Posts recentes

POSTS RECENTES > Carregando...
Mostrando postagens classificadas por relevância para a consulta quem foi maria. Ordenar por data Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens classificadas por relevância para a consulta quem foi maria. Ordenar por data Mostrar todas as postagens

Veneração à Virgem Maria

Católicos realmente adoram Maria como se fosse uma "deusa"? Qual o significado da Teologia Mariana? Tire definitivamente as suas dúvidas...-



ESTE ARTIGO FOI escrito mais especialmente para protestantes ou "evangélicos", que são muitos a nos visitar e ler nossos estudos, porque entendemos que nós, católicos, já devemos saber bem os fundamentos do culto a Maria segundo a nossa Fé. O texto é baseado na obra do Padre José Fernandes Oliveira, citada ao final. Rezamos para que seja útil. Segue.


    Se cremos que Deus é Pai; se cremos que Jesus é o Cristo, o Ungido, o Filho de Deus, também precisamos honrar, amar e venerar a mãe de Jesus, a Virgem Maria.

    Se cremos que todos os que amaram verdadeiramente a Deus nesta vida estão no Céu, e que aqueles que seguiram Jesus e morreram acreditando n'Ele estão ao seu lado, seria o cúmulo do absurdo supor que a mãe do Cristo aqui na Terra não estivesse junto a Ele no Céu. Maria, ela que, segundo a Bíblia Sagrada, era cheia do Espírito Santo, declarou de si mesma:

De hoje em diante, todas as gerações me chamarão bem-aventurada!” (Lc 1, 48)

    Nosso Salvador não salvaria sua própria mãe? Nós, cristãos, cremos que recebemos por Graça o direito e o poder de pedir e interceder junto a Deus. Podemos pedir ao Pai em nome de Jesus, ou falar diretamente a Jesus e pedir que nos conceda suas bençãos. O próprio Senhor Jesus Cristo ensinou isso nos Evangelhos, e que Graça maravilhosa é esta! Não devemos deixar jamais de conversar com nosso Senhor, que, sendo Deus, se fez homem e fraco, por amor a cada um de nós. Foi Ele somente quem sofreu as piores dores e deu a própria vida em sacrifício pela nossa salvação. Jesus é nosso único "Senhor", com sentido de Deus; é Um com o Pai e o Santo Espírito, nosso único Salvador, e exclusivamente por Ele recebemos a vida eterna. Jesus Cristo também é nosso único Mediador junto ao Pai, e isto quer dizer que somente Ele, sendo Deus, por seu Sacrifício de valor infinito pôde nos resgatar do pecado e salvar as nossas almas. Enquanto cristãos, precisamos assumir que é Ele, – e exclusivamente Ele, – que está e estará eternamente no centro da nossa fé (que por isso é 'cristocêntrica'), das nossas orações e da nossa salvação.

    Esclarecidos esses pontos, nós também cremos que podemos e devemos interceder uns pelos outros, isto é, pedir uns pelos outros junto a Deus, que é Pai, Filho e Espírito Santo. Foi assim que Maria fez em Caná, pedindo a seu Filho e seu Senhor que ajudasse aqueles noivos. E Ele a atendeu, mesmo que aquela ainda não fosse "a sua hora" (Jo 2,4). Cremos que Maria, que é nossa Mãe, e também nossa irmã e companheira de caminhada, pode pedir também por nós ao seu Filho amado, agora que está com Ele na eternidade, em perfeita Comunhão. Cremos que, no Céu, os santos de Deus estão mais vivos do que nós, aqui na Terra, pois alcançaram a vida plena à qual Jesus se referiu (Jo 10, 10), e que podem nos ouvir, já que somos todos membros de um só Corpo (1Cor 12,27ss).

    Maria foi a primeira cristã, o perfeito modelo de fé e de confiança em Jesus, testemunha fiel de tudo o que se passou na vida d'Ele, desde antes do nascimento até a Cruz. De Jesus, Maria entende mais do que qualquer outra pessoa humana! Não, ela não foi nem é “uma mulher qualquer”, como ouvimos dizer por aí: não foi acidente nem "sorte" a Graça mais do que tremenda que aconteceu em sua vida! Não é todo dia que uma virgem recebe de um arcanjo uma mensagem da parte do Deus Altíssimo, e não é todo dia que uma virgem fica sabendo, por meio de um aviso angélico, que será a mãe do Filho de Deus! Não, não é todo dia que uma virgem fica grávida por obra especialíssima e direta de Deus! Não é "qualquer mulher" que gera Alguém como Jesus Cristo, nosso Deus e Salvador de toda a humanidade!

    Mas ainda não são todas essas razões que nos autorizam a chamar Maria “Mãe de Deus”. Ocorre que Jesus sendo Deus, e Maria sendo sua mãe, quando a chamamos assim, honramos devotamente a memória de Maria, mas a Jesus glorificamos, reafirmando todas as vezes que Jesus Cristo é Deus. Quem se nega a dizer que Maria é "Mãe de Deus", renega a divindade de Jesus Cristo. Simples assim. E como se essa lógica tão simples não bastasse, para que não restasse nenhuma dúvida, o próprio Deus, em Pessoa – na Pessoa do Espírito Santo, – confere a Maria este título: as Sagradas Escrituras são claríssimas em testemunhar que sua prima Isabel, cheia do Espírito Santo, proclamou Maria "Mãe do Senhor", precisamente com o sentido de "Mãe de Deus" (Lc 1, 41-43). Foi, portanto, o próprio Espírito Santo, que é Deus, Quem chamou Maria assim pela primeira vez.

    Assim como está escrito, Maria foi escolhida desde o princípio dos tempos, porque o Sopro de Deus pairou de maneira especial sobre ela. A Vida que nela foi gerada era nada menos que a Vida do próprio Autor da Vida! Como podem alguns se negar a honrar Maria? Como podem se negar a lhe proclamar Bem-Aventurada e Cheia de Graça?

    Podemos imaginar os risos, as brincadeiras, as lágrimas, as preocupações que ela teve com seu Filho Divino, o dia-a-dia ao lado do Senhor... Ninguém teve maior escola de espiritualidade que Maria! Nem mesmo os Apóstolos, que tiveram apenas três anos para aprender com Cristo: Maria teve trinta e três anos e nove meses! Se acreditamos na palavra e na santidade dos Apóstolos, que foram os autores da Bíblia, como duvidar de Maria, a mãe do Senhor? Se ela tivesse escrito um Evangelho, seria sem nenhuma dúvida o mais digno de crédito; porque ela esteve lá, junto até o último momento, e continuou com os discípulos depois da crucificação, integrando a Igreja que nascia. Aliás, no momento da crucificação, quando os Apóstolos fugiram, quem continuou ao lado do Senhor? Ela mesma... E os Apóstolos a ouviam. Muita coisa Maria deve ter lhes contado, muitos detalhes sobre a vida do Senhor. Senão, como eles poderiam saber, para escrever os Evangelhos? Maria foi a melhor testemunha do que realmente aconteceu com Jesus. Ninguém, absolutamente ninguém em toda a História, viveu a experiência Jesus Cristo mais do que ela.

    Muitos títulos de honra a Igreja deu à Maria, e nos cabe procurar entendê-los corretamente. Infelizmente, aqui entramos nos exageros dos que parecem querer elevar a Mãe de Deus mais alto que o próprio Deus. Mais alto do que, com certeza, ela mesma deseja ser elevada. Estes estão no  lado oposto daqueles que a desrespeitam e renegam sua grande honra. Uns, na ânsia de anunciar as virtudes da Mãe, acabam por vezes exagerando; outros, no zelo de defender o papel único do Filho de Deus, terminam por desprezar o maravilhoso legado da desde sempre amada Mãe da Igreja.

    A Igreja sabe o que é o Reino de Deus, quem é Jesus e quem é Maria, e nós precisamos aprender essas coisas. Devemos aprender a amar Maria com uma devoção pura e autêntica; falar muito com Jesus e com o Pai, pedir sempre a luz do Espírito Santo no que dizemos e no que fazemos. Devemos também falar com nossa Mãe do Céu, e devemos fazê-lo sabendo que com isto ganharemos muito, mas sabendo também que falar com Jesus é falar com Deus, e que falar com Maria é falar com um ser humano mais do que especial que está no Céu com Deus.

    Nunca a Igreja ensinou que Maria é uma ‘deusa’, como acusam alguns dos nossos irmãos ditos "evangélicos". O Catecismo da Igreja Católica (CIC) deixa muito claro que é sempre o Deus Uno e Trino quem concede as graças. Nossa Mãe e Mãe da Igreja pede por nós, junto a Deus. Jesus concede, porque é nosso Intercessor junto ao Pai, e porque todo o poder lhe foi dado no Céu e na Terra. Maria consegue, pedindo. Se creem que tantos "pastores" conseguem graças e bençãos orando a Jesus, quanto mais ela, a Virgem Maria, que foi e continua sendo muito mais santa, mais unida a Jesus e mais pura e salva do que qualquer ser humano jamais foi?


Nossa Senhora é uma só: Maria, Mãe de Jesus. Mas ela recebeu diversos títulos e representações ao redor do mundo, como esta, feita na China: cada nação procurou retratá-la à sua maneira.

    Nós levamos o Senhor na mente e no coração: Maria, além disso, o carregou no ventre: a Carne de Jesus Cristo, Deus encarnado, era a mesma carne de Maria. O sangue que fluía em Maria era o mesmo Sangue salvador que fluía em Jesus, e que foi derramado pela salvação da humanidade. Já parou para pensar nisso? Maria cuidou e protegeu Nosso Senhor desde quando Ele, por amor a nós, se fez um bebê indefeso. Que grande absurdo é querer "defender" Jesus tentando diminuir Maria!

Equilíbrio: é tudo de que precisamos para honrar e venerar Maria do jeito certo. É verdade que alguns católicos se equivocam neste assunto. Quantas vezes vemos pessoas prostradas diante das imagens de Maria nas igrejas, louvando e pedindo bençãos, mas... que pena, logo depois passam incólumes diante do Altar e do Santíssimo Sacramento, como se ali não se encontrasse Jesus Cristo em Corpo, Alma e Divindade! Muitos gostam de repetir que “se Jesus não estiver atendendo, é só pedir à Mãe que ela atende”, como se existisse uma espécie de oposição entre o Cristo e a Virgem; isto é absurdo. Também ouvimos afirmações como: “Tudo com Jesus, nada sem Maria!”... Sabemos que a intenção é boa, mas essas frases são geralmente infelizes, porque Cristo é Deus, Alfa e Ômega, Principio e Fim de todas as coisas. Quem O tem, tem tudo. Para quem está n'Ele, não existem condições. A Santíssima Virgem Maria, Mãe bendita, vive n'Ele, para sempre. Por isso é que se diz que ela que possui a "onipotência suplicante": Nosso Senhor, por assim dizer, não resiste às suas súplicas; mas devemos entender que Ele é o próprio Amor, em Pessoa – Deus que é Amor –, amor tão sublime e ilimitado que foi capaz de sofrer ao extremo, chegando à se entregar à morte, "e morte de cruz" por amor a cada ser humano. Assim, quando desejamos “a Paz de Cristo”, por exemplo, é desnecessário completar com “...e o amor de Maria”. O Amor que vem de Jesus e de Maria são o mesmo e um só: expressão máxima e perfeita do Amor Divino no mundo, que provém sempre d'Ele, o Autor da Vida e Deus de Amor, e que é pleno nela, para o compartilhar com toda a Igreja.

    Foi a este mesmo Amor que Maria se entregou de corpo e alma; foi deste Amor que ela se fez serva, para se tornar "Nossa Senhora" para sempre. Se existem exageros ao se falar de Nossa Senhora, e isso leva alguns irmãos de outras comunidades cristãs a nos acusar de "idolatria", devemos saber que, dentro da verdadeira Fé cristã, nada nos desvia da verdadeira Comunhão dos Santos e nem da companhia e proteção da santíssima, amada e sempre Bem-Aventurada Virgem Maria, Mãe de Deus e de todos nós; exemplo incomparável de santidade sempre ao nosso lado no percurso do Caminho que é Cristo.

