Alma de jovem – os dois lagos e a escolha de Hércules


Extraído da obra de Tihamer Toth*

Os dois lagos

QUANDO EU ERA um jovem estudante, ia muitas vezes passear à beira de um lago situado na montanha. Os raios do sol alegremente lhe dançavam no espelho cristalino. Suas ondulações puras deixavam perceber a vida buliçosa dos seres que lhe povoavam o fundo de cascalho. Nadavam belos peixinhos aqui e acolá, mal podendo conter a sua satisfação ao contato dos cálidos raios solares.

Na margem, sonhavam as flores miosótis, e a vegetação aquática agradavelmente montava guarda sobre a sua superfície, com folhas como lâminas de sabre. Ao redor inclinavam-se com dignidade os salgueiros, que, com ar meditativo, fruíam, do céu sorridente, o azul que se refletia na água. Uma aura de ar fresco circulava através dos ramos, e os caniços inclinavam-se à sua passagem.

O lago da montanha era como a alma de um jovem, transbordante de vida, de sorriso, de ventura; como um olho de criança arregalado, brilhante qual estrela...

Recentemente, após longos anos, encaminhei-me outra vez para lá.

Foi com espanto que vi em que se transformara o meu querido lago: um atoleiro lodoso de cor amarelo-esverdeada. A água estava-lhe turva e suja. O que ali se encerrava não se via, por causa das ervas daninhas, mas o ar pestilento que dele se exalava traía a podridão que ali havia. À passagem de alguém, répteis hediondos pulavam assustados, nas ervas ou na água lamacenta.

Onde está a bela vegetação aquática que altivamente montava guarda?

Para onde se foram os salgueiros da margem, que balouçavam suas coroas de folhagem?

Para onde se foi o reflexo do céu azul que sorria, refletido na superfície da água?

Tudo desapareceu. É inútil que caniços tentem brotar na sua margem; inclinam-se frouxamente ao menor vento. Por toda a parte, é só podridão e isolamento.

E senti meu coração apertar-se. Então, era aquele o formoso lago cristalino da minha juventude?

* * *
Os olhos dos jovens são tão belos quanto o miosótis, suas almas são como o lago cristalino da montanha que conheci na minha juventude.

Ai! Quantas, mais tarde, tornam-se pântanos lodosos!

Foi para que a tua alma sempre permanecesse pura como um cristal, meu filho, que escrevi estas linhas. Porque conservar pura a própria alma, e assim chegar à idade de homem, é a mais sublime tarefa da vida.



Conheces a história de Hércules, o célebre herói dos mundos lendários dos gregos? Era ele o ideal personificado da força viril e da coragem. Seu inimigo quis fazê-lo perecer desde o berço: ali, pôs ao seu lado duas serpentes; mas o menino, já robusto, esganou-as. Sua vida mitológica é cheia das mais belas façanhas. Matou a Hidra de Lerna, domou o touro de Creta, venceu as Amazonas, limpou as estrebarias de Augias, roubou o pomo de ouro das Hespérides... E, não obstante, esse herói fabuloso não escapou à prova que – é a verdade – nenhum homem pode evitar: também ele chegou um dia à encruzilhada dos caminhos, onde irrevogavelmente se faz necessária a tomada de uma decisão capital: Para onde irei? Que caminho seguirei?


No cruzamento dos caminhos

O seguinte episódio passou-se na juventude do herói lendário Hércules, quando, ainda menino, principiava ele a se tornar adolescente. Um dia, estando sozinho, mergulhado em seus pensamentos, duas mulheres apresentaram-se-lhe de repente. Uma falou-lhe assim:

– Vejo, Hércules, que perguntas a ti mesmo que estrada deves seguir na vida. Se me escolheres por companheira, irei conduzir-te por uma via agradável em que, durante toda a tua existência, só acharás prazer. Não terás outro cuidado senão saberes o que hás de comer e beber e como haverás de satisfazer os teus sentidos. Se me pertenceres, terás todas as alegrias, sem trabalho e sem dor...

Então Hércules a interrompeu:

– Mulher, qual é o teu nome?

– Meus amigos chamam-me Felicidade – respondeu ela –, e os meus inimigos dão-me o nome de Vício.

Entrementes, a outra mulher se aproximara.

– Eu não te quero enganar – disse ela. – Afirmo-te que os deuses não concedem grandeza nem bem algum sem trabalho e sem dor. Se me seguires, certamente terás que trabalhar muito. Se quiseres que toda a Grécia te louve por causa das tuas façanhas, esforça-te por fazeres bem a toda a Grécia. Se quiseres que teu campo dê frutos abundantes, amanha o teu campo. Se te quiseres tornar um guerreiro célebre, aprende a arte da guerra com os homens capazes. Se te quiseres tornar robusto, habitua o teu corpo a obedecer à razão, a suportar o trabalho penoso e o sofrimento.

Vício interrompeu-a:

– Estás vendo, Hércules, por que caminho penoso essa mulher quer te conduzir, e como eu te levo facilmente à ventura?

– Mísera és! –, exclamou a Virtude –, que ventura podes dar? Pode haver ventura mais miserável que a tua, já que nada fazes para adquiri-la? Comes antes de ter fome, bebes antes de ter sede. No verão, suspiras pelo gelo e pela neve. Desejas o sono não porque tenhas trabalhado muito, mas porque nada fizeste. Impeles ao amor os teus partidários antes que a natureza o reclame, e desonras a natureza pelo abuso dos dois sexos. Teus admiradores estão habituados a fazer coisas vergonhosas durante a noite e a dormir boa parte do dia. Como és imortal, os deuses excluíram-te do seu meio, e também os homens de bem te desprezam. Teus jovens amigos arruínam seus corpos, e os mais idosos perdem a alma. Na juventude, chafurdaram-se nos gozos até o enjoo; agora, em idade avançada, arrastam-se a suspirar. Envergonham-se das ações passadas, e agora a fadiga de sua vida desregrada pesa-lhes sobre os ombros.

Eu, ao contrário, habito com os deuses e no meio de homens bons. Sem mim, nada de nobre se produz no mundo. Honram-me os deuses e os homens. Os artistas me amam como sua auxiliar; os pais de famílias, como guardiã do seu lar. Para os que me seguem, a comida e a bebida são coisa agradável, porque só as usam quando delas precisam. O sono é-lhes mais doce que ao preguiçoso, e eles não lhe sacrificam um só dos seus deveres. Seus amigos os estimam e sua pátria os honra. E, finalmente, quando lhes é chegado o derradeiro momento, eles não descem às trevas do esquecimento, mas, ao contrário, sua lembrança continua a viver gloriosamente nos lábios das gerações futuras. Hércules, filho de ilustres pais, se agires assim, chegarás a uma glória eterna!

* * *
Eis aí como li a história de Hércules, num velho escritor grego –, Xenofonte –, no terceiro livro da obra intitulada De Cyri expeditione (Sobre a campanha de Ciro). E, agora, escrevi-a para ti, meu filho, porque um dia também chegarás certamente ao cruzamento dos caminhos, quando houveres de fazer a tua escolha e tiveres consciência desta averiguação imperecível das Sagradas Escrituras: “A carne tem desejos contrários aos da alma”. (Gálatas, V,17).

Presta, portanto, muita atenção!


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Fonte:
TOTH, Tihamer. O brilho da mocidade, Petrópolis: Vozes, 1959, pp. 29-32
www.ofielcatolico.com.br

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