Música Sacra, a revolução gótica

NO VÍDEO abaixo, o ator e ex-corista Simon Russel Beale empreende uma fascinante jornada musical pela velha Europa, em 600 anos de música sacra, em meio a um visual belíssimo. Eventos marcantes como o surgimento dos corais polifônicos, a construção da majestosa Catedral de Notre-Dame, a chamada renascença italiana e o rompimento de Henrique VIII com a Igreja criaram dilemas que influenciaram profundamente os compositores da época e, consequentemente, a compreensão da música como tal.


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Jesus e a Religião


UM LEITOR QUE se identifica como “Volnei” enviou-nos a seguinte mensagem:

Mais uma vez [vejo neste site] as intriguinhas religiosas, que me enojam cada vez mais... Deus não tem religião. Deus não criou nenhuma religião. E a prova de que a religião não salva ninguém é Jesus Cristo, que nasceu no meio de uma família judaica, e e sendo judeu, por tradição familiar, Jesus nos ensinou que o caminho da salvação está nele. O problema de católicos, protestantes, espíritas, etc, é que colocam a religião acima de Deus. Fé cega faca amolada. Ficam uns falando mal dos outros, e todos estão errados. Os católicos acham que a igreja foi fundada pelos católicos, mas se estudassem um pouco de história, descobririam que ela na verdade foi fundada pelo imperador romano Constantino, que queria apenas o poder, já que não conseguiu destruir os seguidores de Cristo, 'juntou-se' a eles, com o único objetivo de ganhar poder.

Com relação à adoração de imagens, a Bíblia é bem clara com relação a isso, e mostra que Deus não admite adoração às imagens. E outra, que sentido teria Deus enviar seu filho ao mundo para morrer? Os católicos não acreditam que Jesus tem poder suficiente para nos ajudar? Por que pedir a Santos, se eu posso pedir a Jesus? Ele mesmo disse que tudo que pedires em meu nome eu atenderei! Essa adoração à Maria tb, não consigo entender, não há na Bíblia uma razão sequer para endeusá-la, pois é assim que ela é tratada pelos católicos, como uma Deusa, e pior ainda, mãe de Deus. Como ela pode ser mãe de Deus se foi Deus quem a criou? Só existe um caminho, cuja porta é estreita, e esse caminho é Jesus Cristo. Pertencer a essa ou aquela religião, não vai te salvar.

A religião causa desavenças, guerras, confusão... Quantas mortes, guerras, foram causadas pela igreja católica, quantos índios foram mortos,quantas crianças estupradas, quantos escravos foram feitos em nome da 'igreja'. Quantas pessoas são roubadas todos os dias por pastores, padres e falsos lideres religiosos? E ainda tem gente que defende essas igrejas a ponto de brigar com o próximo, ignorando o mandamento maior: O Amor! A religião é o mal do mundo! A religião é uma tentativa criada pelo homem de se chegar até Deus. Aqueles que adoram a religião, poem Deus em segundo plano e ficam cegas! Jesus é o caminho, a religião é um falso atalho!

Prezado Volnei, pelo conteúdo do seu comentário fica claro que você não possui o necessário conhecimento a respeito dos assuntos sobre os quais pretende opinar. Neste caso, não é tão grave ignorar a verdade quanto, além de não saber, manter esta acirrada convicção de que sabe, que é “doutor” abalizado para criticar e impor suas visões parciais como se fossem fatos insofismáveis e de aceitação obrigatória. Assim não se aprende nada de novo. Quem acredita que já sabe tudo o que há para se saber sobre determinado assunto está enclausurado nas próprias convicções; tapa os ouvidos para tudo o que soa diferente do conjunto das suas “certezas” e deixa escapar o mais importante: a verdade.

Em primeiro lugar, este site não serve, absolutamente, às “intriguinhas religiosas”, como você diz, de qualquer espécie. Tratamos aqui, primordialmente, de catequese, procurando evitar o desrespeito e as agressões, tanto as que aparecem nas perguntas que nos são feitas (são muitas as que não publicamos, infelizmente, justamente por este motivo) e nem nas respostas dadas – embora sejamos forçados a reconhecer que a religião é um tema sempre delicado, já que envolve convicções profundas e acalentadas com zelo.

E então você vem com aquele discurso tão comum, e infelizmente tão medíocre quanto falso: “Deus não tem religião, Deus não criou nenhuma religião”... Bem, o mínimo que você terá que fazer, pelo bem da verdade, é admitir que essa afirmação depende direta e completamente do seu ponto de vista e que é, no mínimo, controversa. “Deus não criou religião” na opinião de quem? Baseado em quê, exatamente, você o afirma com tanta convicção? Na sua própria sensibilidade?

Entenda bem, Volnei: antes de qualquer coisa, para saber se Deus criou religião ou não – se religião é importante ou não, se religião salva ou não – precisamos estabelecer o ponto fundamental desta afirmação, que é definir o que é "religião", afinal de contas. Como é que se pode apresentar qualquer proposição, a respeito de qualquer coisa, sem compreender bem o que essa coisa é, antes de tudo? Para emitir opinião sobre determinado assunto, preciso conhecê-lo, eis o óbvio do óbvio! Sem isso, eu não estarei emitindo opinião, mas simplesmente impondo meu “achismo” como verdade absoluta – e proclamando a minha ignorância ao mundo.


O significado da palavra – necessário ponto de partida

Para começarmos a compreender a questão, comecemos pelo começo: o que, afinal, é “religião”? Aqui não importa saber o que eu acho, nem o que você supõe. Precisamos encontrar a definição pura e precisa da palavra, livre do que sugerem as deduções e imaginações particulares. Façamos então o mais simples e certo: consultemos o léxico. Nem o que você pensa nem o que eu suponho, mas sim o que este vocábulo realmente quer dizer em nosso idioma. Pois bem; no Michaelis, constam as seguintes definições para “religião”: “Serviço ou culto a Deus; sentimento consciente de dependência ou submissão que liga a criatura humana ao Criador; culto externo ou interno prestado à divindade; fé; prática dos preceitos divinos ou revelados”1. Já o Caldas Aulete digital traz: “Respeito ou reverência às coisas sagradas; fé; piedade. Concepção de vida ou atitude diante do mundo. Vínculo a uma forma de pensamento ou crença que encerra uma concepção filosófica, ética etc. O que se considera dever sagrado”2.

Ao reproduzir acima o texto dos dicionários, quis destacar em negrito as assertivas mais importantes; acabei por notar, porém, que as definições são vitais por inteiro! Cada sinônimo dado à palavra ajuda sobremaneira a esclarecê-la, e esclarecê-la muito bem. Em nosso idioma, a palavra religião quer dizer simplesmente:

• O culto a Deus, seja externo (que se presta por meio dos nossos atos, das posturas que adotamos perante a vida, das nossas obras) ou interno (em nossa fé mais profunda, nossa espiritualidade, nossa devoção e santo amor a Deus e ao próximo).

• O sentimento de dependência que nos liga ao Criador: em outras palavras, reconhecer nossa pequenez, humildade e insuficiência diante da infinitude, supremacia e onipotência divinas – o que afinal significa, simplesmente, adoração.

• A fé. Note-se bem que fé e religião são sinônimos. Ter fé é ter religião, e quem não tem religião não tem fé. Mesmo quem não integra alguma instituição religiosa específica ou não adota determinada doutrina formal, se professa fé na existência de Deus, isto já é uma forma de confissão religiosa.

• A prática dos preceitos divinos ou revelados. Quem pratica a Vontade de Deus, que se expressa nos seus preceitos, pratica a verdadeira Religião.

• Respeito ou reverência às coisas sagradas. Respeitar, reverenciar (que por sua vez é um sinônimo de adorar) a Deus é praticar a Religião.

• Concepção de vida ou atitude diante do mundo: esta definição é das mais essenciais: nossa concepção da própria vida, aquilo que entendemos das coisas, a atitude que assumimos diante do mundo... tudo isso é reflexo da religião que professamos.

• Vínculo a uma forma de pensamento ou crença que encerra uma concepção filosófica, ética etc. O vínculo mental (e, na nossa fé, espiritual) que une as pessoas à sua própria filosofia de vida e que modela a sua ética (conjunto dos princípios que motivam, distorcem, disciplinam ou orientam o comportamento humano) é o que chamamos religião.

• O que se considera dever sagrado. Religião significa também o conjunto do que cultivamos como nossos deveres sagrados, isto é, toda ação que praticamos devido a nossa fé em Deus.


Indo além: a origem da palavra

A partir da simples compreensão do significado literal, toda a questão vai-se tornando bem clara. Já no seu sentido original, a palavra, que deriva do latim religio, religionis, quer dizer “cultoprática religiosa, cerimônia, lei divina, santidade3. Existe alguma controvérsia quanto à etimologia da palavra, no sentido de se definir de qual verbo esse substantivo seria a forma nominal: de religare ou de religere, mas o fato é que essa definição não é muito importante, já que os significados de um e de outro são muito próximos, e o sentido que para nós interessa permanece o mesmo.

Religare
significa “religação”: quer dizer “religar, reatar, [voltar a] ligar bem e justamente”4. A tese de que a palava deriva do religare vem desde Lactâncio (séc III/IV dC). No caso que ora estudamos, por óbvio, religare quer dizer religar ao Divino, a Deus. O ser humano, por seu egoísmo, ignorância, fraquezas, apegos e desejos desordenados (Pecado) encontra-se afastado, separado, "desligado" de seu Criador. Religião, assim, é o ato ou a prática de se retomar essa ligação perdida, sendo que, no contexto do Cristianismo, Jesus Cristo veio para nos trazer exatamente isto.

Na outra versão, a forma derivaria de relegere, que quer dizer “retornar, reler, rever, reaver, revisitar, retomar o que estava largado ou perdido”5. O filósofo Cícero (em 'De Natura Deorum', de 45 aC), defendeu esta etimologia. Nesse caso, para os cristãos, religião se referiria ao ato de ler e reler incessantemente a Palavra ou Verbo de Deus, Cristo, ou, mais profundamente, de retornar incessantemente ao Caminho, que para nós, cristãos, é o mesmo Cristo; ou, ainda, retomar a Comunhão original com Deus. Religião, assim, é recuperar ou retomar a dimensão verdadeiramente espiritual da vida, da qual as preocupações e cuidados mundanos tendem a nos afastar.

