Presidente da Sociedade Teológica Evangélica retorna à Igreja Católica


MAIS UMA HISTÓRIA de "filho pródigo" dos nossos tempos. Francis Beckwith (foto) renunciou, há algumas semanas, ao seu cargo de Presidente da Sociedade Teológica Evangélica (ETS). O motivo? Seu retorno à Igreja a Católica, onde cresceu e que abandonou para abraçar o protestantismo.

Assim como no caso dos ex-pastores Alex Jones, Marcus Grodi e Scoth Hahn, entre muitos outros, também Beckwith relata que o início de sua volta à fé em que cresceu foi a leitura de bispos e teólogos dos primeiros séculos da Igreja (disciplina que no estudo da Teologia e da Filosofia recebe o nome 'Patrística' ou 'Patrologia').

Disse Beckwith: "Em janeiro, por sugestão de um amigo querido, comecei a ler aos Padres da Igreja assim como alguns trabalhos mais sofisticados sobre a justificação em autores católicos. Comecei a convencer-me que a Igreja primitiva é mais católica que protestante e que a visão católica da justificação, corretamente compreendida, é bíblica e historicamente defensável".

A partir daí iniciou-se um processo de conversão, e o perito já estava disposto a retornar à primeira e única Igreja instituída por Cristo quando terminasse seu serviço como presidente, em novembro do ano 2007. Entretanto, por meio do que pode ser visto como ação da divina Providência, seu sobrinho de 16 anos lhe pediu para ser seu padrinho de Crisma, no último dia 13 (maio/07) , o que o levou a reconsiderar sua decisão.

"Eu não podia dizer 'não' a meu sobrinho querido, que credita a renovação da sua fé em Cristo às nossas conversas e correspondência. Mas para fazê-lo, devo estar em total comunhão com a Igreja. Por isso, em 28 de abril passado recebi eu o Sacramento da Confissão", disse Beckwith, que espera que sua partida permita à Sociedade Teológica Evangélica estudar a autêntica Tradição da Igreja.

"Há uma conversa que deve realizar-se na ETS, uma conversa sobre a relação entre o 'evangelismo' e o que se chama 'Grande Tradição', uma tradição da qual todos os cristãos podem traçar sua paternidade espiritual e eclesiástica. É uma conversação que eu recebo com agrado, e da qual espero ser participante. Mas a minha presença na ETS como presidente, concluí, diminui as possibilidades de que ocorra esta conversa. Só exacerbaria a desunião entre cristãos que precisa ser remediada".

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Fonte:
ACI Digital, disponível em
http://www.acidigital.com/noticias/presidente-da-sociedade-teologica-evangelica-retorna-a-igreja-catolica-47921/
Acesso 3/6/07
www.ofielcatolico.com.br

Católico e espírita?! – calúnias espíritas contra a Igreja – conclusão

SEGUE ABAIXO a segunda parte do artigo sobre a disparidade que há entre o espiritismo e a Sã Doutrina de Nosso Senhor Jesus Cristo, visando esclarecer as difamações e calúnias frequentemente divulgadas por representantes do espiritismo numa tentativa de desonrar a Igreja Católica.


Leia antes a primeira parte deste estudo


2 – "O Vaticano não soube, porém, senão produzir obras de caráter exclusivamente material."
(p. 31)

No desenrolar do texto de Chico Xavier, escrito em nome do "espírito Emmanuel", o festival de absurdas e maldosas mentiras vai-se tornando cada vez pior. Segundo o suposto “espírito” – que a esta altura já poderíamos chamar tranquilamente de diabólico, pois quem sustenta falso testemunho está a serviço do maligno –, a Igreja Católica sempre foi fútil e nunca criou nada que auxiliasse a elevação da alma humana(!). Segundo ele, o canto sacro (gregoriano e franco-romano), a orquestra sinfônica, os corais polifônicos, a riquíssima arte sacra, a extasiante liturgia, o cerimonial da Santa Missa, do Matrimônio, bem como os ritos de todos Sacramentos, e mais além o método científico, a estruturação dos cemitérios (que resolveram um gravíssimo problema civil e de saúde pública), a arquitetura das igrejas e catedrais (que recriou a maneira de se pensar a engenharia da construção civil), os majestosos vitrais e esculturas que contavam as histórias da Bíblia para os analfabetos, a criação da Universidade, a cartografia, a alfabetização de tantos povos, as centenas de milhares de obras assistenciais e de caridade espalhadas pelo mundo, que foram o auxílio e a esperança dos feridos de guerra, dos doentes, órfãos, idosos, viúvas e inválidos abandonados pelo Estado em tantas épocas de crise, etc, etc, etc... Nada disso tem valor algum!

Tudo isso e muito mais é enquadrado pelo suposto "espírito" maligno, ao qual Xavier ousou dar como nome um título do Filho de Deus, como “obras de caráter exclusivamente material”...


3 – "Ninguém ignora a fortuna gigantesca que se encerra, sem benefício para ninguém, nos pesados cofres do Vaticano." (p. 57)

Peço perdão pelo desabafo, mas preciso observar que Xavier e/ou o seu “espírito” mentor, além de maledicente, é puramente estúpido. Existe, sim, alguém que ignora a “fortuna gigantesca” do Vaticano: o próprio Vaticano! Se alguém tiver dúvidas a esse respeito, basta confirmar a situação financeira do menor Estado do mundo, que hoje em dia é pública. O fato é que, já há vários anos consecutivos, o Vaticano vem apresentando déficit orçamentário (confira).

Não, o Vaticano não é rico, como pensam muitos. Seu maior patrimônio material se restringe, quase que unicamente, ao acervo em obras de arte, estas sim, de valor inestimável. São históricas, belíssimas e impressionantes. Mas isso não é sinônimo de fortuna e grande riqueza para um país. O Vaticano, como dito, é o menor país do mundo: bem administrado, mas não rico.


4 - "A Igreja fez mais vítimas que as dez perseguições mais notáveis" (p. 56):

Patético. Mais uma afirmação criminosa, que de tão esdrúxula sequer mereceria comentários. Todo inimigo da Igreja em algum momento apela para o ultrapassado argumento da Inquisição. Será que "o espírito" amigo de Chico Xavier acreditava nas fábulas escritas por Voltaire? Será que ele, por exemplo, acreditou que a Igreja teria mandado matar quatro milhões de mulheres na Inglaterra, como tantas vezes ouvimos e lemos por aí, quando a população de Londres do século XV era de aproximadamente seis milhões de pessoas? Bem, se ainda existem ingleses no mundo, hoje, esta já é a prova cabal da ridícula calúnia.

O Papa João Paulo II afirmou certa vez: “Na opinião do público, a imagem da Inquisição representa praticamente o símbolo do escândalo”. E perguntou “Até que ponto essa imagem é fiel à realidade?”. Vamos, então, aos fatos: aqui, a elucidação da questão depende diretamente dos dados e números históricos; apresentemo-los, então (para mais informações, leia este estudo específico):

Vamos tomar como referência as atas do grande Simpósio Internacional sobre a Inquisição – do qual participaram 30 reconhecidos historiadores de diversas confissões religiosas –, com o objetivo de conferir um tratamento histórico e definitivo ao controverso tema Inquisição: uma proposta feita e motivada (atenção) pela própria "cruel" Igreja Católica.

O encontro realizou-se entre os dias 29 e 31 de outubro de 1998. Com a total abertura dos arquivos da Congregação do Santo Oficio e da Congregação do Índice. As atas deste Simpósio foram, alguns anos depois, reunidas e apresentadas ao público sob a forma de livro, contendo 783 paginas, intitulado originalmente “L’Inquisioni”, por Agostinho Borromeo, historiador, professor da Universidade de La Sapienza de Roma e presidente do Instituto Italiano de Estudos Ibéricos. 

As atas documentais do Simpósio já foram e continuam sendo utilizadas em diversas obras acadêmicas; tais documentos são o resultado de uma profundíssima pesquisa sobre os dados realmente históricos dos processos inquisitoriais: as seguintes afirmações foram declaradas pelo historiador Agostinho Borromeo[1]:

Sobre a “terrível” Inquisição Espanhola: “A Inquisição na Espanha celebrou, entre 1540 e 1700, 44.674 juízos. Os acusados condenados à morte foram apenas 1,8% (804) e, destes, 1,7% (13) foram condenados em 'contumácia', ou seja, pessoas de paradeiro desconhecido ou falecidos os quais, em seu lugar, simbolicamente se 'executavam' bonecos”.

Sobre a famosa “caça às bruxas”: “Dos 125.000 processos ocorridos em toda a sua história, os tribunais da Inquisição espanhola condenaram à morte 59 pessoas” (a propaganda anticatólica diz que foram 'milhões'!).

Constatou-se que os tribunais religiosos eram indubitavelmente mais brandos que os tribunais civis; que tiveram poucas participações nestes casos, o que não aconteceu com os tribunais civis que, estes sim, condenaram à morte milhares de pessoas.

Sentenças de um famoso inquisidor – “Em 930 sentenças que o Inquisidor Bernardo Guy pronunciou, em 15 anos, houve 139 absolvições, 132 penitências canônicas, 152 obrigações de peregrinações, 307 prisões e 42 'entregas ao braço secular'”, isto é, ao Estado (AQUINO, 2009, p.23).

O Simpósio concluiu, ao final, que as penas de morte e os processos em que se usou de tortura foram raros e pouco expressivos, ao contrário do se imaginava e do que foi amplamente propagado, por séculos a fio. Tais dados históricos definitivos representam a verdadeira demolição das falsas e fantasiosas ideias sobre a Inquisição. E, sim, Chico Xavier e o "espírito Emmanuel" não só ajudaram a difundir essas graves calúnias históricas, como também exageraram-nas a um nível inédito.

Dados os parcos números finais sobre a Inquisição, e considerando-se que o "espírito evoluído" afirmou que "a Igreja fez mais vítimas do que as dez perseguições mais notáveis", poderíamos indicar-lhe, por exemplo, a leitura do Livro Negro do Comunismo (esgotado nas livrarias: download gratuito aqui), desenvolvido por vários pesquisadores de renome mundial e que aponta as 100 milhões de vítimas do regime vermelho.


5 – “...a imensidade de crimes perpetrados à sombra dos confessionários penumbrosos.” (p. 52):

A maledicência elevada à categoria poética! Se o “espírito” conhece tantos "crimes" assim, por que não cita pelo menos um? Note-se que a Igreja, Noiva do Cordeiro, é Santa e Imaculada, apesar de abrigar pessoas sujeitas ao pecado. E, como sempre dizemos por aqui, isto é assim desde os tempos de Pedro e Paulo. Evidente que padres, bispos e até alguns Papas falharam, e muitas vezes gravemente. A Igreja nunca negou tais fatos. Todavia, estas são indiscutivelmente exceções à regra. Temos uma superlativa maioria de Papas santos, sejam canonizados (80 pontífices receberam o título oficialmente) ou não.

