(1Pd 3,15-17)
Diz o grande e santo Apóstolo Paulo, inspirado pelo Espírito de Deus, na Sagrada Escritura:
"Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé. Desde agora, a Coroa da Justiça me está guardada, a qual o Senhor, justo Juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas também a todos os que amarem a sua vinda." (2 Timóteo 4, 7-8)
Combater é preciso, talvez mais do que nunca. E sendo a missão de nosso apostolado antes de tudo a catequese, apresentamos esta série de postagens que pretende servir como introdução elementar à Doutrina. Esperamos que estes humildes estudos convertam-se em útil, apesar de singelo, instrumento para o treinamento dos bons combatentes; aqueles que desejam se tornar, de fato, soldados de Cristo.
Treinamento do Soldado de Cristo
I – A situação atual da Igreja
O soldado de Cristo precisa de conhecimento. É fundamental conhecer o terreno onde pisa, conhecer bem o campo de batalha, o tempo e o lugar onde acontece a guerra. Vejamos...
Cremos que é a Graça Divina que impulsiona o ser humano a procurar a Verdade, que é sempre a mesma e nunca muda, mesmo submersa neste imenso mar de relativismo em que agora vivemos, pois atravessamos tempos de tremenda apostasia. Os valores cristãos de sempre são contestados, desde a raiz. Horror dos horrores, a "Sã Doutrina", da qual falou o mesmo São Paulo, é hoje renegada até dentro da própria Igreja(!).
![]() |
| Dom Odilo Scherer, Cardeal Arcebispo de São Paulo, hostilizado com berros e palavrões em plena PUC – a Pontifícia Universidade... Católica? |
No Brasil e em toda a América Latina, a ideologia marxista tomou conta também, e talvez principalmente, das universidades e colégios católicos, assim como das mentes de boa parte do clero, formados sob o ideário da famigerada "'teologia' da libertação" (ou 'TL', que de 'teologia' não tem absolutamente nada e foi considerada por Bento XVI a pior heresia da História).
Sim, João Paulo II, Bento XVI e agora Francisco condenaram a TL. Mas inúmeros padres e bispos de nosso país continuam enxergando, neste verdadeiro câncer, a proposta ideal para a "Igreja do Brasil" e "de hoje"; esquecendo-se de que a Igreja é, por sua própria natureza, universal e atemporal, e que por isso mesmo não pode haver "igreja do Brasil" ou "igreja da América Latina" e nem "igreja de hoje".
Todo esse estado de coisas se reflete nas pregações, nas celebrações litúrgicas, nas posturas e atitudes... E colabora de modo pesadíssimo para a confusão, a corrupção e a perdição de incontáveis almas. No clero, mesmo entre aqueles que são muito queridos e admirados por sua caridade, por seu trabalho social, pelos serviços comunitários e amor aos pobres... falta a fidelidade à Tradição, o amor à Liturgia, a adesão à autêntica fé da Igreja. De santos sacerdotes tornaram-se meros assistentes sociais.
Evidentemente, estamos lançando um brevíssimo olhar sobre um longo, complexo e delicado tema, a respeito do qual, àqueles que desejarem um aprofundamento maior, indicamos as já bem conhecidas aulas do Pe. Paulo Ricardo de Azevedo Jr., por serem bastante didáticas e elucidativas (podem ser acessadas neste link).
Em meio a todo este cenário ameaçador, há pelo menos uma boa notícia: nos tempos difíceis é que aparecem mais claramente os que são verdadeiramente fiéis. Já existe – ganhando corpo e organizando-se melhor a cada dia que passa – um movimento de resistência a esta suja revolução daqueles que, de dentro, procuram corroer os alicerces da Santa Igreja.
Ao final desta muito simples apresentação do panorama atual da Igreja, e para concluí-la bem, repetimos o fundamento mais óbvio: a coisa importante a se compreender e manter sempre em mente, para não se perder no campo de batalha, é que a verdadeira doutrina cristã e católica se fundamenta sobre três pilares: Magistério, Tradição e Escritura.
II – Os três pilares da Fé cristã católica
Todas as vezes que um protestante ou um chamado "evangélico" desafia um católico para um debate, a primeira coisa que faz, antes mesmo de começar a apresentar suas argumentações, é pressionar o católico a aceitar que tudo o que será debatido precisará estar escrito, literalmente, na Bíblia. Está armada a cilada: quando o soldado católico aceita que tudo o que ele disser precisará ter "base bíblica" –, subentendida como interpretação literal e superficial das Escrituras –, entrou num beco sem saída. Quando menos perceber, estará sendo surrado.
Isso acontece porque, quando aceita a premissa do Sola Scriptura (somente a Escritura), o católico comum se confunde e acaba se perdendo, até por não ter o hábito tão enraizado de ler a Bíblia regularmente, e menos ainda de memorizar trechos das Escrituras para usá-las quando tiver oportunidade, como fazem comumente os protestantes e "evangélicos". Portanto, ao invés de entrar no terreno do inimigo, aceitando usar as suas armas e combater conforme as suas regras, o católico deve já iniciar a peleja deixando muito claro que, para a nossa fé, o maior de todos os erros está justamente no Sola Scriptura.
