A consagração da Rússia e a omissão dos Papas – parte III


João XXIII e os acordos entre Roma e Moscou


Ao passo que a abrangência mundial do comunismo se tornava cada vez mais alarmante, e cada vez mais incompreensíveis – e injustificáveis – as recorrentes recusas em atender aos pedidos de Nossa Senhora, o Papa João XXIII resolveu assinalar seu pontificado com o sinal de um infundado otimismo, sem levar em nenhuma conta as advertências celestes nem as dos inúmeros colaboradores que o cercavam. É bem conhecida a sua infeliz declaração ele no discurso de abertura do Concílio Vaticano II: "Parece-nos que devemos discordar desses profetas da desventura, que anunciam acontecimentos sempre infaustos, como se estivesse iminente o fim do mundo[41]".


    Soam estranhas tais palavras, se as comparam com os apelos da Virgem Santíssima em Fátima. Em agosto de 1959, ao tomar conhecimento do terceiro segredo, o Papa decidiu não publicá-lo, decisão esta que caiu como um balde d e água fria sobre o grande fervor pela devoção de Nossa Senhora de Fátima, que aumentava sobremodo às portas dos anos 1960. A partir de 1959, João XXIII começou a providenciar para que não fosse mais possível visitar Irmã Lúcia sem licença expressa de Roma[42].


    Nesse contexto entende-se porque nunca exigiram a consagração da Rússia durante o pontificado de João XXIII; no caminho contrário, este papa que foi o primeiro grande inimigo da Tradição nos tempos modernos, pela intenção de que se autorizasse o envio de dois representantes da igreja cismática da Rússia ao Concílio Vaticano II, negociou com Kruschev, por intermédio do Mons. Willebrands e do Card. Tisserant, e se comprometeu a não condenar o comunismo(!). Sobre o acordo, disse Mons. Roche:


A decisão de convidar os observadores ortodoxos russos para o Concílio Vaticano II partiu de Sua Santidade [João XXIII] em pessoa, encorajado pelo Cardeal Montini, que na época em que era arcebispo de Milão fora o conselheiro do patriarca de Veneza. Ou melhor, era o Card. Montini que conduzia em segredo a política da Secretaria de Estado durante a primeira sessão do Concílio, a partir do escritório clandestino que o Papa lhe arrumou na famosa Torre de São João, dentro dos muros da Cidade do Vaticano.


O Card. Tisserant recebeu ordens formais de negociar o acordo e cuidar de sua aplicação rigorosa durante o Concílio. Por isso, cada vez que um bispo começava a discutir o problema do comunismo, o cardeal, da mesa do conselho de presidência, intervinha e recordava a recomendação de silêncio, segundo a vontade do Papa[43].


    O comedimento nas relações com Moscou, como obviamente aconteceria, não surtiu nenhum efeito na atenuação das perseguições: Kruschev continuou a deter padres e multiplicou o número de igrejas fechadas. Como se diz, não se deve comer com o diabo, nem com uma colher de cabo longo.



Paulo VI e a Ostpolitik – O Vaticano II não condena o comunismo


João XXIII morreu antes do fim do Concílio; coube a Paulo VI levá-lo a termo, e infelizmente dar plena continuidade aos planos de seu antecessor, confirmando os acordos entre Roma e Moscou: não era  de se esperar que desautorizasse tal política da qual, afinal, desde 1962 era ele fora um dos principais promotores.


    Assim, quando em outubro de 1965 Mons. Léfèbvre remeteu ao Secretário do Concílio uma súplica, redigida por Mons. Carli e assinada por 454 bispos, em que se impetrava a inserção duma condenação ao comunismo na constituição Gaudium et Spes, que versava sobre a Igreja no mundo – a petição não foi levada em consideração. Escutemos Mons Léfèbvre narrando os fatos:


    É algo absolutamente inédito em toda a história da Igreja. Reuniu-se um concílio pastoral, ou que se dizia pastoral, isto é, destinado ao cuidado das almas e à salvação dos fiéis e do mundo; contudo, ao maior dos males, ao mais perigoso veneno que ameaçava a sociedade, a pessoa humana e a liberdade –  o comunismo, sobre o qual advertira Nossa Senhora em uma aparição confirmadíssima –, em acordo com os agentes deste mesmo mal, simplesmente decidiram: “- Não o condenaremos durante o Concílio”.


    O heroico Mons. Lefebvre, junto com Mons. Sigaud, reuniram 450 assinaturas em favor da condenação do comunismo, as quais foram levadas, pelo primeiro, ao Secretariado do Concílio. E foram engavetadas. Ainda houve uma tentativa de veicular que nunca houvera tal manifestação no Concílio. Mons. Lefebvre testemunhou por escrito que levara pessoalmente esses documentos, e que guardou a lista dos bispos que pediam a condenação. Levantou-se para protestar. Desmentiram a apresentação das 450 assinaturas, depois disseram que haviam chegado tarde demais e já não sabiam onde estavam. Na verdade, decidiram que não se condenaria o comunismo, para que viessem os delegados de Moscou[44].


