Sobre o incêndio no Palácio Imperial do Brasil


Por Igor Andrade
– Frat. Laical São Próspero


A DATA DE 2 DE SETEMBRO é – ou aos menos deveria ser – uma das maiores datas comemorativas para o povo brasileiro: foi neste dia, em 1822, que Dona Leopoldina assinou o Decreto de Independência do Brasil, que seria reconhecido por Dom Pedro de Alcântara no próximo dia 7, dando início, com isso, à guerra de brasileiros contra portugueses pela independência nacional. Nasceu, neste dia, o Brasil como gigante independente e sublime.

Esta data, porém, em 2018, tomaria um outro significado: em 2 de setembro do presente ano vimos o símbolo da morte de uma nação.

O prédio onde residira a Família Imperial, localizado na Quinta da Boa Vista, zona norte da capital do Rio de Janeiro, após esta ter sido expulsa numa quartelada, converteu-se no Museu Nacional. Ali estavam expostos os pertences da Família Imperial, bandeiras, obras de arte, trabalhos científicos, fósseis e até uma múmia em seu sarcófago (comprada por Sua Majestade Dom Pedro II, amante das ciências). Além do prédio, muitos dos objetos expostos foram destruídos pelo fogo assassino do Nero moderno: o Estado.

É difícil crer que um fóssil humano de 13 mil anos de idade (o mais antigo encontrado na América, e carinhosamente chamado de Luzia) resistiu ao tempo, a diferentes eras geológicas, a intempéries dos mais variados tipos, mas não resistiu à incompetência assassina do Estado Brasileiro. É difícil crer que uma múmia egípcia (junto com muitíssimas outras peças inestimáveis) resistiu ao fim de sua civilização, a guerras, saques, desgraças incontáveis, mas não ao descaso dos nossos péssimos administradores públicos. Talvez nem mesmo o próprio Antonio Gramsci creria num assassinato cultural e científico de tais proporções.

O mestre Ariano Suassuna, autor da peça Auto da Compadecida, disse certa vez que “a universidade brasileira ensina de costas para o país e para o povo”, mas se sua memória me permite, faço o seguinte acréscimo: e o Estado Brasileiro governa de costas para o povo, sua história e sua cultura.

Em 2004, o secretário estadual de Energia, Industria Naval e Petróleo, Wagner Victer, já denunciara o deplorável estado de conservação do Museu à Agência Brasil (veja), mas tardaria ainda 14 anos para realizar-se sua "profecia" nada profética. De lá para cá, que fez o governo? Pelo Museu Nacional (ou seja, pela cultura brasileira) nada: “não há verba...” – mas para financiar exposições ofensivas ao povo, havia; para financiar grupos pró-governo, havia; para superfaturar obras públicas, havia; para desviar verba, havia verba.

Que significa tal coisa, senão a simbólica morte de uma cultura, senão o genocídio cultural de todo um povo? Qualquer destruição ou perda de objetos, documentos ou resultados científicos e históricos é a destruição de uma cultura e é profundamente danoso ao futuro do próprio povo. Não é preciso ser um amante da ciência ou da história para perceber tal coisa, basta querer ter um futuro – como ensinou Monteiro Lobato, dizendo que “a História é um processo contínuo do que se fez no passado, com o objetivo utilitário de nortear o futuro”.

A triste imagem do Palácio em chamas é símbolo da atual situação do Brasil. Que virá em seguida? Mais desculpas do governo, mais promessas e mais um nada que será feito – e o prédio retornará às cinzas de onde veio, assim como o povo brasileiro, se não lutar para manter-se vivo ante tal calamidade e recuperar ao menos parte do que foi perdido.
Embora eu pareça pessimista com nosso futuro por conta deste símbolo da morte de nosso passado, dou o braço a torcer ao argentino Manoel Galvez e afirmo com ele que creio na fertilidade espiritual do meu país, e não compreendo que ela não corresponda à prodigiosa fertilidade da terra.


Bernardo Küster comenta


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2 comentários:

  1. Essa tragédia tem o viés da iconoclastia incendiária da esquerda. Desde o malfadado golpe republicano que a história vem sendo reescrita no Brasil. Quando não apagada. A esquerda, assim como o modernismo, sempre teve predileção pela feiura. É notório o seu desprezo pelo clássico, tanto no âmbito arquitetônico e artístico. E houve quem celebrasse o incêndio!

    Mas o que me causa perplexidade mesmo é a grotesca inversão dos valores promovida às custas de verba pública, sem que os bons reajam. Para os libertinos que se dizem artistas (teatrólogos, funkeiros, dançarinos) não falta dinheiro, contudo a preservação do patrimônio histórico e cultural, bem como as igrejas barrocas, é relegado aos cupins.

    Sobre a fertilidade espiritual do Brasil, as tentativas de descatolização são antigas. Datam desde o Império, cujo legado é hoje desvalorizado. É um legado literalmente reduzido a cinzas. Faz-me recordar da comemoração dos 500 anos do Descobrimento do Brasil, quando os esquerdopatas organizaram protestos para desmerecer os grandes feitos dos Portugueses em dilatar a Fé e o Império, trazendo desse modo a Civilização:

    http://catolicismo.com.br/materia/materia.cfm?IDmat=110D50E8-0A8D-7B85-8763972836725C19&mes=Junho2000

    Paz e Bem!

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  2. Nesse ano teve também o vandalismo no Pateo o Collegio:
    https://www.youtube.com/watch?v=BOP6jvvBOiw

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