Para entender exatamente o que estou tentando dizer, ouça abaixo os primeiros cinco minutos do debate entre o pastor "evangélico" Silas Malafaia (orador e polemista talentosíssimo) e o Pe. Antônio José (Par. N. Sª de Fátima do Meyer – RJ):
Diz o matreiro pastor: "Nenhum de nós é dono da verdade; não é o que eu penso, não é o que você pensa. Assim como na ciência o parâmetro para saber o que é verdadeiro e o que é falso é o experimento, na Teologia e no cristianismo o instrumento da verdade é a Palavra de Deus (Bíblia). A Palavra de Deus é que diz quem está com a verdade... Vamos fazer o 'teste da Palavra' (Bíblia), e assim vamos ver quem está com a verdade..."
A partir daí, ele prossegue até o fim do debate, a todo instante, ao começo e ao final de cada assunto discutido, repetindo incansavelmente: "Está na Bíblia"; "Não está na Bíblia"; "Tem base bíblica"; "Não tem base bíblica"..., e citando uma série de passagens memorizadas das Escrituras.
Não vou sequer mencionar que o próprio mediador do debate é também "evangélico", e chega ao ponto de cortar o microfone do padre para dar ao pastor o tempo de chamar os católicos a deixarem a Igreja e aderirem ao Sola Scriptura, – o que já configura uma tremenda covardia contra o padre. – O maior erro, entretanto, foi ter o pobrezinho do padre, ingenuamente, aceitado o convite de Malafaia, para discutir única e exclusivamente a partir do texto, da letra, daquilo que está ou não está escrito, e como está escrito. Assim avançou, desarmado e inocente, para o campo de batalha do inimigo, aceitando usar somente de suas armas. Deste modo, é claro que seria ferozmente trucidado, como foi.
Da mesma maneira, qualquer católico que cometa o mesmo erro sairá fragorosamente derrotado, a não ser que se trate de um biblista bem formado e experiente, o que dificilmente será o caso de um leigo. Todo católico que aceitar debater tendo a Bíblia como única regra da verdade e da mentira, imediatamente se colocará indefeso e exposto a todo tipo de ataque mortal.
E aqui vou ter que falar de algo que já falei algumas outras vezes neste site: a batalha deve começar a ser vencida pelo soldado católico já antes do seu início: quando ele exige que a luta seja travada de maneira justa, em solo neutro, com regras igualmente neutras, cada qual usando as armas que prefere e que domina melhor, ao invés de aceitar debater no campo de batalha do inimigo, segundo suas regras e usando suas armas. E isso é algo realmente muito simples de se fazer: basta lembrar aos nossos adversários que o cristianismo nunca, jamais se fundamentou exclusivamente na Bíblia, e para confirmá-lo basta lembrar que nos primeiros séculos do cristianismo a Bíblia cristã simplesmente não existia. Todas as vezes que a Bíblia menciona "Escrituras", está falando dos textos sagrados dos antigos judeus, a chamada Bíblia Hebraica, que é formada por 39 livros do Antigo Testamento divididos entre a Lei (Torá), os Profetas (Neviim) e os Escritos (Ketuvim).
E mesmo depois da canonização, os cristãos não tinham acesso a Bíblia, como temos hoje, por várias razões: primeiro, antes da invenção da Imprensa, a Bíblia era copiada à mão, e o custo dos materiais, do serviço e da mão de obra dos copistas era caríssimo. Era impossível que cada fiel tivesse um exemplar da Bíblia em sua casa, para consultar quando quisesse, como acontece hoje. Além disso, na antiguidade, a grande maioria do povo era composta por iletrados, que simplesmente não sabiam ler, e muito menos compreender o conteúdo do Antigo Testamento e dos Evangelhos, dos Atos e das cartas dos Apóstolos. – O que aliás deu origem à arte sacra que hoje se confunde com idolatria: cenas bíblicas eram retratadas em forma de esculturas para facilitar a compreensão do povo analfabeto.
Por quê o termo "Reforma" é inadequado para se referir ao protestantismo? Vejamos: como é que se reforma uma casa? Simples: reconstruindo o que precisa ser reconstruído, corrigindo falhas, lixando, pintando, substituindo telhas, trocando o piso... Mas não é reforma demolir toda a casa e construir outra no seu lugar! Pois foi exatamente isso o que Lutero, Calvino e os pais do protestantismo fizeram: demoliram a casa, reduzindo as bases da fé cristã original a pó, e quiseram levantar uma outra construção em seu lugar. Uma construção totalmente irregular e desequilibrada, pois lançou fora o equilíbrio necessário dos três pilares para se tentar equilibrar sobre um só, que é a Sagrada Escritura.
















