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A protestantização da cultura


Por ocasião da visita do papa Francisco a Lund, Suécia, como parte das comemorações dos 500 anos da dita "Reforma" protestante, num gesto que –, como não poderia deixar de ser –, provocou perplexidade, confusão, preocupação e mesmo indignação entre não poucos fiéis católicos (divulgou o portal 'The Fatima Center' que na referida cidade um pequeno grupo de católicos saiu em procissão com cartazes com dizeres como: 'Como pode uma celebração da revolta trazer unidade?', 'A verdadeira paz vem do Céu' e 'Não esconda a verdade católica' – veja o vídeo), publicamos o excelente estudo do Revmo. padre Javier O. Ravasi, com a autorização do autor e traduzido por frei Zaqueu, que assim colabora com o nosso apostolado, no fito de oferecer algum subsídio para a reflexão dos nossos leitores. Esperamos em Nosso Senhor, humildemente, que a leitura seja útil.


Por Revmo padre Javier Olivera Ravasi
Tradução – Frei Zaqueu (freizaqueu@gmail.com)


Lutero é o protótipo das
idades modernas (Fichte)


O PADRE CANTALAMESSA, pregador quaresmal e pontifício, neste ano de 2016 deixou-nos palavras que trouxeram, por um lado, entusiasmo, e, por outro, desconcerto:

“O mundo cristão nos prepara para celebrar o quinto centenário da "Reforma" em 2017. É vital para o futuro da Igreja não perder esta ocasião, permanecendo prisioneira do passado ou limitando-se a usar um tom mais conciliador no estabelecimento dos acertos e erros em ambos os lados. É o momento de dar, creio, um salto de qualidade, como quando uma barca chega à comporta de um rio ou de um canal que lhe permite prosseguir a navegação a um nível superior.”

Consideramos – há que dizê-lo – bastante desafortunada a frase utilizada para referir-se à "Reforma". “Celebrar” implica “festejar”, “recordar com alegria”, “elogiar”… E, assim como ninguém em sã juízo “celebra” a morte de um ser querido, a separação de um cônjuge ou a enfermidade de um amigo, tampouco deveria fazer-se o mesmo com o episódio quiçá mais doloroso da História da Igreja, que não somente quebrou a unidade da Cristandade mas que, segundo alguns, arrastou as melhores de suas partes.

O cardeal Koch, presidente do Conselho Pontifício para Unidade dos cristãos (alguém a quem não se pode chamar de 'tradicionalista') já havia expressado em 2012 que não era possível “celebrar um pecado” pois “os acontecimentos que dividem a Igreja não podem ser chamados um dia de festa”[2]. Ao que tudo indica, quatro anos depois, os ventos da mudança lograram reciclar o prelado suíço, quem terminou promovendo a celebração de um ato ecumênico na Suécia para “comemorar (...) não a divisão, mas a renovação da Igreja” querida por Lutero[3].

Seja como for, consideramos apropriado o convite de analisar “acertos e erros de ambos os lados” como dizia o pregador Pontifício, a fim de compreender as consequências que, de parte do luteranismo, afetam a cultura hodierna. Para isso partimos da base de que a mal chamada “Reforma” protestante, vista já em perspectiva histórica, não foi outra coisa que uma ruptura doutrinal no seio mesmo da Igreja. E dizemos “ruptura doutrinal” porque, atualmente, nenhum historiador sério, com os escritos de Lutero à vista, dirá que o motivo da separação se baseou nos abusos do clero ou na pregação das indulgências em ordem a construir a Basílica Vaticana; do contrário, o mesmo Lutero estaria ali para desmenti-lo: “Eu não impugno a imoralidade e os abusos, mas a substância e a doutrina do Papado (…). Eu nunca deixei de atacar às duas colunas do Papado: os votos monásticos e o Sacrifício da Missa”[4].

A dita “Reforma” (em que pese o termo equívoco), teve sua raiz na desbordante e avassaladora personalidade de Martinho Lutero. Não é nosso propósito penetrar as causas ou seu desenvolvimento; sequer as intenções do monge agostiniano[5], às quais se referiu o atual Pontífice. Para isso existem hoje magníficas obras de resumo e eruditos trabalhos[6]; nos proporemos, sim, tentar ver em que medida o fenômeno protestante tem influído na cultura contemporânea, para o qual, após analisar sucintamente alguns princípios do protestantismo, veremos que consequências trouxeram aquelas lamas para estes lodos.

Mas digamos, em primeiro lugar, o que entendemos pelo termo “cultura”.


A cultura

Remontando-nos à sabedoria greco-romana, os antigos faziam derivar a palavra cultura do verbo latino colo, colis, colere, colui, cultum, que, etimologicamente, possui três acepções[7]: cultivar a terra, habitá-la, e venerar os deuses. Os ditos significados, longe de se opor, complementavam-se no mundo clássico, buscando sempre o aperfeiçoamento da ordem natural: cultivava-se uma planta e brotava a flor; cultivava-se o homem e surgia um herói ou o sábio que não esquecia os seus deuses.

Agora, desde o ponto de vista filosófico, poderia se dizer que cultura é “o conjunto de hábitos humanos que configuram uma sociedade enquanto expressivos da racionalidade”[8].

Vejamos:

1) Conjunto: porque não se reduzem a uma só coisa, mas que são vários os hábitos que nele confluem.

2) De hábitos: tomados em sua raiz subjetiva (modos de pensar, modos de conduzir-se, de expressar-se etc.) e em sua repercussão objetiva (linguagem, arte, música, construção, expressões religiosas, etc.).

3) Que configuram uma sociedade: ou seja, a mostram, lhe dão um “rosto” a um período, a uma civilização, a uma etapa, a um lugar etc.

4) Expressivos da racionalidade: é a raiz próxima que explica, por um lado, como a cultura é um proprium do homem, ao plasmar o espírito no tempo e no espaço; por outro, explica a possibilidade de transcender a cultura (inclusive de modificá-la) justamente pela capacidade reflexiva da razão, daí que o homem, ainda vivendo em determinado horizonte cultural, possa não estar necessariamente absorvido por ela, podendo transcendê-la se logra privilegiar em si a reflexão (não outra coisa sucedeu com Lot e sua família em Sodoma).

Ou seja, a cultura é um efeito, perdurável ou não no tempo e no espaço, que pode ir variando segundo a perfeição ou não do homem mesmo. Daí que essa “cultura” possa possuir gradações em um mais ou em um menos segundo aquele proprium racional.

Até aqui o âmbito estritamente filosófico.


Josef Pieper

Há no entanto no homem, apesar de sua natureza racional, essa necessidade de “tributar a Deus o culto devido”, religando-se com Ele e restaurando a justiça infringida, segundo a sentença de Santo Tomás[9]. É por isso que existe uma relação íntima entre religião, cultura e culto, na qual a primeira é fundante, as restantes fundadas. Segundo a religião que se possua (não os atos externos, senão o conteúdo próprio da religião), haverá uma cultura e, consequentemente, um culto. Neste sentido pode se dizer que o culto depende da cultura de modo que, aqueles hábitos próprios dos quais falávamos mais acima, se são elevados pela Graça e a virtude teologal da Fé (da verdadeira Fé), produzirão não só uma cultura exímia, mas um “culto verdadeiro”, como assinala de forma mui feliz John Senior ao dizer: “A cultura cristã é essencialmente a Missa (…) e todo o aparato que a protege e favorece”[10].

E, com palavras análogas, o grande Josef Pieper: “Não há nada por fundar. Para o cristão há algo que não oferece lugar a dúvidas: que depois de Cristo não há senão uma forma verdadeira e válida de celebração do culto: a Oferenda Sacramental da Igreja cristã”[11].

Mas não nos adiantemos. Vejamos primeiro as teses fundamentais do protestantismo que, a nosso juízo, hoje influem na cultura contemporânea. E estas são três: o princípio de imanência, a fé pessoal e a predestinação fatalista.


O princípio de imanência ou a primazia do “Eu”

Sob o título de “Lutero ou o advento do Eu”[12], Maritain iniciava seu já famoso livro intitulado "Três Reformadores". A primazia do eu ou, dito em termos do padre Cornélio Fabro “o princípio de imanência”, denota essa “mudança de direção do objeto ao sujeito, do mundo ao eu, do exterior ao interior”[13] pelo qual o homem se coloca em um lugar central, sendo árbitro e medida de todas as coisas.


Guilherme de Ockham

De onde um monge agostiniano, conhecedor da Filosofia e da Teologia, podia pensar deste modo? É que Lutero é filho de seu tempo: educado na universidade de Erfurt primeiro, e, na vida religiosa depois, se viu empapado da “via modernorum” ('o caminho dos modernos'), um movimento consolidado por Guilherme de Ockham (o 'philosophus maximus' segundo ele) o pai do nominalismo. A dita corrente, longe de ser um “sistema” fechado, era mais uma atmosfera ou ar de repúdio contra o movimento escolástico, que se encontrava por então perdido em fúteis interpretações e distinções, que faziam da Filosofia e Teologia um emaranhado labirinto de trocadilhos e símbolos.

Assim o assinala o dominicano Frei, um grande historiador da Filosofia:

“O nominalismo não é um sistema, nem sequer uma escola, é mais um sentimento, um espírito difuso, um pouco indefinido, mas que repercute em amplas ramificações que se estendem às manifestações mais diversas, à política, à teologia, à filosofia e à mística (…). Seu signo é essencialmente negativo e demolidor. Carece de soluções positivas. É mais um conjunto de problemas, uma atitude crítica e cética ante os aportes da escolástica anterior.” [14]

Daí que, ao descer aos grandes temas, o nominalismo caia em um certo ceticismo propondo, por exemplo, que,

“a teologia não é ciência, e não há possibilidade nenhuma de conciliação entre os dois campos, o da razão e o da fé (…). Assim se compreendem as múltiplas derivações, aparentemente contraditórias, que resultam simplesmente de se acentuar mais ou menos algum de seus princípios.”[15]

Ockham, afirmando também a univocidade (e não a analogia) do ser, propunha que a realidade se compõe de indivíduos particulares que só possuem em comum o nome, a partir de –em última instância- uma mera convenção:

O universal não existe fora da alma, nem como substância nem como acidente. Mas tampouco existe dentro da alma como acidente de qualidade. Não tem mais que uma realidade objetiva, isto é, que se identifica com a mesma alma ou entendimento. É uma ficção (‘fictio’, ‘imago’, ‘exemplar’) cujo ser consiste somente em ser percebido (‘esse est percipi’).

“Os conceitos têm um esse subjetive[17] expressados por meio dos nomes (com o tempo, Heidegger dirá que as palavras são o veículo do ser) pelo que, dado que o homem é incapaz de alcançar a essência das coisas (e, por isso, a verdade) terminará fechando-se na intimidade de seu cogito-volo (penso-quero), que lhe impedirá transcender o âmbito da consciência pessoal.”[16]

É isto o que levará Ockham a adotar “uma atitude de desdenhosa independência frente aos seus contemporâneos. Não reconhece mais autoridades que a Sagrada Escritura, a Igreja e os doutores aprovados por ela [citando] raras vezes a Santo Tomás, e com o fim de rejeitar suas doutrinas”[18].

Pois bem, este princípio do permanecer na própria interioridade, de centrar a bússola no Eu, é um dos que Lutero receberá e projetará. Para o monge agostiniano, todo dado da inteligência será incerto (“a prostituta razão”, gostava de chamar à inteligência), tendo como única fonte de certeza a revelação bíblica lida segundo o espírito subjetivo de cada qual. Isto e não outra coisa será o motor do “livre examen” protestante. Nada de princípios exteriores, nada de dogmas, só uma experiência interior de “liberação espiritual” e uma percepção interior da realidade reduzida a sentimento pessoal: “O cristianismo não é mais que o exercício contínuo de sentir que não tens pecado ainda que peques”[19].

Sentimento a partir do Eu. É então, o primeiro princípio: a primazia do eu ou o princípio de imanência.


A salvação pela fé pessoal

A segunda tese do Protestantismo que influirá em nossa cultura, é aquela que proporá a salvação a partir de uma Fé separada de suas obras.

Dentre os inumeráveis escritos do monge alemão, há um que, por sua brevidade e concisão nos dão uma ideia de sua doutrina a respeito do intitulado “Da liberdade cristã”: oferecendo ali uma síntese sobre sua doutrina acerca da justificação, assinala o reformador que o homem não se encontra sujeito a preceito algum, nem às obras externas, mas só à fé em Cristo, nosso Salvador. Em sua concepção, o Filho de Deus, por haver sido ofendido, se entregou de uma vez e para sempre em nosso lugar.