Mais certo, impossível. Quem procura realmente conhecer a verdade, sem antepor outros interesses ao desejo sincero de saber o que é verdadeiro, não se confunde. O fato é que, se estamos falando de Cristianismo, sim, Deus criou Religião, e a verdadeira Religião é fundamental para que nos aproximemos d'Ele.


* * *

Agora, tendo compreendido bem do que exatamente estamos falando, retomamos o raciocínio de Volnei:

E a prova de que a religião não salva ninguém é Jesus Cristo, que nasceu no meio de uma família judaica, e e sendo judeu, por tradição familiar, Jesus nos ensinou que o caminho da salvação está nele. O problema de católicos, protestantes, espíritas, etc, é que colocam a religião acima de Deus.

A partir deste ponto, notamos como a afirmação acima carece de qualquer fundamento: se, como afirma, Nosso Senhor ensinou que o Caminho da salvação está n'Ele, então nós precisamos "segui-lo", isto é, ouvir o que Ele diz, observar o que ensinou, imitar o seu exemplo, etc.; pois bem: fazer estas coisas é exatamente praticar a Religião. Logo, essa separação radical entre Jesus e a Religião revela-se absurda; simplesmente não é possível. Vemos que toda a confusão se dá apenas pelo fato de o leitor atribuir ao vocábulo “religião” um significado equivocado.

Usaremos de alguns exemplos para ajudar a clarear ainda mais a questão: Jesus mandou a Igreja batizar aqueles que cressem e aderissem ao Evangelho. Celebrou e mandou celebrar a Eucaristia em sua memória. Prescreveu-nos regras morais bem definidas. Edificou a sua Igreja sobre o Apóstolo Pedro e conferiu aos seus Apóstolos a missão de conduzir esta mesma Igreja, dando-lhes autoridade para tanto. Mandou que confessássemos os nossos pecados e decretou que os pecados que seus Apóstolos (e seus sucessores, consequentemente) não perdoassem, não seriam perdoados. Pois bem, são estes alguns exemplos do que a Igreja faz e ensina a fazer, obedecendo ao que ensinou Jesus Cristo. A todo este conjunto de coisas é que chamamos Religião.

se estudassem um pouco de história, descobririam que ela na verdade foi fundada pelo imperador romano Constantino, que queria apenas o poder, já que não conseguiu destruir os seguidores de Cristo, 'juntou-se' a eles, com o único objetivo de ganhar poder...

Então quer dizer, Volnei, que “a história” diz que Constantino inventou a Igreja? Que estória é essa!? Aqui você despenca, sem perceber, num poço profundo, de ignorância e preconceito da pior espécie. Saia dessa, você é capaz! Com muita humildade, preciso dizer que o grupo que constitui o apostolado responsável por este site é composto de pessoas graduadas e graduandos dirigidos por pessoas graduadas, inclusive professores-doutores – nas Letras, em História, Filosofia e/ou Teologia – e dignos sacerdotes. Digo-o não com arrogância, mas para deixar claro que não estamos aqui jogando palavras ao vento ou nos aventurando a falar daquilo que desconhecemos. Por outro lado, parece que a sua fonte foi algum gibi ou livreto de contos fantásticos. Ou (bem mais provável) você ouviu essa tolice da boca de algum ignorante/mal-intencionado e lhe atribuiu peso de verdade absoluta, sem se importar em conferir, confirmar, confrontar versões contraditórias para conhecer a realidade.

Então, por favor, já que você nos recomenda estudar, queremos saber quais as sua fontes, para que possamos aprender e corrigir eventuais enganos. Se preciso, publicaremos uma retratação formal. Esperamos ansiosamente.

Retornando à realidade, o que a História mostra, de fato, é que Constantino revogou a proibição do culto cristão no Império romano, através do Edito de Milão. No tempo de Constantino, o Papa era Melcíades, 32º Sumo Pontífice da Igreja depois de Pedro6, e estes são dados históricos mais do que comprovados. Assim, não há como se afirmar que Constantino seja o fundador da Igreja, já que ele apenas deu liberdade de culto à Igreja de Cristo – que obviamente já existia desde o ano I da Era Cristã – acabando com mais de dois séculos e meio de perseguição e martírios. Trata-se de uma questão bastante simples, fácil de compreender e impossível de se negar. É preciso um altíssimo grau de alienação da realidade para aceitar a ideia de que tenha sido um imperador romano o fundador da Igreja, a partir do século IV. Nenhuma igreja protestante histórica (das mais antigas) adota esse tipo de teoria da conspiração. Se quiser entender melhor essa questão, por favor, leia aqui, pois já a esclarecemos em detalhes.

Aliás, Volnei, você flagrantemente se contradiz ao afirmar que Constantino, não conseguindo vencer os cristãos, “juntou-se a eles”. Ora, mas não foi ele quem fundou a Igreja? Se ele se juntou à Igreja para “ganhar apenas poder”, como diz, então você admite que a Igreja já existia antes dele.

Outro ponto de fundamental importância quanto a este assunto é saber que foi exatamente no período de Constantino que a Igreja Católica definiu o cânon bíblico, isto é, definiu quais livros comporiam a Bíblia Sagrada dos cristãos, com os 27 livros do Novo Testamento unanimemente aceitos por todos os que confessam o Nome de Jesus Cristo, desde sempre e até hoje. Como é que se pode, então, pretender observar a Bíblia sem reconhecer a autoridade da Igreja que nos deu a mesma Bíblia? Querer interpretar, por conta própria, a Bíblia, filha legítima da Igreja? Por óbvio, temos que admitir que a Igreja foi necessariamente conduzida pelo Espírito Santo para reconhecer quais eram (e são) as verdadeiras Sagradas Escrituras, produzidas sob a Inspiração do mesmo Espírito, daqueles outros escritos que circulavam entre as primeiras comunidades dos cristãos, descartando-os como apócrifos. Como tal seria possível, se a Igreja estivesse corrompida sob a “paganização” de Constantino?


Imagens na Igreja (mais uma vez) e religião

Com relação à adoração de imagens, a Bíblia é bem clara com relação a isso, e mostra que Deus não admite adoração às imagens...

E aí vem você, depois de uma centena de outros ditos “evangélicos”, berrar mais uma vez aos nossos ouvidos que "adoramos" imagens, que imagem na Igreja é sinônimo de idolatria... Bem, nós já respondemos a essas acusações muitas e muitas vezes, também. Sabemos porém que a paciência é uma grande virtude cristã. Agradecemos por mais esta oportunidade de exercitá-la.

Antes de entrar no esclarecimento da questão, quero entender bem o seu ponto de vista: quer dizer que, para você, “a Bíblia é clara em proibir as imagens”? Mas você disse que não tem religião! Ora, se você crê na Bíblia, então você tem religião, sim senhor. E, pelo teor da sua fala, pelas suas acusações e premissas básicas, a sua é a “religião do livro”, aquela que ensina que ser cristão e ser fiel a Deus se resume à interpretação particular do Livro Sagrado. Você é, como está bem claro, mais um “evangélico” doutrinado em grossos preconceitos, que memorizou algumas passagens das Sagradas Escrituras e se acha no direito de caluniar a Igreja Católica, – a mesma Igreja que produziu e canonizou, sob a inspiração do Espírito Santo, a Bíblia que lev debaixo do braço.

Você anda lendo bem a Bíblia? Lê com boa vontade, com o desejo sincero de encontrar a Verdade? Ou você diz “amém” para tudo o que diz o “pastor”? A Bíblia diz que Deus, diretamente, ordena a confecção de imagens, em diversas situações: manda esculpir e colocar querubins sobre a Arca da Aliança, o objeto mais sagrado do Antigo Testamento. Manda Moisés esculpir uma serpente de bronze, através da qual opera a cura no povo. Manda Salomão construir o seu Templo sagrado repleto de imagens, com esculturas de anjos, de bois, de leões, de querubins de duas cabeças, de seres alados, etc, etc... E veja bem, são imagens de uso cultual, relacionadas diretamente ao culto divino. Está tudo na Bíblia.

Então, vou explicar de novo: idolatria não é usar imagem no culto; isso sempre aconteceu, desde o tempo de Moisés: o problema estava nas imagens dos ídolos, as imagens dos deuses pagãos. Idolatria seria adorar uma imagem como se fosse Deus ou um deus. Isso é tão óbvio! Você acha mesmo que nós, católicos, somos tão ignorantes a ponto de achar que estátuas são deuses? Eu não acredito que você realmente pense assim. Acho que você só teve uma formação equivocada e foi influenciado por algum falso profeta que chamam “pastor”, então perdeu a capacidade de pensar por si mesmo. Então, se você tem humildade para aprender, leia aqui o que já publicamos sobre esse tema tão gasto. Se quiser aprofundar, há mais aqui.


Contestações 'evangélicas': as mesmas de sempre

Quanto ao restante da sua mensagem, perdoe-me a informalidade, mas é o mesmo blablabla de sempre: pedir aos santos, “adorar” Maria, a Igreja como grande vilã da História... Sobre essa pequena coletânea de sofismas, só posso lhe deixar uma dica de ouro: estude, estude e estude, e estude sem interesse prévio, imparcialmente. Não queira comprovar esta ou aquela opinião, mas busque antes e acima de tudo a verdade. Ao final deste artigo, deixo uma pequena lista de bons livros sobre o assunto, de autores isentos e respeitados. São obras acadêmicas e outras de leitura mais fácil, mas todas para quem quer realmente aprender e não se deixar afundar no poço do preconceito e da alienação.

Para adiantar outros possíveis (e previsíveis) futuros questionamentos seus, deixo logo abaixo uma lista com as respostas católicas às principais contestações “evangélicas” já respondidas neste site:

** Índice de respostas católicas para acusações protestantes e 'evangélicas'


Deus o abençoe e lhe conceda discernimento

Henrique Sebastião

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Notas:
1. MICHAELIS, Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa online.

2. D
icionário online CALDAS AULETE.

3. RODRIGUES. Sérgio. Religião vem de ‘reler’ ou ‘religar’?, Veja.Com/Colunistas, disp. em:
http://veja.abril.com.br/blog/sobre-palavras/consultorio/religiao-vem-de-reler-ou-religar/
Acesso 8/10/016


4. Idem

5. Ibidem

4. BIANCHI, Ugo. The Notion of 'Religion' in Comparative Research. Roma: L'erma di Bretschneider, 1994, p. 63-73.

5. Idem

6. MCBRIEN, Richard P. Os Papas, de São Pedro a João Paulo II, São Paulo: Loyola, 2ª ed. 2004, pp. 59ss.

_________
Bibliografia recomendada:

 – História e ação da Igreja na História

• 
DANIEL-ROPS. Coleção História da Igreja, São Paulo: Quadrante.


