A infalibilidade papal: o Papa é infalível? Quando? Como?

A DOUTRINA DA INFALIBILIDADE do Papa foi definida no 4º capítulo da 4ª sessão do Concílio Vaticano I (1869-1870), durante o pontificado de Pio IX. É comum ouvirmos, porém, muitos questionamentos a esse respeito, de pessoas que pensam que os católicos acreditam que o Papa seja infalível no sentido de impecável, como se fosse um homem acima do bem e do mal, isento de qualquer erro ou pecado, incapaz de fazer ou dizer qualquer coisa incorreta.

    O Sumo Pontífice da Igreja, claro, é humanamente imperfeito. Se alguns polemizam a respeito dessa questão, será por desconhecimento da Doutrina. No caso dos protestantes, que muito o questionam, é inegável que existe má vontade para aprender e entender. Por se tratar de um tema importante, no entanto, é necessário que os católicos compreendam definitivamente este assunto, para que possam também elucidar a outros quando tiverem a oportunidade.

    Em primeiro lugar, a doutrina da infalibilidade não diz que o Papa é um homem perfeito, que nunca erra ou que não pode pecar, por ser o Papa. O que a doutrina da infalibilidade papal afirma é que o Papa é infalível quando ensina a toda a Igreja em matéria de fé e de moral, nas condições "Ex Cathedra".

    O que significa isto? Ex Cathedra (do latim) significa, literalmente, "da Cadeira" ou "da Cátedra", quer dizer, quando ele fala como catedrático, isto é, como o maior Doutor que nos deu a Providência naquelas matérias mais importantes para a salvação das nossas almas. Quer dizer que o Papa é infalível quando se pronuncia a partir do Trono de São Pedro, aquele que recebeu as Chaves do Reino dos Céus, de quem ele é o legítimo sucessor, isto é, como o Sumo Pontífice, líder e condutor terreno de toda a Igreja, mas isso se dá especialmente nas seguintes condições:

        1) Quando se pronuncia como sucessor de Pedro, usando o poder das Chaves concedidas ao Apóstolo pelo próprio Cristo Jesus (Mt 16,19);

        2) Quando o objeto do seu ensinamento é a moral, fé e/ou os costumes;

        3) Quando ensina à Igreja inteira;

        4) Quando é manifesta a intenção de dar decisão definitiva (dogmática), condenando que se ensine tese oposta.


    Resumindo, o Papa é infalível quando se dirige, na qualidade de Sucessor de São Pedro Apóstolo, que ele propriamente é, a toda a Igreja; quando o objeto do seu pronunciamento é a moral, a fé e/ou os costumes; e quando define uma decisão a partir desta sua autoridade.

    Fora das condições descritas acima, o Papa é passível de falhas. Fica esclarecido, portanto, que nós, católicos, não cremos que o Papa é uma espécie de ser humano perfeito, que nunca erra e nem pode pecar. É importante notar também que mesmo fora dessas condições específicas o Papa não pode ensinar o erro a toda a Igreja, expondo ao risco as almas dos fiéis a ele confiadas: pode falhar como doutor privado, mas nunca como o Papa: esta é a chamada infalibilidade passiva, e é um assunto complexo, para o qual recomendamos a leitura atenta do documento pelo qual Pio IX definiu o dogma da infalibilidade (que pode ser acessado e lido na íntegra neste link) e, entre outras coisas, define (formal e infalivelmente) o seguinte:

...o Espírito Santo não foi prometido aos sucessores de S. Pedro para que estes, sob a revelação do mesmo, pregassem uma nova doutrina, mas para que, com a sua assistência, conservassem santamente e expusessem fielmente o Depósito da Fé, ou seja, a Revelação herdada dos Apóstolos. E esta doutrina dos Apóstolos abraçaram-na todos os veneráveis Santos Padres, veneraram-na e seguiram-na todos os santos doutores ortodoxos, firmemente convencidos de que esta Cátedra de S. Pedro sempre permaneceu imune de todo o erro, segundo a promessa de Nosso Senhor Jesus Cristo feita ao príncipe dos Apóstolos: 'Eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; e tu, uma vez convertido, confirma os teus irmãos'.[1] 

    Mesmo assim, alguns continuam achando absurdo pensar que o Papa é infalível quando instrui a Igreja a respeito de doutrina. O que você, leitor, pensa disso?

    Se somos mesmo cristãos, isso não é nenhum absurdo: na verdade, pelo contrário, crer na infalibilidade papal é, mais do que uma obrigação, uma conclusão natural e instantânea de todo o edifício da fé cristã. Para quem tem essa fé genuinamente cristã, o absurdo seria pensar que o Papa, Sucessor de Pedro e Pastor maior da Igreja, aquele que comanda toda a imensa nação de fiéis que constituem o Corpo Místico do Cristo no mundo, fosse falho enquanto líder, pois nesse caso ele seria totalmente incapaz de assumir a missão de conduzir a Igreja.

    Se o líder máximo da Cristandade não fosse infalível enquanto condutor da Igreja, não poderíamos crer em Igreja, nem nos Evangelhos, nem mesmo em Jesus Cristo, que pessoalmente entregou ao primeiro Sumo Pontífice as Chaves do Reino, e prometeu que estaria com a sua Igreja até o fim do mundo. – A infalibilidade é lógica, autoevidente e consta explicitamente nas Sagradas Escrituras:

Ide, pois, e ensinai a todas as nações; batizai-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Ensinai-as a observar tudo o que vos prescrevi. Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo. (Jesus Cristo à sua Igreja, no Evangelho segundo S. Mateus  - 28,19-20)

    Atenção: nosso Senhor afirma aos Apóstolos que estará com a Igreja até o fim do mundo. O mundo ainda não acabou, e a Igreja continua. Logo, isto demonstra que não só os Apóstolos, mas também os seus sucessores, escolhidos por eles próprios (como vemos no livro de Atos), estão ainda hoje conduzindo a humanidade sob a Assistência do Espírito Santo e de Nosso Senhor Jesus Cristo, que também garantiu a infalibilidade da doutrina dos Apóstolos:

Eu vos mandarei o Prometido de meu Pai; permanecei até que sejais revestidos da Força do Alto. (Lc 24,49)

O Paráclito, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu Nome, ensinar-vos-á todas as coisas e vos recordará tudo que vos tenho dito. (...) O Espírito da Verdade o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhece, mas vós o conheceis, porque permanecerá convosco e estará em vós. (Jo 14,26.17)

    Note-se a afirmação: "O Espírito da Verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhece...". Jesus diz que cabe aos Apóstolos ensinar a doutrina verdadeira e autenticamente inspirada por Deus, que eles serão constantemente iluminados pelo Espírito Santo para esse fim. – Fica claro que não basta cada um ler a Bíblia, é preciso seguir a orientação da Igreja, que por sua vez é guiada pelo Papa, sob a Luz do Santo Espírito.

    Jesus Cristo enviou seus Apóstolos para propagar a toda a humanidade o Caminho que leva até o Pai do Céu. Portanto, se cremos em Jesus Cristo e nos Evangelhos, temos que crer também que os Apóstolos são infalíveis em seus ensinamentos, já que Cristo estará com eles até o fim do mundo, para que cumpram a missão de levar o Evangelho "até os confins do mundo": "Descerá sobre vós o Espírito Santo, e vos dará o poder; e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia, Samaria e até os confins do mundo" (At 1,8).

    "O que ligares na Terra será ligado nos Céus, e o que desligares na Terra será desligado nos Céus": a própria entrega das Chaves do Reino dos Céus a Pedro, com a promessa de que o Inferno não prevaleceria sobre a Igreja, juntamente com o poder dado a ele, Pedro, de ligar e desligar na Terra e no Céu (Mt 16,18-19), é a afirmação clara, direta e insofismável da infalibilidade daquele que comanda a Igreja. Se Nosso Senhor disse aos Apóstolos que deveriam ensinar o Evangelho à humanidade, e prometeu que estaria sempre com eles, até o fim do mundo, então, pela Providência Divina, esta Igreja não pode ensinar o erro, mas somente a verdadeira Doutrina, o Caminho certo até o Céu.

    A (re)confirmação definitiva consta no Evangelho segundo Lucas, quando o Senhor Jesus Cristo fala a Simão Pedro:

Simão, Simão, eis que Satanás vos reclamou para vos peneirar como o trigo; mas eu roguei por ti, para que a tua confiança não desfaleça; e tu, por sua vez, confirma os teus irmãos. (Lc 22,31)

    Mais tarde, o próprio Apóstolo Pedro confirmou esta mesma verdade, quando disse, no meio de todos os Apóstolos e presbíteros da Igreja reunidos, no Concílio de Jerusalém: "Irmãos, sabeis que há muito tempo Deus me escolheu dentre vós, para que da minha boca os pagãos ouvissem a Palavra do Evangelho e cressem." (At 15,7).

    Não. Não há dúvida nenhuma quanto à autoridade e infalibilidade da Igreja de Jesus Cristo enquanto "Casa do Deus Vivo" e "Coluna e Fundamento da Verdade" (1Tm 3,15) para os cristãos, e nem do Apóstolo Pedro e de seus sucessores.

    Como a criatividade humana não tem limites, porém, os inimigos da Igreja nunca deixam de tentar contestar até mesmo as verdades mais simples. Desesperados em sua tentativa de negar o óbvio, apelam para todo tipo de insanidade: já ouvimos dizer até que Pedro teria perdido a sua autoridade ao ter negado Nosso Senhor por três vezes... Que grande tolice, pois o Senhor voltou a confirmar a autoridade de Pedro quando lhe confiou a tarefa de apascentar o seu rebanho (a Igreja) depois disso, já ressuscitado (Jo 21,14-17). O mais curioso é que aqueles que inventam esses desvarios são os mesmos que se colocam como supostos entendedores das Sagradas Escrituras.

