Que deve fazer o fiel católico nestes tempos de crise e apostasia? – parte 2 | primeira posição: "Tudo está bem"


→ Leia a primeira parte deste estudo

QUE VIVEMOS TEMPOS de imensa confusão, com "pastores" que agora atiram suas ovelhas aos lobos ao invés de protegê-las, e fiéis desorientados errando por toda parte, sem saber a quem recorrer ou o que está acontecendo com a Igreja (e outros tantos perdendo a Fé), eis um fato já reconhecido, praticamente pela totalidade dos católicos ditos "tradicionais" (um termo inadequado, de fato) ou por aqueles minimamente bem formados.

Apenas aqueles que, desesperados em suas vãs tentativas de defender o indefensável, junto com um Papa que é, inegavelmente e no mínimo, um mau Papa – muito provavelmente o pior Papa de toda a história da Igreja, por razões que veremos mais adiante – tentam fechar os olhos e negar a verdade objetiva dos fatos, via de regra submetendo-se a intrincados malabarismos mentais, lógicos e teológicos, para se manterem nessa estranha posição ('Vejam bem, não foi isso o que o Papa quis dizer...').

Ora o Papa atual, como não poderia deixar de ser, encontra-se no centro da tormenta. Mais do que isso, muitos, não sem razão, atribuem justamente a ele uma grande parcela de responsabilidade sobre toda a terrível crise; afinal, somente ele, humanamente falando, seria capaz de tomar ações efetivas que pudessem fazer reverter o grande mal que assola a Casa de Deus. O problema, porém, avança muitíssimo além dele em responsabilidade, e o antecede no tempo em várias décadas, no mínimo – o que não é assunto para agora.

Para não complicar em demasia a nossa abordagem, que pretende esclarecer e não complicar ainda mais algo que já é muito complexo, apresentemos já de início, conforme prometido no primeiro capítulo ou parte desta série de estudos, as propostas de solução que nos são propostas, e o faremos tão resumidamente quanto possível. Segue.


1) Primeira posição: Tudo está bem  O problema não existe, a não ser na cabeça de fanáticos malucos. O Papa é legítimo, é o Vigário de Cristo sobre a Terra, que deve ser respeitado e obedecido em qualquer caso. Mais do que isso, não houve nenhuma ruptura após o Vaticano II, apenas uma nova compreensão da doutrina, da moral e da liturgia – e até do significado e da missão da Igreja de Cristo no mundo. Os que dizem o contrário são cismáticos que nem sequer poderiam se considerar católicos.


    

Os membros deste grupo – descrevendo-os com a linguagem mais simples possível – via de regra caracterizam-se pelo seguinte entendimento: a Igreja não poderia jamais ensinar  o erro, igualmente o Papa não poderia nunca incorrer em heresia ou levar perigo às almas; logo, dizer que o Vaticano II introduziu doutrinas heterodoxas, nocivas ou mesmo heréticas, e que Francisco esteja ensinando o erro ou – ainda pior – incorrendo, pública e recorrentemente (com contumácia) em heresia, ou ainda e no mínimo, emitindo declarações/assumindo posições temerárias, que podem pôr as almas em risco, isso seria o mesmo que deixar de crer na Igreja/com a Igreja; os que pensam assim, por outras palavras, perderam a Fé católica; são cismáticos, fanáticos cujas teses não merecem consideração.

Existirá algum fundamento razoável para esta primeira posição? Vejamos.


Fundamento da primeira posição 


Negar que existe, no mínimo, uma grave crise na Igreja, já não é mais razoável (há muito tempo). Todavia, ao contrário do que possa parecer a muitos, o fundamento sobre o qual se apoiam os defensores desta primeira posição é, sim, razoável. Ora tais pessoas não fazem nada além de se apegar àquilo que a Igreja sempre ensinou, a saber: que o Papa é sumamente confiável e que a Igreja não pode se perder nem conduzir ao erro, porque Cristo cumprirá infalivelmente sua promessa e estará sempre junto dela, até a consumação dos séculos (Mt 28,20). Não se pode negar que Nosso Senhor prometeu que os portais do Inferno jamais prevaleceriam (Mt 16,18). 