• SESBOÜÉ, Bernard; WOLINSKI, Joseph; 
THEOBALD, Bernard. Coleção História dos dogmas, tomos 1 a 4, São Paulo: Loyola.

• WOODS Jr. Thomas E. Como a Igreja Católica Construiu a Civilização Ocidental, São Paulo: Quadrante, 2008.

 – Dúvidas protestantes sobre a Igreja Católica:

• HAHN, Scott & Kimberly. Todos os Caminhos Levam a Roma, Lorena: Cléofas, 2013.


• HAHN, Scott. O Banquete do Cordeiro, São Paulo: Loyola, 2006.

• BETTENCOURT. Estevão. Católicos Perguntam. São Paulo: Mens. de Sto Antônio, 1997.


 – Sobre a Inquisição:

• GONZAGA, João Bernardino G. A Inquisição em seu Mundo. São Paulo: Saraiva, 1993.

• PERNOUD, Régine. Luz Sobre a Idade Média. Sintra: Europa-América, 1981.

• HEERS, Jacques. A Idade Média: uma Impostura. Lisboa: Asa, 1994.

• GIMPEL, Jean. A Revolução Industrial da Idade Média. Sintra: Europa-América, 2001.


• CAMMILIERI, Rino. La Vera Storia dell´Inquisizione, Piemme: Casale Monferrato, 2001.

• AYLLÓN, Fernando. El Tribunal de la Inquisición; De la leyenda a la historia. Lima, Fondo Editorial Del Congreso Del Perú, 1997.


• WALSH, William T. Personajes de la Inquisición. Madrid, Espasa-Calpe, S. A., 1963.


• FALBEL, Nachman. Heresias Medievais. São Paulo: Perspectiva S. A., 1977.

• Revista História Viva nº 32, especial Grandes Temas / "A Redescoberta da Idade Média", São Paulo: Duetto março/2011, p. 52.

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Sinais, Gestos e Símbolos da Santa Missa


DESDE OS primeiros séculos, os cristãos sentiram a necessidade de expressar seus louvores a Deus através de gestos, símbolos e sinais, que fossem também compreensíveis a todas as pessoas. Assim, com o passar dos séculos, a Liturgia da Missa se desenvolveu e se enriqueceu. Para aproveitar as inúmeras graças concedidas durante a Santa Missa, todo fiel deve tentar conhecê-la melhor e não simplesmente repetir o que os outros fazem ou dizem, sem saber o porquê. A Missa compreendida pode ser mais amada, e muito bem amada! No entanto, ninguém ama aquilo que não conhece e, dessa forma, acaba por não se beneficiar tanto quanto poderia.


Gestos, Símbolos e Sinais

Assim como toda a nossa vida, também a Missa é formada por gestos, símbolos e sinais. São meios humanos para expressar a adoração, a reparação, o agradecimento e as súplicas que podemos elevar a Deus, além de nossas intenções pessoais. Obviamente, tudo isso possui significado específico dentro da Missa, que deve ser celebrada e assistida de maneira lúcida e não de qualquer modo; em caso contrário, perdem o seu imenso, tremendo valor. Quando fazemos algo sem saber o seu significado e o seu motivo, que valor poderá ter para Aquele a quem é dirigido? Portanto, toda Liturgia é formada por estes três elementos: Sinal, Símbolo e Gesto.



Sinais – Sinal é o que nos faz lembrar ou que representa algo, seja um fato ou um fenômeno, presente, passado ou futuro. Para deixar um exemplo vulgar, quando colocamos galhos ou ramos de árvores em uma curva na estrada, alertamos aos outros carros que pode haver um acidente ou veículo parado na estrada, logo após a curva. Podemos dizer que o sinal ou figura é sempre menor que o seu significado. Um outro e melhor exemplo de sinal, dentro do ambiente cristão, é o uso da vela: a chama de uma vela acesa pode significar a Luz Divina ou claridade da vida eterna, que nunca se acaba. Observe que ambos os exemplos, mundano e sagrado, são do conhecimento universal.



Símbolos – O símbolo, ao contrário do sinal, exige um conhecimento especial prévio. Pode não representar nada para as pessoas que não convivem num determinado meio ou não pertencem a certo ambiente. Os primeiros cristãos desenhavam cruzes e peixes nas catacumbas onde se escondiam da perseguição romana. Por que peixes? Porque a palavra "peixe", em grego (IXTUS), correspondia à abreviação da expressão "Jesus Cristo Filho de Deus Salvador".



Gestos – 
Os gestos são movimentos que fazemos com nossos braços, mãos, pés, cabeça, etc., ou, ainda, com todo o nosso corpo, e que também possuem significados. Na Missa, os gestos devem ser sinceros, pois são dirigidos ao Sagrado. E quando todos fazem o mesmo gesto, demonstra-se a unidade da comunidade. Unir as palmas das mãos durante a oração significa súplica e entrega a Deus; ajoelhar-se pode significar adoração; inclinar a fronte significa concordância; elevar as mãos pode significar louvor e/ou ação de graças. Sentar-se com o tronco ereto e o corpo voltado para o Altar significa atenção.

Quando se evoca a Presença Real de Jesus Cristo na Comunhão Eucarística, é importantíssimo que você compreenda a maravilha e a magnitude do que ocorre naquele momento: o Apóstolo São Paulo diz que quem se aproxima indignamente da sagrada Mesa, come e bebe sua própria condenação (1Cor 11, 28-29). É difícil ser mais severo do que isso, e com toda a justiça! Quando o Corpo e o Sangue de Cristo forem elevados pelo sacerdote, adore e agradeça. Aproxime-se da Sagrada Eucaristia com reverência: é Deus mesmo que você vai receber!

Antes e acima de tudo, lembre-se: você deve assistir à Santa Missa com gratidão e alegria no coração; com devoção, profundo amor e reverência. Você está participando da Renovação do Sacrifício de Nosso Senhor Jesus Cristo para a sua salvação e de toda a humanidade. Nunca se esqueça do quão importante é isto.
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Cristianismo, capitalismo e comunismo – conclusão

SEGUE A CONTINUAÇÃO de nosso artigo em resposta à mensagem que recebemos de um leitor sobre a relação, – possível ou não, – entre a fraternidade e comum unidade entre os primeiros cristãos, conforme descrita no Livro de Atos, e as ideias socialistas/comunistas...




A utopia da igualdade

Neste ponto faz-se necessário esclarecer um outro aspecto da questão toda: porque é que afirmamos, ao longo de toda esta nossa explanação, que a proposta de igualdade do comunismo é utópica, isto é, fantasiosa, ilusória, algo que jamais foi realizado no passado (como sabemos) e que nunca será no futuro?

A pergunta pode parecer complexa, mas a resposta é simples: as coisas são assim porque os homens jamais serão iguais, simplesmente porque esta não é a Vontade de Deus.

Muitos encontram dificuldades nesta questão. Mas, sim, é a mais pura verdade teológica apresentada nos Evangelhos e na Sã Doutrina cristã da Igreja de Cristo, desde sempre. O Criador nos fez diferentes, desde o início. Somos diferentes uns dos outros desde o nascimento, e a diversidade talvez seja a maior maravilha da Criação! Não somos fabricados "em série", não somos moldados em fôrmas e nem sequer somos feitos de material genético 100% idêntico. Após décadas de incansável doutrinação marxista, as pessoas de nossos dias andam tão obcecadas pela ideia de "igualdade" que chegam ao ponto de querer igualar a dignidade e os direitos dos seres humanos com os dos animais! Nunca se ouviu tanto dizer que os cachorros são "membros da família", e o pior, não se está afirmando isso figuradamente: muita gente anda realmente igualando seus próprios filhos a cães, em todos os sentidos!

As diferenças na criação são mais do que evidentes, e as diferenças entre pessoas e pessoas são grandes, podendo ser vistas a todo momento e em toda parte. No fundo, todos sabemos e percebemos este fato inquestionável. É o cúmulo da hipocrisia “politicamente correta”, por exemplo, negar que diferentes raças humanas possuem traços genéticos característicos que as definem, e que essas características transcendem os construtos sociais ou a mera cultura adquirida. Poderíamos usar as modalidades esportivas para exemplificar esta óbvia realidade: pessoas negras têm grande e inata facilidade para toda uma gama de esportes, como o atletismo, as corridas e outras. Mas têm dificuldade para a natação (fato estudado por geneticistas respeitados: é por isso que vemos tantos atletas negros em competições de velocidade e resistência, mas praticamente nenhum nas piscinas). Estudos demonstram que o biotipo afro tem o quadril mais proeminente e, geralmente, maior força glútea do que as outras raças (o que facilita em muitos esportes), sendo que, por outro lado, por essa carga, o atleta tem mais atrito e menos flutuabilidade: mais esforço, menos rendimento.

Qualquer um que mencionar o simples fato biológico descrito acima, porém, correrá o risco de ser taxado de "preconceituoso" pela patrulha politicamente correta de plantão.

Já os asiáticos são exímios ginastas olímpicos e, via de regra, possuem aptidão para as lutas, mas não costumam se dar bem em competições de força, que, por sua vez, é uma especialidade dos europeus, e por aí se vai... Mais do que habilidade adquirida, existe uma propensão natural para tanto, uma facilidade física, uma tendência natural, uma aptidão que vem da própria genética, do biotipo, – que por sua vez é dado por Deus a cada um. – E não há nada de ruim nisso, assim como não há nada de errado ou de racista ao reconhecê-lo; pelo contrário, é uma linda arte saber usar e aprimorar ainda mais os nossos talentos individuais, com os quais nascemos.

É claro que poderíamos facilmente extrapolar a dimensão meramente física. Alguns são mais aptos para os estudos e a intelectualidade, outros para a música, outros ainda para outras artes; algumas classes de seres humanos são mais contemplativas, dadas ao silêncio e à quietude, sendo naturalmente disciplinadas, outras são mais expansivas, possuem maior tendência para as relações sociais, etc, etc, etc...

