O pecado da ira

EM CONTINUIDADE à nossa série de artigos sobre os pecados capitais, passamos agora ao estudo do pecado da inveja...



Cada um de nós, seres humanos, por nossos próprios méritos, estaríamos irremediavelmente perdidos: todos pecamos e precisamos da Graça de Deus, embora muitos ainda não o reconheçam; – é este o seu maior problema.

Na árvore do pecado, a ira é um galho grande. – Por isso é um dos pecados capitais. – A ira está ligada ao orgulho, que é a rejeição da Soberania de Deus sobre a nossa vontade.

O pecado da ira, na maioria das vezes, é um sentimento de contrariedade por alguma vontade não satisfeita. Vemos que até as crianças, mesmo pequenas, já expressam seu descontentamento quando são contrariadas: batem raivosamente os pés, choram, gritam... Hoje é até comum, horror dos horrores, crianças desferindo socos e chutes nos seus pais.

Deus nos criou dotados de sentimentos, que são indispensáveis para a vida, mas quando a ira é alimentada por nossa livre decisão, seja consciente ou não, aí ela resulta em gestos concretos que fatalmente levarão à dor e ao sofrimento. Gestos dos quais nos arrependeremos depois, quando poderá ser tarde demais. Quando alimentada, a ira leva a uma fúria doentia que precisa se manifestar de algum modo, e então acaba resultando em desrespeito, agressão verbal e/ou física, que pode resultar em crimes graves; no caso mais extremo, o assassinato.

A ira, portanto, está ligada mais ao agir do que ao sentir, simplesmente. Normalmente são as pessoas mais ativas e cheias de desejos que mais sofrem com a ira. São conhecidas como “pavio curto” ou de "gênio forte". Algumas são até admiradas por serem “francas” e “sinceras”: não levam desaforo para casa. Mas a sinceridade não precisa, – e não deve, – vir acompanhada da ira. Se você alimentar a ira, deixar-se tomar pelo ódio e pelo desejo de vingança, será capaz de cometer atrocidades que nem poderia imaginar.

O Livro do Eclesiastes (7,9) condena os que são rápidos em alimentar a ira, que se esconde no mais íntimo da alma humana. Escrevendo aos efésios, São Paulo Apóstolo diz que a “ira breve” faz parte da natureza humana, mas deve ser tratada imediatamente: “Irai-vos, e não pequeis; não se ponha o sol sobre a vossa ira” (Ef 4,26). Paulo está citando o Salmo 4: “Irai-vos e não pequeis; consultai no travesseiro o vosso coração, e sossegai.” (Sl 4,4). Davi escreveu esse salmo quando seu filho Absalão liderava um motim para tomar-lhe o reino. O salmo é um pedido de ajuda a Deus diante dessa terrível situação e também um apelo aos homens, para que refletissem sobre o problema em vez de se entregarem à ira.

Não deem espaço para a ira além do necessário, adverte São Paulo. Não deixem a raiva se acumular para o dia seguinte, e o seguinte a este, e o outro… Ainda na mesma noite do desentendimento, da sua indignação, da sua dor, você deve entregar o problema aos Pés do Senhor, e assim procurar perdoar, lembrando-se que também é falho, que também comete erros, que dá motivos para que o outro se ofenda. Procurando a serenidade em Cristo, encontrará sossego. “Em paz me deito e logo pego no sono, porque, SENHOR, só Vós me fazeis repousar seguro.” (Salmo 4, 8)

Nosso Senhor Jesus foi ao centro da questão e revelou a essência do Mandamento da Lei que diz “não matarás”, quando disse:

Ouviste o que foi dito aos antigos: não matarás; e quem matar estará sujeito a julgamento. Eu porém vos digo: todo aquele que se irar contra seu irmão estará sujeito a julgamento; quem proferir um insulto a seu irmão estará sujeito a julgamento do Tribunal; e quem lhe chamar: 'tolo', estará sujeito ao inferno de fogo. Quando estiveres levando a tua oferta para o altar, e ali te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa a tua oferta ali diante do altar, e vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão. Só então apresenta a tua oferta. Deixa ali diante do altar a tua oferta, e vai reconciliar-te primeiro com teu irmão e, depois, vem e apresenta a tua oferta." (Mt 5, 24)

A Lei fala do fruto mais extremo da ira: não matarás! Quem evita a ira, por certo não corre o risco de chegar ao extremo de tirar a vida de alguém. Jesus muda a perspectiva. O desrespeito pela vida, que leva alguém a matar, nasce na ira, perde o controle em quem a consente e passa dos insultos verbais e físicos para as últimas consequências, que arruinarão a vida de muitos, especialmente de quem comete o ato impensado.



Vencendo a ira

Como lidar com a ira à luz do Evangelho? Qual a saída para um coração irado? Jesus nos apresentou duas bem-aventuranças que tornam felizes aqueles que lutam contra a ira: "Felizes os mansos" e "Felizes os pacificadores".

Muitos confundem mansidão com fraqueza. Promover a paz e demonstrar espírito manso seriam marcas dos perdedores? Não. Verdadeiramente, a mansidão e a paz são os maiores sinais de força e domínio próprio que um ser humano é capaz de manifestar. Ser manso não é ser fraco, mas abrir mão de usar a força. Ser manso é ser maior do que a ira.

A ira é como qualquer emoção: aparece de maneira involuntária. Você não "decide" que vai se irar. No entanto, ao sentir a ira, se perceber que é porque uma vontade sua foi contrariada, aí sim poderá tomar o controle sobre si mesmo e sobre a situação, e decidir como reagir a esse sentimento negativo.

Mansidão não é sinônimo de passividade, mas está diretamente relacionada à humildade. Os mansos e pacificadores nada têm a ver com os passivos. Moisés foi um dos maiores líderes da história, e era conhecido como o mais manso e humilde dos homens do seu tempo (Nm 12,3).

A mansidão não sente necessidade de injuriar os outros. Não possui sentimentos de inferioridade, nem de impotência, e por isso os mansos não precisam lutar por reconhecimento. Submetem suas contrariedades a Deus, que domina o Universo, e logo descansam. Desenvolver um espírito manso é confiar na Promessa de Jesus de que os mansos herdarão a Terra. O Senhor nos convida a aprender a mansidão com Ele, o Cristo de Deus, que foi o exemplo máximo de mansidão; pois, sendo Deus Todo Poderoso, abriu mão de todo Poder e Glória submetendo-se à Vontade do Pai por Amor a cada um de nós. Senhor Jesus Cristo, Filho do Deus Vivo, tende piedade de nós, que somos pecadores!

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Ref. bibliográfica:
BURNS, John E. Recuperando - se com os Sete Pecados Capitais São Paulo: Loyola, 2004
www.ofielcatolico.com.br

Um comentário:

  1. Gostei muito desse post e concordo plenamente com essa mensagem porque esta fundamentada na palavra de Deus. É como disse Jesus: felizes são os mansos porque herdarão a terra. Felizes os que constroem a paz porque serão chamados filhos de Deus.

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