Seu raciocínio é simples: o pecado do homem é uma ofensa infinita contra Deus que não pode ser apagada de modo algum (nem sequer pelo sacramento do batismo). Por que propõe isto? Porque o “comprova” a partir de nossa inclinação permanente ao pecado, como “se experimenta” na concupiscência. É o desejo desordenado o que, longe do que assinala a Igreja, nos demonstra esse estado permanente de pecado em que nos encontramos imersos, fazendo-nos, per se, enfadonhos a Deus e incapazes de justificar-nos por nossas ações.

Que fazer então? Somente lançar-nos nos braços de Cristo, quem já pagou por nós, de uma vez e para sempre... Acaso não é isso o que ensinam as Escrituras? “O justo vive da Fé”– diz São Paulo (Rm 1,17), ao que Lutero com o tempo agregará “só” da Fé. É crendo ou, melhor, “confiando interiormente”, que o homem poderá salvar-se, inclusive sendo mau.

O monge agostiniano, tratando acerca do tema, não hesitará em escrever a seu discípulo Melanchton: “Deus não salva aos pecadores fingidos. Sê pecador e peca fortemente, mas ainda com mais força alegra-te de Cristo…”[20].

Deus sempre nos justificará apesar de nossas obras[21]. Nada de tentar salvar-se pelas obras, nada de sacramentos, nada da ação santificadora da Igreja, nem do sacerdócio, a confissão, etc.


A negação de liberdade do homem e a predestinação

Já vimos a imanência e a não necessidade – e mais ainda a impossibilidade – das obras para salvar-se; só basta a Fé; há entretanto uma última tese protestante que não pode deixar de nomear-se, e que se refere à perda da liberdade e à absoluta predestinação do homem rumo ao céu ou ao inferno: “É terrível o decreto, o confesso (dirá Calvino), mas ninguém poderá negar que Deus previu o destino final do homem antes que o criasse (…). Sua natureza é má e podre (…) não possuímos o arrependimento em nossas mãos”[22].

Nosso destino não está em nossas mãos; ninguém pode agregar ou retirar nada à natureza humana, absolutamente corrompida desde o princípio. O homem está predestinado tanto ao céu como ao inferno independentemente do que faça; se trata de um fatalismo teológico no qual não conta o livre arbítrio. Nada pode o homem pensar, querer ou fazer que não tenha sido previamente determinado por Deus desde toda a eternidade:

Chamamos predestinação – assinala Lutero – ao eterno conselho de Deus, pelo que há decretado ou o que há de fazer de cada homem. Porque Deus não os cria a todos nas mesmas condições, mas ordena a uns para a vida eterna e a outros para a eterna condenação (…). E segundo mostra claramente a Escritura, afirmamos que o Senhor há determinado já em seu eterno imutável conselho a quem salvar e a quem quer deixar na ruína[23].

Com estas palavras, afirma-se uma heresia horrenda também sustentada por Lutero: “Deus é mau”. Em efeito, se “não possuímos o arrependimento em nossas mãos” e a salvação é possível só para alguns, então afirma-se que Deus cria algumas pessoas predestinando-as ao inferno. Mas, se Deus predestina almas ao inferno, então Deus é um tirano e, mais ainda, o pior deles, daí que, como a moral divina se funda nas arbitrariedades divinas, é necessário rejeitá-la como propunha o nominalismo: já não há mais princípios; só sujeitos que propõem uma moral situacional.

Não importa o que o homem faça; não importa o que o homem pense; a vida, no dizer de Macbeth, será “um conto contado por um idiota, cheio de ruído e de fúria, que não tem nenhum sentido”.

Até aqui, algumas das teses protestantes. Tentemos agora ver como puderam ter influenciado na cultura atual.


A influência do Protestantismo na cultura atual

O padre Julio Meinvielle em sua obra já clássica intitulada “O comunismo na revolução anticristã”[24], assinala com precisão que, no homem coexistem quatro formalidades, isto é, quatro constitutivos. O homem é, antes de tudo, um aliquid, ou seja, um algo, uma coisa; mas ao mesmo tempo, o homem é também animal, quer dizer, é um ser sensível, que segue o bem deleitável. Mas não só isso: o homem é também homem, ou seja, é um ser racional que se guia pelo bem honesto e pode alcançar e apreender a verdade; mas acima destas três formalidades, o homem também é capaz de Deus, está chamado à vida em comunhão com Ele, que é a vida sobrenatural.

Esquematizando então, poderia se dizer que quatro são as formalidades:

a. A formalidade sobrenatural ou divina.

b. A formalidade humana ou racional.

c. A formalidade animal ou sensitiva.

d. A formalidade da mera realidade ou da mera coisa.

Seguindo este mesmo esquema tentaremos ver como as teses protestantes que temos selecionado têm podido influir em nossos hábitos culturais. Mas antes uma objeção: poderia se dizer que o Protestantismo como tal, isto é, como religião, parece estar extinto em sua raiz mais acabada; e no entanto, a forma mentis, os hábitos que ela engendrou, inclusive em ambientes católicos, esteja muito viva. Porque uma heresia pode morrer como confissão religiosa mas suas consequências culturais podem perdurar no tempo.

Mas vejamos as revoluções possíveis.


a. Em primeiro lugar, a revolução do eu contra Deus: relativismo subjetivista


Como podemos ver, o princípio de imanência ou o “advento do Eu” não só tem sido o princípio, mas a causa do resto das teses protestantes. Esse giro rumo à subjetividade e rumo à interioridade se disparará poucos anos depois da “Reforma” tanto em sua vertente racionalista, fideísta como empirista. Se trata, nas memoráveis palavras de Fabro, de um “subjetivismo dogmático” pelo qual “o Protestantismo terminará inevitavelmente no anarquismo”[25] a partir do qual “o ato de fé que termina por tragar ou sufocar o elemento dogmático”[26].

Já o denunciava em palavras também memoráveis Pio XII: “Nestes últimos séculos... quiseram a natureza sem a graça… Cristo sim e a Igreja não (Revolução humanista e protestante)... depois Deus sim e Cristo não (Revolução liberal)... ao fim, o grito ímpio: Deus está morto (Revolução comunista)”[27].

Esse culto pelo EU, fará do homem um Deus-para-si que, longe de regressar a sua formalidade “natural”, ou “racional” o desbarrancará a um lodaçal sem limites. Quer dizer, o culto pessoal, não o levará novamente a um âmbito “natural” mas a um afastamento deste. Mas, por quê? –poderíamos nos perguntar licitamente- não torna o homem, abandonando a graça, à ordem natural existente prévia ao cristianismo, por exemplo? por que não torna à sabedoria dos gregos ou à ordem romana?

A razão parece encontrar-se na mesma ideia de redenção. Em efeito, quando Deus quis irromper agressivamente na história, chegada a plenitudo temporum (Gal 4,4) a inteligência humana foi elevada pela graça tornando o homem “mais homem” (se se nos permite a expressão). Agora, ao retroceder à própria interioridade subjetiva, o homem volta a ser uma espécie de Prometeu desacorrentado não ao manejo de suas paixões, senão à desordem das mesmas.

Chesterton o retratou com estas inesquecíveis palavras:


“É impossível adorar à humanidade, do mesmo modo como é impossível adorar (…) (um) clube; ambas são instituições extraordinárias às quais podemos eventualmente pertencer. (…). Suprimindo o sobrenatural, o que nos restará é o antinatural.”[28]

A que se refere o escritor inglês ao dizer, “nos restará o antinatural”? A que, abdicando da primazia de Deus, não se volta ao homem, mas se cai ainda mais.

Vejamos em palavras de Lutero como, voltando-se a si mesmo, despreciava a realidade anterior a ele, como querendo inventar a roda:

“Lutero o quer, Lutero assim o diz. Lutero é um doutor acima de todos os doutores de todo o papismo (…)[29]. “Ainda que os santos Cipriano, Ambrósio e Agostinho; ainda que São Pedro, São Paulo e São João; ainda que os anjos do céu te ensinem outra coisa, isto é o que sei de correto: que não ensino coisas humanas, senão divinas; ou seja, que tudo o atribuo a Deus, aos homens nada (…). Os Santos Padres, os doutores, os concílios, a mesma Virgem Maria e São José e todos os santos juntos podem equivocar-se (ele não, claro)”[30]

A primazia do EU pessoal fará que a mesma concepção de verdade se veja afetada. Já não será, por certo, a conformidade do intelecto à coisa, mas simplesmente um produto da vontade:

“O que mais chama a atenção na fisionomia de Lutero, é o egocentrismo: algo muito mais sutil, mais profundo e mais grave que o egoísmo; o egoísmo metafísico. O eu de Lutero se converte praticamente no centro de gravidade de todas as coisas (…). “Não admito, escrevia em junho de 1522, que minha doutrina possa ser julgada por ninguém, nem sequer pelos anjos. Quem não receber a minha doutrina não pode chegar a salvar-se” (…). O eu de Lutero, era segundo ele, o centro em torno ao qual devia gravitar a humanidade inteira; se converteu a si mesmo no homem universal em quem todos deviam encontrar seu modelo. Resumindo, se colocou em lugar de Jesus Cristo.”[31]

Ao que arremata:

“Mas o caso de Lutero – pergunta-se Maritain – não nos mostra na realidade um dos problemas contra os quais se debate em vão o homem moderno? Me refiro ao problema do individualismo e da personalidade[32] (…). Chegamos aqui ao fundo do erro imanentista. Consiste este em crer que a liberdade, a interioridade, o espírito, residem essencialmente em uma oposição ao não-Eu, em uma ruptura do adentro com o afora: verdade e vida serão, pois, unicamente buscadas no interior do sujeito humano; tudo o que provém em nós do que não é nós, ou seja, o que provém de outro, é um atentado contra o espírito e contra a sinceridade. E tudo o que é extrínseco a nós, significa a destruição e a morte de nosso interior (…). Por conseguinte, para o individualismo protestante moderno, a Igreja e os sacramentos nos separam de Deus; para o subjetivismo filosófico moderno a sensação e a ideia nos separam do real”.[33]

Fazendo do homem o centro da realidade e, melhor dito, a única “realidade real”, é absolutamente necessária a caída na isolada interioridade. Para a cultura moderna, só existe o eu, e é ele quem possui os critérios de bem e de verdade. A norma da verdade já não é o objeto sobre o qual se emite um juízo, senão a psicologia do sujeito, ou o que se afirma no ambiente, as condições culturais de uma sociedade, etc. Toda verdade é relativa, pois só é válida em relação com o sujeito que a pensa: o bem, a ética, a religião, etc., só valem o que o homem ou o grupo de homens queira pagar por elas, segundo seus diversos condicionamentos; “nesta perspectiva, tudo se reduz a opinião”, como disse João Paulo II.

Lewis, em uma pérola literária intitulada “O veneno do subjetivismo” assinala que na modernidade o homem “não crê que os juízos de valor sejam sequer realmente juízos. São sentimentos, ou complexos, ou atitudes, produzidas em uma comunidade pela pressão de seu ambiente e de suas tradições, e diferem de uma comunidade a outra. Dizer que uma coisa é boa é simplesmente expressar nosso sentimento rumo a ela”.

O mesmo conceito de “afirmação” por si só, de “definição” pode ser para o homem atual considerado obtuso; o sim, sim; não, não evangélico resulta para a cultura moderna como fascista e intolerante. “Tudo é negociável”, afirma Rojas, pois não existe mais “a verdade”, mas “minha verdade”, “tua verdade”, segundo as próprias preferências; “uma verdade à la carte”. Se trata de um novo código ético onde tudo pode ser, alternativamente, positivo ou negativo, tornando impossível todo diálogo por não existir um ponto de encontro com a coisa.


b. Segunda caída: revolução da sensibilidade contra a inteligência

A segunda revolução se dará, segundo o esquema traçado, da formalidade sensível à racional. Lutero –já o dissemos– desconfiava do papel da inteligência para além do âmbito prático. Nada de contemplação, nada de vida segundo as potências superiores. As frases ilustrativas são inumeráveis; vejamos algumas delas:

“A razão se opõe diretamente à Fé, e deveriam deixá-la que se vá; nos crentes há que matá-la e enterrá-la (…). Deves abandonar tua razão, não saber nada dela, aniquilá-la completamente; sem isso não entrarás nunca no céu (…). Há que deixar a razão em sua casa, pois é a inimiga nata da Fé. Nada há tão contrário à Fé, como a lei e a razão. Precisamos vencê-las, se queremos alcançar a bem-aventurança.[37]
(A razão) quando trata de imiscuir-se nas coisas espirituais, é cegueira e trevas (…) só pode blasfemar e desonrar tudo o que Deus tem dito e feito (…) a razão é a prostituta do diabo, por sua essência e maneira de ser, é uma prostituta daninha (…) que deveria ser pisoteada e destruída.”[38]

Um detalhe a ressaltar é o curioso fato de que Lutero chame prostituta à razão e que logo, a Revolução Francesa, filha da luterana, a entronize exaltando-a a seguir na catedral de Notre Dame de Paris. É que, como dizia Frei mais acima, apenas se trata de acentuar um e outro princípio (a fé ou a razão) desde a mesma subjetividade.