Toda a realidade que mencionamos acima, porém, vai bem além da mera questão racial. Como dissemos, todo e cada ser humano é único, e que tremenda maravilha é isto! Este que vos escreve mesmo, sempre teve facilidade para escrever, desde criança. Mesmo antes de aprender a ler, eu me entretinha por horas a fio com livros e revistas, que preferia aos brinquedos. Aprendi a falar com poucos meses, e a escrever anos antes de ir para a escola; sempre tive habilidade com as palavras. Por outro lado, sempre fui péssimo com a organização; tenho grande dificuldade em administrar o meu tempo, as minhas gavetas, a minha lista de tarefas diárias... Se não fosse minha esposa, não sei o que seria de mim!

Já meu irmão mais velho é completamente diferente: trata-se da pessoa mais organizada e disciplinada que já conheci. E ele sempre foi assim, desde criança. Observe-se bem que, aqui, a diferença não tem tanto a ver com genética, já que somos filhos da mesma mãe e do mesmo pai. Ocorre que nós, seres humanos, somos verdadeiras maravilhas da natureza, individualmente. Cada um de nós é um milagre irrepetível, constituído de um imenso universo de características únicas. Graças a Deus por isso!

Se uns têm talento para as artes, outros para as atividades físicas e outros nascem para exercer a intelectualidade, a sociedade humana precisa de todos nós, cada um com suas habilidades específicas. Alguns de nós são mais fortes, outros mais velozes, outros mais inteligentes, – observando-se neste tópico que existe toda uma gama de inteligências diferentes (lógico-matemática, musical, espacial, emocional, linguística, corporal, interpessoal, intrapessoal, etc) e todas são importantes para o indivíduo e para a coletividade. Sim, é uma verdade inegável: alguns nascem mais aptos intelectualmente, outros fisicamente, e tudo faz parte da maravilha da vida conforme criada por Deus. Não há ofensa em dizer que João é mais inteligente do que José, até porque ser mais inteligente nem sempre é ser melhor. O que diferencia os homens perante Deus é o caráter, a boa vontade, a pureza da alma.



A necessidade da hierarquia

Sempre houve hierarquia no mundo, desde o tempo das tribos errantes, e sempre haverá, porque sem isto reinaria o caos, voltaríamos à pré-Pré-História (embora os homens das cavernas já seguissem um líder); tornaríamo-nos menos até que animais irracionais, já que os bichos também têm as suas hierarquias próprias: o leão mais forte e hábil comanda o bando, o cervo mais rápido conduz os demais, o lobo mais esperto comanda a matilha. Até as formigas, abelhas e vespas têm sua rainha. – Logo, é antes de tudo uma estupidez absoluta e primária pregar a luta de classes, como se a hierarquia fosse algo ruim, como se os mais ricos fossem sempre, necessariamente, os malvados opressores, e os mais pobres fossem sempre os "coitadinhos", as eternas vítimas.

Jesus falava igualmente a todos, ricos e pobres, e tinha bons e próximos amigos ricos. Assentava-se à mesa com justos e pecadores, e também com ricos e pobres. Seu corpo santo, após o Sacrifício salvador, foi resgatado e sepultado dignamente por um homem rico e devoto.

O cristianismo não se opõe à hierarquia nem à existência das classes sociais, muito menos à propriedade privada, muito pelo contrário. No sentido contrário, é a luta contra estas coisas que define o comunismo. Quando perguntaram a Jesus se era justo pagar impostos, deram-lhe a oportunidade perfeita para esclarecer o assunto, de uma vez por todas. Se o cristianismo tivesse alguma coisa a ver com a ideologia comunista, o Senhor teria dito algo como: "Esses impostos são injustos... Vocês estão sendo explorados... Lutem por uma sociedade igualitária... Os romanos são opressores... Vós, da classe trabalhadora, são explorados..."...

Mas o que o Cristo realmente disse? “Dai a César o que é de César” (Mc 12,17). Ele não improvisou um discurso de "libertação" contra a tirania romana nem incentivou a luta armada contra os poderes temporais. Ele fez o oposto disso tudo, e disse também: "e "O meu Reino não é deste mundo" (Jo 18,36), e ainda mais: "Pobres, sempre os tereis" (Jo 12,8). Não há como negar que a pregação de Cristo é o exato oposto de tudo o que propõe o ideário marxista, e para não enxergá-lo é preciso um altíssimo grau de cegueira voluntária!

Além de tudo isto, Jesus Cristo nunca disse que no Reino de Deus todos são ou serão iguais. Ao contrário, Ele nos diz que (atenção) no Céu também há e haverá hierarquia: alguns são maiores e outros menores, assim como João Batista é "o maior entre os nascidos de mulher", porém é "menor que o menor dos habitantes do Céu" (Mt 11,11).

A Sagrada Escritura atesta também que o Arcanjo Miguel é o príncipe das milícias celestes, isto é, ele comanda outros anjos, ocupando um posto hierárquico superior ao de outros anjos ou outras classes de anjos. Neste sentido, a Teologia cristã trata não só da hierarquia dos coros dos anjos como também dos diferentes níveis do próprio Céu (biblicamente são, pelo menos, três Céus). Na parábola do banquete de casamento (Lc 14), o Senhor nos revela que alguns se assentarão mais à frente e mais próximos de Deus, e outros mais atrás, pois a cada um o Criador recompensará segundo suas obras (Rm 2 6).

Em tudo isso vemos que o próprio conceito do comunismo, – a sua ideia central, de igualdade absoluta entre todos os homens, – é contrária ao Plano divino para a sua Criação. Deus não nos fez iguais, e cabe a cada um sua dignidade própria. E ser cristão é, antes de tudo, aceitar a Vontade de Deus. De fato, a negação deste princípio básico constitui, exatamente, a essência do pecado original. Mais do que isso, podemos afirmar sem medo de errar que a essência mesma do comunismo é nada menos que diabólica, e assim o faz a santa Igreja:

Por toda a parte se faz hoje um angustioso apelo às forças morais e espirituais; e com toda a razão, porque o mal que se deve combater é antes de tudo, considerado em sua primeira origem, um mal de natureza espiritual, e desta fonte é que brotam, por uma lógica diabólica, todas as monstruosidades do comunismo.
(Divinis Redemptoris, 77)

Exagero, dirão alguns. Por que tanta cisma, porque tanta aversão ao comunismo? A resposta é elementar: renegar a Vontade de Deus e querer a igualdade foi a primeira tentação de Satanás ao homem: “Sereis iguais a Deus!”. Está aí a tentação primária, original, a quintessência do mal, que nos afasta de Deus. É por isso que todas as vezes em que o regime comunista foi implantado, como resultado, religiosos foram perseguidos, templos foram destruídos, sacerdotes foram massacrados.

O eco da voz da antiga serpente continua ecoando ainda hoje no mundo, com força sempre renovada, pois somos fracos. Queremos ser iguais, não admitimos as diferenças que Deus criou, muito menos as hierárquicas. Não admitimos que alguém saiba mais, possa mais, seja mais ou importe mais do que nós, em qualquer nível. Por isso Caim matou Abel. E quanto mais nos empenhamos em diminuir toda diferença, toda desigualdade, mais próximos estamos do sonho de Satanás de ser igual a Deus, porque no supremo delírio esta é a barreira final a ser derrubada.

Sonhamos com um mundo em que não seremos menores do que ninguém, onde poderemos olhar a todos como iguais. Um mundo onde não haverá pais e filhos, mestres e aprendizes, Criador e criaturas. Um mundo onde não há lugar para Deus. "Imagine que não há Paraíso; é fácil se você tentar; nenhum inferno abaixo de nós e acima de nós apenas o céu", cantou John Lennon. Que não exista nada maior do que eu mesmo, nada acima de mim. Recusamo-nos a reverenciar qualquer um como maior do que nós próprios, porque queremos ser os nossos próprios deuses. Mas esta não é a realidade criada por Deus, esta não é a Vontade divina. Este é o desejo primal do demônio.

Evidentemente, não estamos falando aqui sobre igualdade de oportunidades que a sociedade tem obrigação de dar, aí sim, igualmente, a todo cidadão, sem discriminação de espécie alguma. Não estamos dizendo que uns são superiores e outros inferiores em dignidade. Todo os seres humanos são igualmente dignos e amados por Deus, que saberá julgar a cada um com justiça, não por sua condição social, financeira, racial. Sem dúvida que todos merecem os mesmos direitos, o mesmo respeito e as mesmas oportunidades. Estamos falando, isto sim, de aceitar o óbvio: não somos iguais em sentido absoluto, nunca fomos e não seremos. Graças a Deus por isso!



Sobre o capitalismo, a pobreza e a prosperidade

O post sobre a declaração do cantor “Bono Vox” não elabora (e nem nós o fazemos) uma relação totalmente dependente entre religião e política. O texto não diz (e nem nós dizemos) que o cristianismo não poderia se desenvolver num regime político "A", "B" ou "C", – ainda que a História tenha deixado mais do que claro, como já vimos, que comunismo e cristianismo não se coadunam de maneira nenhuma. O que o texto diz (e aqui sim, concordamos 100% com ele) é que o dito capitalismo (um termo de cunho pejorativo criado por Karl Marx), se humanizado, ainda é o sistema que mais pode fazer pela dignidade do ser humano, pelo fim da pobreza crônica, pela amenização das desigualdades sociais. Tão doutrinados estamos pelo marxismo cultural, nas escolas e pelos veículos de comunicação de massa, que para alguns essa afirmação parece contraditória, mesmo que reflita a mais pura e simples realidade.

Eu e minha esposa trabalhamos por longa data para a Caritas Arquidiocesana de São Paulo, um organismo da Igreja responsável por captar e distribuir recursos, a nível internacional, às populações sofredoras em qualquer parte do mundo. Trabalhamos especificamente no centro de acolhida para refugiados, e pudemos compreender muito bem o caso de alguns dos países mais miseráveis do mundo, como Serra Leoa, Eritreia, Guiné Bissau, etc. Acontece que essas nações recebem todos os anos, sistematicamente, altíssimos volumes em dinheiro (estou falando de muitas centenas de milhões de dólares) dos países mais desenvolvidos, na forma de doações e ajuda humanitária, e esse tipo de ajuda vem aumentando tremendamente na última década (veja aqui).

