Progredir na vida espiritual – um guia para a vida de santidade

Iniciamos com esta a publicação de uma coletânea de artigos baseados em "Progresso na vida espiritual", obra atemporal de um grande diretor espiritual: o inesquecível Padre Faber. Rezamos para que seja de proveitosa leitura também aos nossos visitantes.



A VIDA ESPIRITUAL de cada pessoa humana nesta Terra é toda cheia de contradições. Muita gente estranha essa afirmação, mas isso quer dizer, em outras palavras, que a natureza humana é decaída.

Uma das maiores aparentes contradições, e talvez das mais difíceis de manejar, é a seguinte: na espiritualidade, por um lado é importantíssimo termos um profundo conhecimento de nós mesmos e, ao mesmo tempo, ocuparmo-nos muito pouco com nossa própria pessoa, o que não é muito fácil de conciliar.

Por um lado, nenhum conhecimento nos pode ser mais útil do que saber a situação em que estamos perante Deus. Tudo depende disso. É essa, para nós, a ciência das ciências, mais do que a ciência do bem e do mal que tão violentamente tentou Adão e Eva. Se estamos bem com Deus, tudo está bem conosco, ainda que as mais pavorosas adversidades nos cerquem. Se não estamos bem com Ele, nada está bem conosco, ainda que esteja aos nossos pés e à nossa disposição tudo o que o mundo possui de melhor, os maiores luxos, prazeres, pompas e honras possíveis nesta vida.

É natural que desejemos saber se progredimos na vida espiritual, nada havendo de mal e nem de imperfeito nesse desejo, desde que não seja demasiado. Seria para nós uma imensa consolação acreditar que avançamos bem, que nos adiantamos no Caminho. Se, pelo contrário, tivermos bons motivos para crer que alguma outra coisa, um outro aspecto de nossas vidas vai mal, será sem dúvida uma segurança e uma garantia saber que não andamos nas trevas na matéria que nos toca mais de perto que qualquer outra: a comunhão com Deus.

Não podemos, no entanto, por mais que o desejemos –, e isso é algo muito, muito importante, porque por não saber disso vidas se perdem –, ter completo conhecimento do nosso progresso na vida espiritual. Isso é assim tanto pelas razões que pertencem somente a Deus quanto pelas nossas próprias.

Deus, por razões que só Ele conhece, prefere ocultar seus desígnios. Já nós, costumamos permitir que nosso amor próprio e/ou vaidade exagerem o pouco que fazemos. Nem sabemos, com certeza, se estamos em estado de graça. Trazemos e até acalentamos, via de regra todos nós, “degredados filhos de Eva”, em nossas almas, uma quantidade de pecados secretos, alguns que poderíamos chamar “pecados de estimação” dos quais não aceitamos nos separar, e, de fato, não devemos estar nunca totalmente tranquilos nem mesmo quanto aos pecados que consideramos perdoados.

Há meios equivocados – e de morte – na tentativa de adquirir esse conhecimento quanto ao nosso progresso espiritual, que os corações dos impacientes e dos ansiosos procuram. A verdade é que todo desejo, até mesmo aqueles aparentemente sadios, que não for rigorosamente disciplinado e firmemente subjugado, torna-se, com o tempo, exagerado e desregrado e então sabe encontrar, com astúcia fatal, os meios mais funestos de se satisfazer a si próprio. Quando falamos do desejo de conhecer nosso progresso na via espiritual, um desses meios é importunar nossos diretores espirituais para saber qual a opinião que eles têm a nosso respeito. E via de regra isto os repugna, porque eles não querem parecer soberbos nem passar a impressão de que são possuidores de dons sobrenaturais: de fato, assim são os espíritos verdadeiramente empenhados e/ou avançados nas conversões e nas vias espirituais autênticas, e eles costumam saber que tal conhecimento raras vezes nos favoreceria.

Quando nossos artifícios fracassam, procuramos nós mesmos sinais artificiais da nossa estatura espiritual, como crianças que na praia fincam paus na areia para marcar o limite da maré... Erramos e teimamos –, é humano –, e, tanto mais erramos, mais teimamos.