De fato, todos os documentos e catecismos da Igreja ensinaram e ensinam isto mesmo: o Papa é absolutamente confiável, deve ser sempre respeitado, obedecido e amado. Mais ainda, ao longo da história da Igreja, diversos grandes teólogos afirmaram que sempre e em todo momento – não somente quando se pronuncia definindo doutrina e moral para toda a Igreja (ex-cathedra) – o Papa é infalível (a chamada infalibilidade passiva ou negativa): nunca poderia haver erro da parte do Papa ou, pelo menos, nunca poderia haver nenhum documento publicado por um Papa (mesmo meramente pastoral) que contivesse erros, que fosse danoso para a Fé católica e expusesse a perigo as almas dos fiéis. Lembram-nos os partidários desta posição, continuamente, do antigo axioma: "Ubi Petrus, ibi Ecclesia", isto é, "Onde está o Papa, aí está a Igreja...".

A esse respeito ensinou-nos com maestria o papa Pio XII, em sua encíclica Mystici Corporis:

[Cristo, Cabeça do Corpo-Igreja,] sapientíssimo como era, não podia deixar sem cabeça visível o corpo social da Igreja que instituíra. Nem se objete que com o primado de jurisdição instituído na Igreja ficava o corpo místico com 'duas cabeças'. Porque Pedro, em força do primado, não é senão Vigário de Cristo, e por isso a cabeça principal deste corpo é uma só: Cristo; o qual, sem deixar de governar a Igreja misteriosamente por si mesmo, rege-a também de modo visível por meio daquele que faz as suas vezes na Terra; e assim a Igreja, depois da gloriosa ascensão de Cristo ao Céu não está educada só sobre Ele, senão também sobre Pedro, como fundamento visível. Que Cristo e o seu Vigário formam uma só Cabeça ensinou-o solenemente nosso predecessor de imortal memória, Bonifácio VIII, na carta apostólica "Unam Sanctam", e seus sucessores não cessaram nunca de o repetir.

Em erro perigoso estão, pois, aqueles que julgam poder unir-se a Cristo, Cabeça da Igreja, sem aderirem fielmente ao seu Vigário na Terra. Suprimida a cabeça visível e rompidos os vínculos visíveis da unidade, obscurecem e deformam de tal maneira o Corpo Místico do Redentor, que não pode ser visto nem encontrado de quantos demandam o porto da eterna salvação.[1]

Jesus Nosso Senhor é “o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6); já a missão do Papa é a de manter o rebanho firme neste mesmo Caminho e fiel a esta mesma Verdade, para que um dia possa alcançar esta Vida (eterna), agindo tanto ele diretamente como também por meio dos Bispos por ele designados. A Igreja desde sempre confessou tal verdade fundamental da Fé cristã. Qualquer coisa fora disso deve nos alertar no sentido de que algo necessariamente está errado. Gravemente errado.

Em toda situação comum, ordinária, o bem da Igreja não pode ser alcançado pela desobediência. Porque o Magistério da Igreja, com seus legítimos Papas e Bispos, não é uma entidade que se possa assemelhar a um rei tirano que comanda seus súditos de acordo com as suas vaidades e opiniões particulares, ou conforme desejos de um ou outro grupo. O Magistério é a Igreja de Cristo, que tem seus ministros e sacerdotes em comunhão com o Papa, todos igualmente servos de Deus. 

Todas essas realidades, porém, dependem de um fator fundamental: todo o poder de um verdadeiro Papa provém diretamente de Cristo-Deus. "O Papa é o doce Cristo na Terra", dizia Santa Catarina de Sena. Assim também o poder dos Bispos provém diretamente dos Apóstolos: por meio deles, Nosso Senhor provê à Igreja o pastoreio, mantendo o rebanho sempre protegido, seguro contra os perigos do mundo, fortalecido na Fé.

Uma desobediência formal ao que determina o Papa, pois, constitui-se em pecado grave e, se a desobediência chegar ao grau de negar a própria autoridade do Papa como Vigário de Cristo, então se constitui em cisma, que é um pecado ainda maior, gravíssimo: quem o faz, deixa de ser católico, excluindo-se da comunhão, não com Roma, mas com a própria Igreja.

Isso significa que devemos sempre obedecer ao Papa e aos Bispos em união com ele, em tudo o que ordenam segundo a Fé, a Sã Doutrina, a Lei de Deus e a da Igreja, em conformidade com a Sagrada Tradição e as Santas Escrituras.