____
Ref.:
OLIVEIRA, José Fernandes. Maria do Jeito Certo, São Paulo: Paulinas, 2008.
ofielcatolico.blogspot.com

Pergunta e resposta: origem da devoção à Santíssima Virgem Maria

UM LEITOR ANÔNIMO enviou-nos a seguinte pergunta:
As ações da Igreja Catolica falam mais do que mil palavras, por favor, coloque aí no blog relatos dos pais da igreja antes de Constantino que fale a favor de Maria como advocatriz e intercessora, que fale que eles pediam a ajuda dos apostolos e dicipulos quando esses já estavam mortos, chega de muitas palavras, você fala, enrola demais e mostra de menos, quem não lê a biblia pode até cair no teu conto, mas quem le a biblia meu amigo não cai mesmo, afinal é facil criar dogmas estranhos a palavra de Deus e fazer leigos que não liam a biblia engolir como lideres católicos já fizeram.Então para um melhor esclarecimento, estou esperando sua postagem com provas reais de que o que a igreja católica prega de diferente do protestantismo seja a correta."

Apesar do tom acusatório e provocativo, ficamos felizes com essa pergunta, porque nos deu a oportunidade de abordar um assunto importante e ainda inédito por aqui. Quando e como começou a devoção à Virgem Maria?

A Igreja sempre viu a mãe de Jesus Cristo como Mãe da própria Igreja, ou foi isso uma invenção posterior? Desde quando Maria é vista como nossa intercessora junto a Deus? Desde quando a Igreja pede proteção à Maria? Para aqueles que leem exclusivamente a Bíblia, estas são perguntas válidas e justas; afinal, as sagradas Escrituras não tratam destas questões explicitamente.


O erro fundamental

Infelizmente, é preciso começar a responder os questionamentos trazidos pelo leitor anônimo com o esclarecimento daquele ponto fundamental que já tivemos que repetir uma dúzia de vezes (ou mais?) por aqui: quando o leitor afirma que "quem lê a Bíblia não cai", isto é, não aceita as explicações contidas neste site, – que não são nossas, mas representam a doutrina da Igreja Católica, – fica claro que as perguntas estão partindo de alguém que segue "a religião do Livro". As dificuldades começam logo de cara pelo fato de nós, católicos, seguirmos a Religião do Espírito Santo, que foi derramado sobre a Igreja por nosso Salvador Jesus Cristo.

Há dois mil anos, o Senhor Jesus, glorificado pelo Espírito Santo, entrou no Cenáculo de Jerusalém e derramou o Espírito da Ressurreição sobre a sua Igreja, na pessoa dos Apóstolos: “A paz esteja convosco! Recebei o Espírito Santo!” (Jo 20,19ss).

No Domingo da Páscoa, os Apóstolos tornaram-se realmente cristãos; receberam a vida nova do Cristo Ressuscitado, foram transfigurados em Cristo! Aí nasceu a Igreja: na Ressurreição! Aí ela foi batizada no Espírito e recebeu o poder de batizar: “Como o Pai me enviou, assim eu vos envio!” (Jo 20,21). – Contemplando esta realidade sagrada é que se torna nítida a enorme diferença entre as pessoas que têm uma fé toda engessada, presa às palavras literais do Livro Sagrado, e os membros do Corpo do Cristo.

Segundo aquela mentalidade limitada, só o que está escrito no livro, literalmente, "pode". O que não estiver escrito no livro, literalmente, "não pode". Isto é querer reduzir o Caminho de salvação e Comunhão (que é o próprio Cristo) a uma triste piada.

O cristianismo nunca foi religião do Livro. Nós, católicos, temos a Bíblia como sagrada e cremos que ela é Palavra de Deus, sim, a Palavra por escrito. Mas cremos sobretudo que a Palavra, o Verbo de Deus, por excelência, é Jesus Cristo, Deus Vivo, Senhor Ressuscitado, que não se limita à letra, assim como as Sagradas Escrituras nos ensinam que "nem o mundo todo poderia conter os livros que teriam que ser escritos para falar sobre Jesus" (Jo 21,25). Amém!

A mesma Verdade o Apóstolo São Paulo esclarece e aprofunda à perfeição, ao dizer: "Deus nos fez ministros de um Novo Testamento, não da letra, mas do Espírito; porque a letra mata e o Espírito vivifica" (2Cor 3,6).

É claro que o Apóstolo não afirma que a Escritura é morta ou que não tem valor. Ao contrário, a Escritura "é útil para ensinar, repreender, corrigir, para instruir em justiça" (2Tm 3,16). O problema começa quando achamos que exclusivamente o que está escrito é que vale. Perdemo-nos no Caminho quando achamos o que está escrito mais importante do que a Igreja, que é dirigida pelo Espírito de Deus e autora da própria Bíblia.

As tradições meramente humanas, como as dos antigos fariseus e doutores da Lei de Moisés, foram substituídas pela Tradição da Igreja: Tradição esta que gerou a própria Bíblia dos cristãos. Portanto, a autoridade de fé sobre a doutrina de Jesus Cristo está fundamentada na Igreja que Ele edificou sobre a Terra, e não somente na Bíblia Sagrada, que foi produzida, preservada e deve ser interpretada segundo a mesma Igreja.

Estando claros esses pontos fundamentais, entremos, afinal, na questão da devoção à Nossa Senhora. Pelo teor da mensagem, pareceu-nos que o leitor anônimo crê que a devoção à Virgem Maria começou depois de Constantino, ou que foi Constantino quem a "inventou"... Por isso, é pedida alguma prova de que a Igreja que existia antes de Constantino já cultivava tal devoção. Muito bem, vejamos...



A origem está nos Evangelhos

A devoção à Santíssima Virgem Maria começou com o próprio cristianismo. Naquela singelíssima casa de Nazaré, há dois milênios, encontramos o Anjo Gabriel, enviado por Deus, saudando Maria! “Salve, ó cheia de graça, o Senhor está contigo!” (Lc 1,28). Com estas palavras, vindas diretamente do Céu, começou a devoção mariana. Quem pode negar a evidência deste fato?

"Desde agora, todas as gerações me proclamarão Bem-aventurada!" (Lc 1,48). No Evangelho, Maria faz uma profecia que a Igreja Católica sempre cumpriu, mas as novas "igrejas evangélicas" fazem muita questão de renegar. Maria, cheia do Espírito Santo e grávida do próprio Jesus Cristo, profetiza que será aclamada bem-aventurada por todas as gerações. Já os "pastores evangélicos" a chamam "uma mulher como outra qualquer".

Quando Maria, única guardiã do anúncio do Anjo, visita Isabel, depois da longa viagem da Galileia até a Judeia, ao ouvir a saudação de Maria, a mãe de João Batista percebe que o menino salta de alegria dentro dela, enquanto o Espírito Santo atravessa sua alma e lhe sugere estas palavras: “Bendita és tu entre as mulheres! Bendito é o fruto do teu ventre! Donde me vem a honra de que venha a mim a mãe do meu Senhor?” (Lc 1,42-45). Quem ousa dizer que isso não é a mais pura devoção mariana, registrada no Evangelho? Pois é exatamente o que nós, católicos, pensamos e dizemos de Maria, até hoje.

Vamos à narração do Natal do Senhor. Diz o Evangelho segundo S. Lucas: “Quando os anjos se afastaram deles em direção ao Céu, os pastores disseram uns aos outros: 'Vamos a Belém ver o que aconteceu e o que o Senhor nos deu a conhecer'. Foram apressadamente e encontraram Maria, José e o Menino deitado na manjedoura” (Lc 2,15-16). É claro que os pastores, após terem se ajoelhado diante do Menino, devem ter lançado um olhar àquela mãe especialíssima, e podem muito bem ter exclamado: “Bem-aventurada és tu, mãe deste Menino!". Bem, isso seria uma pura expressão de devoção mariana, e que não teria nada absolutamente a ver com idolatria.

Passemos a S. Mateus evangelista, que para narrar a chegada dos Magos a Belém usou estas palavras: “E a estrela que tinham visto no Oriente ia adiante deles, até que, chegando ao lugar onde estava o Menino, parou. Ao ver a estrela, sentiram imensa alegria; e, entrando na casa, viram o Menino com Maria, sua mãe. Prostrando-se, adoraram-no (Mt 2,9-11)”. Podemos imaginar a emoção dos magos, os quais, após uma longa e aventurosa viagem, tiveram a alegria de ver o Salvador tão esperado. Porém, não nos afastamos da verdade dos fatos e nem nos aproximamos da idolatria se imaginarmos que eles, depois da adoração do Menino, tenham olhado Maria cheios de respeito e admiração: a que mulher poderia ser concedida tamanha graça, de gerar e ser mãe do próprio Deus? Simples: assim é a devoção mariana, percebida claramente nas entrelinhas dos Evangelhos de Nosso Senhor.

Nas passagem das bodas de Caná, vemos que o Senhor "adiantou a sua hora", – em suas próprias palavras, – especialmente por um pedido de sua mãe, que intercedeu por aqueles noivos. Depois do primeiro milagre de Jesus, os servos, que acompanharam os fatos, podem muito bem ter pedido à Maria, dizendo-lhe: “Jesus te escuta, e até adiantou a sua hora por um pedido teu! Pede a Ele uma bênção para nossas famílias!”... Seria isto algum absurdo? Não. Mais um exemplo do que é a devoção mariana.

Também aqueles noivos certamente devem ter agradecido à intervenção de Maria, afinal, foi a intervenção (intercessão) dela que salvou a festa deles. Claro que o agradecimento principal seria ao próprio Jesus, afinal foi Ele quem tornou a água em vinho. Mas, se Maria não tivesse pedido pelos noivos, Ele não o teria feito, e o Evangelho é muito claro nesse sentido.

Assim é que começa a devoção mariana. E continua, pelos séculos, sem interrupção. A verdade histórica é: Maria, a partir das palavras pronunciadas pelo Anjo Gabriel (que eram as palavras do próprio Deus para ela, afinal o arcanjo é Mensageiro do Criador), foi imediatamente vista com especial admiração, com grande carinho e reverência. E logo sua intercessão foi invocada, pelo motivo óbvio: seu particularíssimo e incomparável vínculo com o Cristo, – o vínculo da maternidade! – Logo, é evidente que quando recorrermos à Maria para pedir algum favor, não nos encontramos fora do contexto do Evangelho, mas totalmente dentro dele.

Sei que aqui alguns questionarão dizendo que Maria não se encontra mais entre nós, e que isso faz toda a diferença. Segundo estes, não é a mesma coisa pedir a oração de um irmão que está ao nosso lado, aqui e agora, e a um santo que morreu há muito tempo, ainda que esta santa, no caso, seja a própria mãe do Senhor. Bem, nós já tratamos deste assunto específico, e você pode ler e comprovar (também biblicamente) que os santos no Céu estão mais vivos do que nós, aqui na Terra, e permanecem em íntima união com Deus. Leia aqui.


Primeira representação conhecida da Virgem Maria
(Catacumbas de Priscilla - século II)

Outras provas: História e Arqueologia

A partir daqui, passamos da demonstração teológica e da fundamentação bíblica para a apresentação das provas históricas, arqueológicas e documentais. Provas históricas da devoção à Virgem Maria, além da própria Bíblia Sagrada, como acabamos de ver, remontam ao início da Igreja, e são muitas. A Mãe do Senhor foi honrada e venerada como Mãe da Igreja desde o início do cristianismo.

Já nos primeiros séculos, a devoção está presente e pode ser reconhecida, por exemplo, nas evidências arqueológicas das catacumbas, que demonstram a veneração que os primeiros cristãos tinham para com a Santíssima Virgem. Tal é o caso de pinturas marianas das catacumbas de Priscila, do século II, local onde os primeiros cristãos se reuniam, ocultos aos romanos: um deles mostra a Virgem com o Menino Jesus ao peito e um profeta, identificado como Isaías, ao seu lado1. Nas catacumbas de S. Pedro e S. Marcelino também se encontra pintura do século III/IV, que mostra Maria entre Pedro e Paulo, com as mãos estendidas em oração.

Outro magnífico exemplo da devoção à Santíssima Virgem nos primórdios do Cristianismo é a oração "Sub Tuum Praesidium" (Sob Vossa Proteção), do século III/IV, que pede a intercessão de Maria junto a Jesus Cristo:


Sub tuum praesidium confugimus, sancta Dei Genetrix; nostras deprecationes ne despicias in necessitatibus nostris, sed a periculis cunctis libera nos semper, Virgo gloriosa et benedicta. Amen."