O resultado final, claro, é a ilusão. Ainda quando não procuramos conhecer o nosso estado interior por um desses meios falsos, fazemos o que é igualmente incorreto, afligindo-nos constantemente sobre o assunto, o que nos expõe a perdermos bênçãos e graças a quase a toda hora. Em verdade, com o nosso progresso na Graça dá-se o mesmo que com a hora da nossa morte, por não ser para o nosso bem termos conhecimento claro e exato de um ou de outro.

Já é bem difícil que nos conservemos humildes, mesmo quanto os defeitos se manifestam claros e visíveis, e o pouco bem que há em nós seja quase imperceptível. Que seria, então, se estivéssemos de fato crescendo em graça e dando passos largos no Amor de Deus? De certo, quanto menos soubermos deste progresso, tanto mais fácil será conservarmos a humildade. De mais a ausência desse conhecimento nos torna mais dóceis e obedientes, tanto às inspirações do Espírito Santo quanto aos conselhos dos diretores espirituais, pois, assim como a ignorância dos seus males torna os doentes submissos para com o médico, assim também sucede na vida espiritual em relação à ignorância sobre nosso progresso. E quanto é necessária a esse progresso a dupla obediência às inspirações e à direção!

Essa incerteza, em si, é um perpétuo estímulo de maior generosidade para com Deus. O grande inconveniente, pois, de uma excessiva introspecção é que os nossos olhos exageram o que há em nós de bom.

Quem conserva o olhar sempre fito no coração, tem uma esquisita e exagerada noção do que faz por Deus. E é justamente a desproporção entre a grandeza do que Deus fez por nós e do Espírito de Amor paternal com que o faz, e a insignificância do que nós fazemos por Deus e o espírito de mesquinhez com que o fazemos, que nos leva a desejar com ânsia amá-lo mais e trabalhar com maior abnegação por ele. Daí concluo que não seria em nosso proveito saber certa e exatamente quão adiantados estamos no caminho da perfeição.

Um certo conhecimento do nosso estado é, todavia, possível, desejável e mesmo necessário, enquanto for desejado com moderação e procurado com reta intenção. Carecemos de consolo em tão difícil e duvidosa batalha, e não estamos ainda suficientemente desapegados para não encontrar consolação especial no conhecimento claro das operações da Graça em nossas almas. Não podemos ser muito dados à oração, sem termos algum conhecimento do proceder de Deus para conosco; e, na verdade, se não soubermos quais as graças que Deus nos dá, não lhes poderemos corresponder. Assim, certa soma de conhecimentos nos é absolutamente necessária para continuarmos a luta dos cristão, e os meios lícitos de adquiri-los são a oração, o exame de consciência e as admoestações espontâneas do diretor espiritual.

O conhecimento, então, do nosso estado espiritual, é árduo e arriscado. O menor conhecimento que nos possa satisfazer é o bastante, porque é muito difícil procurá-lo com retidão e usá-lo com moderação. Não podemos, porém, dispensá-lo de todo, ainda que sua importância varie segundo a condição espiritual do indivíduo.

É importante, pois, termos uma noção clara no tocante à condição da vida espiritual em que atualmente nos encontramos. Quem se converte, quem retorna a Deus e começa vida nova, faz penitência dos pecados e abjura as falsas máximas que até então observara. Sente-se outro para com Deus, para com o Senhor Jesus Cristo; entrega-se a certas práticas de mortificação; obriga-se a certas observâncias religiosas; põe-se sob a obediência de um diretor espiritual. Então sente os primeiros fervores, é ajudado pela prontidão sobrenatural em tudo o que se refere ao serviço de Deus, pela doçura sensível na oração, pela alegria na recepção dos Sacramentos, por um gosto novo pela penitência e pela humildade, por uma facilidade para a meditação, e às vezes pela cessação total ou parcial das tentações.

Esses primeiros fervores podem durar semanas, ou meses, ou um ano ou mesmo dois, mas depois sua obra está feita. Correspondemos mais ou menos fielmente. Tais fervores têm suas características próprias, suas peculiaridades, seus sintomas, suas dificuldades. Têm um feitio particular e necessitam de uma direção especial, que não conviria de outra forma. Agora já passaram e estão fora do nosso alcance. Iremos encontra-los de novo no dia do Juízo, e não antes.