De Aristóteles, talvez o maior pensador da Antiguidade e “maestro di color che sanno” se dizia:

“Aristóteles é o ímpio baluarte dos papistas. É à teologia o que as trevas são à luz. Sua ética é inimiga da graça; é um filósofo arcaico, um canalha que deveriam meter no chiqueiro ou na pocilga dos asnos… um caluniador sem vergonha, um comediante, o mais artimanhoso e astuto corruptor dos espíritos. Se não tivesse realmente existido em carne e em osso, se poderia tê-lo, sem nenhum escrúpulo, pelo diabo em pessoa (…). É impossível reformar a Igreja se antes a teologia e a filosofia escolástica não são arrancadas pela raiz.”[39]

Se a razão não serve, só resta a sensibilidade. É o homem de pernas para o ar de que falava o padre Alberto Ezcurra seguindo a Ovidio:


“Quando Deus cria ao homem o cria vertical (…). Essa criação do corpo do homem vertical é um signo do que tem que ser o homem por dentro, em sua alma (…). Deus o criou com a cabeça acima do coração, com o coração acima do estômago, do sexo e dos pés. E essa hierarquia do homem vertical nos está indicando também o que o homem tem que ser por dentro:
Acima de tudo está a cabeça; quer dizer, a inteligência que me faz conhecer a realidade e conhecer a verdade. E essa verdade que a inteligência conhece se mostra ao coração, isto é, à vontade; para que a vontade ame o que é verdadeiro e o que é bom. E depois vêm também as paixões, os sentimentos e os instintos que, iluminados pela inteligência e governados pela vontade, servem para que o homem seja capaz de entusiasmar-se por tudo o que é verdadeiro e por tudo o que é bom.
Essa é a imagem do homem como Deus o criou: inteligência que conhece a verdade, se a mostra à vontade como algo bom sendo as paixões e os sentimentos governados pela vontade e dominados pela inteligência. Agora bem, o homem moderno é um homem posto “de pernas para o ar”. Ao homem vertical que Deus criou se lhe opõe um homem invertido. O que está acima? Acima de tudo estão as paixões, estão os instintos, estão os sentimentos. Pelo que se guia o homem? “Eu gosto”, “eu não gosto”; “tenho desejos”, “não tenho desejos”; “que lindo!”, “que feio!”. Nos guiamos pelos instintos. E depois vem a vontade. A vontade para satisfazer todos os caprichos dos instintos; e ao final, bem abaixo de tudo, vem a pobre inteligência. Para quê? Para justificar-me e dizer que tudo o que eu gosto está bem.”[40]

Ao ter abdicado da inteligência, o que resta é que esta sirva de serva das paixões, ficando o homem impossibilitado do livre arbítrio nas mãos de um Deus predestinador. Max Weber explicou com maestria como esta concepção determinista do protestantismo levará necessariamente ao capitalismo moderno: se Deus dispôs desde toda a eternidade que algumas pessoas se salvem e outras se condenem, independentemente do que façam, não poderá se descobrir desde agora qual é sua vontade? Ou seja, como saber se alguém se encontra no estado de condenação ou de salvação eterna? Pois bem: dado que Deus não muda, não cambia, deve existir algum indício que nos indique quais são os signos da predileção divina em seus elegidos. Quais serão? Simples: a prosperidade econômica; o triunfo nesta vida: a prosperidade, assim como se ensinava no Antigo Testamento:

“Fui jovem, já sou velho / nunca vi a um justo abandonado, nem a sua linhagem mendigando o pão. / Diariamente se compadece e dá emprestado; bendita será a sua descendência (…). Os justos possuirão a terra, a habitarão pelos séculos dos séculos.”[41]

Calvino, o grande teórico do protestantismo (e seu verdadeiro criador, segundo Belloc), instaurará este princípio: os homens devem tentar enriquecer-se e, se o fazem, é porque foram eleitos por Deus; do contrário, é signo de que estão condenados para toda a eternidade[42].

Mas ainda resta uma caída; a caída na formalidade “coisa”.


c. Terceira caída: a pessoa como objeto

As raízes filosóficas e teológicas do Protestantismo, com seu voluntarismo irracional, levarão a que o homem seja considerado simplesmente um objeto, uma coisa que, como tal, não dependa mais que do arbítrio de outro mais poderoso que ditem as leis.

A ordem da lei eterna, lei divina, lei natural e lei positiva tem sido alterado ou negado, admitindo somente a última como válida e fraturando a objetividade do Direito não restando mais que a vontade do legislador, daí que um filósofo do direito como Kelsen termine por aceitar que não exista mais lei que a positiva, inclusive quando não fossem de seu agrado, como as do regime nazi.

Com peculiar estilo o expressa Lewis:

“Qualquer um se indignaria ao ouvir um alemão [nazi] dizer que justiça era “o que convinha aos interesses do terceiro Reich”. Mas nem sempre se recorda que essa indignação careceria totalmente de fundamento se um mesmo considerasse a moralidade como um sentimento subjetivo que pode ser alterado à vontade. A menos que se tenha algum padrão objetivo do bem, que abarque igualmente aos alemães, aos japoneses, e à nós mesmos —o obedeça ou não qualquer de nós—, por suposto que esses alemães estarão tão autorizados para criar sua ideologia como o estamos nós para criar a nossa.”[43]

Se a única regra do bem agir é a vontade política, longe da razão e dominada por caprichos positivos, o que hoje possa ser bom ou verdadeiro, amanhã poderá ser mau e falso e a política, no melhor dos casos, ficará governada por princípios ideológicos sujeitos ao governante de turno. Por outra parte, o súdito, não alcançará seu próprio bem, senão em vistas do Estado, do qual será uma parte quase acidental do todo e em lugar de ordenação do bem próprio ao bem comum haverá subordinação -ontológica- da parte ao todo, assim como a mão se subordina ao corpo e o ramo à árvore. O indivíduo “será” para o Estado porque só nele encontrará sua essência, liberdade e verdade (como indivíduo)[44], como um momento que encontra sua concreção. A pessoa em quanto tal ficará convertida a objeto, e ela mesma por sua vez, a simples referência a objetos (de prazer, de estudo etc).

Da formalidade sobrenatural, então à mera formalidade de coisa.


Conclusão

Dizia Belloc na introdução que dedicou a Chesterton em “Assim ocorreu a Reforma”:

“(A reforma) não foi o incêndio intencional de um nobre edifício; menos ainda a meritória demolição de um ignóbil. Se pareceu mais a um grande fogo destruidor aceso por homens que habitavam uma casa e que, empenhados em um experimento violento que requeria uso de chamas, se achavam demasiado excitados para perceber o risco que corriam. O experimento se realizou mal, e a metade das habitações da casa restaram queimadas até seus cimentos, e as demais se salvaram, mas chamuscadas e enegrecidas.”[45]

Isso foi o protestantismo: uma heresia que, como confissão religiosa se encontra em clara extinção (inclusive mais que a católica), mas que engendrou uma cultura que hoje subsiste em muitos aspectos.

Nos coube habitar essa “metade das habitações” das que falava Belloc; habitações chamuscadas, enegrecidas e até abandonadas por seus proprietários; mas habitações de uma casa fundada sobre Rocha, que deve ser reconstruída e restaurada desde a verdadeira religião que engendrará uma verdadeira cultura cristã.

Como reformar nossa cultura ante este barbarismo? Como não dobrar-nos a ela? Há apenas umas semanas lhe perguntaram o mesmo ao cardeal Cafarra, ao que respondeu –e nós com ele, para terminar- o que cremos ser o início da solução:

“Direi com toda a franqueza: eu não vejo nenhum outro lugar fora da família, onde a fé que há que crer e viver possa ser suficientemente transmitida. Por outra parte, na Europa durante o colapso do Império Romano e durante as invasões bárbaras posteriores, o que fizeram os monastérios beneditinos naquele momento, do mesmo modo pode ser feito agora pelas famílias dos que creem, no reinado atual de uma nova barbárie espiritual (que é uma) barbárie antropológica.”[46]


Pe. Javier Olivera Ravasi
21/7/2016

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Notas:

1. Texto originariamente publicado em: http://www.quenotelacuenten.org/wp-content/uploads/2016/10/2016.-La-protestantizaci%C3%B3n-de-la-cultura.pdf

2. http://kirchensite.de/aktuelles/kirche-heute/kirche-heute-news/datum/2012/04/25/oekumene-kardinal-reformation-ist-kein-grund-zum-feiern/(cfr. http://infocatolica.com/blog/delapsis.php/1206210524-cardenal-koch-sobre-el-v-cent) (consultado em 28/7/2016).

3. http://www.interris.it/2016/05/09/93193/cronache/ religioni/protestanti-e-cattolici-commemorano-la-riforma-luterana.html (consultado em 21/8/2016).

4. ALFREDO SÁENZ, La Nave y las tempestades. La Reforma Protestante, Gladius, Buenos Aires 2005, 90. De especial interesse é o prólogo do Pe. Horacio Bojorge.

5. 'Eu creio que as intenções de Martinho Lutero não eram equivocadas, era um reformador. Talvez alguns métodos não eram os justos' (Roda de imprensa na viajem de retorno da Armênia, 28 de Junho de 2016; www.aciprensa.com/noticias/que-dijo-el-papa-francisco-sobre-lutero-y-la-corrupcion-en-la-igreja-18302/; consultado em 1/7/2016).

6. HEINRICH DENIFLE, Lutero y el luteranismo, (trad. espanhola de Férnández Álvarez), Tip. Pontif, Manila, 1920; THEOBALD BEER, Der fröhliche Wechsel und Streit. Grundzüge der Theologie. Martin Luthers, Johannes Verlag, Einsiedeln 1980.

7. A. ÉRNOUT ET A.MEILLET, Dictionnaire étymologique da langue latine. Paris, Klincksieck, 1959.

8. Agradecemos a valiosa ajuda e a proposta de definição do Pe. Christian Ferraro.

9. Cfr. SANTO TOMÁS DE AQUINO, Suma teológica, II-IIae, q. 81, a. 2.

10. JOHN SENIOR, A restauração da cultura cristã, c. 2.

11. JOSEF PIEPER, El ocio y la vida intelectual, Rialp, Madrid 1979, 75

12. JACQUES MARITAIN, Tres Reformadores, Excelsa, Buenos Aires 1945, 7-61. Nesta obra Maritain já começa a utilizar sua célebre e lamentável distinção entre “indivíduo” e “pessoa”, posteriormente refutada pelo Pe. Julio Meinvielle.

13. C. FABRO, Introduzione all'ateismo moderno, 1004.

14. GUILLERME FREI, Historia de la filosofia. II (2º) Filosofia judia e muçulmana. Alta escolástica: desenvolvimento e decadência, BAC, Madrid 1986, 538.

15. Ibidem, 539.

16. Ibidem, 576.

17. Ibidem, 578.

18. Ibidem, 568.

19. ALFREDO SÁENZ, op. cit., 164-165.

20. Martinho Lutero, Carta 501 a Melanchton.

21. Lutero eliminará de sua tradução da Bíblia, entre outros livros canônicos, a carta de São Tiago (Tig 2, 17-18): 'Assim também a Fé, se não tem obras, está realmente morta. E ao contrário, alguém poderá dizer: «Tu tens Fé?; pois eu tenho obras». Prova-me tua fé sem obras e eu te provarei pelas obras minha Fé'.

22. ALFREDO SÁENZ, op. cit., 283.

23. Ibidem, 285.

24. Julio Meinvielle, El comunismo en la revolución anticristiana, Cruz y Hierro, Buenos Aires 1982.

25. CORNELIO FABRO, 'La spiritualità protestante e il pensiero moderno', em Dal Essere al essistente, 83.

26. Ibidem, 72.

27. Pio XII, 12/10/1952.

28. GILBERT K. CHESTERTON, 'La Navidad y los estetas' em Herejes, El Cobre, Madrid 2007, 80-86.

29. ALFREDO SÁENZ, op. cit., 171.

30. Ibidem, 145.

31. JACQUES MARITAIN, Lutero ou o advento do Eu; em http://www.jacquesmaritain.com/pdf/08_HUM/01_H_Lute.pdf (consultado em 25/6/2016; 9).

32. Ibidem, 12.

33. Ibidem, 31-32.

34. JOÃO PAULO II, Fides et Ratio, nº 5.

35. C. S. LEWIS, The Poison of Subjectivism, 73 (citado por ALFREDO SÁENZ, El hombre moderno. Descripción Fenomenológica, Gladius, Buenos Aires 1998, 128).

