Fortaleza e valentia neurótica


ALGUNS CONFUNDEM a santa virtude da fortaleza com a mera valentia humana, que se define como uma mescla de vanglória e soberba com audácia imprudente, falta de temor, presunção, arrogância.

Resumindo, a valentia é uma espécie de perigoso orgulho: uma vez que a alma se perde nele, é muito difícil livrar-se depois. Isso porque, além de cometer o pecado, ainda imagina que está progredindo numa virtude muito digna. Trata-se portanto, de uma traiçoeira armadilha. Ocorre que por trás de todo bravateador –, de todo valentão –, está o que alguns escolásticos chamatam “pusillo animo”, ou seja, o espírito pusilânime, que no fundo é fraco e tenta disfarçar a própria covardia escondendo-se por detrás de bravatas. Tais criaturinhas imaginam-se verdadeiros heróis a defenderem o bem, a verdade, a justiça e a religião, mas no fundo são soberbos, orgulhos, preguiçosos... tolos.

Nestes nossos tempos digitais, deparamo-nos com a irritante figura do “perfeito de internet”. Trata-se de uma raça particularmente curiosa, ao mesmo tempo em que é patética: em sua interação nas redes sociais, nos blogs, nos chats, tais pessoas portam-se como seres virtuosíssimos, os eternos defensores da verdade e da ortodoxia da fé; capricham num pomposo palavrório “cristão”, julgam com máxima severidade os deslizes alheios, impõem-se como os guardiões inatacáveis da virtude e da santidade, gostam de aplicar um grande peso às costas do seu próximo... Será que suportam carregar, eles mesmos, tal peso?

Com grande acuidade, como sempre, Sto. Tomás de Aquino afirmava que a virtude da fortaleza tem dois movimentos principais: atacar moderadamente (moderate aggredi) e resistir (sustinere)[1]. Ao contrário do valentão, que tem por hábito perder-se em confusões e contendas, rixas e debates totalmente infrutíferos, praticados à base de insultos e maledicência, que não tem outra finalidade a não ser a promoção do próprio ego, a pessoa forte não gasta suas energias com disputas tolas a respeito de temas pequenos e secundários, nem tenta paranoicamente adivinhar as intenções alheias.
Ele vislumbra com clareza as circunstâncias em que é preciso agir, atacando com prudência e mansidão os obstáculos ao bem, que ele sempre visa nas suas ações, e resistindo ou combatendo os males com os quais se depara.

Por proceder assim, o forte vence o medo e, ao mesmo tempo, modera a sua própria audácia, matando em si mesmo o orgulho e a vã soberba humana: a coragem autêntica é prudente, bem equilibrada, não dispensa a razão e a moderação; a falsa coragem é impetuosa e imprudente, quer destruir seus adversários (muitas vezes imaginários) a qualquer custo, com objetivo de impor-se como o grande herói, em busca de admiração e de aplausos.

Aí está o critério seguro para quem queira reconhecer a crucial diferença entre uma pessoa corajosa e um fanfarrão, entre o forte e fraco. Em síntese, os fortes são valorosos, incansáveis e destemidos na defesa daqueles bens inegociáveis tão bem expostos por Bento XVI (conf. visto na revista O FIEL CATÓLICO #16), e falam e agem sempre com prudência; já os fracos são intrépidos na defesa dos seus egos cada vez mais hipertrofiados, por conta dos debates ilusórios que eles imaginam “vencer”. A precipitação, um vício decorrente da imprudência, é como um labirinto do qual esses pobres-diabos
São diversas as atitudes que requerem verdadeira coragem: partir para a luta e enfrentar a batalha com destemor é uma delas; ainda maior, porém, é a coragem daquele que, sendo grande, faz-se pequeno e o mais humilde entre todos não conseguem sair, o que faz deles verdadeiros “profissionais” da murmuração, da calúnia, das falácias travestidas de sabedoria e da desonestidade disfarçada de boa intenção.

Nesse contexto, citamos Josef Pieper num dos seus escritos sobre as virtudes cardeais:

Se o amor é perverso, o temor também o será. Ora, não há amor mais perverso que o da vanglória, filha da soberba; não há medo mais medíocre que o de não receber os aplausos do mundo.

Observe-se aonde leva a falta da virtude da fortaleza: à degradação do caráter. Vale dizer, ainda, que a ambição, vício oposto à fortaleza por excesso, é um tipo de avareza espiritual, nas palavras do Dr. Martín Echavarría[2], porque as honrarias não devem buscar-se por si mesmas. Para desgraça do fraco, é justamente neste terreno pantanoso que ele se afoga; em brigas nas quais se mete, este frenético ser ambiciona sempre o reconhecimento de alguma plateia. A ambição é diametralmente oposta à magnanimidade, virtude considerada por Sto. Tomás como uma das partes potenciais da fortaleza[3].

Esquadrinhemos, então: a pessoa forte tem o ânimo magno, volta-se às coisas grandiosas de maneira ordenada; a pessoa fraca padece com pequenez de ânimo, ainda quando esta sua fraqueza se manifesta sob o disfarce cínico da impertinência.

A falsa valentia é o retrato fiel do mentiroso no ato de enganar-se a si mesmo e, muitas vezes, nesta arte ele é mestre. Mestre de um triste espetáculo, para si e para todos...
***Adaptado do artigo de Sidney Silveira, 'A Valentia Neurótica', para a página ‘Contra Impugnantes’,

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1. Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, II-II, q. 123.
2. Martín Echavarría, Los vicios opuestos a la fortaleza según Tomás de Aquino.
3. Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, II-II, q. 129.

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