Posts recentes

POSTS RECENTES > Carregando...
Mostrando postagens classificadas por relevância para a consulta Igor Andrade. Ordenar por data Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens classificadas por relevância para a consulta Igor Andrade. Ordenar por data Mostrar todas as postagens

Padre libanês fala sobre o Estado Islâmico, a perseguição aos cristãos e as relações entre cristãos no Oriente Médio


Por Igor Andrade – Frat. Laical São Próspero

PADRE SOUHAIL DIB ISSA, 44, sacerdote libanês e de família síria, ordenado na Síria aos 25 anos de idade, falou a Igor Andrade, – membro da Associação São Próspero, – sobre o panorama do cristianismo no Oriente Médio e os conflitos com os muçulmanos. É sempre útil e aconselhável que nos informemos a respeito de fatos tão complexos tendo como ponto de partida o testemunho de quem que viveu (e indiretamente ainda vive) estas realidades a partir de dentro, como experiência de vida, mais do que por meio de pesquisas e/ou estudos.


Em Poucas palavras, qual a história do cristianismo no Oriente Médio? Como era, como mudou e como está agora?

O cristianismo no Oriente Médio foi fundado pelo próprio Senhor Jesus Cristo e seus Santos Apóstolos, que começarem a pregar em Jerusalém e em todo o território da Síria (cf. At 11). O cristianismo crescia, com prodígios e sinais, até o século VII. Foi quando o dito "estado islâmico" (EI) invadiu o Oriente médio matando milhares de cristãos. Apenas os que declararam fé no Islã foram salvos da morte e transformados contra os cristãos que sobraram, graças a lei do imposto pago ao EI. Agora, os cristãos são muito poucos, lutando para sobreviver.


Como é a relação entre os cristãos e os muçulmanos?

Na verdade há dois tipos de muçulmanos. Há os fanáticos que nos consideram infiéis e perseguem os cristãos, e uma segunda parte, de "moderados", que consideram os cristãos cidadãos de segundo grau.


O Sr. acha, a partir do que viu e viveu lá, que as perseguições sofridas pelos cristãos são por motivo religioso?

Sim. O motivo é cem por cento religioso.


O 'estado islâmico', localizado em Síria e Iraque, não cessa de inovar nos requintes de crueldade dos seus métodos. Recentemente, divulgou um vídeo que mostra quatro prisioneiros acusados de espionagem (um idoso) acorrentados e sendo lentamente queimados vivos


Há muitos cristãos que vivem, por causa da guerra, no exílio?

Se calcularmos as pessoas de todos os países árabes, como Palestina, Líbano, Síria, Jordânia, Iraque, Egito... São quase 20 milhões de cristãos exilados(!).


Há unidade entre católicos e ortodoxos na região?

Sim, com certeza. O que os une, primeiro, é o Cristo e Nossa Senhora, depois o fato de ser país árabe, a mesma cultura, mesmas tradições...

Pe. Souhail diz que no Oriente Médio a divisão entre cristãos católicos e ortodoxos não é tão "forte" como no Brasil, especialmente para o povo, que tem laços muito fortes de famílias mistas, que não veem problemas em participar da Liturgia ou de celebrações de casamentos em uma e outra Igreja; são frequentes também os casamentos mistos (entre católicos e ortodoxos) onde um padre católico vai à celebração ortodoxa e abençoa, ou um padre ortodoxo vai à celebração católica e participa desta. A exceção fica por conta da Comunhão: quando um católico vai a uma celebração ortodoxa, participa de tudo, mas não comunga; da mesma maneira fazem os ortodoxos.


Como está a fé deles? Na atual situação, o senhor acha que “o sangue dos mártires é semente de novos cristãos”?

Sim, porque a igreja foi construída sobre a fé dos primeiros mártires a partir dos santos Apóstolos, que morreram mártires. Essa foi sempre a fé da igreja.


Uma reação armada por parte dos cristãos seria uma alternativa para poupar vidas?

Com certeza, se nós cremos no Corpo místico de Jesus e que nós somos os membros deste Corpo santo. Se a sua mão está ferida, afeta todo o seu corpo, e o sangue derramado desta mão é o sangue do corpo todo.


A comunidade internacional faz pouco caso do genocídio dos cristãos?

Sim, faz pouco caso. (...) Ajudam aos muçulmanos mais do que aos cristãos perseguidos1. Aqui no Brasil o governo abriu a porta dos refugiados da Síria e vieram muitas famílias cristãs, mas o governo brasileiro não tem capacidade de mantê-los materialmente; nisso, até agora, nós não notamos nenhuma ajuda para essas famílias da parte de igreja.

________
1. Dentro desta mesma realidade, vemos por aqui diversas declarações da parte de nossos políticos, – especialmente os de ideologia esquerdista, supostamente muito preocupados em proteger as minorias, – contra a 'islamofobia', isto é, o preconceito contra muçulmanos, mas não se toca no assunto dos milhões de cristãos (homens, mulheres, idosos e crianças) que estão sendo cruelmente torturados, assassinados e perseguidos, sendo obrigados a abandonar suas casas e municípios para escapar da barbárie.
www.ofielcatolico.com.br

Imperdível: lançamento do livro 'Breve introdução à filosofia', por Igor Andrade

COM ORGULHO E ALEGRIA apresentamos a obra de nosso dileto irmão em Cristo e membro-fundador deste Apostolado, o prof. Igor Andrade, a qual se configura, com grande propriedade, naquilo que o próprio título atesta: uma breve (porém completa) iniciação filosófica para todos aqueles que desejam inserir-se nesse fascinante universo (e útil também aos estudantes mais progredidos), com rica indicação de fontes de estudo e pesquisa a partir das quais o leitor poderá se localizar e aprofundar, por seus próprios esforços, os seus conhecimentos. A seguir, a apresentação do próprio autor à sua obra.

“E em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo”. Assim disse Pero Vaz de Caminha ao escrever sobre as maravilhosas terras brasileiras em 1500, e assim eu digo sobre a filosofia. Esta ciência é fértil como as terras brasileiras.

Monteiro Lobato, ao comentar a frase de Caminha, concluiu: “Mas a formiga come tudo que se planta”, e o que a formiga não come, o governo toma. Este é um aviso. A terra da filosofia é boa e fértil, mas deve o leitor cuidar de plantar coisa boa e cuidar para que as formigas e o governo não destruam o fruto de tanto trabalho. 

As formigas, neste caso, são as ideologias, doidas para corromper os trabalhos honestos e que podem dar fruto; enquanto o governo é o academicismo que nos suga o suor da testa e os neurônios, caso não tomemos cuidado. Com o governo (e a academia) pode-se dialogar, sempre com cuidado, mas com as ideologias não. Para tanto é necessário estudo, conhecimento e um pouco de astúcia, que são os “inseticidas da verdade”. Neste livro, mostro quais são os frutos desta terra fértil e como cultivá-la.

13/8/2020 | 'Salvem as duas vidas!' Vozes dos cristãos que lutaram em defesa das vidas – a da menina de 10 anos grávida e de seu bebê – foram ignoradas


Por Igor Andrade – Fraternidade Laical São Próspero

NESTE DOMINGO, dezenas de cristãos, membros de comunidades católicas, padres, seminaristas e ativistas pró-vida posicionaram-se em frente ao Centro Integrado de Saúde Amaury de Medeiros (CISAM-UPE), no Recife, lutando em defesa da vida de uma garotinha de dez anos vítima de estupro, e de seu bebê (já no quinto mês de gestação).


Sobre o caso

Uma menina de 10 anos, natural do interior do Espírito Santo, foi estuprada pelo tio, e veio a engravidar. Estava já na vigésima segunda semana de gravidez, ou seja, quase no sexto mês de gestação, quando, pela força do Estado, foi assassinada a criança em seu ventre.

Doroteu de Gaza – Ensinamentos Espirituais

O artigo abaixo é uma resenha de Igor de Andrade que pretende servir de apresentação do curso online do Prof. Dr. Joel Gracioso* (Fraternidade Laical São Próspero) sobre Doroteu de Gaza e seus "Ensinamentos Espirituais". A relação completa dos cursos oferecidos pelo professor está disponível aqui.



NATURAL DE ANTIOQUIA, São Doroteu foi um monge cristão que viveu em Gaza durante o Século VI dC. Suas conferências mostram e, ao mesmo tempo, possibilitam adentrar a sabedoria dos Padres do Deserto, tratando de questões como renúncia, humildade, consciência, temor de Deus, vigilância, paixões, vida virtuosa, como lidar com as tentações e outros assuntos pertinentes à espiritualidade cristã.

Este curso expõe ensinamentos espirituais que levam o aluno a uma reflexão profunda de si e do mundo – isto porque Doroteu de Gaza nos mostra os desígnios de Deus para o homem, o caminho a percorrer para atingir a santidade, a perigosa manifestação do inimigo comum da humanidade, além de toda uma riqueza sobre a necessidade da ascese.

No decorrer da obra, Doroteu fala sobre o hábito monástico, o Pecado Original e suas consequências (como a perda da consciência da lei natural, a idolatria, o politeísmo, a magia e a feitiçaria), diferencia as paixões da alma dos pecados: as primeiras são as que estão no interior do homem (inclinações naturais), enquanto os segundos são os atos motivados por essas paixões. Não basta somente dizer “não” às paixões, se não arrancarmos a causa do fluir da paixão.