Partindo do pressuposto que o “espírito Emmanuel” é uma “entidade de luz”, de mente elevada, é estranho que se ponha a denegrir toda a Instituição Igreja baseado numa minoria que não a representa, ao invés de reconhecer, por exemplo, a glória que merece uma multidão de santos; entre os papas, São Víctor III, Santo Eugênio III, São Gregório X, São Bento XI, Santo Inocêncio XI, São Pio IX; Santo Urbano II e Santo Urbano V ou Santo Inocêncio V, entre muitos outros, sem falar em Santo Agostinho, São Boaventura, Santo Tomás de Aquino, Santa Teresa de Ávila, São João da Cruz, Santa Teresa do Menino Jesus, São Gregório Magno, São Luiz Rei de França, Santa Catarina de Senna, Santa Perpétua, Santo Afonso de Ligório, São Josemaria Escrivá, São Thomas Moore, São Francisco de Assis, São João Maria Vianei, São Pio de Pietrelcina, São Pio X, Papa Leão XIII, Santa Rita de Cássia, Santo Antônio, São Bernardo, São Eleutério, etc, etc, etc...

Entre os expoentes da Igreja, são milhares de exemplos da mais nobre santidade e do mais alto quilate moral, contra pouquíssimos casos controversos. Mas o tal “espírito” faz questão de ignorar todo um imenso quadro de luzes e dar notoriedade à manchinha no canto da tela. Julga e condena baseado exclusivamente nas supostas falhas, que nem chega a citar, com a clara intenção de difamar e minar a confiança do povo em geral na Igreja, enquanto ignora toda uma maravilhosa história de dois mil anos de fé, heroísmo, caridade e luta pela justiça, revestida de grandiosos milagres, muitos comparáveis às maravilhas descritas na Bíblia (como os Milagres Eucarísticos, os Sinais de Fátima, as milhares de curas milagrosas clinicamente atestadas em Lourdes, e tantos outros), e a inestimável contribuição à construção da civilização ocidental.


6 – "O 'célebre livro de taxas', do tempo de Leão X, em que todos os preços de perdão para os crimes humanos estão estipulados.” (p. 61):

Neste ponto, o festival de barbaridades verbais torna-se cômico, malgrado ainda mais grave. "Célebre livro"?! Ora, o tal “espírito” deveria ter uma fonte de informação realmente muito privilegiada. Tão boa que sabe mais do que o próprio Leão X! Qualquer estudante ou pesquisador que disponha, por exemplo, da coletânea “Compêndio dos Símbolos, Definições e Declarações de Fé e Moral” (Denzinger e Hünermann, Paulinas & Loyola), que representa "a história da Santa Sé sem lacunas" e contém a totalidade dos documentos do Magistério com relação à fé e moral, com mais de 1.400 páginas, pode estudar a coleção dos documentos promulgados por Leão X e descobrir que não há ali absolutamente nada que faça referência ao tal “livro de taxas”.

Como todo caluniador da Igreja, o "espírito" acusa-a de crimes que muitas vezes nem sequer existiram ou daqueles que, se existiram, não foram cometidos por seus membros, como é o caso dos excessos ocorridos durante a baixa Idade Média pela população e pela nobreza, sem participação ou aprovação da Igreja, como já vimos por aqui. Acusar sem provas, difamar, mentir: estes seriam os hábitos de um “espírito de luz”?

Neste ponto abrimos parênteses para desmentir uma falsa informação amplamente difundida na internet, por páginas ateias, protestantes e espíritas: a existência de uma tal "taxa camarae", que teria sido promulgada em 1517[2]. Pois bem, os documentos de Leão X estão dispostos da seguinte maneira:

• Bula “Apostollici Regiminis” – 1513;
• Bula “Inter Multiplices” – 1515;
• Bula “Pastor Aeternus Gregem” – 1516 (esta inclusive determina a doutrina das indulgências conforme observada até os dias de hoje);
• Bula “Exsurge Domine” – 1520 (excomunhão de Martinho Lutero).

Demonstramos e comprovamos em definitivo, portanto, que não há nenhum documento da Igreja –, que tenha sido produzido por Leão X, em 1517, ou por qualquer outro papa, em qualquer outro ano –, que contenha as tais "taxas". Ainda assim, segundo "espírito" difamador, esse livro que não existe seria "célebre"...


7 - "...o dogma da Santíssima Trindade é uma adaptação ocidental da Trimurti da antiguidade oriental":

Esta é provavelmente a pior de todas as acusações. Antes de qualquer coisa é importante esclarecer que foi Allan Kardec quem adaptou e misturou doutrinas religiosas do oriente e do ocidente, numa “salada” sincrética absurda, para formular a sua doutrina, que ele chamou espiritismo; principalmente elementos do cristianismo com outros do hinduísmo.

Recordando que, segundo Nosso Senhor Jesus Cristo, o único pecado que não será perdoado é a blasfêmia contra o Espírito Santo, perguntamo-nos se Chico Xavier teria alguma noção sobre o que a doutrina da Igreja Católica ensina sobre a Santíssima Trindade e o que a doutrina hindu fala sobre a Trimurti, para chegar a proferir um desvario assim tão grande. Vejamos uma breve explicação:

A Doutrina sobre a Santíssima Trindade, segundo a fé católica, “consiste em venerar um só Deus (em Três Pessoas) na Trindade, e a Trindade na Unidade, sem confundir as Pessoas nem separar a Substância; pois uma é a Pessoa do Pai, outra a do Filho, outra a do Espírito Santo; mas uma é a Divindade (...)”[3].

O Catecismo da Igreja Católica esclarece ainda que "os cristãos são batizados 'em Nome' do Pai e do Filho e do Espírito Santo, e não 'nos nomes' destes três, pois só existe Um Deus, que é simultaneamente Pai Todo-Poderoso, seu Filho Único e o Espírito Santo: a Santíssima Trindade"[4]; e completa com a seguinte definição: "A Trindade é um Mistério de fé no sentido estrito, um dos 'Mistérios escondidos em Deus que não podem ser conhecidos se não forem revelados do alto'. Sem dúvida, Deus deixou vestígios de seu Ser trinitário em sua obra de Criação e em sua Revelação ao longo do Antigo Testamento. Mas a intimidade de seu Ser como Santíssima Trindade constitui um Mistério inacessível à pura razão e até mesmo à fé de Israel antes da Encarnação do Filho de Deus e da missão do Espírito Santo"[5].

A Visão hindu sobre a Trimurti é a seguinte: “O Sanatama Dharma, a teologia hinduísta, se fundamenta no culto aos avatares (manifestações corporais de um ente espiritual imortal), que muitos hinduístas reverenciam como deuses. Caso particular é o da Trimurti, trio divino composto pelos três maiores deuses: Brahma, o criador; Vishnu, o conservador, e Shiva, o destruidor. O culto direto aos membros da Trimurti, porém, é relativamente raro: em vez disso, costumam-se cultuar avatares mais específicos e mais próximos da realidade cultural e psicológica dos praticantes, como Krishna, Avatar de Vishnu”[6].

Basta um breve olhar para notar que são conceitos completamente diferentes, e que divergem fundamentalmente. Enquanto a Teologia cristã, que é monoteísta, define a Santíssima Trindade como um só Deus Todo-Poderoso que se manifesta à humanidade em Três Pessoas distintas, a Trimurti são três deuses separados, sendo cada um deles possuidor de atributos próprios: um cria, outro mantém e outro destrói a criação, e assim infinitamente num ciclo cósmico interminável.

Somente a imaginação de um desvairado lunático poderia conceber que os Papas tivessem plagiado os hindus para criar o “mito" da Santíssima Trindade. Mais inacreditável é a coragem para afirmar tal barbaridade mesmo com a disponibilidade das abundantes fontes primárias a respeito da mesma disciplina, tanto nas Sagradas Escrituras quanto em uma grande quantidade de documentos oficiais históricos do princípio da Igreja. Citaremos brevemente, abaixo, apenas alguns dos mais conhecidos e diretos.

Ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.”
(Mateus 28,19)

A Ele [Jesus Cristo] seja dada a glória, com o Pai e o Espírito Santo, pelos séculos dos séculos. Amém.”
(São Policarpo, Século I)[7]

O Espírito Santo, que é preexistente, que criou todas as coisas, Deus o fez habitar no corpo de carne que Ele quis. Pois bem. Esta carne em que o Espírito Santo habitou serviu bem ao Espírito, caminhando em santidade e pureza, sem macular absolutamente nada o mesmo Espírito. Como tinha, pois, levado uma conduta excelente e pura, e tomado parte em todo trabalho do Espírito e cooperado com Ele em todo negócio, portando-se sempre forte e valorosamente, Deus a tornou partícipe juntamente com o Espírito Santo. Com efeito, a conduta desta carne agradou a Deus, por não ter se maculado sobre a Terra enquanto teve consigo o Espírito Santo. Assim, pois, tomou por conselheiro a seu Filho e os anjos gloriosos para que esta carne, que tinha servido sem reprovação ao Espírito, alcançasse também algum lugar de repouso e não parecesse ter perdido a recompensa pelo seu serviço, porque toda a carne em que habitou o Espírito Santo, se encontrada pura e sem mancha, receberá sua recompensa.”
[Pastor de Hermas (séc. I/II),
5ª Parábola, 6,5-7] [8]

Este teve doze discípulos, os quais, após sua ascensão aos Céus, percorreram as províncias do Império e ensinaram a grandeza de Cristo, de modo que um deles percorreu aqui mesmo, pregando a doutrina da verdade, pois conhecem o Deus criador e artífice do universo em seu Filho Unigênito e no Espírito Santo, não adorando nenhum outro Deus além deste.”
[Aristides, Apologia 15,2 (séc. II)] [9]

Assim, pois, suficientemente resta demonstrado que não somos ateus, pois admitimos um só Deus Incriado e Eterno, e Invisível, Impassível, Incompreensível e Imenso … Quem, portanto, não se surpreenderá de ouvir chamar de ‘ateus’ aqueles que admitem um Deus Pai, um Deus Filho e um Espírito Santo, que demonstram seu poder na unidade e sua distinção na ordem?” 
(Atenágoras de Atenas, Súplica em Favor dos Cristãos, séc. II) [10]


Fica definitivamente demonstrado e comprovado que Chico Xavier ou o “espírito Emmanuel” mentem: a doutrina da Santíssima Trindade é fundamental para a sustentação de todo o Edifício de Fé do cristão desde os primórdios da Igreja.