    Jesus Cristo é Deus, sabe tudo. Por certo sabia das contestações que surgiriam, no correr da história, a respeito da autoridade e da infalibilidade do Papa. Por isso, fez questão de repetir por três vezes que estava entregando a Ele, Pedro, a missão de apascentar seus cordeiros e suas ovelhas, isto é, a Igreja neste mundo.


Resumo e considerações finais

Não, o Papa não é infalível enquanto homem. Trata-se de um ser humano que dedicou e consagrou toda a sua vida ao serviço de Deus e da Igreja, e que foi eleito para ser o seu Cabeça visível. Mesmo assim, isso não significa necessariamente ser santo, pois, como visto, até mesmo S. Pedro, que conviveu diretamente com o Senhor e foi por Ele instituído, era falho: mesmo após a Ascensão do Senhor, Pedro, que sempre manteve o seu livre arbítrio, parece ter se equivocado em certos momentos, em determinadas questões práticas ou disciplinares, sendo repreendido por Paulo, outro Pilar da Igreja e grande Apóstolo. Mas essas dificuldades humanas não se refletiram nas suas instruções dogmáticas e doutrinais à Igreja, como por exemplo no caso da abolição da circuncisão (At 15,1-12). 

Sim, o Papa é infalível em suas funções como autoridade instituída diretamente por Nosso Senhor Jesus Cristo. A ele foram concedidas as Chaves do Reino de Deus, para instruir o Povo de Deus neste mundo, à frente da santa Igreja. A única ocasião em que Deus interfere no livre-arbítrio dos Apóstolos é quando estes cumprem a missão de doutrinar as "ovelhas" de Deus, pois os seres humanos não têm condições de comunicar Deus através da sua própria ciência ou por seus próprios méritos. Assim, o fiel comum não é capaz, através de elucubrações, estudos e debates com outras pessoas, de definir um ensinamento isento de erro; mesmo os grandes teólogos não possuem essa capacidade: suas conclusões somente são aceitas quando colocadas sob a apreciação do Magistério da santa Igreja, centrada na figura do Papa.

Observação importante: Hoje, nestes nossos dias confusos, a mais elementar honestidade nos impede de negar, em reta consciência diante de Deus, que o atual "Papa Francisco" já tenha caído em heresia, mais de uma vez, e que ele vem ensinando o erro à toda a Igreja, além de agir pertinazmente contra a moral e os costumes autenticamente católicos. Diante do fato, alguns tentam argumentar que isso é possível por ele não ter se manifestado Ex Cathedra ao cometer tais crimes (é a posição de Dom Athanasius Schneider, bispo do Cazaquistão, autor e respeitado teólogo). Outros discordam, dizendo que tal situação nos obriga a questionar a validade ou a legitimidade deste papado (é a posição de Dom Carlo Maria Viganò, Arcebispo e ex-Núncio Apostólico dos EUA, um eminente teólogo); mais além, temos a posição dos sedevacantistas, que geralmente questionam a legitimidade de todos os papas que vieram depois do desastroso concílio Vaticano II e suas novidades heréticas.

    De fato, o Magistério da Igreja já definiu e decretou — tanto pelo seu ensino constante quanto dogmaticamente —, que todo católico deve obedecer ao Papa como o condutor infalível da Igreja e sujeitar-se a ele, não somente quando decreta solenemente algum dogma (ex cathedra), mas também pelo seu Magistério ordinário. Dois exemplos concretos reproduzimos abaixo (destaques nossos):

"Não podemos passar em silêncio a audácia de quem, não podendo tolerar os princípios da Sã Doutrina, pretendem que aos juízos e decretos da Sé Apostólica que têm por objeto o bem geral da Igreja, seus direitos e sua disciplina, PODE-SE NEGAR ASSENTIMENTO E OBEDIÊNCIA DESDE QUE NÃO TOQUEM OS DOGMAS da fé e dos costumes, sem pecado e sem nenhuma violação da fé católica. ESTA PRETENSÃO É TÃO CONTRÁRIA AO DOGMA CATÓLICO DO PLENO PODER DIVINAMENTE DADO PELO PRÓPRIO CRISTO NOSSO SENHOR AO ROMANO PONTÍFICE PARA APASCENTAR, REGER E GOVERNAR A IGREJA, que não há quem não o veja e entenda, clara e abertamente. (...) Portanto, todas e cada uma das perversas opiniões e doutrinas determinadamente especificadas nesta Carta, com Nossa autoridade apostólica as reprovamos, proscrevemos e condenamos; e queremos e mandamos que todas elas sejam tidas pelos filhos da Igreja como reprovadas, proscritas e condenadas."
(Papa Pio IX, Quanta Cura, 8 dez 1864)
"Ensinamos, pois, e declaramos que a Igreja Romana, por disposição divina, tem o primado do poder ordinário sobre as outras Igrejas, e que este poder de jurisdição do Romano Pontífice, poder verdadeiramente episcopal, é imediato. E a ela devem-se sujeitar, por dever de subordinação hierárquica e verdadeira obediência, os pastores e os fiéis de qualquer rito e dignidade, tanto cada um em particular, como todos em conjunto, NÃO SÓ NAS COISAS REFERENTES À FÉ E AOS COSTUMES, MAS TAMBÉM NAS QUE SE REFEREM À DISCIPLINA E AO REGIME DA IGREJA, espalhada por todo o mundo, de tal forma que, guardada a unidade de comunhão e de fé com o Romano Pontífice, a Igreja de Cristo seja um só redil com um só pastor. Esta é a doutrina católica, da qual ninguém pode se desviar, sob pena de perder a fé e a salvação."
(Papa Pio IX, Constituição Dogmática Pastor Aeternus, n. 3060)

    O assunto é amplíssimo e complexo; não há como esgotá-lo, aqui. Mas é preciso dizer que nós estamos, assim, colocados diante de conclusões e posições teológicas distintas, e que compete a cada fiel católico decidir o que fazer, optar por uma delas ou simplesmente suspender o seu juízo até que tudo se esclareça: esta é a dificílima situação em que vivemos nestes dias, que muito possivelmente são aqueles profetizados como os da grande apostasia. Enquanto leigos, não nos cabe decidir por ninguém a respeito desse problema fundamental. Limitamo-nos a oferecer alguma luz que auxilie nossos irmãos, para aclarar suas dificuldade e os questionamentos que surgem, e o fizemos numa série especial que pode ser lida acessando-se este link. Rezamos continuamente pelo bem e pela salvação de todos os nossos leitores.


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[1] CONSTITUIÇÃO DOGMÁTICA PASTOR AETERNUS do Supremo Pontífice SS. PIO IX, de 18 de julho de 1870.
Arquivo Vaticano, PASTOR AETERNUS,disp. em:
https://vatican.va/archive/hist_councils/i-vatican-council/documents/vat-i_const_18700718_pastor-aeternus_it.html 
Acesso 10/1/2024.

U. Bellocchi (ed.),  Todas as Encíclicas e os principais documentos pontifícios emitidos desde 1740 , vol. IV: Pio IX (1846-1878), pp. 334-340, 1995, Libreria Editrice Vaticana, Cidade do Vaticano.

Constantino, Lutero e o Papa


UM LEITOR ANÔNIMO deixou-nos o seguinte comentário no post "A Igreja Católica foi fundada por Constantino?":


Boa tarde Henrique, voltei a este blog para contestar suas escritas...

Me explique por que a igreja catolica que se diz cristã parou de ser perseguida com o reinado de constantino? não foi pelo fato de que a igreja aceitou todo tipo de paganismo que constantino trouxe para dentro da igreja? paganismo este, que fez com que Martinho Lutero se rebelasse contra a igreja catolica,que na época e agora podemos chamar de igreja caótica?... graças a Deus que Martinho Lutero conheceu a biblia e teve coragem de enfrentar quem fosse para revelar a verdade escondida do povo, pela biblia e só pela biblia. Também elogio suas contestações de muitas igreja ditas cristãs, mas e a contestação ao papa, vc não faz??? de onde inventaram essa de que o papa é o sumo pontifice???

Prezado, anônimo, a Paz de Nosso Senhor Jesus Cristo. Quer dizer então que você voltou? Mas, com todo o respeito, eu pergunto: quem é você? São muitos os que aparecem por aqui, apresentando sempre as mesmas argumentações, idênticas às suas, e nenhum deles se identifica. Enfim, seja você quem for, preciso dizer que desta vez você deve ter se superado! São tantos equívocos juntos, e tão absurdos, que nem sei por onde começar a responder! Comecemos, então, do começo, dividindo suas argumentações (ou acusações?) em partes, para facilitar a compreensão dos nossos leitores:

Me explique por que a igreja catolica que se diz cristã parou de ser perseguida com o reinado de constantino?

Em primeiríssimo lugar, não foi a "Igreja Católica" no sentido que você aplica, como se fosse "uma igreja entre muitas igrejas", que deixou de ser perseguida sob o governo de Constantino, – simplesmente porque não existiam muitas "igrejas" nesse tempo, mas apenas uma única Igreja: a Igreja una e indivisível de Cristo, instituída diretamente pelo Senhor Jesus e preservada na Tradição dos Apóstolos e dos seus sucessores, eleitos por eles mesmos.

Logo, foram os cristãos como um todo que deixaram de ser perseguidos; foi A Igreja do Senhor que passou a viver um novo período a partir dali. – Esta mesma Igreja que perseverou na fé dos Apóstolos por mais de mil e quinhentos anos antes de surgir o seu protestantismo, com a famigerada heresia da sola scriptura, que dividiu o povo de Deus. Não foi "uma certa 'igreja católica'" que ganhou direitos reconhecidos pelo Estado, como se alguma "outra igreja" tivesse conhecido um destino diferente. Só havia uma Igreja, a Igreja do Cristo, aquela edificada diretamente pelo Senhor sobre o Apóstolo Pedro, que é também a Igreja de sempre, pois foi junto a esta que o Senhor prometeu que estaria até o fim dos tempos (Mt 28,20). Procure entender isso antes de tudo.

