A aparição de Nossa Senhora em La Salette: a verdadeira história – parte 5


O DESAPARECIMENTO DOS ESTADOS Pontifícios, o enfraquecimento do poder da Igreja em toda a Europa, o progresso do ateísmo e do anticlericalismo depois a eclosão da Primeira Guerra Mundial, tudo apontava (pensadores católicos famosos como Léon Bloy, Louis Massignon, Paul Claudel e até Jacques Maritain falaram sobre isso) a veracidade do segredo confiado aos videntes de La Salette. 

    A partir de 1851, após minuciosa e exaustiva investigação eclesiástica, a aparição foi reconhecida como autêntica, e autorizado o seu culto. Mélanie Calvat tornou-se freira aos vinte anos, assumindo o nome de Irmã Marie de la Croix, dedicando sua vida inteira à divulgação da mensagem recebida do Céu. Sobre a grande apostasia e o subsequente castigo universal descrito na aparição segundo ela, em linhas muito impressionantes, dizia que "essas coisas acontecerão quando a desordem moral seja completa sobre a terra e o mundo esteja entregue às suas ímpias paixões", sem acrescentar datas. 

    Já Maximin escreveu, em sua redação de 1851: "A França corrompeu o Universo, um dia será punida. A fé se extinguirá na França, três quartas partes da França não praticarão mais a Religião, ou quase nada. A outra parte a praticará sem praticá-la bem". Em carta de 7 de janeiro de 1872, depois das devastações da Comuna de 1871, Maximin disse que o castigo anunciado sobre Paris ainda não tinha chegado.

    Segundo o segredo, junto com o aniquilamento dos maus, haverá de se completar o total das conversões dos que serão salvos. Mas como poderiam acontecer tais conversões em meio a uma humanidade tão pecadora e tão punida? Málanie confidenciou ter recebido luzes de Nossa Senhora a respeito, porém, não podia dá-las a conhecer. Interrogada, respondeu: "Porque contém mais segredos da misericórdia divina. Conhecendo-os, terão pressa de vê-los chegar, a fim de poder gozar mais cedo do triunfo inaudito da Igreja".

    O Pe. E. Combe, que conheceu Mélanie nos últimos anos de vida, recolheu as seguintes afirmações da vidente:

Até o fim do mundo, as leis continuarão cristãs. Não haverá perseguição legal. Durante um número bastante grande de gerações, todos os homens serão bons cristãos. Mas, pouco a pouco, eles começarão a se deixar levar pela tibieza, depois pelo esquecimento de Deus, e por fim incorrerão em grandes crimes. As leis cristãs, que o braço secular fez um dia ser observada, pouco a pouco acabarão por não ter mais aplicação em virtude de uma falsa misericórdia em relação àqueles que as violarão. Os bons não serão mais protegidos. Eles se tornarão o objeto de todas as humilhações, de todas as chacotas. Eles sofrerão muito por causa da sociedade e da opressão dos maus, e serão numerosos.

    Em 1915, Roma reagiu emitindo um admonitum que proibia os católicos de discutir e comentar o segredo, pois se criava muita polêmica a respeito, mas não decretou nada contra o segredo em si.

    Fato é que o segredo de La Salette sempre provocou reações duríssima. O Bispo de Grenoble, o Mons. Philibert, foi dócil ao Espírito Santo; ele compreendia que se o ocorrido fosse uma intervenção do Céu através de Nossa Senhora, seria preciso lidar com isso da maneira mais cuidadosa e piedosa possível. Seu sucessor, entretanto, não manteve a mesma atitude. A França seria tomada pelo espírito revolucionário da Revolução Francesa de 1789; uma parte dos bispos e uma parte considerável do clero católico fora contaminada pelos princípios liberais revolucionários que derrubaram a monarquia francesa, que teve como expoente o grande rei São Luís IX. O advento da República revolucionária maçônico-liberal na França foi um duríssimo golpe. Infeliz e desgraçadamente, uma parte considerável do episcopado e do clero aderiu a essas ideias, da mesma forma que a maioria do episcopado e do clero aderiu à heresia denominada teologia da libertação na América Latina.

    A Igreja é santa e imaculada, mas seus filhos podem se tornar pecadores e andar na contramão do desígnio de Deus. Todavia, sempre restarão cristãos fiéis. A luta se dá no interior da Cidade de Deus, entre os fiéis e os infiéis, em vários níveis e em diversas frentes. Uns lutam pela preservação da Fé e pela santidade e salvação das almas, outros se deixam levar pelo erro; outros ainda atuam abertamente contra a mesma Fé e salvação, em prol de implantar, no lugar onde um dia existiu a Igreja de Cristo, uma nova religião universal, totalmente estranha à Verdade do Evangelho.

 

    Assim, uma grande parte desse episcopado francês da metade do século XIX, do clero infiel, não aceitou curvar-se diante da suprema Autoridade divina. A ideologia materialista e ateia do marxismo nem sequer aceita a existência de tal Autoridade, e aqui está a suprema contradição e ao mesmo tempo a grande traição dos maus pastores, que deixaram de crer na Revelação para aderir a essa nefasta corrente de pensamento. Literalmente, trocaram o Eterno pelo temporal, Deus pelo amor às coisas do mundo transitório, o Evangelho pela política.