* * *

Como vimos, as “revelações” do “espírito Emmanuel”, se examinadas a fundo, não passam de uma coleção de ridículas mentiras, maledicência, distorção e blasfêmia. Por outro lado, a pesada e contínua propaganda que a mídia promove a respeito de Chico Xavier anestesiou a mente de muitos brasileiros com relação à enxurrada de provas dos seus crimes e dos grosseiros erros contidos em seus escritos. É obrigação de todo aquele que conhece a Verdade propagá-la e combater o engano provocado pela mentira e pelo seu autor principal, que é o diabo.

Para os católicos, lembramos que é pecado a participação no espiritismo, pois já há tempos esclareceu a Igreja que a doutrina espírita é nociva para as almas, afastando o homem da salvação eterna e das bem-aventuranças do Céu. Quem tiver entendimento para entender, entenda.


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Notas e ref. bibliográfica:

1. Fontes dos dados sobre a Inquisição:

• L’INQUISIONI. Atas do Simpósio sobre a Inquisição, 1998.


• AQUINO, Felipe. Para entender a Inquisição. 1º ed. Cleofas. Lorena. 2009.


• PERNOUD, Régine. A Idade Média: Que não nos ensinaram. Ed. Agir, SP, 1964.

• ROPS. Henri-Daniel. A Igreja das Catedrais e das Cruzadas. Vol. III. Ed. Quadrante, São Paulo. 1993.

• DEVEVIER, W. A Historia da Inquisição, curso de apologética cristã. Melhoramentos, São Paulo, 1925.

• TOSSERI, Olivier. 'A Inquisição tinha poderes absolutos'. Falso!, revista História Viva, artigo disp. em:
www2.uol.com.br/historiaviva/artigos/a_inquisicao_tinha_poderes_absolutos_falso_.html

Acesso 1/6/016

2. Um aspecto interessante dessas falsas histórias difundidas irresponsavelmente na internet: algumas referências chegam a citar os 'preços dos pecados' que a Igreja cobraria nesse período histórico em libras, a moeda corrente do Reino-Unido(?). Ocorre que a moeda utilizada no Vaticano não era a libra. Teria o mesmo 'espírito' inspirado algum inglês a falsificar a fábula das tais taxas? É imporante lembrar que a Igreja Católica foi sumariamente banida da Inglaterra até o século XIX, sendo extremamente hostilizados os católicos residentes ou mesmo visitantes, e até hoje enfrentamos restrições naquele país. Claro está que não se tratam de apenas erros e enganos, mas de pura má-fé, calúnia e desonestidade: flagrante crime doloso contra o qual a Igreja deveria tomar urgentes providências.

3. Santo Tomás de Aquino, Princípio do Símbolo Quicumque.

4. Catecismo da Igreja Católica, §233.

5. Idem, §237.

6. HAZEN, Walter. Inside Hinduism. Missouri: Milliken Pub., 2003.

7.  São Policarpo o declara em seu martírio, vide PADOVESE, Luigi. Introdução à Teologia Patrística - 2ª edição. São Paulo: Loyola, 2004.

8. LADARIA, Luis F. O Deus Vivo e Verdadeiro. São Paulo: Loyola, 2005, p. 139.

9. BUENO, Daniel Ruiz. Padres Apologetas Griegos. Madri: BAC, 1954, p. 130.

10. MORESCHINI, Claudio & NORELLI, Enrico. História da Literatura Cristã Antiga Grega e Latina. São Paulo: Loyola, 1996.
www.ofielcatolico.com.br

Católico e espírita?! – calúnias espíritas contra a Igreja

À esquerda, representação artística(?) do 'espírito Emmanuel', o suposto mentor de Chico Xavier

Um leitor que se identifica com o nome Jonas Souza enviou-nos a seguinte mensagem, ao post "Breve biografia de Allan Kardec e as origens do espiritismo":

Sou Católico, e tenho uma profunda admiração pelo Chico Xavier, pela pessoa humana que dedicou a vida em prol do próximo. O que está escarço na sociedade em que vivemos, não importa a religião, qual seja a doutrina ou credo, o amor ao próximo têm que existir acima de tudo, e ainda mais o respeito. Não somos seres capazes de entender o Criador, somos meras criaturas e assim como tudo criado, somos imperfeitos, dizer o que é certo ou errado não cabe a nos, quada qual têm seu modo de viver e como viver, em que acreditamos fica a cargo de cada consciência; vivemos em uma sociedade e não isolados em mundos particulares, respeitar a opinião do próximo se faz necessário para que possamos viver em harmonia."

ESTE ARTIGO não é apenas uma resposta a este leitor específico; antes, constitui uma necessária abordagem de nossa parte quanto a uma das situações mais estranhas com a qual, infelizmente, repetidamente nos confrontamos: a absurda figura do "católico-espírita", isto é, o sujeito que se declara católico mas simpatiza com o espiritismo ou admira algum(ns) de seus representantes. Certamente precisaremos de mais do que um único artigo para tratar de um tema tão amplo e importante, em seus muitos seus detalhes e nas múltiplas questões que suscita.

Antes de tudo, esclarecemos que não é a nossa intenção atacar os espíritas ou simpatizantes do espiritismo. Pretendemos, isto sim, elucidar, orientar e alertar o povo católico quanto à enorme incoerência daqueles que afirmam ser, a um só tempo, católicos e espíritas, demonstrando o tremendo grau da disparidade que há entre a doutrina espírita e a Sã Doutrina de nosso Senhor Jesus Cristo. Neste processo, não temos como nos eximir da necessidade de apresentar e esclarecer as graves difamações e calúnias que são frequentemente divulgadas por muitos dos representantes do espiritismo (muitas vezes alguns dos principais), em websites, revistas e livros, contra a Igreja Católica. Boa parte do povo católico ignora completamente esta importante realidade.

Chico Xavier jovem
Esta abordagem partirá de um exemplo prático e gritante – o mesmo trazido pelo nosso leitor – já que, apesar das polêmicas, Francisco Cândido Xavier é geralmente considerado o mais expressivo alegado “médium” espírita que houve no Brasil (sobre este controverso personagem já falamos com detalhes aqui). Há uma verdadeira multidão que, mesmo fora dos ambientes espíritas, vê os seus escritos como verdadeiras e valiosas revelações do além-túmulo. 

Até aí, não há problemas que diretamente nos digam respeito, já que não nos cabe interferir na liberdade que cada um recebe do próprio Criador para escolher o caminho que vai seguir. Trata-se, entretanto, não apenas de um problema particular, já que envolve o engano e a falsidade ideológica as quais, algumas vezes e em determinadas situações, enquanto exegetas católicos temos por obrigação analisar e procurar esclarecer (veja nossos artigos e estudos específicos). Vivemos, graças a Deus, num país democrático (apesar de todos os problemas) onde todos são livres para praticar a sua religiosidade desde que se respeitem os direitos do próximo: assim como ninguém é obrigado a ser católico ou espírita, todos temos o direito de expressar opinião e somos livres para debater ideias.

O mais grave problema, como já vimos, é que não são poucos os brasileiros que professam a fé católica mas também consideram os livros espíritas, como os de Chico Xavier e Zíbia Gasparetto, entre muitíssimos outros, como obras “inspiradoras” e “reveladoras”. Para o espanto dos verdadeiros católicos, muitos destes preferem ler tais escritos a estudar as vidas dos grandes santos, os Padres da Igreja ou conhecer o Catecismo e mesmo os Evangelhos; eis o motivo de termos mencionado Chico Xavier logo no início deste artigo.

É verdade que essas atitudes equivocadas nem sempre ocorrem por má-fé. Alguns agem de consciência "leve", julgando ingenuamente que o fato de ser católico não impede de crer, por exemplo, na reencarnação, e incrivelmente não percebem o evidente (supremo) absurdo desta situação. Ocorre que a leitura de tais obras leva muitas vezes o católico a absorver um conhecimento totalmente deturpado da realidade, o que termina por subverter o seu raciocínio inclusive em relação à verdadeira história da Igreja fundada por Nosso Senhor Jesus Cristo – a mesma à qual Ele prometeu que, contra ela, as portas do inferno jamais prevaleceriam (Mt 16,18) e junto da qual estaria até o fim deste mundo (Mt 28,20).

O livro “Emmanuel” é um ótimo exemplo. Nele, Chico Xavier pretende relatar casos "verídicos" que um alegado "espírito de luz", que ele chama exatamente de "Emmanuel", lhe teria relatado sobre a Igreja Católica. Note bem o leitor que não estamos a nos meter em assuntos doutrinais internos dos espíritas, e sim cumprindo a nossa obrigação de elucidar a nossa própria doutrina. São calúnias atrás de calúnias, cada qual mais absurda que a outra. O autor, de fato, descreve as mesmas afirmações proferidas por H. L. Denizard Rivail (ou Alan Kardec), que, por sua vez, as retirou de autores anticatólicos da época da Revolução Francesa e do chamado racionalismo francês.


Os trechos reproduzidos a seguir são da 4ª edição do Livro 'Emmanuel'. Assim diz Chico Xavier sobre as 'revelações' que lhe teriam sido ditadas pelo 'espírito Emmanuel':

1. A história do papado é a história do desvirtuamento dos princípios do cristianismo, porque, pouco a pouco, o Evangelho quase desapareceu sob suas despóticas inovações. Criaram os pontífices o latim nos rituais, o culto das imagens, a canonização, a confissão auricular, a adoração da hóstia, o celibato sacerdotal. Noventa por cento das instituições são de origem humaníssima, fora de quaisquer origens divinas (...)” (p. 30);

2. “O Vaticano não soube, porém, senão produzir obras de caráter exclusivamente material (...)” (p. 31);

3. “Ninguém ignora a fortuna gigantesca que se encerra, sem benefício para ninguém, nos pesados cofres do Vaticano (...)” (p. 57);

4. “Ele (o 'espírito Emmanuel') sabe que a Igreja “fez mais vítimas que as dez perseguições mais notáveis (...)” (p. 56);

5. “Ele conhece a imensidade de crimes, perpetrados à sombra dos confessionários penumbrosos (...)” (p. 52);

6. “Tem notícias do célebre livro de taxas, do tempo de Leão X, em que todos os preços de perdão para os crimes humanos estão estipulados” (p. 61);

7. “Sabe que o dogma da Santíssima Trindade é uma adaptação ocidental da 'Trimurti' da antiguidade oriental (...)” (p. 30).

