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A Igreja Católica mudou a Bíblia? – Conclusão

Monge copista medieval em seu scriptorium

** Leia a primeira parte deste estudo

TERMINAMOS A PRIMEIRA parte deste estudo levantando a malfadada acusação que sofre a Igreja Católica de ter "mudado" os textos da Bíblia, principalmente com base na alegação de que os Mandamentos de Deus, conforme registrados nas Sagradas Escrituras, são diferentes daqueles que a Igreja nos apresenta. Em especial, cita-se um Mandamento que proibiria a confecção de imagens, que não aparece na versão católica dos Mandamentos de Deus.

Para analisar bem a questão, reproduzimos, logo abaixo, a passagem do Livro do Deuteronômio em que se encontra a lista dos Mandamentos de Deus. Logo a seguir, os Mandamentos de Deus conforme apresentados pela Igreja.


Os Mandamentos de Deus, dados por Moisés ao "povo eleito", conforme consta no Livro do Deuteronômio:

(1) Não terás outros deuses diante de mim. Não farás para ti imagem de escultura representando o que quer que seja do que está em cima no céu, ou embaixo na terra, ou nas águas debaixo da terra. Não te prostrarás diante delas para render-lhes culto, porque Eu, o SENHOR teu Deus, sou um Deus zeloso, que castigo a iniquidade dos pais nos filhos, até a terceira e a quarta geração daqueles que me odeiam, mas uso de misericórdia até a milésima geração com aqueles que me amam e guardam os meus Mandamentos.
(2) Não pronunciarás em vão o Nome do SENHOR, teu Deus; porque o Senhor não terá por inocente aquele que tiver pronunciado em vão o seu Nome.
(3) Guardarás o dia do sábado e o santificarás, como te ordenou o Senhor, teu Deus. Trabalharás seis dias e neles farás todas as tuas obras; mas no sétimo dia, que é o repouso do SENHOR teu Deus, não farás trabalho algum, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem teu servo, nem tua serva, nem teu boi, nem teu jumento, nem teus animais, nem o estrangeiro que vive dentro de teus muros, para que o teu escravo e a tua serva descansem como tu. Lembra-te de que foste escravo no Egito, de onde a Mão forte e o Braço poderoso do teu SENHOR te tirou. É por isso que o SENHOR, teu Deus, te ordenou observasses o dia do sábado.
(4) Honra teu pai e tua mãe, como te mandou o SENHOR, para que se prolonguem teus dias e prosperes na terra que te deu o Senhor teu Deus.
(5) Não matarás.
(6) Não cometerás adultério.
(7) Não furtarás.
(8) Não levantarás falso testemunho contra o teu próximo.
(9) Não cobiçarás a mulher de teu próximo.
(10) Não cobiçarás sua casa, nem seu campo, nem seu escravo, nem sua escrava, nem seu boi, nem seu jumento, nem nada do que lhe pertence."
(Deuteronômio 5,7-21)


Os Mandamentos de Deus segundo a Igreja:

1) Amarás a Deus sobre todas as coisas;

2) Não tomarás o Nome de Deus em vão;

3) Santificarás as festas;

4) Honrarás a teu pai e a tua mãe;

5) Não matarás;

6) Não cometerás atos impuros;

7) Não roubarás;

8) Não dirás falso testemunho nem mentirás;

9) Não consentirás pensamentos nem desejos impuros;

10) Não cobiçarás os bens alheios.


Bem, a lógica rasa das novas comunidades protestantes ditas "evangélicas" (pentecostais e neopentecostais) diz o seguinte: se a Bíblia diz uma coisa, de um jeito, e a Igreja Católica apresenta aquela mesma coisa de um jeito diferente, então a Igreja mudou a coisa. Certo? 

Errado. Muito errado; erradíssimo. Falando com total honestidade, vejo que se qualquer pessoa racional simplesmente confrontar as duas listas acima verá que contém exatamente as mesmas prescrições divinas, sendo que a segunda é apenas e tão somente a lista sintetizada, resumida e desvinculada do contexto judaico e das citações exclusivamente históricas. Nesse sentido, por exemplo, não teria cabimento que, para transmitir a Palavra de Deus aos povos do mundo dos nossos tempos, a Igreja prescrevesse, literalmente: "Não cobiçar o escravo e nem a escrava do teu próximo", ou "não cobiçar o boi nem o jumento do teu próximo". Claro e evidente que isso não teria mais sentido, hoje. Por isso, a Igreja apresenta o Mandamento dado por Deus da maneira mais simples, direta e, principalmente, compreensível para todos, dizendo: "Não cobiçarás os bens alheios".

Hoje em dia, já não possuímos escravos, aliás a prática da escravidão é crime em todo o mundo civilizado; a imensa maioria de nós também já não possui bois e jumentos; entretanto, tanto o terceiro quanto o décimo Mandamentos mencionam escravos, bois e jumentos. Teriam ficado, então, os Mandamentos Divinos desatualizados, na prática? Não. Basta compreender o sentido e a essência do Mandamento, desvinculando o que está escrito literalmente do verniz epocal e cultural. É o que faz a Igreja, e é este o seu papel legítimo, como veremos mais adiante.

Do mesmíssimo modo se dá com relação a famigerada disputa envolvendo as imagens sacras. Basta observar o Primeiro Mandamento como um todo para ver que o fulcro e o cerne daquela proibição está na exclusividade que devemos dar ao Deus Vivo e Verdadeiro em nossa vida de fé, devoção e prática. O Mandamento menciona a idolatria prestada aos falsos deuses pagãos, que no imaginário daquele povo "concorriam" com YHWH por adoração e culto. A menção às imagens é claramente um complemento a essa Ordem divina central, que é amar a Deus sobre todas as coisas, como será confirmado com toda a clareza no mesmo Livro da Bíblia, logo adiante, no capítulo seguinte: "Amarás, pois, o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e com todas as tuas forças" (Dt 6,5).

Vemos, assim, que a Igreja não "mudou" o Primeiro Mandamento, e sim optou pela sua forma resumida, conforme é apresentada pelo mesmo Livro da Bíblia, o Deuteronômio. Também e principalmente, a razão de a Igreja ter resumido o Primeiro Mandamento é o fato de tê-lo feito o próprio Jesus Cristo, Filho de Deus e Deus: 
“Amarás o Senhor teu Deus de todo teu coração, de toda tua alma e de todo teu espírito. Este é o maior e o primeiro Mandamento.”
Jesus Cristo (Mt 22, 37-40)

Não pode haver autoridade maior que a de Jesus Cristo para definir qual é o Primeiro Mandamento; e, sim, Ele fez isto.

Outro ponto fundamental para entender a questão é observar que as contestações surgem, simplesmente, por causa de separações diferentes do texto. Muitos leigos não sabem, por exemplo, que os textos originais da Bíblia são corridos, não foram produzidos divididos em versículos, da maneira como conhecemos hoje. Na realidade, os manuscritos originais não eram separados nem mesmo entre palavras, dada a conjuntura dos seus idiomas e da sua grafia própria; não havia sequer vogais ou sinais de pontuação, e nem títulos e subtítulos para ajudar a localizar passagens específicas.

A necessidade de dividir o texto sagrado em partes surgiu para facilitar o encontro de determinadas doutrinas, independentemente de qual fosse a edição, em cada Livro da Bíblia, e também para organizar as leituras litúrgicas. Durante o correr dos séculos, houve diversos sistemas de organização dos textos sagrados, tanto judeus, para o nosso AT ('Sedarim'; 'Perashiyyot'; 'Pesuquim') como cristãos ('Cánones eusabiani', de Eusébio de Cesareia), para dividir os textos em seções1.

Assim, os Mandamentos de Deus, na Bíblia, não se encontram divididos nem numerados. Há apenas um texto corrido que contém os Mandamentos, mas não se diz ali algo como "a partir daqui começa o primeiro Mandamento" ou "aqui termina o primeiro e começa o segundo Mandamento". Cabe à Igreja defini-lo, e a Igreja de Cristo desde sempre entendeu que o primeiro Mandamento começa com a advertência contra os falsos deuses e termina com o aviso de castigo para os que não observarem a adoração exclusiva a YHWH, isto é, o conjunto dos atuais versículos de 7 a 10. De fato, basta analisar o a passagem com o mínimo de imparcialidade para se notar que isso faz todo o sentido, pois tudo o que se diz aí converge numa única chamada a adorar exclusivamente ao Deus Vivo e Verdadeiro, descartando todo culto de adoração aos ídolos pagãos. Não são dois Mandamentos, como: 1) Não ter outros deuses diante do SENHOR e 2) Não fazer imagens desses outros deuses. Ao contrário, trata-se de uma única afirmativa, que fica claríssima no início da fala: "Não terás outros deuses diante de Mim...": o que vem na imediata sequência é a inevitável consequência desta advertência.

Só há um Deus; logo e por consequência, não se pode fazer imagens para adoração de outros (falsos) deuses. Por isso mesmo é que a proibição ao uso de imagens não se aplica a toda e qualquer imagem, nem mesmo às imagens cultuais, e Deus mesmo vai ordenar que se façam imagens para uso no seu culto, logo adiante, na mesma Bíblia (entenda). Óbvio, não?

Entretanto, partindo do livre exame das Escrituras, poderíamos dividir esse mesmo trecho (versículos 7 a 10) em até mais partes. Poderíamos dizer, por exemplo, que não adorar falsos deuses é um mandamento, não fazer imagens é outro, não prostrar-se diante dessas imagens é um outro mandamento e não lhes render culto (o que é diferente de apenas prostrar-se) seria um quarto mandamento. Como já vimos exaustivamente por aqui, a partir do livre exame e interpretação do texto, pessoas diferentes podem usar da sua imaginação (e, em muitos casos, de má vontade) para elaborar as mais diversas (e estapafúrdias) interpretações. Mais uma vez, fica clara a razão de nossa salvação não ter sido condicionada ao livre exame das Escrituras.

Assim, a partir das divisões do Texto Sagrado, passaram os protestantes a dividir também os Mandamentos de modo diverso do dos católicos, fazendo sempre muita questão de enfatizar o problema imaginário das imagens. Este erro crasso é tão evidente que, recentemente, até mesmo a igreja luterana alemã (a entidade protestante mais antiga) pediu desculpas públicas aos católicos pela destruição das imagens sacras (e outros atos criminosos) durante a chamada Reforma. Em nota oficial, disseram que hoje reconhecem que as imagens sagradas, "em suas mais variadas formas", têm "grande valor como expressão da espiritualidade" – logo, nada tem a ver com "idolatria". Declararam, ainda, que a igreja protestante alemã “se opõe à destruição de imagens” (saiba mais).

Uma atitude louvável. Entretanto, lamentavelmente, a desgraça foi feita pelo seu fundador há cinco séculos: hoje em dia, como consequência do seu ato de orgulho, não cessam de se multiplicar as seitas que se proclamam "cristãs" e "bíblicas", e todos os dias temos notícias de malucos invadindo igrejas católicas para destruir imagens sacras.

Voltando ao nosso tema central, vemos com muita clareza que os Mandamentos de Deus não foram, de modo algum, "mudados" pela Igreja, mas apenas e simplesmente traduzidos em linguagem acessível e explicados à grande multidão de fiéis que buscam compreender as coisas da fé. Mudar a Bíblia? Evidente que não. Esclarecer a Bíblia, sem alterá-la, isto sim, e para isto a Igreja tem, além de plena autoridade, o dever de fazê-lo, dado pelo Cristo, conforme autenticado pelas próprias Escrituras.

