Professor Faggioli: 'A Igreja Católica já se encontra hoje em uma situação paracismática'

Prof. Massismo Faggioli

PAPA FRANCISCO diz que não tem medo de um cisma, mas no entendimento de pensadores respeitados como o professor Massimo Faggioli, a perspectiva de uma ruptura é totalmente real e está muito próxima. A reportagem é de Céline Hoyeau, publicada no portal La Croix International, em reportagem de setembro de 2019.

Faggioli leciona Teologia e Estudos Religiosos na Universidade Villanova, Estados Unidos, é autor e colunista regular de diversos veículos de mídia especializados na Igreja Católica. É dele o alerta: "A Comunhão eclesial nos EUA já está fraturada (...) A Igreja Católica já se encontra hoje em uma situação 'paracismática'".

Apresentamos a seguir os principais trechos da entrevista publicada no La Croix, com reportagem de Céline Hoyeau. A tradução é de Henrique Sebastião:


LCI: O risco de cisma nos Estados Unidos é real, na sua opinião?

M. Faggioli: Se considerarmos no sentido canônico da Idade Média, o da criação de uma Igreja paralela, que seria liderada por algum antipapa norte-americano, eu acho que não. Mas a História conheceu cismas de diferentes tipos, e parece-me que o risco está no fato de que, na realidade, a Igreja Católica nos Estados Unidos está profundamente dividida, e a comunhão interna já está fraturada. Os Estados Unidos, de certa forma, já estão em uma situação paracismática. Todo católico -americano sabe que, dentro de uma mesma diocese, encontrará paróquias muito diferentes, com práticas e homilias muito diferentes. (...) Isso se tornou mais forte com Francisco, que provocou fortes reações.

Intelectuais e personalidades (...) minam abertamente a legitimidade deste Papa. Assim, além do único caso específico do Cardeal Burke, um Cardeal da Cúria, os bispos dos Estados Unidos, como recentemente o de Tyler, no Texas, estão assumindo posições públicas pelas quais afirmam que o Papa está completamente errado sobre várias questões. Há um ano, mais de 20 deles apoiaram o ex-núncio em Washington, Dom Carlo Maria Viganò, quando pediu a renúncia do Papa, acusando-o de cúmplice de criminosos.


LCI: Mas criticar o Papa é um gesto cismático?

M. Faggioli: O problema não é a crítica, que é legítima e deve ter o seu lugar na Igreja. Depois do Concílio Vaticano II, muitos católicos criticaram fortemente as posições de Paulo VI (...). Mas eles nunca o acusaram de ser herege ou questionaram a sua legitimidade como Papa, ou a legitimidade do conclave. O que é novo, agora, é que alguns círculos nos EUA estão acusando abertamente esse Papa de estar à beira da heresia, senão além (isto é, de um herege de fato).

Desde o início do pontificado de Francisco, em 2013, as críticas têm sido expressadas não baseadas em várias opiniões, mas em nome da ortodoxia. É isso que torna a situação atual diferente. Os bispos estadunidenses creem (e afirmam) abertamente que Francisco traiu a Tradição da Igreja, sobre a sexualidade e a família em particular, uma crítica que tem sido estendida ao diálogo inter-religioso, à Liturgia e ao cuidado da Criação nos últimos três anos.


LCI: Isso começou no duplo Sínodo da Família em 2014-2015?

M. Faggioli: Abertamente, sim. Mas, ainda em meados de 2013, até mesmo antes do anúncio do Sínodo, já circulava em alguns círculos a ideia de que Francisco não era suficientemente ortodoxo e poderia até ser um herege (...).

Basicamente, mesmo quando Francisco cita as palavras exatas de João Paulo II ou de Bento XVI, a partir do momento em que elas saem da sua boca, isso é imediatamente percebido como proveniente de um papa perigoso, que tem uma ideia pouco ortodoxa do catolicismo. Para nós, europeus, esse Papa é um pouco diferente dos outros. Para alguns católicos dos Estados Unidos, ele é o oposto dos seus antecessores.


LCI: Podemos falar de divisões entre “rigoristas” e “reformistas”?

M. Faggioli: Sim. As questões da família e casamento LGBT desempenham um papel central entre "uma Igreja do Vaticano II", que deseja ser capaz de "dialogar com o mundo" e uma Igreja que decidiu que esse diálogo é impossível, que isso a destruirá e a dissolverá no mundo moderno.


LCI: O Papa está sendo excessivamente dramático ao falar de um cisma?

M. Faggioli: Acho que não. Ele está apenas pondo em palavras aquilo que já existe. O livro de Nicolas Senèze – “How America Wants to Change the Pope” [Como a América quer mudar o Papa] (Ed. Bayard) – apenas documentou a situação, não a criou. O Papa está simplesmente demandando responsabilidade: não apenas entre os bispos, mas também de todos aqueles que têm poder na Igreja – intelectuais, financiadores, jornalistas etc. Francisco não quer impedir, mas sim reverter um processo que começou há vários anos. Eu tenho viajado para muitos países, mas não vi outra Igreja tão dividida quanto a dos EUA.

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