Sim... É difícil ler tantas e tão grossas mentiras (não há como dizer de outro jeito), ainda mais pregadas em nome de um suposto "espírito de luz" ao qual o autor deu o sagrado nome Emmanuel – que os Evangelhos atribuem como título a Nosso Senhor e que significa "Deus Conosco" –, e manter a calma ou o respeito humano. Curioso é que são os espíritas os primeiros a exigir "respeito" logo que alguém lhes teça críticas, mesmo se baseadas em fatos concretos (nosso artigo puramente informativo sobre Chico Xavier, por exemplo, recebeu uma verdadeira tempestade de comentários furiosos exigindo 'respeito', e outros tantos que nos mandavam cuidar dos problemas de nossa própria Igreja).

Evidente que nenhum católico minimamente consciente seria capaz de ler as barbaridades enumeradas acima e não se indignar. Para os espíritas, porém, isso tudo foi “revelado” a Francisco Cândido Xavier por um espírito evoluidíssimo.

O que nos interessa em primeiro lugar é encontrar a resposta para o ponto mais essencial do problema: há alguma verdade nas afirmações apresentadas? Corresponderiam, afinal, essas pseudo-revelações à realidade objetiva dos fatos? Se sim, em que nível?

Analisamos breve e objetivamente as sete grandes calúnias espíritas listadas acima. Pretendemos publicar esta análise em duas partes, pela sua extensão. Segue abaixo a primeira; que seja de proveito aos nossos leitores, é o que rogamos a Deus pela intercessão da santíssima Virgem.


1 – 'A história do papado é a história do desvirtuamento dos princípios do cristianismo, porque, pouco a pouco, o Evangelho quase desapareceu sob suas despóticas inovações. Criaram os pontífices o latim nos rituais, o culto das imagens, a canonização, a confissão auricular, a adoração da hóstia, o celibato sacerdotal. Noventa por cento das instituições são de origem humaníssima, fora de quaisquer origens divinas.' (p. 30)

Diante de tantas acusações, será preciso analisar este item parte por parte, ou seja, observar e esclarecer cada uma das coisas que o “espírito” classificou como "desvirtuamento":


a) “Criação” do latim nos rituais?

Completo absurdo. O latim foi utilizado na Liturgia e nos escritos da Igreja, comprovadamente, já desde o século II, e com a expansão do cristianismo no Ocidente tornou-se idioma oficial (a partir do séc. III), tendo início o chamado período cristão da língua latina. A Missa provavelmente já era celebrada em latim em Roma, que se tornou a sede do cristianismo, desde os tempos de Pedro e Paulo. Com as invasões bárbaras e a queda do Império Romano, o latim tomou o lugar do grego também como língua de uso universal[1].

S. Jerônimo traduziu as Sagradas Escrituras do grego, hebraico e aramaico para o latim vulgar (vulgata), justamente para que pudesse ser bem compreendida por toda a cristandade. Sem sombra de dúvida o latim foi incluído na Liturgia dos ritos e na documentação dos ensinamentos não para "distanciar a Igreja do Evangelho", como mente Xavier em seu livro, passando-se por porta-voz de um “espírito de luz”: ao contrário, a Igreja o fez para aproximar e unir os cristãos, como sempre foi do seu maior interesse. Além de tudo, as línguas provenientes do latim são, hoje, maioria no mundo, o que por si só evidencia e corrobora esta simples realidade.

Podemos concluir, então, que o “espírito Emmanuel”, se existisse, teria se equivocado ou mentido. Não poderia ser, portanto, um “espírito de luz” (estaria mais próximo, realmente do 'pai da mentira'). Enquanto verdadeiros cristãos, lembramos a admoestação divina que nos foi transmitida pela pena do Apóstolo:

Ainda que um anjo do céu (ou um ‘espírito de luz’) vos anuncie outro evangelho além do que já vos tenho anunciado, que seja anátema.
(Gl 1,8)


b) O papado 'criou o culto das imagens'?

Lamentável. Qualquer iniciante no estudo da História sabe que o uso das imagens no culto religioso é muitíssimo anterior à própria fundação da Igreja. Poderíamos dizer até que as imagens religiosas são inerentes ao conceito de civilização humana. Podemos também citar inúmeros exemplos de imagens confeccionadas por decreto divino, como a Arca da antiga Aliança (Ex. 25,18-20) com os querubins, a serpente de bronze de Moisés (Núm. 21,8-9) e o Templo de Salomão (1Reis 6,23-25 e 7,29), que era repleto de imagens esculpidas e em relevos, pinturas, tapeçarias, etc. Tudo isso muito antes de existir a Igreja. Não há absolutamente nenhum sentido em se afirmar que o papado "criou o culto das imagens". A única explicação de alguém proferir tal disparate tem que partir da pura ignorância, da má-fé ou de ambas combinadas.

Ainda se formos condescendentes e admitirmos que o trecho em questão pudesse se restringir ao contexto da Igreja, isto é, do Novo Testamento, veremos que este mesmo também nos apresenta uma grande variedade de imagens representativas da Glória de Deus. Vemos o Espírito Santo descer sobre o Cristo na forma de uma pomba (Mt 3,16); no Apocalipse, Jesus aparece sob a imagem de um Cordeiro, "digno de receber" todo Poder e todo louvor (Ap 5,12), e também sob a imagem de um Leão (o 'Leão de Judá' que triunfa para romper os Sete Selos). Por fim, é importante notar que o próprio Jesus jamais condenou o uso cultual das imagens no Templo de Deus, onde foi apresentado, onde pregou aos doutores da Lei e do qual expulsou os vendilhões.

Por fim, se avançarmos além da esfera do cristianismo, existem infinitos exemplos que poderíamos citar, oriundos de todas as religiões, inclusive (talvez principalmente) do brahmanismo, onde Kardec foi buscar suas ideias de “evolução do espírito” através de uma gigantesca sucessão de “reencarnações”, para misturar com figuras e conceitos cristãos e confundir o raciocínio dos ingênuos.

Como se vê, é facílimo demonstrar que, de fato, a Igreja não “inventou” o uso cultual das Imagens, principalmente no sentido pejorativo que o texto lhe confere. De fato, trata-se de uma acusação tola, simplória e pueril, que só poderia partir de uma mente embotada ou bastante confusa.


c) O papado inventou a canonização?

O que é a canonização dada pela Igreja? Simplesmente o ato de atribuir o estatuto de Santo a um cristão de vida exemplar, e é claro que só a Igreja poderia fazê-lo, já que santo é alguém que integra o Corpo Místico de Cristo (a própria Igreja) e cumpre os mandamentos de Deus e da mesma Igreja. Logo, negar a canonização é negar a existência dos santos –, e sabemos bem que o espiritismo o nega –, já que não admite a existência do Céu nem do Inferno, mas prega que estamos todos, sem exceção, num processo de constante evolução espiritual.

O papado inventou a canonização dos santos, num tempo posterior e num contexto estranho ao da pregação do Cristo, como insinua o texto espírita? Evidente que não, já que a Igreja desde sempre creu e venerou os santos, e prová-lo é tão simples quanto apontar as inúmeras e claras citações dos Apóstolos neste sentido (que já iniciam muitas de suas epístolas saudando 'os santos' de tal lugar).

Sendo assim, tal afirmação do suposto "espírito" deveria se traduzir numa das revelações mais importantes de todos os tempos! Só mesmo uma inteligência extra-terrestre poderia supor que os Papas criaram a canonização, muitos anos depois de Cristo, com a intenção de afastar a Igreja do Evangelho! Estamos diante de algo realmente novo e revolucionário, que poderia mudar a história do cristianismo e da humanidade como um todo... Se tivesse o menor fundamento na realidade. E, se tivesse, precisaríamos urgentemente avisar a todos os cristãos do mundo, reconhecendo inclusive que nem mesmo S. João teve quem o alertasse deste absurdo, quando escreveu no Apocalipse: “E da mão do anjo subiu diante de Deus a fumaça do incenso com as orações dos santos” (Ap. 8,4).

Mais ainda, a grande "revelação" deste incrível “espírito” mostraria que nem mesmo o Rei Davi, lá no Antigo Testamento, sabia o que estava dizendo quando proclamou: “Os céus louvarão as tuas maravilhas, ó Senhor, e a tua fidelidade na assembléia dos santos” (Sl 89,5). Ora, se foram os Papas que inventaram a existência dos santos – ou os termos que os definem –, por que já antes de Cristo se falava neles? Perdoe-me o dileto leitor, mas esse trecho não merece maiores explicações, a não ser a menção de que aqui é preciso escolher entre o que diz a Bíblia Sagrada, em consonância com a Santa Igreja, ou o que teria uma alma "desencarnada" desconhecida assoprado aos ouvidos de Chico Xavier. Enquanto cristãos, julgamos desnecessário aconselhar nossos leitores a optar pela primeira.


d) O papado inventou a confissão auricular?

Afinal, uma verdade. O “espírito”, ainda que claramente mal intencionado, acertou uma. Mas será que esse “Emmanuel” e Chico Xavier sentiam saudades do costume dos tempos da Igreja primitiva, quando as confissões eram públicas, feitas diante de toda a assembleia, e o perdão só era dado meses após a confissão?

Humildemente, ousamos afirmar que é bem mais cômoda e misericordiosa a confissão auricular, em que o fiel e um padre em particular conversam a sós, com toda a caridade, tranquilidade e privacidade, e este último concede em nome de Deus o perdão dos pecados, permitindo que de imediato volte o confessante a participar da Comunhão do Corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Especificamente na época em que o livro espírita foi escrito, a confissão era necessariamente feita no confessionário, com uma tela entre o padre e o penitente, que tinha por objetivo uma privacidade ainda maior, para que ninguém se sentisse envergonhado ou constrangido em confessar alguma falta mais embaraçosa. Tudo visava facilitar e tornar mais suave a obrigação do fiel. Para o “espírito Emannuel”, entretanto, isso é algo ruim, pérfido, planejado com sinistras e ocultas intenções.

Nunca é demais lembrar, neste ponto, que foi Nosso Senhor Jesus Cristo quem deu autoridade aos Apóstolos e aos seus sucessores para perdoar os pecados do povo (Jo 20,22-23). Por consequência, torna-se importantíssimo lembrar também que as Chaves do Reino dos Céus foram dadas a São Pedro e aos mesmos Apóstolos (Mt 16,18-19. 18,18. 28,16-20); consequentemente, aos seus sucessores, e não a “espíritos” desconhecidos, dos quais não temos como conhecer a origem, nem aos seus supostos “intérpretes”.


e) O papado criou a adoração da Hóstia?