Como de costume, o Prof. Joel inicia o curso localizando o autor no seu período, para melhor entendermos o conteúdo de sua mensagem. Fala da querela do Cânon Bíblico – desde o crivo da Igreja para selecionar os Livros Sagrados até o questionamento da validade dos mesmos textos canônicos. Tudo isso para frisar a doutrina e a identidade cristã estabelecida nos primeiros séculos, contexto no qual surgiu um “estilo de vida cristão diferente”, o Monaquismo Cristão, do qual o autor estava inserido.

Em suma, São Doroteu foi herdeiro de um cristianismo razoavelmente estabelecido e de uma filosofia estoica – de onde, por exemplo, recebeu a noção de apateia (paz de espírito). Mas deixa claro que o autor não só repetiu o que já fora dito, como sempre fizeram os grandes pensadores cristãos, mas desenvolveu um pensamento próprio, adaptando a filosofia grega ao cristianismo (o que caracteriza toda a Patrística) e deixando prevalecer a ortodoxia da doutrina.

Além de elucidar a descrição de São Doroteu acerca da realidade humana (paixões, mazelas, pecados, etc.), o Professor traça vínculos entre a realidade cristã da época e a nossa realidade cristã atual, apresentando as soluções de Doroteu, de modo que possamos pô-las em prática na nossa vida quotidiana.

Os Ensinamentos Espirituais de São Doroteu de Gaza, apresentados pelo Profº Dr. Joel Gracioso, produzem, sem dúvidas, muitos frutos na alma, pois o curso é ministrado por alguém que não só possui formação especializada na área de Filosofia Patrística e uma vasta experiência no ensino de Teologia e Religião, mas também possui profunda e verdadeira fé.



** Assine a revista O FIEL CATÓLICO e tenha acesso a muito mais!

______
O Prof. Joel é autor de diversos livros e referência absoluta em Patrística nos países de língua portuguesa, com ênfase em Santo Agostinho, disciplina a qual eu, Henrique Sebastião, juntamente com Igor Andrade, tive a honra e o privilégio de concluir sob sua tutela pela faculdade de São Bento de São Paulo. Brindando-nos com uma oportunidade realmente imperdível, o professor elaborou uma série de cursos bastante didáticos, em áudio, especialmente pensados para os leigos que iniciam os seus estudos nas temáticas discriminadas.
www.ofielcatolico.com.br

Caminhos do estudante

Autobiográfico por Igor Andrade – Frat. São Próspero



COMO MUITOS, vim à Verdadeira Fé pelo trabalho de algum apostolado – no meu caso, sou fruto do trabalho do Padre Paulo Ricardo. Dele passei a outras fontes de conhecimento: Olavo de Carvalho, movimento monarquista, Thomas Woods, Felipe Aquino, Jason Evert, Scott Hahn, Ayn Rand, Luis F. Pondé, Chesterton e diversos “tutoriais” de Youtube.

Caíram-me as escamas dos olhos. Finalmente descobrira um conhecimento alcançável por vias além da televisão, da escola e do senhor meu pai.

Contudo, como todo bom adolescente “de direita” – como odeio este termo hoje em dia! – Fechei-me nisto. Tinha uns 15 anos.

Algo fez com que, certo dia, de passagem por uma livraria católica – não posso deixar de lembrar o quão encantado ficava ao entrar naquele lugar, embora hoje eu saiba que, de todo aquele acervo, quase nada se aproveita –, tomei todo o dinheiro de que dispunha (dez reais) para comprar um livro que mudaria minha vida: A Vida e os Milagres de São Bento, escrito por São Leão Magno.

– Que interessante, na Igreja há um grupo chamado “monges”, pensava que isso era coisa de budista. Aquela história mística me encantou. Ao mesmo tempo, eu fazia um curso de Teodicéia do Padre Paulo Ricardo – além de querer conhecer o desconhecido, eu, honestamente, queria calar a boca de um “ateu” de 15 anos que me importunava na escola –, onde ele falava muito a palavra “filosofia” e citava muito um tal de Santo Agostinho, bispo de Hipona e autor de "Confissões". Novamente, juntei todo o dinheiro de que dispunha (dezessete reais) e adquiri o tal livro do tal santo.

Foi o primeiro livro de filosofia que li. Boquiaberto a cada página que lia, decidi: vou estudar filosofia, vou ser filósofo e vou ensinar isso aos outros.

– Pai, o que é um filósofo?

– Ah, é alguém que filosofa.

– Ah... pai, o que é filosofar?

– Não sei, deve ser isso que você está fazendo. Agora me passa o tijolo.

Depois deste profundo e clarificante diálogo, descobri que havia uma ordem de São Bento em São Paulo, visitei o mosteiro com dois amigos e – pasmem – eles tinham uma faculdade de filosofia!

– Bom, vou terminar o ensino médio, cursar direito para ganhar dinheiro e depois vou estudar essa filosofia – pensava cá com meus botões.

Porém, Angélica, minha professora de biologia, em sua primeira aula disse que não valia a pena estudar algo por dinheiro e não por gosto, pois isto nos converteria em péssimos profissionais. Mudei de idéia: estudaria filosofia de cara.

– E então, decidiu o que vai cursar na faculdade?

– Sim, pai. Vou estudar filosofia.

Uma freada brusca me fez entender: era provável que meu pai tinha em mente algo como “engenharia”.

– Tem certeza?

– Sim.

A partir do dia seguinte, meu pai converteu-se em meu maior apoio. Na época de começar a faculdade, mais dificuldades financeiras apareceram, mas a Providência Divina e a fé do provedor da família me encaminharam aos estudos e cuidaram de tudo.

Naquela instituição conheci muita coisa, principalmente a maldade humana.

Somente depois de findado o curso, as coisas se me apresentaram claras. Finalmente consegui entender a importância da boa relação entre mestre e discípulo. Finalmente fui grato à minha professora da pré-escola que me permitiu decorar o abecedário aos 5 anos (lembro-me como se fosse hoje: cheguei em casa feliz da vida e fiz minha mãe ligar pra uma tia, para quem recitei todas as letras em ordem); fui grato às minhas professoras do ensino fundamental que me ensinaram matemática, história, gramática, entre outras coisas; fui grato aos professores do Ensino médio que me ensinaram a estudar, sobretudo a uma professora comunista que me odiava, mas me ensinou a escrever – estruturar as idéias de modo que o leitor melhor pudesse compreender.

Estudei em escola pública desde o primeiro governo Lula, minha educação não foi das melhores, mas foi suficiente para que eu, às apalpadelas, encontrasse a saída do labirinto.

Na escola pública aprendi muito do que não devia também: o que é sexo e como acontece a fecundação do óvulo (podem me dizer que isto é importante e deve ser aprendido. Concordo, mas não pra uma criança de 5 anos e sem o acompanhamento dos pais!); aprendi o que é ser injusto e o que é ser vingativo, o que é não se encaixar nos grupelhos, o que é diferença social, o que é preconceito, o que é despotismo, entre outras coisas.

Na faculdade conheci o pior lado dos católicos. Escândalos, boicotes, perseguições, legalismo, catolicismo burguês... a Teologia da Libertação me pareceu brincadeira de criança frente ao ódio velado dos católicos “conservadores”.

Finalmente, vi sentido nos versos de Guerra Junqueiro:

Ó Jesuítas, vós sois dum faro tão astuto,
Tendes tal corrupção e tal velhacaria,
Que é incrível até que o Filho de Maria
Não seja inda velhaco e não seja corrupto,
Andando há tanto tempo em tão má companhia.

E nas demais críticas ao clero (como o genial Auto da Compadecida). Mas nem tudo foram trevas, só a maior parte. Consegui bom amigos, dentre eles, o Henrique Sebastião, que, por algum motivo, viu talento na minha escrita.

“É no fogo que o ouro e a prata são provados”, dizem as Escrituras – e de fato é assim. Também é no sofrimento, nas perseguições e nas dificuldades que descobrimos bons amigos – “quem encontrou um amigo, encontrou um tesouro”, diz ainda a Palavra Santa.

Descobri bons amigos quando me faltou dinheiro para a passagem de ônibus, quando brigaram na faculdade para defender minha inocência frente a falsas acusações vindas de “bons católicos”, quando me faltavam cigarros e o dinheiro do café, quando fiquei doente de estresse e ódio, quando precisei de um ombro pra chorar minhas mágoas, quando viram talento em mim e me motivaram e quando tive que fazer tudo isso também por eles.

O Henrique pediu que eu escrevesse falando um pouco da minha trajetória de estudos. Bom, ela ainda não acabou, mas creio que, por hora, está suficiente.

Termino com isto: de nada adianta “lutar pela verdade, pelos valores, pelas virtudes” e outras abstrações se você fere e mata o irmão que está a seu lado, se você é injusto, se faz tráfico de influência, em suma, se você é uma péssima pessoa.

Cresci muito na Academia, aprendi muita coisa, mas lá é lugar de louco. Enquanto houver pessoas que não valem o feijão que comem (na maioria das vezes, que não valem o caviar que comem), precisamos combatê-los, sobretudo, não os respeitando.


* * *

Pedi ao meu irmão em Cristo, colaborador e bom amigo Igor que produzisse um artigo sobre sua trajetória como estudante de Filosofia até aqui, porque ontem mesmo (27/6/2018) ele apresentou o seu Trabalho de Conclusão de Curso para sua graduação em Filosofia, no desfecho de uma longa trajetória de lutas e dificuldades, que acompanhei de perto e de longe.