Ou acaso não foi Cristo quem deu poderes à sua Igreja a fim de estabelecer os meios para a salvação da humanidade? Ele não o disse, mais de uma vez, aos seus Apóstolos, isto é, à sua Igreja nascente?
“Quem vos ouve a Mim ouve, quem vos rejeita a Mim rejeita, e quem me rejeita, rejeita Aquele que me enviou.”
Jesus Cristo (Lc 10,16)

Em verdade, tudo o que ligardes sobre a Terra, será ligado no Céu, e tudo o que desligardes sobre a Terra, será também desligado no Céu.”
Jesus Cristo (Mt 18,18)

O Senhor falava aos Apóstolos, que eram a Igreja no seu primeiro início. Logo, é fato bíblico que a Igreja também legisla, com o Poder de Cristo, e foi designada como fiel depositária da Sã Doutrina. Quem não a obedece, desobedece a Cristo, logo, desobedece a Deus Pai. Mais tarde, vai S. Paulo Apóstolo confirmar este fato insofismável em sua Primeira Carta a Timóteo, ao dizer com todas as letras:
“Escrevo (no caso, a própria Bíblia, inspirado pelo Espírito Santo) para que saibas como te portar na Igreja, que é a Casa do Deus Vivo, a coluna e o sustentáculo da Verdade.”
(1Tm 3,15)

Por fim, apenas para arrematar a questão, cabe lembrar que, antes de tudo, se a Igreja tivesse mesmo a intenção de mudar os Mandamentos, seria para ela muito fácil, já que, por muitos séculos, as cópias das Sagradas Escrituras estiveram encerradas sob a guarda da própria Igreja, e apenas o clero tinha acesso direto a elas. Seria coisa muito simples para qualquer Papa ordenar a alteração definitiva da letra, em certos pontos estratégicos, por exemplo, com a desculpa de que seria para o bem das almas. Mas isso jamais aconteceu. Pelo contrário, quem fez isso foi exatamente Lutero, patrono e fundador de todas as "igrejas" cujos seguidores nos acusam.

Martinho Lutero resolveu proceder à sua própria tradução particular da Bíblia, e – um fato que incrivelmente pouco se divulga e praticamente não se menciona – simplesmente adulterou a passagem da Epístola aos Romanos (1,17), onde se lê que “o justo viverá pela fé”. Acrescentou ali a palavra “allein”, que no alemão significa “somente”, e passou a pregar, assim como pregam todos os pastores protestantes/'evangélicos' até hoje, que o justo “vive somente pela fé” (a doutrina Sola Fide, que ao lado do Sola Scriptura/Só a Bíblia, constitui a dupla de super dogmas protestantes). Ainda que não fosse necessário, porque dispomos da prova material, o próprio Lutero confirmou a adulteração, quando disse aos seus seguidores: “Se um papista lhe questionar sobre a palavra ‘somente’, diga-lhe isto: papistas e excrementos são a mesma coisa. Quem não aceitar a minha tradução, que se vá. O demônio agradecerá por esta censura sem a minha permissão”3.

Como se vê, o fundador do protestantismo estava anos-luz distante daquele personagem humilde e heroico retratado em um famoso filme supostamente "biográfico" sobre sua vida: ele era orgulhoso, vaidoso e mantinha uma atitude extremamente arrogante. Aqueles que nos acusam de adulteração, porém, seguem e observam as mesmas Escrituras que foram organizadas, divididas e canonizadas pela Igreja Católica. Suprema contradição, acham que a Igreja não é inspirada pelo Espírito Santo para guardar a fé cristã, mas creem que a mesma Igreja foi inspirada pelo Espírito Santo para definir o cânon da Bíblia. E – é importante que você, fiel católico, saiba disso – àqueles que dizem que a Igreja se "paganizou" depois de Constantino (274-337), convém lembrar que o cânon das Escrituras foi definido somente após o século IV, bem depois da aceitação do Cristianismo pelo Império Romano.


* * *

A Igreja é o Corpo de Cristo, portanto continuidade histórica do Cristo no mundo; é a coluna e o sustentáculo da Verdade; a ela foi dada autoridade para proclamar o Evangelho às nações, e para tanto é preciso esclarecê-lo aos povos diversos. Não estamos mais engessados à letra escrita, como no tempo da Lei, mas somos membros muito amados de Nosso Senhor Jesus Cristo. Para isso, temos a Santa Igreja, nossa Mãe e Mestra.
“Ele nos capacitou (à Igreja) a sermos ministros de uma nova Aliança, não da letra, mas do Espírito; pois a letra mata, mas o Espírito vivifica. O ministério que trouxe a morte foi gravado com letras em pedras; mas esse ministério veio com tal glória que os israelitas não podiam fixar os olhos na face de Moisés por causa do resplendor do seu rosto, ainda que desvanecente. Não será o Ministério do Espírito ainda muito mais glorioso? Se era glorioso o ministério que trouxe condenação, quanto mais glorioso será o Ministério que produz Justiça!”
(2Cor 3,6-9)

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1. Estêvão Langton, arcebispo da Cantuária, que havia sido chanceler da Universidade de Paris, fez a divisão do Antigo e do Novo Testamentos em capítulos, a partir do texto latino da Vulgata de São Jerônimo, por volta do ano 1226. Da Vulgata, passou ao texto da Bíblia hebraica, ao texto grego do Novo Testamento e à versão grega do Antigo Testamento. Ele estabeleceu uma divisão em capítulos, mais ou menos iguais, muito similar à que temos em nossas Bíblias impressas. Esta divisão se tornou universal.
Divisão em versículos – São Pagnino (1541), judeu convertido, depois dominicano, originário de Luca (Itália), dedicou 25 anos à sua tradução da Bíblia, publicada em 1527, e foi o primeiro em dividir o texto em versículos numerados.
Esta versão foi impressa em Lion. Era uma versão muito literal que constituiu um ponto de referência entre os humanistas da época, e foi reimpressa várias vezes. Roberto Estienne, prestigioso impressor, realizou a divisão atual do Novo Testamento em versículos em 1551. Em 1555, fez a edição latina de toda a Bíblia. Para os versículos do Antigo Testamento hebraico, ele utilizou a divisão feita por São Pagnino. Para os demais livros do Antigo Testamento, elaborou uma própria e utilizou para o Novo Testamento a que, poucos anos antes, ele mesmo havia realizado.
O recurso de dividir o texto bíblico em capítulos e versículos numerados permite, desde então, encontrar imediatamente uma passagem, seja qual for a paginação adotada por uma edição. Esta é uma ferramenta fundamental para os pesquisadores, e para que todos possam ter uma mesma referência. 
Bíblia impressa com capítulos e versículos – A primeira Bíblia impressa que incluiu totalmente a divisão de capítulos e versículos foi a chamada Bíblia de Genebra, publicada em 1560, na Suíça.
Os editores da Bíblia de Genebra optaram pelos capítulos de Stephen Langton, e versículos de Robert Estienne, conscientes da grande utilidade que teriam para a memorização, localização e comparação de passagens bíblicas. Em 1592, o Papa Clemente VII mandou publicar uma nova versão da Bíblia em latim, para uso oficial da Igreja Católica, e nela se incluiu a divisão atual de capítulos e versículos. Assim, no final do século XVI, os judeus, protestantes e católicos haviam aceitado a divisão em capítulos introduzida por Stephen Langton, e a subdivisão em versículos introduzida por Robert Estienne. Desde então, estas divisões em capítulos e versículos ganharam aceitação como uma forma padronizada para localizar os versículos da Bíblia, e até hoje são aceitas universalmente.
(DUARTE, Luiz Miguel; BEDOR, João Paulo. Formação para Leitores e Ministros da Palavra. São Paulo: Paulus, 2017, pp.11ss / 
Eq. Editorial Ave-Maria. Chave bíblica católica: edição revista e ampliada, São Paulo: Ave-Maria, 2012; )

2. Existia a Igreja Católica há mais de um e meio milênio quando surgiu a primeira comunidade protestante. Foi chamada 'protestante', inicialmente, devido ao protesto de seis príncipes luteranos e 14 cidades alemãs (19 de abril de 1529), quando a chamada 'segunda dieta (assembleia) de Speyer', convocada pelo imperador Carlos V, revogou uma autorização concedida três anos antes para que cada príncipe determinasse a religião do seu território. O termo protestante foi rapidamente adotado, inclusive pelos partidários de Lutero, e logo transcendeu a questão local e epocal para definir, genericamente, o grupo que rejeitava a autoridade do Sucessor de Pedro, justamente porque protestavam contra a autoridade e a doutrina da primeira Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo.

3. Conf. 
'The Facts About Luther', O’Hare, TAN Books, 1987, p. 201; Imperial Encyclopedia and Dictionary © 1904, vol. 4, Hanry G. Allen & Company, Holman Bible Dictionary © 1991; Amic. Discussion, 1, 127.

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Fontes e ref. bibliográfica
• ORDOVÁS, Javier. Quem dividiu a Bíblia em capítulos e versículos?, Aleteia, disp. em :
https://pt.aleteia.org/2016/03/14/quem-dividiu-a-biblia-em-capitulos-e-versiculos/

Acesso 17/8/017
• FOCANT, Camile & diversos autores. Bíblia e História, Escritura, interpretação e ação no tempo. São Paulo: Loyola, 2006.

A Igreja Católica mudou a Bíblia? – Introdução


O LEITOR ANTÔNIO Medeiros, da minha queridíssima cidade de Itajaí, SC, enviou-nos a seguinte pergunta:

“Concluí, pela Internet, o curso bíblico O Apocalipse de João. No epílogo, Dom José deu ênfase ao fato de não se alterar nada do que foi escrito, citando Dt 4,2; 13,1; Pr 30,6 ; Ecl 3,14. Com a mudança do item referente à guarda do sábado, a Igreja não infringiu as citações acima? Devo dizer que sou católico e não se trata de uma pergunta provocativa, mas elucidativa. Obrigado pela atenção.”

Aí está um assunto importante, Antônio, um tema simples e complexo ao mesmo tempo. Simples na essência, mas talvez de complexa explicação. É sempre assim quando se tratam de calúnias, e a pergunta que você faz tem origem em uma calúnia fortemente difundida. Sei bem que você não é um caluniador; ao que me parece, é um católico honesto em busca de conhecimento, fazendo uma pergunta honesta. Mas a dúvida que apresenta certamente deriva –, direta ou indiretamente –, das acusações que nos fazem os protestantes/“evangélicos”. Sobre a questão específica do sábado, já tratamos por aqui, no post que pode ser lido no link abaixo:

– “Por que a Igreja guarda o domingo e não o sábado?”

Indo além, entretanto, nós realmente gostaríamos de aproveitar a oportunidade de aprofundar o tema, porque recebemos, igualmente, dúzias de mensagens acusando a Igreja de “mudar a Bíblia”, insistindo que a Bíblia não pode ser mudada e coisas desse tipo. Quero começar dizendo que, quase sempre, é muito mais fácil caluniar do que esclarecer as coisas. Vejamos um exemplo simples e prático desta simples realidade: alguém poderá, mentindo, dizer a uma determinada esposa que o marido dela é infiel no casamento. Pode fazer isso de modo anônimo, como por um telefonema a partir de um aparelho público, por exemplo, ou então pelo envio de um e-mail. Algo muito fácil de fazer. E aquela mulher poderá acreditar ou não na denúncia anônima. Se ela não confia no marido, mesmo que não tenha motivos para tanto, vai perder a paz de espírito. Provavelmente vai armar uma grande confusão, talvez vá esperá-lo chegar em casa pronta para a briga, poderá envolver os filhos e parentes... Uma esposa alucinada seria bem capaz de destruir roupas e pertences do pobre marido e partir para a agressão física, o que, por sua vez, poderia até terminar em tragédia. Tudo por causa de uma calúnia.

