Apologética: a necessidade de se conhecer os modos de defender a Fé a partir da razão

Nosso Padroeiro São Próspero de Aquitânia (Tiro Próspero): um dos maiores apologetas leigos da história da Igreja, autor do axioma 'LEX ORANDI, LEX CREDENDI' ('A lei da oração determina a lei da Fé').

PREPARAR-SE BEM EM APOLOGÉTICA é importante na medida em que conhecê-la, bem como às suas vias e aos seus recursos, deverá se tornar cada vez mais importante nos dias que virão. Possuir bons conhecimentos em Apologética já é algo muito importante agora, e deverá sê-lo ainda mais, até alcançar a condição de coisa necessária, num futuro próximo. Pois, ao que tudo indica, os dias que nos aguardam estarão cobertos de trevas. Na Espanha, agora mesmo, apenas rezar pelo fim do aborto já é crime punido com multa e prisão (veja).

    Falando honestamente, mesmo que estejamos prontos, neste futuro sombrio não se pode saber até que ponto nos darão ouvidos no mundo, para que possamos dar a razão da nossa esperança, conforme nos admoestou nosso primeiro Papa (1Pd 3,15). Se o avanço das coisas continuar no mesmo passo em que está agora, em breve nem nos ouvirão mais: seremos amordaçados, como já estamos sendo, e talvez lançados na prisão se insistirmos em proclamar o Evangelho publicamente, fora de nossas casas, alto e em bom som – como mandou Nosso Senhor, "do alto dos telhados" (cf. Mt 10,27).

    Em todo caso, é e continuará sendo obrigação nossa, enquanto fiéis católicos, que nos preparemos o melhor que pudermos para defender a nossa Fé perante o mundo. Por isso mesmo eu tenho tentado –, por meio da formação em nosso Curso livre em Teologia pela FLSP – um grupo "de elite" de apologetas bem formados, por assim dizer, de católicos fiéis e preparados: para que possamos crescer juntos, em santa convivência e até com um certo nível de intimidade entre nós, ainda que virtualmente, assim como tudo está se tornando. Para aprender juntos e para que nos suportemos uns aos outros (cf. Ef 3,13), unidos e assim mais fortes.

    Nossa finalidade com essa formação é a de estabelecer a união fraterna e termos um canal de auxílio mútuo, para o bem da Igreja e para o crescimento espiritual de todos. Assim, vemos claramente a necessidade dessa formação sólida e consistente, funcional e que proporcione os melhores resultados práticos para todos. Para conhecer e se inscrever, acesse aqui.


O que é a apologética cristã?


A palavra deriva do grego apologia e significa "defesa". Designa o ramo da Teologia que se ocupa em dar explicações racionais (fundamentadas na razão) às verdades divinamente reveladas às quais aderem os cristãos, pela Fé.

[Hoje, a disciplina teológica Apologética é mais comumente denominada 'Teologia fundamental', malgrado tal nome não seja realmente o mais próprio para qualificá-la, já que, nos termos do aprendizado das coisas santas, são justamente os fundamentos as coisas mais importantes: é a estes que deveremos dedicar a maior parte das nossas energias.]

    Creio que eu esteja lidando aqui, também, com aprendizes iniciantes, portanto é preciso começar do começo, a partir dos fundamentos de tudo o que constitui o edifício da Fé católica. Assim, já de início, logo de saída, vemos que dessa primeira curta e simples sentença inicial (grafada em negrito) faz-se necessário esclarecer alguns pontos fundamentais, a saber:

    1) O que é Revelação? Que são as verdades reveladas?

    2) Todos os que se denominam "cristãos" o são, de fato?


    Revelação


    Chamamos Revelação ao meio pelo qual Deus se dirige – e desse modo se doa – à toda a humanidade; a esta Revelação o ser humano responde, por meio da Fé, a qual recebe do mesmo Deus. Diz o Catecismo da Igreja Católica (CIC):

Aprouve a Deus, em sua bondade e sabedoria, revelar-se a Si mesmo e tornar conhecido o mistério da sua vontade, pelo qual os homens, por intermédio de Cristo, Verbo feito carne, no Espírito Santo, têm acesso ao Pai e se tomam participantes da Natureza divina.
Deus, que 'habita uma luz inacessível' (1Tm 6,16), quer comunicar sua própria Vida divina aos homens, criados livremente por Ele, para fazer deles, no seu Filho único, filhos adotivos. Ao revelar-se, Deus quer tornar os homens capazes de responder-lhe, de conhecê-lo e de amá-lo bem além do que seriam capazes por si mesmos.
O projeto divino da Revelação realiza-se ao mesmo tempo 'por ações e por palavras, intimamente ligadas entre si e que se iluminam mutuamente'. Este projeto comporta uma 'pedagogia divina' peculiar: Deus comunica-se gradualmente com o homem, prepara-o por etapas a acolher a Revelação sobrenatural que faz de Si mesmo e que vai culminar na Pessoa e na missão do Verbo encarnado, Jesus Cristo.
(CIC Art. I, n.51ss.)