De todo modo, a partir desta sua primeira pergunta já fica evidente, logo de início, que você não leu a postagem que está comentando. E como é que você pode ter opinião a respeito de um texto que não leu? Imagino que seja da mesma maneira que formou opinião a respeito da Igreja Católica sem conhecê-la: partindo da caricatura que o seu "pastor" pinta da Igreja. Pensando bem, vindo de um "evangélico", faz sentido.

O fato é que o próprio artigo que você está comentando explica a razão de terem cessado as perseguições à Igreja sob o governo de Constantino, que é mais do que óbvia: é que o imperador declarou a sua conversão ao cristianismo e publicou um édito suspendendo a perseguição. Simples. Veja bem que ele não suspendeu perseguição à "igreja X", "Y", ou "Z". A perseguição era contra os cristãos como um todo, contra o Corpo Uno, – Corpo de Cristo, – que sempre foi a Igreja. Eram perseguidos os que confessavam a fé em Jesus como Filho de Deus e Salvador do mundo.

Tudo isso é fato histórico, consta nos registros da História, assim como consta que o primeiro presidente do Brasil foi o Mal. Deodoro da Fonseca, por exemplo, ou que a primeira guerra mundial durou de 1914 até 1918. Se não fossem os registros históricos, nós não saberíamos muita coisa a respeito de nada, sabia? É para isso que serve o estudo da História: para que nós aprendamos as coisas. E é por isso que não podemos ler somente, – exclusivamente, – a Bíblia Sagrada. Aliás, se você lê só a Bíblia, única e exclusivamente, não pode saber quem foi Lutero, esse mesmo que você defende sem ter ideia de quem foi.

Diga-me sinceramente, por favor: que livro você leu sobre Lutero? Quais as suas fontes de pesquisa sobre ele? O que você sabe, com certeza, sobre a sua história, o seu ideário, seus modos, seus princípios? Veremos um pouco sobre este assunto mais adiante. Por ora, prossigamos com a continuação do seu comentário:

não foi pelo fato de que a igreja aceitou todo tipo de paganismo que constantino trouxe para dentro da igreja? paganismo este, que fez com que Martinho Lutero se rebelasse contra a igreja catolica,que na época e agora podemos chamar de igreja caótica?...

Bem, à sua pergunta-acusação eu poderia responder com uma só e curta palavra: não. Claro que Constantino não trouxe paganismo para dentro da Igreja, e nem ele nem ninguém teria como fazê-lo. Vou explicar porquê.

Você conhece o Credo Niceno? Se não conhece, pode ler aqui neste site protestante (faço questão de indicar uma fonte protestante para que você veja o quanto os chamados 'evangélicos' são incoerentes: um condena e outro defende a mesma coisa, sendo que o Reino de Deus não se divide contra Si mesmo). Muito bem; eu o desafio a encontrar, na declaração de fé do Credo Niceno, uma letra, – uma vírgula que seja, – que apresente algum vestígio de "paganismo". Eu o desafio a encontrar ali qualquer insinuação que contrarie a autêntica fé cristã de sempre. Se você for capaz de fazer isso, eu me convenço e encerro as atividades deste site!

Sim. O Credo é a perfeita confissão da fé cristã resumida. Agora, você sabe quem participou diretamente na elaboração desta oração-declaração? O próprio: o imperador Constantino, que na cabeça dos falsos profetas e teóricos da conspiração, – que você chama de “pastores”, – foi um “paganizador” do cristianismo original.


Fragmento de estátua representando o Imperador Constantino (séc. IV, Museus Capitolinos, Roma)

Esse fato, no entanto, só vale como ponto de referência, já que o mais importante é demonstrar o absurdo da teoria que você apresenta, e mais do que isso, a blasfêmia contra Cristo, aquele que você pensa que conhece e segue só lendo a Bíblia, e interpretando-a do seu jeito; contrariando o que diz a própria Escritura: "Antes de tudo, sabei que nenhuma profecia da Escritura é de interpretação pessoal” (2Pd 1,20).

Que blasfêmia você está dizendo? Ora, você está simplesmente declarando Nosso Senhor Jesus Cristo como um mentiroso! O que, por outro lado, não é de se estranhar, afinal foi isso que o seu herói Lutero fez, também. E Lutero é o seu salvador, conforme você mesmo disse! Não é bem isso? Então vejamos...

Você por certo concorda que a Igreja já existia antes de Constantino, certo? Se disser que não concorda com isso, então a Bíblia está toda errada, pois ela mostra o Senhor fundando sua Igreja, mostra os Apóstolos proclamando o Evangelho, trabalhando pelo crescimento da Igreja, etc, etc. Além disso, se você disser que a verdadeira Igreja de Jesus Cristo ainda não existia até o tempo de Constantino, o que você estaria afirmando é que nos primeiros três séculos após a Ressurreição de Jesus não existiam cristãos. E se não existisse Igreja até Constantino, quem é que os imperadores anteriores perseguiam, atiravam às feras, etc.? Então, até aqui, concordamos: a Igreja já existia antes de Constantino. Ponto.

Definido este ponto, precisamos então analisar o que você diz, literalmente: “a igreja aceitou todo tipo de paganismo...”. São suas palavras. Então, o que você diz é que a Igreja já existia, mas a partir do Imperador Constantino, quando os cristãos receberam a liberdade de culto no Império, ela se corrompeu. Você disse isso, e é nisso que protestantes/"evangélicos” acreditam. Eu sei muito bem, porque eu também já fui um de vocês e já estive perdido no mesmo erro. E é exatamente aí que está a blasfêmia contra Nosso Senhor: se a Igreja se corrompeu, então Jesus mentiu, pois Ele mesmo declarou categoricamente: “Sobre esta Pedra edifico a minha Igreja: os portais do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16,18). E o Senhor também declarou à sua Igreja: “Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28,20).

Se o Senhor Jesus Cristo garantiu que o Inferno nunca prevaleceria contra a Igreja, e prometeu que estaria com ela todos os dias, até o fim dos tempos, como é que você vem me dizer que essa mesma Igreja se corrompeu, se deixou paganizar por Constantino?!

E você ainda diz mais: “graças a Deus que Martinho Lutero conheceu a biblia e teve coragem de enfrentar quem fosse para revelar a verdade escondida do povo...” – Observe o tamanho da sua arrogância! “Martinho Lutero conheceu a Bíblia”?? Por piedade, anônimo, aprenda esta verdade essencial de uma vez por todas: se você tem a Bíblia para carregar debaixo do braço, hoje, é graças à Igreja Católica! Foi a Igreja Católica que produziu, canonizou e preservou os textos da Bíblia, através dos séculos até hoje. A Bíblia é filha da Igreja, e não a mãe da Igreja! – A Bíblia que você conhece só é o Livro Sagrado dos cristãos porque a Igreja assim o declarou! Nós não temos que ler a Bíblia para interpretar a Igreja, e sim aprender da Igreja, que, inspirada pelo Espírito Santo a produziu, como ler a Bíblia!

Mas, se você crê que a Igreja se corrompeu, – mesmo Jesus Cristo tendo prometido que isso não aconteceria jamais, – e que foi Martinho Lutero quem conheceu a Bíblia e "teve coragem" – palavras suas – "para revelar a verdade", então o seu Salvador não é Jesus, e sim Lutero!


Quem veio revelar a Verdade? Jesus Cristo ou Martinho Lutero, mil e quinhentos anos depois?


Também elogio suas contestações de muitas igreja ditas cristãs, mas e a contestação ao papa, vc não faz???

Claro que eu não contesto o Papa, enquanto tal! Ele é o sucessor de Pedro, o Apóstolo a quem o Senhor confiou sua Igreja na Terra! Não que nós, católicos, acreditemos que ele seja "infalível", no sentido de "impecável", como muitos de vocês, mentindo, 
gostam de dizer de nós, mas é sobre ele que repousa a autoridade terrena da Igreja, dada diretamente por Nosso Senhor. Por isso, o Cristo Vivo edificou sua Igreja sobre Pedro (Mt 16,18ss), e por isso mesmo perguntou a Pedro por três vezes se ele o amava, e por três vezes lhe confirmou que confiava, - diretamente a ele, - o trabalho de "apascentar o seu rebanho”, isto é, conduzir a sua Igreja neste mundo (Jo 21,15-17). Está tudo na Bíblia! Ou faltam algumas páginas na sua?

O Senhor concedeu a autoridade aos seus Apóstolos, para que eles dessem prosseguimento à sua Igreja, e isso eles fizeram e continuam fazendo até hoje, a despeito dos traidores, que desde Judas evidentemente sempre existiram. A Igreja precisa desse núcleo apostólico, chamado Magistério, para que não ocorra o que sempre ocorreu no protestantismo: divisões e divisões, e mais divisões. E depois, subdivisões e mais subdivisões, ad infinitum, sem fim. Sabe por quê? Porque quando não há Magistério nem Sucessão Apostólica, a casa literalmente cai, se autodestrói! Se cada um tem autoridade para crer como quiser, se cada um pode interpretar o Evangelho "do seu jeito" particular, vira bagunça. E aí retomo a passagem da Escritura que citei no começo: "Antes de tudo, sabei que nenhuma profecia da Escritura é de interpretação particular” (2Pd 1,20).

Trata-se de um fato muito, muito simples: se fosse para cada um ler a Bíblia, interpretar ao seu modo e sair por aí fundando "igrejas" e mais "igrejas", o Cristo não teria dado a autoridade sobre a Sã Doutrina aos Apóstolos. Logo depois de fundar a Igreja sobre Pedro, na mesma fala, Jesus diz a este mesmo Pedro que tudo o que ele ligasse na Terra seria ligado no Céu, e o que ele desligasse na Terra seria desligado no Céu (Mt 16,18). E ainda diz aos Apóstolos, em outra ocasião, que os pecados que eles perdoassem seriam perdoados, e os que eles não perdoassem seriam retidos (Jo 20,23)! Essa é a autoridade que a Igreja possui na Terra, dada pelo Senhor! Como pode haver alguma dúvida sobre isso, para alguém que diz que segue a Bíblia?


E você ainda me pergunta: "de onde inventaram" que o Papa é o sumo pontífice?