Mas, se a esposa confia no marido, então não vai dar ouvidos à mentira; vai tentar reagir como pessoa adulta, não vai acusá-lo ou começar uma briga sem lhe dar, ao menos, uma chance de se defender. Vai dar mais importância à palavra do marido do que à de um(a) estranho(a) que faz uma acusação sem provas. Mesmo assim –, e esta é a parte importante dessa história –, é bem provável (talvez quase certo) que ela fique cismada, e passe a desconfiar do marido inocente. Possivelmente passará a prestar mais atenção nos seus hábitos, querer saber por onde ele anda, investigar o celular, visitá-lo inesperadamente no trabalho, segui-lo pelas ruas...

Assim são as coisas: é fácil inventar uma calúnia, uma falsa acusação que poderá manchar a honra de um inocente; é muito mais difícil, ao acusado, provar que não tem culpa. Muitas vezes, basta uma acusação falsa para destruir uma carreira profissional, um relacionamento, uma vida. No caso que ora analisamos, tudo é ainda pior, porque a acusação de que a Igreja teria mudado a Bíblia é dita e repetida muitas e muitas vezes, à  exaustão. Em algum momento, essa afirmação falsa, por se tornar comum, acaba penetrando no inconsciente das pessoas. A célebre frase atribuída ao ministro da propaganda nazista, Joseph Goebells, não deixa de ter sua razão de ser: "Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade"1.

Claro que uma mentira jamais se tornará verdade. Uma mentira será sempre mentira, ainda que o mundo inteiro repita que é verdade, e ainda que quase todos creiam firmemente que seja verdade. Todavia, de tão comum e tão repetida, muitas vezes uma mentira passa a se parecer com verdade.

Ora, nós vivemos agora tempos em que a grande mídia já convence uma parcela importante da população (e cada vez maior) de que é perfeitamente saudável – e até louvável – que uma pessoa não aceite o próprio corpo, o próprio sexo, e queira mudá-lo por meio da ingestão de hormônios, cirurgias radicais e etc. Oficialmente não se pode mais dizer que isso é algum tipo de desvio mental ou psicológico. Uma novela popularíssima, exibida no Brasil e em outros países pela Globo –, a segunda maior rede de TV do mundo –, apresenta uma jovem mulher que diz que não aceita o próprio corpo, que odeia especialmente seus seios, os quais tenta esconder, e chega a espancá-los violentamente. Apesar de não se "sentir" mulher, ela é apaixonada por um rapaz, e a explicação da psicóloga de fantasia é a de que ela seria uma mulher trans-masculina-homo-lésbica – ou alguma coisa parecida com isso. Em outras palavras, ela seria uma homem que nasceu em corpo de mulher(?), mas um homem homossexual(?!).

A primeira reação involuntária é rir, e rir muito. E se você parar e pensar um pouco mais a fundo sobre a situação do nosso mundo, se contemplar a quê as nossas crianças e nossos jovens estão sendo expostos, a reação mais normal é chorar por dentro. Toda a trama da novela, claro, é meticulosamente planejada e montada para que essa personagem apareça como uma pobre vítima da sociedade, uma menina muito simpática, muito boa e compreensiva com todos, mas que não é compreendida, e jamais alguém que apresenta dificuldades (sejam físicas, psicológicas ou psiquiátricas) graves. A uma mulher nessas condições, hoje, simplesmente não se pode sequer sugerir que procure ajuda, porque isso caracterizaria "preconceito" e crime(!). Se algum psicólogo ou psiquiatra disser que pode ajudar um homossexual que queira –, se ele quiser, voluntariamente –, deixar de sê-lo, será impiedosamente perseguido e mesmo criminalizado(!), como aconteceu há pouco tempo com a Dra. Rozângela Alves Justino.

Fato no mínimo curioso é que, em nossa sociedade, se um homem diz que "não se aceita" como homem e que "se sente" um cachorro, e passa  a andar de quatro, latir e urinar nos postes, será (ainda) considerado um ser humano que precisa de ajuda, e será certamente encaminhado para a ajuda médica. Mas se ele diz que, apesar de ter nascido homem, "sente-se" como mulher, então isso não pode, de maneira nenhuma, ser considerado algum desvio, mas sim um direito sagrado e idolatrado, contra o qual não se pode dizer absolutamente nada.

A situação é tão complicada e tão grave que já temos até bispo dizendo que um homem se vestir de mulher e tomar hormônios para se parecer com uma delas não é pecado e nem doença, e sim um "dom de Deus"(veja aqui e aqui!).

Mas, afinal, se eu uso deste exemplo tão impactante –, o do chamado "gayzismo", que por si já renderia uma série de artigos maiores do que este –, é só para demonstrar que, muitas vezes, de tanto dizer e insistir em alguma coisa, por mais louca e absurda que seja, as pessoas passam a imaginar que seja mesmo real.

Assim, em razão da complexidade sempre presente ao se tentar esclarecer questões como as que nos trouxe o leitor Antônio Medeiros (ainda que sejam no fundo muito simples), adotaremos a estratégia mais inteligente e realmente funcional, que é atacar a fera diretamente no coração.


Uma mentira inventada por fanáticos

Dialogar com um “evangélico” fanático é exatamente como seria lutar contra a Hidra de Lerna, se ela existisse. A Hidra é um monstro mitológico terrível, o qual, a cada vez que se lhe decepava uma cabeça, nasciam duas no lugar. Tentar dialogar com pessoas que sofreram uma verdadeira lavagem cerebral contra a Igreja Católica (eu sei do que estou falando, já estive do lado de lá) é tão desesperador quanto enfrentar a Hidra. Quando um deles ataca o uso das imagens sacras, por exemplo, e explicamos porque as usamos, demonstrando o seu fundamento teológico e bíblico, ele então ataca a veneração à Virgem Maria; quando, da mesma forma, explicamos isso também, ele vem com a doutrina do Purgatório; quando esclarecemos essa questão, ele apela para a lorota de Constantino paganizando a Igreja de Cristo2, e por aí vai... E ainda que, por fim, consigamos fechar o círculo e esclarecer com embasamento e razão a todas as suas dúvidas, mesmo assim ele não se conforma, e então retorna novamente à primeira questão já respondida, recomeçando toda a discussão.

Sei que é assim, por uma longa experiência de vida e debates com pessoas desse tipo. Como costumo dizer, aos cegos por opção é impossível que recuperem a visão, até que queiram. Enquanto não quiserem ver, não verão, mesmo que a verdade seja balançada bem diante dos seus narizes.

Ataquemos, então, a fera, diretamente no coração, porque tentar cortar cada uma das suas cabeças será impossível: a cada cabeça cortada, crescerão duas no seu lugar. E qual é o coração da fera? Ocorre que o problema todo está em ver a Bíblia Sagrada como uma espécie de entidade própria, dotada de vontade e pensamento independentes; uma entidade que é capaz, sozinha, de nos fornecer todas as respostas infalíveis.

É exatamente assim que os ditos "evangélicos" enxergam a Bíblia: uma espécie de "gênio da lâmpada mágica" capaz de nos dar, instantaneamente, todas as respostas que procuramos. Mais do que isso, eles veem a Bíblia como um tipo de instrumento que obrigaria Deus a comunicar as suas verdades profundas e inefáveis a quem quer que a leia. Entendem que, quando uma pessoa simplesmente diz que "aceita Jesus" e se põe a ler a Bíblia, automaticamente o Espírito Santo irá se manifestar a ela e lhe revelar, infalivelmente, todos os mistérios e profundidades da salvação em Deus. Eles consideram absurda a fé na infalibilidade doutrinal do sucessor de Pedro –, a quem o Senhor Jesus Cristo pessoalmente concedeu autoridade –, mas creem em si mesmos como infalíveis nas suas interpretações (via de regra rasas e literais) da Bíblia.

Vou deixar aqui um breve testemunho pessoal. Eu li a Bíblia, pela primeira vez, aos meus 14 anos de idade. Eu era um adolescente típico, descobrindo a vida e cheio de dúvidas e inquietações; minha família atravessava então uma grande crise, que culminou na separação de meus pais, e eu não tinha quem me ouvisse e compreendesse. Buscava a saída em Deus. No começo, passei a ir às Missas, mas eu, que assim como milhões de outros da minha geração, não recebi uma formação cristã adequada, não entendia nada e voltava para casa frustrado. Cometi então um erro clássico (e fundamental): resolvi comprar uma Bíblia, e passei a lê-la como se fosse um livro qualquer, como quem lê um romance (outro erro clássico e fundamental): abri no primeiro capítulo do primeiro livro, o Gênesis, e comecei dali.

Não seria preciso dizer que quase enlouqueci. O Antigo Testamento não é, de modo algum, leitura para crianças e/ou jovens despreparados, nem jamais deveria ser feita por ninguém sem uma boa formação prévia. Esta é a verdade. O leitor desavisado se verá perdido em um pavoroso cenário de carnificinas, mortes violentas, dilapidações, bebês sendo atirado contra rochas, e tudo em nome de um Deus irascível e ditador que "escolhe" um povo para proteger, em detrimento de todos os outros de sua própria criação... E ordena a matança de estrangeiros. "Assim diz o SENHOR dos Exércitos (...): 'Vai e fere a Amaleque; e destrói totalmente a tudo o que tiver, e não lhe perdoes; porém matarás desde o homem até à mulher, desde os meninos, até aos de peito, desde os bois até às ovelhas, e desde os camelos até aos jumentos'" (1Sm 15 2,3).

Tenho certeza de que não é preciso dizer que passagens como esta e muitíssimas outras, semelhantes, precisam de uma séria preparação para serem digeridas e, melhor, situadas em seu devido contexto. Por isso mesmo, a nossa salvação não foi vinculada por Nosso Senhor, em momento algum, à leitura das Escrituras, muito pelo contrário. Cristo diz com todas as letras ao judeus hipócritas: "Vós examinais nas Escrituras, porque julgais ter nelas a vida eterna. Mas elas testificam de Mim, e vós não quereis vir a Mim para terdes a vida!" (Jo 5, 39-40). Aqui está nosso Salvador dizendo, explicitamente, que a salvação não vem do exame das Escrituras, e sim do encontro com Ele, e este encontro se dá mediante a adesão à sua Igreja, como também está claro, por exemplo, no episódio da visão de S. Paulo na estrada para Damasco (Atos 22), quando o Senhor lhe diz: "Porque me persegues", identificando-se totalmente à Igreja; referindo-se à Igreja como a Si mesmo.

Retornando ao meu relato, passei da curiosidade ao terror. Todavia, fui presa fácil daquele mysterium terribile et fascinans, isto é, tornei-me como uma folha seca perdida na tempestade da avassaladora sensação de ver-se totalmente incapaz diante de um Poder maior e irresistível, que apavora e desconcerta, faz querer fugir, mas, por outro lado e ao mesmo tempo, por tremendamente fascinante, prende, cativa e obriga a continuar assistindo. "Ai de mim!", gritou Isaías diante da visão do SENHOR dos Exércitos no Templo, Aquele cujo Nome é impronunciável e de cuja Presença até os anjos, trêmulos, protegiam-se com suas asas. Do mesmo modo eu, compreendendo minha pequenez e total incapacidade.