Qual o resultado desses verdadeiros rios de dinheiro doados? Respondo: concretamente, o fato é que a miséria só aumenta. Observe-se bem que não se trata de opinião pessoal, aqui; estamos citando dados concretos e bem conhecidos (uma breve pesquisa na internet será suficiente para comprová-lo). Dado oficial: nas últimas décadas, aproximadamente 1 trilhão de dólares(!) foram transferidos de países ricos para a África, com resultados concretos iguais a zero1.

Diante de uma realidade tão clara, ver que tanta gente custa a entender o óbvio me leva a crer que há um motivo maior, um propósito divino inexorável que leva o mundo a caminhar para o abismo, porque é assim que tem que ser, ou porque ao príncipe deste mundo foi dado grande poder para produzir o caos. A verdade simples, – óbvia e auto-evidente, – é que o que aquelas pessoas, que vivem em situação de constante sofrimento e humilhação precisam é de desenvolvimento, e não de esmola; sem isso, de nada adiantará repartir as riquezas, porque isso nunca resolverá o problema.

Ainda que todos os países mais desenvolvidos do mundo abrissem mão da metade de tudo o que possuem e doassem o montante para essas nações miseráveis, em pouco tempo, os pobres estariam pobres de novo, e no mesmo intervalo as nações que antes eram mais ricas estariam novamente mais ricas. O que aconteceria é que meia dúzia de ditadores de ideologia socialista iriam se deliciar com a renda extra por alguns anos, até a fonte secar novamente. Nada mais.

Agora citamos, por exemplo (para citar um exemplo bem conhecido), o caso do empresário e apresentador de TV Sílvio Santos (Senor Abravanel): um homem que claramente recebeu um dom muito especial para produzir e administrar altos recursos, alguém que construiu um grande império praticamente a partir do nada, um empresário talentoso que iniciou sua fulgurante carreira como camelô ilegal, vendendo canetas e capinhas de plástico para título de eleitor nas ruas do centro velho de São Paulo (fugindo da fiscalização, muitas vezes perdendo todo seu investimento e recomeçando seu ‘micronegócio’ do zero). Eu estudei a vida deste verdadeiro gênio do empreendedorismo através de entrevistas e do livro de Arlindo Silva (fora de catálogo, pode ser adquirido na Estante Virtual) e posso afirmar que ainda que tirássemos deste homem, – no auge da sua forma, – tudo o que tinha, em pouquíssimo tempo ele estaria rico de novo.

Da mesma maneira, posso dizer que conheço muita gente que caminha no sentido oposto: pessoas pobres as quais, ainda que recebessem uma fortuna, em poucos anos estariam novamente falidas, dependendo da ajuda alheia. Há uma série de estudos, alguns relativamente bem conhecidos (veja aqui), que apontam que pessoas pobres que ganharam fortunas em loterias, ao redor do mundo, depois de algum tempo caíram na miséria de novo.

Não, a solução para a miséria no mundo não tem nada a ver com luta de classes, nem depende de se dividir a riqueza, como muitos ingenuamente ainda acreditam. O velhíssimo ditado continua válido, porque sempre foi verdadeiro: "Ajuda bem mais aquele que ensina a pescar do que aquele que divide o peixe".

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1. GIANINI, Tatiana, "África: a ajuda não ajuda?", Website Planeta Sustentável, seção "Desenvolvimento", Editora Abril, disponível em:
http://planetasustentavel.abril.com.br/noticia/desenvolvimento/filantropia-ajuda-africa-doacao-onu-520647.shtml
Acesso 7/5/014
ofielcatolico.com.br

A Didaqué: a Instrução dos Apóstolos

Cristograma com Alfa e Ômega – Inscrição escavada na antiquíssima Basílica de São Lourenço Extramuros (Roma, Itália)

O DOCUMENTO conhecido como Didaqué (Διδαχń) é antiquíssimo; remonta aos tempos da primeiríssima geração da Santa Igreja. É anterior a alguns livros da própria Bíblia Sagrada, tendo sido escrito provavelmente antes do Evangelho de S. João, do Apocalipse e de algumas das epístolas.

"Didaqué"
é uma palavra grega que significa "instrução" ou "doutrina", e a obra era conhecida como "A Instrução dos Doze Apóstolos", – o que lembra muito o que diz o livro de Atos (2,42) sobre "o ensinamento dos Apóstolos". Assim como ocorre com relação a alguns livros do Novo Testamento, torna-se uma tarefa mais do que complexa precisar se a obra foi escrita diretamente por algum(ns) dos Apóstolos de Jesus ou sob a sua orientação, e se foi produzida por um só ou por vários autores.

De todo modo, trata-se indiscutivelmente de uma preciosidade documental, um conjunto de textos que nos permite um mergulho profundo no inconsciente dos primeiros seguidores de Jesus, contemporâneos dos Apóstolos e/ou de seus sucessores diretos; um olhar impressionantemente vivo e preciso sobre a maneira de ser e pensar das comunidades cristãs de dois mil anos atrás.

Atualmente, a maior parte dos estudiosos parece concordar que a obra é fruto da reunião de várias fontes escritas e/ou orais, que retratam a tradição viva das comunidades cristãs do primeiro século. Os locais mais prováveis de sua origem são a Palestina e a Síria.

A Didaqué é um manual da Religião, uma espécie de Catecismo dos primeiros cristãos: era o principal referencial escrito com que os primeiros seguidores do Cristo contavam além das Escrituras hebraicas (o conjunto organizado de livros que compõem a Bíblia Cristã, tal como a conhecemos hoje, ainda não estava completo nem definido). Esse documento, portanto, nos permite entender melhor as origens do cristianismo, nos dá uma ideia de como eram a iniciação, as celebrações, a organização e a vida das primeiras comunidades. O(s) autor(es) dirige(m) seus ensinamentos especialmente às comunidades formadas pelos primeiros convertidos, que vinham principalmente do paganismo.

O conteúdo e o estilo da Didaqué lembram imediatamente muitos textos do Antigo e do Novo Testamento, bem como outros escritos do século I dC. – O tom e os temas de muitas exortações se parecem bastante com os da literatura sapiencial e com diversos trechos dos Evangelhos canônicos. Dessa forma, esse Catecismo original é um testemunho incrivelmente preciso do modo de vida da Igreja primitiva. Entre outros elementos essenciais da fé da Igreja de sempre, o texto menciona Bispos e Diáconos, além dos Sacramentos do Batismo, da Confissão ou Penitência e da Eucaristia.

Um ponto notável é o clima de preocupação que a comunidade vive, dentro de uma sociedade estruturalmente pagã, de não se confundir com o ambiente, de não se deixar manipular por aproveitadores oportunistas disfarçados de profetas. Sente-se também uma esperança um pouco nervosa de uma escatologia (fim dos tempos) próxima. O tema da perseverança heroica no caminho da fé é outra característica marcante das comunidades nascentes, que ainda estão descobrindo a sua vocação e a sua missão no mundo.

Abaixo, disponibilizamos o conteúdo integral da Didaqué, para todos aqueles que desejam aprofundar seus conhecimentos a respeito da fé, das origens da Igreja e das raízes da verdadeira doutrina cristã. Que seja útil.



A DIDAQUÉ: A INSTRUÇÃO DOS DOZE APÓSTOLOS

"O Caminho da Vida e o caminho da morte"

Capítulo I

1 Existem dois caminhos: um da vida e outro da morte [Cf Jer 21,8; Dt 5,32s; 11,26-28; 30,15-20; Ecli 15,15-17]. A diferença entre ambos é grande.

2 O caminho da vida é, pois, o seguinte: primeiro amarás a Deus que te fez; depois a teu próximo como a ti mesmo [Cf Dt 6,5; 10,12s; Ecli 7,30; Lev 19,18; Mt 22,37]. E tudo o que não queres que seja feito a ti, não o faças a outro [Cf Mt 7,12; Lc 6,31].

3 Eis a doutrina relativa a estes mandamentos: Bendizei aqueles que vos amaldiçoam, orai por vossos inimigos, jejuai por aqueles que vos perseguem. Com efeito, que graça vós tereis, se amais os que vos amam? Não fazem os gentios o mesmo? Vós, porém, amai os que vos odeiam e não tenhais inimizade [Cf Mt 5,44s; Lc 6,27s; 6,32s].

4 Abstém-te dos prazeres carnais [Cf 1Ped 2,11]. Se alguém te bate na face direita, dá-lhe também a outra e tu serás perfeito. Se alguém te obrigar a mil (passos), anda dois mil com ele. Se alguém tomar teu manto, dá-lhe também tua túnica. Se alguém toma teus bens, não reclames, pois de todo o jeito não podes [Cf Mt 5,39ss; Lc 6,29].

5 Dá a todo aquele que te pedir, sem exigir devolução. Pois a Vontade do Pai é que se dê dos seus próprios dons. Bem-aventurado é aquele que dá conforme a lei, pois é irrepreensível. Ai daquele que toma (recebe)! Se, porém, alguém tiver necessidade de tomar (receber), é isento de culpa. Mas se não estiver em necessidade, terá que se responsabilizar pelo motivo e pelo fim por que recebeu. Colocado na prisão, ele não sairá de lá, até ter pago o último quadrante (centavo) [Mt 5,25s; Lc 12,58s].

6 Mas é verdade que a este propósito também foi dito: Que tua esmola sue em tuas mãos, até souberes a quem dar [Cf Ecli 12,1].


Capítulo II

1 O segundo mandamento da Instrução (dos Doze Apóstolos) é:

2 Não matarás, não cometerás adultério; não te entregarás à pederastia, não fornicarás, não furtarás, não exercerás magia nem bruxaria (charlatanice). Não matarás criança por aborto, nem criança já nascida; não cobiçarás os bens do próximo.

3 Não serás perjuro [Cf Mt 5,33; Ex 20,7] nem darás falso testemunho; não falarás mal do outro nem lhe guardarás rancor.

4 Não usarás de ambiguidade nem no pensamento nem na palavra, pois a duplicidade é uma trama fatal [Cf Prov 21,6].

5 Tua palavra não seja falsa, nem vã; mas, ao contrário, seja cheia de sinceridade e seriedade (comprovada pela ação).

6 Não serás cobiçoso nem rapace, nem hipócrita, nem malicioso, nem soberbo. Não nutrirás má intenção contra teu próximo [Cf Ex 20,13-17; Dt 5,17-21].