Responder a acusações tão absurdas, tão sem pé nem cabeça, requer generosa dose de paciência, e como espanta saber que muita gente se perdeu e continua se perdendo em insanidades deste tipo! Ora, adorar a Deus é a prática cristã mais essencial, mais fundamental e a primeira entre todas, assim como era para os antigos judeus e para os praticantes de qualquer religião que professa a fé num Deus criador e todo-poderoso. Some-se a isto o fato de que nós, cristãos, cremos no que Jesus disse dEle mesmo: que é Deus e que está presente no Pão (Hóstia) e no Vinho consagrados, e surgirá mais do que clara a resposta quanto ao motivo de adorarmos o Santíssimo Sacramento do Altar. Não adoramos propriamente a hóstia em si, enquanto pão, porque seríamos estúpidos se o fizéssemos. Adoramos no Pão Consagrado a Jesus Cristo, Deus, Sacramentado.

Mais uma vez, algo tão simples que não merece maiores comentários. Se o leitor tiver dúvidas, leia mais a respeito neste estudo específico.


f) O papado criou o celibato sacerdotal?


A Igreja instituiu o celibato sacerdotal baseada nas recomendações diretas do seu Fundador, Jesus Cristo:

Nem todos são capazes de compreender o sentido desta palavra, mas somente aqueles a quem lho foi concedido. Porque há eunucos que o são desde o ventre de suas mães, há eunucos tornados tais pelas mãos dos homens e há os que a si mesmos se fizeram eunucos por amor do Reino dos Céus. Quem puder compreender, compreenda. 
(Mt 19, 11-13)

Todo aquele que por minha causa deixar irmãos, irmãs, pai, mãe, esposa, filhos, terras ou casa, receberá o cêntuplo e possuirá a vida eterna.
(Mt 19,29)

Também o santo Apóstolo confirmou a mesma admoestação, deixando-nos o seu testemunho nas Sagradas Escrituras quanto à excelência do celibato, pondo-se como exemplo: "Digo aos solteiros e às viúvas que lhes é bom se permanecerem assim, como também eu" (1Cor 7, 8-9).

É, portanto, condição preferencial para o sacerdote que seja celibatário, sacrificando assim integralmente a sua vida pelo Reino de Deus. Como bem diz Nosso Senhor, só pode compreender isso quem verdadeiramente possui tal vocação.

Assim, a instituição do celibato é extensível a todos aqueles que querem seguir Jesus Cristo na condição especial de sacerdotes. É importante notar que o celibato não foi uma imposição do Papa, mas a formalização de uma prática ostensivamente utilizada pelos sacerdotes desde sempre, sendo o decreto apenas uma forma de tornar oficial a prática informal. Note-se que não há nenhum registro histórico de manifestações contrárias a instauração oficial do celibato e, até hoje, salvo raras exceções, há consenso entre os presbíteros sobre a necessidade e o valor do celibato.

Portanto, algo que é praticado desde o começo da Igreja não poderia de modo algum ter sido feito posteriormente, com o fito de afastá-la das suas origens. Se quisessem reclamar com alguém, o “espírito” e Chico Xavier deveriam ter reclamado com o Fundador da Igreja Católica: o Verdadeiro e Único Emanuel, Deus Conosco: Jesus Cristo.


g) Noventa por cento das instituições católicas são de origem humaníssima, fora de qualquer origem divina(!?)?


Curiosíssima sentença para um autor que pretende contestar a origem divina da Igreja. Se noventa por cento é humano, então dez por cento é divino? Em que isto implicaria? E, neste caso, quem seria capaz de "peneirar a Igreja" para poder descobrir o que nela é divino e o que é humano?

Bem, o leitor que se dispuser a pesquisar a sério e com empenho terminará por descobrir que a realidade é o exato oposto disso! Noventa por cento ou mais de tudo aquilo que define a Igreja é de origem divina para os cristãos, pois foi revelado pelo Espírito Santo ou instituído diretamente por Jesus Cristo. O que dizer da Santa Missa, da Transubstanciação, dos Sacramentos, da Comunhão dos santos, das revelações e milagres, da compilação e canonização das Sagradas Escrituras, do perdão dos pecados (dado gratuitamente a todo aquele que se arrepende e se converte, sem nenhuma necessidade de ‘reencarnações’ sucessivas num processo infinito de evolução moral), da Imaculada Conceição de Maria, etc, etc?..

Substancialmente, são essas e outras realidades sagradas que compõem aquilo que define a Igreja. Tudo o que há fora disso são formas das quais a Igreja dispõe para subsistir no mundo.

** Ler a conclusão

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1. COMBY, Jean. Para ler a história da Igreja, das origens ao século XV, vol. I, 3ª ed. São Paulo: Loyola, 2001
www.ofielcatolico.com.br

À procura de Cristo na oração, programa de oração – dicas preciosas para rezar sempre e bem – conclusão

O presente artigo é uma adaptação do terceiro capítulo da obra clássica "Amor Sublime" ('This Tremendous Lover'), de Dom Eugene Boylan, OCR (1904 - 1964), intitulado "A procura de Cristo na oração". Boylan foi um monge trapista de origem irlandesa e destacado autor dos temas espirituais. Sua direção espiritual nesta obra escrita há mais de seis décadas, por suas palavras e maneiras, impressiona pela atualidade e encanta ao se revelar utilíssima a todo cristão católico honestamente empenhado em progredir na vida espiritual. Rogamos a Deus que por aqui também seja útil na edificação e salvação das almas. Por ser longo, publicamos o capítulo em duas partes. Para ler a primeira parte, acesse este link; a seguir, a segunda e conclusiva parte:



É ÓBVIO QUE DEVEMOS acreditar na existência de Deus e em seu desejo de nos atender; isso está implícito no próprio ato de nos voltarmos para Deus. As nossas orações nascem da esperança de sermos ouvidos. 

Por outro lado, se estamos em pecado mortal e não temos desejo de nos reconciliarmos com Deus, conservamo-nos em estado de rebelião contra Ele. A caridade fraterna é também necessária à oração, porque devemos nos lembrar de como Nosso Senhor recomendou que, se alguém estivesse a ponto de fazer a sua oferta diante do altar e se lembrasse, aí, de que seu irmão tinha alguma coisa contra ele, devia deixar a oferta diante do altar, ir reconciliar-se primeiramente com o seu irmão e voltar depois a fazer a sua oferta (Mt 5,23-24). Logo, a eficácia de nossas orações depende diretamente, também, da nossa caridade para com o nosso próximo.

Isto pode causar-nos surpresa, mas, se tivermos em mente que a caridade fraterna é necessária para se ser membro vivo de Cristo, compreenderemos por que motivo é necessária essa caridade, se é que rezamos invocando o Nome de Jesus. Só quando estamos unidos com os restantes membros, pela caridade, é que podemos com verdade orar em seu Nome.

A necessidade da humildade foi explicada na parábola do fariseu orgulhoso e do publicano humilde, e Deus avisou-nos de que resiste aos soberbos e dá sua Graça aos humildes. É necessário que estejamos na disposição de nos submetermos à Vontade de Deus; recusar isso é recusar reconhecê-Lo como Deus, é separarmo-nos de Cristo, que deu, Ele próprio, um exemplo clássico na sua oração no Getsêmani: “Pai, se é possível, passa de mim este cálice; todavia, não se faça como eu quero, mas sim como Tu queres” (Mt 26,39).

Estas disposições vêm-nos em primeiro lugar da Graça de Deus e por isso devemos procurá-las na oração. Também se desenvolvem pela leitura e reflexão – o que constitui outro motivo para evitarmos orações muito compridas, porque onde se fala muito pensa-se pouco. Se se começar recitando, por exemplo, uma dezena do Rosário ou algumas orações de igual extensão, todas as manhãs e todas as noites, isto nos parece suficiente no que diz respeito à oração formal. Se encontrarmos, num bom livro de orações, algumas que exerçam apelo especial sobre o nosso coração, é melhor recitar uma ou duas destas de cada vez, ou repetir a mesma durante uma semana, do que nos sobrecarregarmos com uma longa coleção de orações formais todas as noites.

Seguindo assim, se a nossa disposição em rezar aumenta, é sempre ocasião de ampliar a lista, mas é preferível optar por orações breves. O caminho que temos de percorrer é longo, e o que importa é perseverar até o fim. Além disso, uma das razões que nos levam a insistir para que não tornemos a oração um fardo pesado é porque, nessas condições mais suaves, é mais provável que durante o dia venham constantemente aos nossos lábios as invocações espontâneas, com piedosos louvores, ações de graças e súplicas, e essa espécie de oração é muito necessária. Seja como for, “Deus ama quem doa alegremente” (2Cor 9,7), e é melhor dar-lhe dois minutos com alegria do que duas horas contrafeito.


Métodos necessários para a oração: as fórmulas e a intimidade

Há duas formas de rezar que se revestem de grande importância e que são, de fato, necessárias: a primeira é usar uma fórmula fixa e procurar conformar o nosso pensamento com o seu significado; a segunda é rezar fazendo uso das nossas próprias palavras e procurando exprimir com elas os sentimentos que despertam no nosso coração. Nas nossas orações diárias, devemos usar de um e de outro processo. O primeiro é necessário porque há forçosamente sentimentos que não surgem espontaneamente; têm de se adquirir com o emprego de fórmulas e com leitura. Além disso, se tivéssemos de improvisar todas as vezes que rezamos, em breve nos perderíamos na oração. O segundo processo é também necessário, por se tratar, muito provavelmente, da mais excelente forma de nos conservarmos em contato com Nosso Senhor, e isso resume toda a vida espiritual.

É certo que nos unimos a Nosso Senhor em toda a oração: de fato, faz parte desta uma certa dependência dEle. Mas o progresso da nossa vida espiritual depende do desenvolvimento da amizade e intimidade com Ele, de modo a conseguirmos que Ele tome parte em todas as nossas ações. Se a nossa amizade obedece a termos convencionais, isso não será tão fácil. Devemos, portanto, voltar-nos frequentemente para Ele e falar-lhe, empregando palavras nossas, sobre qualquer coisa de interesse mútuo.

Os termos de referência não escasseiam. E porque a nossa vida só é plenamente cristã se for compartilhada completamente com Ele, esses termos de referência também não são demasiadamente vastos. Essa dupla forma de oração pode variar muito. Pode usar-se qualquer fórmula bem conhecida, que sirva para nos unir a Ele. Há muitas pessoas, por exemplo, que rezam os Mistérios do Rosário quando andam pelas ruas ou estão em filas de ônibus, na sala de espera do consultório médico ou mesmo no seu local de trabalho, quando a natureza deste o permite. Outros preferem usar jaculatórias ocasionais, mas que devem ser meditadas e sinceras. Há muitas jaculatórias que, recitadas com fervor, ganham indulgências. Isto pode convencer-nos de que temos de as repetir todas as vezes que pensamos nelas. Não devemos, entretanto, sentir o peso da obrigação indefinida de as repetir vezes determinado número de vezes ou vezes sem fim. O amor incondicional a Deus deve ser a regra. Amor este que deve ser buscado e cultivado a cada instante da vida do cristão e cuja prática nos levará, afinal, à feliz descoberta de que podemos estar na Presença do Senhor sem lhe dizer nada, e esse processo de união com Ele é em Si mesmo uma excelente oração – que não deve ser perturbada por qualquer tentativa para rezar “orações prontas”, a não ser que estas sejam de obrigação. Deve haver nisto uma completa liberdade de espírito, em tudo o que não seja de obrigação. De outra forma não haverá verdadeiro progresso na vida espiritual.