Sofri, calado e aterrorizado, por anos. Na busca por explicações, e pela incapacidade dos padres adeptos de um malfadado aggiornamento, fui parar nas seitas ditas "evangélicas", onde fui submetido a um pavoroso processo de condicionamento mental. Demorou, mas, por fim, a completa incoerência da doutrina Sola Scritptura tornou-se clara demais para ser ignorada, e eu escapei à armadilha protestante. Essa já é uma outra história, mas posso dizer que, daí  a alcançar a compreensão do contexto e do sentido das muitíssimas passagens realmente difíceis da Bíblia, foram décadas de diligentes estudos.

Posso dizer que a chave de tudo é compreender que a Bíblia sempre foi, é e continua sendo, aquilo que não poderá deixar de ser antes de qualquer outra coisa: um livro. Ainda que este livro contenha a Palavra de Deus por escrito e seja, como de fato é, o Livro Sagrado dos cristãos, permanece sendo um livro e –, assim como todo livro –, para ser compreendido depende da correta interpretação de quem o lê. Por isso mesmo, Nosso Senhor confiou a condução da sua Igreja aos seus Apóstolos, isto é, à sua Igreja, junto da qual prometeu que estaria até o fim do mundo (Mt 28,20), e jamais determinou que o conhecimento da Verdade estaria condicionado a leitura das Escrituras.

Os próprios Evangelhos reconhecem a insuficiência das Escrituras para resumir ou conter a totalidade da experiência Jesus Cristo, ao admitir que, se fossem escritas todas as coisas que fez e disse Jesus, "nem o mundo inteiro poderia conter os livros que se deveriam escrever" (Jo 21, 25).

Após este longo preâmbulo, que considerei necessário para a compreensão do que vem a seguir, entremos finalmente no teor da pergunta feita, de maneira objetiva e direta, ponto a ponto:

1) A advertência de que não se pode acrescentar nem retirar nada àquele conteúdo não parte e não se refere à Bíblia como um todo, até porque a Bíblia não é um texto único, e sim um conjunto de textos (nem sempre homogêneos) reunidos; aliás, exatamente por isso chama-se "Bíblia" (=biblioteca; conjunto de livros). A advertência refere-se ao Livro do Apocalipse, o que está claríssimo na própria composição do texto, que diz: "Aqueles que ouvirem as palavras da profecia deste livro (...) e lhes ajuntar ou tirar qualquer coisa..." (Ap 22, 18-19).

Isso tem uma razão de ser bastante evidente: trata-se, obviamente, de literatura apocalíptica, que se caracteriza pela linguagem cifrada, simbólica, metafórica, mística e de difícil compreensão. Este livro, não por acaso, é singular e único em todo o Novo Testamento, que traz geralmente uma linguagem clara e advertências explícitas naquilo que tange ao esclarecimento do que é certo e do que é errado e de qual Caminho os adeptos do Evangelho de Cristo devem seguir. Este é um ponto que não deixa de ser importante, pois para um texto "criptografado", por assim dizer, a alteração de qualquer palavra e de qualquer vírgula poderá comprometer totalmente a compreensão do que está dito.

2) Apesar do exposto, é evidente que os outros livros da Bíblia também não devem ser mudados, se é que cremos que são Palavra de Deus por escrito, e constituem um dos pilares de todo o edifício da fé cristã. Não se pode mudá-los arbitrariamente, e nem mesmo a Igreja poderia fazê-lo, já que foi a própria Igreja que produziu todo o Novo Testamento, que constitui o eixo e a consumação de todas as Escrituras, na pessoa dos santos Apóstolos. Todavia exatamente aqui entra o segundo ponto, pois "mudar" o texto é uma coisa, e esclarecê-lo é outra coisa, não só completamente diferente, como também oposta. Esclarecer determinada realidade não é mudá-la, ao contrário, é afirmá-la e reafirmá-la com embasamento.

Por exemplo, muitos acusadores da Igreja costumam citar o Mandamento que, na Bíblia, proíbe a confecção de imagens, para dizer que "a Igreja Católica mudou os Mandamentos", já que nos Mandamentos de Deus segundo a Igreja Católica esta advertência específica não aparece, como podemos ver logo abaixo.

Mandamentos de Deus segundo a Igreja – 1) Amarás a Deus sobre todas as coisas; 2) Não tomarás o Nome de Deus em vão; 3) Santificarás as festas; 4) Honrarás a teu pai e a tua mãe; 5) Não matarás; 6) Não cometerás atos impuros; 7) Não roubarás; 8) Não dirás falso testemunho nem mentirás; 9) Não consentirás pensamentos nem desejos impuros; 10) Não cobiçarás os bens alheios.

Bem, se a Bíblia diz uma coisa, de um jeito, e a Igreja apresenta aquela mesma coisa de um jeito diferente, então a Igreja mudou a coisa, certo? Isto é exato ou não? Se não, como e por quê? Como refutar esse argumento? É o que veremos na segunda e conclusiva parte deste estudo...

** Leia a segunda e conclusiva parte deste estudo

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1. Citado em 'The Sack of Rome', por Alexander Stille; 'A World Without Walls: Freedom, Development, Free Trade and Global Governance', por Mike Moore.

2. Leia nosso estudo específico neste link.


A absurda tese do Bispo de Caicó: 'Homossexualismo é um dom dado por Deus'?!



Por prof. dr. Ivanaldo Santos, Filósofo
– Fraternidade São Próspero


“E rogo-vos, irmãos, que noteis os que promovem dissensões e escândalos contra a doutrina que aprendestes; desviai-vos deles.”
(Romanos 16, 17)

É impossível que não venham escândalos, mas aí daquele por quem vierem!.”
(Lucas 17, 1).

Porque virá tempo em que não suportarão a sã doutrina, mas, tendo comichão nos ouvidos, amontoarão para si doutores conforme seus próprios desejos e desviarão os ouvidos da verdade, voltando às fábulas.”
(II Timóteo 4, 3-4)

INICIALMENTE, PARA EVITAR interpretações indevidas, afirma-se que não está sendo discutido um possível caráter patológico da homossexualidade e nem muito menos emitido qualquer juízo de valor sobre qualquer indivíduo que possua o comportamento homoerótico. No entanto, causou enorme repercussão negativa a homilia do bispo da Diocese de Caicó, no Rio Grande do Norte, Nordeste do Brasil, Dom Antônio Carlos Cruz Santos, que defendeu a tese de que a “homossexualidade é um dom dado por Deus”. Além dessa tese, o bispo demonstrou grande desprezo por qualquer grupo católico mais piedoso, mais fiel a doutrina e a liturgia da Igreja. Diante desta tese são apresentadas cinco breves análises: 

1) Se pela palavra “dom” entende-se o conjunto de coisas que existam no mundo e na sociedade (coisas boas e ruins, coisas éticas e antiéticas, o ser humano, os animais, etc), um conjunto que, de forma direta ou indireta, está sujeito ao princípio da onipresença divina, então é possível se dizer que a “homossexualidade é um dom dado por Deus”. Assim como é possível dizer essa frase, também é possível se afirmar qualquer outra frase. Por exemplo, por esse raciocínio é possível afirmar: “O Nazismo é um dom dado por Deus”; “O aborto é um dom dado por Deus”; “A corrupção é um dom dado por Deus”, etc.

2) Se o bispo tivesse afirmado que os “indivíduos portadores do homoerotismo ou de uma ideologia homoerótica são dons de Deus”, por mais que a frase fosse polêmica, seu conteúdo semântico, teológico, doutrinal, estaria correto. Afinal, a ênfase da graça salvífica está no indivíduo e não num grupo social ou numa ideologia.

3) Se pela palavra “dom” entende-se a estrita doutrina cristã do pecado e da salvação, então o homoerotismo é um pecado e não um dom de Deus. Isso não significa que esses indivíduos estão condenados pela eternidade, mas, assim como todos os fiéis da Igreja, precisam de arrependimento, conversão e vida espiritual.


O socialismo marcusiano

4) É preciso ver que existe uma mudança na estratégia internacional para implantar o socialismo no Brasil e em outras partes do mundo. Durante muito tempo a ênfase foi dada ao modelo de socialismo marxista (violento, que trabalha com a formação de guerrilhas, deseja controlar o Estado, a implantação de uma ditadura política, etc). Dentro do modelo do socialismo marxista existem várias frentes de lutas para a tomada do poder. Por exemplo, existem as frentes rurais com os tradicionais movimentos de reforma agrária (no Brasil é famoso o Movimento dos 'Trabalhadores' sem Terra – MST) e as frentes urbanas com as graves, insurreições urbanas e coisas semelhantes. O problema é que o socialismo marxista ou não consegue tomar o poder ou, quando atinge esse objetivo, rapidamente perde o controle do Estado. 

Dentro das esquerdas internacionais já existe o consenso que o marxismo não funciona como via de tomada do poder. Vale recordar que no Brasil, desde a década de 1970, setores da Igreja foram engajados na luta para a implantação do socialismo marxista. O novo modelo para a conquista do poder é o chamado “socialismo marcusiano”. Trata-se da proposta desenvolvida pelo teórico da Escola de Frankfurt, Herbert Marcuse. Para Marcuse a luta armada, a criação de guerrilhas e de grupos de pressão nas zonas rurais e urbanas nunca criará o socialismo. O motivo é que esses grupos seguem ou foram formados dentro da racionalidade ocidental. Por isso, o socialismo só poderá ser efetivamente implantado se foram incentivados a criação dos chamados “exércitos espontâneos”, movidos pelas “forças irracionais e inconscientes”.

Esses exércitos espontâneos, em sua essência, são compostos por viciados em drogas, pelas máfias internacionais, por grupos pró-aborto, pró-eutanásia, por membros da ideologia homoerótica e muito mais. Ao contrário do socialismo marxista (racional, estatal, etc), o socialismo marcusiano é uma mistura explosiva de orgias, descontrole social, individualismo, irresponsabilidade, etc. Não está sendo afirmado que o bispo de Caicó seja um socialismo marcusiano. Não existem elementos para se fazer tal afirmação. No entanto, o papel da Igreja, dentro do cenário internacional atual é muito mais de ser uma fundamental teológica para os grandes projetos internacionais (socialismo, globalismo, etc) do que ser a instituição promotora da evangelização e a guardiã da cultura ocidental. Em todo caso, a tese do bispo de Caicó é muito próxima do socialismo marcusiano. Será que setores da Igreja no Brasil vão ou já aderiram, de forma apaixonada, ao socialismo marcusiano?

5) Diante da tese defendida pelo bispo de Caicó é possível ter uma compressão, mesmo que parcial, da pergunta que Jesus Cristo dirigiu a Igreja: “Quando, porém, vier o Filho do homem, porventura achará fé na Terra?” (Lucas 18, 8).

Quem acompanha os bastidores e os debates em torno dos pronunciamentos dos bispos no Brasil já está (desgraçadamente) acostumado com frases desse tipo e – por incrível que parece – até mesmo de conteúdo muito pior. Esse tipo de pronunciamento é mais um capítulo da crise da sociedade contemporânea, da crise da Igreja e da crise do Ocidente. Devemos orar pela Igreja e, com isso, pedir a constante assistência do Espírito Santo. A força da oração e a vigilância doutrinária poderá trazer o ser humano e a Igreja a experimentarem dias mais alegres e mais plenos na fé.
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A importância do silêncio na liturgia e na vida pessoal do cristão


DE FATO, O SILÊNCIO é cada vez mais desprezado, não somente na vida de cada pessoa, quanto também – infelizmente – na liturgia. O texto a seguir é um apelo do Papa Bento XVI para que voltemos ao silêncio e, assim, voltemos também a Deus. Que seja útil.  