Sabendo que a palavra “pontífice”, designa a pessoa mais notável de uma comunidade, eu lhe respondo: faça essa pergunta para Jesus Cristo, pois foi Ele mesmo Quem "inventou" que Pedro seria o líder, o condutor da Igreja no mundo, isto é, o Pontífice!

A palavra "Pontífice" não está escrita, textualmente, na Bíblia, e nem o termo "Papa" é aplicado a Pedro, literalmente, mas as Escrituras deixam mais do que claro que o Senhor elevou Pedro como o primeiro Papa da família dos cristãos; – isto é, o primeiro pai da comunidade dos filhos de Deus. – E antes que você diga que chamar um líder espiritual de “pai” não é bíblico, leia lá em Isaías 22,21 o próprio Deus dizendo o contrário. Você crê na Bíblia como um todo ou só naquelas partes que confirmam o que ensina o seu "pastor"?

Nosso Salvador, à véspera de deixar este mundo, confiou a Pedro a guarda do seu rebanho, e é importante entender que, naquele momento, confiava-lhe o cuidado de toda a cristandade, fazendo questão de entregar a ele a guarda dos "cordeiros" e também das "ovelhas". “Apascenta os meus cordeiros”, repete o Senhor duas vezes; e à terceira, diz: “Apascenta as minhas ovelhas”. “Apascentar”, aí, significa cuidar, governar, guiar, assumir a responsabilidade do rebanho; neste caso, é receber do Divino Proprietário a autoridade sobre o seu Rebanho, que é a Igreja.

Apascentar os cordeiros e as ovelhas é, portanto, governar com autoridade a Igreja de Cristo; é ser o condutor; é ter o Primado. E como se não bastasse, além de tudo isso, todo o contexto do Novo Testamento demonstra que Pedro tinha a palavra final nos assuntos da Igreja primitiva, em diversas passagens.

É Pedro quem propõe a eleição de um discípulo para ocupar o lugar de Judas e completar o Colégio dos Doze (At 1,15-22);

É Pedro o primeiro que prega o Evangelho aos judeus no dia de Pentecostes (At 2,14; 3,16);

É Pedro que, inspirado por Deus, recebe na Igreja os primeiros gentios (At 10,1);

Pedro realiza visitas pastorais às primeiras comunidades da Igreja (At 9,32);

No Concílio de Jerusalém, temos a prova definitiva: é Pedro quem põe um fim à longa discussão que ali se travava, decidindo, ele, que não se deveria impor a circuncisão aos pagãos convertidos, e a Bíblia diz que todos os Apóstolos e anciãos da Igreja reunidos fizeram silêncio quando ele declarou: "Sabeis que o Senhor me escolheu dentre vós para que da minha boca os pagãos ouvissem o Evangelho...". E ninguém ousou opor-se à sua decisão (At 15,1-12).

E esta autoridade de Pedro, assim como a de todos os Apóstolos, era e continua sendo transmitida de um homem para outro, sendo eleitos os novos sucessores pelo próprio Colegiado dos Apóstolos, desde o início até o presente. Você pode escolher qualquer bispo católico de hoje e fazer a "contagem regressiva" a partir dele: este foi ordenado por este, que foi ordenado por aquele, que por sua vez foi por aquele outro... E no final você vai chegar nos Apóstolos e ao próprio Fundador da Igreja, Jesus Cristo, que os escolheu um a um, porque a Igreja Católica não foi "inventada" por um homem qualquer, que leu a Bíblia e se achou no direito de começar uma nova religião, uma "nova igreja", assim como ocorre com todas – atenção – todas as "igrejas" protestantes e "evangélicas". Sinto se o ofendo, mas é a verdade, e quem se ofende ao ouvir a verdade não pertence a ela, como diz o Senhor: "Todo aquele que é da verdade ouve a minha voz (Jo 18,37).

No caso de Pedro, as Chaves do Reino dos Céus, entregues por Jesus Cristo, vêm sendo transmitidas, nesses dois mil anos de história, através do Papado. A autoridade de Pedro não morreu com ele, e dizer isso seria o mesmo que renegar a Promessa do próprio Senhor Jesus Cristo:

Ide e fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado. Eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos. Amém.
(Mt 28,20)

Se o Senhor prometeu que continuaria com a sua Igreja até o fim do mundo, também a autoridade que ele concedeu à sua Igreja permanece, até o fim dos tempos. Esta é a doutrina católica. Esta é a Palavra de Deus, segundo as Sagradas Escrituras. Esta é a Tradição cristã e católica, de dois mil anos de história. Quem pregar o contrário, seja anátema.

De fato, não existem 'dois evangelhos': existem apenas pessoas que semeiam a confusão e querem perturbar o Evangelho de Cristo. Mas ainda que alguém, nós ou um anjo baixado do céu, vos anunciasse um evangelho diferente do que vos temos anunciado, que seja anátema
(Gl 1,6-8)

Amém. Graças a Deus!
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7º Domingo do Tempo Comum, ano A, Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo S. Mateus (5,38-48)


“SEDE PERFEITOS como vosso Pai dos Céus é perfeito” (Mt 5,48). Esta frase do Evangelho é incômoda. Pode sem dúvida ser aplicada com um peso indevido. Sim, pois quem é perfeito nesta vida? E quantos, em busca de um ideal de perfeição, acabaram sucumbindo no meio do caminho ou ficaram paralisados diante de culpas ou de um sentimento de culpa demasiado? É interessante observar que esta fala de Jesus se dá depois de um longo discurso sobre o amor ao próximo. Isso indica que a perfeição exigida por Cristo não é uma exortação à impecabilidade absoluta, na vida ou no culto, ou de uma construção aparentemente impecável de pureza; nem tão pouco indica a necessidade de uma relação irretocável com Deus.

A nossa busca pela perfeição é um crescimento no Amor, que se concretiza por um novo modo de se relacionar com Deus e também com nossos irmãos. “Ao lermos as Escrituras, fica bem claro que a proposta do Evangelho não consiste só numa relação pessoal com Deus. E a nossa res­posta de amor também não deveria ser entendida como uma mera soma de pequenos gestos pes­soais a favor de alguns indivíduos necessitados, o que poderia constituir uma "caridade por re­ceita", uma série de ações destinadas apenas a tranquilizar ou anestesiar a consciência. A proposta é o Reino de Deus (cf. Lc 4,43); trata-se de amar verdadeiramente e praticamente a Deus. Na medida em que Ele conseguir reinar entre nós, a vida social será um espaço de fraternidade, de justiça, de paz, de dignidade para todos” (Evangelii Gaudium §180). 

“Amai os vossos inimigos e rezai por aqueles que vos perseguem. Assim, vos tornareis filhos do vosso Pai que está nos Céus, porque ele faz nascer o sol sobre maus e bons e faz cair a chuva sobre justos e injustos” (Mt 5,44-45). As palavras de Jesus devem nos incomodar, tiranr-nos do comodismo, fazer-nos dar mais do que aquilo que é justo, mais do que se pode calcular pela lógica da retribuição humana. É preciso entrar na dinâmica da gratuidade, que tem a sua força na encarnação do Filho de Deus: Deus que se torna humano e ama os pecadores, não retribui mal com mal, mas dá a vida também pelos seus agressores. Ele faz chover sobre maus e bons, não ama apenas os santos. Jesus nos ensina a amar de modo gratuito, sem prestar atenção no limite do irmão, pois somos todos falhos, pequenos, participantes solidários do pecado.

Diante dos enfrentamentos humanos, o primeiro movimento costuma ser a vingança. Parece ser justo retribuir o mal com o mal, destruir o agressor. É preciso ter consciência dos movimentos de nosso coração, com a clareza de que somos capazes de agredir, vingar, bater e até matar. A consciência de que somos também agressores ajuda-nos a crescer no Amor. É preciso que se tenha clareza de que é muito fácil e espontâneo viver uma vida narcísica, egoísta. Disse a poetisa Cecília Meireles: “É difícil fazer alguém feliz, assim como é fácil fazer triste. É difícil dizer eu te amo, assim como é fácil não dizer nada. É difícil valorizar um amor, assim como é fácil perdê-lo para sempre”. 

Estamos diante da concupiscência humana, esta fraqueza que nos faz tender sempre para o mal. Precisamos lutar contra esse tendência todos os dias, a todo instante. Diante do movimento de ódio e ressentimento, Jesus nos dá o remédio da oração. Não é possível orar por alguém sem que haja algum movimento positivo no coração. Quando oramos por alguém, amamos esta pessoa em Deus. Por isso, este é o primeiro passo para destruir a corrente de vingança e ódio. Dar a outra face não significa uma atitude ingênua e talvez meio suicida, mas sim a capacidade de dar uma nova chance. Todos, inclusive nós, queremos sempre uma nova oportunidade de tentar ser bom, de reconstruir o que foi destruído. 

É preciso viver o amor genuíno: o santo Amor de Jesus. Viver na dinâmica do ódio e da vingança é paganismo. Assim, o Evangelho nos questiona sobre o sentido mais profundo de nossa religião. Somos realmente seguidores de Jesus? Que atitudes nossas vêm demonstrando sintonia com as exigências desta Palavra de Deus? Só pela fidelidade no Amor é que podemos nos considerar filhos do Pai Celeste.

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Adaptado da homilia do  Pe. Roberto Nentwig, para o 7º Domingo do Tempo Comum, ano A, disponível em:

http://catequeseebiblia.blogspot.com.br/2014/02/homilia-do-7-domingo-do-tempo-comum-ano.html
Acesso 22/2/014
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Livros citados pela Bíblia atualmente perdidos

O mais antigo fragmento conhecido do Novo Testamento (papiro do Evangelho de S. João, descoberto no Egito), data da primeira metade do século 2. Os escritos aparecem em ambos os lados, e a frente contém os versículos 31-33. No verso, versículos 37-38. - Biblioteca John Rylands (Manchester, Inglaterra)

UM ASSUNTO muito interessante para quem aprecia o estudo da História, da Teologia e especialmente das Sagradas Escrituras. Você sabia que diversos livros escritos e observados juntamente com as Escrituras canônicas, nos tempos antigos, foram perdidos no correr dos séculos? Abaixo, a lista desses livros e suas citações no texto da Bíblia que conhecemos. A Bíblia Sagrada, em sua forma atual, é o conjunto dos livros que pela fé são aceitos como divinamente inspirados pelo Concílio de Trento (1545-63). Entretanto, além dos textos autênticos, existem os livros apócrifos. Embora alguns destes tenham sido resgatados, grande parte deles se perdeu e hoje são conhecidos apenas por alusão indireta, como um grupo de vinte e sete livros irremediavelmente perdidos, que listamos abaixo.


