Manual da vida - 2


NA PRIMEIRA PARTE desta série tratamos sobre a importância do poder de abstração para todo sincero buscador de Deus e da Verdade – e quem busca a Verdade, realmente está a buscar por Deus. 

Essa é uma questão muito importante porque a inteligência humana simplesmente não é capaz de abarcar a lógica divina, e por isso diz o Apóstolo que a inteligência dos homens é loucura para Deus (1Cor 3,19), e que a Sabedoria que vem do Espírito de Deus é loucura para os homens, pois eles não são capazes de entendê-las – "porque ela só pode ser discernida espiritualmente" (1Cor 2,14).

Um exemplo prático e bastante simples é o dos ateus que costumam fazer piadas com relação à fé cristã no Amor de Deus pelos seres humanos, quando há tanto sofrimento no mundo. São hábeis em citar casos de injustiças e sofrimentos escabrosos; mostram-nos fotos de guerras e grandes morticínios e berram: "Se Deus nos ama, porque permite tal coisa?".

Ora, mas ao que crê com fé realmente sólida, tais coisas não podem abalar minimamente, por um motivo bastante óbvio: ele crê no eterno e no que está além desta vida. Massacres e mortes em massa só escandalizam os ateus por uma única e exclusiva razão: eles não têm fé no transcendente. Se tivessem, entenderiam que a morte e a finitude pode ser uma benção, já que morrer pode ser o nascer para uma nova vida, eterna e muitíssimo mais feliz do que a que vivemos aqui e agora.

Claro que para o materialista, que cultiva carinhosamente a sua irracional em uma seita que afirma – veementemente – que tudo o que existe é o mundo natural, e que toda vida se limita à passagem por este mesmo mundo, morrer é quase sempre o pior mal que se possa conceber. Mas para os que partem de uma visão transcendente das coisas, isso não é problema, muito pelo contrário! Não é fato que Santa Teresinha, ainda criança, desejava abertamente a morte da própria mãe, porque possuía a mais perfeita fé de que esta ganharia o Céu? Em seus escritos, diz sua mãe, Zélia Martin, que a menina lhe confessava: "´Como eu gostaria que morresses, minha pobre mãezinha!´... Censuram-na e ela responde: ´Mas é para ires para o Céu! Não precisamos morrer para ir para lá?´. E em seus excessos de amor, deseja também a morte de seu pai”[1].

Sim. A sabedoria do Alto é loucura para o mundo.

Mas a fé isolada da razão também pode não ser coisa saudável. Porque o homem, enquanto ser racional, norteia-se desde sempre pela razão; é esta, exatamente, que nos separa e diferencia dos animais. Isso quer dizer que não é possível ao homem viver, ao menos não de modo equilibrado e saudável, baseado somente na fé. Esta precisa estar em harmonia com a sua razão, em algum nível.

O ser humano raciocina. E foi por meio do raciocínio que percebeu que é impossível chegar às verdades mais elevadas por conta própria, mas apenas com o auxílio de uma autoridade maior do que ele, anterior a ele próprio. O que significa isso? Que a fé, sem a razão, pode se tornar cega, manca, fechada em si, intolerante; e que a razão, sem abertura à transcendência, não tem sentido, é autolimitante.

O cristianismo acolhe a fé, dando lugar à descoberta do “Deus que é Razão criadora e ao mesmo tempo Razão-amor”[2]. Há uma relação, uma ligação, uma associação e uma união entre Razão, Verdade e Bem, que não pode ser desfeita. "A razão, sem a fé, enlouquece", como disse um dia o padre Paulo Ricardo de Azevedo Jr.

Bento XVI insistiu, com grande ênfase em muitos de seus pronunciamentos oficiais, quanto à relação entre a fé e a razão, tentando desesperadamente demonstrar, a um mundo que caminha a passos cada vez mais largos para o abismo do materialismo, que ambas são compatíveis e, muito além disso, como são necessárias uma à outra:

A fé consolida, integra e ilumina o patrimônio da verdade que a razão humana adquire. A confiança que Sto. Tomás concede a estes dois instrumentos do conhecimento – a fé e a razão – pode ser reconduzida à convicção de que ambas derivam da única nascente de toda a verdade, o Logos divino que age tanto no âmbito da criação como no contexto da redenção.[3]

Na sociedade contemporânea vemos abundantes ações que são frutos de estratégias pensadas para quebrar essa união inextricável dos dois modos de conhecimento da verdade, mas realmente não existe opção entre um caminho da razão ou um outro, antagônico, da fé. É impossível viver bem sem as duas, ainda que alguns absurdamente imaginem que seria preciso empreender esforços para conciliar fé e razão. Ao contrário, para tentar separar as duas é que seria preciso empreender esforços. Titânicos esforços.

De fato, alguém  que pretenda buscar a verdade fazendo uso apenas e exclusivamente da fé, supondo que a razão seja coisa descartável, incorre em completa insensatez. Pois em algum ponto, cedo ou tarde, o homem termina raciocinando sobre a sua própria fé, e foi assim que surgiu o que denominamos Teologia – a fé em busca da sua própria razão.

Tentar seguir a direção oposta, seguindo apenas e exclusivamente a razão, rejeitando a fé como coisa inútil, também é um erro absurdo. Pois ninguém, absolutamente ninguém é capaz de saber tudo o que precisa saber apenas por meio da própria razão. Sempre será necessário a qualquer buscador de qualquer verdade aceitar uma autoridade externa – a autoridade de outra pessoa mais inteligente, mais experiente, mais capacitada ou mais aparatada, que portanto saiba mais do que esse buscador – que lhe diga qual é a verdade ou, pelo menos, que caminho tomar para chegar à essa verdade.

Todos aceitamos, em maior ou menor grau, certas verdades científicas, mas nós não fizemos pessoalmente as pesquisas e/ou experiências necessárias para saber se aquilo é mesmo fato. Aceitamos, porque precisamos, a autoridade de outra pessoa que pressupomos honesta. Também os "homens de ciência" aceitam tal regra de conduta entre si, o tempo todo. Eles não repetem todas as experiências o tempo todo, é claro, e a maior parte daquilo que têm como verdade não comprovaram por si. Eles, assim como todos nós, sempre têm que proceder e viver a partir de uma autoridade. Isso é fé, e também nas ciências é preciso que seja assim, ou então a própria ciência nunca avançaria.

Do mesmo modo, pela fé nós aceitamos que Deus nos ensine algo, como máxima Autoridade que pode existir. Posso conhecer uma verdade através da minha razão, por mim mesmo, e posso conhecer essa mesma verdade através da Autoridade de Deus, por meio da Igreja, na Revelação. Em qualquer caso, eu estaria conhecendo uma verdade, e não pode existir contradição entre aquilo que eu sou capaz de conhecer sobre determinado tema, por meio das minhas capacidades humanas, racionais, e o que Deus revela a respeito.

Verdadeiramente, por fim, ninguém poderá dar o fundamento necessário à razão humana se não for Deus. Assim é que a razão, sem a fé, torna-se sempre um grande disparate.

O que toda essa reflexão sobre fé e razão tem a ver com o poder de abstração, analisado no primeiro capítulo, é o que veremos a seguir.

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1. História de uma alma, Manuscrito «A». Alençon (1873 – 1877), janeiro De 1895.
2. Discurso do Papa Bento XVI para o encontro na Universidade de Roma 'La Sapienza', prevista 17/1/2008 (anulado em 15/1/2008).
3. Audiência geral de S. S. o Papa Bento XVI. Praça de São Pedro, quarta-feira, 16 de junho de 2010.
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