Francisco vai consagrar a Rússia ao Imaculado Coração de Maria – duas perguntas são inevitáveis

NO ÚLTIMO DIA 15 de março, fomos todos pegos de surpresa pela quase inacreditável notícia de que o atual Pontífice, Francisco, vai consagrar a Rússia ao Imaculado Coração de Maria. Segundo o website oficial do Vaticano, o ato deverá ocorrer no dia 25 de março próximo (2022), às 17 horas, na Basílica de São Pedro, com o cardeal Krajewski, esmoleiro pontifício enviado do Papa, realizando o mesmo ato, no mesmo dia, em Fátima.


    Esta mais que surpreendente novidade chega bem no meio de nossa série sobre a longa história do pedido de consagração da Rússia feito em Fátima, que se encontra em sua terceira parte (leia). Cabe lembrar que a consagração vem sendo instantemente pedida por meio de uma grande campanha internacional promovida por um conjunto de institutos e associações católicas de todo o mundo (em 30 países diferentes), que vêm recolhendo milhares de assinaturas de fiéis angustiados, e que a tão falada consagração – ou, melhor dizendo, tentativas de consagração –, já teria sido feita por pelo menos três vezes em diferentes momentos, mas nunca da maneira pedida por Nossa Senhora segundo Irmã Lúcia, o que as tornariam todas inválidas. 


    A partir do fato de que se pretende, mais uma vez, consagrar a Rússia, somos imediata e inevitavelmente levados a duas questões extremamente pontuais e fundamentais, as quais consideraremos mui brevemente neste artigo. Vejamos a seguir, em lista:



1. Francisco fará realmente a consagração, afinal, segundo as instruções de Nossa Senhora?


Deus pede ao Santo Padre fazer, em união com todos os bispos do mundo, a consagração da Rússia ao meu Imaculado Coração, prometendo salvá-la por este meio. São tantas as almas que a Justiça de Deus condena por pecados contra mim cometidos que venho pedir reparação; sacrifica-te por esta intenção e ora.
(Nossa Senhora a Ir. Lúcia, 13 de junho de 1929, em Tui, Espanha, no Convento das Irmãs Doroteias) 


    Como se vê, a Santíssima Virgem foi claríssima em sua instrução. Não se deveria consagrar "o mundo", como fez João Paulo II, e nem outro país qualquer ao Seu Imaculado Coração, mas tão-somente a Rússia, isso porque fazê-lo corresponderia a condenar o seu grande erro, o comunismo. Não existe outro pedido explícito de consagração nas mensagens de Fátima, Pontevedra e Tui, recebidas entre 1917 e 1929 por Irmã Lúcia, a qual declarou ter absoluta certeza de haver transmitido com fidelidade as palavras de Nossa Senhora. Atesta-o Pe. Alonso, o célebre especialista oficial de Fátima. Lúcia, em 1917, era uma alma ingênua e muito simples: ela não tinha como conhecer os meandros da realidade político-geográfica da Rússia; ela desconhecia até mesmo o nome daquele país. Consta que a vidente, ainda muito jovem, pensava que "Rússia" era o nome de uma senhora, que deveria com urgência converter-se(!)


    Pois bem. Fará agora Francisco a consagração da maneira pedida pela mensagem do Céu, de modo solene e em união com todos os bispos do mundo? Fará ele a consagração da Rússia especificamente, e não de modo genérico? Até agora, nada foi dito a esse respeito. Esperemos e rezemos com fé e confiança nesta intenção.

    De todo modo, é preciso citar que já temos ai, logo de início, alguns problemas, porque o que se anuncia por meio do Diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, Matteo Bruni (veja), é que se fará a consagração da Rússia e da Ucrânia. Se por um lado pode-se especular que tal coisa tenha um lado positivo, já que fazê-lo confirma que a Igreja reconhece a independência e a soberania dos ucranianos, por outro parece que novamente está se evitando consagrar a Rússia em específico, sem dar, como se diz popularmente, "nomes aos bois", isto é, sem acusar explicitamente os que têm culpa (não para condenar mas para advertir), como a Igreja sempre fez.