Ao mesmo respeito, ensina o Catecismo Romano de S. Pio V:

Para que, ouvindo a Palavra de Deus, ninguém a tomasse como palavra humana, mas pelo que ela é realmente, como Palavra de Cristo, quis o próprio Nosso Senhor atribuir tanta autoridade ao magistério de seus ministros, que chegou a declarar: 'Quem vos ouve, a Mim é que ouve; e quem vos despreza, a Mim é que despreza' (Lc 10,16). Sem dúvida, não queria aplicar estas palavras só aos discípulos, com os quais falava daquela feita, mas  também a todos os outros que, por legítima sucessão, assumissem o encargo de ensinar. A todos eles prometeu assistência, dia por dia, até a consumação dos séculos.[2]

Mais ainda, temos no Catecismo de S. Pio X:

Para alguém ser membro da Igreja, é necessário estar batizado, crer e professar a doutrina de Jesus Cristo, participar dos mesmos Sacramentos, reconhecer o Papa e os outros legítimos Pastores da Igreja.
Quem são os legítimos Pastores da Igreja?
Os legítimos Pastores da Igreja são o Pontífice Romano, isto é, o Papa, que é o primeiro Pastor universal, e os Bispos. Além disso, sob a dependência dos Bispos e do Papa, têm parte no oficio de Pastores os outros Sacerdotes e especialmente os párocos. 
(...) Todos os que não reconhecem o Romano Pontífice por seu chefe, não pertencem
à Igreja de Jesus Cristo.[3]

Apresentamos citações claríssimas e totalmente objetivas, presentes em Catecismos da Igreja de sempre (anteriores ao polêmico último Concílio) e, antes, a referencial encíclica de um Papa santo. Acrescentemos ainda mais uma, extremamente contundente e dita por uma Santa Doutora da Igreja, citação esta que ultimamente tem sido muito usada pelos postulantes dessa primeira posição aqui apresentada:

Mesmo se o Papa fosse Satanás encarnado, não deveríamos levantar nossas cabeças contra ele, mas calmamente nos recostarmos em seu seio para descansar. Aquele que se rebela contra nosso Pai é condenado à morte, pois aquilo que fazemos à ele, fazemos a Cristo: honramos à Cristo se honramos o Papa; desonramos Cristo se desonramos o Papa. Eu sei muito bem que muitos se defendem ao declarar: 'Eles são tão corruptos e cometem todo tipo de mal!'. Mas Deus ordenou que mesmo se os padres, os pastores e o Cristo-na-Terra (o Papa) fossem demônios encarnados, deveríamos ser obedientes e sujeitos a eles, não por causa deles, mas por amor a Deus, e por obediência a Ele.[4]

Este último dizer – fortíssimo, direto e radical – vindo de uma Santa de grande autoridade, tem convencido muitos católicos confusos de que realmente vale mais a pena "errar com o Papa" do que acertar sem ele (veremos se é realmente assim em momento oportuno).

Fato é que poderíamos encher muitas e muitas páginas com uma enorme quantidade de outras citações de grandes Santos, Pais da Igreja, Teólogos e Santos Padres, bem como de vários documentos do Magistério indubitavelmente legítimo da Igreja que afirmam e reafirmam a mesma coisa: verdadeiramente é da Doutrina da Igreja que sim, é preciso respeitar sempre o Papa; sim, é preciso obedecer sempre ao Papa; sim, é preciso amar o Papa e rezar pelas suas intenções, porque ele é o Vigário de Cristo sobre a Terra, é o cabeça visível do Corpo Místico de Nosso Senhor, é o Sucessor de S. Pedro Apóstolo, Rocha sobre a qual foi constituída, por desígnio divino, a mesma Igreja. Ponto.

Sendo assim, poderíamos afirmar que esta primeira posição, aqui apresentada, está correta, já que  os que a defendem procuram fazer aquilo que a Igreja sempre fez e aquilo que foi sempre ensinado, desde o início, por todas as autoridades legítimas instituídas pelo próprio Cristo?

O que podemos afirmar, sem dúvida, é que esses não estão totalmente errados e não são necessariamente pessoas más intencionadas, pois não se fundamentam em teorias absurdas e nem se encontram completamente desprovidos de razão, pelos motivos bastante justos que acabamos de demonstrar. 


*   *   *


"Mas...", questionarão muitos outros, "...o problema todo não se resume a uma mera questão de obediência ao Papa". E o dirão com total razão: há muito mais a se entender e se discutir antes de fechar questão sobre assunto tão complexo e difícil quanto a crise atual da Igreja.

Há muito mais por vir, nesta série que tenta lançar luz sobre qual deve ser a postura dos verdadeiros fiéis católicos diante da crise e da apostasia que grassam na Igreja em nossos dias. Até o próximo capítulo, se o Bom Deus assim o quiser!