    Resumindo e dizendo do modo mais simples possível, a Revelação, em Teologia, é aquilo que Deus nos revela de Si mesmo; é o nome que damos ao conjunto das verdades que nos foram divinamente reveladas e às quais aderimos por meio da Fé, que é também um dom de Deus.

    Fundamentalmente importa saber, também, que para nós as fontes da Revelação são três: as Sagradas Escrituras, a Sagrada Tradição e o Santo Magistério.

    É sobre estes três pilares fundamentais que a Igreja se ancora para encontrar as verdades da Fé e poder levá-las ao povo de Deus. São, por assim dizer, fontes inesgotáveis, das quais a Igreja bebe para nos conservar, com segurança e sem equívoco – até o martírio, se preciso for – na Doutrina e nos ensinamentos divinos confiados à Igreja.

    Este conjunto de verdades reveladas é chamado Depósito da Fé (Fidei Depositum): guardá-lo com zelo e diligência é uma missão de máxima importância que o Senhor confiou à sua Igreja, e que ela sempre cumpriu, em todos os tempos. Voltaremos a este tema em momento oportuno, porque será necessário entendê-lo bem para compreender a pavorosa crise que nos assola.


    Quem são os verdadeiros cristãos? 


    Em uma palavra, os católicos. Por muitos e diversos motivos, dentre os quais podemos, de momento, enumerar os principais:

    1. Porque são os membros da única Igreja fundada e deixada por Nosso Senhor Jesus Cristo;

    2. Porque a única Igreja fundada por Cristo o foi sobre São Pedro Apóstolo, o nosso primeiro Papa, cuja primazia e cujos sucessores os outros pretensos "cristãos" renegam;

    3. Dizemos com toda razão que é a única Igreja porque o Senhor mesmo não disse a Simão, mudando seu nome para Pedra/Pedro: "Sobre esta pedra fundo minhas igrejas" e sim "...Fundo a minha Igreja" (cf. Mt 16,18), e porque em todo o seu contexto histórico, nunca, jamais houve uma diversidade de igrejas, e sim uma única Igreja de Cristo sobre a Terra, como também categoricamente atesta, com muita clareza, a sagrada Escritura:

Exorto-vos, pois, – prisioneiro que sou pela causa do Senhor –, que leveis uma vida digna da vocação à qual fostes chamados, com toda a humildade e ama­bilidade, com grandeza de alma, suportando-vos mutuamente com caridade. Sede solícitos em conservar a unidade do Espírito no vínculo da paz. Sede um só corpo e um só espírito, assim como fostes chamados pela vossa vocação a uma só esperança. Há um só Senhor, uma só Fé, um só Batismo.
(São Paulo Apóstolo aos Efésios 4,1-5)
    
    Um só Senhor, uma só Fé, um só Batismo, e não uma pluralidade de interpretações da Bíblia e de  muitas modalidades de batismos. Ora, não é preciso falar muito sobre a imensa diferença entre as muitíssimas doutrinas que pregam – umas contrariando às outras – as dezenas de milhares de igrejas protestantes que temos hoje, desde as históricas até as pentecostais, neopentecostais e as mais recentes, para as quais ainda não se encontrou um rótulo que bem as defina, tal a velocidade vertiginosa com que se multiplicam e a igual multiplicidade daquilo que ensinam. Para citar alguns poucos exemplos de diferenças fundamentais entre as suas doutrinas, basta saber que:

    • Algumas dessas "igrejas" – que renegam a verdadeira Igreja – pregam a chamada "'teologia' da prosperidade", enquanto outras dizem que isso é uma invenção do demônio;

    • Algumas guardam o sábado, enquanto outras guardam o domingo, e outras não guardam dia nenhum;

    • Algumas praticam a chamada “santa ceia”, outras simplesmente não a praticam;

    • Certas "igrejas" não aceitam mulheres como “pastoras”, enquanto que outras não só as aceitam como até têm mulheres como “bispas” e “apóstolas”...

    • Há "igrejas" que não admitem o divórcio em nenhuma hipótese, outras apenas em alguns casos, outras ainda somente se houver adultério, e há também aquelas que admitem o divórcio com total liberalidade;

    • Sobre o batismo, encontramos entre estas supostas "igrejas" aquelas que batizam crianças e outras que consideram tal prática um absurdo; há as que ensinam que o batismo é uma condição indispensável para a salvação das almas, enquanto outras dizem que não é assim necessariamente; temos também as que aceitam e praticam o batismo por aspersão, e outras que dizem que tem que ser por imersão, e outras ainda que insistem na necessidade de ser feito nas águas de algum rio...