Tradução:
À vossa proteção recorremos, Santa Mãe de Deus; não desprezeis as nossas súplicas em nossas necessidades; mas livrai-nos sempre de todos os perigos, ó Virgem gloriosa e bendita. Amém"

Segundo linguistas, esta versão latina, embora comumente usada já no século III, afasta-se um pouco do original. Com efeito, confrontando o papiro encontrado em 1927 no deserto egípcio com o texto da oração em uso na antiquíssima liturgia copta, encontramos a versão cuja tradução literal segue abaixo:

Sob a proteção da tua misericórdia nos refugiamos, Mãe de Deus; não rejeites as súplicas nas dificuldades, mas salva-nos do perigo, única bendita. Amém."2

Os Padres do século IV elogiam de muitos modos a Mãe de Deus. Epifânio refutou o erro de uma seita árabe que tributava idolatria à Maria: depois de rejeitar tal culto, ele escreveu: "Sejam honestos para com Maria! Seja adorado somente o Senhor!". A mesma distinção vemos em Santo Ambrósio, que, depois de exaltar a "Mãe de todas as virgens", esclarece com grande propriedade que "Maria é templo de Deus, e não o Deus do templo"; em outras palavras, para prestar sua legítima devoção mariana, livre de enganos, ele distinguiu o lugar devido ao Deus Altíssimo e o lugar da Virgem Maria.

Na Liturgia Eucarística também constam dados confiáveis que demonstram que a menção à Maria nas Orações remonta ao ano 225, e também nas antiquíssimas festas do Senhor, da Encarnação, da Natividade e da Epifania: todas homenageavam a Mãe do Senhor e da Igreja.


O testemunho dos primeiros presbíteros

Orígenes
O primeiro registro escrito da Patrística de que dispomos sobre Maria é o de Santo Inácio de Antioquia (bispo entre os anos 68 e 107 dC). Combatendo os docetistas, defende a realidade humana de Cristo para dizer que pertence à linhagem de Davi, verdadeiramente nascido da Virgem Maria. Afirmando que Cristo foi "concebido em Maria e nascido de Maria", e que a sua virgindade pertence a "um Mistério escondido no Silêncio de Deus".

São Justino (martirizado no ano 167) refletiu sobre o paralelismo entre Eva e Maria: "Se por uma mulher, Eva, entrou no mundo o pecado, por uma mulher, Maria, veio ao mundo o Salvador". No Diálogo com Trifão, insiste sobre a verdade da maternidade de Maria sobre Jesus e, como Santo Inácio de Antioquia, enfatiza a verdade da concepção virginal e incorpora o paralelo Eva-Maria para a sua argumentação teológica.

A teologia mariana é um tema constante dos primeiros presbíteros da Igreja. Santo Irineu de Lyon (nascido no ano 130), em uma polêmica contra os gnósticos e docetistas, salienta a geração de Cristo no ventre de Maria. Também da maternidade divina lança as bases da sua cristologia: é da natureza humana, assumida pelo Filho de Deus no ventre de Maria, que torna possível a morte redentora de Jesus chegar a toda a humanidade. Também digno de nota é sua abordagem sobre o papel maternal de Maria em relação ao novo Adão, em cooperação com o Redentor.

No Norte de África, Tertuliano (nasc. aprox.: ano 155), em sua controvérsia com o gnóstico Marcião, afirma que Maria é a Mãe de Cristo, – portanto Mãe de Deus, – pois o Senhor foi concebido em seu ventre virginal.

No século III começou a ser usado o título Theotokos (Mãe de Deus). Orígenes (185-254 dC) é a primeira testemunha conhecida deste título. Em seus escritos aparece, pela primeira vez, a sentença Sub tuum praesidium, que, como dito acima, é um apelo à intercessão da Virgem Maria. Órígenes também define Maria como "modelo" e "auxílio dos cristãos". Já no século IV o mesmo título é usado na profissão de fé de Alexandre de Alexandria contra Ário.

A partir daí, muitos e muitos presbíteros explicaram a dimensão teológica desta verdade. - Efrém, Atanásio, Basílio, Gregório Nazianzeno, Gregório de Nissa, Ambrósio, Agostinho, Proclo de Constantinopla, etc... A tal ponto que o título "Mãe de Deus" torna-se o mais utilizado quando se fala da Santíssima Virgem.

Obviamente, "Mãe de Deus" não implica que Maria é "deusa", e sim que Jesus Cristo, seu filho, é a um só tempo plenamente homem e plenamente Deus. Se Jesus é Deus, e Maria sua mãe, ela é e será sempre a mais agraciada entre todas as mulheres, pois foi – e é, na perspectiva da eternidade onde se encontra, – a Mãe de Deus e, portanto, de toda a Igreja de Cristo.

_______
1. LAZAREFF, Victor Nikitich. Studies in the Iconography of the Virgin, The Art Bulletin, London: Pindar Press, pp. 26-65.
2. OSSANNA, Tullio Faustino. A Ave-Maria: História, conteúdo, controvérsias. São Paulo: Loyola, 2006, pp.36.

ofielcatolico.com.br

| Você que não veio ainda para a nossa plataforma de conteúdos restritos, assine agora por um valor simbólico e tenha acesso aos doze volumes digitais (material completo) do nosso Curso de Sagradas Escrituras, mais a coleção completa em PDF da revista O Fiel Católico (43 edições), mais a nossa Formação Teológica Integral e Permanente (com as 4 disciplinas fundamentais da Teologia: Dogmática, História da Igreja, Bíblia e Ascética & Mística), mais materiais exclusivos e novas atualizações diárias. Para assinar agora por só R$13,90, acesse www.ofielcatolico.com (sem o 'br'). |

Padre Rodrigo Maria esclarece polêmica


Em resposta a uma leitora do apostolado Fratres in Unum, após a divulgação recente de certas polêmicas envolvendo o seu nome, Padre Rodrigo Maria esclarece a sua situação canônica, bem como sua posição junto às obras religiosas Arca de Maria e Opus Cordis Mariae. Reproduzimos a publicação desse apostolado nosso irmão, na qual o sacerdote vai apresentando e respondendo às perguntas da leitora parte por parte, da mesma maneira, aliás, que costumamos fazer por aqui, também. Abaixo.


CARÍSSIMA MARIA, NÃO costumo responder a comentários na internet, mas acredito que é oportuno responder às perguntas que você fez a fim de esclarecer também a outras pessoas que possam ter as mesmas dúvidas. Desde já agradeço a oportunidade.


Pergunta: “O Padre Rodrigo pode não ser o superior, mas tudo nessa Fraternidade tem a característica dele.”

R- Fui fundador da Fraternidade Arca de Maria, comunidade à qual pertenceu boa parte daqueles que hoje compõe a OPUS CORDIS MARIAE. Alguns deles, que são hoje dirigentes da nova Fraternidade, estiveram comigo por mais de 10 anos, sendo formados por mim. Portanto, é natural que reflitam a formação que receberam, mas não apenas isso: a OPUS CORDIS MARIAE foi fundada pelos irmãos e irmãs que hoje estão à frente da mesma, com a devida orientação e apoio da Autoridade eclesiástica, a fim de viverem o carisma que me foi inspirado, da maneira como foi inspirado e aprovado pela Igreja. O bispo que orientou toda fundação da OPUS CORDIS MARIAE (Dom Rogelio Livieres) discerniu que o carisma que aqueles irmãos e irmãs haviam abraçado era autêntico e justificava a fundação de uma nova fraternidade com o propósito de vivê-lo, o que realmente foi feito após Dom Livieres consultar Roma (Congregação dos Religiosos) e obter o voto favorável para a dita fundação. Sendo assim, é muito natural que se encontrem neles muitos elementos da formação que eles receberam. São jovens bons que amam a Igreja e querem ser santos. Refletem Maria a quem são consagrados e de quem são Apóstolos.


Pergunta: “Por que ele teve que sair da Arca?”

R- Eu não tive que sair, mas sim fui afastado. O pretexto dado para o meu afastamento foi que minha presença na Fraternidade atrapalhava a Visita Apostólica que estava sendo realizada. Foi determinado pela Congregação dos Religiosos que eu não poderia ter contato com os membros até o fim da visita, a qual terminou em novembro de 2014. Nenhuma outra razão foi alegada para o meu afastamento, embora, de modo oficioso, autoridades e colaboradores das mesmas, disseminaram, de maneira leviana, as mais pérfidas acusações a meu respeito. Mas, para se compreender o que realmente aconteceu é preciso compreender a atual situação da Igreja, que possui hoje em seu quadro dirigente muitos senhores que têm por programa combater e neutralizar todas as pessoas e movimentos que são considerados conservadores e que, de certo modo, representam um “modelo de Igreja” que eles querem ver sepultado. Todos os que não se adequam ao relativismo revolucionário reinante e ousam pregar a imutável doutrina católica estão debaixo de perseguição.

Não possuo nenhum vínculo jurídico com a OPUS CORDIS MARIAE. Ajudei-os enquanto estive no Paraguai, mas saí daí já faz quatro meses e onde vivo não há casas dessa comunidade, assim como não vive aí nenhum de seus religiosos.

Quem quiser saber a história dessa nova Fraternidade deve se dirigir diretamente a eles, pois poderão falar por eles mesmos.


Pergunta: “Porque foi suspenso? Qual foi o engano?”

R.: Como bem disse um bispo amigo: “O nome disso é perseguição”… Fui acusado de desobediência e sofri um ”processo” administrativo por conta dessa acusação. O processo foi feito por um Vigário Geral, que aproveitou-se da ocasião de confusão em Ciudad del Este e quis, como se diz: “jogar para a galera”, lançando-me na fogueira em um momento em que muitos queriam (e querem) a minha cabeça (infelizmente, a Igreja está cheia desse tipo de gente sórdida que se presta a esse tipo de serviço sujo com os olhos em alguma vantagem pessoal ou promoção)… O tal “processo” durou duas horas. O afã em querer prejudicar e de dar satisfação aos perseguidores foi tão grande que fez com que o promotor do “processo”, ancorado no poder que possuía naquele momento, perdesse todo senso de justiça e também do ridículo, de modo que o “processo” foi todo viciado e completamente fora das normas do Direto Canônico. A saber:

A) Fui avisado do “processo” apenas um dia antes de comparecer em juízo;

B) O Vigário Geral que foi o acusador foi também o fiscal e o juiz do mesmo “processo”;

C) O “processo” durou exatamente duas horas;

D) Não foram apresentadas provas conclusivas de NADA;

E) Não me foi dado o direito de constituir defesa;

F) Não me foi dada a oportunidade de falar com o bispo (como manda o Direito Canônico), com quem tive sempre ótimo relacionamento, para esclarecer o que se estava chamando de desobediência, pois todas as coisas das quais fui acusado de fazer em “desobediência” na verdade eu possuía a autorização do bispo para fazê-las…mas… não tinha passado pelo Vigário Geral…;

G) A sentença fulminante que foi dada expressa toda a fúria persecutória daquele que moveu o “processo”: mesmo sendo um “processo” ADMINISTRATIVO, aplicou-se indevidamente, uma das mais duras penas de um processo PENAL: a proibição de celebrar pública ou privadamente, na diocese ou fora dela qualquer sacramento ou sacramental…;

O então Vigário Geral, que fez esse “processo” infame, acusou-me de desobediência por eu ter ido três vezes ao Brasil (sendo duas para completar um tratamento dentário e uma para visitar meu pai que estava gravemente enfermo), por estar fazendo os hangouts na internet (pois segundo ele, era apostolado fora da diocese, uma vez que pessoas de fora da diocese o assistiam!..), por dar assistência ou falar com ex-membros da Arca de Maria, entres outras coisas do mesmo porte…o que é necessário se saber é que: TODAS essas minhas ações foram permitidas pelo meu bispo, o que torna falsa e caluniosa a acusação de desobediência… é evidente que esclareci tudo isso durante as duas horas que durou o processo, mas não foram aceitas minhas alegações…prevalecendo o desejo de destruição a minha pessoa por parte do detrator, o que levou a aplicação da pena sem que se fossem apresentadas provas e sem que houvesse o direito a defesa, passando-se assim por cima de todas as prerrogativas do Direito.

