI, Francisco poderia ser chamado “porco capitalista”. O problema dos exteriores é a falta de concordância entre aquilo que se fala e aquilo que se faz na realidade. Falta vínculo com a realidade, basta ler as homilias e as encíclicas!

Se querem tradição, transcrevo aqui um trecho de uma homilia do padre William Faber (que prefaciou o Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem): “Devemos honrar o Vigário de Jesus Cristo com uma fé cheia de amor e um respeito cheio de confiança e de simplicidade. Não devemos permitir-nos nenhum pensamento irreverente, nenhuma suspeita covarde, nenhuma incerteza pusilânime sobre o que diz respeito à sua soberania, quer espiritual, quer temporal”2.

Termino recomendando que larguemos esse espírito de mera exterioridade; lembremos que “a verdadeira devoção é interior”, coloquemo-nos em nossas posições e lutemos juntos contra o verdadeiro inimigo: o mal que habita em nós e no Mundo. Juntemo-nos nessa caminhada “Verso L’alto”: Omnes Cum Petro, ad Iesum per Mariam!

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1. Gíria muito comum nas redes sociais para designar os Radicais Tradicionalistas.
2. Da Devoção ao Papa – O Vigário de Cristo na Terra.
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Ser encontrado por Cristo

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Por Felipe Marques – Fraternidade São Próspero

ANTES DE INICIAR esta reflexão, deixemos o papa Bento XVI auxiliar-nos com um trecho da introdução de sua carta encíclica “Deus caritas est”:

Ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo.

Pois bem, ser católico é – entre tantas coisas – ter-se encontrado com Cristo e, a partir desse encontro, lutar para mudar de vida, visto que a própria existência ganha um sentido. Ou melhor, muito mais do que um simples sentido, a vida ganha O Sentido único de todas as coisas. Diversas vezes somos levados a crer que encontramos a Deus devido aos nossos próprios esforços. Esse modo de pensar é perigoso, pois podemos cair no erro narrado no capítulo 11 do Livro do Gênesis (episódio da Torre de Babel) que narra como os cidadãos do mundo quiseram construir um caminho para o céu – onde imaginavam que Deus, literalmente, habitava, supondo que assim poderiam alcançá-Lo – com suas próprias mãos e forças, para que seus nomes ficassem gravados para sempre na História(!). 

É óbvio que a ação humana é necessária para encontrar a Deus, porém, nós não somos os primeiros na ordem do amor. São João narra isso de forma clara no versículo 10 do capítulo 4 de sua primeira Carta: 

Nisto consiste o amor: não em termos nós amado a Deus, mas em ter-nos Ele amado, e enviado o seu Filho para expiar os nossos pecados.

Isso se faz necessário conhecer para que não queiramos tomar o lugar de Deus, para que sejamos mais humildes e aceitemos a nossa posição de criaturas e, assim, possamos iniciar uma verdadeira vida espiritual, uma vida de intimidade com Deus. Resumindo: Deus o amou, leitor mesmo antes da sua conversão, mesmo antes de você ter alguma noção de que estava pecando, mesmo antes de você rezar o santo Terço... Deus já o amava, mesmo enquanto você rolava na lama do pecado! Pois bem, Nosso Senhor tem cuidado de nós desde o momento em que nascemos, e dispensa as graças necessárias para que possamos encontrá-Lo. Ora, afirmo isso com certeza, porque Ele mesmo veio ao nosso encontro – e não há maior graça que essa – conforme é narrado no Evangelho segundo São Lucas:

Quem de vós que, tendo cem ovelhas e perdendo uma delas, não deixa as noventa e nove no deserto e vai em busca da que se perdeu, até encontrá-la? E depois de encontrá-la, a põe nos ombros, cheio de júbilo, e, voltando para casa, reúne os amigos e vizinhos, dizendo-lhes: 'Rejubilai-vos comigo, achei a minha ovelha que se havia perdido. Digo-vos que assim haverá maior júbilo no Céu por um só pecador que fizer penitência do que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento. Ou qual é a mulher que, tendo dez dracmas e perdendo uma delas, não acende a lâmpada, varre a casa e a busca diligentemente, até encontrá-la? E tendo-a encontrado, reúne as amigas e vizinhas, dizendo: Regozijai-vos comigo, achei a dracma que tinha perdido. Digo-vos que haverá júbilo entre os anjos de Deus por um só pecador que se arrependa.
(15, 4-10)