    Além disso, ao que parece a consagração não será feita de modo solene, com uma cerimônia própria, feita especialmente para este fim, como deveria ser, e sim durante uma outra cerimônia, a da Celebração Penitencial (antes chamada Via Crucis) da Quaresma deste ano, como um ato secundário dentro de uma outra cerimônia, ou um ato interno, por assim dizer.

    Consagrar os dois países igualmente não deixa de se configurar em uma forma de dizer que o que se quer não é pedir a conversão da Rússia, e sim apenas rezar pelo fim da guerra, sem citar quem cometeu um grave erro, como se tanto Rússia quanto Ucrânia fossem igualmente responsáveis pelo conflito, pelas mortes, pelo sofrimento, pela destruição, pelas perseguições, por "espalhar seus graves erros pelo mundo", no dizer de Nossa Senhora – e isso não é verdade.


2. Ainda haverá tempo para se fazer validamente a tão pedida e tão esperada consagração?


Mais de um século se passou desde o pedido feito aos Papas, diretamente do Céu, pela Mãe de Deus em pessoa, e durante todo este longuíssimo tempo, o pedido foi seguida e escandalosamente (criminosamente?) ignorado, ou teve sua importância minimizada, especialmente por conta de ideologias perniciosas que se infiltraram na Igreja, exercendo enorme influência inclusive sobre os Papas (como se pode ver pelo estudo histórico dessa triste história). Ora declarou João XXIII em seu discurso de abertura do Concílio Vaticano II (11 de outubro de 1962), claramente desdenhando daqueles que instavam  por uma resposta aos apelos de Fátima: "Devemos discordar desses profetas da desventura, que anunciam acontecimentos sempre infaustos, como se estivesse iminente o fim do mundo".

    É realmente muito importante saber que já houve na História uma situação semelhante, quando ocorreu um outro pedido do Céu para a consagração de uma nação, o que não foi feito a tempo. Tal  consagração foi feita, mas já era tarde demais e sobreveio a desgraça. Estamos falando das revelações dadas por Nosso Senhor em Pessoa a Santa Margarida Maria Alacoque, ao fim dos anos 1600/início dos anos 1700 (iniciando-se em 1673). Nesse tempo, Jesus Cristo mesmo instituiu a devoção ao seu Sagrado Coração, e pediu à vidente que dissesse ao Rei de França, Luís XIV, que deveria converter-se pessoalmente e depois consagrar-se a si mesmo e a toda a família real, e também a França inteira, ao Sagrado Coração, e que mandasse acrescentar à bandeira daquele país o emblema do mesmo Sagrado Coração. Se isso fosse feito, prometeu Nosso Senhor ao Rei, este obteria vitória em todos os seus empreendimentos – e ganharia ao fim a vida eterna.

    Historicamente, não se tem certeza se tal mensagem chegou integralmente ao Rei, mas o que se sabe com certeza é que a consagração pedida pelo Céu, na ocasião, também não foi feita. Semelhante ao que ocorre hoje, apenas muito tempo mais tarde, no ano 1791, quando o rei da França já era Luís XVI,  e este se encontrava encarcerado durante a grande desgraça que conhecemos por Revolução Francesa, desesperado consagrou-se, enfim, ao Sagrado Coração de Jesus, e assim também sua família e a nação inteira. Mas era muito tarde; o castigo já havia chegado e era inevitável. O resultado é o que temos hoje: uma França ateia ou pagã e decadente em todos os sentidos.

    Tal caso foi citado em uma comunicação íntima à Irmã Lúcia, em que Nosso Senhor disse à vidente estas palavras aterradoras:

Não quiseram atender ao meu pedido [de consagrar a Rússia ao Imaculado Coração de Maria]. Como o Rei da França, arrepender-se-ão; e a farão, mas será tarde. A Rússia terá já espalhado os seus erros pelo mundo.