36. RICARDO ROJAS, El hombre light. Una vida sin valores, Planeta Argentina, Buenos Aires 1994, 28.

37. ALFREDO SÁENZ, op. cit., 162.

38. ALFREDO SÁENZ, op. cit., 161.

39. Ibidem, 160.

40. ALBERTO EZCURRA, Los jóvenes y la sociedad de consumo.

41. Sal 36.

42. Calvino tomou o que é uma das potências mais perigosas e antigas da humanidade: o sentido da fatalidade; o isolou, o converteu em supremo e o introduziu pela força. Calvino aceitou a Encarnação, mas a obrigou a encaixar no velho horror pagão da compulsão: Ananké... Deus se havia encarnado para salvar à humanidade, mas essa humanidade nas quantidades e os indivíduos para quem ele havia determinado agir. A ideia do Inexorável se mantinha; os méritos de Cristo eram atribuição e nada mais. Deus era Causalidade e a Causalidade é um todo imutável. Um homem era condenado ou salvo, e isto não dependia dele. O reconhecimento do mal como igual ao bem, que se converte rapidamente na adoração do mal, a grande heresia maniqueia foi enunciada por Calvino em uma nova estranha forma. Em realidade não opôs os dois princípios iguais, mas apresentou só um princípio: Deus. Mas atribuiu a esse Único Princípio todos nossos sofrimentos, e para a maioria de nós um sofrimento eterno e necessário. Fez com que nosso destino, bom ou mau, se igualara dentro da Divindade: criou uma imortalidade de perdição e uma condenação de bem-aventurança.

43. C. S. LEWIS, op. cit.

44. HEGEL, Filosofia do Direito, pgf. 257. A sociedade então, não é para Hegel um todo prático acidental da categoria relação, mas um tipo de substância que aniquilada, ingurgita e aniquila às pessoas. A questão de seu bem não se coloca, formalmente; há, portanto em Hegel e no dizer de Komar, uma “participação esmagada”.

45. HILAIRE BELLOC, Así ocurrió la Reforma, Thau, Buenos Aires 1984, 9-10.

46. http://www.infocatolica.com/?t=noticia&cod=27026.
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Dia de Todos os Santos e Dia de Finados

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NESTE SEMANA A IGREJA celebra duas festas litúrgicas intimamente relacionadas ao Mistério da comunhão dos santos: a Solenidade de Todos os Santos, no dia 1º de novembro, e a Comemoração dos Fiéis Defuntos, no dia 2. Estas festas nos recordam que “todos os que somos filhos de Deus (...) constituímos uma única Família em Cristo”[1], na qual nos amamos e nos auxiliamos mutuamente.

O Catecismo da Igreja Católica, citando a constituição Lumen Gentium, ensina que, atualmente, a Igreja existe em “três estados”:

“Até que o Senhor venha em sua Majestade e, com Ele, todos os anjos, quando terá sido destruída a morte e todas as coisas lhe forem sujeitas, alguns dentre os seus discípulos peregrinam na Terra, outros, terminada esta vida, são purificados, enquanto outros ainda são glorificados, vendo ‘claramente o próprio Deus trino e uno, assim como é.”

    Essa passagem trata 1) de nós mesmos  –  que caminhamos ainda sobre esta Terra, que somos Igreja militante e peregrina –; 2) das almas que são purificadas no Purgatório, aguardando o dia glorioso de adentrarem o Paraíso celeste e eterno; 3) de todos os santos e santas de Deus que já estão no Céu, a Igreja triunfante, pura e imaculada[2].

    Apesar destas diferenças, somos todos membros do Corpo Místico de Cristo que é a sua Igreja. Assim como a alma está para o corpo, o Espírito Santo está para a Igreja, Corpo santo, unindo os fiéis do Céu e da Terra e santificando-os com os mesmos tesouros espirituais.

    No dia primeiro de novembro, festeja-se, assim, o dia que deveria ser também nosso, na Solenidade de Todos os Santos. Lamentavelmente, têm-se perdido a correta noção do que seja um “santo”, inclusive porque confunde-se o significado de pessoa santa e pessoa salva. Quem está no Purgatório, por exemplo, está salvo, mas ainda não totalmente santificado, no sentido pleno da palavra (saiba mais). Os santos canonizados, ao contrário, já completaram toda a sua purificação nesta vida e, portanto, foram diretamente para o Céu.

    Aqui encontra-se mais uma medida que compõe o grande abismo que separa católicos e protestantes. Os primeiros creem que a santidade é possível neste mundo e acreditam firmemente que, por auxílio da Graça – e também por mérito próprio – a pessoa humana pode chegar a dizer com São Paulo: “Eu vivo, mas não eu: é Cristo que vive em mim”[3]. Os santos, na Igreja Católica, são cristãos que alcançaram tal grau de perfeição ao se configurarem a Cristo de maneira que Ele mesmo se faz Presença viva neles. Como ensina Santo Irineu de Lion, Padre da Igreja, “Gloria Dei vivens homo – a Glória de Deus é o homem vivo”[4], isto é, o homem que vive em Cristo. Por isso, depois que morrem, os santos, vendo Deus face a Face, podem interceder por nós junto a Ele.

    Mas, para os protestantes, Deus operaria as coisas “diretamente”, sem precisar de ninguém. Sem dúvida –, e os católicos creem nisto –, Deus não precisa de Suas criaturas, mas toda a história da salvação testemunha que, mesmo não precisando, Ele quer precisar delas. Deus não precisava, por exemplo, servir-se de um homem e de uma mulher para gerar novas vidas no mundo. Num estalar de dedos, os seres humanos podiam simplesmente brotar da grama, como os cogumelos. Todavia, Ele quis depender da ação de um pai e de uma mãe para tanto. A beleza da fé católica está justamente na ação de Deus que ama as suas criaturas por meio destas mesmas criaturas, fazendo-as participar de sua Bondade e de seu Amor: é o caso dos anjos do Céu, por exemplo, especialmente os anjos da guarda.

    Entretanto, está escrito: “Há um só Mediador entre Deus e a humanidade: o homem Cristo Jesus”[5]. Verdade divina, na qual cremos desde sempre. Todavia, nos Atos dos Apóstolos é narrado o episódio de Pedro Apóstolo que, estando no cárcere, foi libertado pela ação de um anjo de Deus e da Igreja (atenção) que “orava continuamente a Deus por ele”[6]. Isso mostra como a Mediação de Cristo diz respeito à Mediação de Seu Corpo todo, seja por meio dos santos e anjos, que estão no Céu, seja pelos fiéis militantes, que estão na Terra[*]. Se admitimos a intercessão dos anjos e dos vivos, temos que admitir a dos que estão mortos para este mundo porém mais vivos do que nós no Céu, em Cristo, pois as Sagradas Escrituras também nos garantem que nada pode nos separar do Amor de Cristo, nem mesmo a morte[7].

    Crer no contrário seria crer que os membros do Corpo Místico de Cristo, uma vez mortos, estão “excomungados”. Absurdo! A comunhão com a Igreja é mais forte que a morte. Portanto, os santos, que já estão com o Senhor, rezam conosco e por nós. Glória a Deus!


* * *

    Além de todo o exposto até aqui, é agradável a Deus a intercessão de seus amigos, os santos. Lutero e seus seguidores não aceitam que alguém mereça, por seu amor a Deus, ser atendido por Ele. O protestantismo nega a doutrina do mérito. Para eles, “tudo é Graça”. Os católicos entendem que, realmente, tudo – inclusive o próprio mérito que possuímos – é Graça. Os santos receberam muitíssimas graças de Deus, entre as quais está a própria graça de merecer. Por isso, aqueles que amaram muito ao Senhor merecem ter as suas preces ouvidas por Ele.

    Por fim, lembremo-nos sempre que não existem apenas os fiéis que estão no Céu. A Celebração dos Fiéis Defuntos recorda que nem todos os que se salvam vão diretamente para a Vida eterna em Cristo. O Purgatório é parte do Depósito de Fé e da Doutrina da Igreja de dois mil anos. Os primeiros cristãos nas catacumbas já rezavam pelos mortos. Ora, sabendo que depois da morte não existe uma “segunda chance” de salvar-se, essa prática só pode indicar a existência de uma purificação após a morte, para aqueles que já se salvaram, mas, em vida, não amaram a Deus de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todo o seu entendimento[8]. Infelizmente, esse é o estado em que se encontram muitos de nós, por conta de nossos pecados e de nossa falta de generosidade com Deus. Se não nos purificarmos nesta vida, seremos purificados na futura. Cremos que só se entra no Céu totalmente santo. Por isso, é importante que, em um ato de caridade, sufraguemos as almas dos fiéis defuntos  –, isto é, peçamos e intercedamos por elas, com orações, jejuns, penitências, atos concretos de caridade –, a fim de que se purifiquem o mais breve e entrem na posse eterna da perfeita Alegria em Deus.

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Notas
1. Catecismo da Igreja Católica, 959
2. Ibidem, 954
3. Gl 2, 20
4. Adversus haereses, IV, 20, 7
5. 1Tm 2, 5
6. At 12, 5
7. Cf. Rm 8, 35-39
8.  Cf. Dt 6, 5; Mt 22, 37

* Já a Mediação direta de Cristo refere-se à única Mediação capaz de salvar as almas e garantir aos seres humanos convertidos a vida eterna no Céu. Nenhum, absolutamente nenhum santo e nenhum anjo de Deus, por mais agraciado que seja, tem o poder ou teria a capacidade de nos remir dos nossos pecados, que nos condenam à morte e ao Inferno. Somente Jesus Cristo, sendo Deus, poderia nos resgatar desta dívida incomensurável e impossível de ser quitada (por ser ofensa a Deus que é infinitamente Bom e infinitamente digno de ser amado e respeitado) por meio do seu Sacrifício redentor.

24/10/2016 – Soldados católicos reerguem cruz e rezam após derrotar o Estado Islâmico em Mossul: assista!



O ESTADO ISLÂMICO (EI ou ISIS), graças ao bom Deus, vem perdendo posições estratégicas e sofrendo derrotas a cada semana. A mais recente, ocorrida no início da semana, foi na aldeia de Bartella, na planície de Nínive, Iraque.

Quando os jihadistas invadiram o local, há mais de um ano, as famílias cristãs foram obrigadas a fugir. Casas e igrejas foram invadidas, profanadas e saqueadas. Muitos foram assassinados publicamente. Um dos primeiros atos dos terroristas era arrancar as cruzes do alto dos templos e substitui-las pela bandeira negra que simboliza a sua seita nefasta.

Hoje, afinal, a situação se reverte. Soldados da milícia cristã vêm obtendo importantes vitórias no entorno de Mossul, ao norte do Iraque e próximo à fronteira com a Síria. Num vídeo histórico e belíssimo, divulgado esta semana pela imprensa internacional (ao final deste post), vê-se o momento emocionante em que estes novos cruzados improvisam uma rústica cruz e, em seguida, a recolocam no alto de uma igreja, junto com a bandeira daquele país. Enquanto isso, repicavam os sinos, simbolizando que o cristianismo havia mais uma vez triunfado.

Quando tiveram certeza da vitória, muitos membros da milícia começaram a cantar louvores e rezar. Alguns jogavam areia sobre a cabeça – um gesto simbólico antiquíssimo para essas populações – enquanto repetiam, em prantos: “Esta é a nossa terra!”... Antes da invasão, a população era de aproximadamente 20 mil pessoas, sendo 95% cristã.

Em uma celebração improvisada, foram para dentro da igreja e rezaram o Pai Nosso em aramaico, língua falada nos tempos de Jesus e que está quase desaparecida. A região tem quase dois mil anos de cristianismo e não é a primeira vez que tentam exterminar a fé deste povo heroico, de tradição católica assíria. As três igrejas da cidade continuam de pé, mas foram saqueadas e tiveram todos os símbolos cristãos destruídos.

O líder caldeu católico da vizinha Erbil, dom Bashar Warda, afirmou que “a ação militar não acabará com o pesadelo” que os cristãos “viveram durante os últimos dois anos”, submetidos aos horrores impostos pelo grupo terrorista Estado Islâmico.

“Por quase dois mil anos, muitos povos das planícies do Nínive, agora libertados –, como Bartella, Karlais, Qaraqosh e outros –, eram conhecidos como lugares cristãos”, lembrou Warda. Tudo mudou em 2014, quando esses lugares foram tomados pelos terroristas. O apelo do líder religioso é que os cristãos de todo o mundo não esqueçam dos que vivem na região. “Eles necessitam de apoio contínuo e um compromisso claro para a reconstrução”.