Conheci esse verdadeiro guerreiro de Cristo muito jovem, ainda na transição para a sua maioridade, na sala do primeiro ano de Filosofia do Mosteiro de São Bento, sob a tutela de professores como Joel Gracioso e Franklin Leopoldo e Silva, quando integramos o mesmo grupo – pela Graça de Deus estudamos juntos, eu, ele, Guilherme Freire, Moisés Lima, Thiago Gherman e outros bons católicos. De imediato, logo em nossa primeira conversa, fui surpreendido por sua maturidade, virilidade, honestidade e fé genuína – virtudes nada fáceis de encontrar nos homens da sua geração. 

Meu faro de "leão velho" detectou instantaneamente, por detrás da magreza e das feições então ainda suaves, um potencial tremendo e um talento singular em pleno desabrochar, no bom caráter de um autêntico fiel católico. Convidei-o a produzir um texto para a revista O FIEL CATÓLICO, que na época ainda era impressa e distribuída pela paróquia Nossa Senhora do Brasil. E ainda naquele mesmo dia, recebi um artigo sobre ideologia de gênero que superou abundantemente todas as minhas expectativas. O "menino" produzira um texto simplesmente escorreito: uma exposição didática, equilibrada e de agradável leitura, sem uma vírgula sequer fora de lugar! Comentei com minha esposa que conhecera um guri de 18 que escrevia como um ancião de mais de 60...

Este foi o início de uma amizade que, espero, perdure até o nosso ingresso na Pátria Celeste, se nosso bom Deus assim quiser. Lembro-me do dia em que, nos corredores do Mosteiro, discutíamos a escolha do nome de nossa fraternidade católica, e dos tantos pensamentos que compartilhamos. Ontem, algumas horas depois de rezar pelo seu bom êxito, soube que obtivera nota máxima e conquistado sua merecidíssima graduação. Deus vos salve, nobre Igor Andrade, e a Santíssima Virgem vele pela sua vida até a hora final!

Henrique Sebastião


** Contrate nosso completíssimo Curso livre em Sagradas Escrituras!
www.ofielcatolico.com.br

Apenas um pobre pecador

Por Igor Andrade – Frat. Laical São Próspero


EM CERTAS OCASIÕES, tenho a oportunidade de ter boas conversas com alguns sacerdotes – desses que, embora sejam uma verdadeira tragédia na liturgia, são ótimos quando querem nos levar à reflexão. Durante uma dessas conversas, percebi o quão necessária é a mensagem do templo de Delfos (‘conhece-te a ti mesmo’).

Essa mensagem inscrita no alto do templo é de extrema importância para os homens – e quem estuda filosofia de verdade sabe que sua importância nunca é demais exagerada. É sobre esta mensagem que, certa vez, ouvi um sábio homem (razoavelmente conhecido entre os pró-vida católicos do Brasil) dizer algo do tipo: “O ‘conhece-te a ti mesmo’ não é uma ordem ou recomendação para termos consciência das nossas ações (de quais e quantas são elas), mas sim para termos consciência de quem somos”.

Ora, é simples e evidente perceber que um homem não é o que ele faz, mas é quem faz. Por exemplo[1], José trabalha como pedreiro; se perguntarem a ele “quem é você?” ele responderá “sou o José”, mas se perguntarem “o que faz da vida?”, ele responderá “sou pedreiro”. “Ser pedreiro” indica as ações, enquanto “José” indica o sujeito que age.

Voltando à minha conversa com o referido padre, o diálogo começou comigo em certo estado de perturbação; chamei-o de canto porque precisava conversar. O padre prontamente me atendeu e eu então iniciei minha fala subindo no alto da minha Torre de Babel e expondo uma série de conceitos agostinianos relativos à cisão da vontade (e inclusive admitindo o famoso ‘Dá-me, Senhor, a castidade, mas não hoje’).

Depois de alguns minutos dando uma aula de conceitos, citando trechos das Confissões e mostrando minha “inabalável memória filosófica”, expus o que me perturbava. O Padre Manoel Bernardes ensina que, do mesmo modo que temos um anjo da guarda que nos ajuda na nossa salvação, temos também um "demônio da guarda", que nos ajuda na nossa condenação; e lá estava ele, meu demônio, debaixo de uma pilha de conceitos, com o dedo em riste apontando meus pecados. Então o padre me disse: "Não vou entrar em questões filosóficas porque vejo que você as conhece bem, e ambos sabemos que elas não ajudam aqui, com este problema. Você precisa deixar um pouco de lado esses conceitos e se perguntar quem é o Igor".

De fato, por óbvio que seja, cada ser humano é único e particular, e, por isso, não pode ser uma união de conceitos universais. E, por isso, os conceitos e as noções são necessários para compreender os dilemas humanos, mas não são suficientes para resolvê-los.

Daí lembrei-me do funeral de Otto von Habsburg, em que, em dado momento, ocorre a belíssima cena onde o mensageiro bate na porta do convento franciscano e o frade mais velho pergunta:

– Quem é?

– Otto de Áustria, antigo príncipe herdeiro do império Austro-húngaro – seguido de um rol de 43 dos títulos nobiliárquicos do falecido.

1. Antes que perguntem “se é simples e evidente, por que precisa dar um exemplo?”, explico: ser simples e ser evidente não é sinônimo de ser de fácil assimilação, conforme Santo Tomás explica no começo do De Ente et Essentia.

– Não o conhecemos - responde o frade.
Novamente o mensageiro bate à porta.

– Quem é?

– Otto von Habsburg - e mais uma longa série de títulos civis.

– Não o conhecemos - responde o frade.

Novamente o mensageiro bate.

– Quem é?

– Um pobre pecador.

– Pode entrar.

E então consegui, finalmente, fazer a pergunta certa: “quem é o Igor”:
“quem”, e não “quantos conceitos memorizou”, ou “o quão bem escreve e fala”,
ou “o que é”. A pergunta “quem é?” busca a essência da pessoa, e não da coisa

– esta é buscada pela pergunta “o que é?”.

De que adiantam os títulos e o léxico complicado e refinado se o que realmente importa para nossa salvação são o testemunho das boas obras, a intercessão dos santos e, sobretudo, o reconhecimento da própria miséria diante de si e de Deus (cujo Sacrifício nos redime)?

** Assine a revista O FIEL CATÓLICO e tenha acesso a muito mais!

__________
** O vídeo do funeral a que me referi pode ser assistido em:
youtube.com/watch?v=9-BBgc_uBZQ

1. Antes que perguntem “se é simples e evidente, por que precisa dar um exemplo?”, explico: ser simples e ser evidente não é sinônimo de ser de fácil assimilação, conforme Santo Tomás explica no começo do De Ente et Essentia.
www.ofielcatolico.com.br

Por que o liberalismo não é a solução – parte II


RECEBEMOS DE UM LEITOR anônimo, como comentário ao post "Por que o Liberalismo não é a solução" as perguntas que reproduzimos abaixo, seguidas das respostas do autor daquele artigo, Igor Andrade:

Henrique ou Igor, eu gostei do texto, eu tinha dúvidas sobre isso pq vejo sites católicos criticando o liberalismo, mas gostaria de fazer uma pergunta: O liberalismo não é melhor do que o socialismo? Pelo que eu entendi o texto coloca os dois no mesmo saco?
Outra coisa que eu queria saber é o seguinte: Se o autor é contra as liberdades individuais porque o capitalismo liberal pode chegar no extremo de usar até o aborto como um comércio, então quem deve controlar as coisas? Quem vai dar os limites p'ara o indivíduo? O Estado? Talvez vai dizer que é a igreja, mas o Estado é laico, fora que tem gente de toda religião, então não tem como a Igreja controlar tudo. Então teria que ser o Estado, mas quem garante que o Estado vai fazer aquilo que é certo? Ninguém, a gente fica sempre nas mãos de um maluco populista como o Hitler ou o Stalin (ou o Lulla) que ganha a eleição e vai ditar as regras pra todos. Não é melhor então garantir a liberdade dos indivíduos?
Se o capitalismo não é perfeito, isso eu concordo, mas é bem melhor do que o comunismo que sempre acaba em tirania. Isso é o que eu entendo. Voces poderiam me ajudar um pouco mais?"

** Leia a nossa resposta
www.ofielcatolico.com.br

Por que o liberalismo não é a solução – parte II

G. K. Chesterton

Por Igor Andrade – Assoc. São Próspero e Movimento Somar para Vencer

RECEBEMOS DE UM LEITOR anônimo, como comentário ao post "Por que o Liberalismo não é a solução" as perguntas que reproduzimos abaixo, seguidas das respostas do autor daquele artigo:

Henrique ou Igor, eu gostei do texto, eu tinha dúvidas sobre isso pq vejo sites católicos criticando o liberalismo, mas gostaria de fazer uma pergunta: O liberalismo não é melhor do que o socialismo? Pelo que eu entendi o texto coloca os dois no mesmo saco?
Outra coisa que eu queria saber é o seguinte: Se o autor é contra as liberdades individuais porque o capitalismo liberal pode chegar no extremo de usar até o aborto como um comércio, então quem deve controlar as coisas? Quem vai dar os limites p'ara o indivíduo? O Estado? Talvez vai dizer que é a igreja, mas o Estado é laico, fora que tem gente de toda religião, então não tem como a Igreja controlar tudo. Então teria que ser o Estado, mas quem garante que o Estado vai fazer aquilo que é certo? Ninguém, a gente fica sempre nas mãos de um maluco populista como o Hitler ou o Stalin (ou o Lulla) que ganha a eleição e vai ditar as regras pra todos. Não é melhor então garantir a liberdade dos indivíduos?
Se o capitalismo não é perfeito, isso eu concordo, mas é bem melhor do que o comunismo que sempre acaba em tirania. Isso é o que eu entendo. Voces poderiam me ajudar um pouco mais?"

