A busca da data histórica do Nascimento de Cristo: 25 de dezembro é uma possibilidade factual


O TEMPO LITÚRGICO do Natal vai da véspera do próprio Natal de Nosso Senhor até o primeiro domingo depois da Festa da Epifania, em 6 de Janeiro, quando se comemora o Batismo de Jesus.

"Epifania" é a manifestação de Jesus como o Messias Israel, Filho de Deus e Salvador do mundo. A esse respeito, diz o seguinte o Catecismo da Igreja Católica:

A Epifania é a manifestação de Jesus como Messias Israel, Filho de Deus e Salvador do mundo. Com o Batismo de Jesus no Jordão e com as bodas de Caná, ela celebra a
adoração de Jesus pelos 'magos' vindos do Oriente. Nesses 'magos', representantes das
religiões pagãs circunvizinhas, o Evangelho vê as primícias d(e todas) as nações que acolhem a Boa Nova da salvação pela Encarnação. A vinda dos 'magos' a Jerusalém para 'adorar ao Rei dos Judeus' mostra que eles procuram, em Israel, à Luz messiânica da estrela de Davi, aqu'Ele que será o Rei das nações. Sua vinda significa que os pagãos podem descobrir Jesus e adorá-lo como Filho de Deus e Salvador do mundo (...).
(CIC §528)

Antes de tudo, no estudo sério do assunto que dá título a este artigo, precisamos reconhecer que não existe certeza quanto à data historicamente precisa do Nascimento de Jesus Cristo. Os evangelistas não a mencionam. S. Lucas informa que pastores estavam em vigília noturna, guardando o rebanho nos campos, atividades mais comuns na primavera e verão do Hemisfério Norte, mas de modo algum totalmente ausentes no outono/inverno. Bispos dos primeiros séculos fizeram numerosas especulações: alguns aderiram ao 25 e/ou 28 de março; outros, ao 19 de abril ou ao 20 de maio.

No mundo pagão do século III, o culto de Mitra, também chamado de “Sol Invencível”, adquiriu grande importância no mundo romano. O Império promovia, todo dia 25 de dezembro, grandes festas e jogos em homenagem ao dies natalis (dia do nascimento) desse deus. No século seguinte, para conter o paganismo e instaurar a celebração do Nascimento de Cristo, Luz dos homens e verdadeiro Sol que traz a Luz ao mundo, teria a Igreja situado definitivamente a celebração do Nascimento do Filho de Deus no lugar da festa pagã. Ou seja, tratar-se-ia de uma decisão mais religiosa e evangelizadora do que de uma fixação científica da data do Evento histórico. – Saiba mais sobre o assunto neste estudo.

O próprio ano do Nascimento de Jesus é também motivo de debates. Mateus diz que Jesus nasceu no reinado de Herodes, o Grande, que morreu no ano 4 a.C. – Cristo, evidentemente, não poderia ter nascido antes de Cristo. – Ocorre que, no século VI de nossa era, o monge Dionísio Exíguo foi incumbido de empreender cálculos para determinar o início da Era Cristã, e a fixou em 754 após a fundação de Roma. Ele reconhecidamente se equivocou. Além disso, não lhe ocorreu a necessidade de fixar um ano zero entre -1 a.C e + 1 d.C.



Até aqui, preparamos um singelo "pano de fundo" para a introdução do tema, sem apresentar novidade alguma. A novidade, – que já não é tão nova assim, pois se baseia numa descoberta que já completou mais que uma década, – é a contestação daquilo que há tempos vinha sendo pacificamente aceito como realidade pela maioria dos historiadores e pesquisadores mais reconhecidos: a afirmação de que a data de celebração do Natal havia sido essa escolha arbitrária (descrita acima), baseada em motivações desvinculadas da preocupação com a precisão histórica e sem ligação com a data real do Nascimento de Jesus, a qual, por fim, ninguém teria condições de poder determinar.

Se começamos dizendo que, no estudo sério deste tema, é preciso reconhecer que não existe certeza quanto à data historicamente correta do Nascimento de Jesus Cristo, igualmente é preciso saber e reconhecer que existe a possibilidade de essa maioria de especialistas ter se enganado, ao menos até recentemente.

O fato histórico concreto é que hoje, – graças em boa parte aos documentos de Qumran1, – estamos em condições de repensar a questão com precisão inédita: Jesus pode, sim, ter nascido mesmo no dia 25 de dezembro. Uma descoberta extraordinária, que não recebeu ainda a devida atenção por parte da mídia em geral, e mesmo entre os grandes autores. Ainda assim, estamos falando de uma proposição historicamente séria e que não pode ser alvo de suspeitas de fins apologéticos católicos, dado que a devemos primeiramente a um docente judeu, da Universidade Hebraica de Jerusalém.