O tal Vigário Geral chegou a tal grau de sordidez que acusou-me de ter inventado uma doença para meu pai a fim de “dar voltas por aí”… foi necessário que eu trouxesse os documentos do hospital e do médico que assistiu meu pai durante o período que ele esteve na U.T.I…

Aconteceu que no próprio decreto de punição me era dado o prazo de 10 dias para recorrer, o que assistido por excelente advogado canônico, foi feito em tempo hábil. Embora houvesse tentado muito, não consegui ter acesso direto ao bispo. Quem conseguiu protocolar minha defesa e entregar cópia da mesma ao bispo que estava saindo de viagem para Roma foi o anterior Vigário Geral, muito próximo do bispo e superior de comunidade daquele que era então o Vigário Geral. Quando o bispo (Dom Rogelio Livieres) se inteirou do que realmente estava acontecendo, procurou corrigir o erro e restabelecer a justiça. Ocorreu, porém, que, em Roma, o bispo foi deposto e quando voltou não tinha mais autoridade para fazê-lo, embora tenha realmente tentado. Entretanto, Dom Livieres, mesmo deposto, escreveu ao bispo que o sucedeu no governo da diocese pedindo ao mesmo que aceitasse o meu recurso e corrigisse aquela situação. De fato, um mês depois, o decreto de suspensão foi revogado por outro decreto que me restituía parcialmente o uso de ordens, sendo que o restante foi sendo dado aos poucos, até que pude ministrar todos os sacramentos, mas permanecendo a restrição de, fora da diocese de Ciudad del Este, fazê-lo apenas privadamente. Aconteceu que, em janeiro de 2015, apresentei o pedido formal para deixar a diocese de Ciudad del Este, o que me foi concedido de forma escrita em abril desde ano. Tendo sido acordado que o bispo que me acolhesse me daria uso pleno de ordens, o que de fato aconteceu, sendo essa minha situação atual. Talvez seja útil dizer que possuo a documentação escrita do que acima está afirmado.


Pergunta: “Por que falar mal do bispo? Por que não obedecer?”


R.: As perguntas acima estão mal formuladas, pois já contêm acusações antes de buscar os devidos esclarecimentos. Em se tratando do bispo de Limeira, o que se viu foi a reação de algumas pessoas que conhecendo de perto a realidade, responderam às falsas, graves e caluniosas acusações que o mesmo fez a meu respeito assim como a toda uma Fraternidade, no caso a OPUS CORDIS MARIAE.

Possuir um cargo na Igreja não é salvo conduto para caluniar e difamar ninguém, antes a nobreza da função impõe a necessidade de uma muito maior vigilância e prudência nas atitudes. Jamais deve ser tida como atitude de humildade o calar-se diante de injustiças gritantes, ainda que vinda do alto, de nossas autoridades que deveriam ser mais coerentes e empenhadas de dar exemplo da caridade e amor ao próximo que tanto apregoam.

O que vossa excelência fez foi verdadeiramente grave e deve, sim, ser corrigido e reparado.

Quanto à obediência, sou eu que agora pergunto: em que o bispo foi desobedecido?… As acusações que o mesmo fez foram totalmente gratuitas, não encontrando nenhum respaldo na realidade. Me informei diretamente com os que foram acusados e eles afirmaram que nenhum irmão jamais celebrou ou tentou celebrar naquela diocese, que não receberam bens, nem mesmo proposta de doação de nenhuma pessoa ou família ali, que não foram a Descalvado-SP e não têm ou tiveram nenhuma vocação dali… de onde o sr. bispo retirou essas informações? Gostaríamos também de saber… e o que é muito mais grave: afirmar que essa Fraternidade não tem comunhão com a Igreja (sic!), quando a mesma nasceu orientada e aprovada por um bispo da Igreja e possui aprovação canônica de seus seus estatutos, modo de vida e mesmo das orações…essa atitude foi realmente muito leviana, pois a afirmação é falsa e portanto caluniosa, especialmente por ser ele um bispo da santa Igreja.

As pessoas e instituições têm o direito ao bom nome, e cabe a quem acusa provar tudo quanto diz, sob a pena de justamente ser classificado como leviano, difamador e caluniador.

E para os pretensos ”humildes” ou “incondicionalmente obedientes” que pensam agradar a Deus apoiando o erro de uma pessoa pelo simples fato de ser uma autoridade, respondo com Pio XII: “A verdade é uma barreira que nem mesmo a ‘caridade’ pode transpor” . Realmente, é preciso muito mais humildade para suportar a perseguição e a execração do que para se submeter ao capricho de algumas autoridades a fim de salvar a própria pele.

Devemos amar as pessoas e não os erros que elas cometem.

Desejo de todo coração que a normalidade se restabeleça e que nossas autoridades compreendam que o respeito e obediência que lhe devemos não implicam em concordar ou apoiar seus erros e mazelas. Não apenas os fiéis, mas também os padres e bispos devem obedecer ao Evangelho e à Santa Igreja.

O perdão cabe a todos os que se arrependem. Que celebremos nossa unidade, na Verdade e Caridade de Cristo.

Pe. Rodrigo Maria, escravo inútil da Santíssima Virgem

___
Fonte:
Fratres in Unum, Padre Rodrigo Maria fala, disp. em:
https://fratresinunum.com/2015/08/03/padre-rodrigo-maria-fala/

Acesso 26/8/017
www.ofielcatolico.com.br

A Assunção da Santíssima Virgem Maria

Francesco Botticini (1475-6), 'A Assunção da Virgem'

POR MAIS QUE REFLETÍSSEMOS, por mais que nos esforçássemos e exercitássemos a imaginação, jamais seríamos capazes de conceber uma glória maior do que a que recebeu a santíssima Virgem Maria, – que foi escolhida para ser a mãe de Jesus, isto é, ser mãe do Filho de Deus e, portanto, Mãe de Deus.

O maior no Reino dos Céus


QUEM É O MAIOR no Reino dos Céus? "Quem se faz pequeno como esta criança, este é o maior, disse Jesus”. Quem é o maior no reino dos homens? Quem possui mais prestígio, poder, fama e dinheiro.

O que queremos? Ser grandes ou pequenos? Queremos ser grandes aonde? No Reino de Deus ou no reino dos homens? No reino dos homens só faremos grandes coisas se formos pequenos no Reino de Deus!

Maria Santíssima foi aquele pequeno "resto" de Israel, profetizado por Isaías, o pequeno resto que permaneceu fiel. Aquele resto não era mais o povo de Israel quando o Verbo se encarnou, porque o povo eleito já havia se tornado rebelde e virado suas costas à Lei de Deus. Ainda que pensassem a estar cumprindo, Deus agora enviava seu próprio Filho para dar a conhecer a Lei Nova. Maria Santíssima é o resto fiel, a única pessoa em quem o Senhor encontra fidelidade e temor do Senhor para se cumprir as profecias.

Quando se encontra com Isabel, sua alma rejubila de alegria no Senhor, seu Salvador, e exultante exclama: “A minha alma engrandece o Senhor e meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador, porque Ele olhou para a pequenez de sua serva...”. Maria é uma pequenina, pobre e simples moça arrebatada pelo seu SENHOR. 

É impressionante o que ela mais guarda em seu coração: o resgate dos humildes, dos famintos, dos escravos, dos últimos, dos anawin: os pobres e pequenos que não são nada, não são ninguém, não tem fama, poder nem prestígio. 

Maria não pára na alegria de ter Deus se formando no seu ventre, mas exulta de felicidade vendo já a revolução de amor que o seu filho, o homem-DEUS, vai trazer. Os pobres habitam o coração da pobre Maria, os humildes e pequenos com ela exultam porque não engrandecem a si mesmos, não louvam a si mesmos, seus grandes feitos ou grandes obras, mas, como Maria, tudo reputam a Deus, tudo entregam a Deus, tudo dependem de Deus: “Felizes os pobres em espírito porque deles é o Reino dos Céus”!

Ela, a mais pobre entre as mulheres da Terra e também a mais rica, foi pobre em tudo. Não é exato dizer que Maria foi invadida por uma poderosa infusão de ciência divina quando concebeu Jesus. E que por via de permanentes e excepcionais graças divinas tenham se dissipado todas as suas dúvidas e que ela soubesse e antevisse todo o seu caminho ou o caminho de Jesus. Não! Como qualquer um de nós, ela foi peregrina da fé, totalmente abandonada ao Desígnio de Deus, e teve que suportar os silêncios de Deus, as demoras de Deus e as cruzes do caminho. Hoje em Belém, amanhã fugindo para o Egito através do deserto; depois, de volta à monotonia e anonimato de Nazaré, e assim permanecendo até o fim de seus dias. Uma figura emblemática, mas como que passando em segundo plano. De fato, esta é a pequena e humilde serva em quem hoje nós nos espelhamos.

Humilde, pequeno é aquele que reconhece os próprios limites e não se orgulha ou se exalta pelos seus méritos e virtudes que tem. É ainda aquele que não aspira reconhecimentos, louvores, lisonjas e honrarias. Eis a pessoa humilde. No mundo atual, esta palavra não quer dizer quase nada, já que as palavras na ordem do dia hoje são: auto-afirmação ('eu quero o meu lugar ao sol; ninguém vai tirar o meu brilho'), egocentrismo, vanglória, reconhecimento e exaltação, méritos e títulos. Tudo isso, para Deus, é palha que queima com uma pequena faísca.

Muitas vezes as pessoas estragam tudo querendo elas mesmas concertar o erro do mundo com suas mãos. Nós não vamos mudar o mundo assim. O mundo não muda por voluntarismo nem por boa vontade. O mundo muda quando nós mudamos a nossa mentalidade mundana e buscamos as coisas do Alto; quando nos convertemos de nossos pecados. Enquanto persistirmos querendo estes valores do reino dos homens, não teremos a pequenez necessária para entrar no Reino de Deus. É preciso perder, caros irmãos. Esta é a verdade do Evangelho! "Em verdade, em verdade vos digo: Se o grão de trigo que cai na terra não morre, ele continua só um grão de trigo; mas se morre, então produz muito fruto. Quem se apega à sua vida, perde-a; mas quem faz pouca conta de sua vida neste mundo conservá-la-á para a vida eterna".

Peçamos a intercessão da Virgem para podermos ser fiéis a seu Filho, para aprendermos a ser pequenos como ela, para aprendermos sua humildade e sermos também servos por amor; para aprendermos a desprezar as lisonjas, as horarias, os louvores, a vanglória e o desejo de auto-afirmação. Então, digamos lá do fundo do nosso coração: Faça-se em mim segundo a vossa Palavra!

___
Fonte:
FERREIRA, Luis Fernando Alves,
homilia disp. em:
padreluisfernando.com/2015/08/quem-e-o-maior-no-reino-dos-ceus.html
Acesso 12/8/015
www.ofielcatolico.com.br

A Assunção de Nossa Senhora

Nossa postagem anterior sobre a Assunção da Santíssima Virgem Maria provocou certas dúvidas, que pretendemos esclarecer com esta, talvez mais completa e didática. Rezamos que seja útil a todos os nossos leitores sinceramente interessados em compreender esta temática específica.



Pronunciamos, declaramos e definimos ser dogma de fé por Deus revelado que a Imaculada Mãe de Deus sempre Virgem Maria, terminado o curso da vida terrena, foi elevada à glória celeste em alma e corpo.” 
(Pio XII, Munificentissimus Deus, 1950)

O DOGMA DA ASSUNÇÃO professa que Maria Santíssima está em corpo e alma na glória do Céu, diferentemente dos demais santos, cujos corpos aguardam a glorificação, que receberão no Dia do Juízo. Todo cristão católico crê nesta verdade de fé.

Reconhecendo esta doutrina como verdadeira e de adesão necessária no dia 1º de novembro de 1950, o Papa Pio XII preferiu não se pronunciar sobre outra questão relacionada: passou a Mãe do Senhor pela morte e ressurreição, antes de entrar na Bem-aventurança celeste? Ou foi elevada da vida mortal diretamente ao triunfo eterno? Diante do silêncio prudente e intencional do Magistério da Igreja sobre o assunto, fica ao arbítrio de cada fiel crer ou não na morte e ressurreição de Maria.