    É evidente que toda profecia e toda revelação particular se destina ao mundo ou a uma nação devido a uma situação, um momento particular da História. E as situações mudam; o momento histórico passa, juntamente com as oportunidades que nos são dadas.  Sim, sem dúvida pode ser – e realmente é muito provável que já seja –, tarde demais para essa consagração. Não se pode desdenhar impunemente de um aviso dado por Deus.

    A grande mística beatificada Sor Maria Aiello (1895-1961), que sofria em sua carne, toda Sexta-Feira Santa, a Paixão de Nosso Senhor, profetizou que um grande castigo viria depois da segunda metade do século XX (quando veio o Vaticano II), quando a verdadeira Igreja seria ofuscada (que é o que vemos hoje) e que depois do século XX (agora, portanto) viria uma grande guerra e castigos mais severos que o próprio Dilúvio(!) – porque a Rússia não se converteria

    É fato que a Rússia não se converteu: esta, provavelmente, é a resposta cabal aos questionamentos daqueles que insistem em dizer que alguma das consagrações anteriores foram válidas. Se tivesse sido, não teríamos a situação que hoje temos. Simples assim.


*  *  *


    Aí está o resumo da delicadíssima situação que estamos vivendo. Ao mesmo respeito, vale a pena ouvir a conversa entre Frederico Viotti (IPCO) e o prof. Julio Loredo de Izcue, vídeo abaixo:




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11 comentários:

  1. A maioria das pessoa que eu conheço acha que isso vais ser uma encenaç~çao pra dar poder pra Rússia. Vindo desse papa naõ espero nada infelizmente

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  2. A paz de Jesus Cristo.

    Excelente texto analisando essa Consagração da Rússia, ao Imaculado Coração de Maria, feito pelo atual papa. Bem, cabe uma pergunta, caro irmão Henrique Sebastião, e me desculpe, desde já, se ela não tem sentido aqui: a Ucrânia, nas duas datas citadas no texto ( 1917/1929...), pertencia à Rússia, pois desde o Império Russo, parte da Ucrânia pertencia a Rússia e a outra parte, pertenceu também ao Império Austríaco, segundo o que está na Wikipédia ( site não muito confiável, mas nessas datas históricas, ele não costuma inventar...), logo, quando houve a profecia, seria realmente apenas a Rússia ou aos territórios conquistados ao longo dos séculos? Na verdade, a Ucrânia apenas conseguiu a sua independência em 1991, com o fim do regime comunista soviético. Antes disso, a Ucrânia pertenceu a Polônia, a Prússia, esta, então um estado; pois não existia ainda, a atual Alemanha. Os dois povos, russos e ucranianos, estiveram unidos por um longo tempo. A Ucrânia seguiu sendo parte do Império Russo e depois, da fatídica União Soviética.

    Foi na Rússia de Kiev, como foi chamada a região, entre 800 e 1100, que o Rei Vladmir I de Kiev, que tornou a Rússia de Kiev, uma nação cristã. Ele é considerado santo pelas Igrejas Católica e Ortodoxa.

    Claro e óbvio: A Santíssima Trindade, Nossa Senhora, Amada Mãe, Maria, não se detém em geografia e geopolítica, mas talvez "Rússia" possa ser tudo o que era Rússia na época citada, entre 1917/1929. Tem grupos étnicos russos na Ucrânia há vários séculos. Talvez, neste caso, o papa não esteja errado, embora, como está no texto, deveria ser um ato exclusivo, não inserido em outro ato místico da Santa Igreja, digamos assim.

    Bem, o importante é que o Pai, Filho, por intermédio da Nossa Mãe, Maria, ouça o pedido do papa e a Consagração seja feita. Com isso, ucranianos e russos, nas pessoas dos atuais presidentes e os que vierem depois, se tornem mais humildes, sem interesses de dominação e o respeito pelas Leis de Deus se torne razão da existência de todos ali. Com isso, haverá paz, prosperidade e vida em abundância, sempre pautada nos ensinamentos, exemplos, das Sagradas Escrituras.