BENTO XVI, Audiência Geral – Praça de São Pedro, quarta-feira, 7 de março de 2012 

Queridos irmãos e irmãs, Numa série de catequeses precedentes falei sobre a oração de Jesus, e não gostaria de concluir esta reflexão sem meditar brevemente acerca do tema do silêncio de Jesus, tão importante na relação com Deus. 

Na Exortação Apostólica pós-sinodal Verbum Domini, fiz referência ao papel que o silêncio adquire na vida de Jesus, sobretudo no Gólgota: «Aqui vemo-nos colocados diante da “Palavra da Cruz” (cf. 1Cor 1,18). O Verbo emudece, torna-se silêncio de morte. Diante deste Silêncio da Cruz, S. Máximo, o Confessor, põe nos lábios da Mãe de Deus a seguinte expressão: «Fica sem palavras a Palavra do Pai, o qual fez todas as criaturas que falam; sem vida estão os olhos apagados daquele por cuja palavra e por cujo aceno se move tudo o que tem vida»[1]. 

A cruz de Cristo não mostra somente o silêncio de Jesus como sua última palavra ao Pai, mas revela também que Deus fala por meio do silêncio: «O silêncio de Deus, a experiência da distância do Onipotente e Pai, é etapa decisiva no caminho terreno do Filho de Deus, Palavra encarnada. Suspenso no madeiro da Cruz, o sofrimento que lhe causou tal silêncio fê-lo lamentar: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Mc 15, 34; Mt 27, 46). Avançando na obediência até ao último suspiro de vida, na obscuridade da morte, Jesus invocou o Pai. A Ele entregou-se no momento da passagem, através da morte, para a vida eterna: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23, 46)». 

A experiência de Jesus na cruz é profundamente reveladora da situação do homem que reza e do ápice da oração: depois de ter ouvido e reconhecido a Palavra de Deus, devemos medir-nos também com o silêncio de Deus, expressão importante da própria Palavra divina. A dinâmica de palavra e silêncio, que caracteriza a oração de Jesus em toda a sua existência terrena, sobretudo na cruz, diz respeito também à nossa vida de oração, em duas direções. 

A primeira é a que se refere ao acolhimento da Palavra de Deus. É necessário o silêncio interior e exterior, para que tal palavra possa ser ouvida. E este é um ponto particularmente difícil para nós, no nosso tempo. Com efeito, a nossa é uma época na qual não se favorece o recolhimento; aliás, às vezes a impressão é de que as pessoas têm medo de se separar, mesmo por um instante, do rio de palavras e de imagens que marcam e enchem os dias. Por isso, na já mencionada Exortação Verbum Domini recordei a necessidade de nos educarmos para o valor do silêncio: «Redescobrir a centralidade da Palavra de Deus na vida da Igreja significa também redescobrir o sentido do recolhimento e da tranquilidade interior. A grande tradição patrística ensina-nos que os Mistérios de Cristo estão ligados ao silêncio e só nele é que a Palavra pode encontrar morada em nós, como aconteceu em Maria, mulher inseparável da Palavra e do silêncio» (n. 66). Este princípio – que sem silêncio não se sente, não se ouve, não se recebe uma palavra – é válido sobretudo para a oração pessoal, mas também para as nossas liturgias: para facilitar uma escuta autêntica, elas devem ser também ricas de momentos de silêncio e de acolhimento não verbal. É sempre válida a observação de santo Agostinho: Verbo crescente, verba deficiunt – «Quando o Verbo de Deus cresce, as palavras do homem faltam» (cf. Sermo 288, 5: pl 38, 1307; Sermo 120, 2: pl 38, 677). 



Os Evangelhos apresentam com frequência, sobretudo nas escolhas decisivas, Jesus que se retira totalmente sozinho num lugar afastado das multidões e dos próprios discípulos para rezar no silêncio e viver a sua relação filial com Deus. O silêncio é capaz de escavar um espaço interior no nosso íntimo, para ali fazer habitar Deus, para que a sua Palavra permaneça em nós, a fim de que o amor por Ele enraíze-se na nossa mente e no nosso coração, e anime a nossa vida. Portanto, a primeira direção: voltar a aprender o silêncio, a abertura à escuta, que nos abre ao próximo, à Palavra de Deus. 

Porém, há uma segunda importante relação do silêncio com a oração. Com efeito, não há apenas o nosso silêncio para nos dispor à escuta da Palavra de Deus; muitas vezes, na nossa oração, encontramo-nos diante do silêncio de Deus, experimentamos quase um sentido de abandono, parece-nos que Deus não ouve e não responde. Mas este silêncio de Deus, como aconteceu também para Jesus, não marca a sua ausência. O cristão sabe bem que o Senhor está presente e escuta, mesmo na escuridão da dor, da rejeição e da solidão. Jesus garante aos discípulos e a cada um de nós que Deus conhece bem as nossas necessidades, em qualquer momento da nossa vida. Ele ensina aos discípulos: «Nas vossas orações, não sejais como os gentios, que usam vãs repetições, porque pensam que, por muito falarem, serão atendidos. Não façais como eles, porque o vosso Pai celeste sabe do que necessitais, antes que vós lho peçais» (Mt 6, 7-8): um coração atento, silencioso e aberto é mais importante que muitas palavras. 

Deus conhece-nos no íntimo, mais do que nós mesmos, e ama-nos: e saber isto deve ser suficiente. Na Bíblia, a experiência de Jó é particularmente significativa a este propósito. Em pouco tempo, este homem perde tudo: familiares, bens, amigos e saúde; até parece que a atitude de Deus no que se lhe refere é a do abandono, do silêncio total. E no entanto Jó, na sua relação com Deus, fala com Deus, clama a Deus; na sua oração, não obstante tudo, conserva intacta a sua fé e, no fim, descobre o valor da sua experiência e do silêncio de Deus. E assim no final, dirigindo-se ao Criador, pode concluir: «Eu tinha ouvido falar de ti, mas agora são os meus olhos que te vêem» (Jó 42, 5): todos nós conhecemos Deus quase só por ter ouvido falar dele, e quanto mais abertos permanecemos ao seu e ao nosso silêncio, tanto mais começamos a conhecê-lo realmente. 

Essa confiança extrema que se abre ao encontro profundo com Deus amadureceu no silêncio. São Francisco Xavier rezava, dizendo ao Senhor: eu amo-te, não porque podeis conceder-me o paraíso, ou condenar-me ao inferno, mas porque Vós sois o meu Deus. Amo-vos porque Vós sois Vós! Aproximando-nos da conclusão das reflexões sobre a oração de Jesus, voltam à mente alguns ensinamentos do Catecismo da Igreja Católica: «O drama da oração é-nos plenamente revelado no Verbo que se faz carne e habita entre nós. Procurar compreender a sua oração através do que as suas testemunhas nos dizem dela no Evangelho, é aproximar-nos do Santo Senhor Jesus como da sarça ardente: primeiro, contemplando-O a Ele próprio em oração; depois, escutando como Ele nos ensina a rezar para, finalmente, conhecermos como é que Ele atende a nossa oração» (n. 2.598). E como é que Jesus nos ensina a rezar? No Compêndio do Catecismo da Igreja Católica encontramos uma resposta clara: «Jesus ensina-nos a rezar, não só com a oração do Pai-Nosso» — certamente o acto central do ensinamento do modo como rezar — «mas também com a sua própria oração. Assim, para além do conteúdo, ensina-nos as disposições requeridas para uma verdadeira oração: a pureza do coração que procura o Reino e perdoa aos inimigos; a confiança audaz e filial que se estende para além do que sentimos e compreendemos; a vigilância que protege o discípulo da tentação» (n. 544). Percorrendo os Evangelhos vimos como o Senhor é, para a nossa oração, interlocutor, amigo, testemunha e mestre. Em Jesus revela-se a novidade do nosso diálogo com Deus: a oração filial, que o Pai espera dos seus filhos. E de Jesus aprendemos como a oração constante nos ajuda a interpretar a nossa vida, a fazer as nossas escolhas, a reconhecer e a acolher a nossa vocação, a descobrir os talentos que Deus nos concedeu, a cumprir diariamente a sua vontade, único caminho para realizar a nossa existência. 

Para nós, muitas vezes preocupados com a eficácia funcional e com os resultados concretos que alcançamos, a prece de Jesus indica que temos necessidade de parar, de viver momentos de intimidade com Deus, «desapegando-nos» da confusão de todos os dias, para ouvir, para ir à «raiz» que sustenta e alimenta a vida. Um dos momentos mais bonitos da oração de Jesus é precisamente quando Ele, para enfrentar doenças, dificuldades e limites dos seus interlocutores, se dirige ao seu Pai em oração e assim ensina a quantos estão ao seu redor onde é necessário procurar a fonte para ter esperança e salvação. Já recordei, como exemplo comovedor, a oração de Jesus no túmulo de Lázaro. O evangelista João narra: «Quando tiraram a pedra, Jesus, erguendo os olhos para o céu, disse: 'Pai, dou-te graças por me teres atendido. Eu já sabia que sempre me atendes, mas Eu disse isto por causa das pessoas que me rodeiam, para que venham a crer que Tu me enviaste'. Dito isto, bradou em alta voz: 'Lázaro, vem para fora!'» (Jo 11, 41-43).

Mas o ponto mais alto de profundidade na oração ao Pai, Jesus alcança-o no momento da Paixão e Morte, quando pronuncia o extremo «sim» ao desígnio de Deus e mostra como a vontade humana encontra o seu cumprimento precisamente na adesão plena à vontade divina, e não na oposição. Na oração de Jesus, no seu brado na Cruz, confluem «todas as desolações da humanidade de todos os tempos, escrava do pecado e da morte, todas as súplicas e intercessões da história da salvação... E eis que o Pai as acolhe e atende, para além de toda a esperança, ao ressuscitar o seu Filho. Assim se cumpre e se consuma o drama da oração na economia da criação e da salvação» (Catecismo da Igreja Católica §2.606). Caros irmãos e irmãs, peçamos com confiança ao Senhor para viver o caminho da nossa oração filial, aprendendo quotidianamente do Filho Unigênito que se fez homem por nós como deve ser o modo de nos dirigirmos a Deus. As palavras de são Paulo, sobre a vida cristã em geral, são válidas também para a nossa oração: «Estou convencido de que nem a morte nem a vida, nem os anjos nem os principados, nem o presente nem o futuro, nem as potestades nem a altura, nem o abismo nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em nosso Senhor Jesus Cristo» (Rm 8, 38-39).

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1. A vida de Maria, n. 89: textos marianos do primeiro milênio, 2, Roma 1989, p. 253
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Disponível em:
http://w2.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/audiences/2012/documents/hf_ben-xvi_aud_20120307.html

Acesso 8/8/017
www.ofielcatolico.com.br

Vaticano exige que Venezuela suspenda Constituinte


CIDADE DO VATICANO, 4 AGO (ANSA) – O Vaticano exigiu, nesta sexta-feira, 4/8/2017, que a Venezuela respeite os direitos humanos e suspenda a posse da Assembleia Constituinte, eleita no último domingo, 30, para escrever uma nova Constituição, como uma manobra política do presidente Nicolás Maduro. Em um comunicado emitido pela Secretaria de Estado da Santa Sé, o Vaticano pediu que “seja assegurado o pleno respeito dos direitos humanos e das liberdades fundamentais, bem como a Constituição vigente”. “Que sejam suspensas as iniciativas em curso, como a nova Constituição, para favorecer a reconciliação e a paz, e não fomentando um clima de tensão e de confronto, para que sejam criadas condições para uma solução negociada”, ressaltou.