1. Livro das Guerras de YHWH: "Por isso se diz no Livro das Guerras de YHWH: 'Assim como fez no Mar Vermelho, assim fará nas torrentes do Arnon. Os rochedos das torrentes se inclinaram, para descansar em Ar, e repousarem sobre os confins dos moabitas'" (Nm 21,14-15).

2. Livro do Justo: "Foi então que Josué falou ao Senhor, no dia em que o Senhor entregou os amorreus aos filhos de Israel. Disse Josué na presença de Israel: 'Sol, detém-te em Gabaão, e tu, lua, no vale de Ajalão!' E o sol e a lua pararam até que o povo se vingou de seus inimigos. Não está isto escrito no Livro do Justo? Parou pois o sol no meio do céu, e não se apressou a pôr-se durante o espaço de um dia" (Js 10,12-13).

"E (Davi) ordenou que ensinassem aos filhos de Judá o (cântico chamado do) arco, conforme está escrito no Livro do Justo. E disse: 'Considera, ó Israel, os que morreram sobre os teus altos, cobertos de feridas'" (2Sm 1,18).

3. Provérbios e Cânticos de Salomão: "Proferiu ele (Salomão) três mil provérbios, e foram os seus cânticos mil e cinco. Discorreu acerca das plantas, desde o cedro que está no Líbano até o hissopo que brota da parede. Também falou dos animais e das aves, e dos répteis, e dos peixes" (1Rs 4,32-33).

4. Livro dos Atos de Salomão: "Quanto aos demais atos de Salomão, e a tudo quanto fez, e à sua sabedoria, porventura não está escrito no Livro dos Atos de Salomão?" (1Rs 11,41).

5. Livro das Crônicas dos Reis de Israel: "Quanto ao restante dos atos de Jeroboão, como guerreou e como reinou, está escrito no Livro das Crônicas dos Reis de Israel" (1Rs 14,19).

6. Livro das Crônicas dos Reis de Judá: "Quanto ao restante dos atos de Roboão, e a tudo quanto fez, porventura não está escrito no Livro das Crônicas dos Reis de Judá?" (1Rs 14,29).

7. Livro do Profeta Natã: "Os atos do rei Davi, tanto os primeiros quanto os últimos, estão escritos no livro de Samuel, o vidente, no Livro de Natã, o profeta, e no Livro de Gade, o vidente" (1Cr 29,29).

"Quanto ao resto dos atos de Salomão, dos primeiros aos últimos, porventura não estão escritos no livro da história de Natã, o profeta, e nos livros de Aías, o silonita, e nas visões de Ado, o vidente, acerca de Jeroboão, filho de Nebate?" (2Cr 9,29).

8. Livro de Samuel, o Vidente: "Os atos do rei Davi, tanto os primeiros quanto os últimos, estão escritos no livro de Samuel, o vidente, no Livro de Natã, o profeta, e no Livro de Gade, o vidente" (1Cr 29,29).

9. Livro de Aías, o Silonita: "Quanto ao resto dos atos de Salomão, dos primeiros aos últimos, porventura não estão escritos no livro da história de Natã, o profeta, e nos livros de Aías, o silonita, e nas visões de Ado, o vidente, acerca de Jeroboão, filho de Nebate?" (2Cr 9,29).

10. Livro de Ado, o Vidente: "Quanto ao resto dos atos de Salomão, dos primeiros aos últimos, porventura não estão escritos no livro da história de Natã, o profeta, e nos livros de Aías, o silonita, e nas visões de Ado, o vidente, acerca de Jeroboão, filho de Nebate?" (2Cr 9,29).

"Quanto ao resto dos atos de Roboão, dos primeiros aos últimos, está escrito nos livros de Semaias, o profeta, e de Ado, o vidente, e diligentemente registrado: 'houve guerra entre Roboão e Jeroboão durante todos os seus dias'" (2Cr 12,15).

"Quanto ao resto dos atos de Abias, seu caráter e obras, está diligentemente escrito no Livro de Ado, o profeta" (2Cr. 13,22).

11. Livros de Semaias, o profeta: "Quanto ao resto dos atos de Roboão, dos primeiros aos últimos, está escrito nos livros de Semaias, o profeta, e de Ado, o vidente, e diligentemente registrado: 'houve guerra entre Roboão e Jeroboão durante todos os seus dias'" (2Cr 12,15).


Fragmento da Septuaginta Grega

12. Livro dos Reis de Judá e Israel: "Mas os feitos de Asa, dos primeiros aos últimos, estão escritos no Livro dos Reis de Judá e Israel" (2Cr 16,11).

13. Livro dos Reis de Israel e Judá: "Quanto ao resto dos atos de Joatão, e todas as suas guerras e obras, estão escritos no Livro dos Reis de Israel e Judá" (2Cr 27,7).

14. Livro dos Reis: "O relato dos seus filhos, as muitas sentenças proferidas contra ele e o registro da restauração da casa de Deus, estão escritos diligentemente no Livro dos Reis. E Amasias, seu filho, reinou em seu lugar" (2Cr 24,27).

15. Anais dos Reis de Israel: "Mas o resto dos atos de Manassés, sua oração ao seu Deus e as palavras dos videntes que falaram-lhe em nome do Senhor Deus de Israel, estão contidas nos Anais dos Reis de Israel" (2Cr 33,18).

16. Comentários de Jeú, filho de Hanani: "Mas o resto dos atos de Josafá, dos primeiros aos últimos, estão escritos nos comentários de Jeú, filho de Hanani, que observou nos Livros dos Reis de Israel" (2Cr 20,34).

17. A História de Osias, por Isaías, filho de Amós, o profeta: "Mas o resto dos atos de Ozias, dos primeiros aos últimos, foi escrito por Isaías, filho de Amós, o profeta" (2Cr. 26,22).

18. Livro de Hozai: "A oração que ele (Manassés) fez, como foi ouvido, todos os seus pecados e o desprezo (de Deus), os lugares também em que mandou edificar altos, em que mandou plantar bosques, e colocar estátuas, antes de fazer penitência, encontra-se tudo escrito no Livro de Hozai" (2Cr 33,19).

19. Livros dos Medos e dos Persas: "Ora, o rei Assuero tinha imposto tributo a toda terra e todas ilhas do mar. Nos Livros dos Medos e dos Persas se acha escrito qual foi o seu poder e o seu domínio, a dignidade e a grandeza a que ele exaltou Mardoqueu" (Est. 10,1-2).

20. Anais do Pontificado de João: "O resto dos atos de João, das suas guerras, das empresas que valorosamente se portou, da reedificação dos muros que construiu e de todas as suas ações, tudo está escrito no Livro dos Anais do seu pontificado, começando desde o tempo em que foi constituído sumo-pontífice em lugar de seu pai" (1Mc 16,23-24).

21. Descrições de Jeremias, o profeta: "Nos documentos referentes ao profeta Jeremias, lê-se que ele ordenou aos que eram levados para o cativeiro que tomassem o fogo, como já foi referido, e que lhe faz recomendações (...) Lia-se também nos mesmos escritos, que este profeta, por uma ordem particular recebida de Deus, mandou que se levassem com ele o tabernáculo e a Arca, quando escalou o monte a que Moisés tinha subido para ver a herança de Deus. Tendo ali chegado, Jeremias achou uma caverna; pôs nela o tabernáculo, a Arca e o altar dos perfumes, e tapou a entrada. Alguns dos que o seguiam voltaram de novo para marcar o caminho com sinais, mas não puderam encontrá-lo" (2Mac. 2,1.4-6).

22. Memórias e Comentários de Neemias: "Estas mesmas coisas se achavam nos comentários e memórias de Neemias, onde se lia que ele formou uma biblioteca, recolhendo os livros referentes aos reis e profetas, os de Davi e as cartas dos reis respeitantes às oferendas" (2Mc 2,13).

23. Os Cinco Livros de Jasão de Cirene: "A história de Judas Macabeu e seus irmãos, a purificação do grande templo e a dedicação do altar, as guerras contra Antíoco Epífanes e seu filho Êupator, as manifestações do céu a favor dos que pelejaram pelo judaísmo com valentia e zelo, os quais, sendo poucos, se tornaram senhores de todo o país e puseram em fuga um grande número de bárbaros, recobraram o templo famoso em todo o mundo, livraram a cidade da escravidão, restabeleceram as leis que iam ser abolidas, graças ao Senhor que lhes foi propício com evidentes provas da sua bondade, tudo isto, que Jasão de Cirene escreveu em cinco livros, procuramos nós resumir num só volume".


No Novo Testamento:

1. A Epístola Prévia de Paulo aos Coríntios: "Por carta vos escrevi que não tivésseis comunicação com os fornicadores; não certamente com os fornicadores deste mundo, ou com os avarentos, ou ladrões, ou com os idólatras; doutra sorte deveríeis sair deste mundo." (1Cor 5,9-10).

2. Epístola de Paulo aos Laodicenses: "Saudai os irmãos que estão em Laodiceia, e Ninfas e a igreja que se reúne em sua casa. Lida que for esta carta entre vós, fazei que seja lida também na Igreja dos Laodicenses; e vós, lede a carta dos laodicenses" (Cl 4,15-16).