Salve Maria! Irmão, começo agradecendo o seu comentário, o Sr. não faz ideia de o quanto isso é eficaz para o meu trabalho. Agora vou procurar aprofundar o necessário de acordo com as suas perguntas, na ordem que o Sr. mesmo as dispôs. Abaixo:


O liberalismo não é melhor do que o socialismo?

Isso depende muito do ponto de que se parte. Olhando exclusivamente do ponto de vista econômico, o Liberalismo é muito melhor. Ou seja, se o objetivo é unicamente fazer dinheiro, o liberalismo ganha. Contudo, o preço a ser pago é muito alto (isso se você considera a dignidade humana).


Pelo que eu entendi o texto coloca os dois no mesmo saco?

Como mencionei acima, procurei tratá-los sem "passar por cima" das suas evidentes diferenças, porém demonstrando que ambas as correntes partem do mesmo princípio: o utilitarismo

Basicamente, o utilitarismo olha o mundo buscando a otimização das coisas para proporcionar "a maior quantidade de felicidade para a maior parte possível" (a felicidade NESTA VIDA como bem Maior). Esse princípio utilitarista pode ser “trabalhado” de dois modos distintos: o Utilitarismo Altruísta e o Utilitarismo Egoísta.

• O Utilitarismo Altruísta pode ser reduzido – dizendo bem porcamente, para fins didáticos – às doutrinas de “esquerda” (sim, é um termo pobre, mas é o mais prático), que visa proporcionar felicidade (aqui e agora, nesta vida) para a maior parte de pessoas, “distribuindo” os bens que proporcionam essa felicidade. 

Neste sentido, Nazismo (Nacional Socialismo), Fascismo, Stalinismo, Leninismo e todas as doutrinas coletivistas, de modo geral, entram num mesmo quadro.

• Já o Utilitarismo Egoísta visa a felicidade (imediata) do indivíduo, do “eu”; e é aí que o Liberalismo se encaixa, porque é individualista. Agora procedam-se algumas classificações: Liberalismo Clássico, Escola Austríaca, Escola de Chicago, Libertarianismo e todas as doutrinas que supervalorizam o indivíduo e tratam o próximo como instrumento de trabalho para se chegar a um fim específico, que é a felicidade nesta vida entram neste mesmo rol.

Sobre a linha liberal – para que não me acusem de mal interpretá-la – sugiro fortemente a leitura do magnífico romance "A Revolta de Atlas", da autora libertária Ayn Rand. A maior parte do livro é dedicada da descrever a situação de um país (no caso, os EUA) repleto de gente incompetente e sentimentalista, de um governo paternalista e de uma economia decadente e uma sociedade com cada vez menos liberdade individual (parece MUITO o Brasil de hoje). A proposta da protagonista é justamente que os mais capazes (os 'Atlas' que carregam o mundo nas costas) passem por cima da dignidade humana para atingir seus objetivos. Para um romance dá certo. Mas o mundo real não é um romance. Quem é John Galt?1

De todo modo, ambas as linhas utilitaristas legitimam a moral relativista e tratam o ser humano (enquanto ente racional e livre) como um obstáculo a ser ultrapassado. Lembra do princípio maquiavélico “Os fins justificam os meios”? Pois bem, tanto Liberalismo quanto o Socialismo seguem tal doutrina, ignorando o princípio da caridade e da possibilidade de se colocar no lugar do outro – a Regra de Ouro do Evangelho.


Se o autor é contra as liberdades individuais (porque o capitalismo liberal pode chegar no extremo de usar até o aborto como um comércio), então quem deve controlar as coisas? Quem vai dar os limites para o indivíduo? O Estado? Talvez vai dizer que é a igreja, mas o Estado é laico, fora que tem gente de toda religião, então não tem como a Igreja controlar tudo. Então teria que ser o Estado, mas quem garante que o Estado vai fazer aquilo que é certo?

O Sr. se equivocou. Eu sou completamente A FAVOR da liberdade individual e completamente CONTRA esse Estado inflado que manda e desmanda na vida dos homens. Sobre “quem deve controlar as coisas”, eu acredito no bom senso que a Razão desenvolve naturalmente nos homens. Como disse G. K. Chesterton, o “Apóstolo do Senso Comum”: “O novo tipo de governo comercial irá combinar tudo o que há de pior em todos os planos para um mundo melhor” ('Um Esboço da Sanidade').

"Os limites” são impostos pela moral racional (aqui estou entrando em filosofia prática), por isso sugiro a leitura da obra de Chesterton (clique para saber mais) e da própria Doutrina Social da Igreja (Rerum Novarum, Quadragesimo Anno, Centesimus Annus, etc.). Aconselho também a leitura da obra "A Política da Prudência", de Russell Kirk.

Termino aqui agradecendo pelo seu comentário e fazendo votos para que o Sr. compreenda sempre mais e se empenhe em trabalhar para melhorar, naquilo que for possível, o nosso país, sempre lembrando que nesta vida seguimos “gemendo e chorando neste vale de lágrimas”. REGNARE CHRISTVM VOLVMVS!

________
1. Para os que já leram 'A Revolta de Atlas', a frase 'Quem é John Galt?' é bem conhecida. Tornou-se um slogan libertário e já foi usada em manifestações por todo o mundo. 'Quem é John Galt?' basicamente resume a pergunta 'Quem move o mundo e quem é culpado quando ele para?'. (N. do E.)
www.ofielcatolico.com.br

Sobre o incêndio no Palácio Imperial do Brasil


Por Igor Andrade
– Frat. Laical São Próspero


A DATA DE 2 DE SETEMBRO é – ou aos menos deveria ser – uma das maiores datas comemorativas para o povo brasileiro: foi neste dia, em 1822, que Dona Leopoldina assinou o Decreto de Independência do Brasil, que seria reconhecido por Dom Pedro de Alcântara no próximo dia 7, dando início, com isso, à guerra de brasileiros contra portugueses pela independência nacional. Nasceu, neste dia, o Brasil como gigante independente e sublime.

Esta data, porém, em 2018, tomaria um outro significado: em 2 de setembro do presente ano vimos o símbolo da morte de uma nação.

O prédio onde residira a Família Imperial, localizado na Quinta da Boa Vista, zona norte da capital do Rio de Janeiro, após esta ter sido expulsa numa quartelada, converteu-se no Museu Nacional. Ali estavam expostos os pertences da Família Imperial, bandeiras, obras de arte, trabalhos científicos, fósseis e até uma múmia em seu sarcófago (comprada por Sua Majestade Dom Pedro II, amante das ciências). Além do prédio, muitos dos objetos expostos foram destruídos pelo fogo assassino do Nero moderno: o Estado.

É difícil crer que um fóssil humano de 13 mil anos de idade (o mais antigo encontrado na América, e carinhosamente chamado de Luzia) resistiu ao tempo, a diferentes eras geológicas, a intempéries dos mais variados tipos, mas não resistiu à incompetência assassina do Estado Brasileiro. É difícil crer que uma múmia egípcia (junto com muitíssimas outras peças inestimáveis) resistiu ao fim de sua civilização, a guerras, saques, desgraças incontáveis, mas não ao descaso dos nossos péssimos administradores públicos. Talvez nem mesmo o próprio Antonio Gramsci creria num assassinato cultural e científico de tais proporções.

O mestre Ariano Suassuna, autor da peça Auto da Compadecida, disse certa vez que “a universidade brasileira ensina de costas para o país e para o povo”, mas se sua memória me permite, faço o seguinte acréscimo: e o Estado Brasileiro governa de costas para o povo, sua história e sua cultura.

Em 2004, o secretário estadual de Energia, Industria Naval e Petróleo, Wagner Victer, já denunciara o deplorável estado de conservação do Museu à Agência Brasil (veja), mas tardaria ainda 14 anos para realizar-se sua "profecia" nada profética. De lá para cá, que fez o governo? Pelo Museu Nacional (ou seja, pela cultura brasileira) nada: “não há verba...” – mas para financiar exposições ofensivas ao povo, havia; para financiar grupos pró-governo, havia; para superfaturar obras públicas, havia; para desviar verba, havia verba.

Que significa tal coisa, senão a simbólica morte de uma cultura, senão o genocídio cultural de todo um povo? Qualquer destruição ou perda de objetos, documentos ou resultados científicos e históricos é a destruição de uma cultura e é profundamente danoso ao futuro do próprio povo. Não é preciso ser um amante da ciência ou da história para perceber tal coisa, basta querer ter um futuro – como ensinou Monteiro Lobato, dizendo que “a História é um processo contínuo do que se fez no passado, com o objetivo utilitário de nortear o futuro”.