Os documentos mais antigos, entretanto, professam a morte e a ressurreição da Mãe de Deus. Não teria a Virgem Santíssima permanecido isenta da sorte que o próprio Deus feito homem provou pregado à Cruz. Todavia, seu corpo não sofreu corrupção no sepulcro: quis Nosso Senhor conservar a integridade da carne daquela de quem tomou sua própria carne para a salvação do mundo. Desse modo, foi Maria assunta aos Céus imediatamente após o fim de sua vida terrena. Assim pensa hoje a maioria dos teólogos.

Outra interpretação afirma que Nossa Senhora foi dispensada mesmo do tributo à morte, de tal modo era ela imaculada ou alheia ao pecado e às suas consequências (das quais a morte física é uma das principais).

A sentença que atribui a morte a Maria, todavia, parece mais fiel tanto à Tradição como a certos princípios teológicos fundamentais (se até Nosso Senhor Jesus Cristo morreu, dando à morte sentido redentor, é bem mais provável que Maria também tenha morrido, até por estar tão intimamente associada à obra de Cristo).

Antes de analisarmos os fundamentos da fé na Assunção de Maria, será oportuno propor uma observação referente às fontes da fé cristã.


1. Revelação e Tradição

1.1. O católico tem consciência de que a Revelação se fez primariamente de viva voz, pela pregação de Cristo; só por motivos esporádicos (necessidades imediatas de comunidades de cristãos do séc. I), alguns aspectos das verdades da fé foram consignados em cartas e opúsculos, cuja coleção se chamou «Novo Testamento». Resta, portanto, fora destes escritos, ou seja, na Tradição oral, um cabedal de proposições autenticamente reveladas, as quais constituem objeto de fé católica1.

Um dos critérios para se avaliar a autenticidade de uma tradição é sua antiguidade, ou melhor, a origem da mesma nos tempos dos Apóstolos; consequentemente, as afirmações de doutrina e de moral transmitidas pelas gerações cristãs desde o séc. I e hoje em dia oficialmente reconhecidas pelo Magistério da Igreja são parte integrante do Patrimônio Revelado. Ora, justamente entre essas afirmações se enumera a da Assunção.

Na verdade, a Virgem Mãe de Deus deve ter terminado os seus dias na Terra após a redação dos escritos do Novo Testamento, a não ser talvez os de São João. A quanto parece, todos os hagiógrafos, exceto o quarto Evangelista, deixaram esta vida antes de Maria. É o que se costuma concluir do fato, geralmente admitido pelos estudiosos, de que São João só se transferiu para a Ásia Menor após a invasão romana da Palestina (66-70); sua estada na Judeia até essa época é elucidada por Maria ter permanecido em vida até tal data (ou por mais tempo) e São João lhe houver prestado a assistência filial que Cristo, ao morrer, lhe recomendara (cf. Jo 19, 27).

Vários autores antigos referem que a Mãe do Senhor ficou na terra até avançada idade, ao passo que São Pedro e São Paulo parecem ter sofrido o martírio no ano de 67 e São Tiago o Menor em 62 (as datas da morte dos outros Apóstolos são incertas; apenas se pode assegurar que São João sobreviveu a todos, morrendo por volta do ano 100).


1.2. "Por que a Bíblia não fala sobre isso?"

O simples fato de que Maria ainda não havia deixado ainda este mundo quando os hagiógrafos redigiram a grande maioria – ou a totalidade – dos escritos do Novo Testamento explica o silêncio das Escrituras a respeito da Assunção corporal da Virgem. Ademais, sabe-se que nenhum dos autores sagrados intencionou escrever uma biografia de Maria Santíssima: esta é mencionada no Novo Testamento unicamente em vista do Senhor Jesus, ou seja, preenchendo as atribuições de "esposa do Espírito Santo" e mãe do Salvador, como o Tabernáculo da nova e eterna Aliança entre Deus e os homens que é. Evidentemente, isto não é pouco, ainda que a fé cristã e católica sempre tenha sido e permanecerá, enquanto tal, cristocêntrica.

O relativamente pouco que se diz a respeito de Maria em extensão (quantidade de palavras) é de tal magnitude que, de certa forma, dispensa maiores comentários. Ora, o Evangelho revela que o próprio Espírito Santo, pela boca de Isabel, proclamou Maria a "Mãe do Senhor", com sentido direto e literal de Mãe de Deus (Lc 1,43). Que mais seria preciso dizer? A qual Profeta ou Apóstolo foi jamais concedida tamanha honra e dignidade entre as criaturas de Deus?


1.3. A documentação histórica comprova a Tradição

Nas Sagradas Escrituras, São Paulo Apóstolo exorta com vivacidade:

Portanto, irmãos, permanecei firmes e guardai as tradições que vos ensinamos, oralmente (Tradição oral) ou por escrito (Epístolas = Bíblia Sagrada)."
(2Ts 2,15)

Mais adiante, no mesmo livro, novamente o texto sagrado confirma a mesma verdade de fé:

Em Nome de nosso Senhor Jesus Cristo, apartai-vos de todo irmão que não anda segundo a Tradição que de nós recebeu.(2Ts 3,6)

Como se vê, a própria Bíblia Sagrada equipara o ensinamento oral ao escrito. Parece mesmo antepô-lo, já que o Apóstolo cita primeiro o valor da Tradição e faz questão de advertir que aquele que não a observa deve ser evitado. Recomenda fidelidade integral a ambos. Por conseguinte, para que algo pertença ao Depósito da Fé revelada, não é necessário que tenha passado explicitamente para as páginas da Bíblia Sagrada.

Semelhante afirmação se encontra sob a pena de diversos antigos autores cristãos. Assim ensina São João Crisóstomo (+407), ao comentar o trecho paulino citado atrás:

Por conseguinte, é claro que os Apóstolos não nos entregaram tudo por via da Escritura, mas muitas proposições ficaram fora desta, merecendo igualmente a nossa fé. Por isto devemos considerar digna de fé a Tradição da Igreja. É Tradição; não queiras pesquisar ulteriormente."
(In II Thes h. 4 n.2)

Com a sua frase final, o santo Doutor diz que o ensinamento transmitido de viva voz desde os tempos dos Apóstolos tem autoridade por si mesmo, dispensando-nos de procurar por outro fundamento.

São Basílio (+379), por sua vez, professa:

Dentre os dogmas conservados na Igreja, recebemos alguns por via de ensinamento escrito; outros foram a nós transmitidos pelo mistério da Tradição apostólica. Uns e outros gozam da mesma autoridade para serem por nós venerados"
(De Spiritu Sancto 27,66).


1.4. Os dogmas não são "inventados", mas confirmados

À luz do que foi exposto, verifica-se que uma "definição de dogma" (tal como a de Pio XII em relação à Assunção corporal de Maria) não significa a "criação de um novo dogma": não se criam novos dogmas, pois a Revelação se encerrou com a morte do último Apóstolo. Uma definição dogmática vem a ser apenas a afirmação solene e extraordinária de alguma proposição já contida no Depósito da Fé professada por toda a Cristandade.

O motivo pelo qual o Magistério da Igreja, de quando em quando (sem plano preconcebido), procede a uma definição solene, é geralmente um surto de erro ou controvérsias em torno de algum ponto dogmático. A fim de remover mais eficazmente o perigo de deturpação da fé, a Santa Igreja afirma então, de maneira extraordinária, pela voz de seu Cabeça visível ou de um concilio ecumênico, a sentença da verdade; tal intervenção, porém, constitui sempre regime de exceção.

Isto se deu também no caso da definição da Assunção corporal de Maria, que já era objeto da fé comum dos cristãos. Em 1950, foi apenas definida solenemente, a fim de lembrar ao mundo o destino transcendente e o valor religioso do corpo humano numa época em que este é vilipendiado pela imoralidade dos costumes e pelas armas de guerra2.

Em conclusão, verifica-se que a definição proferida por Pio XII em 1950 não foi algo de decisivo na história do dogma da Assunção, pois este já era comumente professado pelo povo de Deus. Para que fosse legitimamente professado, vê-se que não é necessário haja sido explicitamente consignado na Sagrada Escritura, mas basta que seja Tradição de origem apostólica. 

É na base destes princípios que se coloca e resolve a questão dos fundamentos revelados do dogma da exaltação de Maria aos Céus. Qualquer outra posição do problema é falsa, pois não leva em conta os trâmites pelos quais Deus houve por bem revelar-se aos homens (fê-lo essencialmente por via oral, embora acidental e parcialmente também por via escrita).

Sendo assim, indagaremos abaixo em que sentido se pode falar da origem apostólica da Tradição referente à Assunção de Maria. A seguir, procuraremos averiguar o que as Sagradas Escrituras afirmam em consonância com tal Tradição.




2. A Tradição dos escritores cristãos

2.1. Não há uma série de textos assuncionistas que retroceda de época em época até a era apostólica; os quatro primeiros séculos pouca coisa oferecem que mereça consideração neste particular. Sendo assim, de tal período destacaremos apenas o seguinte testemunho de Sto. Epifânio (+403), bispo de Cipro:

Sondem as Escrituras. Nelas não encontrarão o relato da morte de Maria, nem a resposta às questões 'se ela morreu ou não morreu', 'se ela foi sepultada ou não'... A Escritura guardou a respeito do fim de Maria um silêncio completo por causa da magnitude do prodígio, a fim de não provocar excessiva surpresa no espírito dos homens. Quanto a mim, não ouso falar desse prodígio; guardo-o em minha mente, e calo-me. Não digo que Maria tenha permanecido imortal, mas também não afirmo haja morrido.
Se a Virgem santíssima morreu e foi sepultada, seu desenlace foi glorioso; a morte a encontrou pura, coroada pela virgindade. Se lhe tiraram violentamente a vida, em complemento ao que está escrito: 'Uma espada traspassará a tua alma' (Lc 2,35), ela refulge entre os mártires, e seu corpo santo é proclamado bem-aventurado. Por ela, com efeito, a Luz se levantou sobre as trevas do mundo. Também pode ter ela permanecido em vida, pois a Deus nada é impossível. Na verdade, ninguém sabe qual foi o fim da vida terrestre da Virgem» (Haer. 78. 11. 24)."

Este texto não deixa de ser significativo: atesta como entre os cristãos do séc. IV três opiniões eram professadas com referência ao fim de Maria: morte natural, martírio ou preservação da morte. O próprio Sto. Epifânio não ousava afirmar que a Mãe de Deus houvesse morrido, muito menos que houvesse conhecido a corrupção do sepulcro. Este santo bispo, que conhecia bem a Palestina e a Cidade Santa, não conseguira colher notícia certa sobre a morte e o lugar de sepultamento da Virgem Santíssima, e isto já no quarto quinto. Poucos anos após a produção deste documento, porém, – por volta do ano 550, – começou-se a apontar o local do túmulo de Maria em Jerusalém.


2.2. Concílio de Éfeso

Em 431, na cidade de Éfeso (Ásia Menor), realizou-se o 3o Concílio Ecumênico, o qual, para incutir que em Cristo só havia uma Pessoa (a Pessoa Divina), declarou ser Maria Santíssima a Theotokos (Mãe de Deus).

O concilio de Éfeso suscitou considerável incremento à linha mariana da Teologia e do culto à Santa Mãe de Deus. Daí por diante, no Oriente e no Ocidente foram-se multiplicando os testemunhos de escritores cristãos e a Liturgia a respeito da exaltação de Maria aos Céus. Esta, sem grande demora, veio a ser comumente professada pela Cristandade.


2.3. Explicitação da doutrina imutável

Note-se agora um fato importante: os bispos e fiéis, ao afirmarem após o Concilio de Éfeso o dogma da Assunção, procuravam justificá-lo, ou seja, baseá-lo sobre certos princípios dogmáticos. Ora, quem analisa esses princípios verifica que já eram reconhecidos pela Igreja antiga, de tal modo que a proposição da Assunção se apresenta qual mera explicitação de um depósito doutrinário sempre possuído pelos cristãos: a profissão de fé na Assunção não vem a ser mais que uma das facetas do desenvolvimento de um "embrião", ou daquele grão de mostarda com o qual Cristo compara o santo Evangelho (cf. Mt 13, 31s).