Cerca de 90% da população original fugiu e vive como refugiada em outros lugares. Não há estimativa se elas voltarão e quando isso se dará. Não há eletricidade nem água corrente na cidade, a comida é escassa. O governo do Iraque comemora a retomada dos territórios, mas avisa que não há previsão para a reconstrução das cidades.

Aa forças iraquianas juntam-se às curdas e peshmergas no que vem sendo considerada a investida final contra o Estado Islâmico. Elas já dominam o entorno de Mossul, considerada a capital de fato e o último bastião do Estado Islâmico no país. A informação é confirmada pelo porta-voz do Comando das Operações Conjuntas, o general da brigada Yehia Rasul.



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** Com informações de 'LA Times' e 'World Watch Monitor'.
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Aspectos ontológico e gnosiológico da Lei Natural


Por Igor Andrade – Fraternidade Laical São Próspero

A FILOSOFIA VERDADEIRA dos direitos da pessoa humana se funda na ideia verdadeira de lei natural, que tem dois aspectos fundamentais – dois modos de considerá-la – que a legitimam como base desses direitos: o aspecto ontológico e o aspecto gnosiológico.

A Lei Não-escrita ou Lei Natural nada mais é que aquilo que existe pela própria virtude da natureza humana, uma ordem ou uma disposição que a razão humana pode descobrir e segundo a qual deve agir a vontade humana para pôr-se em consonância com os fins essenciais e necessários do ser humano[1].

Quanto ao aspecto ontológico, no quarto capítulo de “O homem e o Estado”, (Jacques) Maritain toma a natureza humana como um dado da realidade e, por isso, não a discute, apenas considera como admitido que “acreditamos na existência de uma natureza humana e que essa natureza é a mesma para todos os homens”[2].

Também é considerado como admitido que o homem é dotado de inteligência e que atua com compreensão do que faz e que, por isso, determina por si mesmo as finalidades que tem em mira.

Contudo, o homem também possui finalidades que correspondem necessariamente à sua constituição essencial e que são as mesmas para todos, isto é, não dependem da consciência pessoal, mas fazem parte do próprio homem enquanto homem.

Tem-se, portanto, como que duas fontes de fins: uma essencial, que determina os fins gerais de todos aqueles que são ditos “homem”; outra, pessoal, que determina os fins particulares deste ou daquele homem.

Assim, o homem particular[3], como determinador seus próprios fins, deve harmonizar-se com os fins mais gerais exigidos por sua própria natureza, assim como a matéria deve ser determinada pela forma que lhe é própria.

“Cada ente tem a sua própria lei natural, assim como tem sua própria essência”[4] – Maritain defende uma tese contrária à teoria da participação de cada ente particular de determinada espécie à uma ideia geral dessa espécie; assim sendo, a essência humana presente em Pedro não é a mesma presente em João, embora ambos possam ser reduzidos à unidade da espécie “homem”. Neste sentido, a lei natural (que é “a normalidade do funcionamento”) de cada ente individual é aquilo que o aperfeiçoa de modo particular segundo sua própria natureza de modo geral.

Maritain exemplifica isso usando a imagem do piano: um objeto com uma determinada disposição produzindo um determinado tipo de som ao qual chamamos piano. Qualquer ente que fuja a essas regras gerais ou não pode ser chamado piano ou não são plenamente piano. Assim, o filósofo francês põe a regra do dever ser embutida na própria lei natural, que apenas toma um sentido moral quando se pressupõe a liberdade do ente, isto é, quando ultrapassamos “o limiar do mundo dos agentes livres”[5]. Portanto, a lei natural do homem é a lei moral.

Com efeito, primeiro elemento fundamental a ser reconhecido na Lei Natural é o elemento ontológico, isto é, aquele elemento que diz respeito ao ente em seu aspecto específico. A normalidade do funcionamento se baseia na essência do ente, no caso, na essência do homem.

Em seu aspecto ontológico, a lei natural do homem – que é um ente dotado de liberdade que se manifesta na prática – é uma ordem ideal – específica e independente da determinação pessoal, como dito acima – relacionada com as atividades humanas, sendo estas o elo entre a lei natural e a essência humana.

Tal legação, o que não quer dizer que essas atividades estejam embutidas na essência de cada homem particular (como Leibniz afirmara que todo acontecimento da vida de César estava presente preliminarmente na ideia de César).

Embora haja esse vínculo entre as situações particulares e contingentes e a essência humana, o que aquelas fazem diante desta, nada mais é que pô-la em xeque. Por exemplo a de Caim ante Abel que implica uma relação com a essência do homem, e o possível assassinato de um pelo outro é incompatível com os fins gerais, “com a estrutura mais íntima dessa essência racional”[6]. O preceito “Não Matarás” é um preceito da lei natural porque o fim primordial e mais geral da natureza humana é conservar o ente – o ente desse existente, que é uma pessoa e um universo em si mesmo e ainda porque o homem, enquanto homem, tem o direito de viver.

A lei natural é ontológica porque a essência humana, na qual se funda, é uma realidade ontológica e não-separada de cada ente humano, de modo que a lei natural existe para todos os homens de modo geral e para cada homem de modo particular.

Neste sentido, o aspecto ontológico diz respeito à relação desta lei com a essência mesma do homem, isto é, que ela não é senão nos homens enquanto homens.

O segundo elemento fundamental a ser reconhecido na lei natural é a lei natural como conhecida. Tomando a razão humana prática como medida dos atos humanos, Maritain chega ao fato de o homem seguir essa lei não escrita de modo natural tendo como seu primeiro indício o “fazer o bem e evitar o mal”. Contudo, voltando-se novamente para a realidade, ele conclui que há algo mais nessa lei que deve ser conhecido.

O fato de a lei natural ser uma lei não escrita, faz com que os homens nos mais variados tempos e civilizações a conheçam com maior ou menor profundidade, correndo, assim, o risco de cometer erros e a possibilidade de evoluir no conhecimento desta lei podendo, tranquilamente uma civilização ser melhor que a outra naquilo que diz respeito ao maior grau de assimilação da lei natural.

O único conhecimento prático que todos os homens têm de modo natural e infalível é que devemos fazer o bem e evitar o mal. Esse é o preâmbulo da lei natural, mas não é a própria lei natural. Toda espécie de erro é possível com respeito a isso, o que prova, não que não haja uma lei natural, mas sim que “nossa vista é fraca quanto ao conteúdo desta lei”[7].

Uma sociedade que admite o infanticídio (como algumas tribos indígenas que habitam o norte do Brasil), o “sexo corretivo forçado” (como algumas tribos africanas) ou o estupro (como em algumas correntes muçulmanas) não provam em nada uma falha na lei natural, assim como um erro numa soma não prova nada contra a aritmética; prova somente um erro na consideração do objeto da lei.

O conhecimento moral ainda é imperfeito e continuará a desenvolver-se à medida em que a humanidade existir. Maritain ainda diz: Só quando o Evangelho tiver penetrado as próprias profundezas da substância humana é que a lei natural aparecerá em sua flor e sua perfeição[8]. Assim, mostram-se diferentes coisas a lei e o conhecimento da lei.

“O conhecimento humano da lei natural foi progressivamente moldado pelas inclinações da natureza humana”[9], isto é, a razão humana não conhece a lei natural de maneira abstrata nem pelo exercício do intelecto, mas sim descobre os ditames da lei natural quando guiada pelas inclinações da natureza humana – como por exemplo, “fazer o bem e evita o mal”.

Dessas inclinações, as que foram realmente autênticas são aquelas que guiaram a razão, lenta e gradualmente, à consciência das normas desta lei pouco a pouco de maneira mais específica e generalizada e que foi aceita pelas diversas comunidades humanas. Assim, o conhecimento dos aspectos primordiais da lei natural se exprimiu em moldes sociais e não tanto em julgamentos pessoais. De modo que leva Maritain a dizer que tal conhecimento desenvolveu-se dentro do tecido, duplamente protetor, das inclinações humanas e da sociedade humana.

Tendo isso em vista, convém analisar dois pontos que se seguem. Por um lado, os esquemas dinâmicos fundamentais da lei natural estão sujeitos a um conhecimento mais universal, isto é, há certos pontos que como que estão presentes em todos os grupos humanos universalmente, mesmo que de modo indeterminado, sem os quais, as sociedades não subsistem. Por exemplo: suprimir uma vida humana não é como suprimir uma vida animal; o grupo familiar tem de satisfazer certas normas fixas; ou ainda, as relações sexuais têm de conter-se dentro de certos limites.

Por outro lado, há a presença de uma relatividade[10] e de variação que se encontram em certas regras e costumes particulares de acordo com os quais, entre os diferentes povos, a razão humana exprimiu seu conhecimento dos aspectos fundamentais da lei. Assim, tendo em vista o fato de que o conhecimento da lei natural não ocorre a priori, de modo conceptual, mas sim por meio das inclinações naturais do homem, fica claro que os níveis de conhecimento ou consideração da lei natural ocorrem em graus diferentes, o que possibilita o erro de uns, acerto de outros e a possibilidade de uma melhora na consideração desta lei.

Assim, o conhecimento que a razão humana tem da lei natural é um conhecimento obscuro, não sistemático, sujeito tanto a falhas e erros quanto a acertos e progressos.

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Notas:
[1]Maritain, Jacques. O Homem e o Estado. Tradução de Alceu Amoroso Lima, 4º Edição, Rio de Janeiro, Livraria Agir Editora, 1966 p. 88;

[2]Idem

[3] Usaremos essa expressão para diferenciar do homem no sentido mais geral do termo.

[4] Maritain, Jacques. O Homem e o Estado. Tradução de Alceu Amoroso Lima, 4º Edição, Rio de Janeiro, Livraria Agir Editora, 1966 p. 88

[5]Op. Cit. P.89

[6] Op. Cit. p. 90;

[7] Op. Cit. p.92

[8] Idem

[9] Op. Cit. p.93

[10] Uma dose de relatividade e não (jamais!) de relativismo. Partimos aqui da noção de Prudência, que ensina a agir em cada relação particular de modo absoluto referente àquela relação.

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Fonte:
www.somarparavencer.com.br/index.php/2016/10/24/aspectos-ontologico-e-gnosiologico-da-lei-natural

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A história da conversão de um muçulmano – martírio do padre Hamel motivou a decisão final


Por Jorge Soley – Archipiélago Ortodoxia

EM 26 DE JULHO último, o mundo viu-se diante da notícia do martírio do padre francês Jacques Hamel, degolado por jihadistas enquanto celebrava a santa Missa. Poucas horas depois, um jornalista e escritor editorial do Wall Street Journal, de origem iraniana, chamado Sohrab Ahmari, anunciou a sua decisão de se converter à Igreja Católica. Seu testemunho foi um eco importante e foi apresentado como "A conversão de um muçulmano graças ao martírio do padre Hamel".

Agora, Ahmari explica a sua jornada de volta à Casa do Pai, em um artigo publicado no "Catholic Herald", intitulado "Minha jornada de Teerã para Roma" e, embora o impacto do martírio do Padre Hamel tenha-o levado a tornar pública sua conversão, o seu itinerário, como ele mesmo confessa, não tem sido uma conversão irrefletida, mas um tanto longa e complexa.

Ahmari nasceu e passou sua infância no Irã, vivendo num ambiente islâmico opressivo, em que a qualquer momento poderia se confrontar com a moralidade religiosa radical imposta pela polícia. A criança Sohrab concluiu que religião era "pouco mais do que um ritual de hipocrisia pública", e em doze anos de idade decidiu que não havia Deus. Ao mesmo tempo, seus professores tentavam incutir-lhe, nas palavras do próprio, "uma mistura de chauvinismo xiita, antiamericanismo e ódio aos judeus". Alguns anos mais tarde, graças a um tio que havia escapado para os Estados Unidos –, logo depois da revolução islâmica de 1979 –, Ahmari e sua mãe puderam finalmente imigrar e se estabelecer em Utah, um Estado norte-americano de maioria mórmon.

Para esse adolescente iraniano, o "mormonismo foi como um choque: se o islamismo xiita, com a sua rica iconografia e teologia, era nada mais que hipocrisia, o mormonismo, com o consumismo e a ética protestante americana pareciam ainda piores", foi o que percebeu, provavelmente chocado com o imenso abismo que via entre a teoria da confissão religiosa e a prática diária. "Eu tinha ido de uma teocracia para outra", exagera ele.

Já nos seus tempos de universitário, viu-se fascinado por Nietzsche e sua ideia de "superar a ideia de Deus, do bem e do mal, e chegar a uma nova moral (seja lá o qual fosse, porque esse 'detalhe' o filósofo nunca explicou)".