Enfim, você é essa dracma perdida... Você é a ovelha perdida que Deus buscava encontrar! Deus já lhe procurava, mesmo que você não se desse conta de sua existência. O SENHOR não é um “deus passivo” que não se move e permanece em seu “descanso sabático” até que suas criaturas lhe alcancem... Não. Deus é Amor e o amor é ativo, o amante não repousa até se unir ao objeto amado; o amor verdadeiro é doação, e sua maior expressão é encontrada em Cristo Crucificado. Por isso, exorto-o a entender que Deus não o ama mais só porque agora você é menos pecador, ou reza mais e pratica alguns atos de piedade... Não seja presunçoso pensando que você merece ser ouvido porque agora alcançou um alto nível de intimidade e amizade com Deus. Muito pelo contrário. Quanto mais amigo de Deus você for, mais humilde você será. Como ensina Santa Teresa de Ávila, “a humildade é caminhar na verdade”.

Na verdade de que somos pó e que ao pó voltaremos (Gn 3, 19), tendo consciência de que sem Deus somos capazes de fazer as piores coisas jamais pensadas, é preciso responder à pergunta: na ordem do amor, em que lugar está o ser humano? O ser humano que se encontra com Cristo está no segundo lugar na ordem do amor, pois agora, ciente de que Deus o ama, a pessoa amada quer retribuir o amor que recebe do SENHOR. Ou seja, nosso amor, ainda que falho, é sempre uma resposta ao amor que recebemos de Deus. As orações, vigílias, a luta pelas virtudes, a recitação do santo Rosário, a luta contra os pecados... Enfim, tudo o que fazemos por Deus é sempre uma resposta, e não o princípio da relação de amor que há entre criatura e Criador.

Sendo assim, então, como e onde podemos expressar essa resposta, esse nosso amor para com Deus? Ninguém melhor do que o próprio Deus para nos ensinar:

Então o Rei dirá aos que estão à direita: 'Vinde, benditos de meu Pai, tomai posse do Reino que vos está preparado desde a criação do mundo, porque tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; era peregrino e me acolhestes; nu e me vestistes; enfermo e me visitastes; estava na prisão e viestes a Mim'. Perguntar-lhe-ão os justos: 'Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer, com sede e te demos de beber? Quando foi que te vimos peregrino e te acolhemos, nu e te vestimos? Quando foi que te vimos enfermo ou na prisão e te fomos visitar?'. Responderá o Rei: 'Em verdade Eu vos declaro: todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes'. Voltar-se-á em seguida para os da sua esquerda e lhes dirá: 'Retirai-vos de mim, malditos! Ide para o fogo eterno destinado ao demônio e aos seus anjos. Porque tive fome e não me destes de comer; tive sede e não me destes de beber; era peregrino e não me acolhestes; nu e não me vestistes; enfermo e na prisão e não me visitastes'. Também estes lhe perguntarão: 'Senhor, quando foi que te vimos com fome, com sede, peregrino, nu, enfermo, ou na prisão e não te socorremos?'. E ele responderá: 'Em verdade Eu vos declaro: todas as vezes que deixastes de fazer isso a um destes pequeninos, foi a mim que o deixastes de fazer'. E estes irão para o castigo eterno, e os justos, para a vida eterna.
(Mt 25, 34 - 46)

Com isso, concluímos este raciocínio breve inserindo mais uma personagem na história: o outro! Sim, nosso próximo é o terceiro na ordem do amor, pois, é nele que expressamos nossa doação a Deus de forma mais perfeita, como ensina São João em sua primeira carta:

Se alguém disser: Amo a Deus, mas odeia seu irmão, é mentiroso. Porque aquele que não ama seu irmão, a quem vê, é incapaz de amar a Deus, a quem não vê. Temos de Deus este mandamento: o que amar a Deus, ame também a seu irmão.
(4, 20 - 21)