Em outros termos, diremos: afirmando outras proposições de fé, os cristãos dos primeiros séculos já afirmavam implicitamente a exaltação corporal de Maria Santíssima aos Céus. E quais seriam esses princípios básicos para a Teologia da Assunção? Podem-se reduzir aos três seguintes:

A) O principio da restauração. Maria e Eva se contrapõem na história sagrada: aquela restaura o que esta perdeu. Eva, pelo pecado, acarretou a morte para o gênero humano; Maria, por conseguinte, deve ter obtido (por Dom de Cristo) a vitória sobre a morte que se caracteriza por reduzir o corpo à poeira (cf. Gên 3,19);

B) O principio da Maternidade Divina. Maria e Jesus, na qualidade de Mãe e Filho, possuíam uma só carne, até porque não houve participação de homem na Concepção de Nosso Senhor. Não convinha, portanto, que a carne de Maria sofresse a dissolução no seio da terra, da qual fora isenta a carne do próprio Filho de Deus. Além disto, a comunhão entre Maria e Jesus era tão íntima que convinha concedesse Cristo à sua mãe a Redenção consumada antes de a dar às demais criaturas. Ora, a Redenção consumada implica a restauração do próprio corpo humano;

C) O principio da virgindade milagrosa. A virgindade, conforme os antigos, significa vitória sobre a corrupção da carne; vitória que no seu grau perfeito exclui a própria deterioração do corpo no sepulcro.

Os três princípios acima já eram formalmente enunciados pelos escritores e teólogos dos quatro primeiros séculos. Assim, no séc. II, por S. Justino (+165, aproximadamente) e Sto. Ireneu (+202, aproximadamente); no séc. III, por Tertuliano (+ depois de 220), Orígenes (+253/4), S. Gregório Taumaturgo (+270, aprox.); nos séc. IV e V, por Sto. Ambrósio (+397), Sto. Epifânio (+403), S. Jerônimo (+420), Sto. Agostinho (+430).

Esta observação, – insistimos, – permite concluir que o dogma da Assunção, em seus fundamentos, sempre pertenceu ao depósito da Revelação.


2. 4. Definição solene

Aconteceu que em meados do séc. XVIII os fiéis começaram a pedir à Santa Sé a definição solene desta verdade de fé. O primeiro a fazê-lo foi Pe. Shguanin (+1769), servita. As petições se foram tornando cada vez mais numerosas e significativas, até que Pio XII, atendendo aos desejos de 113 Cardeais, 2523 Patriarcas, Arcebispos e Bispos, 82000 sacerdotes e religiosos e de mais de oito milhões de fiéis, resolveu, a 1º de maio de 1946, escrever a todos os bispos uma carta circular em que lhes pedia o parecer sobre a "definibilidade" (possibilidade teológica de se definir) da Assunção de Maria. Finalmente, diante dos votos favoráveis da hierarquia e dos fiéis, após minuciosos estudos de história do dogma empreendidos por teólogos do mundo inteiro, e principalmente após haver invocado a assistência do Espírito Santo, Pio XII houve por bem declarar solenemente que pertence ao Depósito da Fé cristã o fato de que a Virgem Santa, "ao terminar o currículo desta vida, foi em corpo e alma elevada à glória celeste".

É, em última análise, a voz do Magistério (ordinário e extraordinário) da Igreja que funda a certeza do dogma da Assunção ou que garante a autenticidade da Tradição oral referente a este assunto. O Espírito Santo é a alma do Corpo Místico de Cristo ou da Santa Igreja; não permitiria que esta se enganasse unanimemente durante quinze séculos, professando a exaltação final de Maria, nem terá deixado que, confirmando tão antigo e respeitável testemunho do povo cristão, o Santo Padre Papa Pio XII tenha ensinado e imposto à fé da Cristandade uma proposição errônea.

Cristo não teria enviado o Espírito Santo sobre os Apóstolos nem lhes teria prometido a sua própria Assistência até o fim dos séculos (cf. Mt 28,20) se não fosse justamente a fim de que a hierarquia da Igreja soubesse devidamente discernir verdade e erro nas afirmações sucessivas do povo cristão através da História.

É, portanto, a voz oficial da Igreja, depositária do ensinamento oral de Cristo e dos Apóstolos, que o dogma da Assunção de Maria supra a sobriedade da Revelação escrita.

Por fim e não obstante, torna-se oportuno averiguar até que ponto o fato da exaltação corporal da Mãe do Senhor possa estar insinuado pela Escritura.



3. O testemunho bíblico

Os textos da Bíblia, interpretados unicamente segundo os critérios da linguística, não sugeririam conclusão segura a respeito da exaltação de Maria aos Céus. Guiado, porém, pela fé na Revelação total (a qual é expressa pelo Magistério da Igreja), o leitor autenticamente cristão pode descobrir na Sagrada Escritura os germens desse dogma, os quais ele de outro modo talvez não percebesse.

Segue a análise das quatro passagens bíblicas que mais costumam ser explanadas no tratado da Assunção: Gen 3,15; Lc 1,28; 1 Cor 15,20-23 e Apc 12,1s.


A) Gn 3,15: Disse o Senhor Deus à Serpente, após o pecado de Adão e Eva:

Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela. Esta te ferirá a cabeça e tu lhe ferirás o calcanhar."

No sentido pleno, a descendência da mulher aqui mencionada é o Redentor, Jesus Cristo, o único dentre os filhos de mulher que obteve perfeita vitória sobre o demônio (em Cristo, aliás, todo o gênero humano se achava recapitulado, como em um novo Adão). Por conseguinte, a mulher referida em Gênesis 3 vem a ser, no sentido pleno, Maria Santíssima, a mãe do Redentor (também Maria, na qualidade de nova Eva, – por ter sido a 'Porta do Céu', pela qual vem Deus ao mundo em corpo, alma e divindade, – recapitulava em si toda a humanidade).

Pois bem; o texto promete ao Redentor e à mulher a vitória sobre a serpente, isto é, sobre o demônio. O triunfo sobre o Maligno compreende, de acordo com a doutrina de São Paulo (Rom 4,25; 5,12-21; 6,23; 8,19-23; 1 Cor 15,3.24s.54s), a vitória sobre o pecado e suas consequências, entre as quais está a morte. Por conseguinte, se Maria, por Desígnio da Providência, teve que passar pela morte, seu corpo terá permanecido isento da corrupção do sepulcro, pois esta nunca é honrosa e fecunda (ao passo que a morte é por vezes honrosa e fecunda).

O corpo virginal de Maria, do qual o Redentor tomou carne e sangue, não haverá sido presa dos vermes da terra como se fosse "carne de pecado" (Rm 8,3). Se Maria morreu, deve ter ressuscitado após breve intervalo, e sua ressurreição terá sido logicamente coroada pela exaltação, em alma e corpo, aos Céus. – É este o texto bíblico mais importante para o dogma da Assunção.

B) Lc 1,28: "Ave, cheia de Graça, o Senhor é contigo, bendita és entre as mulheres", diz o anjo a Maria no momento da Anunciação.

Maria é dita pelo emissário celeste "cheia de Graça", como se este título fora o seu próprio nome. A Graça de Deus Todo-Poderoso, por conseguinte, encheu-a sem limitação. Isto, entre outras coisas, quer dizer: encheu-a desde o primeiro instante da sua existência, fazendo-a imune de qualquer pecado e, por conseguinte, imune do domínio da morte, já que a morte domina os homens em consequência do pecado. Deste modo a Virgem Imaculada deve ter sido vitoriosa sobre a morte no fim de sua vida terrestre.

C) 1 Cor 16,20-23: "Eis que Cristo ressuscitou dentre os mortos, primícias dos que morreram. Com efeito, por um homem veio a morte, e é por um homem que vem a ressurreição dos mortos. Como em Adão todos morrem, assim também em Cristo todos reviverão, mas cada um em sua ordem: Cristo como primícias; depois os que forem de Cristo, por ocasião de sua vinda."

São Paulo, no texto acima, recorrendo a uma imagem agrícola, distingue duas categorias de justos que ressuscitam: as primícias (Cristo, já ressuscitado) e o restante da messe (os cristãos, que ressurgirão no fim dos tempos). Cristo constitui as "primícias" porque é principio da vida nova (em oposição a Adão, que foi principio de morte). Algo de análogo se pode dizer de Maria, pois a Virgem Santíssima por graça de Cristo se tornou, ao seu modo, principio de vida (em oposição a Eva, a qual foi principio de morte para todo o gênero humano). Por conseguinte, à semelhança de Cristo, também Maria deve ter ressuscitado ou vencido plenamente a morte antes dos demais justos.

D) Ap 12,1s: "Grande sinal apareceu no céu: uma mulher revestida do sol, tendo a lua debaixo dos pés, e na cabeça uma coroa de doze estrelas. Estava grávida e gritava de dores, sentindo as angústias do parto."

Essa mulher dá à luz um Filho que é o Messias. (pois São João lhe aplica os dizeres do Salmo 2, messiânico). Tal figura feminina, por conseguinte, há de ser Maria, a qual é Mãe do Cristo físico e do Cristo Místico (ou dos membros de Cristo reunidos na Igreja), ainda que possa representar, também e simultaneamente, a Igreja. Qual Mãe do Cristo físico, Ela está no Céu, fisicamente em corpo e alma, como sugere o versículo 1.

Qual mãe do Cristo Místico, porém, ela está misticamente sobre a Terra, sofrendo a hostilidade do demônio. Tal foi a interpretação dada a este texto pelo Santo Padre Pio X na sua encíclica "Ad Diem Illum"; trata-se de opinião particular, que não se apoia em exegese muito rígida do texto sagrado.

_______
1. Cf. revista "Pergunte e Responderemos" 7/1958, q. 2
2. Cf. revista "Pergunte e Responderemos" 23/1959, q. 4
_______
Ref. bibliográfica:
BETTENCOURT. Estevão. Rio de Janeiro: Mosteiro de São Bento, Pergunte e Responderemos n.35, 11/1960.

• Adaptado do artigo "A Assunção de Maria aos Céus", por Dom Estevão Bettencourt – a reprodução deste artigo é livre, desde que acompanhe o link para a fonte original: www.ofielcatolico.com.br
www.ofielcatolico.com.br

Aparições de Nossa Senhora das Graças e a Medalha Milagrosa


 AS APARIÇÕES marianas são vistas como um sinal da divina Promessa de salvação aos fiéis, e também, muitas vezes, como um prelúdio do Apocalipse. Entretanto, a maioria desconhece que os relatos das visitas especiais da Virgem Maria a este mundo remontam, no mínimo, ao século III, quando Gregório Taumaturgo atestou que Maria lhe aparecera uma noite, acompanhada de João Batista, para introduzi-lo no Mistério da piedade.

    Popularmente, considera-se que as modernas aparições marianas tiveram início com as visões da camponesa Bernardete Soubirous, em Lourdes, na França, no decorrer do ano de 1858: essas visões até hoje inspiram o interesse de religiosos e pesquisadores de fenômenos supranaturais do mundo inteiro.

Adoração somente a Deus: há exageros no culto católico a Maria? – parte 2


O problema é que as vezes o ensinamento da igreja católica é diferente do que a gente ve na igreja , os fiéis e até o que os padres ensinam., Sobre esse assunto Uma coisa que eu fico meio assim é quando a pessoa diz que é "católico mariano". Meu Deus não foi Jesus que salvou? Maria não é serva de Jesus também? então que história de 'mariano'?

O ARTIGO SOBRE adoração a Deus e veneração a Nossa Senhora gerou especial repercussão, e já esperávamos que seria preciso dizer mais sobre o tema. De fato, a experiência, inclusive de vida, me permite conhecer os principais anseios de católicos e não católicos quanto aos assuntos relacionados à Doutrina. E digo que este tema específico, a meu ver, é quase que um "ponto cego" na prática pastoral da Igreja. Por conta deste, católicos mal formados e mal orientados se vão; outros resistem ou recusam-se a retornar a ela. Digo-o porque temos, de um lado, padres marianos que, sempre entusiasmados em exaltar a Rainha do Céu, também se esquecem sempre de dizer, por exemplo, que Maria é humana, que também ela foi salva por Cristo e/ou que, em que pese toda sua grandeza, ela é serva de Deus também. É isso o que nosso consulente quer ouvir, para se sentir seguro, e tudo isso é doutrina 100% católica, embora talvez (tenho que reconhecer) muitas vezes não pareça. O que é óbvio para alguns não é tão óbvio para todos, por muitos motivos.