7 Não odiarás ninguém, mas repreenderás uns e rezarás por outros, e ainda amarás aos outros mais que a ti mesmo (que tua alma).


Capítulo III

1 Meu filho, evita tudo o que é mau e semelhante ao mal.

2 Não sejas odiento ou rancoroso, pois o ódio conduz à morte; nem ciumento, nem brigão ou provocador, pois de tudo isso nascem os homicidas.

3 Meu filho, não sejas cobiçoso de mulheres, pois a cobiça conduz à fornicação. Evita a obscenidade e os maus olhares, pois de tudo isto nascem os adúlteros.

4 Meu filho, não te dês à adivinhação, pois ela conduz à idolatria. Abstém-te também da encantação (feitiçaria) e da astrologia e das purificações, nem procures ver ou ouvir (entender) estas coisas, pois tudo isto origina a idolatria.

5 Meu filho, não sejas mentiroso, pois a mentira conduz ao roubo; não sejas avarento ou cobiçoso de fama, pois tudo isto origina o roubo.

6 Meu filho, não sejas furioso, pois isto conduz à blasfêmia; não sejas insolente nem malvado, pois tudo isto origina as blasfêmias.

7 Sê, antes, manso, pois os mansos possuirão a Terra [Cf Mt 5,5; Sl 31,11].

8 Sê longânime (têm grandeza de ânimo), misericordioso, sem falsidade, tranquilo e bom, e guarda com toda a reverência a instrução ouvida.

9 Não te eleves a ti mesmo e não entregues teu coração à insolência; não vivas com os "grandes" (deste mundo), mas com os justos e humildes.

10 Tu aceitarás os acontecimentos da vida como sendo bons, sabendo que a Deus nada daquilo que acontece é estranho.


Capítulo IV

1 Meu filho, lembra-te dia e noite daquele que te anuncia a Palavra de Deus e o honrarás como ao Senhor, pois onde se proclama sua Soberania aí está o Senhor presente [Cf Hb 13,7].

2 Todos os dias procurarás a companhia dos santos, para encontrar apoio em suas palavras.

3 Não causarás cismas, mas reconciliarás os que lutam entre si. Julgarás de maneira justa, sem considerar a pessoa na correção das faltas [Cf Dt 1,16s; Pr 31,9].

4 Não te demorarás em procurar o que te há de acontecer (adivinhação do futuro) ou não.

5 Não terás as mãos sempre estendidas para receber, retirando-as quando se trata de dar.

6 Se possuíres algo, graças ao trabalho de tuas mãos, dá-o em reparação por teus pecados.

7 Não hesitarás em dar e, dando, não murmurarás, pois algum dia reconhecerás quem é o verdadeiro Dispensador da Recompensa.

8 Não repelirás o indigente, mas antes repartirás tudo com teu irmão, não considerando nada como teu, pois, se divides os bens da imortalidade, quanto mais o deves fazer com os corruptíveis [Cf At 4,32; Hb 13,16].

9 Não retirarás a mão de teu filho ou de tua filha, mas desde sua juventude os instruirás no temor a Deus.

10 Não darás ordens com rancor ao teu povo ou à tua serva, que esperam no mesmo Deus que tu, para que não percam o temor de Deus que está acima de todos. Com efeito, Ele não virá chamar segundo a aparência da pessoa, mas segundo a preparação do espírito.

11 Vós, servos, sede submissos aos vossos senhores como se eles fossem uma imagem de Deus, com respeito e reverência [Cf Ef 6,1-9; Col 3,20-25].

12 Detestarás toda a hipocrisia e tudo o que é desagradável ao Senhor.

13 Não violarás os mandamentos do Senhor e guardarás o que recebeste, sem acrescentar nem tirar algo.

14 Na assembleia, confessarás tuas faltas e não entrarás em oração de má consciência. – Este é o caminho da vida.


Capítulo V

1 O caminho da morte é o seguinte: em primeiro lugar, é mau e cheio de maldições: mortes, adultérios, paixões, fornicações, roubos, idolatrias, práticas mágicas, bruxarias (necromancias), rapinagens, falsos testemunhos, hipocrisias, ambiguidades (falsidades), fraude, orgulho, maldade, arrogância, cobiça, má conversa, ciúme, insolência, extravagância, jactância, vaidade e ausência do temor de Deus;

2 Perseguidores dos bons, inimigos da verdade, amantes da mentira, ignorantes da recompensa da justiça, não-desejosos do bem nem do justo juízo, vigilantes, não pelo bem, mas pelo mal, estranhos à doçura e à paciência, amantes da vaidade, cobiçosos de retribuição, sem compaixão com os pobres, sem cuidado para com os necessitados, ignorantes de seu Criador, assassinos de crianças, destruidores da obra de Deus, desprezadores dos indigentes, opressores dos aflitos, defensores dos ricos, juízes iníquos dos pobres, pecadores sem fé nem lei. – Filho, fica longe de
tudo isso.


Capítulo VI

1 Vigia para que ninguém te afaste deste caminho da instrução, ensinando-te o que é estranho a Deus [Cf Mt 24,4].

2 Pois, se puderes portar todo o jugo do Senhor, serás perfeito; se não puderes, faze o que puderes.

3 Quanto aos alimentos, toma sobre ti o que puderes suportar, mas abstém-te completamente das carnes oferecidas aos ídolos, pois este é um culto aos deuses mortos.


"Celebração Litúrgica"

Capítulo VII

1 No que diz respeito ao batismo, batizai em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo em água corrente [Cf Mt 28,19].

2 Se não tens água corrente, batiza em outra água; se não puderes em água fria, faze-o em água quente.

3 Na falta de uma e outra, derrama três vezes água sobre a cabeça em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.

4 Mas, antes do batismo, o que batiza e o que é batizado, e se outros puderem, observem um jejum; ao que é batizado, deverás impor um jejum de um ou dois dias.


Capítulo VIII

1 Vossos jejuns não tenham lugar com os hipócritas; com efeito, eles jejuam no segundo e no quinto dia da semana; vós, porém, jejuai na quarta-feira e na sexta (dia de preparação).

2 Também não rezeis como os hipócritas, mas como o Senhor mandou no seu Evangelho: Nosso Pai no Céu, que Vosso Nome seja santificado, que Vosso Reino venha, que Vossa vontade seja feita na Terra, assim como no Céu; dá-nos hoje o pão necessário (cotidiano), perdoa a nossa ofensa assim como nós perdoamos aos que nos têm ofendido e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal [Cf Mt 6,9-13; Lc 11,2-4], pois Vosso é o Poder e a Glória pelos séculos.

3 Assim rezai três vezes por dia.


Capítulo IX

1 No que concerne à Eucaristia, celebrai-a da seguinte maneira:

2 Primeiro sobre o Cálice, dizendo: Nós vos bendizemos (agradecemos), nosso Pai,
pela santa vinha de Davi, vosso servo, que vós nos revelastes por Jesus, vosso Servo; a Vós, a
Glória pelos séculos! Amém.

3 Sobre o Pão a ser quebrado: Nós vos bendizemos (agradecemos), nosso Pai, pela
Vida e pelo Conhecimento que nos revelastes por Jesus, vosso Servo; a Vós, a Glória pelos
séculos! Amém.

4 Da mesma maneira como este Pão quebrado primeiro fora semeado sobre as colinas e depois recolhido para tornar-se um, assim das extremidades da Terra seja unida a Vós vossa Igreja  em vosso Reino; pois vossa é a Glória e o Poder pelos séculos! Amém.

5 Ninguém coma nem beba de vossa Eucaristia, se não estiver batizado em Nome do Senhor. Pois a respeito dela disse o Senhor: "Não deis as coisas santas aos cães!".


Capítulo X

1 - Mas depois de saciados, bendizei (agradecei) da seguinte maneira:

2 Nós vos bendizemos (agradecemos), Pai Santo, por vosso Santo Nome, que fizestes habitar em nossos corações, e pelo conhecimento, pela fé e imortalidade que nos revelastes por Jesus, vosso Servo; a Vós, a Glória pelos séculos. Amém.

3 Vós, Senhor Todo-poderoso, criastes todas as coisas para a Glória de Vosso nome e, para o gozo deste alimento e a bebida aos filhos dos homens, a fim de que eles vos bendigam; mas a nós deste uma Comida e uma Bebida espirituais para a vida eterna por Jesus, vosso Servo.

4 Por tudo vos agradecemos, pois sois poderoso; a Vós, a Glória pelos séculos. Amém.

5 Lembrai-vos, Senhor, de vossa Igreja, para livrá-la de todo o mal e aperfeiçoá-la no vosso Amor; reuni esta Igreja santificada dos quatro ventos no vosso Reino que lhe preparaste, pois vosso é o Poder e a Glória pelos séculos. Amém.

6 Venha vossa Graça e passe este mundo! Amém. Hosana à Casa de Davi [Cf Mt 21,15]. Venha aquele que é santo! Aquele que não é (santo) faça penitência: Maranatá! [Cf 1Cor 16,22; Ap 22,20] Amém.

7 Deixai os profetas bendizer à vontade.


A Vida em comunidade

Capítulo XI

1 Se, portanto, alguém chegar a vós com instruções conformes com tudo aquilo que acima é dito, recebei-o.

2 Mas, se aquele que ensina é perverso e expõe outras doutrinas para demolir, não lhe deis atenção; se, porém, ensina para aumentar a justiça e o conhecimento do Senhor, recebei-o como o Senhor.

3 A respeito dos Apóstolos e profetas, fazei conforme os dogmas do Evangelho.

4 Todo o Apóstolo que vem a vós seja recebido como o Senhor.

5 Mas ele não deverá ficar mais que um dia, ou, se necessário, mais outro. Se ele, porém, permanecer três dias, é um falso profeta.

6 Na sua partida, o Apóstolo não leve nada, a não ser o pão necessário até a seguinte estação; se, porém, pedir dinheiro, é falso profeta.

7 E não coloqueis à prova nem julgueis um profeta em tudo que fala sob inspiração, pois todo pecado será perdoado, mas este pecado não será perdoado [Cf Mt 12,31].

8 Nem todo aquele que fala no espírito é profeta, a não ser aquele que vive como o Senhor. Na conduta de vida conhecereis, pois, o falso e o verdadeiro profeta.