A triste imagem do Palácio em chamas é símbolo da atual situação do Brasil. Que virá em seguida? Mais desculpas do governo, mais promessas e mais um nada que será feito – e o prédio retornará às cinzas de onde veio, assim como o povo brasileiro, se não lutar para manter-se vivo ante tal calamidade e recuperar ao menos parte do que foi perdido.
Embora eu pareça pessimista com nosso futuro por conta deste símbolo da morte de nosso passado, dou o braço a torcer ao argentino Manoel Galvez e afirmo com ele que creio na fertilidade espiritual do meu país, e não compreendo que ela não corresponda à prodigiosa fertilidade da terra.


Bernardo Küster comenta


** Assine a revista O FIEL CATÓLICO e tenha acesso a muito mais!
www.ofielcatolico.com.br

Conhece-te a ti mesmo – sobre as exterioridades e o farisaísmo na Igreja


Por Igor Andrade – Fraternidade São Próspero

HÁ CERCA DE UM ano deixei um tema importantíssimo num canto escuro da minha mente. Por dois motivos: falta de tempo e imaturidade de ideias. Já é chegado o tempo. Embora o assunto esteja meio frio, sei que ele retornará – como tem retornado há cerca de dois mil anos.

Pois bem, “bendito seja o Senhor, meu Rochedo, que adestra minhas mãos para o combate e meus dedos para a guerra”!

Domingo passado estive conversando com meu pároco, o único sacerdote que já vi largar seus afazeres para confessar uma alma aflita. Conversa vai, conversa vem, ele comenta: “As moças de véu diminuíram em número aqui na paróquia”... “Aí complica para o meu lado, não é, padre?!”, respondi com sinceridade e um sorriso. “Por que me diz isso?”, indagou-me o sacerdote. “Ah, padre, preciso de uma moça boa, piedosa, para casar”, respondi com a mesma sinceridade e o mesmo sorriso. “E desde quando o véu é sinal verdadeiro de bondade e piedade?”. Concordei, com tristeza. Fui obrigado a concordar. É verdade.

Apesar da pouca idade, já vi bastante coisa pela Igreja: de leigos e sacerdotes santos, a clérigos e professores corruptos; de liturgias bem celebradas a sacrilégios dos mais variados tipos. Mas recentemente (de dois anos e meio pra cá, talvez mais), tenho visto o princípio, o ponto crítico onde o “vinho melhor” se converte em água suja: a exterioridade.

A exterioridade, devo lembrar, em si mesma não é um mal nem um bem. Santo Tomás de Aquino diz que quando as palavras significam aquilo que o locutor “pensa”, isto é, quando há um acordo entre o pensamento e as palavras, elas são verdadeiras; quando não há essa concordância, elas são falsas. Isso ocorre porque a palavra falada deve significar uma realidade interior. Pela palavra o homem comunica (isto é, torna comum) aquelas coisas que estão nele.

O mesmo ocorre com o cristão. Usar véu, vestir-se com pudor, decorar versículos bíblicos e encíclicas, rezar o Santo Terço em público, falar manso, rezar em latim etc. etc., não podem ser coisas que se faz por "moda", mas devem ser atos que emergem e significam verdadeiramente uma realidade interior. Quem exerce a exterioridade pela pura exterioridade se assemelha ao estudante que sabe que a soma dos quadrados dos catetos adjacentes é igual ao quadrado da hipotenusa, mas não sabe identificar os catetos adjacentes; não se diz que este estudante é um matemático, mas apenas alguém que decorou uma fórmula. Do mesmo modo, uma moça que usa saia longa e véu (como um rapaz que veste terno) não é cristã; é apenas uma pessoa que se veste bem.

São Luís Maria de Montfort fala disso no seu Tratado. Os devotos exteriores “só tomam interesse à exterioridade da devoção à Santíssima Virgem, por não terem espírito interior; [...] farão parte de todas as confrarias, sem violentar suas paixões, sem imitar as virtudes desta Virgem Santíssima. Amam apenas o que há de sensível [...]”. Ele fala isso referindo-se à devoção à Santa Mãe de Deus, mas tal princípio pode ser estendido a toda vida cristã.

Entendam-me bem, não estou empreendendo uma cruzada contra os sinais exteriores. Os sinais exteriores são importantes, inclusive para adquirir bons hábitos interiores; mas são um meio, e não um fim. A mera exterioridade não passa de um farisaísmo pós-renascentista. Essas pessoas exteriores tomam seu modo de vida exterior como medida de bom ou mau cristianismo, são aqueles que mais falam do “verdadeiro cristianismo”, todavia são pagãos travestidos de cristãos, porque os pagãos se guiam somente pela sensibilidade.

O problema gerado por essa mera exterioridade é gravíssimo: a confusão. “Como assim, aquela moça que tanto critica quem não se veste com pudor traiu o namorado, tantas vezes e de tantos modos?”; “Como assim, aquele rapaz que tanto ofende o Santo Padre, dizendo que ele não faz nada contra a islamização do Ocidente, não tem coragem de rezar um Terço perto de uma mesquita, ou de falar de Jesus para um muçulmano?”; “Como pode a pessoa criticar tanto os padres e os bispos, mas não fazer nenhum tipo de trabalho na paróquia pra mudar a situação? Como pode?”. As respostas são simples: Essas pessoas não creem naquilo que pregam. “Pelos frutos os conhecereis”, diz Nosso Senhor. Quem se assemelha à figueira estéril deve ser cortado, porque já foi amaldiçoado (Cf. Mc. 11, 14).

Não quero com isso dizer que cristão não peca; longe de mim tamanha estupidez. Pecados contra a castidade, covardia, pusilanimidade, são pecados dos quais ninguém está isento de cometer; isso é dito por santos como São Josemaria Escrivá, Santa Teresinha, etc. O próprio Santo Tomás de Aquino ensina que a pretensão à salvação é um pecado contra o Espírito Santo. Mas o ponto não é a isenção ao pecado, e sim ao rigorismo ideológico pregado, aos fardos pesadíssimos que impõem aos irmãos, mas que não são capazes de carregar.

Tomar-se como medida de bom cristianismo muitas vezes é a fonte das mais pesadas críticas à Sua Santidade, o Papa. E isso tem sido tão forte nos últimos tempos que há aqueles que acreditam que a Sede está vacante, que o Papa Francisco rompeu com Bento XVI e que é comunista, que João Paulo II e João XXIII não são santos (que a canonização não depende da Santa Sé, mas sim desses 'iluminados' radtrad’s1), que Paulo VI era modernista (isso falam desconsiderando completamente a encíclica Humanae Vitae), entre outros absurdos. Se ao menos lessem o que foi dito por esses homens, saberiam a realidade dos fatos.

Citando como exemplo, as homilias de Bento XVI têm certas partes que se confundem facilmente com as falas do Papa Francisco. Perto de homens como Leão XIII e Pio XI, Francisco poderia ser chamado “porco capitalista”. O problema dos exteriores é a falta de concordância entre aquilo que se fala e aquilo que se faz na realidade. Falta vínculo com a realidade, basta ler as homilias e as encíclicas!

Se querem tradição, transcrevo aqui um trecho de uma homilia do padre William Faber (que prefaciou o Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem): “Devemos honrar o Vigário de Jesus Cristo com uma fé cheia de amor e um respeito cheio de confiança e de simplicidade. Não devemos permitir-nos nenhum pensamento irreverente, nenhuma suspeita covarde, nenhuma incerteza pusilânime sobre o que diz respeito à sua soberania, quer espiritual, quer temporal”2.

Termino recomendando que larguemos esse espírito de mera exterioridade; lembremos que “a verdadeira devoção é interior”, coloquemo-nos em nossas posições e lutemos juntos contra o verdadeiro inimigo: o mal que habita em nós e no Mundo. Juntemo-nos nessa caminhada “Verso L’alto”: Omnes Cum Petro, ad Iesum per Mariam!

_______
1. Gíria muito comum nas redes sociais para designar os Radicais Tradicionalistas.
2. Da Devoção ao Papa – O Vigário de Cristo na Terra.
www.ofielcatolico.com.br

George Soros chama de 'inimigos internos' da Europa àqueles que se se opõem à agenda da Nova Ordem Mundial


O MAGNATA GEORGE SOROS, junto com Bill Gates considerado  o principal promotor da Nova Ordem Mundial [ou Globalismo], concedeu uma entrevista ao jornal espanhol El País, na qual volta a demonstrar a sua indisposição [para usar de eufemismo]  contra os governos europeus que não se ajoelham ante a ideologia que ele apoia com grandes quantidades de dinheiro.

Honestidade intelectual: um apelo

Um texto necessário de Igor Andrade
(Frat. Laical S. Próspero)



'Diógenes procurando por um homem honesto', por Jacob Jordaens

ESCREVO COMO MERO professor de filosofia sobre este assunto tão importante nestes tempos: a honestidade intelectual. A honestidade é uma virtude muito admirada; quem é desonesto é visto com maus olhos por qualquer um – porém, muitos, infelizmente, pensam nela como algo meio material. Para o vulgo, ser honesto consiste somente em entregar o troco certo, pagar as contas em dia e não roubar os cofres públicos.

Essa honestidade é importante, mas venho falar de uma mais importante ainda (porque mais importante que a matéria é a alma, da qual a razão e o intelecto são parte).