O Vaticano também citou “o grave sofrimento do povo, em dificuldade para encontrar alimentos e remédios, e a falta de segurança” em todo o país. “O papa Francisco acompanha de perto a situação e suas implicações humanitárias, sociais, políticas, econômicas e até espirituais, assegurando suas orações pelo país e por todos os venezuelanos”, afirmou a nota. Há quase quatro meses, opositores ao regime de Maduro e a população civil saem às ruas para protestar contra o governo e a Constituinte. Mais de 110 pessoas já morreram nos confrontos.

Desde o início da crise política venezuelana, o Vaticano e o papa Francisco se colocaram à disposição para intermediar as negociações de paz. No entanto, a Santa Sé afirma que nunca foram criadas as condições para o diálogo e acusa o governo de não cumprir com o acordo. Já o Senado brasileiro aprovou a criação de uma comissão, liderada pelo ex-presidente Fernando Collor de Mello, para viajar à Venezuela e facilitar o diálogo. Amanhã (5), os chanceleres do Mercosul se reunirão para analisar a situação da Venezuela e especialistas não descartam a possibilidade de aplicação da Cláusula Democrática contra o governo de Maduro.

Prisões – A polícia venezuelana soltou o opositor Antonio Ledezma, prefeito de Caracas, e o enviou para prisão domiciliar, informaram amigos e familiares nesta sexta-feira. (ANSA)

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Fonte:
IstoÉ Mundo, disp. em:
http://istoe.com.br/vaticano-exige-que-venezuela-suspenda-constituinte/
Acesso 4/8/017
www.ofielcatolico.com.br

Sobre Sua Excelência, o bispo de Caicó, ou, Como disse, Sua Excelência?

Aí está ele. Não parece, mas é o bispo...

Por Caio Lopes

CAUSOU MUITA ESPÉCIE no meio católico a recente declaração de Dom Antônio Carlos Cruz, bispo de Caicó, no Rio Grande do Norte (foto). O prelado, durante a celebração de uma Missa, afirmou [nada mais, nada menos] que “a homossexualidade é um dom de Deus”[!]. A fala soa estranha, sem dúvida, especialmente àqueles mais habituados à religião cristã. Cumpre agora, portanto, compreender o sentido de tal assertiva – e o principal: se ela é condizente com a doutrina da Igreja a que se filia o pontífice.

O primeiro sentido possível é o de que a homossexualidade seria uma coisa boa e desejável, sendo um dom outorgado pelo próprio Deus a alguns de Sua escolha. Neste caso, os homossexuais seriam, de certa forma, mais agraciados que os indivíduos com a orientação sexual normal, isto é, heterossexual. Quanto a este sentido, fica evidente sua discordância em relação à doutrina católica. Com efeito, a Igreja, em consonância com as Escrituras Sagradas, ensina e sempre ensinou que os atos homossexuais são maus em si, intrinsecamente desordenados, não se justificando em situação alguma. Independentemente da Revelação cristã, chega-se facilmente a esta mesma conclusão, porquanto a função do ato sexual é a procriação, e a relação homossexual por certo não se presta a este fim (ou, como está na boca do povo, aparelho excretor não reproduz). Aos que negam a fé cristã e a própria ideia de razão natural, restam ainda os dados empíricos: ser homossexual faz mal à saúde, ainda que não haja contágio venéreo, pois o ato, sendo desordenado em si, prejudica os órgãos nele envolvidos.

Este primeiro sentido, ainda, faz transparecer a opção ideológica e teológica do prelado, e ela é pela [assim chamada] "'teologia' da libertação". Enxergar o homossexualismo como um "dom de Deus", outorgado por Ele a um grupo "oprimido", é colocar os homossexuais num pedestal, de tal forma que eles passam a ser o grupo que deve ser redimido – e a redenção aqui tem um sentido puramente materialista. Na nova "'teologia' da libertação", assim como na nova esquerda, não são os pobres que esperam ser libertados, mas sim as mulheres, os gays e todas as outras [supostas] minorias, adotadas como animais de estimação pelos seus “libertadores”. Percebe-se, assim, na fala do bispo, uma mudança de orientação da teologia esquerdista brasileira, que, cansada de perder os pobres para as seitas neopentecostais, procura ajustar-se ao discurso politicamente correto do século XXI, numa tentativa de atrair para si a classe média universitária, como o fez nas décadas de 1960/1980 com o discurso socialista (a falecida JUC – Juventude Universitária Católica é testemunha disso).

Mas saiamos deste nível interpretativo rasteiro. Da mesma forma que o demônio usou as Escrituras para tentar o Salvador, usemos desta frase pouco católica para promover a causa da Verdade. Eu poderia dizer, com o bispo, que a homossexualidade é de fato um dom de Deus, mas apenas aos que sabem o que fazer dela. Os grandes santos da Igreja de Cristo, como narram suas vidas, sempre viram os sofrimentos e as humilhações, as opressões e a escassez, como dádivas divinas. E por isso diziam, ecoando o Apóstolo, que se compraziam em perseguições, em fome e em nudez por causa de Cristo, por Quem lhes valia a pena perder tudo para ganhá-l’O. Se uma pessoa com tendências homossexuais busca mortificar-se, sendo continente e jamais as pondo em prática, poderá santificar-se por meio desta privação. E seu mau desejo, se plenamente submetido à Vontade de Deus, lhe será causa de maior glória, não neste mundo, mas no vindouro. Assim [e somente assim], sua homossexualidade, enquanto cruz a ser carregada, poderia ser para ele um dom de Deus, uma outra causa de privação por amor a Cristo.

Se Sua Excelência disse o que disse tendo em vista este segundo sentido, foi plenamente católica sua fala; se tendo em vista o primeiro, desconheço qual Evangelho ele prega.


* * *

Comentário do editor

Sei bem que boa parte de nossos diletos leitores terão achado o texto acima muito suave... E eu serei honesto se disser que concordo. Inflamam-se de ira santa, em nossos tempos, quantos sinceros amantes de Cristo, por fidelidade à sua Palavra?

Por outro lado, a ponderação, a argumentação equilibrada e imparcial, a honestidade e a justiça, bem como as palavras de admoestação ditas com brandura, são todas marcas distintivas de virtudes católicas, as quais não podemos renegar jamais.

Disse o Apóstolo: "Irmãos, se alguém for surpreendido em alguma falta, vós, que sois espirituais, corrigi-o com espírito de brandura" (Gl 6,1). É neste espírito que o texto publicado acima reage ao escândalo em questão. Além disso, para bom entendedor, meia palavra basta, e um tapinha dado com luva de pelica, em determinadas situações, pode ferir bem mais que um potentíssimo soco aplicado com luva de boxe.

Por outro lado, bem, é verdade que isso só funciona com aqueles que têm vergonha na cara, algo que boa parte dos adeptos e promotores da maldita ideologia herética denominada "'teologia' da libertação" definitivamente não tem. Talvez por isso é que o mesmo Apóstolo tenha dito também: "Nós vos ordenamos, irmãos, em Nome do Senhor Jesus Cristo, que vos aparteis de todo irmão que ande desordenadamente e não segundo a Tradição que de nós recebestes. (...) Caso alguém não preste obediência à nossa palavra (...), notai-o; não vos associeis com ele, para que fique envergonhado" (2Ts 3, 6.14).

Em todo caso, o texto de Caio Lopes é justo e, todo ele, plenamente verdadeiro. Outro fato inapelável é que a ponderação da parte final, ao demonstrar que em determinada situação a afirmação absurda do prelado poderia mesmo ser verdadeira, infelizmente só expõe ainda mais a tragédia e evidencia o quanto é terrível, lançando-nos em face a heresia desse bispo perdido, por tão claro e evidente que a sua pregação não se enquadra, de modo algum, naquela categoria.

Basta ouvir a sua pregação na íntegra (ouça aqui o leitor, se tiver estômago forte), na qual ele, entre outras coisas, chama homossexualismo de "homoafetividade", fala em "orientação sexual" diferente, diz que a causa do sofrimento dessas pessoas está nos "preconceitos" da sociedade e de uma certa "cultura" desumana, além de dizer que o verdadeiro Evangelho é a "inclusão". Inclusão esta que, no contexto todo da sua homilia, seria o mesmo que aceitar abertamente a prática do homossexualismo como coisa boa e (misericórdia, Senhor!) "dom de Deus". Afirma, ainda, que a "homoafetividade" pode e deve ser vivida de maneira tão digna quanto a própria heterossexualidade, e que todos nós, católicos, deveríamos, por obrigação, nos livrar dos pavorosos (insiste muito nessa palavrinha) "preconceitos". 

Assim é que eu, Henrique Sebastião, como odeio do mais fundo da alma a hipocrisia e as meias palavras, digo com todas as letras que estamos diante de (mais) um caso aberrante de bispo modernista e socialista pregando uma grave heresia em nome da Igreja de Cristo.

Se homossexualismo fosse sinônimo de "homoafetividade" (uma palavra desonesta inventada por militantes de esquerda para distorcer a realidade objetiva do mundo natural), então eu mesmo seria igualmente um homossexual, porque sou declaradamente um "homoafetivo". Ora, a palavra, por óbvio, é a junção de "homo" (do grego homos, que quer dizer 'igual'; 'o mesmo', e, no contexto em questão, refere-se à natureza sexual) mais "afeto". Pois bem, eu tenho uma relação de intensa "homoafetividade" com meus filhos homens, assim como tinha com meu falecido pai, e tenho com meu irmão de sangue e com tantos outros bons amigos e irmãos em Cristo: tive e tenho uma relação de afeto com todos estes, e são do mesmo sexo que eu.

A verdade simples, nua e crua, é que o que define aquele homem, mencionado pelo bispo na sua pregação, não é que ele tenha e/ou cultive "afeto" por outros homens, e sim que mantenha relações sexuais com outros homens. Ele é, portanto, um homossexual e não um "homoafetivo". Ponto final.

Ver um bispo (um bispo!) –, que por obrigação sagrada deveria ser um guardião da fé e da verdade –, falando em "homoafetividade", esta palavrinha desonesta inventada para distorcer a realidade objetiva, observável e demonstrável do mundo natural, é profundamente lamentável. Bem mais do que isso, é uma grande desgraça.

Dizer que denunciar as práticas homossexuais como pecado (assim como a Igreja sempre fez, em todos os tempos, e como afirmam categoricamente as Sagradas Escrituras) seria o resultado de "preconceito" e de uma "cultura" perniciosa e opressora, isso é heresia pura e simples, porque contraria uma verdade fundamental da fé.

Tudo nos leva a crer que aquilo que disse o revmo. padre Dariusz Oko, docente de Teologia na Pontifícia Academia de Cracóvia e Universidade João Paulo II, ao jornal “La Stampa” de Turim, é mesmo real: “Cava-se (hoje) na Igreja uma ‘homo-heresia’ apoiada numa ‘homo-máfia’, presente em todos os níveis da hierarquia eclesiástica”. Sim, é alarmante.

Cabe abrir parênteses para reafirmar o que deveria ser muito claro para todos: a Igreja não odeia os homossexuais. A Igreja, simplesmente, os vê como pessoas humanas que são, sem discriminá-los em razão de suas tendências ou preferências sexuais. Solidariza-se com eles e quer acolhê-los, amorosa e fraternalmente.