    A reunião de um concílio universal em meio ao séc. XX seria a ocasião providencial de se consagrar a Rússia de forma solene ao Imaculado Coração de Maria, tal como Nossa Senhora pediu. Os acordos entre Roma e Moscou impossibilitaram um ato desse quilate e se constituíram no principal obstáculo à paz oriunda dos Céus. Mais ainda, o requerimento que Mons. de Proença apresentou, assinado por 510 bispos de 78 nações, instava para que o Concílio renovasse a consagração do mundo ao Imaculado Coração de Maria com especial menção à Rússia. Tal documento teve destino semelhante àquele de condenação ao comunismo[45].


 


Puro desprezo por Fátima


Paulo VI não escondia o desprezo que tinha por Fátima – eis um simples fato. Em 13 de maio de 1967 ele se dirigiu à Cova da Iria para o cinquentenário das aparições, mas se limitou a fazer uma viagem de ida e volta. Lá celebrou apenas uma Missa em português, na presença de um milhão de peregrinos, recusou a entrevista que Irmã Lúcia lhe requeria e não rezou na Capelinha, como previa o programa da visita. Em seu sermão, exortou a humanidade ao esforço de paz, mas não aludiu à mensagem de Nossa Senhora. Escreveu Robert Serrou que Paulo VI foi até Fátima porque “estava certo de encontrar ali uma das mais extraordinárias tribunas do mundo, donde sua voz ecoaria em toda a superfície da Terra[46]”. Contudo, pregara ali a paz só humana, como fizera na ONU, uma vez que seus planos não coincidiam com os do Céu[47].


    Além disso, na reforma litúrgica, Paulo VI rebaixou a festa do Imaculado Coração de Maria, que Pio XII elevara à dignidade de festa de segunda classe, à qualidade de simples memória[48].

 


Desenvolvimento da Ostpolitik


Escutemos o Cardeal Sodano, secretário de estado, resumir a política de Paulo VI ante Moscou, cujo artífice foi Mons. Cassaroli:


Durante o pontificado de Paulo VI se desenvolve a primeira e a mais árdua fase da Ostpolitik, i. e., a negociação sobre o Cardeal Mindszenty e a possibilidade de nomear bispos na Hungria; as conversações extenuantes e intermináveis com o governo tcheco, que iriam continuar até a queda de Mur; o acordo de Belgrado com o governo de Tito; e finalmente as conversas com o governo polonês. [...] Registre-se a recusa que o governo polonês contrapôs a uma viagem de Paulo VI, ainda que brevíssima, a Czestochowa, e a visita de Mons. Caseroli às dioceses polonesas em 1967, que o levou até a Cracóvia, para um encontro cordial e importante com o Cardeal Wojtyla.


No pontificado de Paulo VI, a experiência multilateral da Santa Sé toma impulso na Conferência de Helsinque (1973-1975), ocasião em que a delegação vaticana obtém o reconhecimento explícito da liberdade religiosa (sétimo princípio da Ata de Encerramento), que dá legitimação formal aos requerimentos da Igreja nas negociações bilaterais em face de cada governo. Terminaria o pontificado com o pedido do Papa ao corpo diplomático, em janeiro de 1978, para que os católicos e crentes de todas as confissões “se beneficiassem” do espaço de liberdade que se devia à fé em suas expressões pessoais e comunitárias. Este requerimento solene parece que tem o valor profético dum conselho moral de Paulo VI a seu sucessor[49].


    Aprofundavam-se assim as negociações com o demônio; como tais acordos não estavam nos planos do Céu, não haveriam de terminar bem. O arcebispo tcheco Mons. Hnilica juntou coragem e deu uma resposta vigorosa ao livro de Casaroli: realmente mereceria o cardeal o título de mártir da paciência, que os editores conferiram em sua honra?


    Parece inapropriado e injusto usar a palavra mártir em honra de certas pessoas, que não foram mártires e que, por via de ações diplomáticas sofisticadas, contribuíram de fato para o agravamento notável do verdadeiro martírio, o dos verdadeiros mártires. Nesse ponto de vista, é singular o testemunho desses verdadeiros mártires. Segundo eles, seus sofrimentos cresceram sobremaneira em decorrência da ação daqueles de quem esperavam apoio e sustento[50].


** Fontes, notas e ref. bibliográfica na conclusão desta série.


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2 comentários:

  1. Em algum momento, os patriarcas orientais já se manifestaram a respeito do comunismo?

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    1. Essa questão é muito complexa, anônimo. A situação na Rússia é bem complicada, e já diferentes posições no Oriente. É preciso um estudo para esclarecer sua pergunta.

      Fraternidade Laical São Próspero

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