Mas onde nos deixaram eles? No começo de uma fase da vida espiritual, numa época muito penosa e crítica. O mero desaparecimento do fervor, que não foi senão um favor temporário, deixa-nos submersos em um desagradável sentimento de tibieza. As características trevosas desse estado atual nos levam a crer que estamos mais abandonados a nós mesmos que outrora. A Graça parece que nos ajuda menos. O natural volta, quando o fervor que o dominava nos deixa, e vibra com vivacidade espantosa. Sentimos que o nosso apoio agora está no brio e na honestidade dos propósitos da vontade; sentimo-nos menos protegidos pelos vários recursos da vida sobrenatural.

As orações tornam-se mais áridas. O terreno que cavamos é mais duro e pedregoso. O trabalho perde o encanto à medida em que se torna mais penoso. A perfeição nos parece menos fácil e a penitência, insuportável.

É chegado, então, o momento da coragem e a hora da prova do nosso valor real. Começamos a viajar nas regiões centrais da vida espiritual, e estas são, na sua maior parte, regiões áridas, como de deserto. É aqui que tantos voltam atrás, sendo rejeitados por Deus como santos em potencial mas que não deram certo, almas de vocações inutilizadas.

A alma a quem nos dirigimos agora já chegou a esse ponto, e caminha custosamente, queimada pelo sol, castigada pelo vento, pelo fio da noite, tem lama até os tornozelos, anda desesperada pela escassez das nascentes d’água fresca, queixosa pela falta de um abrigo quieto e aconchegante, inclinada a parar e desistir do Caminho e da obra, por julgá-la já impossível.



Pelo infinito Amor que é Deus, não se entregue ao desânimo, ou tudo estará perdido.

Sei que você pensa que se ao menos soubesse que está avançando, que se pudesse realmente crer que está fazendo progressos, então forçaria suas pernas cansadas a prosseguir. Bem, dois valem mais do que um, diz a Sagrada Escritura. Pois então, vamos trabalhar juntos durante algum tempo, durante a leitura destes artigos, falando dos nossos obstáculos – eu, o seu diretor, também os tenho, e muitos! – e dos meios que temos para superá-los.

Não somos os santos perfeitos ou progredidos que queríamos ser, isso já sabemos. Faz-se necessário também um exercício de humildade e o reconhecimento maduro de que já não aspiramos, talvez, às alturas alcançadas pelos grandes santos e, portanto, não devemos tomar as liberdades dos grandes santos. As nossas lições, para que sejam de fato frutuosas e não fantasias de crianças, devem ser sóbrias, seguras, simples. Não devemos nem voltar atrás e nem parar no meio do Caminho.

Então, estamos progredindo? Infelizmente, no caminho celeste não há placas nem demarcações pelas quais possamos medir as distâncias; só há trilha e horizonte aparentemente sem fim. Coragem! Vamos indicar, a partir daqui, cinco sinais de progresso. Se você tiver um, está bem; se dois, melhor; se três, ainda melhor; se quatro, ótimo. Se tiver os cinco, alegre-se sumamente.

1. Está você descontente com o seu estado atual, qualquer que seja, e anseia por algo de melhor e de mais elevado?

Se a resposta for “sim”, então há razão para ser grato a Deus; esse descontentamento é um dos seus melhores Dons, e sinal evidente de que realmente estamos progredindo na vida espiritual. Devemos nos lembrar, porém, que esse descontentamento deve ser de natureza a aumentar nossa humildade, e não a causar uma inquietação de espírito nos exercícios espirituais. Deve consistir em um desejo impaciente de adiantamento na santidade, acompanhado de profunda gratidão pelas graças passadas e grande confiança nas futuras, e de um sentimento de viva indignação pela quantidade muito maior de graças recebidas do que correspondidas.

2. Pode parecer estranho, mas é sinal de progresso estar sempre a tentar novos esforços. O grande santo Antônio fazia a perfeição consistir nisso. Para pessoas que confundem novos esforços na vida devota com o incessante levantar e recair dos pecadores habituais, parece, por ignorância, motivo de desânimo. Não devemos confundir esses esforços contínuos e sempre novos com a inconstância que tantas vezes leva à dissipação e nos retêm no caminho do Céu. Esses esforços visam coisa mais alta e, portanto, mais árdua, enquanto a inconstância está cansada do jugo e procura conforto e variedade. Nem tão pouco consistem esses esforços em mudar de livros espirituais, de penitências ou métodos de oração, muito menos de diretores. Consistem principalmente em duas coisas: primeiro, em renovar a intenção de querer a maior glória de Deus, por amor; segunda, reanimar o fervor.