    Curiosamente (ou nem tanto), praticamente todas as ditas "igrejas cristãs" alheias à verdadeira Igreja de Cristo são unânimes em condenar a Igreja Católica como errada, desviada, "idólatra" e outras coisas do tipo, mas em geral admitem-se mutuamente, porque todas elas seguem a heresia do Sola Scriptura (somente a Bíblia como única e suficiente regra de fé e prática). Operando assim, contrariam sua própria doutrina, pois renegam explicitamente o que diz, na Bíblia, o Apóstolo sobre a verdadeira Igreja: que esta tem uma só Fé e um só Batismo – a mesma verdade que vai arrematar mais adiante:

Ainda que alguém – nós mesmos ou um anjo baixado do Céu – vos anunciasse um 'evangelho' diferente do que vos temos anunciado, que ele seja anátema.
(Gl 1,8)

    "Ainda que nós mesmos" – o que equivaleria a dizer para nós, hoje: ainda que um padre, um bispo ou mesmo um papa anunciasse um evangelho diferente, seria anátema, isto é, estaria excomungado, fora da Comunhão da Igreja. Teremos que voltar a este ponto em momento oportuno, porque será também essencial em nosso aprendizado.

    Concluindo sobre a identidade e a natureza dos verdadeiros cristãos, devemos saber o seguinte:

    1) Verdadeiros cristãos são os católicos, eis aqui um fato insofismável;

    2) O protestantismo, com as suas incontáveis derivações, bem como as muitas outras propostas religiosas que requisitam para si mesmas o título de "cristãs", são falsos neste sentido;

    3) Caso à parte é o da Igreja Ortodoxa, o qual, pela sua complexidade, veremos mais adiante, com detalhes e o necessário aprofundamento;

    4) A convivência pacífica, harmoniosa e caridosa, não só com protestantes, como também com as pessoas das mais variadas religiões, mesmo as de confissões não cristãs, sempre que possível é desejável, pelo bem da sociedade: desde sempre os verdadeiros cristãos deram bom exemplo pela sua via de conduta pacífica, amigável, humilde e respeitosa[1];

    5) Em momentos de crise, a união entre católicos e protestantes, e mesmo com outras comunidades religiosas, pode ser desejável, útil e até necessária. Como exemplos, podemos citar a luta contra o aborto e contra as ideologias antifamília que ora se agigantam em todo o mundo;

    6) É preciso compreender também que entre os protestantes, bem como entre os membros de outras comunidades religiosas, mesmo além daquelas ditas "cristãs", encontram-se pessoas de boa disposição e de intenções sinceras, que dão bom exemplo e que buscam, num desejo honesto por Deus e por suas verdades, a prática do bem e da caridade;

    7) A meta da fraternidade universal não pode ser considerada, de modo algum, como um mal em si mesma. Pelo contrário, seria desejável e seria algo bom que todas as pessoas do mundo, independentemente de todas as diferenças culturais, étnicas e mesmo de suas crenças, soubessem conviver harmoniosamente em respeito mútuo, de uma vez por todas. Tal esperança, todavia, parece-nos claramente utópica e, além disso, há algo mais importante: enquanto cristãos, não podemos jamais admitir que a busca por tal ideal  humanista suplante a ordem primordial dada por Cristo à sua Igreja: "Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura. Aquele que crer e for batizado será salvo; quem não crer será condenado" (Mc 16,15s).


*  *  *

Concluindo por enquanto o tema da definição da Apologética, trata-se de uma disciplina principalmente teórica, ainda que não deixe de ter aplicação prática. Ocupa-se também em expressar a realidade de nosso Deus amoroso, mas serve mais especificamente para mostrar aos incrédulos a veracidade da Fé cristã, para fortalecer essa mesma Fé naqueles que já chegaram ao conhecimento da Verdade e para investigar (e apresentar os resultados de tais investigações) as ligações entre a Sã Doutrina cristã e as outras interpretações/noções sobre a realidade.

    Como disciplina teórica, a Apologética não tem como alvo principal o debate ou as disputas teológicas, e nem mesmo a evangelização, mas enquanto ciência configura-se em uma ferramenta ou em um instrumento essencial para auxiliar a prática dessas coisas.

    Resumindo, a Apologética é uma disciplina teórica que busca fundamentar a defesa racional da Fé cristã. Como tal, é vastíssima.



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[1] As Sagradas Escrituras recorrentemente instruem e admoestam a esse respeito:

Instrui com mansidão os que resistem, a ver se porventura Deus lhes dará arrependimento para conhecerem a verdade. (2Tm 2,25)

A ninguém infamem, nem sejam contenciosos, mas modestos, mostrando toda a mansidão para com todos os homens. (Tt 3,2)

Quem dentre vós é sábio e entendido? Mostre pelo seu bom trato as suas obras em mansidão de sabedoria. (Tg 3,13)

Mas tu, ó homem de Deus, (...) segue a justiça, a piedade, a fé, o amor, a paciência, a mansidão. (1Tm 6,11)

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