9 E todo profeta que manda, sob inspiração, preparar a mesa não deve comer dela; ao contrário, é um falso profeta.

10 Todo profeta que ensina a verdade sem praticá-la é falso profeta.

11 Mas todo profeta provado (e reconhecido) como verdadeiro, representando o Mistério cósmico da Igreja, não ensinando, porém, a fazer como ele faz, não seja julgado por vós, pois ele será julgado por Deus. Assim também fizeram os antigos profetas.

12 O que disser, (supostamente) sob inspiração: "Dá-me dinheiro", ou qualquer outra coisa, não o escuteis; se, porém, pedir para outros necessitados, então ninguém o julgue.


Capítulo XII

1 Todo aquele que vem a vós, em nome do Senhor, seja acolhido. Depois de o haverdes sondado, sabereis discernir a esquerda da direita (pois tendes juízo).

2 Se o hóspede for transeunte, ajudai-o quanto possível. Não permaneça convosco senão dois ou, se for necessário, três dias.

3 Se quiser estabelecer-se convosco, tendo uma profissão, então trabalhe para o seu sustento.

4 Mas, se ele não tiver profissão, procedei conforme vosso juízo, de modo a não deixar nenhum cristão ocioso entre vós.

5 Se não quiser conformar-se com isto, é alguém que quer fazer negócios com o cristianismo. Acautelai-vos contra tal gente.


Capítulo XIII

1 Todo verdadeiro profeta que quer estabelecer-se entre vós é digno de seu alimento.

2 Do mesmo modo, também o verdadeiro mestre, como o operário, é digno de seu alimento.

3 Por isso, tomarás as primícias de todos os produtos da vindima e da eira, dos bois e das ovelhas e darás aos profetas, pois estes são os vossos grandes sacerdotes.

4 Se vós, porém, não tiverdes profeta, dai-o aos pobres.

5 Se tu fizeres pão, toma as primícias e dá-as conforme manda a lei.

6 Do mesmo modo, abrindo uma bilha de vinho ou de óleo, toma as primícias e dá-as aos profetas.

7 E toma as primícias do dinheiro, das vestes e de todas as posses e, segundo o teu juízo, dá-as conforme a lei.


Capítulo XIV

1 Reuni-vos no dia do Senhor (Domingo) para a Fração do Pão e agradecei (celebrai a Eucaristia), depois de haverdes confessado vossos pecados, para que vosso sacrifício seja puro.

2 Mas todo aquele que vive em discórdia com o outro, não se junte a vós antes de se ter se reconciliado, a fim de que vosso Sacrifício não seja profanado [Cf Mt 5,23-25].

3 Com efeito, deste Sacrifício disse o Senhor: "Em todo o lugar e em todo o tempo se me oferece um Sacrifício puro, porque sou o Grande Rei – diz o Senhor – e o meu Nome é admirável entre todos os povos" [Cf Mal 1,11-14].


Capítulo XV

1 Escolhei-vos, pois, bispos e diáconos dignos do Senhor, homens dóceis, desprendidos (altruístas), verazes e firmes, pois eles também exercerão entre vós a Liturgia dos profetas e doutores (mestres).

2 Não os desprezeis, porque eles são da mesma dignidade entre vós como os profetas e doutores.

3 Repreendei-vos mutuamente uns aos outros, não com ódio, mas na paz, como tendes no Evangelho. E ninguém fale com aquele que ofendeu o outro (próximo), nem o escute até que ele se tenha arrependido.

4 Fazei vossas preces, esmolas e todas as vossas ações como vós tendes no Evangelho de Nosso Senhor.


O Fim dos tempos

Capítulo XVI

1 Vigiai sobre vossa vida. Não deixeis apagar vossas lâmpadas nem solteis o cinto de vossos rins, mas estai preparados, pois não sabeis a hora na qual Nosso Senhor vem [Cf Mt 24,41-44; 25,13; Lc 13,35].

2 Reuni-vos frequentemente para procurar a salvação de vossas almas, pois todo o tempo de vossa fé não vos servirá de nada se no último momento não vos tiverdes tornado perfeitos.

3 Com efeito, nos últimos dias se multiplicarão os falsos profetas e os corruptores; as ovelhas se transformarão em lobos e o amor em ódio [Cf Mt 24,10-13; 7,15].

4 Com o aumento da iniquidade, os homens se odiarão, se perseguirão e se trairão mutuamente, e então aparecerá o sedutor do mundo como se fosse o filho de Deus. Ele fará milagres e prodígios e a Terra será entregue em suas mãos e ele cometerá crimes tais como jamais se viu desde o começo do mundo [Cf Mt 24,24; 2Tes 2,4-9].

5 Então toda criatura humana passará pela prova de fogo e muitos se escandalizarão e perecerão. Mas aqueles que permanecerem firmes na sua fé serão salvos por Aquele que os outros amaldiçoam [Cf Mt 24,10-13].

6 Aparecerão os sinais da verdade: primeiro o sinal da abertura no céu, depois o sinal do som da trombeta e, em terceiro lugar, a ressurreição dos mortos [Cf Mt 24,31; 1Cor 15-52; 1Tes 4,16].

7 Mas não de todos, segundo a Palavra da Escritura: O Senhor virá e todos os santos com Ele.

8 Então verá o mundo a vinda do Senhor sobre as nuvens do céu [Cf Mt 24,30; 26,64].

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Fonte:

• ALTANER, Berthold & STUIBER, Alfred. Patrologia, São Paulo: Paulinas, 1972, pp. 89/91

• DIDAQUÉ, O Catecismo Dos Primeiros Cristãos Para As Comunidade De Hoje
. São Paulo: Paulus, 1997.
ofielcatolico.com.br

Cristianismo, capitalismo e comunismo - parte 1


NOSSO HABITUAL leitor Filipe Santos enviou-nos, no post "Bono Vox, do U2: 'O capitalismo tira mais pessoas da pobreza do que doações'!", o comentário que reproduzimos abaixo, seguido de nossa resposta. Entendemos que seria importante dedicar uma postagem específica para tratar deste tema, pois a mensagem de Filipe representa uma certa linha de pensamento que é compartilhada por outros leitores. Segue:

Graça e Paz!
Discussão polêmica e extensa! Mas gostaria de dar uma contribuição singela.
Creio que o Cristianismo pode se desenvolver bem, não importa o sistema político vigente, desde que os Cristãos permaneçam fiéis. E isso é o que importa.
Acredito também que a Igreja deve viver num "Comunismo Cristão", segundo o livro de Atos:
Todos os que criam estavam unidos e tinham tudo em comum. Vendiam suas propriedades e bens, e dividiam o produto entre todos, segundo a necessidade de cada um. Atos 2, 44-45.
Isso é amor entre irmãos. Agora, o problema é o Comunismo Político, porque é um sistema ateu e, portanto, diabólico e que causou muitos males aos Cristãos.

Prezado Filipe, será que estou com a visão turva ou você escreveu mesmo “comunismo cristão”?! Ora, esta é uma expressão tão auto-contraditória quanto seria, por exemplo, falar em “corintiano palmeirense” ou “flamenguista vascaíno”, ou talvez numa “diária noturna” ou numa “noitada diurna”... Ou é uma coisa ou é outra, não tem como ser as duas, porque são antagônicas. Logo, sim, ao menos entre cristãos realmente comprometidos, realmente não há polêmica quanto a este assunto.

Ocorre uma evidente e recorrente confusão da parte de algumas pessoas com relação a termos como comunidade (comum unidade) e comunismo (ideologia comum, no caso, política), o que se confirma através de outras mensagens que recebemos, semelhantes à sua: o assunto é atual e premente. Tentaremos, então, lançar alguma luz sobre ele. A todo que vier a ler este artigo, instamos: leia com atenção antes de nos considerar retrógrados (o título de 'conservador' parece ser hoje mais ofensivo do que o de assassino ou o de ladrão, mas nós o ostentamos com muita honra!). Temos uma sólida convicção: não compensa ser “moderninho” ou “antenado” com o mundo moderno se não estivermos, antes de tudo, “antenados” com a Verdade. E a Verdade é a mesma ontem, hoje e eternamente (Hb 13,8).

Entrando definitivamente no assunto, antes de tudo é preciso saber que o termo comunismo tem um significado muito próprio. Os dicionários definem comunismo como (atenção) “uma doutrina ou sistema que preconiza a comunidade dos bens e a supressão da propriedade privada" (MICHAELIS, Moderno Dicionário da Língua Portuguesa – Melhoramentos) e “ideologia e doutrina política (concebida por Karl Marx) que visa a um sistema social (...) e econômico a se desenvolver a partir do socialismo (...).

Em outras palavras, o termo "comunismo" não tem o simples significado de comunidade, no sentido de grupo que compartilha bens e serviços fraternalmente. Há todo um conjunto de significados envolvidos para o termo comunismo; trata-se, exatamente isto, de uma doutrina bem específica, – ateia desde as bases, posto que é materialista em sua essência. – É por isso que, em todos os lugares onde o comunismo prevaleceu, os cristãos foram perseguidos, sacerdotes e religiosos massacrados, templos destruídos, etc.

O problema e o perigo maior provém, exatamente, dessa ideia tão romântica quanto falsa sobre comunismo; é assim também que os seus simpatizantes tendem a se fanatizar. A cena política atual de nosso país é um exemplo perfeito: o governo do PT, de ideologia declaradamente socialista, mesmo mergulhado na lama da corrupção (com fatos concretos e fartamente comprovados) e pontuado pela mais grossa incompetência, que leva a nação à ruína, conta ainda com um grande grupo de fanáticos apoiadores que se comportam como fundamentalistas religiosos, cegos por opção para a realidade e apelam para as mais esdrúxulas argumentações na defesa dos seus ídolos.

Um fanático é, basicamente, um cego (voluntário) para a realidade objetiva dos fatos. Você lhe dá, por exemplo, o Livro Negro do Comunismo nas mãos; eles leem e dizem: "Não, eu não concordo com o que aconteceu na antiga União Soviética, nem com o que acontece na China Comunista ou na Coreia do Norte... Também não acho certo o que se faz na Venezuela ou em Cuba, e muito menos quero viver em algum país comunista, mas 'eu acho' que os ideais comunistas são bons... Acho que o conceito em si é até compatível com o do cristianismo...".

Nada mais absurdo. O fato incontestável é que esse comunismo idealizado, de igualdade para todos, esse sonho quase infantil de um lugar onde todos serão iguais, onde não haverá hierarquia, em que tudo é de todos e nada pertence a ninguém, não passa de completa utopia, um delírio dourado que só tem alguma chance de se concretizar no país das maravilhas (aquele da Alice).