Não há, na realidade, ocupação, exceto o pecado, que seja incompatível com essas orações espontâneas. Claro está que há orações que se devem recitar durante o dia, às quais devemos dedicar toda a nossa atenção, pondo de parte todo o resto; mas Deus nos livre de que limitássemos as nossas orações apenas àquelas que se recitam de joelhos, em situações e/ou horários determinados.

Este ponto pode talvez ser esclarecido com o exemplo de dois homens que tinham por hábito rezar quando regressavam a casa, findo o seu trabalho. Levantou-se a questão sobre se seria lícito fumar enquanto rezavam, e cada um deles decidiu consultar o seu diretor espiritual. Um deles foi asperamente censurado, por pensar em fumar enquanto rezava; o outro tinha outra espécie de diretor, que lhe disse que, embora o fumar durante a oração fosse suscetível de objeção, não via, no entanto, motivo sério de proibi-lo de rezar enquanto fumava. Este conto não passa disto mesmo: um conto, mas pode chamar atenção para o fato de que existe diferença entre oração regular e oração irregular e que, ao passo que a primeira exige determinadas regras, pode-se – e mesmo deve-se –, usar da segunda em qualquer parte.

Outro caso semelhante nos é relatado por um sacerdote ancião, que dizia: "Em tudo o que não é pecado, não há razão para não poder ser compartilhado com Deus". Pode-se, por exemplo, rezar deitado? Sem dúvida é melhor rezar de joelhos, mas não vemos motivo para dizer que é pecado rezar se estamos deitados. Deitar para rezar talvez não seja bom, mas não se pode negar que é bom rezar em toda situação, quer estejamos deitados, sentados, em pé ou ajoelhados. De modo semelhante, não há porque se afirmar que não podemos falar com Ele e desfrutar ao mesmo tempo de alguma das coisas que criou para o nosso descanso, recreio ou deleite. Sim, também o prazer e o recreio têm o seu lugar próprio na vida espiritual; sendo assim, não constituem obstáculos para uma união íntima com Deus, podendo mesmo servir para reforçá-la.

Há, portanto, orações para todas as horas e há também horas para a oração natural e não estudada, que é quando falamos com Deus em termos semelhantes àqueles que usamos quando falamos com os nossos amigos. Devemos aprender a sentirmo-nos à vontade com Deus e devemos compreender que não há necessidade de estar sempre se dizendo alguma coisa. A esposa que ama profundamente o seu marido, e que tem a certeza de ser por ele amada, sente-se à vontade em sua companhia mesmo (talvez até especialmente) quando estão os dois em silêncio, seja num passeio ou fitando-se nos olhos, num momento de descanso; ela sabe bem que não precisa falar e repetir sem cessar que o ama ou que lhe quer bem: quando a relação de intimidade chega a determinado estágio, surge tal cumplicidade e compreensão que um compreende o outro sem a necessidade das muitas palavras.

Devemos admitir, no entanto, que há ligação íntima entre a oração silenciosa e a pureza da nossa consciência. Não é, em geral, possível sentirmo-nos à vontade diante de Deus se conservamos a intenção deliberada de cometer pecados habituais. Mas o pecado de que estamos arrependidos não constitui obstáculo a essa amizade, assim como o não constituem os pecados em que caímos repentinamente por fragilidade. O próprio ato de contrição abre o caminho para novo contato com Deus, e como Ele é o nosso Salvador, não devemos ter receio de lhe patentear os nossos pecados e as nossas fraquezas.

Apesar de tudo o que dissemos até aqui, com o fito de clarear o caminho dos buscadores de Deus, há algumas pessoas que sentem a necessidade de recitar orações mais longas durante o dia, como por exemplo o Terço, o Ofício Menor, alguns dos Salmos ou outras orações deste gênero. É necessário prudência na escolha e na medida de tais práticas, mas não há dúvida de que há muitos casos em que a prudência não só consente, mas até exige tais orações prolongadas.



Como rezar sempre bem e sempre agradar a Deus na oração

Em certas orações, como seja a recitação do Terço, a repetição constante torna impossível seguir o significado de cada palavra, mas isso é bom e desejável, porque o que se busca aí é a contemplação dos Mistérios propostos e não o desgaste mental no "martelar" das mesmas palavras muitas vezes repetidas; noutras, como por exemplo o Ofício Divino, a multidão de ideias aí expressa segue-se numa sequência tão rápida que é impossível que o pensamento se adapte a cada uma delas e possa ao mesmo tempo concluir a sua leitura em tempo razoável. Nesses casos, a atitude mental pode ser um pouco diferente – aqui exporemos um método de tremenda utilidade para a oração, que pode ser aplicado de modo geral ou, pelo menos, mais amplo e está intimamente ligado à oração mental. Ocorre que se pode, nestes e em outros casos, durante a oração, prestar mais atenção em Deus, a Quem se está orando, do que às palavras das orações mesmas que se recitam – confiando plenamente, entretanto, que essa oração, assim como diversas outras, agradam a Deus, quer em razão da sua origem divina, quer por motivo da autoridade que nos deu ou pela sua pia intenção.

Assim, ao recitar a Ave-Maria, por exemplo, podemos lembrar-nos de que as palavras com que começa são aquelas pelas quais Deus, por intermédio do Anjo, fez a Maria a proposta mais admirável que jamais se fez a um ser humano. Claro está que essa composição de palavras têm para Maria um significado que está fora de toda a compreensão que as palavras por si são capazes de transmitir, e podemos estar certos de que lhe agradam muito, e assim homenageamos ao Senhor que as compôs.

Outra belíssima alternativa será considerar essas orações como ditas em nome da Igreja e que o seu significado se aplica às incalculáveis necessidades dos Seus membros, que podemos ignorar. Essa atitude aplica-se, de modo especial, ao Ofício Divino, quando recitado por aqueles que foram designados oficialmente para o recitarem em nome da Igreja, mas aplica-se também, em determinado grau, a toda a oração, porque somos todos membros de Cristo e oramos todos em seu Nome. O significado das palavras que usamos pode exprimir de preferência as necessidades e sentimentos de outros membros do Corpo Místico de Cristo e a nossa atenção concentrar-se-á então mais em “Cristo integral”, ou num sentido obscuro de sociedade com Ele, do que nas palavras especiais de que fazemos uso.

Nas orações muito longas, experimentamos quase sempre grandes dificuldades em concentrar a nossa atenção e evitar as distrações. A distração voluntária é evidentemente censurável quando significa o alheamento do nosso pensamento de Deus e daquilo que estamos a fazer. Há distrações parciais que podem fazer parte da nossa oração, como seja a prática de um ato de caridade ou de qualquer ação necessária. Nesses casos, os nossos corações não se desviam na realidade de Deus e apenas se modifica por momentos a forma de O servirmos. Os Santos foram sempre exímios na sua prontidão em interromper as suas orações particulares para servirem a Cristo na pessoa do próximo. Com as distrações involuntárias, o caso é diferente. Se não procederem de um descuido antecipado e deliberado, como seja a falta de esforço para fixar a nossa atenção no princípio da oração, não há aí certamente qualquer culpa. Não se podem evitar mesmo em pessoas dotadas da melhor boa vontade. Um pensamento suscita outro e uma imagem evoca outra; a própria natureza do nosso pensamento e da nossa imaginação é tal que tende sempre para a divagação. Enquanto não nos apercebemos dessas divagações, não ha certamente culpa da nossa parte. Quando damos, porém, pela distração, é nosso dever voltar a empregar os nossos esforços para despertar a nossa atenção.

Em certas ocasiões, é relativamente fácil nos vermos livres das distrações, mas, em outras ocasiões, estas são tão persistentes que a melhor forma de proceder e deixar correr as coisas e contemplar a Deus sem nos mortificarmos. Não é sempre fácil despertar a atenção e há ocasiões em que a nossa oração parece não passar de uma longa série de distrações combatidas, sem dúvida, mas sem qualquer resultado. É bom que nos lembremos de que as orações recitadas nessas condições podem ser muito agradáveis a Deus. Cada tentativa que fazemos para despertar a atenção é uma elevação do nosso pensamento a Deus, feita com dificuldade, e que por isso lhe é muito agradável como oração, quer dê bom resultado quer não, pois é um esforço para afugentar as distrações.

Deve-se notar que não é necessário prestar atenção a cada palavra que dizemos. Mesmo na linguagem ordinária, quando nos dirigimos a alguma autoridade secular, usamos fórmulas polidas e só atentamos ao seu significado geral. Na oração, podemos empenhar-nos apenas em proferir as palavras corretamente, podemos atentar ao significado das palavras usadas e podemos, finalmente (aqui está a nossa ênfase), prestar atenção à finalidade das palavras que usamos ou à Pessoa a Quem estas são dirigidas. Por esta forma é possível concentrarmos a nossa atenção em Deus e esquecermo-nos quase completamente do que lhe estamos a dizer – e ainda assim rezar bem, já que essa atenção é digna de louvor e não devemos recear que a Pessoa a quem nos dirigimos nos distraia das palavras que lhe dirigimos na oração ordinária.


Os três fins da oração e os diferentes tipos de distração

Os efeitos das distrações nas nossas orações podem ser melhor compreendidos se considerarmos os três fins da oração. A oração é uma obra meritória, por isso a distração superficial não lhe tira necessariamente o merecimento, já que a intenção original e a atenção são a origem de toda oração. Assim, o orante poderá se distrair, sem maiores prejuízos, do que está a dizer, mas não de a Quem está dizendo e com que intenção (louvor, adoração, súplica, ação de graças).

A oração pode também ser considerada pelos efeitos diretos que exerce em nós próprios e em nossas disposições para a vida cristã. Nestes efeitos, é claro que a distração total – que é quando o orante chega a esquecer do que está a fazer, e a Quem e/ou com quais intenções o faz –, é inadmissível e interfere nesses efeitos benéficos.

O melhor método de combater as distrações mais profundas depende, em certo modo, das circunstâncias que acompanham as nossas orações. Nas orações de obrigação há um dever definido a se executar, e por isso não devemos consentir que as distrações, logo que sejam notadas, interfiram com essa obrigação. Neste sentido poderemos mesmo considerar as próprias distrações como intenção das nossas orações, para que cessem, e isto será muito eficaz; em outros casos poderemos ter de lutar com elas durante todo o tempo da oração, e em outros ainda teremos de deixá-las correr (sem aceitá-las), esperando que Deus aceite o mérito de nossa disposição em nos colocarmos diante dEle, de joelhos, por aquele tempo, para adorar, pedir suas graças, agradecer, ainda que não tenhamos podido fazer como gostaríamos.