Só conseguiremos amar o outro por causa de Deus, e assim cumprir o que São João ensina, se tivermos bem clara qual a nossa posição real diante de Deus. Se falta a humildade, falta a Fé, e se falta a Fé, não há vida espiritual, não há relacionamento com Deus. Por isso, contra o orgulho, sempre que você for assaltado por pensamentos de vanglória, pense neste conselho de São Josémaria Escrivá, e coloque-se em seu lugar de novo:

Tu não podes tratar ninguém com falta de misericórdia; e, se te parecer que uma pessoa não é digna dessa misericórdia, tens de pensar que tu também não mereces nada. - Não mereces ter sido criado, nem ser cristão, nem ser filho de Deus, nem pertencer à tua família...
(Forja, 145)

Que possamos repetir com o humilde centurião, todos os dias de nossas vidas, a seguinte máxima: “Domine, non sum dignus”. Porque, realmente, por nossos próprios méritos, não somos dignos de nada! E então, se cumprirá o que o Senhor prometeu: "Porque todo aquele que se exaltar será humilhado, e todo aquele que se humilhar será exaltado." (Lc 14, 11) Que assim seja!
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A mulher 'revestida de sol' (Apocalipse 12) é Maria, Israel ou a Igreja?


A INSTITUIÇÃO DA "RAINHA Mãe" surge, pela primeira vez, na descendência da Casa da Davi, nos reis que vieram após o seu reinado.

Na narrativa bíblica sobre a entronização do rei Salomão, percebe-se a reverência do rei pela mãe, Betsabé, quando esta vem visitá-lo, concedendo-lhe todas as honras e um trono para que ela se assentasse à sua direita (1Rs 2, 19).

A atitude de Salomão remete ao Salmo 44: “Posta-se à vossa direita a rainha, ornada de ouro de Ofir.” A rainha é Gebirah, a Rainha-mãe. Os hebreus mantiveram essa tradição até o exílio da Babilônia, quando já não havia mais rei. A partir dessa época, iniciou-se a esperar pela vinda do novo "Filho de Davi", o Messias, o Cristo Filho de Deus e Salvador do Mundo que restauraria todas as coisas.

Quando o Anjo Gabriel visita a Virgem Maria e lhe revela os planos de Deus, anuncia que Jesus herdará “o trono de seu pai Davi; e reinará eternamente na Casa de Jacó”. S. Gabriel Saúda Maria, dizendo “Ave, cheia de Graça!”: o Mensageiro de Deus está, assim, saudando a Rainha-mãe, Mãe do “Filho do Altíssimo”, cujo “Reino não terá fim.” Do mesmo modo, Isabel, repleta do Espírito Santo, quando Maria chega a sua casa, a saúda: “Donde me vem a honra de vir a mim a mãe de meu Senhor?” (Cf. Lc 1, 43)

No Apocalipse de S. João, encontram-se alguns traços desse reinado. É nesse livro que a Virgem Maria surge mais uma vez como Rainha do Céu, “uma Mulher revestida do sol, com a lua debaixo dos seus pés e na cabeça uma coroa de doze estrelas” (Cf. Ap 12, 1).

Todavia alguns teólogos modernos – católicos e protestantes – passaram a interpretar que a "mulher", citada no livro do Apocalipse seria na realidade um simbolismo utilizado pelo autor sagrado para designar a antiga cidade de Israel e suas doze tribos, enquanto que outros sugerem que a passagem seria uma alusão à Igreja triunfante, simbolicamente coroada no Céu.

Qual a interpretação correta? A "mulher do Apocalipse" é a Virgem Maria, a Igreja triunfante ou o antigo povo de Israel (o povo de Deus do AT)? No vídeo abaixo, o autor ex-protestante e apologista do "Catholic Answers", Jimmy Akin, esclarece a posição predominante na Igreja Católica hoje, demonstrando, com simplicidade, que a questão não é tão complexa quanto possa parecer.



