Manual da Vida - 1

Da fé essencial


É VERDADEIRAMENTE SUMAMENTE importante o poder de abstração na vida de fé de todo ser humano.

Abstração é a capacidade de abstrair, ou seja, de ver (entender) uma coisa sem prestar atenção apenas naquilo que se está propriamente vendo, mas também, e principalmente, no que não se está vendo*.

Quando você lê um livro, um texto de jornal ou qualquer outra coisa, não deve ler acreditando que a primeira impressão ou a imagem mental que se constrói a partir da primeira leitura é a coisa em si, ou é o aprendizado definitivo a respeito da coisa, mas, sim, deve ler sabendo que o autor está tentando transmitir uma ideia ou conceito que, evidentemente, parte dele próprio; pois o autor escreveu de uma forma que somente ele seria capaz de fazer, já que somente ele seria plenamente capaz de ter aquelas exatas percepções, naquele momento em que escreveu.

Por exemplo radical e no contexto daquilo que nos interessa, quando alguém efetua uma leitura da Bíblia Sagrada desvinculada das origens e contextos desses escritos, poderá encontrar ali o que bem entender. Pois a Bíblia é um livro repleto de parábolas, analogias, metáforas e comparações, que trazem em seu âmago fundamentais e poderosos ensinamentos. A interpretação de tais histórias pode ou não ser aquela que os autores sagrados desejaram quando a produziram –, muito possivelmente nem eles próprios conheciam exatamente o sentido (ou todos os sentidos) completo e/ou mais profundo de tudo quanto escreviam quando escreviam –, assim como não poderia mesmo ser, visto que quem está lendo possui, entre outras coisas, uma cultura, um histórico de vida, uma formação, um caráter, uma capacidade intelectual e espiritual e um modo de vida totalmente diferente do daquele ou daqueles que escreveram.

Parece incrível, mas muitos perdem a fé simplesmente porque chegam a um ponto da vida em que não podem mais acreditar, como um dia acreditaram piamente, em um ancião de longas barbas brancas vestindo um camisolão e assentado sobre nuvens, governando nossas vidas a partir de um "céu" de mentira. Ora, foi essa a primeira compreensão que tiveram de Deus em sua infância e juventude, nas aulas de catecismo ou pelas explicações de seus pais, ou nos primeiros livrinhos religiosos que leram, etc.

É claro que a partir de determinada idade e consciência as velhas fábulas já não mais nos servirão – nem nos consolarão, satisfarão ou serão capazes de aquietar a nossa ânsia por respostas. É preciso evoluir, crescer em consciência. É aí que se faz necessária uma maior capacidade de abstração das coisas.

No dizer de Dom Eugene Boylan[1],

No conhecimento humano, podemos distinguir um entendimento que conhece, um objeto conhecido e uma ideia que representa, na mente, o objeto conhecido. Existe, naturalmente, grande diferença entre a ideia e o objeto a que ela corresponde. [Apenas] No conhecimento divino encontramos a sua perfeição. Deus conhece-se a Si mesmo, e seu conhecimento é tão perfeito que corresponde exatamente ao objeto conhecido. A Ideia, ou o “Verbo”, como diz S. João, que Deus tem de Si mesmo é tão perfeita que é o próprio Deus: a segunda Pessoa da Santíssima Trindade. “E o Verbo era Deus”. Não há “dois deuses”, mas há duas Pessoas, o Conhecedor e o Conhecimento: o Pai e o Filho. E estes Dois são Um só Deus. Mas em Deus existe Vontade e também Entendimento, e Deus se ama de acordo com o seu Conhecimento. E o Amor mútuo do Pai e do Filho é tão perfeito que esse Amor é também uma Pessoa: a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, a quem chamamos Espírito Santo. E estes Três são Um só Deus. [2]

Resulta daí que a capacidade de abstração assume grande importância para a perseverança na fé, especialmente àqueles dotados de maior acurácia mental/intelectual. Sim, as pessoas inteligentes chegam a um estágio da vida em que já não podem mais crer no Deus da sua infância, aquele que imaginavam quando suas vovós liam para eles os reconfortantes textos dos antigos (e preciosos) catecismos infantis ilustrados. Olhavam muitas vezes as figuras daqueles livrinhos e entendiam/imaginavam literalmente um ser humano gigantesco e com poderes especiais pairando entre nuvens, rodeado de criancinhas com asas. Também estremeciam por dentro, com medo daquele misterioso olho dentro de um triângulo observando cada desobediência, cada peraltice das crianças (‘Não faça nada às escondidas porque Deus vê tudo')...

Apesar de a definição de Deus do livrinho permanecer perfeita e irretocável (ainda que talvez incompreendida na época da sua leitura: ‘Deus é Espírito Perfeitíssimo, Eterno, Criador do Céu e da Terra’), as crianças agora cresceram e se veem postas diante de muitas e grandes dificuldades (algumas realmente grandes, como o problema do mal) e imersos na profunda angústia da dúvida que insiste em voltar de tempos em tempos.

O mesmo, por óbvio, vai acontecer na adolescência, na juventude e no seu desenrolar para a idade adulta, e também nas sucessivas fases desse último estágio. E será assim sempre. É sempre preciso avançar além.

* * *

* Para entender melhor

O pensamento é a atividade mental através da qual elaboramos as nossas ideias. Ideias essas que nos permitem resolver problemas, tomar decisões ou formar opinião sobre tudo. Mas não há uma única maneira de criar nossos pensamentos: há o pensamento indutivo, o dedutivo, o analítico, o criativo.

