A Consagração da Rússia e a omissão dos Papas – parte II



A Recusa de Pio XI


Entre setembro de 1930 e agosto de 1931, certamente Pio XI tomou conhecimento dos pedidos celestes sobre a devoção ao Imaculado Coração de Maria e a consagração da Rússia[18].


    Todavia, o Papa, ao lado das democracias ocidentais, estava comprometido desde 1922 com a política de abertura do Leste, já esboçada por Bento XV[19]. Ademais o Papa fez esta declaração assustadora: “Quando se trata de salvar alguma alma e impedir os grandes males que as põem a perder, Nós sentimos coragem de discutir com o diabo em pessoa[20]”. Entretanto, não foi este o pedido de Nossa Senhora.


    Assim, a resposta ao pedido da Consagração da Rússia foi um imenso silêncio. A partir de 1930-31, o Papa calou até quanto ao forte clamor popular por respostas quanto aos acontecimentos mesmo de Fátima.


    Depois da recusa de Pio XI, revelou Irmã Lúcia que, numa comunicação íntima recebida em agosto de 1931, em Rianjo[21], Nosso Senhor Jesus Cristo em Pessoa lhe deu o seguinte aviso:


Participa aos Meus ministros que, dado seguirem o exemplo do Rei de França na demora em executar o Meu mandato, tal como a ele aconteceu, assim o seguirão na aflição [22].


    Empreendeu-se nova tentativa no final de março de 1937: Mons. Corrêa da Silva, bispo de Leiria-Fátima, escreveu diretamente ao Papa, que acabava de lançar a magnífica encíclica Divini Redemptoris (19 de março de 1937). Parece que esclarecido pelos fracassos nas negociações com o que chamava de “o triângulo terrível”, il terribile triangolo[23], o Papa mudava de atitude e declarava com firmeza:


O comunismo é intrinsecamente perverso e não se pode admitir em campo nenhum a colaboração com ele, da parte de quem quer que deseje salvar a civilização cristã [24].


    O momento parecia favorável à consagração da Rússia, mas a única resposta a esse respeito foi, mais uma vez, o silêncio, semelhante ao que correra em 1930-1931.


    Parece óbvio a todos os que têm fé e creem nas aparições de Fátima que se o Papa houvesse obedecido aos pedidos celestes, certamente a Rússia teria se convertido e não aconteceriam a II Guerra Mundial e nem a assustadora expansão do comunismo.


    Bem ao contrário disso, o que houve no pontificado de Pio XI foi que Moscou começou a instruir os partidos comunistas para que enviassem militantes aos seminários católicos, a fim de infiltrar a Igreja e miná-la por dentro[25], fato este que é amplamente documentado.


    

As consagrações incompletas de Pio XII


Pio XI morreu aos 10 de fevereiro de 1939. Em 21 de janeiro de 1940, Irmã Lúcia propôs ao seu confessor, Pe. Gonçalves, que renovasse ante a Santa Sé o pedido de Consagração da Rússia. Em abril de 1940, transmitiram o recado a Pio XII. Pensava o Pe. Gonçalves que o Papa realizaria enfim a consagração em maio; era lícito esperar tal atitude do novo Pontífice, pois que ele era mui devoto da Santíssima Virgem e benevolente às aparições de Fátima.

    Mas... novamente, não houve reação da parte de Roma.



A consagração 'do mundo' de 1942


Por iniciativa do Mons. Manuel Ferreira, bispo titular de Gurza, decidiram mais uma vez os diretores espirituais de Lúcia, em setembro e outubro de 1940, intentar um novo esforço perante o Santo Padre, apresentando-lhe um requerimento mais factível: a consagração do mundo, mas com especial menção à Rússia[26]. Mons. Ferreira ordenou a Lúcia que escrevesse ao Papa Pio XII e formulasse este novo pedido que, sendo diferente do de Nossa Senhora, mergulhou-a em grande perplexidade. Em busca de nova luz, Irmã Lúcia recorreu à oração. Eis a sua narração do fato:


22 de outubro de 1940. Recebi uma carta do Pe. Gonçalves e do bispo de Gurza, ordenando-me a escrever a Sua Santidade... Neste sentido, passei duas horas diante de Nosso Senhor exposto [e recebi a seguinte revelação]:


“Reza pelo Santo Padre, sacrifica-te para que o coração dele não sucumba sob a amargura que o oprime. A tribulação continuará e aumentará. Eu punirei os crimes das nações com a guerra, a fome e a perseguição à minha Igreja, que pesará especialmente sobre meu Vigário sobre a Terra. Sua Santidade conseguirá que esses dias de tribulação sejam abreviados se ele obedecer aos meus desígnios e fizer o ato de consagração do mundo inteiro, com especial menção à Rússia, ao Imaculado Coração de Maria[27].