Lembro-me, por exemplo, de um grande evento católico, num grande estádio de futebol em que um conhecido arcebispo de uma das principais capitais brasileiras (por motivos óbvios prefiro não citar nomes), em dado momento da pregação, deixou escapar: "Estamos aqui adorando esta imagem de Maria...". Evidente que foi um ato falho; creio piamente que ele queria dizer "venerar", "honrar", "homenagear" ou algo assim. Em todo o restante do discurso ele usou estes termos, corretamente. O fato, porém, é que aquela frase equivocada, perdida, passou, aparentemente desapercebida no meio de um longo pronunciamento. Mas terá mesmo passado totalmente desapercebida? O que sei é que haviam milhares de pessoas presentes, ouvindo, por um breve instante, uma heresia da boca de um Cardeal Arcebispo. Foi uma situação que me marcou, porque aconteceu exatamente na fase de minha vida em que eu vivia o meu momento de reconversão, de retorno à Casa do Pai, depois de ter me afastado e vagado por diversas denominações protestantes. E naquela frase um sucessor dos Apóstolos pareceu confirmar algo de que os pastores protestantes acusam, falsamente, a Igreja Católica...

Não foi nada. Como eu sempre fui de estudar, de ponderar e procurar a verdade com diligência, de imediato soube reconhecer que se tratara simplesmente disso, de um deslize, um equívoco, um termo infeliz mal colocado numa frase. Mas não deixou de ser uma situação absurda, tal erro primário saindo da boca de um pastor de almas supostamente preparadíssimo. Por que isso acontece? Porque, talvez, falte algum pudor, algum cuidado maior para se falar deste assunto, de parte dos católicos, e isso escandaliza muita gente.

Outra questão importante –, ainda que secundária para o que nos interessa aqui –, é que muitos dos nossos pastores também se esquecem, e com muita frequência, de dizer que só existe uma "Nossa Senhora" –, a Mãe de Jesus –, e que os títulos que lhe atribuímos são sempre secundários. Testemunhava um padre amigo que, em certo pequeno município de São Paulo, numa certa procissão de Sexta-Feira Santa promoveu-se o "encontro das Virgens", isto é, de duas imagens diferentes de Nossa Senhora (se bem me lembro uma de Nossa Senhora das Dores e outra da Alegria!). Ora, ainda que haja, dentro de um contexto próprio, alguma razão catequética para tanto, não se pode negar que esse tipo de coisa provoca confusão. Só há uma Virgem Maria de Nazaré, como podem se encontrar "duas Marias" numa procissão, como se se tratassem de "duas santas" diferentes?

Bem, sei que não são poucos que pensam que cada imagem de Nossa Senhora, sob determinado título, é uma santa diferente da outra. Via de regra são pessoas humildes e muito simples, e não sei até que ponto podemos acusá-las, porque é fato que pouco se explica, nas homilias e pregações públicas, a este respeito.

Todo o exposto até aqui é real e me parece importante. Igualmente é verdade que, de outro lado, temos aqueles que, preocupados com a pureza da Doutrina, receiam em se entregar a uma devoção mais profunda, de intimidade e proveitoso relacionamento com a nossa poderosa Mãe do Céu. Isto acontece especialmente com aqueles que vem do protestantismo.

Pois é... Quando digo "poderosa" Mãe do Céu, sei que já estou potencialmente provocando polêmica, certo Artur? Sim, sim, nós, católicos, sabemos bem que Maria não tem poder por ela mesma. Eu também poderia dizer "gloriosa Mãe de Cristo", e você gritaria que ela não tem glória, que toda glória pertence a Deus, que Deus não divide sua glória (como vimos no estudo anterior)...

O problema todo tem a ver com palavras e, principalmente, com o significado das palavras ou o significado que se atribui a elas. Maria é criatura, ainda que uma criatura soberbamente agraciada, e como tal não tem o poder de realizar milagres, por exemplo, ou curar alguém por ela própria. Entretanto, o poder que ela tem é o da intercessão. E o poder da intercessão da Mãe de Deus, meu irmão, este é um tremendo, imenso, avassalador poder. Se este aqui fosse um site destinado ao público adolescente, eu diria que é um poder maior do que qualquer superpoder; algo que humilharia o Superman, se ele existisse...

Este grande poder de Maria chegou a ser chamado "onipotência suplicante", e aí você vai se escandalizar de novo. Mas, como eu disse, é tudo uma questão de prestar atenção às palavras. Veja que não está a se afirmar que "Maria é onipotente"; fala-se, isto sim, em "onipotência (atenção) suplicante". Pois é, esta segunda palavrinha faz toda a diferença entre o que seria uma blasfêmia e uma afirmação plenamente consonante à Doutrina cristã de sempre. Diz-se onipotência suplicante, porque Maria consegue, obtêm de Cristo, suplicando –, por nós e pelo mundo pecador –, tudo.

"Tudo?", dirá você. Sim, eu respondo. Como assim? Se eu pedir a ela que me faça o homem mais rico do mundo, ela conseguiria isto por mim? Não, muito provavelmente isto ela não me daria por meio da sua intercessão. Ora, mas as suas súplicas a Deus, então, não são onipotentes? O problema aí é outro. Maria não obteria algo desse tipo porque, em primeiro lugar, ela não pediria isto a Deus. Simples assim. S. Tiago Apóstolo foi claríssimo ao falar sobre situações deste tipo em sua Epístola: "Pedis, e não recebeis, porque pedis mal, para o gastardes com os vossos prazeres" (4,3).

As súplicas de Maria só são tão poderosas porque ela pede apenas aquilo que é conforme à Vontade de Deus, e ela só pede o que é conveniente porque vive no Céu em íntima Comunhão com o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Ela, que foi a mais obediente e mais conforme à Vontade do Pai dentre todas as criaturas, quando caminhava no mundo, agora, em Glória inacessível, está ainda mais perfeitamente alinhada àquilo que Deus quer, e o que Deus quer para nós é sempre o nosso bem maior. O nosso bem maior é a vida plena e eterna no Céu, portanto, pedidos fúteis ou que nos afastem deste bem maior não são feitos por Maria.

Assim, quanto se fala no "poder" de Maria ou nas "glórias" de Maria, é sempre dentro do contexto que acabamos de expor. Todo o poder vem de Deus; toda a glória vem de Deus. Quando alguém pede, por exemplo, uma cura a Maria, é sempre Deus Quem cura – e quantas curas os fiéis católicos obtêm por intermédio de Nossa Senhora! Se nos concentrarmos apenas em Lourdes, são muitíssimos os casos confirmados, com perícias e laudos médicos, sem contar aqueles (muitos!) que não chegam a ser estudados.

Logo, tem Maria poder por ela mesma? Não. Ela tem, isto sim, um poder de intercessão incomparável. Por isso é que, muitas vezes, padres e pregadores falam do "poder de Maria", das "glórias de Maria": é sempre o poder que Deus dá a ela, de obter grandes coisas por nós; as glórias incomparáveis que Deus dá a Maria, a mulher que Ele quis ter por Mãe.

Muito bem. Até aqui, creio que não há grandes dificuldades de compreensão. Mas os problemas recomeçam, novamente pelo mau uso que se faz das palavras. Lá vai algum padre piedoso, durante uma homilia, dizer que "Maria nos salva", e não esclarece o que está realmente dizendo com isso. Há até um cântico católico tradicional que diz, no refrão: "Doce coração de Maria, sede a nossa salvação"... "Oh! Está vendo? Só Jesus salva! Isto é idolatria! Heresia! Blasfêmia!", dirá Artur.

Nada disso. Quando você diz "Só Jesus salva", todo católico minimamente bem formado responderá, singelamente: "Amém!". É o que eu respondo sempre que me dizem isto, e percebo que essa reação causa espanto. Ora, é claro que só Jesus salva. Todos os documentos da Igreja, desde o início até hoje, a começar pela própria Bíblia Sagrada, afirmam e reafirmam esta verdade fundamental inúmeras vezes. E nós cremos que Maria, assim como os santos e anjos de Deus, conduzem-nos a Cristo, de muitos modos, por meio de suas súplicas incessantes.

Vejamos um exemplo prático e bem simples. Imagine um sujeito qualquer –, vamos chamá-lo João –, cuja vida vai de mal a pior. Ele está perdido em muitos vícios, afastado de Deus, sem fé, sem esperança, sem caridade. Um belo dia, um autêntico cristão chamado José, alguém de fé realmente ardente, pelo seu exemplo e com muita perseverança, convence o pobre João a ir à igreja. Indo à igreja e ouvindo a pregação, João, que estava desesperançado, vai se transformando por dentro, sua fé vai se reacendendo e, logo na próxima oportunidade, novamente José o leva à igreja; assim a coisa continua e com isso João, o pecador contumaz, de tanto ouvir falar de Cristo, volta a crer, aos poucos vai abandonando os seus vícios, até se arrepender completamente deles, confessar os seus pecados e, afinal, retomar a Comunhão com Cristo.

Pergunta: poderíamos dizer que José salvou João? Sim! José convidou, chamou, deu exemplo, persistiu, acompanhou e, assim, João reencontrou Jesus Salvador. Não foi José quem salvou João no sentido literal ou mais profundo, porque, se João afinal aceitou ir à igreja, antes de tudo, foi por misericórdia do próprio Cristo, por inspiração do Espírito Santo, que chama as almas à reconciliação com Deus. Todavia, José fez bem a sua parte, cumpriu a sua obrigação de cristão e, de algum modo, participou ativamente na salvação de João. João poderá dizer, sem errar: “José foi a minha salvação!”, porque o levou ao verdadeiro e único Salvador.

É mais ou menos isso o que se dá com Maria e os santos: eles pedem incessantemente a Deus por nós, oferecem-nos constantemente o exemplo de suas vidas, inspiram-nos a procurar Cristo. Que grande multidão de almas salvou-se (ainda que não diretamente por eles) por meio deles!


Nossa Senhora é reverenciada em todo o mundo sob muitos títulos: esta estátua colossal da Virgem Maria fica no município de Santa Clara, Califórnia, EUA


Adoração e veneração

O problema é que as vezes o ensinamento da igreja católica é diferente do que a gente ve na igreja , os fiéis e até o que os padres ensinam (...)

Haverá, então, diferença entre o que a Igreja prega e ensina "oficialmente" e o que pratica de fato? Já conversei com muitos protestantes e pentecostais decepcionados com suas comunidades e sinceramente desejosos de conhecer a primeira (e única) Igreja de Cristo sem preconceitos, com boa vontade e alma desarmada. Ao estudar o Catecismo e documentos pontifícios, encantam-se, mas escandalizam-se diante de muitas das práticas que veem em pessoas confessadamente católicas. Estudam os documentos da Igreja e encontram coerência, mas não podem aceitar certos costumes, que não compreendem. É por isso que venho aprofundar mais o problema proposto pelo leitor antes anônimo, que agora se identifica com o nome "Artur". Será que, na Igreja, o discurso é diferente da prática? Aprofundemos a nossa análise um pouco mais.

O escândalo se dá, por exemplo, ao ver alguém se prostrar ante um ícone, beijá-lo, falar diante dele como se falasse a ele. Antes de mais, é preciso distinguir o ícone de um santo de um ídolo. Um ídolo (do grego, εἴδωλον, eidolon) é um objeto, imagem ou criatura colocada no lugar de Deus; literalmente, é um deus falso. Isto é claramente proibido pelo primeiro Mandamento da Lei de Deus. Já o ícone representa um santo (quando não o próprio Cristo), que é uma criatura de Deus, mas que não é jamais colocada no lugar de Deus, ao contrário; remete a Ele, como vimos. Um santo é como uma ponte para Deus, uma seta que aponta para Cristo, um lembrete para a nossa salvação.