É importante, então, nos recordarmos de que as distrações, se não forem aceitas deliberadamente e consentidas, não tornam as nossas orações inúteis. Pelo contrário, podem ser, muitas vezes, ocasião de obras meritórias perante Deus.

Por vezes, a causa das distrações é manifesta: uma amizade desordenada, um aborrecimento excessivo, a fadiga, a instabilidade natural do nosso pensamento, a preocupação provocada pelo trabalho ordinário, o ambiente e tantas outras coisas. Seja qual for a sua causa, uma coisa necessária para as evitar é recolhermo-nos completamente no princípio da oração. Se o orante faz isso com generosidade, a oração adquire um valor que nenhuma distração subsequente involuntária pode tirar.

Como dissemos, ao rezarmos particularmente, isto é, ao “falarmos com Deus” como a um Amigo, podemos tomar as distrações como assunto dessa conversa. Em última análise, Deus criou todas as coisas e, por isso, todas as criaturas têm pelo menos essa ligação com Ele, a qual pode servir de ponto de partida para novos colóquios.

Há alguns que afirmam não terem as nossas orações verdadeira eficácia impetrativa e trabalham por espalhar a opinião de que a oração feita em particular pouco vale, e que é a oração pública, feita em nome da Igreja, que tem verdadeiro valor, por partir do Corpo místico de Jesus Cristo. Não é isto exato; o divino Redentor não só uniu estreitamente a Si a Igreja como esposa queridíssima, senão também nela as almas de todos e cada um dos fiéis, com quem deseja ardentemente conversar na intimidade, sobretudo depois da comunhão. E embora a oração pública, feita por toda a Igreja, seja mais excelente que qualquer outra, graças a dignidade da Esposa de Cristo, contudo todas as orações, ainda as mais particulares, têm o seu valor e eficácia, e aproveitam também grandemente a todo o Corpo místico; no qual não pode nenhum membro fazer nada de bom e justo, que em razão da comunhão dos santos não contribua também para a salvação de todos. Nem aos indivíduos por serem membros desse corpo se lhes veda que peçam para si graças particulares, mesmo temporais, com a devida sujeição à divina Vontade; pois que continuam sendo pessoas independentes com suas indigências próprias. Quanto à meditação das coisas celestes, os documentos eclesiásticos, a prática e exemplos de todos os Santos provam bem em quão grande estima deve ser tida por todos.”
(Pio XII, Mystici Corporis Christi, n.87)
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À procura de Cristo na oração, programa de oração – dicas preciosas para rezar sempre e bem – parte 1

O presente artigo é uma adaptação do oitavo capítulo da obra clássica "Amor Sublime" ('This Tremendous Lover'), de Dom Eugene Boylan, OCR (1904 - 1964), intitulado "A procura de Cristo na oração". Boylan foi um monge trapista de origem irlandesa e destacado autor dos temas espirituais. Iniciou sua obra na década de 1940, quando publicou este "Amor Sublime" e "Dificuldades na Oração Mental", que foram traduzidos em diversas línguas. Em 1962 ele foi eleito o quarto Abade do Monte St. Joseph Abbey em Roscrea, Irlanda. Dois anos depois, veio a falecer num acidente de automóvel. 


A direção espiritual que Eugene Boylan nos transmite, em uma obra escrita há mais de seis décadas, é, por suas palavras e maneiras, impressionantemente atual e maravilhosamente útil a todo cristão católico honestamente empenhado em progredir na vida espiritual. Rezamos a Deus que por aqui também seja útil na edificação e salvação das almas. Por ser longo, publicaremos o capítulo em duas partes; segue a primeira:




O NOSSO EXAME da vida sobrenatural, que é conferida a todas as almas no Batismo, chegou ao ponto de termos que considerar mais minuciosamente o programa que deve ser seguido por quem deseja viver essa vida. Já vimos que no Batismo se estabelece uma união íntima entre Deus e a alma da pessoa batizada. Deus concede ao neófito – ao recém-convertido, recém-batizado ou o batizado que andou afastado da Igreja e agora procura retomar uma vida mais espiritual e santificada –, uma participação na sua própria Natureza; derrama na sua alma as virtudes infusas da fé, esperança e caridade, e torna-o membro do Corpo Místico de Cristo. O dever fundamental de todo o cristão é amar a Deus com todo o seu coração, e ao seu próximo por amor de Deus. O plano geral do programa que esse cristão deve seguir é tomar uma atitude de humildade e seguir a prática da conformidade com a Vontade de Deus na fé, na esperança e na caridade.

De fato, esta última sentença resume quase tudo, mas deve ser bem compreendida em si mesma, e também é preciso compreender bem as suas implicações. Se é preciso entender como é que se pode cumprir esse programa de oração, surgem de imediato as perguntas: a quem se destina? A quem se aplicam os seus princípios? A resposta é que se aplica a toda alma batizada, e nossa intenção ao formular estes princípios é aplicá-los a todos, sejam leigos (cujo estado já foi definido quer pelas circunstâncias, quer pela sua própria escolha, tenham ou não contraído o Matrimônio) ou sacerdotes, seculares ou religiosos. Não excluímos nenhum batizado disposto a procurar evitar o pecado mortal. Pouco importa a idade ou o sexo, nem suas condições gerais, sua educação e/ou sua história. Não importa quais pecados tenha cometido no passado ou quais oportunidades de progredir na vida espiritual não tenha aproveitado, nem quais graças tenha recusado; desde que se trate de pessoa batizada, que esteja disposta a procurar evitar os pecados mortais, toda a doutrina que explicaremos a partir deste ponto pode ser aplicada ao seu caso.

A razão dessa certeza vamos encontrá-la no Nome dado ao Filho de Deus, em sua Encarnação: “o Nome de Jesus, porque Ele salvará o Seu povo dos seus pecados”(Mt 1,21). Lembremo-nos que a maior censura que os falsos fariseus se lembraram de lançar contra Nosso Senhor foi exatamente a de apelar para uma sua característica já bem conhecida: “Ele recebe os pecadores” (Lc 15,2).

Sendo a vida espiritual uma muito especial sociedade com Jesus, e também uma tendência de todo o se do cristão para Jesus, ninguém deve ter receio de ser repelido por Ele, pois não há ninguém a quem Ele não receba. Portanto, quer o leitor seja um daqueles que buscaram sempre a Presença divina, desde a juventude, e queira viver melhor, ou seja um dos que reconhecem que a sua vida tem sido de mediocridade e tibieza, ou ainda um daqueles que mal se ergueram do atoleiro do pecado mortal, nada disso importa; estas orientações são também para eles e para eles estão abertas todas as possibilidades aqui tratadas. 

Apenas pedimos ao leitor que não se glorie de qualquer bem que já praticou (ou dos seus êxitos em evitar o mal), que se arrependa do mal que praticou e do bem que deixou de fazer e que se prepare para fazer melhor no futuro, confiando no Auxílio e Sociedade de Jesus, seu Salvador.

O programa a seguir, desde o princípio, é entrar em contato, o mais depressa possível e o mais íntimo possível, com Nosso Senhor. O Cristo é, Ele mesmo, a própria Revelação de Deus; é o modelo de Deus para os homens; é o Mestre vindo de Deus para os homens; é o Sócio e o Salvador dos homens; é, de fato, o Caminho, a Verdade e a Vida.

No entanto – e entender isto é muito importante –, o seu apelo a cada um dos homens não é o mesmo; depende do temperamento e de certas características particulares e das capacidades (físicas, mentais e espirituais) dadas de cada um. Por exemplo, aqueles que são dotados de natureza afetiva comovem-se mais com a Bondade e o Amor do Cristo, Deus feito homem por amor a cada um de nós; já os mais austeros tendem mais para ver nEle um Mestre, um Guia e um Rei. Mas o apelo divino é geral, é para todos os homens e mulheres, jovens e velhos, ricos e pobres, solteiros e casados, sacerdotes, religiosos e leitos, consagrados ou não, e não há coração ao qual Ele não possa satisfazer.



São quatro os meios de entrar em com Ele:

A oração, os Sacramentos, a leitura espiritual e a conformidade com a Vontade de Deus. Este último inclui os outros todos, mas, num primeiro momento, apenas queremos nos referir às obrigações impostas pelos Mandamentos e deveres do próprio estado de cada um.

Estes quatro meios de procurar Cristo não são independentes. Com efeito, no desenvolvimento da prática e do conhecimento da vida espiritual, devemos progredir em círculos, se assim nos podemos exprimir: primeiro, um círculo pequeno que se alarga e agrega a si novas ideias ou novas práticas, até atingirmos a plenitude. Progresso numa única direção pode sair coxo e em geral falha, porque as diferentes partes do verdadeiro progresso dependem umas das outras. Precisamos de conhecimentos para rezar a Deus, precisamos de graça para adquirir conhecimentos e precisamos da oração para conseguir a graça. Não podemos orar com sinceridade se não formos sinceros no cumprimento da Vontade de Deus e não podemos cumprir a Vontade de Deus se não lhe pedirmos sua Graça.

Há outro ponto ainda a notar. Falamos da procura de Cristo, mas já dissemos que a vida cristã se inicia na união íntima com Cristo. Não haverá contradição aqui?

Talvez pareça que existe, pelas palavras, mas a realidade não é tão contraditória como parece. Vejamos: a Presença de Nosso Senhor fora de nós não interfere com a sua Presença dentro de nós. E a Presença de Nosso Senhor na nossa alma não interfere com o seu crescimento nela mesma, nem com a sua vinda até nós, para entrar em união mais íntima conosco. De fato, é-nos proibido recebê-lo na Santa Comunhão se Ele não estiver já nas nossas almas com a sua Graça. Além disso, estamos empregando palavras humanas para explicar coisas divinas, e as palavras humanas são inadequadas para tal. Por vezes, precisamos empregar figuras variadas de linguagem para dar indicação do que queremos significar.

Uma forma de encarar o problema é a adotada por Santa Teresa no seu livro "Castelo Interior", em que ela compara a alma a um castelo. Quando um homem está em pecado, está fora do castelo. Deus está muitas vezes na nossa alma, e nós estamos fora de nós: não O podemos encontrar em nós e temos de O procurar em outra parte. Acontece muitas vezes que não podemos entrar em nós próprios; fechamo-nos a nós mesmos e não podemos encontrar a chave.