Por outro lado, abstrair significa tirar algo de alguma coisa, isto é, separar algo de algum elemento ou observar um ou mais elementos de um todo avaliando suas características e propriedades em separado. Em outras palavras, dizendo a grosso modo, o ato de abstrair em nossa mente quer dizer botar algum pensamento de lado para elaborar e considerar outro pensamento sobre um mesmo objeto ou tema. É dessa maneira que, por exemplo, a partir da observação de vários objetos de forma semelhante à de um limão ou de uma bolha, podemos abstrair ou formar a ideia da forma esférica. Do mesmo modo, de vários elementos verdes, como as plantas e as águas lodosas, abstraímos o conceito da cor verde. Mais além, a partir do comportamento e dos modos generosos de algumas pessoas que conhecemos, abstraímos a ideia da própria generosidade.

O processo mental das nossas ideias concretas é a ideia fundamental do pensamento abstrato. Esse processo tem sido analisado a partir de duas perspectivas: a filosófica e a psicológica.

Filósofos como Platão e Aristóteles refletiram sobre o pensamento abstrato. Platão mostrou que a matemática está baseada nesse tipo de pensamento, já que os conceitos matemáticos são elaborações do intelecto obtidas pela própria mente sem necessidade de experiência (as verdades matemáticas não exigem demonstração empírica).

As reflexões sobre a natureza do pensamento abstrato continuaram com as abordagens empiristas (a abstração está baseada na observação da realidade) ou com as abordagens racionalistas (a capacidade de abstração é uma faculdade mental independente da experiência).

Do ponto de vista da psicologia, o pensamento abstrato é o resultado da evolução mental dos indivíduos. É a partir da idade aproximada dos 11 anos que os seres humanos passam a lidar com um pensamento ou raciocínio abstrato. Algumas correntes da psicologia acreditam que a chave do pensamento abstrato está no papel da linguagem, outras argumentam que o elemento fundamental é a atividade neural.

Além das teorias filosóficas ou psicológicas, o conhecimento do pensamento abstrato está relacionado com questões bem específicas. Assim, através de determinadas provas ou testes psicométricos é possível determinar se uma criança desenvolveu o raciocínio abstrato ou se precisa de algum tipo de reforço.

Os exercícios de raciocínio abstrato são usados também para ativar a mente em caso de acidentes vasculares cerebrais ou para retardar o declínio mental. O pensamento abstrato está presente em todo tipo de situação. Por exemplo, quando calculamos mentalmente um desconto; quando queremos dar a definição de algo ou quando tentamos resolver um jogo de palavras cruzadas.

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1. Eugene Boylan (1904 - 1964) foi um cientista nuclear que abandonou uma promissora carreira para se tornar monge trapista. Abade de mosteiros da sua ordem no Reino Unido, na Austrália e na sua Irlanda natal, baseou-se em sua larga experiência como diretor espiritual e confessor para escrever duas obras-primas da espiritualidade, que viriam a ser publicadas em diversos idiomas: Dificuldades da oração mental (Difficulties in mental prayer)  e Amor Sublime (This tremendous Lover). Em ambas, está presente a procupação de falar a um público o mais abrangente possível e de simplificar os assuntos aparentemente mais nebulosos, numa espécie de direção espiritual à distância bastante didática e muito útil aos católicos.

2. BOYLAN, Eugene. This Tremendous Lover, Cork City: The Mercier Press, 1955, capítulo V.
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Fontes:
• Conceitos.Com, verbete Pensamento Abstrato

• MORAES, Alfredo de Oliveira. A metafísica do conceito, Porto Alegre: EDIPUCRS/UNICAP, 2003.

4 comentários:

  1. Após ler a explicação de Dom Eugene Boylan sobre a santíssima trindade fiquei com as seguintes dúvidas:

    - O que exatamente é o mistério da Santíssima Trindade?

    - Seria a explicação de Dom Eugene Boylan a solução desse mistério? Acredito que não, mas não exatamente qual questão sobra após essa explicação. Grato

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    1. Não entendi bem a sua pergunta, Leonardo. O tema da Santíssima Trindade (Mistério Trinitário) é dos mais complexos da Teologia. Certamente este parágrafo de D. Boylan não o soluciona, nem de longe.

      O Doutor e Pai da Igreja Santo Agostinho levou 16 anos para produzir o seu "monumento" teológico/filosófico De Trinitate, e depois de completá-lo reconheceu os limites da capacidade humana perante Mistério tão insondável, exortando seus leitores a procurar novos esclarecimentos.

      Sugiro a leitura desta obra magna, que você já consegue achar para download gratuito, pesquisando bem na internet. Vou deixar um endereço abaixo, porque só comete crime quem disponibiliza uma obra com direitos reservados, e não quem consome o que foi disponibilizado, já que cópia de livro para uso pessoal não é crime:

      https://drive.google.com/file/d/1fCbg3cr3n7UNwMbBjqXqNDm-lrPUQ3jU/view

      A Paz de Nosso Senhor Jesus Cristo

      Apostolado Fiel Católico

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  2. Muito bom. Espero ansiosamente pelo "Manual da Vida-2".

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    1. Agradeço de coração pelo incentivo, Samuel. Pretendo escrever essa continuação hoje mesmo. Forte abraço e conte com nossas orações.
      A Paz de Nosso Senhor Jesus Cristo

      Apostolado Fiel Católico

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