Antes de entrarmos nas explicações que levaram a esta fascinante descoberta, cabe salientar que, ainda que até o século III não tenhamos documentação mais concreta quanto a data do Nascimento de Cristo, e os primeiros testemunhos dos Padres e autores eclesiásticos assinalem datas diversas, o primeiro testemunho de que o Natal do Senhor tenha ocorrido a 25 de dezembro parte de Sexto Júlio Africano, e provém do ano 221. Além disto, referência direta à mesma data é a do calendário litúrgico filocaliano, do ano 354, que atesta: VII kal. Ian. natus Christus in Betleem Iudeae ('a 25 de dazembro nasceu Cristo em Belém da Judeia'). Então, a partir do século IV, os testemunhos desta data com a do Nascimento do Senhor são comuns na tradição ocidental, enquanto que na tradição oriental prevalece o 6 de janeiro.

Outra explicação plausível faz depender a a data do Nascimento de Jesus e a data de sua Encarnação (Concepção), que por sua vez se relacionava com a data de sua Morte. Num tratado anônimo sobre solstícios e equinócios afirma-se que "Nosso Senhor foi concebido às 8 das kalendas de abril do mês de março (25 de março), que é o dia da Paixão do Senhor e o da sua Concepção, pois foi concebido no mesmo dia em que morreu"2. Teria então nascido aos 25 de dezembro. Na tradição oriental, apoiando-se em outros calendários, a Paixão e a Encarnação do Senhor celebram-se a 6 de abril, data que coincide com a celebração do Nascimento aos 6 de janeiro.

A relação entre Paixão e Encarnação é uma ideia que está em consonância com a mentalidade antiga e medieval, que admirava a perfeição do Universo como um todo, onde as grandes intervenções de Deus estavam vinculadas entre si. Trata-se de uma concepção que também encontra as suas raízes no judaísmo, onde criação e salvação se relacionavam com o mês de nisan. A arte cristã refletiu abundantemente esta mesma ideia ao longo da História, por exemplo, ao retratar, na Anunciação à Virgem, assim como em diversos outros ícones que retratam a divina Infância, o Menino Jesus descendo do Céu com a cruz. Assim, mais do que possível, é provável que os cristãos vinculassem a Redenção operada por Cristo com a sua Concepção, e esta determinasse a data do Nascimento. Como disse Joseph Ratzinger, o agora Papa emérito Bento XVI: "O mais decisivo foi a relação existente entre a Criação e a Cruz, entre a Criação e a Concepção de Cristo"3.

Vemos, então, que a explicação da cristianização da data de 25 de dezembro, visando a conversão dos pagãos, – conforme nós mesmos divulgamos por aqui, – não é uma certeza acadêmico-histórica, mas apenas a versão mais difundida e aceita. Retomando a partir daqui a proposição da data do Nascimento do Senhor como sendo historicamente o 25 de dezembro, apresentamos a sua explanação, talvez algo complexa, mas fascinante.

Se Jesus nasceu aos 25 de dezembro, então, como é óbvio, sua Concepção ocorreu 9 meses antes. Com efeito, os calendários cristãos datam a Anunciação de S. Gabriel Arcanjo a Maria Santíssima em 25 de março. Sabemos, pelo Evangelho de S. Lucas que, precisamente seis meses antes, João, o Precursor, que será chamado o Batista, tinha sido concebido por Isabel. A Igreja Católica não tem uma Festa litúrgica para esta concepção, mas a Igreja do Oriente celebra-a solenemente, entre os dias 23 e 25 de setembro; seis meses antes da Anunciação a Maria.

Estaríamos diante de uma sucessão de datas lógica e plausível, mas baseada em tradições não verificáveis, e não em acontecimentos localizáveis no tempo? Era nisso que se acreditava quase que unanimemente, até há pouco tempo. A realidade, porém, pode ser outra.

Para entender o que se propõe, devemos partir da concepção do Batista: o Evangelho segundo S. Lucas se abre com a história do velho casal, – Zacarias e Isabel, – já resignado à esterilidade, que era considerada uma das piores desgraças em Israel daquele tempo. Zacarias pertencia à casta sacerdotal e, um dia, quando estava de serviço no Templo de Jerusalém, teve a visão de S. Gabriel (o mesmo anjo que aparecerá seis meses mais tarde a Maria, em Nazaré), o qual lhe anunciou que, não obstante a idade avançada, ele e a mulher teriam um filho. Deveriam lhe dar o nome João, e ele seria grande "diante do Senhor".

Atenção: Lucas teve o cuidado de precisar que Zacarias pertencia à classe sacerdotal de Abias e, que à ocasião da aparição "desempenhava as funções sacerdotais no turno da sua classe" (Lc 1,8). Com efeito, no antigo Israel, os que pertenciam à casta sacerdotal estavam divididos em 24 classes, as quais, alternando-se segundo uma ordem fixa e imutável, deviam prestar o serviço litúrgico no Templo, por uma semana, duas vezes por ano.