    A revelação de outubro de 1940 e as dirigidas a Alexandrina Maria da Costa aparecem como o derradeiro instrumento de resgate que apresentou a Misericórdia Divina ante a persistente desobediência da autoridade suprema da Igreja à mensagem de Fátima. Para este pedido novo e secundário promete-se ainda um novo fruto, mesmo que bem inferior àquele do pedido principal: a abreviação da grande calamidade que Nossa Senhora anunciou em 13 de julho de 1917 – a II Guerra Mundial.


    Em 31 de outubro de 1942 o Papa Pio XII realizou a consagração do mundo ao Imaculado Coração de Maria e renovou-a em 8 de dezembro de 1942. Incrivelmente, ao contrário do que se esperava, o texto não fazia menção explícita à Rússia(!):


A Vós, ao vosso Coração Imaculado, nesta hora trágica da história humana, confiamos, entregamos, consagramos não só a Santa Igreja, corpo místico de vosso Jesus, [...] mas também todo o mundo, dilacerado por exiciais discórdias, abrasado em incêndios de ódio, vítima de suas próprias iniquidades.


Comovam-Vos tantas ruínas materiais e morais; tantas dores, tantas agonias dos pais, das mães, dos esposos, dos irmãos, das criancinhas inocentes; tantas vidas ceifadas em flor; tantos corpos despedaçados numa horrenda carnificina; tantas almas torturadas e agonizantes, tantas em perigo de se perderem eternamente!


Vós, Mãe de misericórdia, impetrai-nos de Deus a paz! e primeiro as graças que podem num momento converter os humanos corações, as graças que preparam, conciliam, asseguram a paz! Rainha da paz, rogai por nós e dai ao mundo em guerra a paz por que os povos suspiram, a paz na verdade, na justiça, na caridade de Cristo. Dai-lhe a paz das armas e das almas, para que na tranquilidade da ordem se dilate o Reino de Deus.


Estendei a vossa proteção aos infiéis e a quantos jazem ainda nas sombras da morte; dai-lhes a paz e fazei que lhes raie o Sol da verdade, e possam conosco, diante do único Salvador do mundo, repetir: Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade! (Luc. 2, 14).


Aos povos pelo erro ou pela discórdia separados, nomeadamente àqueles que Vos professam singular devoção, onde não havia casa que não ostentasse a vossa veneranda ícone (hoje talvez escondida e reservada para melhores dias), dai-lhes a paz e reconduzi-os ao único redil de Cristo, sob o único e verdadeiro Pastor.[28]


    Para reavivar a lembrança da consagração, o Papa Pio XII mais tarde fixaria a celebração do Imaculado Coração de Maria em 22 de agosto, conferindo-lhe a dignidade de Festa de segunda classe[29].


    A Misericórdia divina outorgou o prometido fruto da consagração: mostra-nos o exame objetivo da História que, em todas as frentes de batalha, houve uma reviravolta decisiva em favor dos Aliados nos meses finais de 1942 e iniciais de 1943; decerto tal reviravolta permitiu a abreviação da duração da II Guerra Mundial.


    Entretanto, Irmã Lúcia não se iludia quanto aos efeitos da consagração de 1942:


“O Bom Deus tinha-me mostrado já o Seu contentamento pelo ato, ainda que incompleto, segundo o Seu desejo, do Santo Padre e de vários Bispos. Em troca, promete acabar breve a guerra. A conversão da Rússia não será já[30].


    Depois disso, os acordos de Ialta (4 de fevereiro de 1945) consolidaram o poder comunista em nível internacional.


    É preciso recordar que, em 1941, Pio XII – sob pressão de Roosevelt, que ansiava ingressar na guerra ao lado da Inglaterra e também de Stalin – admitiu que a hierarquia católica calasse a perversidade intrínseca do comunismo e a impossibilidade de colaborar com ele. Em troca, prometeu-se convocar a Igreja para participar do esforço de reconstrução do pós-guerra[31]. Certamente o silêncio de Pio XII facilitou em muito o trabalho da maçonaria na organização da nova ordem, que previa entregar todo o Leste europeu ao comunismo, o qual, fortalecido em sua nova posição, avançaria mais tarde em direção à Ásia: China, Vietnã, Camboja, etc[32].


 

A encíclica Sacro Vergente Anno de 1952


Neste ínterim, o Céu manifestava-se ao Papa: nos dias 30 e 31 de outubro e 1º e 8 de novembro (a definição solene do Dogma da Assunção foi no dia 1º de novembro), o Santo Padre viu, dos jardins do Vaticano, a renovação do "Milagre do Sol" de 13 de outubro de 1917. Mas Pio XII nada fez.