3. A Profecia de Enoque: "Também Enoque, o sétimo patriarca depois de Adão, profetizou destes, dizendo: 'Eis que vem o Senhor, entre milhares dos seus santos, a fazer juízo contra todos, e a arguir todos os ímpios de todas as obras da sua impiedade, que impiamente fizeram, e de todas as palavras injuriosas, que os pecadores ímpios têm proferido contra Deus'" (Jd 1,14-15).

4. A Disputa pelo Corpo de Moisés: "Ora, quando o Arcanjo Miguel debatia com o demônio e lhe disputava o corpo de Moisés, não ousou fulminar contra ele uma sentença de execração, mas disse somente: 'Que o próprio Senhor te repreenda!'" (Jd 1,9).

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Ref.:
Artigo de "Charles the Hammer"
Fonte:
Website "Traditional Catholic Apologetics", com t
radução de Carlos Martins Nabeto, para o blog Vida Cristã, disponível em
http://adalges.blogspot.com/2011/09/livros-citados-pela-biblia-actualmente.html
acesso 18/2/014
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Fiel católica obtém Milagre em Israel


Janeiro/014 – A CURA DO CÂNCER de Teresa Daoud, com fortes sinais de milagre,  – uma devota católica de nacionalidade israelense – abalou Israel, conforme publicou o noticioso "The Blaze".

Ela narrou o seu caso, em detalhes, ao Canal 2 de Israel, que também entrevistou seus médicos e analisou o caso clínico. Teresa sofria de um câncer maligno na perna, o qual se desenvolvia rapidamente. Sem alternativa, os médicos decidiram então amputar-lhe a perna.

A cirurgia foi adiada três vezes por razoes burocráticas. Ela interpretou os adiamentos como um sinal de que devia confiar mais na oração do que na intervenção médica. O Dr. Jacob Bickels, chefe do Departamento de Oncologia Ortopédica do Hospital Ichilov, em Tel Aviv, disse: “Era claro para mim que ela ia morrer em pouco tempo. Ela é uma mulher instruída, inteligente, lúcida, e quando uma pessoa assim toma uma decisão sabendo bem das consequências, nós a respeitamos”.


Teresa Daoud rezando na pequena igreja de S. Charbel Macklouf

Teresa ia rezar na igreja católica de sua cidade (foto). É uma igrejinha singela, precedida por uma grande escadaria, que agora ela pode subir com naturalidade. No seu interior há apenas um grande cruzeiro, a imagem de Nossa Senhora de Fátima, um quadro de São Charbel Macklouf e um humilde presépio.

Miraculosamente, segundo divulgado pea mídia israelense, quando Teresa estava no quinto mês da doença, de súbito novas chapas radiogáficas evidenciaram que o câncer havia desaparecido completamente(!). “Se alguém tivesse me contado esta história, eu teria dito que os dois, a doente e o doutor, estavam mal da cabeça. Isto é impossível!”, declarou o Dr. Jacob ao Canal 2 de Israel.

Professor em alta tecnologia médica, o Dr. Jacob mostrou as chapas do "antes e depois", que provam como o câncer, que se espalhava de modo violento, tinha desaparecido pura e simplesmente sem nenhum tratamento(!).



“Eu sentia dores em meu pé e em meu tornozelo, mas de início tentei ignorar”, explicou Teresa. Os médicos mandaram realizar radiografias e acharam um câncer do tamanho de uma laranja. A biópsia revelou tratar-se de um tumor maligno que crescia velozmente.

“Para mim foi um choque”, disse Teresa à TV, “mas eu comecei a pensar na minha vida sem a perna”. Após consultas com especialistas em oncologia de Israel e dos EUA, a única solução dada pela medicina era unânime: amputar. Teresa voltou ao seu lar em Ussfiya, uma aldeia árabe perto de Haifa, e rezou intensamente por sua cura.

Três meses depois, ela voltou ao Hospital Ichilov para mais uma consulta com o Dr. Jacob Bickels. As novas radiografias confirmaram, simplesmente, que o câncer tinha desaparecido! “Eu tive um choque quando eu vi o resultado, não podia acreditar. Eu perguntei ao doutor se não era uma confusão” – disse Teresa.

"Eu perguntei a ela o que tinha acontecido. Ela sorriu largamente e disse: ‘Eu rezei!’". - Eu então ordenei tirar novas radiografias, e o tumor havia se reduzido de modo impressionante!”, – contou o Dr. Jacob. - “Eu jamais tinha visto ou ouvido algo como isto. Eu sei que um câncer desse tipo não retrocede!”, explicou o médico.

Para que se tivesse certeza plena, Teresa foi objeto de mais uma biópsia, que foi realizada pelo próprio chefe do Departamento de Oncologia Ortopédica. “Este fenômeno não é possível e não há literatura clínica alguma nesse sentido!”, concluiu o especialista. “Cada vez que rezo, eu sinto paz e segurança. Eu tinha medo, mas estava em paz”, explicou Teresa.

“O efeito das coisas que acontecem na alma humana sobre as coisas que acontecem em seu corpo é uma área sobre a qual nós não entendemos praticamente nada”, acrescentou o Dr. Jacob Bickels. “Na minha opinião, isto é o que explica o caso de Teresa. Eu sou um homem prático. Eu sou um cirurgião de câncer. Eu não procuro soluções nos Céus, mas a única coisa que nós fizemos por Teresa foi demorar a tratá-la. Ela de fato não foi tratada.”, – Concluiu ele.

“É um presente de Deus!”, concluiu Teresa, por sua vez, com a singeleza daqueles que têm fé, para a TV israelense.

“Em verdade vos digo: se tiverdes fé do tamanho de um grão de mostarda, direis a esta montanha: ‘Vai daqui para lá’, e ela irá. Nada vos será impossível.”
(Mt 17,20)


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Fonte:
Rede noticiosa The Blaze, disponível em:
http://www.theblaze.com/stories/2014/01/05/a-gift-from-god-woman-and-her-doctor-say-prayer-miraculously-healed-her-malignant-cancerous-tumor/
Acesso 16/2/014
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6º Domingo do Tempo Comum, ano A, Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo S. Mateus (5,17-37)


DIANTE DO EVANGELHO deste domingo, antes de tudo, é preciso compreender o seu espírito. O decálogo de Moisés nem sempre era propositivo: “Não matarás, não adulterarás, não roubarás...”. A lei dizia “Não”. Jesus havia antes dado o preâmbulo do seu discurso: as bem-aventuranças. Sua pregação é propositiva e positiva, ao chamar os seguidores da Boa Nova, isto é, do Evangelho, de felizes, bem-aventurados. 

Percebemos que Jesus não está preocupado com a exterioridade da Lei, mas com a interioridade. Não com a aparência, mas com a essência. A Lei é importante pois é pedagogia, estabelece os limites que esclarecem e opõem o certo ao errado. Mas a Lei, separada de sua essência, do seu propósito fundamental, por si só pode escravizar. S. Paulo Apóstolo é o exemplo de buscador da Verdade que percebeu que, em determinado ponto do percurso, sem que percebesse, tornou-se alguém que apenas vivia uma série de preceitos, automaticamente, inconscientemente. Ele já não era mais livre, na posição de fariseu rígido que vivia por um conjunto de regras e preceitos, esquecido do fundamento e da razão dessas regras e preceitos. O Apóstolo escreveu em suas cartas que, antes de conhecer o Cristo, era um seguidor da norma fria; vivia deste modo para que sua consciência ficasse em paz, esperando a recompensa "obrigatória" da parte de Deus. 

Jesus, porém, no Sermão da Montanha apresenta a Boa Nova como um caminho que não apenas nos liberta do pecado, mas também da escravidão da Lei. Isso não quer dizer, de modo algum, que devamos viver sem Lei, mas sim que o seguidor do Caminho, que é Jesus Cristo, não deve olhar apenas para as formas e preceitos, esquecendo-se do significado maior que há por trás e antes deles: "A Lei foi feita para o homem, e não o homem para a Lei" (cf. Mc 2,27-28). Sempre haverá o risco de olharmos para o preceito, esquecendo-nos da lei fundamental do Amor-Caridade e da Misericórdia. 

O Evangelho nos leva também a olhar para a totalidade de nossa vida, para o significado de nossa existência diante da proposta divina. Seria um erro, nessa linha, ler o texto do Evangelho deste domingo sem o espírito de Jesus. Deste modo, poderíamos nos sentir ainda mais aprisionados pelas palavras do Cristo, vendo-o como um "novo Moisés", do que pelos preceitos judaicos. O Senhor deseja que olhemos com novo olhar, que tenhamos a Lei do Amor-Caridade em nossos corações. Assim, mais do que uma vivência exterior e superficial do cristianismo, é preciso amar como Jesus amou, - amar a todos e perdoar a quem nos agride; cultivar a cada dia um novo modo de relacionamento com o nosso próximo; viver o matrimônio sem egoísmos e irresponsabilidades; falar a verdade sem artifícios ('O teu sim seja sim e o teu não seja não' - Mt 5,37); estar, enfim, no mundo como reflexo do Cristo que vive em nós.

Por isso, não basta confessar os pecados a cada passo, numa consciência obstinada pela pureza e não ter a vida toda transformada, convertida, o que implica em um coração verdadeiramente voltado para Deus. Devemos confessar, sim, e mudar de rumo. Conversão significa uma mudança radical de direção. Jesus diz: "Vai e não peques mais". Não basta obter o perdão somente para voltar a cair novamente nas mesmas armadilhas. 

É possível, - e é isto que muitos fazem, - viver uma religião falsa, um seguimento aparente, uma disciplina religiosa rígida, porém sem fé verdadeira, sem amor, sem alegria. Ser cristão não é ser escravo de proibições, fugindo do pecado pelo medo da condenação do Deus vingador. Ser cristão é ser seguidor do Cristo movido por seu Amor ilimitado e transcendente. É sair de si mesmo movido pela mística do Encontro pessoal que coloca a vida em movimento na direção do próximo e do próprio Deus: “Se quiseres observar os Mandamentos, eles te guardarão; se confias em Deus, tu também viverás. (...) Diante do homem estão a vida e a morte, o bem e o mal; ele receberá aquilo que preferir” (Eclo 15, 16-18). 