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Ref:
RICARDO, Paulo, padre. Por que nós chamamos a Virgem Maria de Rainha e de Senhora?, disp. em:
https://padrepauloricardo.org/episodios/por-que-nos-chamamos-a-virgem-maria-de-rainha-e-de-senhora
Acesso 9/6/017
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Fonte:Canal 'O Tradutor Católico', disp. em:
https://www.youtube.com/watch?v=EWzIRlDoEec
www.ofielcatolico.com.br

Jesus: mentiroso, louco ou Deus – o Trilema

Cristo Rei do Universo, por Fernando Gallego (1440-1507)

DESDE SEMPRE OS cristãos confessaram que Jesus Cristo é o Filho de Deus e Deus. São João escreveu que a Palavra (Verbo), que "estava junto de Deus", "era Deus", "fez-se carne e habitou entre nós" (Jo 1, 1.14). São numerosos os discursos do próprio Cristo em que Ele deixa claro ser muito mais que um simples ser humano comum –, todo o Evangelho segundo São João, especialmente, está permeado de declarações desse teor –, sendo inclusive este o motivo alegado pelos judeus para condená-lo à morte: "Não queremos te apedrejar por causa de uma obra boa, mas por causa da blasfêmia. Tu, sendo homem, te fazes Deus a ti mesmo" (Jo 10, 33).

Se, naquela época, até quem não seguia Nosso Senhor tinha clara consciência da grandeza do que Ele anunciava, infelizmente hoje, muitos – atribuindo a si o apelido de "cristãos" – têm advogado, covardemente, uma "terceira opção": ao invés de rejeitar ou aceitar de vez a mensagem do Evangelho, recorrem a uma leitura distorcida das Escrituras, reduzindo a figura de Jesus à de um grande profeta, um mestre de sabedoria, um modelo de justiça, um "espírito de luz" (como é o caso dos espíritas), cujos ensinamentos valeriam como "guias motivacionais" para alcançarmos uma vida melhor. Para essas pessoas, a Bíblia não é o livro que traz a Revelação de Deus, mas tão somente uma espécie de "manual de autoajuda"; igualmente a Igreja não seria uma instituição principalmente espiritual, mas uma construção puramente material, voltada apenas aos cuidados dos pobres, na luta pela justiça e as necessidades deste mundo.

Importa reconhecer, sim, que é muito cômodo relegar Nosso Senhor à posição de mero homem, apenas mais um sábio, mais uma grande mente que veio a este mundo. Se for assim, o seu Evangelho verdadeiramente não obriga ninguém a nada; toda a sua contribuição à humanidade seriam apenas belas palavras, um bonito exemplo de vida e reflexões morais e sociais, como as de tantos outros grandes pensadores. Daria no mesmo, então, citar Confúcio, Buda, Jesus Cristo ou o Dalai Lama. Afinal, se todos são apenas homens sábios e "santos", com igual tratamento deveriam ser acolhidas as suas mensagens: com respeito e admiração. E nada mais.

Nós, cristãos, sabemos que há um gravíssimo equívoco nesse ponto de vista, que não pode ser aceito sem se cometer um grande atentado à razão mais elementar. Ora, se Jesus não é Deus feito homem, o "Cordeiro de Deus que tira o Pecado do mundo" ( Jo 1, 29), nem "o Pão que desceu do Céu" para a nossa salvação, que nos dá a vida eterna (Jo 6, 41), então é um desonesto, um mentiroso que pretendia enganar os outros, ou então um louco, como há tantos nos hospícios que juram que são Deus e não sabem sequer quem são realmente. Ora, que grandeza pode haver na mentira e na loucura? Ou Jesus é Deus, ou não é nada. Esse meio termo não se aplica ao Cristianismo, e esta é uma das razões por que o mesmo Cristianismo é completamente diferente de todas as outras religiões.

No vídeo abaixo, o sacerdote norte-americano Mike Schmitz esclarece o assunto de maneira didática, graciosa e bastante objetiva, respondendo sem rodeios quem Jesus realmente é.



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Ref.
https://padrepauloricardo.org/blog/
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Fonte:
Canal 'O Tradutor Católico', disp. em:
https://www.youtube.com/watch?v=EWzIRlDoEec
www.ofielcatolico.com.br

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