    Em maio de 1952, apareceu Nossa Senhora novamente à Irmã Lúcia, e lhe disse:


Faz saber ao Santo Padre que eu ainda estou à espera da Consagração da Rússia ao meu Imaculado Coração. Sem a Consagração da Rússia, a Rússia não poderá converter-se e o mundo não terá paz[33].


    Sem dúvida, após aquela mensagem e de concerto com o movimento dos católicos russos, que ansiavam pelo cumprimento dos pedidos de Nossa Senhora, Pio XII escreve uma Carta Apostólica aos Povos da Rússia, em que declara: "Nós consagramos e de uma forma mais especial confiamos todos os povos da Rússia a este Imaculado Coração" [34].


    “Estou triste de que [a consagração da Rússia] não foi feita tal como Nossa Senhora pediu”, escrevia Irmã Lúcia no verão[35]. Dessa vez, faltara ao ato a devida solenidade: nomeou-se a Rússia, mas não houve nenhuma cerimônia em particular, nem foram os bispos do mundo inteiro conclamados a unir-se nesta intenção.


    No ano seguinte, em Siracusa na Sicília, uma estátua de gesso do Imaculado Coração de Maria principiou a chorar e a operar milagres que abalaram o mundo[36]. Ao que parece, Pio XII não associou este acontecimento à Fátima.


    Ao contrário, após a Carta Sacro Vergente Anno, o Santo Padre quase já não falava de Fátima. Os adversários da aparição, por seu turno, à imitação do Pe. Dhanis, exerciam cada vez mais influência, bem como os que se opunham à doutrina de Maria Medianeira[37]. A partir de então se restringiram as visitas à Irmã Lúcia: “O Papa decidiu que somente pessoas que já a houvessem visitado poderiam vê-la sem autorização expressa da Santa Sé[38]”. Começava-se a impor o silêncio à mensageira de Fátima.


    No entanto, convém precisar um ponto importante: se por interesses da política americana Pio XII teve por bem calar a Divini Redemptoris – com as consequências incalculáveis que tal silêncio acarretou –, ele também rejeitava qualquer tipo de colaboração com Moscou. Qual não foi a sua dor quando, em outubro de 1954, provou-se que Mons. Montini, o futuro Paulo VI, então secretário substituto da Secretaria de Estado, mantinha secretamente conversações com o Kremlin[39].

    Pio XII decidiu afastar logo Montini, mas como sempre estivesse disposto a refrear o falatório, elevou-o a um cargo honorífico – Arcebispo de Milão – sem contudo nomeá-lo cardeal. Desta forma excluía-se Mons. Montini do próximo conclave, mas, infelizmente, ele foi alçado a um posto bem conveniente para o que faria no futuro.


    Depois de Pio XII a situação complicou-se, à medida que os papas de espírito liberal e modernista ocuparam a Sé de Pedro. Mais do que nunca, iria se concretizar o alerta de Nosso Senhor: "Participa aos Meus ministros que, dado seguirem o exemplo do rei de França na demora em executar o Meu mandato, tal como a ele aconteceu, assim o seguirão na aflição" [à Irmã Lúcia, em agosto de 1931].


    A Igreja entrava numa crise sem precedentes na História[40]. Imbuidos dos ideais modernos, os novos Papas ficaram muito pouco à vontade com a mensagem catolicíssima da Virgem Maria em Fátima.


    ** Fontes, notas e ref. bibliográfica na conclusão desta série.


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2 comentários:

  1. Quantas almas descem ao inferno por respeito aos homens? Fiat voluntas Tua.

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  2. Basta olharmos o plano meramente secular para ver que Roosevelt tem um peso muito negativo nesta balança.

    Considerava Churchill um imperialista retrógrado, ao mesmo tempo em que olhava para Stalin como se este fosse um homem do futuro. Os EUA incluíram a então União Soviética na Lei de Empréstimos e Arrendamentos, e ficaram sujeitos a entrega de fornecimentos gigantescos exigidos pelos russos. Detalhe: todas as indicações de origem destes suprimentos tiveram que ser ocultadas pois, segundo Stalin, o povo russo se sentiria envergonhado de ser sustentado pelo estrangeiro.

    Com tudo isso, no fim, os norte-americanos, tendo forças armadas com 11 milhões de homens, uma miríade de aviões de todos os tipos, a Marinha mais poderosa de então e ainda uma bomba atômica pronta para ser usada, apresentaram-se em Ialta de cabeça baixa, aceitando praticamente todas as exigências do ditador vermelho, enquanto este não queria abrir mão de quase nada.

    Por fim, Roosevelt só venceu sua última eleição antes da morte (e por uma margem muito pequena) porque trocou seu candidato a vice - Wallace, um virtual comunista - por Harry Trumann.

    O fim da guerra foi realmente uma oportunidade perdida.

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