3. É também sinal de progresso na vida espiritual o termos em vista algo de determinado, como seja envidar esforços para adquirir certa virtude, emendar certo defeito ou praticar certa penitência. Tudo isso é prova de diligência e também indício do vigor da Graça em nós. Se não atacarmos um ponto particular da linha do inimigo, dificilmente será uma batalha. Se atirarmos sem alvo, só resultará barulho e fumaça. Não é provável que progridamos se caminharmos a esmo, sem um fim claramente escolhido e sem empregar os devidos esforços e atividade para alcançá-lo, depois de o ter conscienciosamente escolhido.

4. Mas é ainda maior sinal de progresso termos na alma a firme convicção de que Deus quer algo de nós em particular. Estamos certas vezes cientes de que o Espírito Santo nos está atraindo em uma direção de preferência a outra; de que Ele deseja a remoção de certo defeito ou quer que nos encarreguemos de alguma obra pia.

Os escritores espirituais chamam a isto “atração”. Para alguns será uma atração perseverante que dura toda a vida. Para outros muda constantemente. Para muitos é tão obscura que só a percebem de vez em quando; para outros, enfim, parece não haver chamado especial[1]. Quando essa atração se alia a um ativo conhecimento próprio e a uma constante vigilância na oração interior, é um grande dom de Deus pelas imensas facilidades que proporciona para levar a alma à perfeição; assemelha-se quase a uma revelação especial. Sentir, pois, com sóbria reverência, essa atração do Espírito Santo, é sinal de progresso. Todavia convém lembrar que ninguém deve se inquietar pela ausência de tal sentimento, que não é nem universal nem indispensável.

5. Aventuro-me também a dizer que certo desejo geral, e cada vez mais crescente, de adiantamento na perfeição, não deixa de ter certo valor, como sinal de progresso, e isso, apesar do que tenho dito da importância de visar determinado objetivo. Acho que não estimamos bastante esse desejo geral da perfeição. Naturalmente não nos devemos deter nele, nem nos contentar unicamente com ele. Só nos é dado para prosseguirmos.

Quando, porém, consideramos o quanto ainda se apegam ao mundo a maioria dos bons cristão e quão espantosa é a sua cegueira pra com os interesses de Jesus e quão inacessíveis são a princípios sobrenaturais, devemos confessar que esse desejo de santidade vem de Deus, que é um grande dom e que muita coisa de consequência superior está nele compreendida. Deus seja louvado por toda alma no mundo que tem a felicidade de possui-lo.

É quase inconsistente com a tibieza, o que não é, em sim pequena recomendação; e embora possamos subir e ir além desse mero desejo, ainda assim ele continua a ser uma condição indispensável para atingir o que lhe fica acima.

Não devemos, entretanto, ignorar os perigos inerentes. Tudo desejo sobrenatural recebido e não correspondido praticamente nos deixa em pior estado do que nos encontrou. Para ficarmos seguros, devemos proceder sem demora, transformando o desejo em ato: oração, penitência, ação zelosa; nunca, porém, precipitadamente ou sem tomarmos bom conselho.
Aí temos, pois, cinco sinais mais ou menos prováveis de progresso e nenhum está tão acima da inteligência que não esteja ao alcance do mais fraco dentre nós. Não quero dizer, todavia, que a existência desses sinais implique que tudo esteja certo na nossa vida espiritual; mas mostra que estamos vivos, adiantando no caminho da Graça. Possuir qualquer desses sinais é possuir algo de inefável, algo de mais preciosos que tudo que nos possa dar a Terra de melhor e mais elevado. Insisto: se temos um desses sinais, está bem; se dois, melhor; se três, melhor ainda; se quatro, ótimo. Se tiver os cinco, alegre-se sumamente.

Ora, veja! Já caminhamos um pouco. Penetramos mais adiante no deserto, e se não menos cansados, pelo menos um pouco mais animados.

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1. Madre de Blonay notou que aqueles a quem Deus destina a passar grande parte da vida como superiores de comunidades, não sente pela maior parte uma atração particular, pois o que o Espírito Santo deseja formar nessas almas é um espírito universal.

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