Depois de Nietzsche e a filosofia existencialista, a próxima e inevitável "parada" no itinerário de Ahmari foi o marxismo (versão trotskista), com seus parceiros inseparáveis: "sexo, álcool e drogas". Mas o marxismo nunca foi capaz de responder às questões que tinham a ver com a vida interior de Ahmari, escreve ele. "Ele (o marxismo) não dissipou os meus demônios pessoais e nem me deu uma explicação satisfatória do que hoje chamamos de Estado caído, seja o meu próprio ou os outros. Nem eles e nem a psicanálise lacaniana, ou a Escola de Frankfurt, o pós-estruturalismo ou qualquer das outras filosofias 'da moda' que eu estava conhecendo". Na verdade, nenhuma dessas teorias passou no teste da vida real.

Ahmari foi professor voluntário em uma área muito pobre, próxima da fronteira com o México Texas. Lá, contemplando o que poderia fazer um professor que incutisse a paixão pelo trabalho, disciplina e honestidade em seus alunos, ele começou a perceber o que havia de verdade nas velhas noções de moralidade que tinha desprezado. E percebeu que, sim, "talvez existissem coisas permanentes, afinal... Julgar (quais coisas ou valores seriam estes) implicava algum tipo de padrão universal. E muitas vezes esta regra não surgiu a partir de qualquer coisa externa, mas de uma voz dentro de mim".

Foi então que Ahmari, inexplicavelmente, retomou o caminho para a fé, desta vez na direção certa, de um modo que podemos chamar de histórico-político: "Percebi que 'ideologias que vêem os cidadãos como infinitamente moldáveis aos caprichos do Estado – e a política do Islã moderno se enquadra nestas – foram capazes de criar apenas situações e nações onde houve e há grande sofrimento. Enquanto que o capitalismo, ainda que longe de ser perfeito, incentivou a verdadeira prosperidade humana. Os países capitalistas sempre foram, claramente, mais agradáveis para se viver".

Então Ahmari descobriu o judaísmo – o fundamentos cristão da nossa civilização, com a sua "beleza e ordem, que refletiam uma verdade subjacente" descreve ele.

A visita do Papa Bento XVI aos Estados Unidos, em 2008, marcou mais um passo no longo caminho de Ahmari: "Fiquei profundamente impressionado com as suas palavras e gestos, e eu me lembro de como pensei que aquele era um homem muito santo". Este impacto o levou a adquirir o livro "Jesus de Nazaré", escrito pelo mesmo Papa, e encontrar nele algo que lhe faria descobrir todo um novo Universo: "a ideia de um Deus que se encarna em forma humana". Compreender a Encarnação de Cristo abriu-lhe as portas para as glórias da civilização ocidental e o seu real sentido.

Ahmari tinha chegado à convicção da verdade do cristianismo, mas não estava ainda claro que deveria bater às portas da Igreja Católica. Na verdade, ele frequentava comunidades cristãs "evangélicas"; sua mãe, de fato, integrava já uma destas e se confessava cristã. As razões que o levaram daí à primeira e única Igreja instituída diretamente por Nosso Senhor Jesus Cristo são interessantes e estão resumidas na imutabilidade do dogma, na ortodoxia e na liturgia católica que apresenta o Cristo crucificado e a Virgem Maria:

" A natureza hierárquica da Igreja, tanto repelida pelos meus amigos 'evangélicos', foi um dos fatores que mais me atraiu para ela". Tendo visto a Igreja repelir, ao longo de sua história, milhares de heresias, entendeu que seria menos provável que Roma permitisse que "a ideia cristã original fosse distorcida por alguma nova "moda teológica" do momento.

“E então lá estava a liturgia. Eu ansiava por um culto para dar plena expressão aos Mistérios da fé cristã, e lá estava a Cruz, que tinha que estar lá, mas também o Corpo crucificado de nosso Senhor, com o lado ferido, as mãos sangrentas, as marcas do flagelo e as palmas e pés trespassados. O Sacrifício deve ser renovado, e sua mãe tem que estar lá também, porque ela é nossa ligação com a sua Divindade, com a sua Carne. Em outras palavras, Ele desejava a Missa!”

Em maio 2016, afinal, Ahmari começou os seus estudos da catequese com um padre em Londres. Dois meses depois, como dito no início, tornou pública a sua conversão, movido – como uma espécie de impulso final – pelo martírio do Padre Jacques Hamel. O seu testemunho de conversão nos leva a mostrar que o Senhor tem maneiras surpreendentes, e que nos ajuda a valorizar o dom da fé. De nossa parte, rezemos, como é nossa obrigação, por Ahmari, para que persevere e jamais venha a negar a sua fé recém adquirida, como também pela conversão de todos os povos.


** Artigo indicado pelo colaborador Wagner Marchiori


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Fonte:

Archipiélago Ortodoxia, 'La conversión de un musulmán gracias al martirio del Padre Hamel', disp. em:
http://infocatolica.com/blog/archipielago.php/1610051029-la-conversion-de-un-musulman
Acesso 24/10/016
www.ofielcatolico.com.br

Curas milagrosas: restituição da visão por intercessão do Santo Padre Pio

Santo Padre Pio de Pietrelcina

AS VIDAS DOS SANTOS estão repletas de curas extraordinárias – no santo Evangelho segundo São João, Nosso Senhor profetizou: "Em verdade vos digo que aquele que crê em Mim fará também as obras que eu faço, e ainda maiores do que estas, porque eu vou para o Pai; e tudo quanto pedirdes em meu Nome, Eu o farei, para que o Pai seja glorificado no Filho" (Jo 14,12-13).

Abaixo, disponibilizamos duas curas milagrosas bastante representativas das inúmeras dádivas especiais que o Bom Deus nos têm concedido, dentre as inúmeras que ocorreram nas vidas dos santos ao longo dos séculos. São resumidas descrições de dois milagres de cura ocorridos nos tempos modernos; o primeiro foi especialmente bem documentado por peritos médicos. Por meio deles, Nosso Senhor parece nos dizer uma vez mais: "Filhinhos, tende bom ânimo: Eu venci o mundo!" (conf. Jo 16,33).


A cura miraculosa de Giovanni Savino

Giovanni Savino, um trabalhador da construção civil e membro da Ordem Terceira de São Francisco, foi um filho espiritual devoto do santo Padre Pio. Em fevereiro de 1949, aos seus 35 anos de idade, trabalhava na construção de um anexo do convento onde seu tão amado Padre Pio viveu. Os trabalhadores procediam o nivelamento do solo e preparavam-se para explodir uma enorme rocha que impedia a construção. Era costume de Savino assistir à santa Missa celebrada pelo Padre Pio todas as manhãs, e em seguida ir até a Sacristia pedir a sua bênção. Aos 12 de fevereiro de 1949, Giovanni se assustou quando, sem qualquer explicação, o padre Pio, tendo-o abençoado, abraçou-o e disse: "Coragem, Giovanni, estou rezando ao Senhor para que você não seja morto".

"Padre, o que vai acontecer comigo?", perguntou Savino, assustado, mas o santo sacerdote permaneceu em silêncio. Não era concedido a Savino saber o que lhe aguardava; isto certamente interferiria na experiência que viveria e tiraria o sentido da provação que precisaria enfrentar. No dia seguinte, Padre Pio disse a mesma coisa, sem qualquer comentário adicional, como também novamente fez no terceiro dia. Quando ele repetiu essas observações perturbadoras pela quarta vez, aos 15 de fevereiro, Savino murmurou para um dos frades: "Estou com medo de que algo de errado vai acontecer hoje", e mais tarde disse a alguns colegas: "Não vamos trabalhar hoje", e ainda comentou com eles sobre as advertências de Padre Pio. Mas o grupo de trabalhadores não o ouviu e decidiu prosseguir, implacável, com a explosão da rocha no jardim.

Às 14 horas daquele dia, Savino e outro trabalhador instalaram uma carga de dinamite debaixo da grande pedra. Savino acendeu o pavio, que não detonou a dinamite. Depois de alguns minutos, ele precisou verificar a carga. Assim que se inclinou sobre o dispositivo, a dinamite explodiu em seu rosto...

Dr. Sanguinetti, juntamente com os padres Raffaele e Dominic, estavam ao lado do homem ferido em poucos minutos. Eles carregavam Savino para o carro de Sanguinetti, e o médico o levou ao Ospedali Riuniti, Hospital de Foggia, onde foi internado para uma cirurgia de urgência. Segundo o laudo, "numerosos corpos estranhos" foram retirados da córnea do olho esquerdo de Savino. O olho direito, entretanto, fora completamente destruído. Além disso, seu rosto estava severamente ferido.

Sanguinetti voltou a San Giovanni, onde disse a Rosa, esposa de Savino (que estava grávida): "Os olhos do seu marido foram destruídos", e advertiu-a que não tentasse visitá-lo naquele primeiro momento. Em seguida foi até o Padre Pio e disse-lhe que Savino estava cego: "Ele perdeu a visão", disse.

"Você não sabe que isto ainda não é certo?", respondeu Padre Pio. "Bem, se me disser que você e Nossa Senhora das Graças irão ajudá-lo, tudo é possível; mas, a partir de agora, Giovanni perdeu a visão", respondeu Sanguinetti, desanimado. "Não é certo ainda ", repetiu o santo padre Pio.

Tudo isso ocorreu três dias antes de Savino finalmente recuperar a consciência, despertando com toda a sua cabeça e rosto enfaixados. Foi-lhe dito que poderia ser possível salvar parcialmente o olho esquerdo, mas que o olho direito fora "completamente perdido".

Enquanto isso, Padre Pio estava pedindo a todos os que conhecia que rezassem por Giovanni por três dias. Ele expôs o Santíssimo Sacramento em nome do amigo, agora cego. E disse em oração: "Meu Senhor, eu vos ofereço um dos meus olhos por Giovanni, porque ele é pai de família!"...

Entre 12h30 e 13h do dia 25 de fevereiro, Giovanni Savino estava acordado, rezando o Rosário, quando, segundo o seu depoimento, sentiu o "aroma do Paraíso". Sentiu então três tapas em sua testa e entendeu que era Padre Pio perto dele. Sentiu ainda o aperto causado por alguém que se reclinava contra a cama. "Dá-me a minha visão, padre Pio, ou me deixe morrer", disse, desesperado: "Eu não posso viver assim"...

Mais tarde, naquela manhã, o oftalmologista veio examinar o paciente. Quando o médico retirou as bandagens, Savino exclamou imediatamente: "Eu posso vê-lo!". O médico, sem se abalar, respondeu: "Vire-se, para que possa me ver melhor com seu olho esquerdo"; mas Savino retrucou: "Não, eu o vejo com o meu olho direito. Eu não vejo nada com meu olho esquerdo". O médico insistiu que ele estava vendo com o olho esquerdo, pois a vista direita fora totalmente destruída.

Depois de uma análise mais aprofundada, porém, ficou claro que Savino falara a verdade. Ele estava cego do olho menos afetado, do qual os estilhaços haviam sido removidos, e que segundo a medicina poderia ser ao menos parcialmente recuperado, mas estava enxergando perfeitamente a partir do olho que tinha sido completamente destruído, tornando-se, segundo consta, uma espécie de "geleia sangrenta" dentro da órbita ocular. Não havia, cientificamente falando, a menor possibilidade de tal coisa acontecer. Atônito, o oftalmologista, que até aquele momento tinha sido ateu, exclamou: "Agora eu também acredito, porque isso aconteceu bem diante de mim!"...

Giovanni e seu filho Francesco, que veio a tornar-se capuchinho, a mesma ordem religiosa do Santo Padre Pio ('Francesco' é o primeiro nome de Padre Pio)

Giovanni, que ainda estava em tratamento para as lesões extensas do seu rosto, recebeu alta hospitalar no início de junho. Quando agradeceu às orações de Padre Pio, este respondeu: "Se você soubesse o que isso me custou!"...

Então, o que exatamente lhe custou? Uma pista pode vir das recordações de Pietro Cugino, que relatou que um dia, no jardim, enquanto conversava com seus confrades, Padre Pio exclamou: "Estou cego. Não consigo ver coisa alguma"... Depois de vinte minutos, sua visão voltou. Alguns acreditam que este breve e inexplicável episódio de cegueira poderia ter surgido como resultado da oferta que Padre Pio havia feito em favor de Savino. De qualquer maneira, neste caso específico, Padre Pio não negou a sua intercessão, como fez com outras curas supostas ou acontecimentos sobrenaturais que o cercavam.

Após algum tempo do acidente, Giovanni foi enviado a um especialista em Roma para tratamentos do olho esquerdo, que se mantinha razoavelmente íntegro, apesar da previsão de Padre Pio de que estas visitas não trariam resultado: "Nós já obtivemos a graça que pedimos. Mesmo se você for a Roma, não vai ficar melhor do que está agora". Na verdade, Giovanni permaneceu sempre cego do olho esquerdo; mas até o dia de sua morte, na primavera de 1974, aos 60 anos de idade, ele podia ver perfeitamente bem com o seu olho direito. Sua esposa recordava: "Quando eu olhava para o seu olho (direito), ele sempre me parecia 'uma bagunça'. No entanto, ele podia ver perfeitamente com esse olho!"...