O homem é repleto de preconceitos desde a infância, e a biologia nos ensina que é graças a estes preconceitos que chegamos, através da História, até este estado de permanência e perpetuação da espécie humana – a palavra “preconceito”, aqui, deve ser bem entendida como um conceito prévio que se formula sobre algo ou alguém antes de conhecê-lo e de formular de fato um conceito definitivo e adequado após conhecê-lo.

Ponha-se o leitor no lugar de um homem pré-histórico que vivia numa civilização tribal, nas matas, e ainda não modificara o meio ambiente. Sua casa rústica servia apenas de abrigo do frio, das feras e de outros homens. Ao longo das gerações, esta tribo passou por diversas turbulências: ataques de animais, guerras contra outras tribos por alimento, água, território, etc. Assim, formou-se no imaginário comum que tudo aquilo que não pertencesse à tribo oferecia uma ameaça aos seus membros. Isto é, a tribo formou um pré-conceito sobre tudo aquilo de que não tinham um conceito formado. Um rugido perto, para eles, com certeza era uma fera que os atacaria; um grito humano era sinal de perigo, e assim por diante.

Aclarada a importância dos pré-conceitos (que são como que uma proteção do desconhecido), falemos do problema que geram: a ignorância comum.

Ponha-se o leitor, uma vez mais, no lugar de um outro membro da mesma tribo, porém algumas gerações à frente. Sua tribo cresceu, houve contato com outras tribos, formaram-se alianças, instauraram-se castas, desenvolveram-se técnicas. Finalmente era possível conhecer o que estava fora da tribo. Porém, estavam tão arraigados os pré-conceitos históricos que todo aquele que quisera conhecer mais além da mera realidade local era tido como louco, imprudente, desocupado. O preconceito, quando necessário para o bem (como no caso supracitado), é útil, mas quando cessa sua necessidade, torna-se um impedimento para o aprendizado do homem.

Assim aconteceu com Tales, o pai da filosofia ocidental. Tales fora habitante de Mileto, região da atual Turquia, e era fascinado pelo céu e pela natureza. Foi o primeiro a buscar a arché, o princípio das coisas. Como ficava mais tempo olhando as estrelas do que fazendo negócios comerciais, os demais habitantes de Mileto diziam que era um inútil, que aquilo não tinha futuro e coisas semelhantes. Conta-se que, certa vez, andando pelos campos, Tales estava tão distraído buscando no céu uma explicação para a realidade que caiu no fundo de um poço e lá ficou o resto da noite, preso. Quando o encontraram, caçoaram dele, provavelmente dizendo que deixasse daquilo porque os deuses cuidavam de tudo e que não havia mais nada a saber além de transações comerciais. “Você é um inútil, Tales, uma vergonha para sua família e para nós, habitantes desta rica cidade”, provavelmente lhe disseram.

Para dar uma lição aos seus concidadãos, segundo a narrativa de Diógenes Laércio, teria Tales empreendido diversos cálculos e observações dos astros, chegando à conclusão de que, naquele ano, a colheita de azeitonas seria maior que o normal.

Comprou, então, todos os moinhos da região. “Tales enlouqueceu mesmo, está comprando moinhos fora de época de colheita”, provavelmente disseram muitos. Mas, quando chegou a época certa, com a superprodução de azeitonas, não tinham onde deixá-las, e então tiveram que pagar a Tales a quantia que ele bem exigiu para que usassem os seus moinhos, o que fez dele o homem mais rico da região.

Depois disso, Tales foi deixado em paz e tido por todos como sábio. O povo de Mileto reconheceu que seus preconceitos eram vãos e teve a honestidade intelectual de dizer “Tales, ajude-nos, você conhece mais a natureza do que nós. Por favor, ensine-nos o que sabe!”.

Esse é um exemplo de que o preconceito pode atrapalhar no conhecimento das coisas – e como é importante a honestidade intelectual. Tales fora o primeiro a conhecer melhor os astros, a geometria e a natureza de modo geral. Foi o primeiro do ocidente que postulou a imortalidade da alma (algo extremamente importante para as discussões sobre a dignidade humana nos tempos atuais); foi ele quem firmou paz entre Ciro e Mileto; foi ele quem por primeiro dividiu o ano em quatro estações e que almejou explicar o princípio das coisas.

Sua explicação não é das melhores (segundo ele, a água é o princípio de tudo e está presente em tudo), porém o mérito está não na resposta, mas no fato de ter feito a pergunta (qual é o princípio das coisas?).

Hoje em dia, vergonhosamente, vemos isso impregnado na forma mentis vulgar. Não há, no vulgo, a honestidade de dizer “não sei”. Ainda muito pior, parece que a “elite” intelectual também não sabe dizer “não sei” quando realmente não sabe alguma coisa.

Recentemente, o candidato à presidência da República, Jair Bolsonaro, participou de uma sabatina no programa "Roda Viva", da TV Cultura. Nenhum dos jornalistas que o entrevistou teve honestidade intelectual de conceder ao entrevistado o benefício da dúvida, algo como admitir para si que “talvez ele não seja tão ruim quanto eu penso”. Manteve-se a práxis preconceituosa marxista: "Se qualquer um disser algo que contrarie aquilo que eu penso sobre esses assuntos, com certeza é um 'burguês' que deve ser superado a qualquer custo pela dialética".

Que um marxista pense assim não é novidade alguma, pois seguem cegamente o seu profeta (Hegel), que anuncia seu deus: Marx, “aquele que salva”.

O problema é que, do outro lado, da parte da chamada “direita”, o modus operandi foi exatamente o mesmo. De toda a entrevista, o único acerto foi quando um jornalista disse que “Jesus também foi um refugiado”. E o que fez o pessoal da “direita”? Ignorou a narrativa bíblica (na qual dizem crer) e taxou o jornalista de idiota. Não nego que, de fato, aquele jornalista seja um idiota, mas a informação em questão é verdadeira, não podemos negar isto.

Na época em que Jesus nasceu, Judá era governada por um rei, Herodes (conivente com os romanos, mas rei); era um reino independente do Egito (que, embora província do Império Romano, era um país separado de Judá, com língua, cultura e leis diferentes), aonde a Sagrada Família buscou refúgio quando o Rei mandou matar todos os meninos com menos de um ano de idade. Assim, buscar refúgio em outro país tornam S. José, a Virgem Maria e Jesus Menino refugiados, e ponto final.

É evidente que o jornalista quis comparar a situação da Sagrada família à dos muçulmanos de hoje em dia (uma comparação totalmente absurda); assim, nesse caso específico, a melhor argumentação é a mais honesta, isto é, aquela que aponta para a verdade dos fatos: uma coisa não tem absolutamente nada a ver com outra, e o problema da migração em massa dos nossos tempos envolve uma série de graves problemas totalmente diversos e que nada tem a ver com o apresentado na narrativa evangélica. Mesmo assim, não podemos negar os fatos na tentativa de ter razão: só assim é que poderemos separar um fato da "forçação de barra" que se faz usando de um fato.

É preciso ter a honestidade intelectual para admitir erros, equívocos e acertos – nossos e de nossos opositores. Por suposto, honestidade intelectual não significa fazer crítica cega ao que comumente se tem por sabido. Crítica cega àquilo que já é conhecido não passa de petulância e de idiotice. 

Honestidade intelectual teve Sócrates, que reconheceu saber unicamente que nada sabia. Também a tiveram boa parte dos filósofos. Tiveram-na os Padres Capadócios, que deixaram claro que devemos estudar os pagãos, porque estes, embora tivessem errado quanto à religião, acertaram em muitos outros pontos. Honestidade intelectual teve Santo Tomás de Aquino, em cuja Suma Teológica diversas vezes citou muçulmanos (Avicena e Averróis), mostrando que eles também acertam. Honestidade intelectual teve Santo Agostinho, que publicou suas Retratações, obra na qual reconhece todos os erros filosóficos que cometera até então.

Tenhamos o bom senso de saber que não sabemos de tudo para que, antes de criticarmos o desconhecido, aprendamos e o conheçamos. Essa honestidade intelectual é o mínimo necessário para aprender – é a filha mais velha da Humildade. Saber que não se sabe é o primeiro passo para aprender.

** Assine a revista O FIEL CATÓLICO e tenha acesso a muito mais!
www.ofielcatolico.com.br

A descaracterização do homem (segundo a experiência) e a importância dos arquétipos (modelos)

Nossos heróis de ontem são um exemplo bastante claro da tremenda mudança de paradigma ocorrida nas últimas décadas: John Wayne, no auge da forma, encarnou impecavelmente o arquétipo (modelo) masculino em tempos nem tão distantes.

Por Prof. Igor Andrade – Frat. Laical São Próspero

PRIMEIRAMENTE, MEU OBJETIVO com este artigo não é elaborar um profundo trabalho científico sobre a crise do homem moderno – tal intento me exigiria mais do que tenho. Este é o que (creio) deveria ser chamado “primeiro passo”, um pequeno e custoso passo para um homem, mas talvez um grande e frutuoso passo para os jovens. O primeiro objetivo do presente trabalho é fazer uma análise dos fatos assim como eles são apresentados ao senso comum e destacar algumas causas do problema real que é a crise da masculinidade.

'Joana, Relapsa e Santa' – uma breve análise ou 'A igreja dos fariseus contra a Igreja dos santos'

Por Igor Andrade – Fraternidade São Próspero

Um dos livros que mais me impressionou nos últimos tempos.