Ou estaremos nós sendo demasiado "chatos", azedos, negativos? Hoje em dia é tão “bacana” ser comunista, é quase que uma obrigação moral declarar-se simpático ao comunismo, que é tão moderno, tão admirável... A maioria dos nossos artistas compartilha desta ideia. E não só os artistas, como também os homens e mulheres que integram a chamada "classe falante", isto é, aqueles à frente dos veículos de comunicação. "Dá ibope" ser comunista. Tomemos o exemplo do arquiteto “comunista” Oscar Niemeyer: nada mais patético do que ver um homem que vivia numa casa cuja área construída é maior do que um quarteirão inteiro do seu bairro, um homem que colecionava automóveis de luxo e imóveis esplendorosos, que frequentava as festas e eventos da mais fina flor da sociedade, desfrutando de todo tipo de regalia que só o capitalismo pode proporcionar... Usando o bonezinho do PC do B! Aí está um legítimo representante da chamada “esquerda caviar”.

Como é fácil declarar-se "comunista" quando se tem à disposição todos os confortos, tecnologias e prazeres que só o sistema capitalista tornam possíveis. Faz lembrar o mito Che Guevara, que adorava Coca-cola e morreu com um belíssimo Rolex no pulso.

Outro fato interessante: a quase totalidade dos grupos de jovens agitadores esquerdistas que promoveram e praticaram o vandalismo nas recentes manifestações populares no Brasil, ostentando foice e martelo em nome da "revolução", era formada por filhos de empresários de classe média-alta, autênticos "filhinho(a)s de papai" que estudam nas melhores universidades particulares, ganham mesadas bem maiores que o meu salário e viajam para os EUA e Europa duas vezes por ano. Os legítimos filhos do proletariado, em sua imensa maioria, cultivam interesses bem mais condizentes com a realidade.


Uma das cenas mais ridículas dos últimos tempos: o deputado Jean Wyllys, militante dos direitos dos homossexuais, caracterizado como Che Guevara. – Parece que ninguém contou para ele que o verdadeiro Che perseguia os homossexuais, sendo que muitos deles foram mortos pela ditadura cubana ou enviados para os "UMAP", campos de concentração cubanos que de tão desumanos geraram protestos internacionais até mesmo dos próprios comunistas...

Para os nossos afetados “artistas” e comunicadores, não há maior símbolo de status social do que ter sido perseguido durante a ditadura militar. Todos eles dizem que foram perseguidos pela ditadura. Ah, a ditadura militar no Brasil! Para muitos, o regime de terror mais hediondo, a monstruosidade mais desumana que já existiu na face da Terra! – Curioso é que os mesmos sujeitos que berram tão indignados diante das quatrocentas e poucas mortes atribuídas, direta ou indiretamente, à ditadura militar no Brasil em 21 anos de existência, são fervorosos partidários de uma ideologia que gerou ditaduras como a da China (que vitimou cerca de 60 milhões de inocentes), da URSS (responsável por cerca de 20 milhões de assassinatos), de Cuba (que ceifou 100 mil vidas), – sem falar das modalidades requintadas de tortura usadas pelos comunas, – e acham tudo isso muito justo ou justificável... Parece que, para essas pessoas, assassinato se justifica quando o número das vítimas ultrapassa a casa dos seis dígitos.


O modo de vida comunitário dos primeiros cristãos

Uma pergunta sem resposta: onde e quando o comunismo deu certo, na História? E, por favor, caríssimo Filipe, não venha citar o modo de vida dos primeiros cristãos, porque esta é uma comparação completamente esdrúxula, estrambótica, estapafúrdia e o que mais começar com “es”... Mais uma vez eu preciso mencionar aquela mesma história, da qual já lhe falei tantas vezes: nós podemos usar da Escritura para justificar qualquer pensamento, qualquer ideologia ou qualquer prática política, por mais nefasta que seja. O sola scriptura permite e até favorece essas aberrações.

Ora, o modo de vida das primeiras comunidades cristãs não tem nada, absolutamente nada a ver com o comunismo, e é exatamente esse tipo de pensamento ingênuo, superficial e utópico que vem corroendo as estruturas da Igreja Católica (e também das protestantes históricas, pelo que sei) a partir de dentro, de um modo que à primeira vista pode ser imperceptível, mas que tem efeitos devastadores. Então vamos, juntos, buscar entender porque uma coisa não tem absolutamente nada a ver com a outra.

Antes de tudo, por favor, compreenda que quando tratamos do sistema social dos primeiríssimos cristãos, conforme descrito brevemente no Livro dos Atos, estamos falando de:

1) Um grupo pequeno: estamos analisando um contexto de alguns milhares de pessoas (no máximo), e, – muito importante: – pessoas fortemente unidas em torno de um mesmo ideal e de uma mesma fé, concentrados num território pequeno e bem demarcado.

a. Estes primeiros "detalhes" fazem toda a diferença! – Imagine tentar implantar este mesmo regime, por exemplo, num país pluricultural como o Brasil, de uma população de 200 milhões de habitantes espalhados por uma área de 8 515 767,049 km2! 

E só para "apimentar" ainda mais este "angu", considere que estamos falando de um povo que idolatra a figura do “malandro”, que acha lindo "ser esperto", que valoriza a tal “malemolência” do brasileiro. Responda sinceramente: você acha que haveria alguma chance (mínima que seja) de um sistema idêntico ao dos primeiros cristãos dar certo dentro desse contexto absurdamente diferente? Ou será que a corrupção da classe política (esta sim a verdadeira 'zélite' de que tanto falam nossos atuais governantes, a verdadeira 'classe opressora' dos trabalhadores) tornaria alguns milionários em detrimento de uma imensa maioria de excluídos?

b. Um sistema comunitário (comunitário, não comunista!) parece ter dado certo, por algum tempo, naquele lugar determinado, com um determinado grupo e sob condições muito, muito específicas, sendo a mais importante destas a fé comum, tendo como elemento principal a Graça santificante de Deus. Além disso, a própria Bíblia deixa transparecer que, mesmo nesse contexto infinitamente mais simples e mais propício, já aconteciam conflitos e disputas: diversas epístolas o evidenciam. Não é preciso pensar muito para notar que a comparação entre comunismo e a Igreja primitiva é, com muita boa vontade, no mínimo ingênua. No mínimo.

2) Além de tudo, os cidadãos que constituíam a Igreja primitiva eram dóceis ao poder do Estado, pois acreditavam (como ainda acreditamos hoje) que toda autoridade temporal tem origem em Deus. Os textos do Novo Testamento são claríssimos neste sentido: ninguém ali pregava a revolução, não se pensava em construir o Reino de Deus aqui na Terra, como certos “teólogos (sic) da libertação” dos nossos tempos.

3) Um outro elemento muito importante nessa história é compreender que os primeiros cristãos esperavam o retorno de Cristo para muito breve. Sabemos historicamente que alguns desses primeiros membros da Igreja não só deixaram tudo o que tinham, como também pararam de trabalhar, achando que a Parousia, – a segunda vinda do Cristo, – era para já, para as próximas semanas ou meses. O Apóstolo Pedro precisou advertir a Igreja a esse respeito, pois já havia murmuração e inquietação, visto que os dias se sucediam e nada acontecia: “Amados, não ignoreis uma coisa, que um dia para o Senhor é como mil anos, e mil anos como um dia. O Senhor não tarda a cumprir sua Promessa, como pensam alguns, entendendo que há demora; Ele usa de paciência convosco, não querendo que alguns se percam, senão que todos venham a converter-se. Mas o dia do Senhor virá como ladrão...” (2Pd 3,8-10).

a. Este é um ponto essencial no quadro geral, que não pode ser ignorado: é bem mais fácil para alguém que acredita piamente que o Cristo está prestes a retornar, para julgar os vivos e os mortos, que venda tudo que tem e se entregue à vida comunitária, deixando tudo o que é mundano de lado, do que para alguém que não pensa deste modo.

* * *

Esclarecidos estes pontos fundamentais, busquemos compreender, através do testemunho direto da Sagrada Escritura, se há alguma possibilidade de relação harmoniosa entre as ideias comunistas marxistas-leninistas e o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo. Que diretivas estavam sendo transmitidas já às primeiras comunidades cristãs pelos Apóstolos? Vejamos:

Todo homem esteja sujeito às autoridades superiores; porque não há autoridade que não proceda de Deus; e as autoridades que existem foram por Ele instituídas. De modo que aquele que se opõe à autoridade resiste à ordenação de Deus; e os que resistem trarão sobre si mesmos a condenação. Porque os magistrados não são para temor quando se faz o bem, e sim quando se faz o mal. Queres não temer a autoridade? Faze o bem e terás louvor dela, visto que a autoridade é ministro de Deus para o teu bem. Entretanto, se fizeres o mal, teme; porque não é sem motivo que ela traz a espada: ela é instrumento de Deus para fazer justiça e punir quem pratica o mal. É necessário que lhe estejais sujeitos, não somente por causa do temor da punição, mas também por dever de consciência. Por esse motivo, também pagais tributos, porque os que governam são servidores de Deus (...). Pagai a todos o que lhe é devido: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem respeito, respeito; a quem honra, honra. (Rm 13, 1-7)

A passagem é mais do que clara. Devemos obedecer ao governo que Deus põe sobre nós. Tudo o que esta passagem diz (assim como muitas outras) é o exato oposto do que prega a doutrina comunista revolucionária. Deus mesmo criou o governo, para estabelecer a ordem, punir o mal e promover a justiça (Gn 9,6; 1 Cor 14,33; Rm 12,8). Devemos obedecer ao governo – pagando impostos e seguindo as regras. – E se não o fizermos, estaremos demonstrando desrespeito contra Deus.

Evidentemente existem exceções, como nos casos de violência em que o governo adota medidas anticristãs e precisa ser combatido, como no caso da chamada "Guerra Cristera", no México. Por outro lado, note-se que quando o Apóstolo escreveu esse texto, ele estava sob o governo de Roma e durante o reinado de Nero, um dos mais impiedosos inimigos dos cristãos. Mesmo assim, Paulo reconhece a autoridade do governo e o coloca como regra para o cristão.

** Leia a continuação deste artigo
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