O Inferno, a região ou mansão dos mortos, o Hades, o Sheol, o Purgatório... O que significam todos esses termos na Bíblia?


O GRANDE PROF. SCOTT HAHN, ex-ministro protestante convertido ao catolicismo e grande autoridade internacional em Sagradas Escrituras, respondeu ao vivo, durante sua participação no programa do Marcus Grodi, outro ex-pastor que se tornou católico (sim, são muitos os casos deste tipo nos E.U.A. – saiba mais aqui), à pergunta de uma telespectadora sobre o Inferno. Mediante a resposta dada por Hahn, recebi eu uma pergunta sobre as relações feitas pelo Professor (assista o vídeo ao final) entre o Sheol (ou Xeol) citado na Bíblia, o Inferno e o Purgatório. Compartilho aqui publicamente a resposta dada, na esperança de que seja útil para outros. Segue...


Quando a Bíblia cita o Inferno, a que está se referindo?


O problema todo está relacionado às traduções da Bíblia das quais dispomos, e principalmente às traduções de outras traduções (no caso, traduções da tradução dos idiomas originais para o latim). Em certos idiomas, uma mesma palavra tem mais de um significado; em outros, há mais de uma palavra para significar a mesma coisa. Os tradutores sabem bem do que estou falando.

No caso das explicações que constam no vídeo em questão, o Dr. Hahn está lidando com as traduções mais populares do inglês, que de fato são bem semelhantes às nossas, em português. Ocorre que pelo menos duas palavras que nos idiomas originais da Bíblia (hebraico, aramaico e grego) são distintas, foram traduzidas genericamente como "Inferno" nas versões mais conhecidas. Por isso, as alusões bíblicas ao Inferno podem ter mais de um significado em passagens diferentes. 

No caso de Lc 19,19-31, por exemplo, Nosso Senhor parece não se referir ao Inferno enquanto castigo eterno, mas sim ao Purgatório das almas, no qual o sofrimento é semelhante ao do próprio Inferno, a não ser por esse "detalhe" fundamental: as almas que ali padecem têm o consolo imenso de saber que um dia serão libertas (antigas tradições e também certas visões místicas atestam que o sofrimento no Purgatório é tão duro que as almas que ali estão têm a impressão de que se trata um tormento eterno – mas elas ainda mantém a consciência de que não é assim, e contam com as súplicas da Igreja – as nossas orações – para a sua liberação).

Assim, a palavra que consta no original (em grego koiné) da passagem citada de S. Lucas, muitas vezes traduzida por "Inferno", é Hades, e também assim foi traduzida do hebraico (no AT) a palavra Sheol na Seputaginta.

Esse Hades/Sheol significa "submundo" ou "região dos mortos" e é a mesma realidade a qual aludimos no Credo, quando dizemos: "Foi crucificado, morto e sepultado ... desceu à Mansão dos Mortos ..."; isto é, Nosso Senhor não foi até as almas do Inferno, lugar de danação eterna, mas sim às almas que estavam no Purgatório e que seriam libertas.

No vídeo se afirma que as vezes em que a Bíblia cita a Geena é que estaria se referindo ao "Infernum damnatorum”, quer dizer, o Inferno eterno, do qual ninguém sairá jamais, mas isto também não está exatamente correto em todos os casos, porque Cristo disse que aquele que chamar ao seu próximo "Racca" (que pode significar 'louco' ou 'parvo; tolo; idiota'), terá que prestar contas na Geena, que nesse caso tem sentido de "terá que ser purificado no fogo", mas também não se refere à danação eterna.

De todo modo, há essa clara distinção na Bíblia entre o estado intermediário entre a vida no mundo e a "morte eterna" no Inferno, que prova acima de toda dúvida a realidade do Purgatório. A própria distinção das palavras usadas para se referir à "região dos mortos" e ao castigo eterno é uma prova disso.

Curiosamente, até mesmo o heresiarca Lutero reconhecia que essa realidade está dita na Bíblia, e o reconheceu em um de seus sermões:

… o inferno aqui mencionado (Lc 19,19-31) não pode ser o verdadeiro inferno que começará no dia do juízo. Pois o cadáver do homem rico está, sem dúvida, não no inferno, mas enterrado na terra, que deve, no entanto, ser um lugar onde a alma pode estar, mas não tem paz, e não pode ser corpórea. Portanto, parece-me  que este inferno é a consciência que está sem fé e sem a Palavra de Deus, em que a alma está enterrada e mantida até o dia do juízo, quando eles serão lançados para baixo do corpo e da alma, para o verdadeira e real inferno.[1]

Vemos que Lutero erra (era o que mais ele sabia fazer) ao deduzir que desse submundo, esse lugar intermediário entre o nosso mundo e o  Inferno, as almas seriam condenadas à pena eterna, já que as almas que sofrem "embaixo da terra", como ele diz, não serão lançadas ao verdadeiro Inferno, mas sim, após a sua purificação, entrarão no Reino dos Céus. Mesmo assim, até o pai do protestantismo admitia a existência desse terceiro lugar ou condição da alma pós morte a qual denominamos Purgatório.

Concluindo, resta esclarecer que, nas Sagradas Escrituras, sempre que se fala em "Inferno" (nas  nossas traduções) refere-se exatamente ao Sheol ou Hades, essa região intermediária dos mortos ('submundo'; 'abismo'; a 'Mansão dos mortos': o Purgatório). Por causa disso, quiseram alguns (e ainda o querem outros tantos) deduzir que o Inferno realmente não existe, que isso é uma invenção da Igreja e outras coisas desse tipo. Nada está mais distante da verdade; as mesmas páginas sagradas que citam com tanta clareza o Purgatório, são também claríssimas ao falar da existência do Inferno, lugar ou estado de tormento eterno:

"Retirai-vos de Mim, malditos! Ide para o fogo eterno destinado ao demônio e aos seus anjos." (Mt 25,41)

"Estes (os pecadores impenitentes) irão para o castigo (ou tormento) eterno, mas os justos, para a vida eterna." (Mt 28,46)

""Eles sofrerão como castigo a perdição eterna, longe da Face do Senhor, e da sua suprema Glória." (2Ts1,9)

"O Demônio sedutor foi lançado num lago de fogo e de enxofre, onde já estavam a Fera e o falso profeta, e onde serão atormentados, dia e noite, pelos séculos dos séculos."
(Ap 20,10)

Vemos assim que há um castigo que terá fim (Purgatório) e outro que será eterno (o Inferno propriamente dito).


O vídeo



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[1] LUTERO, Martinho. The complete Sermons of Martin Luther, vol. IV. Grand Rapids: Baker Books, 1996, p.17


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