Em nossa vida, fazemos escolhas a todo momento. Deus respeita totalmente nossa liberdade de escolha, não nos força a nada. Somos absolutamente livres até para escolher a morte. Por outro lado, a proposta divina de salvação, como orientação de vida, está sempre diante de nós: apresenta-se o bem e o mal, e ao mesmo tempo a vida e a morte: se escolhermos bem, escolhemos a felicidade eterna; se escolhemos o mal, optamos pela ruína. 

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* Adaptado da Homilia do 6º Domingo do Tempo Comum, Ano A, do Pe Roberto Nentiwg
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Entendendo a Inquisição e as Inquisições

Eis uma das citações favoritas daqueles que têm por hobby caluniar a Igreja. Mas o que eles sabem realmente sobre a Inquisição?



QUE IMAGENS nos vêm à mente quando pensamos na palavra “Inquisição”? Há uma multidão que imediatamente visualiza cenas de tortura e pessoas inocentes sendo queimadas na fogueira. É comum ouvirmos gravíssimas acusações contra a Igreja toda vez que se toca neste assunto. Muitos acham que a Igreja, se cometeu atrocidades no passado, não merece crédito hoje. E por puro desconhecimento da História, muitos católicos não sabem o que responder. A primeira pergunta a se fazer para quem critica a Igreja por conta da Inquisição é: quais livros você leu sobre o assunto?

Muitas pessoas têm o péssimo hábito de afirmar categoricamente, como se fossem verdades absolutas, coisas das quais apenas ouviram falar, que viram em algum filme hollywoodiano ou leram em alguma revista. Não negamos que a Inquisição cometeu abusos – alguns graves –, mas lembramos ao leitor: se você quer ser honesto, precisa procurar conhecer a verdade dos fatos antes de formar opinião. Neste artigo, buscamos lançar alguma luz sobre a questão, com fundamentação na História real. Não na imaginação de um diretor cinematográfico em busca de alta bilheteria.


1. O primeiro passo

Para começar a entender a questão, é fundamental conhecer o contexto mental, histórico, cultural e político da época. O maior de todos os erros ao se analisar este assunto é querer julgar fatos ocorridos numa outra era usando os padrões de moral de hoje.

A mentalidade, os valores éticos e os conceitos de moral mudam (normalmente progridem) com o passar do tempo. Sem a consciência de que a moral humana evolui é inviável analisar acontecimentos antigos. Tomemos como exemplo o próprio Antigo Testamento da Bíblia: os hebreus aplicavam a pena de morte por apedrejamento aos membros da comunidade que transgredissem a lei de Moisés, até mesmo aos filhos desobedientes (conf. Dt 21,18-21 e outros). Nos dias de hoje, uma pena dessas seria vista como desumana, cruel, hedionda. Naquela época, dentro da mentalidade e da cultura daquele período histórico, era considerada um ato de justiça.

Sim, o tempo passa e os conceitos de moral e justiça vão se aperfeiçoando. E, como cristãos, cremos que é Deus mesmo Quem nos dá consciência e capacidade intelectual para que possamos evoluir e viver cada vez mais e melhor o Caminho de Salvação, preparado para toda a humanidade e cumprido plenamente em Cristo.

O primeiro passo neste estudo, portanto, é entender o óbvio: a Inquisição existiu num período histórico muito diferente do nosso, com padrões de moral e justiça completamente diversos dos que conhecemos atualmente. Diga-se que falar mal do rei ou falsificar a moeda era punido com a pena de morte, o que era visto por aquela sociedade como perfeitamente correto e justo. Dentro desse contexto, o que mereceriam os traidores de Deus?


2. O 'telhado de vidro' dos acusadores da Igreja Católica

Outro erro grave é imaginar que a Inquisição Católica foi a única inquisição religiosa que existiu. Nesse período histórico, os governos de todas as nações eram extremamente violentos, se comparados aos de hoje; a lei e a ordem eram mantidas com mão de ferro e as penas eram sanguinárias em todas as culturas, tanto cristãs quanto islâmicas, hindus e pagãs em geral. Parece que uma página muito especial é descartada deste capítulo da História, por muita gente, quando se discute o assunto Inquisição. Responda rápido:

1) Que instituição religiosa condenou mais de 300 pessoas pela prática de bruxaria, decretando tortura e pena de morte na forca às famosas "bruxas de Salem"?1

2) Que instituição religiosa levou à morte mais de 30.000 camponeses anabatistas na Alemanha?2

3) Sob que ordens o médico espanhol Miguel Servet Grizar, o descobridor da circulação sanguínea, foi condenado a morrer na fogueira?3

4) Quem mandou para a fogueira mais de mil mulheres escocesas, num período de seis anos (1555 - 1561)?4

Sem dúvida muita gente responderia rapidamente, sem pensar e sem medo de errar, que a responsável por todas as barbaridades citadas acima foi a Igreja Católica. Resposta errada: todos esses crimes foram cometidos pela Inquisição Protestante, que quase nunca é mencionada pelos maiores críticos da Igreja Católica, simplesmente porque esses críticos, na maioria das vezes, são protestantes. Conhecimento seletivo? Parece que sim. Para piorar a situação, certos "pesquisadores" de porta de boteco só procuram conhecer os fatos que parecem confirmar aquilo em que eles querem crer.

Ocorre que também aqui, em terra brasilis, a maior parte dos que atiram pedras contra os católicos por conta da Inquisição é formada por protestantes/"evangélicos", como é o caso do blogueiro Júlio Severo, que em sua página publicou um lamentável artigo intitulado, simplesmente: "Como querem combater a cultura da morte (...) quando se sentem à vontade com a cultura da tortura e morte da Inquisição?", julgando que pode se colocar, enquanto protestante, acima da questão e julgando-se moralmente apto a julgar, de camarote, a Igreja Católica.

O que mostra a História real, porém, é que o Sacro Imperador Romano-Germânico Fernando I deu liberdade aos luteranos na luta contra os anabatistas, e o próprio Lutero escreveu um discurso, em 1528, no qual encorajava a perseguição dos que considerava hereges2. Como resultado, grupos da Inquisição Protestante esfolaram vivos os monges da Abadia de São Bernardo (Bremen), e depois passaram sal em suas carnes vivas, antes de pendurá-los no campanário do mosteiro3. Em Augsburgo, em 1528, cerca de 170 anabatistas foram aprisionados por ordem do poder público protestante, sendo que muitos deles foram queimados vivos e outros marcados com ferro em brasa nas bochechas ou tiveram a língua cortada.2 O célebre teólogo Johann Matthäus Meyfart (protestante ele próprio) descreveu a tortura aplicada pela Inquisição protestante, que ele presenciou, qualificando-a como uma intolerável “bestialidade”2, nos seguintes termos:

Nos países católicos não se condena um assassino, um incestuoso ou um adúltero a mais de uma hora de tortura. Na Alemanha protestante, porém, a tortura é mantida por um dia e uma noite inteira; às vezes, até por dois dias, outras vezes até por quatro dias e, após isto, é novamente iniciada. Esta é uma história exata e horrível, que não pude presenciar sem também me estremecer
('Christliche Erinnerung, an Gewaltige Regenten und Gewissenhafte Prädikanten', 1629-32)

Fique bem claro, porém, que não mencionamos o "telhado de vidro" protestante com a intenção de buscar a nossa justificação nos pecados alheios (o que seria absurdo). Se o fazemos é apenas para demonstrar a veracidade incontestável do primeiro ponto que apresentamos neste estudo: não é possível julgar fatos ocorridos em outras eras usando os padrões de moral de hoje, e absolutamente ninguém tem autoridade para fazê-lo. Se agirmos assim, não restará pedra sobre pedra de instituição humana alguma; a única solução possível será renegar e demolir tudo aquilo que construiu a civilização até o presente. Como se pode imaginar, este é um assunto longo, que não cabe neste estudo. O leitor que quiser saber mais a respeito pode ler um estudo próprio, acessando o link abaixo:

** Só em nome da Igreja Católica cometeram-se crimes ao longo da História?


3. Das causas da Inquisição da Igreja Católica

A Inquisição da Igreja Católica foi estabelecida na França, pelo Papa Gregório IX em 1231, para combater a heresia cátara, uma seita cuja doutrina contrariava todos os princípios que os Evangelhos e a Igreja defenderam desde o início do cristianismo. Foi uma das maiores ameaças à fé cristã de todos os tempos, mas não apenas isso. Os cátaros também ameaçavam a própria ordem social, pois eram contra a procriação e o Matrimônio. Consideravam malditas as grávidas, defendiam o suicídio por inanição, pregavam a renúncia radical aos prazeres, negando a Igreja e o culto religioso. Viam o corpo como intrinsecamente mau (uma manifestação do mal), e ensinavam a salvação através de um ciclo de reencarnações4.

Os cátaros ensinavam que nossos corpos e o mundo material tinham sido criados por um deus mal, e que o homem não devia se reproduzir. Para o catarismo, dois princípios eternos dividiam o Universo: um bom, criador do mundo dos espíritos, e um mau, criador do mundo terreno6. Como todas as heresias, o catarismo afirmava que a sua doutrina era o “verdadeiro cristianismo”, usando alguns termos e conceitos cristãos mas distorcendo seus significados e renegando os dogmas. Viam a Cristo como um “anjo caído” e negavam a Ressurreição do Senhor, rejeitando todos os Sacramentos. O aborto e o suicídio eram alguns dos seus princípios básicos4.

O catarismo se expandiu muito: dominaram o Languedoc, a Provença, influenciaram o nordeste da Espanha, a Lombardia, a Itália, a atual Yugoslávia e os Bálcãs. Passaram a ameaçar a estrutura da sociedade ocidental como um todo, e o problema cresceu a níveis realmente alarmantes, já que proibiam o juramento de lealdade, que era o fundamento das relações. Combatidos pelo Estado, os cátaros se ocultaram, mas continuaram difundindo suas ideias e práticas7.