→ Leia a continuação deste artigo (novas postagens desta série todas as semanas)

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[1] Carta Encíclica MYSTICI CORPORIS do Sumo Pontífice Papa PIO XII, de 29 de junho de 1943, n.s 39-40.

[2] Catecismo dos Párocos, redigido por decreto do Concílio Tridentino e publicado por ordem do Papa Pio Quinto no ano do Senhor de 1566, proêmio (
Nova Versão Portuguesa baseada na autêntica, por
FREI LEOPOLDO PIRES MARTINS, O. F M., ed. Serviço de An. Eucarística Mariana).

[3] 
Terceiro Catecismo da Doutrina Cristã de São Pio X, n.s 150-153.

[4] BALDWIN, Anne. Catherine of Siena: A Biography. Huntington: OSV Publishing, 1987, pp.95-6.


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Um comentário:

  1. MANTENHAMO-NOS FIRMES NOS ENSINAMENTOS DA IGREJA CATÓLICA COM AS GRAÇAS DEUS E DE N SENHORA NO *"QUOD SEMPER, QUOD UBIQUE, QUOD AB OMNIBUS CREDITUM EST" - O RESTO FICA DE LADO - DÊ O QUE DER!
    Quando S Pio V elaborou o seu intocável missal - atualmente os relativistas questionam-no - o qual está centrado na Missa da Igreja Católica de Sempre, baseou-se tão somente no que vinha sendo praticado por vários séculos de existência dela desde os primórdios, sempre no mesmo ritmo da LEX ORANDI-LEX CREDENDI doutrinários e os compendiou para serem doravante seguidos à risca, além de manterem-se rigidamente intocáveis - sob quaisquer pretextos!
    Ele tinha todas as razões no que a Igreja tinha por missão: o amor a Deus em relevo, ao próximo e à salvação da alma, cumprimento fiel dos Mandamentos das Leis de Deus e da Igreja na prática, bons exemplos para ajudarem converter os incrédulos, sendo esses os requisitos básicos de um cristão católico devidamente assumido.
    No entanto, com o advento das ideologias após a Rev Francesa, mais antecedentemente desde a falsária Reforma do Illuminati arqui heresiarca Lutero que, aos poucos, maus elementos e desafetos da maçonaria penetraram na Igreja, e esses seus antagonistas aproveitaram-se da brecha que, à época ainda papa João XXIII lhes deixara: a Igreja não mais condenaria a ninguém, seria misericordiosa sem ressalvas quando sucederia a não condenação - e isso foi-lhe maximamente péssimo e seu sucessor, à época, papa Paulo VI seguiu-lhe as mesmas trilhas!
    Alguns bispos, uns setenta e poucos contra uma multidão imensa, dentre esses parcos, o heróico D Lefèbvre, D Mayer, D Sigaud etc, insurgiram-se contra os progressistas, ideologistas e novidadeiros, talvez diversos vinculados à maçonaria externa e à Maçonaria Eclesiástica - Cardeal Bugnini flagrado ligando para a Loja maçônica P2 e destituído, mandado para Teerã e faleceu depois em circunstâncias desconhecidas...
    No entanto, a impostura desses bispos progressistas aos gritos, infelizmente, prevaleceram em muito maior detrimento da fé dos católicos, principalmente dos menos esclarecidos, os quais as seitas heréticas e relativistas protestantes se aproveitaram da grande oportunidade para aumentarem suas clientelas de dizimi$ta$, engrossarem as contas bancárias e construirem suntuosos templos, embora depois dessa pandemia, como Edir Macedo, RR Soares pegando COVID e em "bispo" e irmão do "apóstolo" Valdomiro Santiago falecendo, e Valdomiro Santiago resolveu até se vacinar - Kd os milagres de cura da COVID, hem Valdomiro Santiago, que tanto propagava na tv - a vaca foi pro brejo pros pastores "milagreiros"!
    Assim sendo, nós católicos, procuremos a santa Missa de Sempre, aquela sem novidades ou invencionices, sem músicas protestantes - nem que sejam celebradas nas catacumbas e vamos lá - e seremos como os primeiros cristãos perseguidos pelos terribilíssimos, genocida, endiabrado e maligno Império Romano - dessa vez, nós seremos as principais vítimas preferenciais da diabólica Nova (Des)Ordem Mundial-anticristo e anti marca da besta na mão ou na testa - porém, faleceremos sem nos transformarmo-nos em reedições atualizadas e neo adeptos de Judas Iscariotes!
    * S Vicente de Lérins.

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