 

    A doutrina maçônica e liberal que se impôs na França e derrubou a monarquia é ateia e liberal; pois exatamente estas três coisas foram combatidas na Aparição de La Salette: o racionalismo, o liberalismo e o marxismo. Justamente as três correntes que foram também condenadas, em 1864, por Pio IX.

 

    Foi esse episcopado vendido ao liberalismo maçônico que muito perseguiu os videntes e a revelação dada em La Salette: o sucessor de Mons. Phillibert se enquadra aí. Mas não se assuste o leitor com essas traições: os traidores sempre existiram na Igreja, desde os Doze, e herdeiros do Iscariotes nunca faltaram. Na luta entre Deus e o demônio, sempre teremos o livre-arbítrio. Sim, aqueles preparados para o sacerdócio deveriam estar mais do que solidamente fundados na Rocha firme que é Cristo, mas há o mistério da iniquidade. Assim é que Nosso Senhor mesmo, Onisciente como é, para que compreendêssemos tal mistério, permitiu que, naquele grupo de doze homens diretamente escolhidos por Ele, estivesse um traidor. Traidores sempre os teremos, até que o joio seja definitivamente separado do bom trigo.

 

    No século IV, quando, no dizer de São Jerônimo, o mundo foi dormir católico e acordou ariano, Deus levantou no Oriente um gigante, Santo Atanásio, e outro no Ocidente, Santo Hilário de Poitiers. Quinze séculos mais tarde, reinava na França a doutrina liberalista também dentro da Igreja: semente do progressismo europeu que, unida ao marxismo na América Latina, geraria a grande praga da teologia da libertação. Assim, a mensagem de La Salette fez despertar a fúria, o ódio e a rejeição de muitos. Os videntes foram cruelmente perseguidos. Maximin, que entrara para o seminário, foi expulso pelo Bispo de Grenoble (o sucessor revolucionário daquele da época da Aparição). Ele queria que Maximin renunciasse à mensagem de La Salette, mas este respondeu: “Não posso, porque a maior prova de que não tenho vocação para o sacerdócio será se eu tiver que renunciar a La Salette”. Maximin morreu aos 39 anos, depois de muito desgosto no seio da Igreja.

 

    Tal era a influência dos clérigos traidores, adeptos à revolução, que São João Maria Vianney viveu sob o risco de ser expulso da Igreja, e até de morrer martirizado. Em 1786 (ele nasceu nos dias da Revolução Francesa) havia a exigência de abjuramento: os sacerdotes deviam assinar um documento de fidelidade ao Estado, algo que ele jamais aceitou.

    Todavia, a Providência agiu sobre os sacerdotes responsáveis pela primeira parte do processo de aprovação da mensagem de La Salettte, ainda nos dias de Dom Phillibert. Deus cuida de tudo: enviou a Mãe dos cristãos com uma mensagem de esperança, para reavivar em nós a confiança filial nos seus cuidados paternos, a esperança de que, cumprindo sua santa Vontade, seremos verdadeiramente livres e felizes. A felicidade não está em satisfazer um punhado de necessidades fisiológicas e desejos sensuais, na comida, bebida, diversão e companhias; não é viver de forma rebaixada, satisfazendo-se exclusivamente com uma vida animalesca. Para nós, que cremos em Deus, as necessidades fisiológicas servem à manutenção da vida, mas nós fomos chamados à santidade, à nossa configuração em Cristo, à nossa transformação em “outros Cristos” que continuem o trabalho d’Ele no mundo, transformando-o para muito melhor.

 

    Sim, Deus cuida de tudo. De maneira que o Bispo de Grenoble agiu com o tempo de Deus e o processo teve um rápido andamento. Se esse trabalho tivesse ficado para o seu sucessor, tudo seria muito mais complicado e, talvez, a aparição não tivesse sido aprovada. A primeira parte do segredo (que publicaremos na íntegra no desfecho desta série) é muito dura para com os maus sacerdotes, denunciando-os claramente. Todos ficaram impactados na época. Ou se anda na luz ou nas trevas, e Nossa Senhora lança luz sobre o declínio moral e espiritual do clero, que cada vez mais se tornava amoral ou imoral. Era inevitável que surgisse uma grande oposição interna e a tentativa de sufocar a aparição e sua mensagem. Escreveu Claudel a respeito, citando as Escrituras: "Quem poderia ser tocado por Deus e sobreviver?"... Aquelas duas crianças alcançaram o pico da felicidade com a visita do Céu, mas no momento seguinte se viram em guerra com o Inferno. Nossa Senhora sempre cuidou deles, mas há um campo que pertence à esfera do livre-arbítrio, no qual a luta é necessária e tudo dependerá sempre de nós mesmos.

    ** Ler a continuação

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