Fica clara, então, a grande diferença que existe, afinal, entre adoração e veneração. Sendo um ídolo algo que se coloca no lugar de Deus, então temos muitas possibilidades de trair o Primeiro Mandamento: posso idolatrar um(a) amante, um grande líder político ou mesmo religioso, um artista, um cantor, um músico, um grande esportista... Depende de como se lida com as pessoas que se admira, de como se "olha" para elas. Diante de qualquer criatura, seja pessoa ou objeto, há sempre uma escolha a ser feita: vê-la e tê-la como um ícone (do grego, εἰκών, eikon) ou como ídolo. O ícone remete a Deus, leva a Deus, homenageia a Deus. Muitos salmos louvam a Deus pelas belezas que criou; assim, qualquer coisa de que gostamos pode servir para nos levar mais perto de Deus, por gratidão, por reconhecer nesta coisa a sua Glória e Bondade. Mas, se elevamos aquele bem de que muito gostamos ao lugar de Deus, então idolatramos.

Na Sagrada Escritura, a própria Virgem Santíssima, cheia do Espírito Santo, declarou de si mesma: “Todas as gerações me proclamarão bem-aventurada” (Lc 1,48); além disso, o Senhor Jesus Cristo em Pessoa, por diversas vezes, referiu-se às pessoas “bem-aventuradas”: os humildes, os que tem fome e sede de justiça, os pacificadores, etc. Ele mesmo estava, assim, louvando tais pessoas, pelas virtudes que receberam do Pai, chamando a atenção para a ação de Deus em tais criaturas. Assim são os santos.

Quando os católicos veneram um santo, o que fazem, em última análise, é louvar a Deus e agradecer por Ele usar pessoas humanas, tão frágeis, para realizar a sua Obra. No caso de um ícone, que recorda alguma criatura, a mesma regra se aplica. Portanto, é licito venerar imagens, prostrar-se diante delas, falar com os santos diante dessas imagens, beijá-las simbolicamente, acender velas diante delas, oferecer flores. O II Concílio de Niceia diz com clareza que o culto prestado à imagem não se dirige à imagem em si, mas sim ao protótipo, ou seja, àquele que está no Céu. Deus resplandece sua Glória naquela criatura.

Assim, ajoelhar-se diante de uma imagem da Virgem Santíssima pode ser considerado idolatria? A resposta direta e honesta é: depende. Se esta imagem está sendo vista e tratada como um ídolo por aquela pessoa, ou seja, está sendo posta no lugar de Deus, então sim. Mas, se ela for vista como um símbolo, uma ponte que leva a Deus, que conduz para o culto e o louvor a Deus, na Glória eterna que só a Ele pertence, então não.

Agora, convenhamos: será mesmo que existam em nossos tempos muitas pessoas que confundam Deus com uma estátua? Algum ser humano racional poderá realmente acreditar que uma escultura feita por mãos humanas é a Criadora do Universo, a Fonte da vida e a Provedora de todas as graças? Responda o leitor.


Católicos 'marianos'?

A Igreja de Cristo, como o próprio nome diz, é cristã e, como tal, tem que ser católica (universal, que existe como 'Casa de Oração para todos os povos', cf. Mc 11,17; Is 56,7). Se, por piedosa devoção, nos colocamos como "marianos", ou dizemos que somos "tridentinos", "carismáticos" ou outra coisa, é preciso cuidado com essas expressões que são, por mais piedosas, sempre secundárias e mesmo dispensáveis. De fato e de direito, até pelo bem daqueles que não conhecem a Sã Doutrina (dentro e fora da própria Igreja), bastaria e seria mais correto, para todos os efeitos, dizer que somos cristãos e católicos. Ponto.

O termo "mariano" seria como que um subtítulo que, diga-se de passagem, foi adotado por diversos grandes santos no correr dos séculos. Ainda assim, permanece subtítulo e, como todo subtítulo, não é necessário, mas contingente/acidental. É algo semelhante ao que acontece com uma obra literária, que precisa de um título, para que possa ser publicada e logo catalogada, depois conhecida, procurada e, evidentemente, adquirida e lida pelo seu público. Mas não precisa de subtítulo: um subtítulo pode ser muito útil e enriquecedor –, desejável até –, em alguns casos. Mas permanece contingente.

O nosso "título", fiéis católicos, é este mesmo: "católicos", que é sinônimo de "cristãos". Podemos agregar a este título (necessário) um ou mais subtítulos (contingentes)? Sim. Isto é útil ou vantajoso, edificante para si mesmo e para as almas? Em certas circunstâncias, sim. Em outras, poderá se tornar contraprodutivo. Falamos aqui, especificamente, sobre o subtítulo "mariano", como poderíamos falar sobre vários outros: a Igreja, por ter crescido tanto, e tão admirável e rapidamente, desde jovem viu-se confrontada com a tentação da divisão entre seus filhos –, às vezes em grupos que terminavam por se opor uns aos outros –, não só pela diferença dos carismas, mas, infelizmente, também das personalidades, dos temperamentos e gostos particulares, coisas inescapáveis ao próprio gênero humano.

Em sentido estrito e absoluto, todo verdadeiro católico é mariano, pois que Maria Santíssima, sendo Mãe de Deus, é igualmente nossa Mãe do Céu, maravilhosa graça divina que recebemos diretamente do Cristo pendente da Cruz. Como dito, além de muitos santos, alguns dos sacerdotes mais dignos e fiéis que conhecemos se declaram "marianos". Todavia é igualmente verdade que todos eles entendem bem o que isto exatamente quer dizer, e sabem o que acabamos de expor: que o termo "mariano" é subtítulo. O título principal e suficiente –, porque basta por si só e não exige nenhum complemento –, é "cristão" e/ou "católico". Curiosamente, justamente por todo católico autêntico ser também mariano é que se faz dispensável essa subtitulação.


Sim, houve e há exageros
Tudo aquilo que nos torna dignos de ser amados aos olhos de Deus nos vem d’Ele mesmo e só nos pode ser dado por seu amor soberanamente livre e gratuito. Digno de ser amado é o Bem, e nenhum bem, seja de que natureza for, pode vir senão da Bondade essencial, Fonte de todo bem.
(Sto. Tomás, 1, q. 19, a. 3)

Deus, em sua infinita riqueza de perfeições, inclui em Si todas e quaisquer perfeições, quer as suas, quer as dos seres que Ele cria e que são reflexos ou participações nas perfeições d'Ele. Por isso a Igreja vive e se move, como rezamos na Missa, "com Cristo, por Cristo e em Cristo", Deus Conosco. Como tal, esta Igreja sempre teve clara a ideia de que o único digno de ser adorado é o mesmo Deus, Pai, Filho e Espírito Santo. Ninguém mais pode ser adorado, nem sequer a criatura mais pura, agraciada e bem-aventurada que jamais existiu, a ponto de ter-se tornado para nós o Tabernáculo da Nova e Eterna Aliança entre Deus e a humanidade. Absolutamente ninguém, ninguém a não ser Deus, merece e pode receber a nossa adoração.

Há uma disciplina complexa e talvez difícil, sob certos pontos de vista, que em nossos tempos chamamos "Mariologia". Algum tempo após a divisão trazida pela dita "reforma" protestante, este tema foi-se tornando, aos poucos, um dos mais espinhosos e também dos maiores pretextos para disputas inúteis e despropositadas. Em todo caso, somos também obrigados a reconhecer, por justiça, que, de nossa parte, na ânsia em enaltecer as virtudes e a dignidade especialíssima da Virgem, em certos momentos caímos no exagero. Certas máximas como a célebre "de Maria nunquam satis" ('de Maria nunca se dirá o suficiente'), atribuída a S. Bernardo de Claraval, foram sem dúvida mal interpretadas ao longo da História, ao ponto de ter gerado, sim, em certas situações específicas, idolatria.

Consta das biografias do Padre Pio, que tinha visões da Virgem (de suas cartas ao seu confessor), que o Padre, num desses êxtases, arrebatado pela "belíssima beleza" da Mãe de Deus, exclamou: "Ah, Mãe bela, és bela! Se não tivéssemos fé, os homens te chamariam deusa!"... Tal é a glória dada por Deus à Santíssima Virgem, Rainha do Céu, assentada à direita de seu Filho, o Rei dos reis, que às mentes fracas poderia oferecer o risco de queda, realmente, na idolatria.

Quem se espanta ao se defrontar, hoje, com a doutrina 100% herética intitulada "Maria Quarta Pessoa da Santíssima Quaternidade" (desgraçadamente nascida em seio católico), na maioria das vezes não imaginará que na História da Igreja já se tinha conhecimento de grupos de “cristãos” que caíram no erro de adorar a Virgem Maria como deusa. Segue a história de uma destas heresias e de como foi devida e imediatamente condenada pela Igreja.

As heresias são tão antigas como a própria história do Cristianismo. Por isso, a Igreja tem que atuar diligentemente para denunciá-las e para que o povo de Deus não seja confundido. No séc. IV, apareceu um grupo de autodenominados “cristãos”, conhecidos como coliridianos, os quais se reuniam num culto de adoração à Virgem Maria. Este estranho culto consistia, entre outras coisas, em oferecer bolos e pastéis à Virgem, em sinal de verdadeira adoração. Na realidade, eles não eram cristãos, mas uma seita gnóstica integrada majoritariamente por mulheres que tomaram a figura de Maria e a mesclaram com a dos deuses pagãos, no famigerado sincretismo que tanto infortúnio costuma causar aos verdadeiros cristãos. Logo, misturavam-se passavam-se por verdadeiros católicos, alguns dos quais já se misturavam com eles e os admitiam ao convívio fraterno.

Quando Santo Epifânio, bispo de Salamina (367-402), soube desta heresia, não tardou em denunciá-la e condená-la em nome de toda a Igreja Católica. Tal condenação pode-se ler em sua célebre “Paranión”, da qual consta o seguinte trecho:

É ridícula e, na opinião dos sábios, totalmente absurda (a heresia coliridiana), pois aqueles que, com atitude insolente, são suspeitos de fazer tais coisas, prejudicando as mentes (…) que se inclinam nesta direção, são culpadas de terem causado pior dano.

Santo Epifânio esclarece a diferença entre o verdadeiro culto a Deus e, do jeito mais singelo, direto e objetivo possível, como convinha aos santos bispos e teólogos do seu tempo, a primeira e mais pura verdadeira devoção à Virgem Maria, dizendo com total clareza: “Seja Maria honrada. Seja o Pai, Filho e Espírito Santo adorado; mas ninguém adore Maria”.

Também entre os montanistas orientais os chamados marianistas e filomarianistas adoravam Maria com "deusa". Vemos, então, que o perigo dos exageros é real, e apesar de toda a paranoia de alguns de nossos irmãos afastados, devemos reconhecê-lo. Esta é a atitude mais séria e honesta de nossa parte.

A Santíssima Virgem 'é honrada com razão pela Igreja com um culto especial. E, em afeto, desde os tempos mais antigos, se venera a Virgem Maria com o título de Mãe de Deus', sob cuja proteção se achegam os fiéis suplicantes em todos os seus pedidos e necessidades. Este culto (…) também é todo singular, essencialmente diferente do culto de adoração a Deus, ao Verbo Encarnado, ao Pai e ao Espírito Santo, e o favorece poderosamente' (LG); encontra sua expressão nas festas litúrgicas dedicadas à Mãe de Deus (cf. SC 103) e na oração mariana, como o Santo Rosário, 'síntese de todo Evangelho'
(Catecismo da Igreja Católica §971)

___
Fontes e ref.:
1. ALASTRUEY, Gregorio. Tratado de la Virgen Santissima, 4. ed. Madrid: BAC, 1856, P.841.• DIAS, Mons. João Scognamiglio Clá, EP. O Inédito sobre os Evangelhos: Comentário aos Evangelhos Dominicais. Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 2013.

• 'Quando a Igreja Católica condenou a adoração a Virgem Maria', disp. em
http://pt.churchpop.com/quando-igreja-catolica-condenou-adoracao-virgem-maria/
Acesso 25/1/017

• 'Culto aos santos e suas imagens', Padre Paulo Ricardo de Azevedo Jr. disp. em
https://padrepauloricardo.org/episodios/culto-aos-santos-e-suas-imagens

Acesso 25/1/017
www.ofielcatolico.com.br
Subir