EM 25 PÁGINAS dessa breve estória, que daria uma excelente peça, Georges Bernanos consegue, como de costume, fazer o leitor experimentar todos os sentimentos da protagonista. Joana está angustiada? O leitor se compadece desta jovem de menos de 20 anos.

Em "Joana, relapsa e santa"*, Bernanos conta um pouco do julgamento inquisitório pelo qual passou a jovem camponesa e guerreira, descrevendo parte da história e parte dos sentimentos que preenchiam aquelas almas. São omitidos alguns detalhes, como a recusa da apelação ao Papa, à qual Santa Joana tinha direito, mas isso é o de menos.

A narrativa está mais voltada a uma crítica à "Igreja dos clérigos e magistrados" e uma verdadeira apologia à "Igreja dos Santos".

Capa do livro (clique)
Bernanos, com invejável maestria, aponta os culpados pelo assassinato da jovem virgem: os membros do alto clero que se venderam aos poderes temporais em troca de honrarias, os covardes que tinham poder e os membros da academia (os professores universitários), em suma, aqueles fariseus que não defendiam o espírito da Lei, mas unicamente sua letra, "o princípio de submissão ao poder estabelecido", diz Georges, "nunca foi devidamente discutido pelos proprietários de benefícios".

Sua crítica, ou melhor, sua denúncia dos culpados que fizeram aquela condenação injusta, reflete a realidade com a qual o próprio autor teve contato, e que existe até os dias de hoje.

Com admirável coragem, Joana estava pronta a "que se fizesse a paz, e, caso não se quisesse fazer a paz, ela estava pronta para o combate". Mas quantos dos cristãos de hoje em dia se negam ao combate e se submetem ao império da mentira? Como é possível que se tenha a audácia de preferir manter um cargo em detrimento da verdade e da luta pela mesma? A injustiça contra uma donzela de 19 anos não foi o suficiente? Que mais querem estes que se dizem cristãos?

A Santa Joaninha dá o exemplo da verdadeira coragem a ser imitada pelos cristãos. Ela confunde seus inimigos com seu espírito pueril. Eles se calam: "Joana acaba de colocar-se em suas mãos e eles não sabem o que fazer. A máquina que foi montada com excesso de zêlo escapa ao controle dos engenheiros".

Aqueles gordos covardes não conseguem fazer outra coisa além de continuar usando seu rubricismo pra condenar Joana por cada movimento, pra condenar Joana por sua simples presença naquele tribunal, digo, teatro.

Muitos daqueles que estão em altos postos na Igreja (me refiro a clérigos e leigos conceituados) "são velhotes apegados às suas casas, a suas mesas, aos seus criados, impacientes para retomar o curso de uma vida pacífica".

Julgam, ainda, que "o Reino do Céu é conquistado como um assento na Academia, tentando não ferir o orgulho de ninguém" e, por isso, condenam a moça que, sozinha, colocara a França nos eixos; a jovem que, sob os nomes de Jesus e Maria, tinha mais peito e mais coragem que aquele covarde com sangue real, que tinha mais audácia que os generais, que conhecia mais as realidades celestes que o próprio clero ou os catedráticos da Sorbonne.

Sim, uma pobre jovem camponesa, com sua armadura, cavalo, bandeira e espada, fez mais por um país que o herdeiro de direito do trono (qualquer semelhança com a família imperial do Brasil não émera coincidência).

Bernanos termina repetindo incansavelmente esta verdade: NOSSA IGREJA É A IGREJA DOS SANTOS. Quem entende isso, entra no coração da Fé Católica!

Que outra igreja mostre seus santos!

Os santos viveram e sofreram como nós, eram tentados como nós! Mas eles amaram a Deus, e nós? "Rito nenhum dispensa de amar".

Um verdadeiro soco no estômago dos "radtrad's", um chute no saco dos acadêmicos "cristãos" (muitos que lideram certos grupos), uma voadora de dois pés nos covardes e um tapa na cara dos clérigos que se valem do poder instituído pra perseguir aqueles que só querem seguir a Cristo e lutar por Ele. É assim que defini este livreto.

Se você estiver em algum dos grupos supracitados, advirto que se sentirá mal lendo isso. Mas se tiver amor a Cristo e à Sua Igreja, provavelmente gostará muito.

______
* BERNANOS, Georges. Joana, relapsa e santa. São Paulo: É Realizações, 2013.
www.ofielcatolico.com.br

Antes da aprovação pelo STF do ensino religioso em escolas públicas...


DIRETAMENTE DO NOSSO grupo de estudos do Facebook (exclusivo para assinantes da revista O FIEL CATÓLICO) uma questão importantíssima trazida por Luiz Alberto Patriota e respondida por Igor Andrade, membro da Fraternidade São Próspero, baseado na exposição de um amigo que prefere não se identificar. Uma apreciação de uma faceta alarmante e pouco conhecida do assunto que tem despertado a atenção e a justificada preocupação de muitas famílias nos últimos tempos...
www.ofielcatolico.com.br

Idealização, o mal do Rei de Chipre e a ausência de frutos


Por Igor Andrade – Fraternidade São Próspero

A PARTIR DA MODERNIDADE, os católicos padecem de um certo mal psicológico (provavelmente efeito de outro mal chamado Cultura Francesa): o idealismo. 

Idealizam o mundo perfeito, a santidade reservada a poucos (a heróica ou extraordinária), idealizam os Sacramentos, idealizam a moral; em suma, idealizam tudo que não deve ser idealizado.

Uma coisa é idealizar uma tradição, um povo ou uma cultura (um 'quê' universal) na qual o sujeito está inserido – isso e até necessário para se fazer guerra contra os opressores de uma nação – mas outra, completamente diferente, é idealizar algo subjetivo, isto é, algo relativo às contingências do indivíduo que age.

No Brasil, provavelmente por causa dos Filhos da Serpente “Libertadora”, a Igreja sofre muito com essa postura, sobretudo vinda de certos grupos ditos “tradicionais”.

Este mal de idealização é mais visível nas relações entre pessoas – principalmente quando o assunto é o sacramento do matrimônio. Diz-se que “a mulher deve agir assim e assado”, “deve usar tais e quais roupas”, “não pode trabalhar fora de casa” e outras coisas. Diz-se que o homem católico “deve fazer isso e aquilo”, “deve pensar em tais e quais coisas”, “não pode ter tais e tais pensamentos e/ou desejos”, e assim por diante.

Essa postura é compreensível em nossa geração. Ideologia de gênero, feminismo, viadagem, mau exemplo de clérigos e religiosos, etc.

Porém, não se deve responder a um extremo com outro. Aristóteles bem disse que “a virtude está no meio” – o homem inculto conhece tal verdade por outras palavras: “Nem tanto ao mar, nem tanto à terra”.

A postura citada é idealizadora porque as roupas e certas condutas são relativas ao homem, ao meio e ao momento. Uma vez ouvi falar de integrantes de um grupo ensinando que os rapazes não podem entrar na piscina sem camisa nem trocar de roupa na frente de outros rapazes, porque tal seria “imodesto”; também já ouvi moças falando que uma “donzela” católica não deve banhar-se nua porque também seria imodesto. Dezenas de vezes vi afirmações de que as mulheres não podem trabalhar fora de casa. Essas afirmações são absurdas e geram, paradoxalmente, o extremo oposto: a licenciosidade.

Responde-se tais desproporções com outra desproporção: “Mas Santa Zélia trabalhava fora de casa e São Luis a apoiava”. Sim, e por isso, uma empregada batia numa das filhas, fazendo com que a menina desenvolvesse sérios problemas de falta de educação. Não sou eu quem o afirma, são os biógrafos da família Martin.

Nem tanto ao mar, nem tanto à terra, não precisamos dessas idealizações, apenas precisamos da Fé, da Graça e de ser boas pessoas – o máximo que der.

* * *

Um dos principais problemas que tal idealização gera é o mal do Rei de Chipre, Pigmalião.

Reza a lenda que Pigmalião era rei de Chipre e um talentoso escultor, mas padecia de um problema: idealizava muito as mulheres e não enxergava nelas nada além de falsidade e sensualidade. Então fez para si uma estátua da mulher ideal, a perfeita mulher que não existe. Voltou as costas para as mulheres reais e se apaixonou pela estátua. Dava-lhe presentes e dormia com ela.

Isto ocorre ainda hoje com os idealizadores. Não com estátuas, mas com bebedeiras, prostitutas, bonecas, pornografia e outras aberrações criadas pelo homem em conluio com o Diabo. A idealização gera a decepção e a decepção gera o vício. O vício gera o mal exemplo do católico fariseu, que dedica sua vida a criticar os outros ao invés de fazer o bem.

A postura farisaica implica necessariamente na ausência de frutos. O problema é que Nosso Senhor disse que “o ramo que não der frutos será cortado e lançado ao fogo”. – Além do problema espiritual está o problema social, porque ninguém quer perto de si um chato que nada faz além de cagar regra para os outros.

É evidente que se deve buscar uma vida virtuosa – tanto os homens quanto as mulheres –, mas não devemos ditar aos outros outras regras que não as da Igreja e as do bom-senso.

** Assine a revista O FIEL CATÓLICO e tenha acesso a muito mais!
www.ofielcatolico.com.br

Aspectos ontológico e gnosiológico da Lei Natural


Por Igor Andrade – Fraternidade Laical São Próspero

A FILOSOFIA VERDADEIRA dos direitos da pessoa humana se funda na ideia verdadeira de lei natural, que tem dois aspectos fundamentais – dois modos de considerá-la – que a legitimam como base desses direitos: o aspecto ontológico e o aspecto gnosiológico.

