Revolucionários e modernistas fizeram festa quando o Papa autorizou que, por tempo indefinido, os padres pudessem perdoar o aborto


ATÉ HÁ POUCO TEMPO, este crime hediondo contra a vida era um dos pecados que somente bispos ou o próprio Papa podiam perdoar, juntamente com os seguintes pecados: de apostasia, heresia e cisma; de violência física contra o Romano Pontífice[1]; do pecado grave contra o Sexto Mandamento do Decálogo[2]; da consagração episcopal sem mandato pontifício[3] e da violação do sigilo sacramental[4]. Desde o Ano Santo da Misericórdia proclamado pelo papa Francisco (2016), essa norma mudou: agora, o aborto pode ser perdoado mediante a simples confissão ao sacerdote mais próximo. Inicialmente, essa mudança deveria ser válida somente durante o próprio "Ano Santo": depois, Francisco resolveu estendê-la por tempo indefinido (na prática, tornou-se regra geral e aparentemente definitiva na Igreja).

A questão importante de se compreender aqui envolve a distinção entre o pecado, digamos, simples, e o pecado que também é crime canônico. O Código de Direito Canônico (CDC) o esclarece com base no direito penal eclesiástico.

É preciso saber que a Igreja é uma sociedade (espiritual) em Comunhão com Deus, por isso é sumamente necessário preservar a ordem e salvaguardar o que há de mais sagrado para nós, católicos.

Assim, alguns pecados contém anexas determinadas penas, como é o caso da excomunhão automática.

Quando se comete um pecado grave/mortal, não se pode comungar, mas há outros pecados pelos quais os seus autores, além de não poder comungar – pela culpa direta do pecado grave – perdem também outros direitos na Igreja, como por exemplo ficam proibidos de receber a própria absolvição e de exercer funções na Igreja (no caso de terem algum cargo, serão afastados), etc. A excomunhão é muito mais do que deixar de comungar, embora esta seja a mais terrível das penas: há uma série de outras consequências.


Porque o gravíssimo pecado do aborto gera excomunhão automática e só os bispos o podiam perdoar:

Aborto é uma modalidade de assassinato, possivelmente a mais cruel dentre todas. Uma pessoa que cometer um assassinato sem ser pelo aborto está em pecado mortal, logo também não pode comungar; porém, esta não foi excomungada. Por quê? Porque a Igreja sempre entendeu que o assassinato, digamos, "comum", já é um crime contemplado pelo Código de Direito Civil, e assim, não haveria razão para que a Igreja colocasse em seu próprio código penal um item especial relacionado ao crime de assassinato. Quem comete um assassinato já será punido legalmente, porque tal ato, além de ser pecado, é crime no Direito Civil, que já existe para colocar essa pessoa na cadeia por um longo tempo (ou, em algumas nações, ser condenada à prisão perpétua ou até á pena capital).

A Igreja tem o seu direito penal especialmente para colocar penas criminais em crimes que ela considera que deveriam ser punidos de modo especial por sua gravidade e que, de modo geral, o Direito Civil pode não punir.

Aborto no Brasil é crime, mas um crime para o qual sempre se fez vistas grossas, e – mais importante que isso – existem muitos países onde aborto não é crime. Sendo assim, a Igreja, para cumprir o papel que lhe cabe como Mater et Magistra (Mãe e Mestra) instruindo e evangelizando os povos, sempre procurou demonstrar com toda a clareza o que é certo e o que é errado, o que é bem e o que é mal, criminalizando o aborto também no seu CDC.

Assim, por exemplo, o infanticídio é pecado e o aborto também; evidentemente, ambos gravíssimos. Porém um já é crime no Direito Civil, e outro, muitas vezes não é. Para garantir a criminalização do crime hediondo do aborto, a Igreja colocou a excomunhão automática como pena para o aborto.

Quem podia perdoar esse pecado até então era somente o bispo (ou os padres a quem o bispo concedesse formalmente essa faculdade) ou o próprio Papa.

Todavia eis que nestes nossos tempos – no pior momento possível, em que em todo o mundo aumentam os movimentos revolucionários, feministas, anticristãos e antifamília que lutam pela legalização irrestrita do aborto – veio essa inacreditável notícia de que o Papa resolve autorizar – em caráter definitivo – que todo e qualquer padre perdoe o aborto mediante a simples confissão.

Poderá qualquer pessoa intelectualmente honesta duvidar de que tal ação vai favorecer os movimentos favoráveis ao aborto? Que com isso se perderá uma importantíssima trincheira na linha de batalha contra o diabo, nesta guerra tão terrível que os cristãos enfrentam em nossos dias? Que havia ainda algumas mulheres que deixavam de abortar por seus escrúpulos religiosos (por medo do castigo divino, de ser excluída definitivamente da Comunhão com a Igreja), e que a partir de agora tudo ficou ainda mais fácil para aquelas que já pensam em abortar? 

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[1] Agredir fisicamente o Papa é crime canônico (Cânon 1370 §1); 

[2] Pecado grave contra o Sexto Mandamento do Decálogo ocorre se um padre peca sexualmente com determinada pessoa e, depois, essa mesma pessoa vai confessar a esse mesmo padre o pecado que cometeram juntos: se o padre der a absolvição, esta é nula, e esse sacerdote está excomungado. A absolvição em tais casos é reservada à Santa Sé, como sinal de zelo pela sacralidade do Sacramento da Confissão (Cânon 1378). 

[3] Como o nome diz, a consagração episcopal sem mandato pontifício ocorre quando um bispo, sem ordem do Papa, ordena outro bispo. Casos bastante conhecidos são os de Dom Marcel Lefebvre, Dom Antônio de Castro Mayer e os bispos que consagraram sem mandato pontifício, que foram excomungados automaticamente. Posteriormente, todavia, o Papa Bento XVI retirou deles a pena de excomunhão (Cânon 1382).

[4] A violação do sigilo sacramental acontece se um padre conta os pecados que ouviu na Confissão. Se o padre conta o pecado e o pecador, está excomungado automaticamente. Se conta somente que ouviu tal e tal pecado, mas não revela quem o cometeu, não está excomungado, pois nesse caso não revelou o segredo.

Um comentário:

  1. Uma interferência infeliz do Papa, num assunto extremamente sensível ao cristão, que sabe se tratar de assassinato e não compreende porque afrouxar as duras medidas da Igreja, com relação a este tema. Na minha opinião, nenhuma pessoa pode, seja ela quem for, perdoar o pecado do aborto. Somente Deus que tudo vê e tudo sabe, poderia julgar com justiça. Considero este atual Papa muito rebelde, alguns o chamam de Papa Pop, devido aos modernismos defendidos por ele, outros o chamam de coisas muito piores. O tempo se fecha e logo saberemos.

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