Prof. Shemarjahu Talmon
(1920-2010)
Já se sabia que a classe de Zacarias (a de Abias) era a oitava no elenco oficial; mas não se sabia quando é que ocorriam esses seus turnos de serviço. Ocorre que este enigma foi desvendado pelo professor Shemarjahu Talmon, docente na Universidade Hebraica de Jerusalém, utilizando investigações desenvolvidas também por outros especialistas e trabalhando, sobretudo, com textos encontrados na biblioteca essênia de Qumran. O estudioso, assim, conseguiu precisar em que ordem cronológica se sucediam as 24 classes sacerdotais. A de Abias prestava serviço litúrgico no Templo duas vezes por ano, tal como as outras, e uma destas vezes era na última semana de setembro. Portanto, era verosímil a tradição dos cristãos orientais que põe entre os dias 23 e 25 de setembro a data do anúncio a Zacarias. Verosimilhança esta que aproximou-se da certeza, porque os estudiosos, estimulados pela descoberta do Prof. Talmon, reconstruíram a “fileira” daquela tradição, chegando à conclusão de que esta provinha diretamente da Igreja primitiva, judaico-cristã, de Jerusalém. Esta memória das Igrejas do Oriente é tão firme quanto antiga, tal como se confirma em muitos outros casos.

Vemos, assim, como aquilo que parecia mítico tem fundamento na realidade histórica; uma cadeia de acontecimentos que se estende ao longo de 15 meses: em setembro, o anúncio a Zacarias, e no dia seguinte a concepção de João; seis meses depois, em março, o Anúncio a Maria; três meses depois, em junho, o nascimento de João; seis meses depois, o Nascimento de Jesus. Com este último acontecimento, chegamos precisamente ao dia 25 de dezembro; uma data que neste caso não foi, de modo algum, fixado ao acaso ou com objetivos secundários.

Depois de tantos séculos de investigação, eis que os Evangelhos, – que nunca cessam de nos surpreender e nos fornecer informações novas, – revelam, em detalhes aparentemente inúteis (o que é que importava se Zacarias pertencia à classe sacerdotal de Abias ou não? Nenhum exegeta prestava atenção a isto) a sua razão de ser, a sua realidade enquanto sinais de verdades precisas, às vezes explícitas, às vezes ocultas.

É, portanto, no mínimo uma possibilidade concreta e real que o Natal de Nosso Senhor tenha realmente ocorrido, como fato histórico e cientificamente demonstrável, no dia 25 de dezembro.

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Notas:
1. Os manuscritos de Qumran foram descobertos em 1947, perto das margens do Mar Morto, na localidade de Qumran, localidade onde a seita hebraica dos essênios tinha sua sede principal no tempo de Jesus. Os manuscritos foram encontrados em ânforas, provavelmente escondidos pelos monges da seita, quando tiveram que fugir dos romanos, provavelmente entre 66 e 70 d. C. Estes pergaminhos nos deram os textos de quase todos os livros da Bíblia copiados num período entre dois e um século antes de Cristo, e perfeitamente coincidentes com os que são usados hoje por judeus e cristãos (cf. MESSORI, Vittorio, Hipóteses sobre Jesus, Porto: Ed. Salesianas, 1987, p. 101).
2. Cf. BOTTE, B. Les Origenes de la Noël et de l'Epiphanie, Louvain: Bélgica, 1932, pp. 230-233.
3. RATZINGER, Joseph. Introdução ao Espírito da Liturgia, São Paulo: Loyola, 2000, p. 131.
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Fontes:
• VARO, Francisco et al. 54 perguntas sobre Jesus Cristo. • São Paulo: Gabinete de Informação do Opus Dei, 2015.
• Corriere della Sera, 9 de Julho de 2003, com o apostolado Veritatis Splendor, disp. em:
veritatis.com.br/doutrina/deus/970-jesus-nasceu-mesmo-num-dia-25-de-dezembro
• SALLES, Catherine. Revista 'História Viva' virtual, ed. Duetto disp em:
www2.uol.com.br/historiaviva/artigos/jesus_nasceu_em_dezembro.html
www.ofielcatolico.com.br

2 comentários:

  1. Boa tarde, Henrique!

    Texto impressionante, que faz refletir o quanto as Sagradas Escrituras ainda nos podem surpreender. Aproveitando, gostaria de perguntar se há algum estudo ou texto que verifica a possibilidade de Nossa Senhora, a Virgem Maria, ter presenciado o nascimento de João Batista, pois encontra-se em Lucas 1, 26; quando Isabel estava no sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galiléia, chamada Nazaré. Mais adiante, em Lucas 1, 56 diz: Maria ficou três meses com Isabel. Depois voltou para sua casa. Então, ou ela foi embora pouco antes do nascimento de João Batista ou ela participou desse nascimento.

    Grande abraço.

    Cristiano

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    Respostas
    1. Caríssimo Cristiano,
      Graça e paz!
      Leia o Post abaixo indicado, onde este rico Apostolado (nos diversos comentários) trata também, sobre o parto de Santa Isabel.
      Boa leitura:
      http://www.ofielcatolico.com.br/2005/06/dia-do-grande-sao-joao-batista-voz-do.html

      Seja Louvado Nosso Senhor Jesus Cristo!

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