O catarismo tornou-se uma ameaça grande demais para ser tolerada. A população assustada clamava por uma providência firme, e o Estado passou a perseguir os cátaros com grande violência. Com o tempo, a situação ficou insustentável, havia uma histeria e pessoas inocentes estavam sendo perseguidas e executadas sob falsas acusações. Assim, por incrível que possa parecer aos nossos ouvidos, tão habituados a ouvir grandes calúnias com este pretexto, a Inquisição surgiu como uma providência da Igreja para combater a onda de violência e buscar a justiça no combate à heresia.


4. Simpósio Internacional sobre a Inquisição – dos métodos da Inquisição católica que realmente existiu (não a dos filmes)

Como dissemos no início, todo inimigo da Igreja em algum momento apela para o argumento da Inquisição (que nos ambientes acadêmicos já está bem ultrapassado). Por incrível que pareça, muitos desavisados ainda acreditam nas fábulas claramente tendenciosas (para dizer o mínimo) escritas por Voltaire e outros. Chegamos a ouvir e ler que a Igreja teria mandado matar 4 milhões de mulheres só na Inglaterra(!), quando a população de Londres do século XV era de aproximadamente seis milhões de pessoas... Bem, se ainda existem ingleses no mundo, hoje, aí está a prova cabal da ridícula calúnia.

O Papa João Paulo II afirmou certa vez: “Na opinião do público, a imagem da Inquisição representa praticamente o símbolo do escândalo”. E perguntou “Até que ponto essa imagem é fiel à realidade?”. Vamos, então, aos fatos: evidentemente, a elucidação da questão depende diretamente dos dados e números históricos; apresentamo-los abaixo.

Tomamos como referência as atas do Grande Simpósio Internacional sobre a Inquisição (L'inquisizione. Atti del Simposio internazionale (Città del Vaticano, 29-31 ottobre 1998 / 9788821007613 / cura di Agostino Borromeo, editora da Biblioteca Apostolica Vaticana, 2003) – do qual participaram 30 reconhecidos historiadores de diversas confissões religiosas –, com o objetivo de conferir um tratamento histórico e definitivo ao controverso tema Inquisição: uma proposta feita e motivada (atenção) pela própria "cruel" Igreja Católica.

O encontro realizou-se entre os dias 29 e 31 de outubro de 1998. Com a total abertura dos arquivos da Congregação do Santo Oficio e da Congregação do Índice. As atas deste Simpósio foram, alguns anos depois, reunidas e apresentadas ao público sob a forma de livro, contendo 783 paginas, intitulado originalmente “L’Inquisioni”, por Agostinho Borromeo, historiador, professor da Universidade de La Sapienza de Roma e presidente do Instituto Italiano de Estudos Ibéricos. 

As atas documentais do Simpósio já foram e continuam sendo utilizadas em diversas obras acadêmicas; tais documentos são o resultado de uma profundíssima pesquisa sobre os dados realmente históricos dos processos inquisitoriais: as seguintes afirmações foram proferidas pelo citado Agostinho Borromeo9:

• Sobre a “terrível” Inquisição espanhola: “A Inquisição na Espanha celebrou, entre 1540 e 1700, 44.674 juízos. Os acusados condenados à morte foram apenas 1,8% (804) e, destes, 1,7% (13) foram condenados em 'contumácia', ou seja, pessoas de paradeiro desconhecido ou falecidos os quais, em seu lugar, simbolicamente se 'executavam' bonecos”. É fundamental entender que a Inquisição espanhola foi uma instituição principalmente civil, não controlada pela Igreja, e que a própria Igreja censurou e tomou medidas contra ela7. Também é fundamental saber que quase tudo o que se divulgou a respeito da Inquisição espanhola é fruto das calúnias difundidas pelo ex-padre Juan Antonio Llorente, um apóstata que produziu documentos sobre a Inquisição na Espanha com o interesse de ajudar a França de Napoleão a dominar aquele país. Llorente queimou todos os documentos que usou, para que não se descobrissem falsificações7.

• Sobre a famosa “caça às bruxas”: “Dos 125.000 processos ocorridos em toda a sua história, os tribunais da Inquisição espanhola condenaram à morte 59 pessoas” (a propaganda anticatólica diz que foram 'milhões'!).

Constatou-se que os tribunais religiosos eram indubitavelmente mais brandos que os tribunais civis; que tiveram poucas participações nestes casos, o que não aconteceu com os tribunais civis que, estes sim, condenaram à morte milhares de pessoas.

• Sentenças de um famoso inquisidor – “Em 930 sentenças que o Inquisidor Bernardo Guy pronunciou, em 15 anos, houve 139 absolvições, 132 penitências canônicas, 152 obrigações de peregrinações, 307 prisões e 42 'entregas ao braço secular'”, isto é, ao Estado (AQUINO, 2009, p.23).

O Simpósio concluiu, ao final, que as penas de morte e os processos em que se usou de tortura foram raros e pouco expressivos, ao contrário do se imaginava e do que foi amplamente propagado, por séculos a fio. Tais dados históricos definitivos representam a verdadeira demolição das falsas e fantasiosas ideias sobre a Inquisição. 

• Sobre a tortura, que era imposta pelo Estado, e não pela Igreja - a Inquisição foi a primeira instituição jurídica no mundo a declarar que as confissões sob tortura não seriam válidas para a condenação de alguém. A Inquisição exigiu que a tortura fosse limitada, e que deveria ser usada apenas para a obtenção de informações, e não como instrumento de punição. Que não poderia violar a integridade física da pessoa; que deveria ser limitada a no máximo meia hora, que deveria ser assistida por um médico e que jamais poderia se repetir4.

• O recurso da tortura, que era usado sempre nos tribunais laicos, não era constante na Inquisição, que recorreu muito raramente a esse procedimento: ao todo, menos de 10% dos processos usaram tal método8. A Inquisição impôs uma regra que proibia aos eclesiásticos derramar qualquer gota de sangue dos réus, e confissões obtidas sob tortura perderam a validade. No fim, o tribunal religioso condenou pouco8.

Notemos como a verdade histórica é radicalmente diferente daquela que vemos nos filmes de Hollywood (EUA = protestantismo). Os fatos surpreendem os leigos, acostumados a ouvir grandes e absurdos exageros. O fato é que a Inquisição também tinha por finalidade controlar os excessos de violência cometidos pelo Estado, e este é um fato tão certo que muitos presos, julgados pelos tribunais do Estado, passavam a blasfemar contra Deus e contra a Igreja, na esperança de serem transferidos para os tribunais da Inquisição5!

• Fato: as ações repressoras da Inquisição foram bem menos implacáveis que as civis, e indubitavelmente os métodos aplicados pela Inquisição eram mais humanos que os da autoridade civil: um notário transcrevia o processo, os acusados não ficavam presos durante o inquérito, podiam recusar um juiz e apelar para Roma contra alguma decisão do tribunal6. Por quê, então, se mantém uma imagem tão terrível do Santo Ofício? Por vários motivos, mas foi sobretudo o fanatismo do inquisidor espanhol Tomás de Torquemada (século XV), que ficou gravado na memória popular. Daí veio o protestantismo, no século XVI, o antipapismo anglicano, o iluminismo e o anticlericalismo dos séculos XIX e XX... Um conjunto de eventos e adversários da Igreja que pintaram um quadro pavoroso da Inquisição, que, mesmo sendo falso, ainda repousa na mentalidade do nosso tempo.

Poucas pessoas conhecem esses detalhes importantíssimos a respeito da História, mas muitos se acham qualificados para criticar a Igreja, imaginando que sabem tudo o que é preciso saber para formar e expressar opinião.

Finalizando, publicamos abaixo uma interessantíssima palestra do Prof. Dr. Ricardo Costa, da Universidade Federal do Espírito Santo, a respeito do tema preconceitos sobre a Idade Média.


Palestra do Prof. Dr. Ricardo Costa (UFES)




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Fontes e bibliografia:

1. ROSENTHAL, Bernard. Salem History, reading the withc trials of 1692. Cambridge: Cambridge, 1993.

2. HARVEY, Ralph V. & Verna, Ralph's Documents, artigo "Anabaptists and the Free Churches", disp. em
http://www.rvharvey.org/d-anabaptists.htm
Acesso 10/2/014.

3. MC'NEILL, John T. The History and Character of Calvinism, New York: Oxford University Press, 1954, p.176 
 [Miguel Grizar Servet foi queimado na fogueira como herege por ordem do Conselho de Genebra, presidido por João Calvino].

4. CAMMILIERI, Rino. La Vera Storia dell´Inquisizione, Piemme: Casale Monferrato, 2001.

5. GONZAGA, João Bernardino G. A Inquisição em seu Mundo. São Paulo: Saraiva, 1993.

6. AYLLÓN, Fernando. El Tribunal de la Inquisición; De la leyenda a la historia. Lima, Fondo Editorial Del Congreso Del Perú, 1997.

7. WALSH, William T. Personajes de la Inquisición. Madrid, Espasa-Calpe, S. A., 1963.

8. Revista "História Viva" nº 32 - especial Grandes Temas / A Redescoberta da Idade Média, São Paulo: Duetto março/2011, p. 52.

• BORROMEO, Agostino. L'inquisizione. Atti del Simposio internazionale (Atas do Simpósio sobre a Inquisição), Vaticano: Biblioteca Apostolica Vaticana, 1998/2003.

• FALBEL, Nachman. Heresias Medievais. São Paulo: Perspectiva S. A., 1977.

• PERNOUD, Régine. Luz Sobre a Idade Média. Sintra: Europa-América, 1981

 • MAISONNEUVE, Henri. L’Inquisition. Paris: Desclée, 1989.

• HEERS, Jacques. A Idade Média: uma Impostura. Lisboa: Asa, 1994.

• GIMPEL, Jean. A Revolução Industrial da Idade Média. Sintra: Europa-América, 2001.

** Download gratuito do livro "A Inquisição em seu Mundo", de João Bernardino Gonzaga

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