A restauração da visão de Giovanni Savino está bem documentada pelos peritos médicos, os quais têm atestados impressionantes sobre o caso. Os registros do "Ospedali Riuniti", ao qual Savino foi admitido à cirurgia, dão o diagnóstico de que um olho teve "inúmeros corpos estranhos alojados na córnea" (o esquerdo), e que a visão do outro olho fora total e irremediavelmente "apagada". Os registros não mencionam a resolução dos ferimentos. A palavra-chave neste caso é "emoptalmo", que significa completamente seccionado ou, literalmente, "completamente arrancado". Mas, então, como foi que Savino enxergou com este olho na realidade ausente, um olho que fora completamente "apagado"?

Todos os relatórios estão de acordo que o olho direito fora destruído e que estava, de fato, quase que completamente ausente da órbita ocular. Em sua carta circular de julho de 1949, o padre Dominic cita Padre Raffaele, que examinou Savino imediatamente após a explosão, dizendo: ''O olho direito desapareceu completamente. A órbita está simplesmente vazia". O próprio Savino disse que fora informado pelos médicos de que seu olho direito havia "desaparecido completamente". A esposa de Giovanni, Rosa, declarou que apenas "uma pequena quantidade de carne sangrenta" permanecia no lugar do olho quando Savino foi levado para o hospital. Ela sempre negou que seu marido tivesse recebido um "novo" olho, de vidro ou qualquer coisa do tipo. "Foi sempre com seus próprios olhos que ele viu. Seu olho direito era 'uma bagunça', mas ele podia ver com ele", insistia.

De tudo, só se pode concluir que, ao invés de ver com um olho novo ou regenerado, Giovanni Savino enxergou perfeitamente – sem os olhos! – por 22 anos, até a sua morte.

Ao fim, alguns dos nossos leitores poderão se fazer perguntas como estas: por que Deus curaria apenas um dos olhos deste homem? Neste  caso, o milagre está  ter trocado qual dos olhos seria capaz de enxergar; afinal, ele poderia ter voltado a ver com o olho esquerdo, que não foi tão gravemente afetado, mas por intervenção divina foi capaz de enxergar justamente com o olho totalmente destruído. Qual o sentido disto?.. Bem, desnecessário dizer que não somos capazes de alcançar as alturas dos Desígnios de Deus. Porque as coisas são como são, porque há tanto sofrimento no mundo ou porque precisamos passar por determinadas experiências em nossas vidas, são questões que simplesmente não somos capazes de responder.

Deus espera que confiemos n'Ele, sempre e em toda as ocasiões, independentemente das circunstâncias. No caso de Savino, tudo indica que, por algum motivo que não nos cabe agora saber, ele precisaria viver a cegueira em sua vida. Por intercessão do Padre Pio, isso não aconteceu e ele pode viver a sua vida inteira enxergando, mas enxergando  perfeitamente justamente com um olho que, de fato, nem existia mais. Um tremendo milagre. Como atestado ou advertência divina, foi o olho íntegro que permaneceu cego, como que um sinal para que ele e nós todos jamais nos esquecêssemos de tão grande Intervenção divina.


Altar-mor da igreja Santa Maria delle Grazie, em San Giovanni Rotondo (Itália), onde celebrava o Padre Pio

Conversão e cura

Um dia, também em 1919, o padre Carlo Naldi, de Florença, chegou à Santa Maria das Graças com um amigo judeu chamado Lello Pegna. Padre Naldi explicou que seu amigo, que havia recentemente se tornado totalmente cego, viera pedir a Padre Pio para interceder junto a Deus por uma cura.

Padre Paolino, testemunha ocular, deixou-nos algumas notas sobre este caso. Não havia dúvida de que Pegna era cego e que era de fé judaica. Alguém tinha até mesmo que ajudá-lo a comer, botando o prato na sua frente, cortando-lhe o pão e a carne, posicionando o copo de vinho em sua mão. Padre Pio acolheu Pegna, mas disse-lhe: "O Senhor não irá conceder-lhe a graça da visão física a menos que primeiro abra as vistas da sua alma. Depois que for batizado, então o Senhor lhe dará a sua visão".

Alguns meses mais tarde, Pegna voltou, desta vez sem os seus óculos escuros. Ele então explicou que tinha, apesar da oposição de sua família, tornado-se cristão e que tinha sido batizado, como foi solicitado por São Pio de Pietrelcina. No começo, estava desanimado, pois a sua cegueira persistia –, talvez uma outra prova de fé –; mas, gradualmente, ao longo de um período de meses, sua visão voltou, e o médico que o havia informado anteriormente que estava irremediavelmente cego, agora fora surpreendido diante dos olhos perfeitamente curados de seu paciente.

Padre Paolino sentiu que era seu dever manter contato com este homem, que lhe informou, quase trinta anos mais tarde, que sua visão continuava perfeita.


* * *

Acima vimos duas das muitas curas de um santo da Igreja, e porque são de história relativamente recente, representam muito bem as graças extraordinárias que Deus manifesta na vida dos seus servos dedicados ao longo dos séculos.

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Fontes e bibliografia:

• RUFFIN, Bernard. Padre Pio The True Story, Huntington: Our Sunday Visitor Publishing, 1991. 


• Devotions, www.padrepiodevotions.org

 • 'Miraculous healings and cures in the lives of the Saints', disp. em:
www.miraclesofthesaints.com/2010/10/miraculous-cures-in-lives-of-saints.html
Acesso: 20/10/016

www.ofielcatolico.com.br

Bebê acorda em plena madrugada apontando para o céu e dizendo: 'O Rei está chegando!'

Na montanha de La Salete, Alpes franceses, a Santíssima Virgem
profetizou o fim dos tempos, com pesadas críticas aos sacerdotes infiéis

É REALMENTE DIFÍCIL organizar –, para tentar fazer entender –, a vasta quantidade de material disponível nestes nossos tempos, especialmente na internet, sobre a chegada do fim dos tempos ou a "consumação dos séculos" profetizada por Nosso Senhor nos Evangelhos, que aparentemente virá precedida de uma "nova ordem mundial". Existem muitos aspectos a considerar – políticos, econômicos, sociológicos, ecológicos, militares – e estão todos inter-relacionados. Não é fácil apresentar um quadro claro do que está acontecendo nos nossos dias, mas vai-se tornando cada vez mais difícil negar que diversos sinais apontam para o iminente trágico desfecho da civilização humana tal como a conhecemos.

As Sagradas Escrituras e o Catecismo nos advertem: no fim dos tempos haverá um grande colapso no interior da Igreja (destaque nosso):

“Ninguém de maneira alguma vos engane; porque não será assim sem que antes venha a apostasia...”
(2 Ts 2,3)

“Antes do Advento de Cristo, a Igreja deve passar por uma provação final que abalará a fé de muitos crentes. A perseguição que acompanha a peregrinação dela na Terra desvendará o 'mistério de iniquidade' sob a forma de uma impostura religiosa que há de trazer aos homens uma solução aparente a seus problemas, à custa da apostasia da Verdade.”
(CIC § 675)

Afora as numerosíssimas hostes do mal que nos atacam de fora –, desde poderosos veículos de comunicação que nos odeiam até os governos ditos "laicos" que já criminalizam a nossa fé –, vemos as próprias estruturas da Casa de Deus profundamente abaladas. Naufragamos num vasto oceano de escândalos. Os numerosos casos de pedofilia, corrupção de todo tipo e a protestantização do catolicismo somam-se a uma verdadeira obsessão por um falso e anticatólico "ecumenismo" que sugere a igualdade entre todas as doutrinas (recentemente, uma estátua de Martinho Lutero, um dos maiores hereges de todos os tempos e responsável pela perdição de milhões de almas, foi exposta com toda a dignidade em uma igreja católica em Roma, diante da qual posava, sorridente como sempre, nosso pai o Papa).

Enquanto tantas ovelhas do rebanho vão se perdendo, confusas, não podemos deixar de tremer: é inegável que a autêntica fé cristã está ameaçada. Há abundantes sinais ao redor do mundo que parecem confirmar os nossos piores temores; há sinais nos céus, há sinais no mundo, em muitos países; há sinais em nossa cidade. Sabemos de muita coisa, que evitamos mencionar por prudência. Sofremos, cada vez mais, gravíssimos ataques e ofensas. O mais grave é ver que ninguém parece realmente preocupado. Estaremos vivendo agora nossas vidinhas vulgares, sem pensar em nada além das contas a pagar, enquanto que tais pequenos e grandes sinais estejam incessantemente a nos alertar quanto à proximidade de um poderoso evento que mudará nossas vidas para sempre?


* * *

Que os bebês muitas vezes acordam no meio da madrugada chamando seus pais, seja em razão de cólicas, pesadelos ou diversos outros motivos que ás vezes desconhecemos (eu que o diga), não é novidade. Porém, o caso da pequena Lily foi bem diferente, para dizer o mínimo. Sem nenhum motivo aparente, ela despertou durante a madrugada, surpreendendo sua mãe com o anúncio de algo que ela parecia considerar muito importante: “The King is coming!", isto é "O Rei está vindo”. A menina insistia sempre no mesmo alerta, com a expressão muito séria, enquanto que com o dedinho apontava para o céu.

O caso ocorreu em outubro de 2015. Por volta da meia noite, a criança – que tinha cerca de dois anos de idade – acordou seus pais e dizia enfaticamente: “Ele está vindo! Ele está vindo!”. Segundo a mãe, Chelsea Rebecca, ela "falava como que sobre uma visão (...). Eu ainda consegui gravar um vídeo (o qual disponibilizamos logo abaixo). Ela dizia: ‘Ele está vindo! Ele está vindo!’, e quando eu perguntei ‘quem?’, ela respondeu: ‘o Rei!’ e apontava para o alto”...



A mãe explicou que ficou surpresa com o ocorrido, porque a criança não havia aprendido nada sobre aquilo. “Eu não a ensinei a fazer isso. Ela acabou de fazer 2 anos e está começando a dizer palavras e frases”, explicou.

Quanto à “qualidade ruim do vídeo”, Chelsea explicou que estava tentando não deixar a filha descobrir que estava sendo filmada, para manter a naturalidade do momento. “Desculpem o ângulo ruim, mas eu estava tentando esconder a câmera”, explicou.

Chelsea ainda contou que, na manhã seguinte, Lily voltou a fazer o mesmo alerta. “Na manhã seguinte, enquanto estava começando seu café da manhã, ela me disse: ‘Mamãe, abra, porque Deus está chegando’ e então passou a bater na parede 3 vezes”, contou.

Apesar da surpresa que teve ao ver sua filha aparentemente alertando sobre a segunda vinda de Cristo, Chelsea entendeu o real valor daquele momento tão sincero.

“E, depois disso, derramarei do meu Espírito sobre todos os povos. Os seus filhos e as suas filhas profetizarão, os velhos terão sonhos, os jovens terão visões.”
(Jl 2,28)

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Fonte:
Padre Augusto Bezerra, disp. em:
https://augustobezerra.wordpress.com/2016/10/18/bebe-acorda-em-plena-madrugada-dizendo-o-rei-esta-chegando/
Acesso 19/10/016

Milhares marcham em Paris em defesa do casamento formado por homem e mulher e contra a adoção por duplas homossexuais


NO DOMINGO, 16 de outubro, uma grande multidão marchou em Paris (França) para pedir a revogação da lei que aprova as uniões homossexuais e para defender a família como sempre foi –, formada pelo casamento entre homem e mulher –, e manifestar-se contra a exploração das "barrigas de aluguel".

Este evento aconteceu aproximadamente seis meses antes das eleições presidenciais na França e no contexto das eleições primárias do centro e da direita francesa que escolherão o seu candidato.

Na marcha, organizada por "La Manif Pour Tous" ('Marcha para Todos'), estiveram presentes principalmente famílias, com crianças e pessoas da terceira idade. Haviam bandeiras com as silhuetas de uma família formada por pai, mãe e filhos e outras onde estava escrita a frase “Em 2017 voto pela família”.

Em um comunicado publicado em sua página, "La Manif Pour Tous" assinalou que “os manifestantes marcharam pacificamente com entusiasmo e determinação para pedir a François Hollande que detenha a desconstrução da família e da filiação”. Os organizadores da marcha esperam que haja um candidato que defenda a família natural e solicitam a revogação da lei que permite as uniões homossexuais.