    Oremos para que o papa realize o pedido de Maria Santíssima, a Consagração da Rússia, em sua origem, sem inventar nada além do que a Mãe do Nosso Salvador, disse para ser feito, pois afinal, não é "apenas" um pedido dela, mas uma ordem da Santíssima Trindade que, claro, deve ser totalmente obedecida ou as graves conseqüencias virão.

    Link da Wikipédia sobre o assunto citado:

    https://pt.wikipedia.org/wiki/Ucr%C3%A2nia

    Salve Maria!

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    1. Questões secundárias como essa, Católico são desdobramentos e elucubrações que vão surgindo em momentos como o atual e que só servem para complicar algo que é, na realidade, extremamente simples, a saber:

      1. Houve uma aparição de Nossa Senhora e a Igreja o reconheceu. Ponto.

      2. Nessa aparição, a Mãe de Deus pediu expressamente a consagração da Rússia. Ponto.

      Eis o essencial suficiente. O que passa disso é acidental, são questões secundárias e circunstanciais que, via de regra, só servem para fazer perder tempo.

      Explico. Essa questão que você traz é um bom exemplo do que acabei de dizer: ora se a Ucrânia deve ser entendida como parte da Rússia, porque assim era na época do pedido do Céu, então basta consagrar a Rússia, exatamente como foi pedido, porque a Ucrânia já estará incluída aí, de todo modo. Certo?

      Por outro lado, se considerarmos que a Ucrânia é, sim, um país independente (essa questão é bem complexa), então, igualmente, não é preciso citá-la, porque – mais uma vez – o que Nossa Senhora pediu foi claramente a consagração da Rússia.

      Touché!

      P.S.: Sobre o intrincado histórico envolvendo Rússia/Ucrânia e suas implicações, aconselho o vídeo do meu dileto colaborador, que não é politicamente correto, Lorenzo Lazzarotto:

      História da UCRÂNIA e RÚSSIA: 1000 anos em 1 vídeo

      Fraternidade Laical São Próspero

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  3. Alguns padres já publicaram artigos no Facebook afirmando que o pedido de Consagração ao Imaculado Coração de Maria não exigia todos os Bispos do Mundo.

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    1. Parece que "alguns padres" precisam simplesmente ler o texto oficial da Mensagem, tornado público pelo Vaticano, que diz exatamente isto:

      "Deus pede ao Santo Padre fazer, em união com todos os bispos do mundo, a consagração da Rússia ao meu Imaculado Coração, prometendo salvá-la por este meio"

      Parece bem claro.

      Fraternidade Laical São Próspero

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  4. Porque não publicar neste site o que Nossa Senhora originalmente afirmou aos 3 pastorinhos em Fátima ?

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    1. Faremos isto na conclusão de nossa série sobre a Consagração da Rússia.

      Fraternidade Laical São Próspero

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  5. A paz de Cristo.

    Ok, Henrique Sebastião, obrigado. Mas os meus dois últimos parágrafos, já deixa claro o que é mais importante, logo, até os dois, pode-se esquecer o resto, correto?

    Grande Abraço Fraterno.

    Salve Maria!

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    1. Corretíssimo, meu caro. Salve Maria!

      Fraternidade Laical São Próspero

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  6. A paz de Cristo.

    Obrigado mais uma vez pelo esclarecimento, irmão Henrique Sebastião e pela sua última resposta ao meu comentário. Peço novamente desculpas pela "viagem" na geografia, que, não cabe em uma situação onde está muito claro o que Nossa Senhora diz o que é necessário fazer. Roguemos que o Papa Francisco não invente e faça exatamente o que foi dito por Nossa Mãe em Fátima.

    Abs.,

    Salve Maria!

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    1. De modo algum. Como falei antes, esses desenvolvimentos vão surgindo, muitas questões acidentais vão sendo colocadas e nos confundem, desviando do essencial da questão. O que realmente devemos, agora, é rezar com fé.

      Fraternidade Laical São Próspero

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