A Lei Não-escrita ou Lei Natural nada mais é que aquilo que existe pela própria virtude da natureza humana, uma ordem ou uma disposição que a razão humana pode descobrir e segundo a qual deve agir a vontade humana para pôr-se em consonância com os fins essenciais e necessários do ser humano[1].

Quanto ao aspecto ontológico, no quarto capítulo de “O homem e o Estado”, (Jacques) Maritain toma a natureza humana como um dado da realidade e, por isso, não a discute, apenas considera como admitido que “acreditamos na existência de uma natureza humana e que essa natureza é a mesma para todos os homens”[2].

Também é considerado como admitido que o homem é dotado de inteligência e que atua com compreensão do que faz e que, por isso, determina por si mesmo as finalidades que tem em mira.

Contudo, o homem também possui finalidades que correspondem necessariamente à sua constituição essencial e que são as mesmas para todos, isto é, não dependem da consciência pessoal, mas fazem parte do próprio homem enquanto homem.

Tem-se, portanto, como que duas fontes de fins: uma essencial, que determina os fins gerais de todos aqueles que são ditos “homem”; outra, pessoal, que determina os fins particulares deste ou daquele homem.

Assim, o homem particular[3], como determinador seus próprios fins, deve harmonizar-se com os fins mais gerais exigidos por sua própria natureza, assim como a matéria deve ser determinada pela forma que lhe é própria.

“Cada ente tem a sua própria lei natural, assim como tem sua própria essência”[4] – Maritain defende uma tese contrária à teoria da participação de cada ente particular de determinada espécie à uma ideia geral dessa espécie; assim sendo, a essência humana presente em Pedro não é a mesma presente em João, embora ambos possam ser reduzidos à unidade da espécie “homem”. Neste sentido, a lei natural (que é “a normalidade do funcionamento”) de cada ente individual é aquilo que o aperfeiçoa de modo particular segundo sua própria natureza de modo geral.

Maritain exemplifica isso usando a imagem do piano: um objeto com uma determinada disposição produzindo um determinado tipo de som ao qual chamamos piano. Qualquer ente que fuja a essas regras gerais ou não pode ser chamado piano ou não são plenamente piano. Assim, o filósofo francês põe a regra do dever ser embutida na própria lei natural, que apenas toma um sentido moral quando se pressupõe a liberdade do ente, isto é, quando ultrapassamos “o limiar do mundo dos agentes livres”[5]. Portanto, a lei natural do homem é a lei moral.

Com efeito, primeiro elemento fundamental a ser reconhecido na Lei Natural é o elemento ontológico, isto é, aquele elemento que diz respeito ao ente em seu aspecto específico. A normalidade do funcionamento se baseia na essência do ente, no caso, na essência do homem.

Em seu aspecto ontológico, a lei natural do homem – que é um ente dotado de liberdade que se manifesta na prática – é uma ordem ideal – específica e independente da determinação pessoal, como dito acima – relacionada com as atividades humanas, sendo estas o elo entre a lei natural e a essência humana.

Tal legação, o que não quer dizer que essas atividades estejam embutidas na essência de cada homem particular (como Leibniz afirmara que todo acontecimento da vida de César estava presente preliminarmente na ideia de César).

Embora haja esse vínculo entre as situações particulares e contingentes e a essência humana, o que aquelas fazem diante desta, nada mais é que pô-la em xeque. Por exemplo a de Caim ante Abel que implica uma relação com a essência do homem, e o possível assassinato de um pelo outro é incompatível com os fins gerais, “com a estrutura mais íntima dessa essência racional”[6]. O preceito “Não Matarás” é um preceito da lei natural porque o fim primordial e mais geral da natureza humana é conservar o ente – o ente desse existente, que é uma pessoa e um universo em si mesmo e ainda porque o homem, enquanto homem, tem o direito de viver.

A lei natural é ontológica porque a essência humana, na qual se funda, é uma realidade ontológica e não-separada de cada ente humano, de modo que a lei natural existe para todos os homens de modo geral e para cada homem de modo particular.

Neste sentido, o aspecto ontológico diz respeito à relação desta lei com a essência mesma do homem, isto é, que ela não é senão nos homens enquanto homens.

O segundo elemento fundamental a ser reconhecido na lei natural é a lei natural como conhecida. Tomando a razão humana prática como medida dos atos humanos, Maritain chega ao fato de o homem seguir essa lei não escrita de modo natural tendo como seu primeiro indício o “fazer o bem e evitar o mal”. Contudo, voltando-se novamente para a realidade, ele conclui que há algo mais nessa lei que deve ser conhecido.

O fato de a lei natural ser uma lei não escrita, faz com que os homens nos mais variados tempos e civilizações a conheçam com maior ou menor profundidade, correndo, assim, o risco de cometer erros e a possibilidade de evoluir no conhecimento desta lei podendo, tranquilamente uma civilização ser melhor que a outra naquilo que diz respeito ao maior grau de assimilação da lei natural.

O único conhecimento prático que todos os homens têm de modo natural e infalível é que devemos fazer o bem e evitar o mal. Esse é o preâmbulo da lei natural, mas não é a própria lei natural. Toda espécie de erro é possível com respeito a isso, o que prova, não que não haja uma lei natural, mas sim que “nossa vista é fraca quanto ao conteúdo desta lei”[7].

Uma sociedade que admite o infanticídio (como algumas tribos indígenas que habitam o norte do Brasil), o “sexo corretivo forçado” (como algumas tribos africanas) ou o estupro (como em algumas correntes muçulmanas) não provam em nada uma falha na lei natural, assim como um erro numa soma não prova nada contra a aritmética; prova somente um erro na consideração do objeto da lei.

O conhecimento moral ainda é imperfeito e continuará a desenvolver-se à medida em que a humanidade existir. Maritain ainda diz: Só quando o Evangelho tiver penetrado as próprias profundezas da substância humana é que a lei natural aparecerá em sua flor e sua perfeição[8]. Assim, mostram-se diferentes coisas a lei e o conhecimento da lei.

“O conhecimento humano da lei natural foi progressivamente moldado pelas inclinações da natureza humana”[9], isto é, a razão humana não conhece a lei natural de maneira abstrata nem pelo exercício do intelecto, mas sim descobre os ditames da lei natural quando guiada pelas inclinações da natureza humana – como por exemplo, “fazer o bem e evita o mal”.

Dessas inclinações, as que foram realmente autênticas são aquelas que guiaram a razão, lenta e gradualmente, à consciência das normas desta lei pouco a pouco de maneira mais específica e generalizada e que foi aceita pelas diversas comunidades humanas. Assim, o conhecimento dos aspectos primordiais da lei natural se exprimiu em moldes sociais e não tanto em julgamentos pessoais. De modo que leva Maritain a dizer que tal conhecimento desenvolveu-se dentro do tecido, duplamente protetor, das inclinações humanas e da sociedade humana.

Tendo isso em vista, convém analisar dois pontos que se seguem. Por um lado, os esquemas dinâmicos fundamentais da lei natural estão sujeitos a um conhecimento mais universal, isto é, há certos pontos que como que estão presentes em todos os grupos humanos universalmente, mesmo que de modo indeterminado, sem os quais, as sociedades não subsistem. Por exemplo: suprimir uma vida humana não é como suprimir uma vida animal; o grupo familiar tem de satisfazer certas normas fixas; ou ainda, as relações sexuais têm de conter-se dentro de certos limites.

Por outro lado, há a presença de uma relatividade[10] e de variação que se encontram em certas regras e costumes particulares de acordo com os quais, entre os diferentes povos, a razão humana exprimiu seu conhecimento dos aspectos fundamentais da lei. Assim, tendo em vista o fato de que o conhecimento da lei natural não ocorre a priori, de modo conceptual, mas sim por meio das inclinações naturais do homem, fica claro que os níveis de conhecimento ou consideração da lei natural ocorrem em graus diferentes, o que possibilita o erro de uns, acerto de outros e a possibilidade de uma melhora na consideração desta lei.

Assim, o conhecimento que a razão humana tem da lei natural é um conhecimento obscuro, não sistemático, sujeito tanto a falhas e erros quanto a acertos e progressos.

_____
Notas:
[1]Maritain, Jacques. O Homem e o Estado. Tradução de Alceu Amoroso Lima, 4º Edição, Rio de Janeiro, Livraria Agir Editora, 1966 p. 88;

[2]Idem

[3] Usaremos essa expressão para diferenciar do homem no sentido mais geral do termo.

[4] Maritain, Jacques. O Homem e o Estado. Tradução de Alceu Amoroso Lima, 4º Edição, Rio de Janeiro, Livraria Agir Editora, 1966 p. 88

[5]Op. Cit. P.89

[6] Op. Cit. p. 90;

[7] Op. Cit. p.92

[8] Idem

[9] Op. Cit. p.93

[10] Uma dose de relatividade e não (jamais!) de relativismo. Partimos aqui da noção de Prudência, que ensina a agir em cada relação particular de modo absoluto referente àquela relação.

____
Fonte:
www.somarparavencer.com.br/index.php/2016/10/24/aspectos-ontologico-e-gnosiologico-da-lei-natural

www.ofielcatolico.com.br
Subir