Ocorre que a sexualidade, na visão cristã, é sagrada. A clara complementaridade entre homem e mulher foi querida e criada por Deus, e não pode ser mudada pelo desejo humano. Por isso, a Igreja diz aos que praticam o homossexualismo que mudem a sua conduta e convertam-se ao Evangelho, e isto é o mesmíssimo que ela diz a todos os seus filhos.

A sexualidade humana, ferida pelo Pecado original, sofre com várias tendências destruidoras, como para o adultério, a pornografia que "coisifica" a pessoa humana, a masturbação, etc. Todos os cristãos, sem exceção –, tenham tendências homossexuais ou não –, são chamados a conter sua pulsão sexual desordenada e canalizá-la de forma produtiva no amor. Este, por sua vez, expressa-se tanto no celibato quanto no matrimônio aberto à vida.

A verdade pura e simples é que a Igreja, ao contrário de diversos outros setores da sociedade atual, inclusive muitos daqueles que se declaram muito "inclusivos", não discrimina os homossexuais, na medida em que prega a eles o mesmo que ensina a todos os católicos, indiscriminadamente: que o exercício da sexualidade só é possível dentro do matrimônio aberto à fecundidade, pois é esta a Vontade e o Projeto de Deus desde a Criação.

Finalizamos esta nossa abordagem com outras estarrecedoras palavras do mesmo padre Dariusz Oko, que se comporta, este sim, como legítimo pastor de almas:


Pe. Dariusz Oko
“A homo-heresia consiste numa recusa d(e parte d)o Magistério da Igreja Católica sobre a homossexualidade. Seus propugnadores não aceitam que a tendência homossexual seja uma perturbação da personalidade. E põem em dúvida que os atos homossexuais sejam contra a lei natural. Os defensores da ‘homo-heresia’ são a favor do sacerdócio dos homossexuais. A ‘homo-heresia’ é como uma versão eclesiástica do homossexualismo.

No período pós-conciliar, e especialmente a partir dos anos 70 e 80, esse grave erro se infiltrou em seminários e mosteiros do mundo todo em decorrência das ‘novas teologias’ e de seu modo de justificar os desvios morais.

O movimento modernista passou a recusar a castidade, a abstinência dos atos impuros, o celibato, e afinal aprovou que a sodomia não é obstáculo para a ordenação sacerdotal.

Em face desse erro – a Igreja já venceu inúmeros – o fato fundamental é que o Magistério da Igreja católica não muda. A homossexualidade não é conciliável com a vocação sacerdotal. Em consequência, não só está rigorosamente vedada a ordenação de homens com qualquer tipo de tendência homossexual (ainda que transitória), mas também sua admissão no seminário”.1

___________
1. Revista Cultura Família, "Sacerdote professor de Cracóvia denuncia 'homo-heresia' promovida por 'homo-máfia'", disp. em:
http://revculturalfamilia.blogspot.com.br/2015/02/sacerdote-professor-de-cracovia.html

Acesso 2/8/017
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Por que o Cardeal Sarah aterroriza seus críticos


Do 'Catholic Herald' | Tradução: Felipe Marques
[As citações e referências deste artigo, a exemplo do original em inglês, encontram-se linkadas ao longo do próprio texto, numeradas entre colchetes]

UMA MULTIDÃO CRESCENTE quer a cabeça do Cardeal Robert Sarah em um prato. Abra um periódico de católicos liberais e você está suscetível a encontrar uma chamada para a destituição do Cardeal Guineense que encabeça a Congregação para o Culto Divino do Vaticano: “Passou da hora de [o Papa Francisco] substituir o Cardeal Sarah” (Maureen Fiedler, 'National Catholic Reporter'); “Novo vinho é necessário na Congregação para o Culto Divino” (Christopher Lamb, 'o Tablet'); “Os oficiais da Cúria que recusam seguir o programa de Francisco deveriam sair. Ou o Papa deveria enviá-los para outro lugar” (Robert Mickens, 'Commonweal'); “Francisco deve adotar uma posição firme. Cardeais como Robert Sarah... devem sentir, que com um papado seguindo na direção errada, manter-se firme e fazer uma obstrução é um dever. Mas isso não quer dizer que Francisco tem que tolerá-los” (Os Editores, 'o Tablet').

Sarah nem sempre foi tratado como o homem mais perigoso na Cristandade. Quando ele foi nomeado para seu posto pelo Papa Francisco em 2014, desfrutou da afeição até mesmo daqueles que o criticam hoje. Mickens o descreveu como “não ambicioso, um bom ouvinte e, apesar de ter mostrado um lado claramente conservador desde que veio para Roma... um ‘Homem do Vaticano II’”[1]. Lamb foi informado por suas fontes que Sarah era alguém com quem os liberais poderiam lidar, o tipo de Bispo que era simpático à “inculturação”[2]. John Allen resumiu o consenso em volta do Vaticano: Sarah era um Bispo discreto, “caloroso, divertido e modesto”[3].

Tudo isso mudou a partir de 6 de outubro de 2015, terceiro dia do contencioso Sínodo da Família. Os padres do Sínodo debatiam-se em demandas aparentemente concorrentes, para alcançar as pessoas que supostamente se sentem estigmatizadas pelo ensinamento sexual da Igreja e proclamar corajosamente a verdade a um mundo hostil. Naquele que ficou conhecido como o discurso “das bestas apocalípticas”, Sarah insistiu que ambas eram possíveis: “Nós não estamos combatendo contra criaturas de carne e osso”, disse ele aos seus irmãos Bispos. “Nós precisamos ser inclusivos e acolhedores com todos os que são humanos”. Mas a Igreja deve ainda proclamar a verdade em face de dois grandes desafios, acrescentou: “Por um lado, a idolatria da liberdade Ocidental; por outro lado, o fundamentalismo Islâmico: secularismo ateu versus fanatismo religioso”[4].

Quando era um jovem sacerdote, Sarah estudou na Ecole Biblique em Jerusalém e planejou a dissertação “Isaías, capítulos 9–11, à luz das linguísticas semíticas do Noroeste: ugarítico, fenício e púnico”. Então, não é surpresa que ele tenha empregado linguagem bíblica para fazer sua argumentação. Liberdade ocidental e fundamentalismo islâmico, disse ele à assembleia, eram como duas “bestas apocalípticas”. A imagem vem do Livro do Apocalipse, que descreve como duas bestas atacariam a Igreja. A primeira sai do mar com sete cabeças, dez chifres e blasfêmia em seus lábios. A segunda sai da terra fazendo grandes prodígios, e persuade o mundo a adorar a primeira.

Essa dinâmica estranha – uma ameaça monstruosa levando o homem a abraçar outra – é o que Sarah vê agindo em nosso próprio tempo. Medo da repressão religiosa induz alguns a adorarem uma liberdade idólatra (recordo a ocasião em que vi a mim mesmo como o último homem a ficar sentado quando Ayaan Hirsi Ali terminou um discurso pedindo à audiência que desse uma ovação 'à blasfêmia'!). Por outro lado, os ataques à natureza humana são, para alguns, uma tentação para abraçar – genérica e indiscriminadamente – a causa da luta contra o fundamentalismo religioso, que tem sua mais horrível expressão sob a bandeira negra do ISIS. Cada mal tenta os que o temem a sucumbir ao mal oposto, assim como foi com o comunismo e o nazismo no século 20: deveria-se resistir a ambos.


O Arcebispo Stanislaw Gadecki (foto), líder da Conferência dos Bispos Poloneses, escreveu que a intervenção de Sarah foi feita em um “nível teológico e intelectual muito alto”, mas outros pareceram perder completamente esse sentido. O Arcebispo Mark Coleridge de Brisbane criticou o uso de “linguagem apocalíptica” (alguém pergunte o que ele faz com o restante do Apocalipse de João.) “Garotos não gostam de ser lembrados do Julgamento, ” gracejou um Cardeal depois que Sarah falou.

Um proeminente Vaticanista me escreveu de Roma: “Ele entrou hoje falando sobre as duas bestas do Apocalipse. Seu estoque papal sofreu um golpe”. Padre James Martin SJ afirmou que Sarah violou o Catecismo, “que nos pede para tratar as pessoas LGBT com ‘respeito, compaixão e sensibilidade’”[5].

As vezes alguém se pergunta se, para católicos como o Padre Martin, há quaisquer palavras nas quais o ensinamento sexual da Igreja possa ser defendido – visto que eles parecem nunca empregá-las. Entretanto, a reação ao discurso de Sarah provavelmente teve mais a ver com um simples analfabetismo do que com qualquer diferença de princípio. Cardeal Wilfred Napier de Durban disse em sua ida ao Sínodo que os europeus sofrem de uma “ignorância generalizada e rejeição não só dos ensinamentos da Igreja, mas também das Escrituras”. Ele estava certo. Aqueles que não vivem segundo as Escrituras e conhecem suas figuras apenas superficialmente são mais propensos a ver a linguagem bíblica como irrelevante ou inflamatória.

Em 14 de outubro, uma semana depois do discurso de Sarah, Cardeal Walter Kasper reclamou a respeito das intervenções africanas no Sínodo. “Eu só posso falar da Alemanha, onde a grande maioria quer uma abertura a respeito do divórcio e recasamento. É o mesmo na Grã-Bretanha; é o mesmo em todos os lugares. ” Bem, não em todos os lugares: “Com a África é impossível. Mas eles não deveriam nos dizer muito o que fazer”.

A rejeição de Kasper em relação a Sarah e os outros africanos provocou um clamor imediato. Obianuju Ekeocha, uma católica nigeriana que luta contra o aborto, escreveu: “Imagine minha surpresa hoje ao ler as palavras de um dos mais proeminentes padres sinodais... Como uma mulher africana que agora vive na Europa, eu costumo ter minhas visões morais e valores ignorados ou rebaixados à uma ‘questão africana’”[6].

Cardeal Napier concordou: “É uma preocupação real ler uma expressão como ‘Teólogo do Papa’ aplicado ao Cardeal Kasper... (Hoje há uma grande preocupação com relação ao respeito humano, mas) Kasper não é muito respeitoso em relação à Igreja Africana e seus líderes”[7].

A colocação de Kasper foi como o romper de uma barragem. Desde então, uma grande onda de insultos tem sido derramada sobre Sarah. Seus críticos o descreveram como insolente, mal-educado e possivelmente criminoso – ou que pelo menos precisa de uma boa surra.

Michael Sean Winters do National Catholic Reporter lembrou Sarah de seu papel ('Cardeais da Cúria são, afinal de contas, funcionários, funcionários exaltados, mas funcionários')[8]. O padre William Grim, do 'La Croix', chamou seu trabalho de “asinino... patentemente estúpido... idiotice de capa vermelha”[9]. Andrea Grillo, um liturgista italiano liberal, escreveu: “Sarah tem mostrado, por anos, uma significativa inadequação e incompetência no campo da liturgia”[10].

No Tablet, Padre Anthony Ruff corrigiu Sarah. “Seria bom se ele estudasse as reformas mais profundamente e entendesse, por exemplo, o que ‘mistério’ significa na teologia católica”[11]. Massimo Faggioli, um vaticanista que assombra as gelaterias de Roma, inocentemente observou que o "discurso das bestas apocalípticas" de Sarah “teria sido sujeito a acusações criminais em alguns países”[12]. (Tendo ministrado por anos sob a brutal ditadura marxista de Sékou Touré, Sarah dificilmente precisa de lembretes de que a profissão aberta da crença cristã pode ser um crime).