É uma analogia profundíssima. Apesar da confusão aparente das palavras, porém, o católico comum é capaz de compreender plenamente estas ideias e sabe que correspondem à realidade. Sim, mesmo depois de ter encontrado Deus nas profundidades da sua alma, pode ainda rezar a Deus no Céu, sem qualquer sentido de inconsistência. Não devemos, portanto, supor que estamos a negar o que já afirmamos sobre a morada de Deus em nós ao falarmos agora da partida à procura de Deus, porque, quer consideremos Deus dentro de nós, quer O consideremos fora de nós, temos sempre de partir de nós próprios para O encontrarmos. E mesmo quando nos encontramos já unidos a Ele, veremos que essa união pode ser aumentada ou aperfeiçoada, compartilhando com Ele daqueles mesmos atos com os quais O procuramos.

O primeiro meio de procurar a Deus que vamos considerar é a oração. A oração, diz-se, é “uma elevação da alma para Deus”, e também se define como “uma conversação com Deus” ou uma “procura amorosa de Deus pela alma”. Em um sentido específico é também o “pedido das graças convenientes a Deus”.

Na prática, começamos a orar atraindo Deus ao nosso pensamento, ou, falando com mais propriedade, dirigindo o nosso pensamento a Deus. Ele está em toda a parte; pondo, portanto, de lado todos os outros pensamentos e considerando-nos na sua Presença, podemos sempre rezar. Torna-se, porém, necessário um esforço para nos libertarmos de todos os outros pensamentos, e precisamos formar ideia clara de Deus para dominá-los ou para ocupar a nossa imaginação. Neste sentido podemos citar a ligação que se verifica entre a oração e a leitura, porque a leitura desempenha um papel preponderante em formar uma ideia de Deus. "Como, pois, invocarão Aquele em quem não creram? e como crerão Naquele de quem não ouviram falar? E como ouvirão, se não há quem pregue?" (Rm 10,14). Pois bem, os Apóstolos nos falaram dEle pela pregação, como o continuam fazendo ainda hoje os seus sucessores, e pelos seus escritos; indiretamente, também pelos escritos dos que se inspiraram neles e no Evangelho do mesmo Senhor, proclamando uma só Fé e um só Batismo (Ef 4,5). Assim é que por meio da leitura espiritual formamos ideia de Deus, como também pelo ouvir a pregação e os bons testemunhos.

Podemos escolher o caminho que nos parecer mais conveniente para representar Deus a nós próprios. As necessidades individuais variam tanto que não se podem assentar em qualquer norma definida, e por não compreender isto muitas almas sofrem e se perdem.

Para alguns, basta-lhes a noção de Deus; outros contemplam a humanidade de Nosso Senhor em alguns dos seus Mistérios, outros ainda concentram a sua atenção no Tabernáculo ou no Crucifixo. A melhor regra, porém, nesta como em outras questões semelhantes sobre a ação, é cada um rezar pela forma que entender mais conveniente. Sim, é preciso que o católico dito "tradicionalista" tenha a coragem de aceitar que não há, nem nunca haverá, de fato, um conjunto de regras fixas para todos os momentos ou para toda e qualquer situação que vai surgindo na busca espiritual.

Como já foi dito, o que funciona para um não necessariamente funcionará para o outro. Há, por exemplo, católicos que se realizam rezando o santo Terço diariamente. Há outros tantos que simplesmente não conseguem fazê-lo, e se condenam e sofrem por isso, sentindo-se culpados, infiéis ou incapazes... Mas não deveriam! A verdade é que nenhum católico é obrigado a rezar o Terço diariamente. Por mais piedosa, santa e frutuosa que seja esta prática, aquele que encontra sérias dificuldades em cumpri-la (dificuldades que não conseguem vencer mesmo que muito persistam) acabará por arrefecer e talvez desanimar completamente na vida de oração, caindo mesmo – num desfecho radical –, em risco de perder a própria alma, se não compreender e aceitar que deve buscar outro meio (que lhe seja mais natural) de cultivar a oração e a Comunhão com Deus – e com os Santos, os santos Anjos e a santa Mãe da Igreja.

Há alguns princípios que nos podem guiar. A oração é, em certo aspecto, uma coisa muito simples e, num outro aspecto, muito complexa. Visa um fim múltiplo, e se tivermos em mente os seus diferentes objetivos, podemos concernir qual a melhor forma de rezar.

O principal fim da oração é cumprir o primeiro dever de todo o homem imposto pelo sagrado Mandamento: prestar a Deus o culto devido. Esse culto inclui a adoração, que é o reconhecimento do Domínio supremo de Deus sobre nós e nossa dependência absoluta dEle, inclui a ação de graças, porque devemos tudo à bondade de Deus, e compreende também o reconhecimento da nossa condição de pecadores com um arrependimento sincero pelas nossas faltas contra Deus e a resolução de as expiar. Todavia não há necessidade, é claro, de traduzir estes sentimentos em palavras todas as vezes que oramos, mas convém que todos os dias e por qualquer forma declaremos esses sentimentos.

Não há para isso melhor meio do que aquele que nos indicou Nosso Senhor: rezar o Pai Nosso. Devemos, portanto, tomar todos os dias uma atitude formal de oração, de preferência de joelhos, e prestar assim a devida homenagem, mesmo que seja muito breve, a Deus.

Há outro fim que devemos ter em vista na oração, que é obter certas graças que nos são necessárias.

A menor ação da nossa vida espiritual depende de Deus para ser iniciada e praticada; a própria conservação da nossa vida depende da divina Providência, e o êxito final dos nossos esforços exige a graça especial da perseverança final. Algumas destas graças são-nos concedidas por Deus, sem as pedirmos, porque Nosso Senhor Jesus Cristo é nosso infalível Mediador, e porque temos no Céu uma Mãe que se empenha em nos alcançar todo o bem. Muitas vezes, as principais graças são-nos concedidas sem que as peçamos, como é o caso do próprio dom da vida: quem de nós pediu para ser e nascer? Há, porém, outras graças bem necessárias que Ele não nos concederá se não as pedirmos. É certo que Ele conhece bem as nossas necessidades, mas não é para O informarmos que Ele deseja que peçamos, e sim para nos informarmos a nós próprios da necessidade que temos dEle, de modo que vejamos nEle a Fonte de todo o bem e para que, ensinando-nos a ter confiança nEle, não nos convençamos de que teremos tudo o que quisermos sem o pedirmos, o que poderia nos tornar arrogantes e soberbos, iludidos numa falsa sensação de absoluta autossuficiência e independência. Esta é uma das razões por que devemos dedicar todos os dias um período de tempo certo à oração. Ambas estas necessidades se podem satisfazer escolhendo a forma de oração que mais apelo exerça em nós, fazendo uso dela diariamente. Mais importante do que a duração, a beleza ou a forma é a persistência e a fidelidade.

O Pai-Nosso, como é óbvio, por ser a oração magna ensinada diretamente por nosso Senhor e Salvador, deve ser constante em nossas orações, e, como não podemos desprezar o auxílio precioso e incomparável de Nossa Senhora, a Ave-Maria também deve ter sempre o seu lugar em nossas invocações. Se quisermos fazer uso de um bom livro de orações, devemos empregar os meios que melhor nos pareçam para o fim que temos em vista. Importa que a lista de orações não seja demasiado longa. Vale mais rezar um Pai-Nosso com sinceridade do que desfiar as contas do Rosário inteiro sem pensar em Deus.

Por que – ao contrário do que afirmam certos diretores espirituais –, dizemos que as orações que decidirmos rezar todos os dias não devem ser muito longas? Para que se não se convertam numa tarefa pesada. De outra forma, é muito provável que acabemos por as recitar mal e que, mais cedo ou mais tarde, acabemos por não dizer nenhuma. Devemos reconhecer que somos humanos e falhos, e também é preciso saber diferenciar a condição dos religiosos e a dos leigos. Os primeiros têm suas rotinas bem definidas e próprias, conforme a regra de sua ordem ou congregação religiosa. Os segundos vivem uma situação completamente diferente. Também é diferente a situação de uma pessoa jovem, a de um adulto maduro e a de um idoso. Estes últimos, por exemplo, em geral têm mais tempo livre, mais paciência e mais conhecimento de si mesmos. Muitos leigos jovens que se dispõem e tentam se obrigar a rezar por longas horas por dia acabam desanimando e abandonando a vida espiritual, sentindo-se frustrados consigo mesmos e, muitas vezes, consciente ou inconscientemente frustrados com Deus. que esperavam que iria lhes dar toda a força para cumprir um itinerário que não é o ideal para eles.

A oração é coisa tão essencial à nossa vida espiritual que a não devemos associar à ideia de um incômodo
. Além disso, não é por muito falarmos que somos ouvidos, mas, isto sim, se forem boas as disposições do nosso coração. Mas não iria, por acaso, esta recomendação contra a admoestação do santo Apóstolo, que diz: "Orem continuamente"? A esse respeito, muitos grandes santos já chegaram à conclusão de que a mais perfeita solução é fazer de toda a vida uma grande e contínua oração. O que trabalha, trabalhe rezando, e não necessariamente uma oração vocal (o que seria inviável) ou recitando fórmulas em sua mente. A grande oração é praticar a fé todos os momentos e oferecer cada minuto de nossos dias a Deus por meio dos nossos atos, pensamentos e escolhas. Quando deixamos de fazer algum mal, perdoamos, assumimos uma postura humilde ou aconselhamos bem um colega de trabalho ou estudo, por exemplo, isto é uma oração que elevamos a Deus e certamente o agrada mais do que muitos sacrifícios, jejuns e penitências (conf.  Jr 7,22; Os 6,6; Mt 9,13).

A única condição que Nosso Senhor impôs para cumprir as promessas que fez a respeito da oração foi que devíamos rezar em Seu Nome. Por palavras, devemos orar em sociedade com Ele e para benefício do Seu Corpo Místico. Unidos a Ele, temos à nossa disposição os seus Merecimentos infinitos, para apresentar diante de Deus; unidos a Ele, podemos dizer a Deus: "Este é o vosso Filho bem amado, no qual pusestes as vossas complacências: ouvi-O".

As disposições para a oração são as disposições para uma sã sociedade com Cristo: fé, esperança, caridade, humildade e submissão à Vontade de Deus. É certo que mesmo o pecador pode e deve rezar: mesmo esse deve orar também por intermédio de Jesus Cristo, confiando nos seus Merecimentos infinitos, para que a sua oração seja ouvida diante do Trono de Deus, mas, se não tem essas disposições de fato, deve tê-las pelo menos em desejo.

** Ler a segunda e conclusiva parte

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Fonte:
BOYLAN, Eugene. This Tremendous Lover, Cork City: The Mercier Press, 1955, capítulo VIII.
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