“Após quatro anos de debate sobre o casamento e a adoção para todos, o movimento social de ‘La Manif Pour Tous’ está vivo, e muito vivo”, assinalaram no comunicado. Em 2013, convocaram uma marcha em Paris, da qual participaram mais de um milhão e meio de pessoas, para pedir ao governo socialista do então presidente François Hollande que retirasse o projeto de lei que permitia o casamento homossexual e a adoção de casais do mesmo sexo.

** Veja a página do movimento no Facebook

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Fonte:
ACI Digital, disp. em:
http://www.acidigital.com/noticias/fotos-200-mil-marcham-em-paris-em-defesa-do-casamento-formado-por-homem-e-mulher-27759/
Acesso 18/10/016
www.ofielcatolico.com.br

Cardeal Sarah, pastor de almas exemplar e zeloso guardião da sagrada Liturgia


“CORREMOS O RISCO de reduzir o sagrado Mistério a bons sentimentos”, advertiu o Prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, Cardeal Robert Sarah, em uma entrevista na qual recordou a importância do silêncio dentro da Liturgia como caminho para chegar a Deus, destacado inclusive pelo Concílio Vaticano II.

“O silêncio não é uma ideia; é o caminho que permite aos seres humanos chegar a Deus”, afirmou o Purpurado em declarações ao jornal francês “La Nef” por ocasião da publicação do seu livro intitulado “A força do silêncio: contra a ditadura do barulho”.

O Cardeal não hesitou em declarar que “o silêncio sagrado é uma lei fundamental em toda a celebração litúrgica” que permite aos fiéis ingressar no profundíssimo Mistério que se  está celebrando. “O Concílio Vaticano II enfatiza que o silêncio é um meio privilegiado para promover a participação do povo de Deus na liturgia”, afirmou durante a entrevista divulgada em inglês pelo “The Catholic World Report”.

Advertiu ainda: “Sob o pretexto de tornar mais fácil o acesso a Deus, alguns quiseram que tudo na Liturgia fosse imediatamente inteligível, racional, horizontal e humano. Mas, atuando desse modo, corremos o risco de reduzir o Mistério sagrado a [meros] bons sentimentos”. Relacionamos abaixo uma coletânea de suas inspiradoras – e principalmente necessárias – exortações/advertências, as quais nos permitem uma santa reflexão e um mergulho profundo no pensamento deste autêntico e digno pastor de almas dos nossos tempos:

“Sob o pretexto da pedagogia, alguns sacerdotes permitem inúmeros comentários insípidos e mundanos. Esses pastores temem que o silêncio na Presença do Altíssimo possa desconcertar os fiéis? Acreditam que o Espírito Santo é incapaz de abrir os corações aos divinos Mistérios derramando sobre eles a luz da Graça espiritual?”

“Deus é silêncio e o demônio é barulhento. Desde o princípio, Satanás procurou esconder as suas mentiras sob uma agitação falaciosa, ressonante.”

“[Em nossa época] o ruído chegou a ser como uma droga da qual nossos contemporâneos são dependentes. Com sua festiva aparência, o ruído é um redemoinho que evita que cada pessoa se olhe cara a cara e enfrente o vazio interior. É uma mentira diabólica. O despertar pode ser somente brutal”.

“Recuperar o sentido do silêncio é uma prioridade e uma necessidade urgente. A verdadeira revolução vem do silêncio, esta nos dirige a Deus e aos outros e assim podemos nos colocar humildemente a seu serviço.”

“O silêncio é o tecido do qual nossas Liturgias devem ser cortadas. Nada nelas deveria interromper a atmosfera silenciosa, que é o seu clima natural.”

“A Liturgia é mística. Enquanto nos aproximarmos dela com um coração ruidoso, terá uma aparência humana, superficial. O silêncio litúrgico é uma disposição radical e essencial; é uma conversão do coração.”

“Como podemos entrar nesta disposição interior a não ser dirigindo o nosso olhar, todos juntos, sacerdote e fiéis, para o Senhor que vem, para o leste simbolizado pela abside, onde o Trono é a cruz?”

“A orientação ao exterior nos leva à orientação interior que esta simboliza. Desde os tempos apostólicos, os cristãos foram familiarizados com esta maneira de rezar. Não é uma questão de celebrar de costas para o povo ou olhando para eles, mas para o Oriente, ad Dominum, para o SENHOR! (...) Esta forma promove o silêncio. Olhando para Deus, o celebrante está menos tentado a ser um professor que faz leituras durante toda a Missa, reduzindo o Altar a um pódio, centrado já não na Cruz, mas no microfone. O sacerdote deve se recordar sempre de que ele é somente um instrumento nas mãos de Deus e que nossas palavras humanas são ridículas comparadas à única Palavra Eterna. E isto não deve chegar a ser ocasião de um choque ideológico entre facções, pois estamos falando da nossa relação com Deus.”

“Como tive a oportunidade de dizer recentemente, durante uma entrevista privada com o Santo Padre, aqui só estou fazendo as sugestões sinceras de um pastor preocupado com o bem dos fiéis. Não tenho a intenção de colocar uma prática contra a outra. Se não for fisicamente possível celebrar ad Orientem, é absolutamente necessário pôr uma cruz no Altar, em plena vista, como um ponto de referência para todos. Cristo na cruz é o Oriente cristão.”

“É tempo de aprender do Concílio Vaticano II, em vez de utilizá-lo para justificar nossas preocupações sobre a criatividade ou defender nossas ideologias mediante a utilização das sagradas armas da Liturgia. Reler o Concílio permitiria que evitemos que os ofertórios sejam desfigurados por demonstrações que estão mais relacionadas com o folclore do que com a Liturgia.”

“A Liturgia sempre deve ser reformada a fim de ser mais fiel a sua essência mística. O que é chamado ‘reforma da reforma’ e que nós talvez devamos chamar ‘mútuo enriquecimento dos ritos’, para adotar uma expressão do magistério de Bento XVI, é uma necessidade espiritual. Portanto, isto corresponde a ambas as formas do rito Romano.”

* * *

Após esta luminosa e poderosa enxurrada de necessárias verdades, lançadas corajosamente e sem meios tons às faces dos homens que ultimamente vêm conduzindo a Igreja de Cristo, tantas vezes empenhados, sim, em manifestar a Caridade, porém negligenciando a pregação da Verdade – e esquecendo-se que na dimensão da Igreja uma não subsiste sem a outra – Cardeal Sarah não se esqueceu de nos exortar a todos, fiéis católicos, a não desperdiçarmos precioso tempo contrastando uma Liturgia com a outra, ou o rito antigo ao do Beato Paulo VI: “O diabo quer que estejamos uns contra os outros e não no verdadeiro Sacramento da unidade e da Comunhão fraternal”, assinalou. “É tempo de acabar com esta desconfiança, desprezo e suspeita. É tempo de redescobrir um coração católico. É tempo de redescobrirmos juntos a beleza da Liturgia”, concluiu.

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Fonte:
ACI Digital, 'Cardeal Sarah adverte risco de reduzir a Missa a bons sentimentos', disp. em
www.acidigital.com/noticias/cardeal-sarah-adverte-risco-de-reduzir-a-missa-a-bons-sentimentos-45546
Acesso 11/10/016
www.ofielcatolico.com.br

Como S. Francisco é diferente de Lutero – ou Reforma Católica vs. Reforma Protestante


Por Dr. Taylor Marshall
– tradução livre de Henrique Sebastião


ESSENCIALMENTE, FRANCISCO de Assis nos ensina que não podemos lutar contra heresias através da criação de novas heresias. São Francisco sempre se submeteu à Igreja, aos Papas e aos Bispos.

Sempre que a dita "reforma" começa com ações contra a Igreja institucional, mais heresia surge. Por exemplo, em muitos aspectos, a heresia monofisita (ou seja, Cristo tem uma só natureza) foi uma reação exagerada à heresia nestoriana (Cristo tem duas pessoas). A Igreja Católica sempre procurou apontar diretamente para a verdade, e não apenas à destruição de erro. Demasiadas vezes a refutação do erro leva para outro erro.

Da mesma forma, Lutero e Calvino buscavam deslocar mal-entendidos sobre a Graça e mérito (ou seja, o nominalismo com defeito gerado por William de Ockham), criando uma visão alternativa de Graça e mérito (assim, ironicamente, abraça o nominalismo de Ockham, apenas 'reembalando-o'). A "solução" de Lutero era, na verdade, herética. Uma solução rápida é frequentemente defeituosa. A fita adesiva pode "consertar" quase tudo – mas, eventualmente, dará lugar a outros problemas.

As páginas da História da Igreja estão repletas de reformadores católicos: desde Paulo, Atanásio, passando por João Crisóstomo, João Damasceno, o Papa Gregório VII, Francisco de Assis, Domênico, Catarina de Sena, Inácio de Loyola, Teresa de Ávila, etc. Cada um desses reformadores católicos manteve a unidade da Igreja de Cristo submetido à liderança da Igreja, e pacientemente trouxeram renovação. Em muitos casos, esses renovadores sofreram a perseguição de outros cristãos e até mesmo caíram em suspeita de heresia. No entanto, sua humildade e silêncio finalmente vieram a confirmar a sua causa como defensores da verdade evangélica da Doutrina de Cristo.

São Francisco de Assis é talvez um dos melhores exemplos de paciência aplicada na causa da Reforma. Quando ele foi a Roma buscar o reconhecimento do Papa, este despediu-o com impaciência e disse-lhe para ir "deitar-se com os porcos".

Sim... Eram outros tempos. Mas, depois de algum tempo, Francisco voltou, todo sujo, roupas manchadas e fedorentas das fezes de suínos. Quando o Papa se opôs à sua entrada, Francisco respondeu: "Obedeci tuas palavras e apenas fiz o que disseste; deitei-me com os porcos". De repente, o Sumo Pontífice percebeu que estava diante de um santo homem, disposto a obedecer mesmo em face da humilhação. Assim, o Papa ouviu o que Francisco tinha a dizer para uma necessária renovação dos usos e e práticas dos filhos da Igreja naquela época, e o resto é História.

Quando rejeitado pelo Papa, S. Francisco de Assis poderia ter apelado à Sagrada Escritura, mostrando que este seu padrão de vida pobre e humilde era como o de Cristo. Ele poderia até ter contrastado sua própria "vida bíblica" contra a extravagância da corte papal da época. Francisco tinha razão para estar angustiado, bem o sabemos, e poderia ter repreendido aqueles abades, bispos e cardeais por sua falta de testemunho evangélico. Mas, em vez disso, seguiu o caminho de Cristo; aceitou ser incompreendido e caluniado, sabendo que Deus responderia por ele e às suas reivindicações, se fossem mesmo justas. e Deus nunca desampara (uma causa justa como a sua).

Contraste entre São Francisco de Assis e Martinho Lutero: Lutero não visitou Roma para a confirmação da sua causa, nem procurou respeitar as estruturas da Igreja. Na verdade, o cardeal Cajetan reuniu-se em particular com Lutero e explicou-lhe como poderia modificar a sua mensagem para que fosse aprovada pela Cúria Romana e consequentemente considerada. Se Lutero tivesse se movido com mais cautela e caridade, poderia até – quem sabe – ter se tornado "São" Martinho Lutero.

Infelizmente, Lutero foi inflexível e orgulhoso. Ele não considerou seu compromisso de obediência para com a Igreja de Cristo. Se o Papa não estava de acordo com ele, então ele iria rejeitar a própria instituição do papado (desde Pedro). Lutero não iria tolerar qualquer autoridade que se recusasse a apoiá-lo, imediatamente e sem questionar. Consequentemente, quando a Bula papal chegou, Lutero a queimou publicamente e começou a amaldiçoar o Papa como Anticristo.

Observe a diferença entre Francisco e Lutero. O primeiro movia-se com paciência e humildemente. O último agiu de forma independente e precipitadamente. Consequentemente, a história do protestantismo é marcada por paixão cega, imprudência e divisão precipitada – como resultado, agora existem 36.000 denominações protestantes(!).

Como escreveu S. Tiago Apóstolo: "A ira do homem não produz a Justiça de Deus" (Tg 1,20). A História mostra que Deus não usa "cabeças-quentes" para guiar sua Igreja na justiça. Deus escolhe os pequenos, mansos e humildes – para tais é o Reino dos Céus.

Aí reside o mistério da autêntica Reforma Católica.

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Fonte:
MARSHAL, Taylor, 'How St Francis differed from Martin Luther or Catholic Reform vs. Protestant Reform', disp. em:http://taylormarshall.com/2016/10/how-st-francis-differed-from-martin-luther-or-catholic-reform-vs-protestant-reform.html?utm_source=Taylor+Marshall%27s+Updates&utm_campaign=ec98bc26bd-RSS_EMAIL_CAMPAIGN&utm_medium=email&utm_term=0_64accbc3c7-ec98bc26bd-59435393&ct=t(Regular_Blog_Updates_Campaign)
Acesso 4/10/016
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