Depois que o Papa Francisco rejeitou o chamado de Sarah para que os padres celebrassem a missa ad orientem, o desprezo por Sarah estourou em um chuveiro de golpes: “É altamente incomum para o Vaticano ter que abafar publicamente um Príncipe da Igreja, ainda que não seja de todo surpreendente dado o modo como o Cardeal Sarah tem operado...” (Christopher Lamb, Tablet)[13]; “o Papa abafou o Cardeal Sarah de modo bastante forte, com apenas um pouco de sua honra sendo poupada, ” (Anthony Ruff, 'Pray Tell')[14]; “Papa abafa Sarah” (Robert Mickens, no Twitter)[15]; “Papa Francisco... o abafou” (Mickens de novo, em Commonweal)[16]; “mais uma bofetada” (Mickens mais uma vez, poucos meses depois em 'La Croix')[17]. Somando tudo isso, temos uma grande surra.

Trocar acusações de insensibilidade provavelmente não é o melhor modo de resolver disputas doutrinais, mas a retórica dos críticos de Sarah revela algo importante sobre a vida da Igreja de hoje: em disputas doutrinais, morais e litúrgicas, os liberais católicos têm se tornado eclesiais nacionalistas. Católicos tradicionais tendem a apoiar padrões doutrinais consistentes e aproximações pastorais independentemente das fronteiras nacionais. Se eles geralmente não preferem a Missa em latim, eles querem traduções vernáculas que fiquem o mais próximo possível do latim. Eles não estão escandalizados pelo modo como os africanos falam de homossexualidade ou dos cristãos do Oriente Médio ou do islamismo.

Católicos liberais, enquanto isso, fazem campanha pela tradução vernácula escrita em estilo idiomático e aprovadas pelas conferências nacionais dos bispos, não por Roma. As realidades locais exigem que a verdade seja aparada sempre que excede um limite. Afirmações doutrinais católicas devem ser formuladas em linguagem pastoralmente sensível – sensível, isto é, à sensibilidade do Ocidente educado e rico (que quase nunca concorda com o que os outros povos realmente desejam ou precisam).

Um dos efeitos do nacionalismo eclesial é que ele permite aos liberais que evitem discutir em terrenos diretamente doutrinais, onde os “rigoristas” tradicionais tendem a ter a uma mão superior. Se a Verdade precisa ser mediada por realidades locais, nenhum homem em Roma ou Abuja terá muito a dizer a respeito da fé em Bruxelas e Stuttgart (esse era o ponto por trás da rejeição de Kasper aos africanos).

Vê-se isso em escritores como Rita Ferrone do Commonweal, que disse que em vez de atender Sarah, as pessoas que falam inglês deviam estar “confiando em nosso próprio povo e em nossa própria sabedoria no que diz respeito à oração em nossa língua nativa”[18]. O “nós” por trás do “nosso” não é global e católico, mas burguês e americano.

E se em vez de ser colocado de volta em seu lugar, abafado e trancado por violar os códigos de discurso ocidentais, Sarah se tornar papa? Isso é o que os seus críticos mais temem. Mickens escreve da possibilidade negra de um “Pio XIII (também conhecido como Robert Sarah)”[19]. Lamb diz que Sarah pode vir a ser “o primeiro Papa negro” (isso deveria ser algo bonito – os pais de Sarah, conversos na remota vila guineense de Ourous, pensavam que só homens brancos poderiam se tornar padres e riram quando seu filho disse que queria ir para o seminário). O mesmo vaticanista bem conectado que me disse que o cacife de Sarah caiu durante o sínodo agora diz que sua sorte estão melhorando: “As pessoas notaram todos os ataques, e sua graciosa recusa em respondê-los na mesma moeda”.

É de fato extraordinário que Sarah venha sofrido essa saraivada de insultos com tal graça. Em seu mais novo livro publicado, "A força do Silêncio"[20], nós ouvimos o seu choro de angústia sufocado:

“Eu sofria dolorosamente o assassinato por fofoca, calúnia e humilhação pública, e eu aprendi que, quando uma pessoa decidiu te destruir, não lhe faltam palavras, rancor e hipocrisia; a falsidade tem uma capacidade imensa construir argumentos, provas e verdades de areia. Quando esse é o comportamento dos homens da Igreja, e em particular de Bispos, a dor é ainda mais profunda. Mas... nós precisamos nos manter calmos e em silêncio, pedindo a graça para nunca cedermos ao rancor, ao ódio e aos sentimentos de inutilidade. Vamos ficar firmes em nosso amor por Deus e pela Sua Igreja, com humildade.”

Apesar de tudo isso, Sarah não é um homem abatido. Seu livro reitera seu chamado para a Missa ad orientem e ao restante da “reforma da reforma”: “Se Deus quiser –, quando quiser e como quiser –, a reforma da reforma terá seu lugar na liturgia. Apesar do ranger de dentes, isso acontecerá, pois, o futuro da Igreja está em jogo”.

Se Sarah se recusou a fazer a si mesmo agradável àqueles que governam Roma, ele também não está disposto a servir nenhum outro partido. Nesse livro maravilhosamente individual, ele diz velhos contos islâmicos, admira os fracos e sofredores e denuncia a intervenção militar: “Como podemos não ficar escandalizados e horrorizados com a ação dos governos americano e ocidental no Iraque, Líbia, Afeganistão e Síria?” Sarah vê estes como derramamentos idólatras de sangue “em nome da deusa Democracia” e “em nome da Liberdade, outra deusa Ocidental”. Ele se opõe ao esforço para construir “uma religião sem fronteiras e uma nova ética global”.

Se isso parece exagerado, lembre-se de que seis dias depois dos mísseis atingirem Bagdá, Tony Blair enviou um memorando a George W. Bush dizendo: “Nossa ambição é grande: construir uma agenda global em torno da qual nós poderemos unir o mundo... espalhar nossos valores de liberdade, democracia, tolerância”[21]. Sarah vê esse programa como algo próximo à blasfêmia.

Ele tem pontos de vista igualmente pungentes sobre a economia moderna: “A Igreja cometeria um erro fatal se ela se exaustasse tentando dar uma espécie de rosto social ao mundo moderno que foi desencadeado pelo capitalismo de livre mercado”..

Guerra, perseguição, exploração: todas essas forças são parte de uma “ditadura do barulho”, cujos slogans incessantes distraem os homens e desacredita a Igreja. A fim de resistir a isso, Sarah volta-se ao exemplo de Ir. Vincent, um jovem recentemente falecido que era muito querido por Sarah. Somente se amarmos e rezarmos como Vincent poderemos ouvir la musica callada, a música silenciosa que os anjos tocaram para João da Cruz. Sim, esse livro mostra que Sarah tem algo ótimo a dizer: sobre a vida mística, a Igreja e assuntos mundiais. Mas na maior parte ele se mantém em silêncio – enquanto o mundo fala sobre ele.

___
Fonte:
Why Cardinal Sarah terrifies his critics, por by Matthew Schmitz, disp. em:

http://catholicherald.co.uk/issues/june-23rd-2017/why-cardinal-sarah-terrifies-his-critics/
Acesso 29/7/017
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Lançamentos católicos indicados

A EDITORA MOLOKAI está relançando duas grandes obras do bem-aventurado arcebispo Fulton Sheen, que não deveriam faltar na estante de todo fiel católico que se interessa em compreender mais profundamente as verdades fundamentais da Igreja.



Uma destas obras é o livro “A Paz da Alma” (‘Peace of soul’), que traz uma análise bastante aprofundada da Psicologia e em especial da psicanálise (vista por muitos como panaceia para todos os males da mente), e aponta um caminho seguro àqueles que buscam a paz e a plenitude num mundo dominado pela degradação moral e o predomínio das ideologias materialistas.

Aos que vivem atormentados por conflitos internos e frustrações, o livro indica o caminho de saída por meio da transferência de todas as angústias humanas para os domínios da alma; dos desejos egoístas para a vida imortal que nos aguarda na eternidade. A obra trata de remorso, culpa, morbidez, ansiedade, frustração e outros assuntos que atormentam a alma humana desde sempre. Defende, com admirável propriedade e conhecimento de causa (Sheen estudou Freud por anos), que existem muitos casos de pacientes procurando ajuda em consultórios médicos que seriam solucionados definitivamente no confessionário.



A outra obra é “O Calvário e a Missa”  (‘Calvary and the Mass’), uma verdadeira ode à Santa Missa e seus efeitos, na qual, partindo de uma profunda espiritualidade e amor incondicional a Deus, o autor propõe meditações a partir das diversas partes da Celebração em sua relação com as “Sete Palavras” de Cristo na Cruz. Com eloquência, paixão e racionalidade, conclama-nos a tomar nossa parte na Celebração Eucarística, prenúncio do Banquete da vida eterna. Um livro para apaixonados por Jesus e sua Igreja.

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[Ambos os livros têm capa, projeto gráfico e revisão de Henrique Sebastião, diretor deste apostolado e da Fraternidade São Próspero, e atual editor-chefe da editora Molokai]
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Cardeal Sturla: o direito de educar os filhos pertence aos pais


Por Bárbara Bustamante

ARCEBISPO DE MONTEVIDÉU, Uruguai, Cardeal Daniel Sturla, defendeu a liberdade de ensino no país e destacou que, “para a Igreja, a educação é um meio para a formação do homem em plenitude”.

“O que a Igreja proclama há muitos anos neste país é que apliquemos o direito dos pais de escolher a educação que querem para seus filhos”, disse o Cardeal no 21 de julho (2017) no programa ‘El aporte de la Iglesia Católica’, da Rádio Oriental.

O Arcebispo recordou que o artigo 68 da Constituição assinala que “fica garantida a liberdade de ensino” e que a intervenção do Estado só está regulamentada com o “objetivo de manter a higiene, a moralidade, a segurança e a ordem pública”.

“Todo pai ou responsável tem o direito de escolher, para o ensino de seus filhos ou pupilos, os mestres e instituições que desejam”, estabelece a lei.

Sturla sublinhou que esse direito “suporia, em um país democrático e plural, dar aos pais que têm dificuldade econômica a possibilidade de também poder escolher, do mesmo modo que fazem os pais que têm meios suficientes”.

Do mesmo modo, mencionou que a Igreja “está de acordo com o que diz a lei geral de educação”, que coloca como finalidade última “o pleno desenvolvimento físico, psíquico, ético, intelectual e social de todas as pessoas, sem discriminação alguma (...) Isso é o mesmo que a Igreja propõe quando fala em formar um homem livre, responsável, protagonista de sua história, capaz intelectualmente, comprometido com a sociedade em que vive”, sustentou.

Por último, o Cardeal recordou que “a Igreja não se dedica apenas a obras de educação formal (escolas, universidades), mas tem uma variedade de obras de educação não formal”.

“Isso é uma realidade que nos enche de alegria, porque fala de colocar no centro a criança”, sublinhou o Cardeal Sturla, que concluiu sua reflexão com um chamado a proporcionar a “colaboração público-privada” e a “colaboração sociedade civil-estado”.

Segundo informa o Arcebispo de Montevidéu, os centros de educação formal vinculados à Igreja Católica atendem ao menos 53.869 alunos, 10% da população no sistema educacional no país.

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Fonte:
ACI Digital, disp. em:
http://acidigital.com/noticias/cardeal-sturla-apliquemos-o-direito-dos-pais-de-escolher-a-educacao-para-seus-filhos-64217/
Acesso 27/7/017
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